Adorei ter ido ao 1o Encontro de Blogueiros Progressistas, que aconteceu em SP no final de semana, e tenho a impressão que todo mundo que participou adorou também. Foi corrido (eu estive num avião na madrugada de sexta pra sábado e de domingo pra segunda), mas valeu a pena. O mais incrível é que havia 323 pessoas de 19 estados. Isso sim é um enorme contraponto à mídia tradicional, sempre centrada no eixo Rio-SP.
Bom, por onde com
eçar? Imagino que vocês devem ter acompanhado algumas transmissões ao vivo que foram feitas. Eu escrevi algumas anotações pra poder me lembrar de tudo. A primeira pessoa que conheci foi o Fábio, que estava chegando de Recife e pegou o mesmo ônibus que eu de Guarulhos pra Praça da República. Muito bom conversar com um jovem idealista, que é como todos os jovens deveriam ser (me sinto com cem anos de idade falando assim, mas vocês já notaram como tem muito jovem conservador? Conservar o quê, nessa idade?!).
Lá no auditório do Sindicato dos Engenheiros (mais tarde, um blogueiro numa cadeira de rodas, o Enio, reclamou, com total razão, por um sindicato de engenheiros não ter acesso para pessoas com necessidades especiais!), a primeira mesa demorou um pouco pra ter início, porque o pessoal estava arrumando os fios e câmeras pra trans
missão. Enquanto isso, o pessoal ia chegando, ainda um pouco tímido. Interessante ver os grandões da blogosfera de esquerda, digamos (o “progressistas” ainda não me cai nada bem), tão de perto, todos bem acessíveis. Rodrigo Vianna abriu a sessão, dizendo que prefere o termo velha mídia à grande mídia, já que ela deixou de ser grande.
Uma blogueira que eu não conhecia, Débora Silva, das Mães de Maio, fez um discurso comovente. Seu filho, que não tinha antecedentes criminais, foi uma das 562 pessoas assassinadas em uma semana de maio de 2006, em SP. Foi a retaliação da política paulista à revolta do PCC. Ela lembrou que 562 pessoas, vítimas do Estado, representam uma matança maior por parte da polícia que durante toda a ditadura militar. Graças à mobilização, essas mães conseguiram mandar 22 policiais pra cadeia. Débora disse que a blogosfera não pode substituir as ruas, e pediu para que o capitalismo não nos impeça de pensar. Ela se emocionou muito e chorou, e eu também, óbvio.
Luis Nassif falou m
uito bem e nos contou um pouco de história: em 2005, a velha mídia (Veja, Folha, Globo, Estadão) quis criar um movimento de impeachment pra destituir o Lula. Eles tinham que afastar jornalistas que não seguissem 100% a linha editorial do veículo, mas não podiam simplesmente demitir, pra não parecer uma conspiração. O papel de delator coube a Diogo Mainardi, que organizou uma lista de jornalistas “petistas” e iniciou uma máquina de roer reputações. Tudo que ele dizia era repetido por toda a mídia. Isso tinha as impressões digitais do Serra. Os quatro grupos continuam ligados, mas enfraquecidos. Nassif disse que, se Serra ganhasse (ninguém mais, nem o próprio PSDB, acredita que ele ainda tem chance), o presidente juntaria o poder do Estado com o poder da mídia, um retrocesso de décadas. Nassif se mudaria pra Montevidéu (alguns preferem Miami).
Paulo Henrique Amorim afirmou que a luta pela liberdade de expressão não acaba com a fragorosa derrota do Serra. Em breve Serra será apenas um twitteiro medíocre, nas irônicas palavras de PHA, mas, apesar de nós blogueiros sermos “uma combinação de Einstein com Machado de Assis, opinião não ganha o jogo. O que ganha o jogo é informação”. Ou seja, PHA acredita que os blogs precisam começar a criar informação, não apenas opinar sobre a informação dos outros. Com
o exemplo, ele citou o Cloaca News, que buscou uma reportagem antiga do Cruzeiro para mostrar que Boris Casoy pertenceu ao Comando de Caça aos Comunistas. Nessa hora eu pensei no Boteco Sujo, que foi quem colocou no ar a notícia da Geisy hostilizada na Uniban. O negócio estourou, e a velha mídia teve que correr atrás de um furo de um blog. Mas o pessoal do Encontro preferiu se lembrar do Mosquito. Olha, admiro a coragem do cara. Ele responde a 53 processos em SC. Mas sorry, não concordo com seus métodos. No caso do estupro de uma menina de 13 anos por dois ou três garotos de 14, ele colocou todos os nomes (inclusive o da vítima!) em seu blog. E colocou a foto de um dos rapazes. E o clima era meio fascistóide demais pro meu gosto, quase pedindo pena de morte pra meninos de 14 anos. Eu não sou tão facilmente manipulada assim, né? Sei que a Record só está dando a maior cobertura pro caso porque envolve a sua rival, a RBS (mais tarde Túlio Vianna, em sua sessão, teve que dizer que não vê
vantagem em ter monopólio da Record sobre a Globo. O auditório aplaudiu. Ninguém gosta da Globo, lógico, nem de monopólios. Mas querer que a gente morra de amores pelo Edir Macedo é pedir o impossível).
