quarta-feira, 26 de outubro de 2011

CULPADO POR ATROPELAMENTO? PEDESTRE, CLARO

Foto mostra ponto de ônibus, local do acidente, e onde fica a casa de Raquel. Nem sinal de faixa de pedestres.

Aconteceu em abril numa cidade chamada Marietta, na Geórgia, EUA. Raquel, uma mãe solteira negra, trabalhadora e estudante universitária, iria celebrar seu aniversário de 30 anos no dia seguinte. Levou seus três filhos, de 9, 4, e 3 anos, para comer pizza e comprar comida num shopping. Perderam o ônibus de volta, o que fez com que se atrasassem uma hora. Quando chegaram perto de casa, já era noite. Desceram no ponto de ônibus de sempre. Para atravessar a avenida, só havia uma faixa de pedestres a meio quilômetro de distância. Raquel fez o que todos os outros passageiros que desceram do ônibus com ela fizeram: foi até a metade da avenida e esperou os carros cessarem. O filho de 4 anos, que estava carregando um saquinho com água e um peixe dentro, soltou a mão de Raquel e foi atrás de uma menina. Um carro o atropelou e matou. O motorista não parou para socorrê-lo. Mais tarde, esse motorista admitiu ter bebido e tomado analgésicos. Ele era quase cego de um olho e já havia sido condenado duas vezes por atropelamento sem prestar ajuda. A pena por mais este atropelamento? Seis meses de prisão em regime aberto.
Mas alguém precisava ser punido, e este alguém foi Raquel. Sim, a mãe. Ela foi condenada a três anos de cadeia por ter atravessado fora da faixa e, assim, indiretamente matado seu próprio filho. O júri que a condenou, além de ser composto unicamente por homens brancos, nunca tinha andado de transporte público na vida.
Pode parecer absurdo, mas, na ocasião, a maior parte das pessoas, blogosfera americana inclusa, apoiou a decisão, e não teve empatia nenhuma por Raquel. Nem por ela nem por uma outra mãe condenada em 2010 pelo mesmo crime (cruzar em lugar proibido, assim perdendo sua filhinha). Só aos poucos é que as pessoas começaram a perceber a injustiça. O movimento Transportation for America, que luta para que humanos, e não carros, sejam valorizados, aponta que Marietta, a cidade onde ocorreu o acidente, é o decimo lugar metropolitano mais perigoso para pedestres nos EUA –- Orlando, Flórida, onde fica a Disney World, é o número um. Parece que zonas residenciais, como os subúrbios, muitas vezes são mais perigosos que as avenidas centrais de uma cidade. Nas ruas dos subúrbios, os carros correm mais e não pensam que vai haver pedestres. Talvez a mudança de opinião do público, que mais tarde organizou um abaixo-assinado com mais de 140 mil assinaturas em defesa de Raquel, ocorreu porque muita gente se pôs no lugar dela (e a pressão fez com que a sentença fosse invalidada). Pra atravessar na faixa de pedestres mais próxima, ela teria que andar meio quilômetro com seus três filhos pequenos, à noite, e segurando várias sacolas. Chegando lá, teria que cruzar a rua (e desde quando uma faixa de pedestres detém um motorista alcoolizado?), e voltar outro meio quilômetro com seus três filhos pequenos, à noite, carregando sacolas. Quantas pessoas nessa situação (aliás, pode tirar os três filhos e as sacolas) andariam um quilômetro para atravessar na faixa?
