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Eu precisando tingir o cabelo e maridão, natal de 2010, Fortaleza.Ai, tô com um desânimo pra escrever no blog... E vocês pra lerem, né? Vamulá, confessem: as pessoas deixam sites e blogs de lado nas férias. Eu tô pensando em dar um tempinho, até porque não estou de
férias (só as terei em julho) e preciso montar uma disciplina inteira de Poesia em Língua Inglesa até o final de janeiro. E tem os congressos de praxe, com suas publicações. E o tempo voando.Bom, meu natal foi ótimo. Minha mãe preparou uma super tábua de frios com torradinhas, salame e vários queijos (camembert, gorgonzola, estepe ― tem um supermercado aqui perto que vende queijo quase pela metade do preço dos outros, o que explica por que estou me alimentando de gorgonzola faz alguns meses. De
ve fazer um bem danado pra saúde!). Eu ataquei esses frios com vigor, e quase desisti do prato principal (torta de frango). Por falar na torta, o gás do fogão acabou bem no meio do cozimento. Felizmente, temos duas cozinhas em casa (uma pra minha mãe, na parte de baixo, outra pra gente, na de cima), e levamos a torta para o nosso forno, torcendo para que o gás não acabasse lá também. Acabou dando tudo certo. Como sobremesa, torta de chocolate, a famosa Sacher Torte, que eu comi bem pouquinho porque já falei da tábua de frios? Refletimos durante a ceia, nós três ― eu, maridão, minha mãe, com participação especial do Calvin, que insisti
a muito em subir na mesa ―, que estamos numa situação muito melhor agora do que no natal passado. Em dezembro de 2009, minha mãe tava numa lista de espera, precisando ser operada da catarata; nossa casa em Joinville ainda não havia sido vendida, nem havia previsão; íamos nos mudar pra Fortaleza sem saber se eu seria contratada pela UFC; tinha todos os problemas logísticos de uma mudança enorme, de uma região a outra do país. Enfim, tava tudo no ar, grande indefinição, e eu já havia passado quase um semestre praticamente sem renda. E hoje tá tudo certo: minha mãe conseguiu operar a catarata (aqui em Fortaleza), vendemos a casa e
m Joinville, compramos uma aqui, fui empossada na UFC em março, recebo o que pra minha realidade é salário de gente rica... Estaria tudo na mais perfeita ordem se o maridão estivesse bem empregado (ele até que trabalhou bastante, ganhou torneios, mas precisa ter uma atividade mais constante; deve acontecer em 2011) e, principalmente, se nossa linda casinha não estivesse despencando. Chuif! Fizemos uma reforma grandinha em abril e maio e a casa tava um brinco, todos os móveis, estantes, quadros no lugar. Mas aí, uns dez dias atrás, o piso da sala começou a se levantar sozinho! Choveu muito, e a umidade fez com que o piso se desprendesse. Não é um problema estrutural (ainda bem!).
Segundo nosso pedreiro, o piso da sala (que era novinho e de ótima qualidade ― nem mexemos nele durante a reforma) foi colado em cima de outro piso com uma argamassa inadequada, e por isso está soltando. Tanto que não tá acontecendo nada com o piso por baixo. A gente pensava, inicialmente, que daria pra fazer um recorte nessa parte que soltou. Mas no dia seguinte mais pisos se levantaram. Não tem jeito: vamos ter que tirar tudo e colocar um piso novo. Sabe o que é tudo? É TUDO: sala, sala de jantar, cozinha, quarto da minha mãe, área. Tudo lá embaixo, menos o banheiro (que foi inteiramente reformado em maio). Dá uns 80 metros quadrados. Não quero nem ver quanto vai custar. Mas teremos que tirar tudo, até as duas estantes colocadas sob medida. Estou devastada e querendo adiar essa reforma ao máximo, porque estou sem tempo de escolher piso e fazer mil e uma coisas agora. Não era pra isso ter acontecido!
Se não fosse esse problemão do Levante dos Pisos que saiu do nada, estaria tudo bem. Logo... o natal de 2011 será muito melhor que este! Sou uma otimista incorrigível, eu sei.