PHA foi duro e direto sobre a força da blogosfera. Respondendo a uma pergunta do público, ele disse: “os blogs não influenciam o resultado eleitoral”. E explicou que a comunidade é muito pequena ainda, e que, pra mudar o quadro, só com banda larga e acesso à internet para toda a população. “Estamos aqui para aprender a usar a internet. Estamos aqui para lutar pela liberdade de expressão. Não podemos perder o norte”, completou ele.
Outras pessoas também pegaram o microfone para discursos curtos (curtos porque os moderadores, Rodrigo e Leandro Fontes, precisavam cortar). Um deles foi Brizola Neto, que hoje faz um dos melhores blogs políticos da internet, além de uma divertida imitação da voz do seu avô. Outro foi Emir Sader (que, por mim, teria falado muito mais,
mas os organizadores preferiram não dar destaque a candidatos nas eleições). Ele brincou que não quer chutar tucano morto, e recomendou que não fiquemos num debate entre estatal e privado, mas entre público e mercantilista. Alfredo, um jornalista, queixou-se que pra conseguir anunciantes para uma publicação, só batendo no governo federal.
Aí todo mundo foi almoçar. Quer dizer, todo mundo ao mesmo tempo não, que não caberia todo mundo no restaurante perto do evento. Comida excelente, por sinal. (E eu me divirto vendo os reaças criticando o Encontro por ter dado almoço e hospedagem grátis a todos os participantes. Parece que é crime conseguir patrocinadores que possibilitem esses mimos a blogueiros, sabe, blogueiros que, na sua imensa maioria, não ganham um centavo com seus blogs. Os reaças realmente interpretam ao pé da letra o mantra de seus economistas, “There's no free lunch”).
À tarde, houve um ótimo painel para orientações jurídicas. Tulio Vianna fez uma das melhores apresentações e arrancou muitos aplausos e risos. Tenho a maior admiração por pessoas que fazem rir, ainda mais falando de um assunto sério. Com todo o respeito a Cynthia, minha amiga virtual que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, fiquei encantada com seu marido. Túlio é sim
pático, bonito, e tem aquele sorriso de mil quilowatts. Ele falou de responsabilidade civil e penal, e das diferenças entre calúnia (imputar um crime a alguém; por exemplo, dizer que um blog recebe verba pública, que é comprado, o que implica corrupção) e difamação (imputar um fato desonroso). Quando se acusa alguém num blog, é preciso deixar claro que trata-se de uma suspeita, que precisa ser investigada, e expor provas. Ele disse também que blogueiro se assusta fácil com ameaça de processo. E sugeriu que se processe um blog apenas se ele for mais importante que o seu. Se não, é como brigar com um bêbado na rua. Se não, você estará dando visibilidade pro troll. Ignore totalmente. Não leia, não responda, não dê indiretas, não perca tempo. Eles odeiam ser ignorados (essas dicas se aplicam também a como lidar com trolls, independente da parte jurídica. Eu preciso aprender a ignorar troll, ainda mais se estou pensando em entrar no Twitter. Túlio, que hoje se considera muito mais twitteiro que blogueiro, sempre foi meu modelo no quesito “como ignorar trolls”).
Marcel Leonardi, outro advogado, explicou que posts mais polêmicos, se forem disseminados (reproduzidos em vários blogs), têm muito menos chances de render processo. E disse que praticamente todo blog, inclusive os anônimos, podem ser encontrados. Eu
fiz uma pergunta, por escrito, querendo saber sobre direito de resposta, que eu considero um meio muito mais conveniente do que um processo. Ele explicou que, pra direito de resposta, não é preciso uma ordem judicial. Uma pessoa pode criar um blog para responder às acusações, ou pode responder nos comentários.