Faz algum sentido ter um ponto de ônibus que para diante de um local residencial, e nenhuma faixa próxima para que as pessoas possam ir pro outro lado da rua? É incrível, mas recebemos lavagem cerebral pra amar o carro acima de todas as coisas. Esse amor é tão incondicional que só vemos as vantagens do carro, raramente suas inúmeras desvantagens. Por exemplo, nos EUA, entre 2000 e 2009, 47,700 pedestres foram mortos. Isso equivale a um acidente aéreo com um avião grande cheio de passageiros por mês. Nos dez anos levantados, 690 mil pedestres foram atingidos, não mortos, por carros –- o que representa um carro ou caminhão batendo num pedestre a cada sete minutos. A gente fica chocada e triste com acidentes aéreos que fazem vítimas, né? Mas não costuma dar a mínima pra pedestres atropelados. Por que não? Não são pessoas também? Não damos bola por pura ideologia. Essa é a cultura do automóvel. Já está plantado no nosso cérebro que algumas pessoas valem mais que as outras. Pessoas que têm carro merecem ter a rua só pra elas, porque são mais importantes que esses pé rapados que caminham ou pegam ônibus. A cultura do automóvel nos ensina que não dá pra viver sem carro, que todo mundo que quer “vencer na vida” tem que ter um carro, que transporte público é coisa de pobre. Pros homens, a cultura do automóvel é ainda mais perniciosa. Carros estão diretamente ligados a sua potência sexual. Eles aprendem que sem carro não são ninguém. Que sem carro não vão conseguir "pegar" mulheres. Que todas as mulheres são maria-gasolina.
E praticamente todas as cidades são construídas em cima dessa ideologia, como se fossem dedicadas ao totem-carro. Elas são pensadas para ter um trânsito rápido, onde os motoristas podem dirigir sem parar em inconvenientes sinais e faixas. Isso obviamente tem prioridade sobre um trânsito seguro, em que pessoas sem carro possam ir de um lado pra outro da rua sem serem atropeladas.
Quase todo mundo aceita sem pestanejar que tenhamos muito mais ruas que calçadas, e que mesmo as calçadas sejam feitas para os carros, com todos os declives para que carros possam entrar e sair de suas garagens. Acatamos numa boa o fato das cidades serem dos carros, não das pessoas. Porque só isso explica como um ponto de ônibus possa ficar a meio quilômetro (nas duas direções) de um conjunto de casas residenciais. Vivemos num sistema que não está preocupado em melhorar as condições de vida de quem anda a pé, mas de abrir mais e mais rodovias pra carros e punir quem cruza o seu caminho. E quando precisamos culpar alguém pelas dezenas de vítimas feitas a cada mês, criminalizamos a própria vítima, o pedestre, ou sua mãe. Nunca a cultura do automóvel.
Um dos slogans das pessoas que querem mudanças, que se opõem ao pensamento único do capitalismo, é que um outro mundo é possível. Vendo casos como este da Raquel, eu digo que um novo mundo é mais que possível –- é necessário. E urgente.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ENTREVISTA COM DANI, MOÇA ATACADA NA BOATE EM BH