Eu entre meus dois irmãos, em algum natal do século passado.Desculpem, mas, como não tenho um só osso espiritual no corpo (e, olhando daqui, nem parece que tenho mais ossos), natal, pra mim, é só consumismo. Não me lembro dos natais da minha infância, apenas que não gostava muito deles, porque ficava uma coisa meio pegajosa, uma o
brigação de abraçar todo mundo. Minha mãe certamente montava lindos pinheirinhos decorados (só décadas depois fui saber como isso é anti-ecológico, porque desde quando árvore é descartável?) e, na minha condição de classe média, talvez, por um tempo, até classe média alta, é de supor que o pinheiro vinha com vários embrulhos perto do pote. Mas não me recordo de nenhum presente hiper marcante. Acho, não tenho certeza, que uma vez meu irmão ganhou um presente muito antecipado, e começou a brincar com ele, e o troço quebrou. Sabe, bem na noite de natal? E tenho a breve impressão que aquele momento foi traumático. Mas lembro vagamente que eu recebia mais livros e roupas do que brinquedos (pensando bem, eu tinha uma vasta coleção de Playmobil). E eu sempre p
ensava mais na véspera da véspera (dia 23), que na véspera em si. Dia 25 era apenas um feriado prolongado, com comida muito boa que havia sobrado da noite anterior, e com a vantagem de não ter tantas pompas. A ceia em casa sempre foi igual (não somos muito criativos), e nada convencional: uma enorme e deliciosa torta de frango, seguida por uma enorme e deliciosa torta que, acreditem, pros padrões brasileiros costuma ser ruim, porque tem chocolate demais (como chocolate pode ser demais, eu me pergunto), e é chocolate amargo, e brasileiro é parente próximo da formiga doceira, só pode, tamanha obsessão por açúcar. Era isso. Nada de especial pra beber. Eu nunca bebi nada que não fosse água. Sem gás, por favor, mas acho que na ceia de natal tinha gelo. E gelo é ótimo, eu mastigo e até agora nunca quebrei um dente por causa disso (mas já quebrei um comendo chocolate; notaram
como o texto tá um tantinho dispersivo? Eu me sinto um narrador do Rubem Fonseca, sem a violência). Lembro do meu amado pai não deixando a gente começar a comer porque ficava pedindo brinde. E eu, de olho na torta de frango, brindava. Com água. Sem gás. Com gelo.E aí não sei se sou só eu, mas a gente cresce, o pai morre, e o natal perde bastante da graça que já não tinha. Ainda mais pra quem não tem filhos e, ao contrário do que dizem as más línguas, não é uma dondoca consumista que passa seus dias num shopping (preciso rir com quem me lê e pensa que eu compro alguma coisa, ahn, qualquer coisa, a pão dura miserável que sou). Sou casada com um lindo que é quase tão sovina quanto eu. Mas não somos apenas pão-duros, somos não consumistas também, por uma total falta de criatividade. Tanto que uma vez, não sei se já contei pra vocês, perguntei pro maridão: “Se a gente fosse milionária, o que você compraria?”. E ele pensou, pensou, e respondeu, sem muita convic
ção: “Um mouse sem fio”. (Deem um desconto, já faz alguns anos). Eu questionei, indignada: “Ô amor, quer dizer que se a gente fosse rica você compraria algo que a gente poderia comprar agora, se realmente quisesse? Não é possível! Não tem mais nada que você compraria?”. E ele pensou, pensou, pensou um tempão, muito mais tempo que na primeira indagação, e finalmente disse: “Tem muita coisa sem fio que eu gostaria de ter”. Entendem o drama? É como o Controlador explicando pro Selvagem as vantagens do sistema no clássico Admirável Mundo Novo: “As pessoas são felizes. Elas recebem tudo que querem, e elas nunca querem o que não recebem”. Taí, resumiu a minha vida. Não tenho ambições. Gosto de comer. Talvez, se eu pudesse e não enjoasse, comeria todo dia fora. Ou melhor, pediria delivery, porque não sou fã de restaurantes. E agora, que estou ganhando o ápice da vida de uma professora (só sendo professora universitária pra receber este salário), eu tenho vontade de gastar mais com comida. Mas minha índole não permite. No último final d