Paulo Rená disse que, unida, a blogosfera pode mudar algumas coisas, como essa injustiça (a meu ver) de um blog ser responsabilizado criminalmente por alguma coisa escrita na caixa de comentários. Olha, foi toda uma discussão muito instrutiva.
O outro painel, iniciado logo a seguir, foi sobre como financiar a internet. Nele falou Geórgia Pinheiro, que trabalha na área comercial do Conversa Afiada, do PHA (sim, todos os blogs grandes têm equipes, embora pequenas. Na de PHA são quatro pessoas). Ela contou que o CA tem quatro milhões de page views (não visitas) por mês (o Vi o Mundo, só pra efeito de comparação, está chegando aos dois milhões agora. Euzinha, este mês, talvez che
gue aos 85 mil. Page views, não visitas). PHA responde hoje a 28 processos, o que faz Geórgia concluir que “Ter liberdade de expressão custa caro”.
Tanto ela quanto Leandro Guedes deram dicas práticas de como fazer blogs renderem algum dinheiro, como colocar banners, links patrocinados (quando palavrinhas no texto aparecem grifadas), Buscapé (cada click rende 25 centavos, mas, pelo que li aqui,de admiração, constatei que a maior parte do pessoal tinha blogs bem pequenos. Só eu que acho 50 reais pouquinho? Leandro foi mais otimista, dizendo que a maior parte dos blogs alcança um nicho de mercado, o que pode ser comercializado. Mas o editor da Caros Amigos, que fez uma pergunta, disse que os anunciantes ainda estão presos ao CPM – Custo por Mil (ou seja, de cada mil reais que você anuncia, quantas pessoas você atinge?). As empresas preferem a grande mídia, ao invés das pequenas. Ainda assim, é importante que cada blog saiba quem é o seu público.
O moderador da mesa, Renato Rovai, defendeu que os sindicatos parassem de anunciar na velha mídia, e anunciassem na blogosfera. De fato, qual a vantagem de um sindicato anunciar numa Veja? Alcança muita gente, é verdade, mas é um público que detesta sindi
catos. Rovai lembrou que fazemos jornalismo público, não estatal, e que precisamos apresentar um conteúdo regionalizado, compartilhado, para se contrapor ao que a mídia vende, sempre pasteurizado, padronizado. Ele defende que o governo separe uma parte do que dá à grande mídia para criar um fundo que seria distribuído aos blogs, por meio de discussões do governo e da sociedade, através de projetos.
No painel seguinte a exposição mais educativa foi a da Conceição, conhecida como Maria Frô, que argumentou para que todos entrassem no Twitter, e explicou como usar a ferramenta. Ela disse que hoje o Brasil já tem 20,5% dos twiteiros do planeta. Só perde pros EUA. É, acho que não vou ter como escapar...
Anotei outros dados fascinantes, mas, já cansadérrima, esqueci de escrever quem disse o quê, mil perdões. Por exemplo: mesmo que ainda falte muito para que os brasileiros fiquem conectados, 25% da população do país acessa a internet pelo menos uma vez por dia. Infelizmente, das mil e pouquinhas concessões da mídia, 996 pertencem a quatro famílias. Em outras palavras, o latifúndio da informação no Brasil continua gigantesco.
Houve muitas referências à fala do Serra, que na semana passada reclamou de “blogs sujos”, sem dar n
ome aos bois. O Cloaca News quer entrar na justiça pra que Serra seja mais específico. Mas o mais provável é que o nome “blogs sujos” tenha a ver com o fato da primeira reunião entre os organizadores do Encontro ter ocorrido no Sujinho, né? Afinal, o esquema Eduardo Graeff de difamação funciona do lado de lá. No início da noite de sábado, o Encontro decidiu premiar com o Troféu Corvo a Judith Brito, “o que restou da oposição no país”. Judith, para quem não sabe, é atual presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), e faz poucos meses admitiu que, na falta de um partido político que faça oposição ao PT, quem assumiu esse papel foi a grande mídia. Já o Troféu Barão de Itararé foi dado ao Cloaca, um tímido gaúcho de meia idade que todo mundo queria conhecer. Ele foi aclamado, merecidamente. Mas eu também queria descobrir quem era o Prof. Hariovaldo.