Marcha das Vadias de Belo Horizonte em junho 2011 exige respeito

Como disse no post de domingo pra segunda, tentei falar com a Dani, moça que foi atacada por um pitboy na boate Major Lock, em Belo Horizonte, e que com muita coragem expôs sua história no Facebook, gerando grande repercussão. Não consegui, mas ontem ela entrou em contato comigo, e eu perguntei se poderia entrevistá-la por email. Ela foi muito receptiva e aceitou. Eis minhas perguntas (em negrito e itálico) e suas respostas.

Você poderia falar um pouco de você? Quem é essa Dani que pôs a boca no trombone?
A Dani é uma consultora em treinamentos, estudante de Publicidade, 28 anos, tatuada, divorciada, frequentadora da noite de Belo Horizonte desde os 16 anos. Sempre morei sozinha e nunca curti isso de que mulher é sexo frágil! Luto pelos mesmos direitos desde sempre! Abro uma lata de palmito como ninguém. rs

Explique pra gente o que aconteceu. Quando foi isso?
Na noite de sexta pra sábado por volta de 1h eu me dirigi ao Major Lock para prestigiar uma banda de amigos. Estava uma noite agradável. Boate não tão cheia e o show maravilhoso. Até o momento em que decidi ir buscar uma bebida e fui abordada por um rapaz que quis me beijar a força, fato comum nesse tipo de boate. Me esquivei e o abusado encheu a mão na minha bunda. Eu o repreendi alertando-o que chamaria o segurança e ele me chamou de lésbica, apertou meu braço e pasmem, me puxou e ... eu estou morta de vergonha de dizer... ELE ENFIOU A MÃO DEBAIXO DO MEU VESTIDO E TOCOU EM MIM e ainda me deu um banho de energético! Fiquei molhada e estagnada no mesmo lugar! CHOCADA! O brutamontes dava dois de mim!
Eram 2 da manhã. Procurei o segurança, relatei o ocorrido e o marginal sumiu. Alguns minutos depois ele voltou. Fui falar com ele para certificar que era ele enquanto minha amiga foi chamar o segurança. Ele me dizia que tatuadas ou são lésbicas ou p*tas e que tinha preconceito. P*tas e lésbicas também merecem respeito! Ele falava com muita ênfase a palavra "tatuada".
O segurança veio prontamente mas foi levado na conversa! Era a minha palavra contra a dele. Eu tinha três testemunhas indignadas, e bastou o cara negar que foi logo liberado e sequer advertido. Alegaram que não houve flagrante e um segurança despreparado veio me dizer que "Maria da Penha" só se aplica a casais casados! E eu nem havia falado em tal lei, mas falei sobre violência contra a mulher, que foi o que ocorreu. Em seguida me dirigi ao proprietário do estabelecimento que prontamente me disse: "Vim aqui pra curtir. Faça o mesmo".
Como alguém pode curtir algo após tal violência e falta de respeito?
O proprietário me disse que não poderia fazer nada, me ridicularizou dizendo: "Pode chamar a polícia..." Ele estava seguro demais que não teria problemas com a polícia! Procurei o agressor por 30 minutos, porém sem sucesso. Saí da boate por volta de 3 horas.

Como você está se sentindo, agor
a que já teve tempo para esfriar a cabeça? O que você pretende fazer?
Eu estou com sede de justiça! Estou magoada pelo que ando lendo. Mulheres ficando a favor da violência, me acusando de causar o assédio ou me acusando de ser oportunista. Mas me mantenho firme no propósito de levar até o fim tudo isso! Eu não vou permitir que pelo meu silêncio, outras mulheres sofram mais violência.

Por que você acha que alguns homens agem tão agressivamente? De onde vem essa dificuldade em receber um “não”?
Autoafirmação. Acham que por serem homens são donos da razão. E pra falar a verdade, algumas mulheres que não têm coragem de botar a boca no trombone, encorajam esses animais a fazerem o que dá na telha. Eles ainda carregam consigo isso de que mulher tem que ser submissa! Mas comigo isso não existe! Pago meus impostos tanto quanto eles! Eu decido se digo sim ou não!

Mulher gosta de homem “com pegada”?
Só pegada consentida!

Achei relevante o que você disse sobre ter sido abusada não por um, mas por vários homens -- todos aqueles que, na boate, você procurou para tomar providências. Como você vê essa cumplicidade masculina?
A cumplicidade masculina chega a cegar. O machismo veio tanto à tona, que homens esqueceram de ver o assunto em foco para defender uns aos outros na qualidade de homens. Uma coisa absurda. Tive que dizer um: "Alô? Atenção pro foco?" Eu vi homens se sentindo "injustiçados" por eu dizer que tenho medo de héteros. Eles só esqueceram de prestar atenção pro fato que eu também sou hétero. Por outro lado, tive um apoio muito grande de muitos homens. Mas os poucos que foram contrários a mim foram suficientes para me chocar!