e semana, num arroubo de irresponsabilidade, decidi encomendar uma torta de frango de um supermercado que criou um catálogo para a ceia de natal. Mas pra comer antes do natal. Não foi fácil encomendar. O supermercado só aceitava pedidos acima de dois quilos. Mas a atendente reconheceu o maridão: “Você é aquele que sempre compra tapioca aqui, não? Vou falar com a gerente”. Como a gerente deixou, pedimos um quilo. Veio 1,3. Custou 35 reais aquela torta. Só eu que acho caro? E nem tava tão boa. A massa tava boa, mas o recheio é aquele peito de frango sem gosto e sem molho de sempre. Enfim. Aí, dois dias depois, passamos em frente a um restaurante anunciando maminha por 15 reais o quilo. Maminha é muito mais saboroso que torta de frango! E tava quase metade do preço! Por que não comprei? Mas isso não te
m nada a ver com natal, tem a ver com meu consumismo. Aliás, meu pão-durismo. Minha índole. Com a idade adulta, acabou-se a árvore natalina. Panetone nunca gostei (mesmo os de chocolate têm gosto esquisito). Papai Noel, nunca acreditei. A ceia continua. Mas não nos presenteamos há anos. Também, dar o quê pra quem já tem tudo? Feliz natal pra vocês também.
Num post chamado “Lingerie como algo que libera?” (já tem um ano; tô querendo falar disso faz um tempão), o excelente blog Sociological Images coloca um comercial alemão para uma marca de lingerie. Nele, uma mulher jovem e magra se maquia, se enfeita, veste lingerie sexy, e aí se cobre com uma burca antes de sair. A mensagem, imagino, é que a moça precisa sentir-se sexy pra ela própria, mesmo que ninguém mais possa avaliar o
material. O Sociological Images diz (minha tradução): “A mulher ainda está gostosa por baixo, confirmando a ideia que ser gostosa é o que faz as mulheres felizes e liberadas. A ideia que uma mulher possa querer ser livre de ser exposta ao olhar masculino (mesmo que imaginário) não é explorada". Pois é, eu detesto essa ideia que a publicidade tenta vender como feminista de que é liberador pra mulher cumprir exatamente o que a sociedade espera dela (andar sempre produzida, por exemplo). Pô, liberador seria não cumprir essas exigências! É não ter que usar salto alto se te machuca o pé ou deforma sua coluna ou te impede, desde que você é criança, de correr. Liberador, pra mim, não é ter que usar cinta-liga só porque você cresceu ouvindo que o mais importante na sua vida é ser feminina.
Liberador seria não ter que usar burca. Mas muitas mulheres islâmicas juram que a burca é liberadora, porque desse jeito elas não são constantemente avaliadas e julgadas pelos homens, como acontece com a gente. Mas qual seria a vantagem de usar burca se até por baixo dela a mulher precisa se ater a um padrão de beleza caro e consumista? (isso foi explorado recentemente em Sex and the City 2, quando as quatro brancas ocidentais são salvas por mulheres de burca, que seguem a última moda de Paris e NY por baixo dos panos).
Aquilo que a gente vê numa comédia romântica bobinha como Bridget Jones (odeio o segundo mas gosto do primeiro: ter o Colin Firth e o Hugh Grant brigando por mim ao som de “It's Raining Men” pode muito bem ser meu sonho de consumo) é verdade. Quando a gente vai sair pra jantar com um carinha e existe a chance de sexo depois, que calcinha a gente escolhe? A confortável grando
na de algodão que modela a nossa barriga ou a preta sexy? (o Hugh Grant olhando pra calcinha da Renee Zellweger e dizendo “Olá, vovó!” é impagável). Quando você está sozinha em casa você usa lingerie sexy, maquiagem e salto alto? Acho que a maior parte de nós não, né? (bom, eu definitivamente não uso nada disso nem quando estou com o maridão ou quando saio). Então, pra mim, parece meio frágil esse discurso do “uso isso pra me sentir bem, não pra agradar os homens” (ou causar inveja nas mulheres, sempre uma possibilidade - porque a gente aprende a não competir com os homens, mas a ser terrível com nossas rivais femininas). 