Opa, como isso daqui tá mais parecendo um livro com vinte volumes, é melhor eu resumir. No dia seguinte, domingo, o pessoal se dividiu em seis grupos (o número de cada um vinha no crachá). Eu era respo
nsável pela moderação no grupo 2, o que não foi muito necessário. Cada pessoa teve três minutos para se apresentar e falar sobre o seu blog. Na realidade, havia muita gente que era apenas leitora de blogs (e que, a gente espera, se motivem a criar seu próprio blog). Algumas disseram que vieram ao Encontro para ouvir pessoas de esquerda, algo que não é tão comum no dia a dia. Outras, que têm blogs mais comunitários, como a Tatiana, destacaram a presença da Débora, da Mães de Maio, como um exemplo do que falta à blogosfera. Milton, um trabalhador braçal, deu um depoimento emocionante: ele diz estar feliz por poder ler gente que lhe dá mais argumentos. Ela lia jornais, e reparava que “os suprassumos do mundo, o pessoal que tem mestrado e doutorado”, parecia ter o mesmo pensamento e só defendia o lado deles. Aí descobriu blogs, que têm opiniões variadas.
Bom, foi muito bom ouvir tanta gente, com tantas visões diferentes, mas pra mim faltou um pouco de debate no meu grupo. Tipo, claro que o que eu disse é polêmico e gerou interrupções (blogueiros progressistas não gostam de ser lembrados que são machistas), tanto que algu
ns carinhas do grupo vieram falar comigo durante o lanche, pra me convencer que eu estava errada, que não há discriminação alguma contra blogueiras que escrevem sobre política, e que, óbvio, a culpa é nossa por não escrevermos sobre política ou por não termos representação parlamentar. Eu quase joguei um sanduíche no Júlio. Mas sabe, eles não fazem por mal. Eles simplesmente não sabem. Nunca pararam pra pensar por que mulher é vista como um nicho de mercado, inclusive dentro da blogosfera.
A reunião com os grupos levou mais de três horas e meia. Conseguimos fazer uma pauta de propostas para apresentar à plenária, que aconteceu depois do lanche. Tenho que dizer que o Miro Borges é um moderador e tanto, além de ser uma simpatia. Houve muitas propostas, e várias eram antagônicas. Um item polêmico foi a respeito do nome. Muita gente, eu inclusa, não gosta do progressistas. Alguns queriam só tirar a adjetivação e deixar Encont
ro de Blogueiros. Houve sugestão de “blogueiros livres”, “blogueiros independentes”, “blogueiros de esquerda”. Eu, por mim, ficava com o “Blogueiros de Esquerda”. Mas algumas pessoas acham que isso engessa demais a participação, e que havia alguns blogueiros que não são de esquerda no evento (e são progressistas? Eles não erraram de congresso não?). Como não chegamos a um consenso, o público decidiu continuar com o “progressistas”. Pelo menos até o próximo Encontro.
Miro sugeriu que o próximo, ainda sem local definido, mas de preferência em outra região, mude para o primeiro semestre, abril ou maio (mais barato para viajar que junho/julho), para não ficar em cima das eleições, o que pode ser um problema. Algo muito, muito legal é que há um incentivo para que façamos encontros estaduais, com oficinas (coisas práticas e básicas, tal qual como fazer um blog, sei lá, como tirar print screen da tela, que nem todo mundo sabe). Havia quatro blogueiros do Ceará no Encontro, e vamos nos mobilizar para reunir outros blogueiros do Estado, nem que nossa primeira reunião seja numa mesa de bar, com euzinha aqui bebendo água sem gás. Vocês topam, né?
As propostas concretas incluíram uma criação de um “pronto socorro online”, para ajudar a tirar dúvidas (inclusive jurídicas); a inclusão de uma emenda constitucional que garanta banda larga para todos os brasileiros; a criação de um portal agregador (por enquanto, apenas o Barão de Itararé) que inclu
a todos os blogs progressistas, divididos em categorias; e a sugestão de que uma porcentagem do que o governo investe na velha mídia vá para a blogosfera, em forma de anúncios. Este é um assunto polêmico, o único, evidentemente, que os reaças pinçaram. Tinha gente no Encontro que não quer nem ouvir falar em dinheiro. Mas o ponto acabou entrando na carta. Pessoalmente, sou a favor. Se a gente fica nesse blábláblá de que blog não tem que dar grana, que a gente dedica horas dos nossos dias apenas por idealismo, nunca cresceremos para poder competir de igual pra igual com a velha mídia ― ela sim, totalmente financiada por verbas privadas e públicas. Aliás, uma das críticas ao governo é que ele não teve coragem de patrocinar parte do Encontro. Não houve um centavo de dinheiro público. Ué, mas por que não? O governo não dá montanhas de dinheiro pras quatro famílias? E aí, quando surge uma mídia alternativa, as portas se fecham. É bom pra todo mundo que a blogosfera cresça e apareça, para que não haja concentração de poder e de opinião. Seria uma marav
ilha se cada um tivesse um blog. E isso inclui os blogs de direita. Mas eles podem fazer seus próprios encontros, e lutar pelas suas próprias propostas, que não condizem com as nossas. Quer dizer, eles já fazem isso. Aquele encontro do Millenium foi o quê?