Você propõe um boicote à boate que te destratou, a Major Lock?
Não exatamente um boicote! Não tenho o interesse que a casa feche, nem que nada de mal aconteça com ninguém dali. Mas eu acho válido que seja passado um pente fino na forma de administração e que se possível os proprietários mudem a forma grotesca de administração da casa e entendam que um público seguro mantem muito mais o nome de uma casa. Quem terá interesse em ir a um lugar que não respeita o espaço do outro, que nao ouve o seu cliente, que não proporciona segurança? Quando a boate solicitou seu alvará de funcionamento, certamente foi orientada sobre regras de segurança. Mas por hora estou me defendendo dos ataques de funcionários e frequentador@s de nível duvidoso. Se necessário, tomarei uma postura mais rígida.

Você sem dúvida deve estar acompanhando o caso da estudante de Direito Rhanna, que teve o braço quebrado por um rapaz já com um histórico de violência. Rhanna disse “Meu caso virou minha causa”. Você pretende também abraçar esta causa?
O caso Rhanna com certeza me deu muita força pra prosseguir com a nota. Liguei a TV e vi que passaria no Fantástico o caso dela. Meu sangue ferveu na hora ao perceber que nos números de violência contra a mulher eu era mais uma. Não pensei duas vezes e apertei o enter. Já abracei a causa! Não paro enquanto não for feita justiça.

O que você acha que os homens podem fazer para que essas situações não se repitam?
Darem uma boa lida na mudança das leis! O que eu sofri caracteriza estupro, mas acho que nem todo homem sabe disso!
Por outro lado, vendo tantos homens abraçando minha causa, acho que pode servir como um tapa de luva para os demais que acham que eu só estou fazendo barulho. Ver um homem abraçando uma causa dessas é no mínimo gratificante sim.

E as mulheres, nós podemos fazer alguma coisa?
Não ficarem caladas! Abrirem a boca! Não permitirem nenhum tipo de abuso! Elas não devem ter medo!

O que você tem a dizer para quem acha que “balada não é lugar de moça direita”? Quer dizer, merece resposta?
Nem merece resposta, mas eu o farei: qualquer lugar hoje é lugar de todo mundo! Respeito tem que existir em todos os lugares. Pago meus impostos e tenho o direito de ir onde eu quiser sem que eu tenha que ser assediada.

Assim como a Rhanna, você também vem se expondo bastante. Você tem medo?

Não vou mentir: Tenho. Muito! Mas não vou me calar. Nao posso morrer na praia!

Você se considera feminista? Como este caso afetou sua visão de mundo?
Muito! As coisas mudam quando acontece com alguém próximo. Mas aconteceu comigo! Eu estou com medo de pessoas e há três dias sem sair de casa. Estou assustada.

Força, Dani! Você não está sozinha! Chega de abusos! Conte conosco: mexeu com uma, mexeu com todas.