Julie Andrews e Blake Edwards nos anos 60 ou 70Quinta-feira passada morreu Blake Edwards, aos 88 anos. Quem?, muita gente pode perguntar, já que ele não fazia filmes havia anos. Mas ele era marido da Julie Andrews (foi du
rante 41 anos), e essa vocês conhecem, espero. Julie é uma lenda no cinema desde A Noviça Rebelde. E Blake foi um dos mestres da comédia. Da Pantera Cor de Rosa e do desastrérrimo Inspetor Clouseau eu nunca fui grande fã, mas Um Convidado Bem Trapalhão, praticamente um filme mudo com aquele grande ator que era Peter Sellers, é genial (veja uns pedaços aqui). Bonequinha de Luxo, que imortalizou a Audrey Hepburn, é fofo também. Já Mulher Nota 10, com a Bo Dereck, eu nunca vi, mas não precisava ver pra saber, já aos 12 anos, que a
quela besteira era machista. E lembro quase nada de S.O.B. (iniciais pra fdp, em inglês), o recadinho que Blake mandou pra Hollywood. Apenas que era esquisito pacas. Mas tudo bem, porque Blake fez pelo menos uma obra-prima (se você não aprovar a comédia-pastelão de Um Convidado): Vitor ou Vitória. Aquilo é tudo. É parte musical, parte comédia sofisticada, e parte libelo contra a homofobia. Você só tem que sobreviver ao comecinho, que é quando uma Julie faminta e miserável tenta não pagar a conta num restaurante colocando no seu prato uma... barata. Feche os olhos quando Julie começa a vasculhar sua bolsa.
O resto é
tudo festa e discussão de gêneros. Julie, ou Vitória, não faz sucesso como mulher. Então, seguindo a sugestão de seu amigo gay Robert Preston, ela finge ser um travesti. E aí estoura. O problema é que captura o coração de um mafioso, que sente-se muito desconfortável por sentir-se sexualmente atraído por um travesti (veja um lindo trecho aqui). Numa das cenas, o chefão conversa com seu principal guarda-costas, que ele descobre ser gay. E lhe pergunta, mas pô, como você pode ser gay? Você é todo másculo e tal. E o guarda-costas responde que, pra não ser xingado de viado, ele precisou ser machão e violento desde a adolescência. No meio da conversa, o mafioso tem uma discussão
à toa, pura marcação de território entre machos, com um sujeito. Eles agendam um duelo, uma luta de boxe, pro final da noite. Quando o chefão descobre que acabou de desafiar um campeão peso-pesado, o guarda-costas emenda: “Não se preocupe, chefe. Ele é gay”. Todo mundo tá fantástico no filme, mas meus preferidos, além da Julie, são Robert e Lesley Ann Warren (ambos foram indicados ao Oscar de coadjuvante por suas atuações). Lesley faz a típica loira amante do chefão, mas ela passa a flertar com Robert, que é aber
tamente gay. Segue-se este diálogo:Lesley: “Acho que a mulher certa podia te reformar”.Robert: “Sabe, acho que a mulher certa podia te reformar também!”Lesley: “Eu, desistir dos homens?! Pode esquecer!”Robert: “Você tirou as palavras da minha boca”. Se hoje já seria ousado fazer um filme assim, imagina em 1982 (ou melhor, talvez os anos 80 pré-backlash fossem muito mais liberais do
que os tempos de hoje). Naquele ano, havia uma série de grandes filmes (todos bem críticos ao sistema) concorrendo ao Oscar: fora Vitor ou Vitória, tinha Tootsie, ET, O Veredito, Desaparecido. Deram a estatueta pra Gandhi.
Uma leitora me enviou um email recomendando duas notícias do Zero Hora sobre um caso que aconteceu numa praça de Santa Maria, RS, no dia 6 de dezembro. Pelo relato
do jornal, um homem de 41 passou por duas policiais militares numa praça, e fez algum tipo de piadinha, chamando uma delas de “gostosa”. A PM não gostou, o abordou, e o sujeito, ao invés de pedir desculpas (pelo jeito ser homem é nunca ter que pedir perdão), pôs a mão dentro da bermuda e fez gestos obscenos. Em seguida, ao notar que seria preso, fugiu. Foi alcançado, levado à delegacia, e lá constatou-se que estava em liberdade provisória há dois anos. Esta última parte não é importante, já que a vida das mulheres seria uma maravilha se apenas detentos fizessem gracinhas com a gente.