Pra carta, que vocês podem ler aqui, houve montes de moções, votações, palavras de ordem, etc. Cada palavrinha era contestada. Mas democracia é isso.
No final, Miro abriu as contas do evento, que logo serão publicadas num blog. Tudo transparente, com nota fiscal. O Encontro, até agora (falta pagar outras despesas), custou 35 mil. Com as cotas de 3 mil reais cada, a receita foi de 70 mil. Mas, por enquanto, como alguns patrocinadores não pagaram, a renda é de 40 mil. Ele tem certeza que os patrocinadores vão pagar. Portanto, deve sobrar uns 35 mil para o próximo Encontro, que deve ser muito maior, talvez com dez vezes mais gente.
E não vai nem dar tempo de eu falar de todo mundo que tive o prazer de conhecer.
Só vou citar algumas pessoas: a Cláudia é um amor, e muito inteligente também. Adorei conversar com ela. Também amei conhecer o Daniel, do famoso Blog da Dilma (não oficial, mas que têm mais visitas que o blog oficial), que é daqui de Fortaleza e uma ótima pessoa (fiquei chateada por não conhecer a Jussara). E mais um monte de gente: a Cris (com quem dividi o quarto), o Diego, o Azenha, as duas Conceições, o Hélio, o Rogério, uma outra Claudia, a Ruth, só pra citar uns pouquinhos. Eu queria ter foto de todo mundo, mas a câmera que levei eu só consegui usar no comecinho de sábado. Devo ter apertado uma teclinha qualquer, e o troço se recusou a funcionar. Taí uma boa dica pra uma oficina: como usar uma câmera digital. Tem gente que não sabe.
Bom, por onde com
eçar? Imagino que vocês devem ter acompanhado algumas transmissões ao vivo que foram feitas. Eu escrevi algumas anotações pra poder me lembrar de tudo. A primeira pessoa que conheci foi o Fábio, que estava chegando de Recife e pegou o mesmo ônibus que eu de Guarulhos pra Praça da República. Muito bom conversar com um jovem idealista, que é como todos os jovens deveriam ser (me sinto com cem anos de idade falando assim, mas vocês já notaram como tem muito jovem conservador? Conservar o quê, nessa idade?!).Lá no auditório do Sindicato dos Engenheiros (mais tarde, um blogueiro numa cadeira de rodas, o Enio, reclamou, com total razão, por um sindicato de engenheiros não ter acesso para pessoas com necessidades especiais!), a primeira mesa demorou um pouco pra ter início, porque o pessoal estava arrumando os fios e câmeras pra trans
missão. Enquanto isso, o pessoal ia chegando, ainda um pouco tímido. Interessante ver os grandões da blogosfera de esquerda, digamos (o “progressistas” ainda não me cai nada bem), tão de perto, todos bem acessíveis. Rodrigo Vianna abriu a sessão, dizendo que prefere o termo velha mídia à grande mídia, já que ela deixou de ser grande. Uma blogueira que eu não conhecia, Débora Silva, das Mães de Maio, fez um discurso comovente. Seu filho, que não tinha antecedentes criminais, foi uma das 562 pessoas assassinadas em uma semana de maio de 2006, em SP. Foi a retaliação da política paulista à revolta do PCC. Ela lembrou que 562 pessoas, vítimas do Estado, representam uma matança maior por parte da polícia que durante toda a ditadura militar. Graças à mobilização, essas mães conseguiram mandar 22 policiais pra cadeia. Débora disse que a blogosfera não pode substituir as ruas, e pediu para que o capitalismo não nos impeça de pensar. Ela se emocionou muito e chorou, e eu também, óbvio.