domingo, 23 de outubro de 2011

“MEU CASO VIROU MINHA CAUSA”, DIZ RHANNA


Muito boa a reportagem do Fantástico sobre o caso de Rhanna, a estudante de Direito que teve o braço quebrado numa boate em Natal. A matéria, que você pode ver aqui, diz claramente: a abordagem masculina tem se tornado cada vez mais violenta. É banal um rapaz chegar pra uma moça numa balada e pegar no seu cabelo, no seu braço, na sua cintura, e tentar beijá-la à força. Quem lhes deu esse direito?
Ontem à noite recebi por e-mail um texto que vem percorrendo o Facebook. Tentei entrar em contato com Dani, a moça que o escreveu, para pedir autorização para publicar seu relato aqui no blog, mas, como não obtive resposta, vou só descrever o que ela conta e colocar um trecho (o resto, pra quem tem Facebook, pode ser lido aqui). Ela foi a uma boate em Belo Horizonte ver o cover de uma banda. Um rapaz bombado tentou beijá-la à força, ela recusou, ele então apertou sua bunda, ela disse que iria chamar o segurança, ele a chamou de lésbica, apertou seu braço, pôs a mão por baixo de seu vestido e a tocou, jogou energético em cima dela. Enquanto ela foi atrás do segurança, ele sumiu. E reapareceu, dizendo que mulheres tatuadas são lésbicas ou p*tas (tá parecendo mascus, que em geral são misóginos, violentos, covardes, marombados, e chamam tatuagem de “carimbo de p*ta”). O segurança falou com os dois e decidiu não fazer nada. Apareceu outro que igualmente liberou o agressor. Ela foi falar com o dono da boate, que a aconselhou a se divertir, e ainda lhe desafiou: “pode chamar a polícia”.
Dani, revoltada, pergunta: “Até quando vai ser assim? Até quando as mulheres serão obrigadas a conviver com a violência? Até quando a nossa palavra não terá validade? O que sofri foi uma violência que me lesou em todos os aspectos! Fui desrespeitada por todos os homens que procurei para pedir ajuda. Sinal que todos são capazes da mesma atrocidade. Para eles, não foi nada de mais!” Dani diz que vai processar o estabelecimento.
E ela repete o que tantas moças, assustadas com essa violência, esse sentimento masculino de entitlement (merecimento), dizem: que é melhor ir a boates gays, porque lá são respeitadas. Lá os homens não dão em cima agarrando, ou “partindo pro abate”, no linguajar dos mascus.
Uma das leitoras que me mandou o e-mail disse que seu pai veio lhe perguntar o que era isso “da moça que teve o braço quebrado”. Ela contou, e o pai não conseguiu acreditar que um sujeito deu um golpe que quebrou o braço de uma menina só porque ela lhe disse não. Pra esse pai, devia ter mais coisa aí (assim como para o estudante de Direito e amigo da Hellen, que escreveu o guest post de ontem). Acho que a reação do pai da leitora é comum. Os homens parecem não fazer a menor ideia do mundo em que vivem as mulheres. Um mundo em que qualquer mulher sozinha é considerada à disposição e, portanto, não têm o privilégio de escolher, ou de negar, companhia. Um mundo em que uma mulher passa de objeto de desejo à p*ta (que merece ser agredida) em questão de segundos. Um mundo em que existe toda uma estrutura pra passar a mão na cabeça desses machinhos, que só estão agindo assim por instinto, e porque têm certeza que, no fundo, mulher gosta mesmo é de “pegada”.
Rhanna, a moça de Natal que será advogada, disse uma frase linda: “Meu caso virou minha causa”. Em outra ótima entrevista, esta à Tribuna do Norte, ela diz que não tem medo e que vai fazer a sua parte para combater a violência contra a mulher. Parabéns a ela e a Dani, que optaram por não se calar e a lutar contra seus agressores. O caso delas, e de tantas outras, reflete a velha história de sempre: homens lembrando mulheres que lugares públicos não são pra elas. Só pra eles. 

UPDATE: Boa notícia! Cinco anos depois, o agressor de Rhanna foi condenado a três anos! E Rhanna é pré-candidata à vereadora em Natal!

AMOLAM-SE FACAS

Foto retirada de um fórum sobre como se defender de zumbis quando chegar o Z-Day. A gente morre e não vê tudo.

Ah, o título acima é uma piada interna, então preciso explicar. Certa vez, muitos anos atrás, maridão e eu caminhávamos por São Sebastião (onde ele dava aulas de xadrez algumas vezes por semana), e passamos por um desses tradicionais cartazes de "Amola-se facas" (porque geralmente a concordância é deixada de lado nos cartazes). E o maridão virou pra mim e, do nada, disse: "Você também pode amolar facas. É só falar com elas". Maior agressão gratuita ever!
Aqui tem mais um diálogo, muito mais recente, desta vez entre o maridão demente e a Lolinha carente. Nós dois deitados na cama.