Além de narrar
o que houve, o jornal reproduziu a entrevista curtinha que a policial militar (não identificada) deu a um jornal local de Santa Maria (que, imagino, deve ser filiado a RBS, senão eles não dariam destaque), em que ela afirma: “Eu e minha colega pensamos: vamos detê-lo para que isso não se repita. Se conosco, que estávamos de farda, ele fez isso, imagina com quem não está de farda. A ideia é coibir isso”. Os poucos comentários no site, todos de homens, estavam indignados ou perplexos, desde “Abuso de autoridade! Não foram ofendidas, foram elogiadas, ainda que de forma obscena. Se não gostou, ignora” e “Não se pode mais elogiar agora? Que palhaçada!”, ao ingênuo “Qual crime ele cometeu?”.
O jornal pub
licou uma outra notícia (meio superficial, mas melhor do que nada) chamada “Saiba como reagir às 'gracinhas' ditas por homens nas ruas e punir os suspeitos”. Uma delegada recomenda que a mulher ofendida dê voz de prisão a quem a insultou. Na prática, obviamente, isso é quase impossível. Alguém precisaria segurar o agressor até a polícia chegar. E duvido que uma moça desperte muita solidariedade por ter de escutar o que escutamos desde pequenas, e que é visto como absolutamente natural no nosso mundo (aprendemos até que a gente adora isso!). Mas, se um homem passar a mão, é diferente. Nesse caso sim creio que devemos tentar prendê-lo, porque outras pessoas podem empatizar e querer ajudar. Claro que dificilmente vai funcionar. Lembra do caso de uma moça numa van em Brasília, que deu socos e tapas num rapaz que tentou beijá-la, e o levou à
delegacia? Depois ela o processou, que é o que se deve fazer. Mas o juiz, metido a engraçadinho, não só deu razão ao agressor como ainda emitiu uma sentença irônica criticando a “donzela” (palavras dele) que ousou incomodar o judiciário com uma besteira.
Pois é, esse terrorismo institucional que faz parte da criação de toda mulher, e que começa quando somos meninas de 8, 10 anos, pros homens é besteira. Eles também são educados, geralmente pelo pai, a dispararem grosserias a qualquer gatinha que passa. Faz parte da sua masculinidade. Opa, você achou exagerado eu chamar grosserias na rua de terrorismo? Então você só pode ser homem. Pergunte pra sua mãe, pra sua irmã, pra sua filha, que idade ela tinha quando ouviu a primeira cantada, e como se sentiu. Sei que a sociedade ou faz pouco caso desse nosso martírio do dia a dia, ou inventa que nós mulheres adoramos ouvir elogios como “Que
ro ser seu absorvente interno”, porque faz bem pra nossa autoestima. Todas as pesquisas mostram o contrário: que mulher não gosta de ouvir cantada na rua (as que gostam, e devem existir, são uma minoria). E, pior pro gênero masculino: um estudo americano provou que não só as mulheres não gostam, como ainda ficam com raiva dos homens em geral quando isso acontece, não apenas daquele paspalho em particular. Ou seja, diga uma besteira a uma desconhecida, e você estará queimando o filme de toda a espécie dos barbudos.
Acho que temos que reagir ao ser alvo de uma grosseria, mas com cuidado. Assim como não deve existir mulher que não passou por isso, não deve haver quem não conheça algum caso de uma mulher que reagiu (verbalmente!), e foi agredida fisicamente por ousar reclamar.
O princípio da cantada na rua não é o elogio. Não é a proposta, o convite. Pelo con
trário, é o insulto. É a dominação. É lembrar quem manda aqui. Só quem está numa posição de poder pode avaliar. Quem é subordinado é avaliado. O “abuso de autoridade”, portanto, não foi da policial de Santa Maria, mas de todos os homens que se acham no sagrado direito de avaliar o corpo de uma mulher. Só porque ele é homem, ela é mulher, e uma sociedade patriarcal totalmente ultrapassada decidiu que ele pode.