Luis Nassif falou m
Paulo Henrique Amorim afirmou que a luta pela liberdade de expressão não acaba com a fragorosa derrota do Serra. Em breve Serra será apenas um twitteiro medíocre, nas irônicas palavras de PHA, mas, apesar de nós blogueiros sermos “uma combinação de Einstein com Machado de Assis, opinião não ganha o jogo. O que ganha o jogo é informação”. Ou seja, PHA acredita que os blogs precisam começar a criar informação, não apenas opinar sobre a informação dos outros. Com
o exemplo, ele citou o Cloaca News, que buscou uma reportagem antiga do Cruzeiro para mostrar que Boris Casoy pertenceu ao Comando de Caça aos Comunistas. Nessa hora eu pensei no Boteco Sujo, que foi quem colocou no ar a notícia da Geisy hostilizada na Uniban. O negócio estourou, e a velha mídia teve que correr atrás de um furo de um blog. Mas o pessoal do Encontro preferiu se lembrar do Mosquito. Olha, admiro a coragem do cara. Ele responde a 53 processos em SC. Mas sorry, não concordo com seus métodos. No caso do estupro de uma menina de 13 anos por dois ou três garotos de 14, ele colocou todos os nomes (inclusive o da vítima!) em seu blog. E colocou a foto de um dos rapazes. E o clima era meio fascistóide demais pro meu gosto, quase pedindo pena de morte pra meninos de 14 anos. Eu não sou tão facilmente manipulada assim, né? Sei que a Record só está dando a maior cobertura pro caso porque envolve a sua rival, a RBS (mais tarde Túlio Vianna, em sua sessão, teve que dizer que não vê
vantagem em ter monopólio da Record sobre a Globo. O auditório aplaudiu. Ninguém gosta da Globo, lógico, nem de monopólios. Mas querer que a gente morra de amores pelo Edir Macedo é pedir o impossível).PHA foi duro e direto sobre a força da blogosfera. Respondendo a uma pergunta do público, ele disse: “os blogs não influenciam o resultado eleitoral”. E explicou que a comunidade é muito pequena ainda, e que, pra mudar o quadro, só com banda larga e acesso à internet para toda a população. “Estamos aqui para aprender a usar a internet. Estamos aqui para lutar pela liberdade de expressão. Não podemos perder o norte”, completou ele.
Outras pessoas também pegaram o microfone para discursos curtos (curtos porque os moderadores, Rodrigo e Leandro Fontes, precisavam cortar). Um deles foi Brizola Neto, que hoje faz um dos melhores blogs políticos da internet, além de uma divertida imitação da voz do seu avô. Outro foi Emir Sader (que, por mim, teria falado muito mais,
mas os organizadores preferiram não dar destaque a candidatos nas eleições). Ele brincou que não quer chutar tucano morto, e recomendou que não fiquemos num debate entre estatal e privado, mas entre público e mercantilista. Alfredo, um jornalista, queixou-se que pra conseguir anunciantes para uma publicação, só batendo no governo federal. Aí todo mundo foi almoçar. Quer dizer, todo mundo ao mesmo tempo não, que não caberia todo mundo no restaurante perto do evento. Comida excelente, por sinal. (E eu me divirto vendo os reaças criticando o Encontro por ter dado almoço e hospedagem grátis a todos os participantes. Parece que é crime conseguir patrocinadores que possibilitem esses mimos a blogueiros, sabe, blogueiros que, na sua imensa maioria, não ganham um centavo com seus blogs. Os reaças realmente interpretam ao pé da letra o mantra de seus economistas, “There's no free lunch”).
À tarde, houve um ótimo painel para orientações jurídicas. Tulio Vianna fez uma das melhores apresentações e arrancou muitos aplausos e risos. Tenho a maior admiração por pessoas que fazem rir, ainda mais falando de um assunto sério. Com todo o respeito a Cynthia, minha amiga virtual que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, fiquei encantada com seu marido. Túlio é sim
Marcel Leonardi, outro advogado, explicou que posts mais polêmicos, se forem disseminados (reproduzidos em vários blogs), têm muito menos chances de render processo. E disse que praticamente todo blog, inclusive os anônimos, podem ser encontrados. Eu
fiz uma pergunta, por escrito, querendo saber sobre direito de resposta, que eu considero um meio muito mais conveniente do que um processo. Ele explicou que, pra direito de resposta, não é preciso uma ordem judicial. Uma pessoa pode criar um blog para responder às acusações, ou pode responder nos comentários. Paulo Rená disse que, unida, a blogosfera pode mudar algumas coisas, como essa injustiça (a meu ver) de um blog ser responsabilizado criminalmente por alguma coisa escrita na caixa de comentários. Olha, foi toda uma discussão muito instrutiva.