Maridão: "Vou levantar pra ver o que esse gato quer."
Moi: "E eu? E eu? Eu também quero coisas."
Maridão: "A Lolinha não fica embaixo da cama arranhando quem tá em cima."
Moi: "Mas a Lolinha pode fazer isso, se bem que correria o risco de ficar entalada. A Lolinha também sabe incomodar."
Maridão: "Ah, sabe."

Outros diálogos no mínimo estranhos deste casal junto há 21 anos (and counting): desejo, beijos, apelidos, exercício, loteria, herança, cheiros, educação, sensualidade, mais sensualidade, engano, canela, energia, nova fonte de energia, dominó, romantismo, mini-kabongs, autoestima, reflexos, fidelidade, comunicação, efeito isidoro, dar razão.

sábado, 22 de outubro de 2011

GUEST POST: E QUANDO UM AMIGO DEFENDE O INDEFENSÁVEL?

Faz uma semana, uma leitora querida chamada Hellen, que mora em Mariana, MG, me enviou o email abaixo (que eu pedi para publicar e ela autorizou). Ele me fez pensar em vários pontos: primeiro, em como podemos reagir quando um amigo nosso fala um monte de besteiras. Segundo, se os jovens são mais tolerantes que o pessoal de outras faixas etárias. Já ouvi gente falando que o problema está em pessoas da minha geração pra cima, e que quando nós de 40, 50, 60 anos morressemos, aí sim teríamos um mundo sem preconceitos. Eu adoraria acreditar nisso, mas a gente sabe que não é verdade. O terceiro ponto é que eu estava lendo uma Caros Amigos (não me lembro do mês), e nela tinha uma reportagem sobre universidades feitas para pessoas ligadas ao Movimento Sem Terra. Nessas universidades, iniciadas pelo governo Lula, as pessoas aprendem coisas mais específicas, mais ligadas a sua vivência no campo e a sua luta. Parece totalmente legítimo pra mim que advogados formados nesses cursos serão advogados, juízes e promotores que defenderão os trabalhadores, e não seus patrões. Que a ambição desses advogados não estará em ficar rico defendendo, sei lá, o Rafinha e o CQC. Que eles tenham sonhos diferentes. Mas várias reportagens da imprensa tradicional (sempre alinhada com a direita) condenam a existência dessas universidades e da formação desses profissionais. A Caros Amigos cita um editorial impressionante do Estadão que questiona: oh meu deus, e se esses advogados virarem juízes, já imaginaram o horror? Eles trarão seus próprios valores e ideologias pro tribunal! Só rindo, né? Quem escreve isso realmente acredita que os juízes de sempre são tábulas rasas? Que só gente do MST têm ideologia? Que o filhinho de papai que faz Direito porque a família quis assim e depois passa num concurso e vira juiz pra ganhar bem não trará seus valores pro tribunal?
Viu como o email da Hellen é bom? Ele me fez pensar em todas essas coisas.