O outro painel, iniciado logo a seguir, foi sobre como financiar a internet. Nele falou Geórgia Pinheiro, que trabalha na área comercial do Conversa Afiada, do PHA (sim, todos os blogs grandes têm equipes, embora pequenas. Na de PHA são quatro pessoas). Ela contou que o CA tem quatro milhões de page views (não visitas) por mês (o Vi o Mundo, só pra efeito de comparação, está chegando aos dois milhões agora. Euzinha, este mês, talvez che
gue aos 85 mil. Page views, não visitas). PHA responde hoje a 28 processos, o que faz Geórgia concluir que “Ter liberdade de expressão custa caro”.Tanto ela quanto Leandro Guedes deram dicas práticas de como fazer blogs renderem algum dinheiro, como colocar banners, links patrocinados (quando palavrinhas no texto aparecem grifadas), Buscapé (cada click rende 25 centavos, mas, pelo que li aqui,de admiração, constatei que a maior parte do pessoal tinha blogs bem pequenos. Só eu que acho 50 reais pouquinho? Leandro foi mais otimista, dizendo que a maior parte dos blogs alcança um nicho de mercado, o que pode ser comercializado. Mas o editor da Caros Amigos, que fez uma pergunta, disse que os anunciantes ainda estão presos ao CPM – Custo por Mil (ou seja, de cada mil reais que você anuncia, quantas pessoas você atinge?). As empresas preferem a grande mídia, ao invés das pequenas. Ainda assim, é importante que cada blog saiba quem é o seu público.
O moderador da mesa, Renato Rovai, defendeu que os sindicatos parassem de anunciar na velha mídia, e anunciassem na blogosfera. De fato, qual a vantagem de um sindicato anunciar numa Veja? Alcança muita gente, é verdade, mas é um público que detesta sindi
No painel seguinte a exposição mais educativa foi a da Conceição, conhecida como Maria Frô, que argumentou para que todos entrassem no Twitter, e explicou como usar a ferramenta. Ela disse que hoje o Brasil já tem 20,5% dos twiteiros do planeta. Só perde pros EUA. É, acho que não vou ter como escapar...
Anotei outros dados fascinantes, mas, já cansadérrima, esqueci de escrever quem disse o quê, mil perdões. Por exemplo: mesmo que ainda falte muito para que os brasileiros fiquem conectados, 25% da população do país acessa a internet pelo menos uma vez por dia. Infelizmente, das mil e pouquinhas concessões da mídia, 996 pertencem a quatro famílias. Em outras palavras, o latifúndio da informação no Brasil continua gigantesco.
Houve muitas referências à fala do Serra, que na semana passada reclamou de “blogs sujos”, sem dar n
ome aos bois. O Cloaca News quer entrar na justiça pra que Serra seja mais específico. Mas o mais provável é que o nome “blogs sujos” tenha a ver com o fato da primeira reunião entre os organizadores do Encontro ter ocorrido no Sujinho, né? Afinal, o esquema Eduardo Graeff de difamação funciona do lado de lá. No início da noite de sábado, o Encontro decidiu premiar com o Troféu Corvo a Judith Brito, “o que restou da oposição no país”. Judith, para quem não sabe, é atual presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais), e faz poucos meses admitiu que, na falta de um partido político que faça oposição ao PT, quem assumiu esse papel foi a grande mídia. Já o Troféu Barão de Itararé foi dado ao Cloaca, um tímido gaúcho de meia idade que todo mundo queria conhecer. Ele foi aclamado, merecidamente. Mas eu também queria descobrir quem era o Prof. Hariovaldo. Opa, como isso daqui tá mais parecendo um livro com vinte volumes, é melhor eu resumir. No dia seguinte, domingo, o pessoal se dividiu em seis grupos (o número de cada um vinha no crachá). Eu era respo