Olá Lola,
Meu nome é Hellen e tenho 21 anos. Sou mulher, negra, lésbica e feminista.
Sou o que de pior pode existir para os mascus, como vc tão carinhosamente os chama, não é?
Devo dizer que adoro seu blog e que todo dia acesso ele para ler não so os novos posts colocados mas também os antigos. Seus textos têm verdadeiro dom de ser sempre muito atuais.
Te escrevo para alem de afirmar minha admiração pelo que vc escreve, e neste post não foi diferente, lhe dizer o quanto suas palavras são reais. Como eu disse, sou mulher, negra, lésbica e feminista. Faço questão de reafirmar isso pois tenho muito orgulho de ser, ou ter, com toda complexidade, cada uma dessas caracteristicas. Sou tudo isso e cada uma dessas coisas, ainda que muitos dizem ser impossível. Há homens e mulheres que não conseguem perceber o quanto é fundamental para cada ser humano ter a liberdade de poder afirmar ou de gritar aos quatro ventos o que é, ou como pode se reconhecer.
Falando especialmente de mim, ainda que eu seja muito tranquila em dizer tudo isso e de geralmente as pessoas que convivem comigo "respeitarem" as minhas "escolhas" (como se respeitar fosse uma escolha ou tratar o que sou como escolhas fosse sinal de respeito), tenho amigos e familiares machistas. O que óbvio. Afinal, vivo nessa mesma sociedade que promove esses absurdos que vc citou no seu texto.
Eu sei que o machismo existe, sei que ele mata. Vejo isso no noticiário e vejo isso na minha militância, onde ouço tantos depoimentos. Nunca acreditei que vivesse num lugar sem preconceitos ou descriminações, pois desde muito jovem sofro e percebo as atitudes e insinuações preconceituosas, seja por ser mulher, ser negra, homossexual, feminista ou pelo pacote completo.
Mas ao ler esse caso absurdamente chocante, comentei com um amigo que vi no Facebook sobre o caso da menina que teve o braço quebrado por ter dito não ao cara. Para resumir a história, eu e meu amigo passamos mais de duas horas discutindo sobre o caso. Eu dizendo que era um absurso por todos os motivos óbvios e ele, um estudante de direito, dizendo que eu tinha que antes de julgar a atitude do rapaz, ver os dois lados da situação. Afinal de contas, possivelmente ele não teve dolo ou intenção de quebrar o osso do braço dela. E que o incidente pode ter acontecido apenas porque a menina pode ter fragilidade nos ossos e eles se partiriam com facilidade. Ou que se ela tivesse parado apenas para dar atenção ao que o pobre rapaz queria dizer, todo mundo sairia bem da balada.
Qualquer argumento que eu use aqui para reforçar meu repúdio em relação a esses comportamentos não será suficiente para dizer o quanto aquela discussão me deixou perplexa. Lá estava eu, discutindo com um futuro advogado, promotor, juiz (cada vez eu fico mais assutada com as possibilidades), sobre aquela situação específica, e ele dizendo que eu estava exagerando em achar que o cara deveria ser punido, pois podia ser sem querer... E que eu como toda feminista xiita estava sendo dura demais em julgar o caso. E que eu como lésbica deveria entender que para se chegar numa mulher às vezes precisa ser mais agressivo, pois mulher adora ser "pega de jeito".
O que dizer após um argumento desses?
Dentre todos esses absurdos, me dói saber que não é só meu amigo equivicado que pensa assim. Como você mesma citou, os comentários em grande número justificam a atitude masculina no momento em que o macho alfa ouve um não. Mas me dói ainda mais saber que um cara desses poderá em breve ocupar um cargo público para julgar ou ser o promotor num caso assim. Você acha que quem será beneficiado nesse caso? A mulher vai ter que ser vítima mais uma vez?
Para mim ainda existe mais um agravante. Eu tenho 21 anos, meu amigo tem 24. Pior, eu sou minoria, ele maioria. Me assusta muito mesmo ver a juventude com pensamentos tão retrógrados como esse. Eu na minha ingenuidade ou na minha fé nas pessoas, acreditava de verdade que minha geração tinha evoluído sua forma de encarar o mundo junto com a tecnologia. E não. Não evoluímos com relação ao machismo de cada dia. Toda minha reflexão me lembrou uma frase que uma amiga que me apresentou o feminismo me disse há cinco anos: "O feminismo está na contramão da sociedade". Eu nunca tinha pensado como essa frase é verdadeira. Eu nunca tinha refletido tanto sobre ela.
Como eu disse, eu sei sobre preconceitos pois sofro com eles toda vez que digo não a uma cantada babaca na rua, ou quando eu e minha namorada somos destratadas nos mais diversos lugares por estarmos de mãos dadas. Nada disso é novo para mim. Mas é incrível como algo que não está relacionado diretamente a mim pode me ferir tanto.
Desculpe o desabafo, Lola. Mas eu precisava dividir isso.
Saudações Feministas.