nsável pela moderação no grupo 2, o que não foi muito necessário. Cada pessoa teve três minutos para se apresentar e falar sobre o seu blog. Na realidade, havia muita gente que era apenas leitora de blogs (e que, a gente espera, se motivem a criar seu próprio blog). Algumas disseram que vieram ao Encontro para ouvir pessoas de esquerda, algo que não é tão comum no dia a dia. Outras, que têm blogs mais comunitários, como a Tatiana, destacaram a presença da Débora, da Mães de Maio, como um exemplo do que falta à blogosfera. Milton, um trabalhador braçal, deu um depoimento emocionante: ele diz estar feliz por poder ler gente que lhe dá mais argumentos. Ela lia jornais, e reparava que “os suprassumos do mundo, o pessoal que tem mestrado e doutorado”, parecia ter o mesmo pensamento e só defendia o lado deles. Aí descobriu blogs, que têm opiniões variadas.Bom, foi muito bom ouvir tanta gente, com tantas visões diferentes, mas pra mim faltou um pouco de debate no meu grupo. Tipo, claro que o que eu disse é polêmico e gerou interrupções (blogueiros progressistas não gostam de ser lembrados que são machistas), tanto que algu
ns carinhas do grupo vieram falar comigo durante o lanche, pra me convencer que eu estava errada, que não há discriminação alguma contra blogueiras que escrevem sobre política, e que, óbvio, a culpa é nossa por não escrevermos sobre política ou por não termos representação parlamentar. Eu quase joguei um sanduíche no Júlio. Mas sabe, eles não fazem por mal. Eles simplesmente não sabem. Nunca pararam pra pensar por que mulher é vista como um nicho de mercado, inclusive dentro da blogosfera. A reunião com os grupos levou mais de três horas e meia. Conseguimos fazer uma pauta de propostas para apresentar à plenária, que aconteceu depois do lanche. Tenho que dizer que o Miro Borges é um moderador e tanto, além de ser uma simpatia. Houve muitas propostas, e várias eram antagônicas. Um item polêmico foi a respeito do nome. Muita gente, eu inclusa, não gosta do progressistas. Alguns queriam só tirar a adjetivação e deixar Encont
ro de Blogueiros. Houve sugestão de “blogueiros livres”, “blogueiros independentes”, “blogueiros de esquerda”. Eu, por mim, ficava com o “Blogueiros de Esquerda”. Mas algumas pessoas acham que isso engessa demais a participação, e que havia alguns blogueiros que não são de esquerda no evento (e são progressistas? Eles não erraram de congresso não?). Como não chegamos a um consenso, o público decidiu continuar com o “progressistas”. Pelo menos até o próximo Encontro.Miro sugeriu que o próximo, ainda sem local definido, mas de preferência em outra região, mude para o primeiro semestre, abril ou maio (mais barato para viajar que junho/julho), para não ficar em cima das eleições, o que pode ser um problema. Algo muito, muito legal é que há um incentivo para que façamos encontros estaduais, com oficinas (coisas práticas e básicas, tal qual como fazer um blog, sei lá, como tirar print screen da tela, que nem todo mundo sabe). Havia quatro blogueiros do Ceará no Encontro, e vamos nos mobilizar para reunir outros blogueiros do Estado, nem que nossa primeira reunião seja numa mesa de bar, com euzinha aqui bebendo água sem gás. Vocês topam, né?
As propostas concretas incluíram uma criação de um “pronto socorro online”, para ajudar a tirar dúvidas (inclusive jurídicas); a inclusão de uma emenda constitucional que garanta banda larga para todos os brasileiros; a criação de um portal agregador (por enquanto, apenas o Barão de Itararé) que inclu
ilha se cada um tivesse um blog. E isso inclui os blogs de direita. Mas eles podem fazer seus próprios encontros, e lutar pelas suas próprias propostas, que não condizem com as nossas. Quer dizer, eles já fazem isso. Aquele encontro do Millenium foi o quê? Pra carta, que vocês podem ler aqui, houve montes de moções, votações, palavras de ordem, etc. Cada palavrinha era contestada. Mas democracia é isso.
No final, Miro abriu as contas do evento, que logo serão publicadas num blog. Tudo transparente, com nota fiscal. O Encontro, até agora (falta pagar outras despesas), custou 35 mil. Com as cotas de 3 mil reais cada, a receita foi de 70 mil. Mas, por enquanto, como alguns patrocinadores não pagaram, a renda é de 40 mil. Ele tem certeza que os patrocinadores vão pagar. Portanto, deve sobrar uns 35 mil para o próximo Encontro, que deve ser muito maior, talvez com dez vezes mais gente.
E não vai nem dar tempo de eu falar de todo mundo que tive o prazer de conhecer.







































