quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

PRESENTES DE NATAL: QUEIJO MINAS, RICOTA E DINHEIRO

Hoje é natal (bem, quase), mas quem ganha o presente é você! Ha ha, eu adoro essas frases promocionais de aniversário de supermercado. Agora falando sério, lembra que eu mencionei que eu e o maridão, muitos anos atrás, quando os dinossauros dominavam o mundo, fizemos um curso pra aprender a fazer queijos? Foi um curso excelente, ainda mais pra gente, que é uma negação na cozinha. Durante um tempo fizemos alguns queijos muito saudáveis, depois cansamos. Na realidade, perdemos as receitas. Mas outro dia eu estava mexendo em cadernos antigos do maridão (trabalho arqueológico mesmo; se o Spielberg quiser fazer um novo Jurassic Park baseado nesses cadernos, estamos às ordens), e encontrei tudo anotadinho com a letra do maridão embaixo das teias de aranha e dos fósseis da era mesozoica. Não creio que a produção de queijos artesanais tenha mudado tanto de lá pra cá.
Infelizmente, ninguém nos ensinou a fazer queijos saborosos, cheios de gordura, desses de entupir as artérias, tipo mussarela, prato, provolone ou gorgonzola. Só os chamados queijos brancos, aqueles (vamos admitir) meio sem gosto, que nem derretem. Mas ainda assim vale a pena aprender a fazê-los, porque não é difícil e sempre pode aparecer uma visita em casa. E também, pra quem vive de dieta, é o que resta. E porque, mesmo que esses branquelos em si não sejam os queijos mais convidativos do universo, várias receitas com eles são deliciosas. Então vamos lá.

QUEIJO TIPO MINAS
Para fazer um queijo de mais ou menos 800 gramas

Ingredientes
4 litros de leite
1 colher de sopa de iogurte
1 ½ colher de sopa de sal
1 colher de sopa de coalho
Observação: Pode-se utilizar leite C, em saquinhos, sem perda de qualidade. Evitar leites Longa Vida.
Leite fresco pode ser pasteurizado em casa: aquecer o leite (entre 63oC e 73oC) e em seguida mergulhar o recipiente em água fria, gerando um choque térmico.
Cada litro de leite da receita produz 200 gramas de queijo.

Material necessário:
1 fogão (o pessoal do curso conhecia quem estava assistindo às aulas)
1 panela grande para o leite
1 panela para água
1 recipiente perfurado para secar e deixar repousar o queijo
1 vasilha para guardar a “massa” do queijo
1 peneira
1 faca (eu não me senti burra nem nessa parte)
1 colher para mexer o queijo na panela
1 termômetro (aí complicou)
1 vasilha para misturar ingredientes

Preparo:
Despejar os 4 litros de queijo de leite numa panela e levar ao fogo até atingir a temperatura de 35oC (observação: não ultrapassar 40oC).
Misturar numa vasilha (enquanto o leite esquenta) o iogurte, o sal e o coalho.
Atingida a temperatura de 35oC, desligue o fogão e junte a mistura ao leite na panela, misturando bem.
Tampe a panela e aguarde mais ou menos uma hora. Obs: dependendo da temperatura ambiente, o tempo necessário será de 30 minutos (mais quente) a 60 minutos (mais frio), que é o tempo máximo, desde que todos os ingredientes estejam em ordem. Para saber se a massa já está boa, enfie uma faca e retire-a; se a lâmina sair limpa, apenas gotejando soro, então estará no ponto. Caso contrário, aguarde mais alguns minutos.
Se a massa estiver firme, faça uma série de cortes verticais, horizontais e oblíquos, quadriculando a massa. Deixe em repouso por meia hora.
Antes de completar os 30 minutos, ferva 2 litros d'água.
Após esse tempo haverá na panela uma quantidade de líquido (soro) junto com a massa. Retire cinco xícaras de chá desse soro da seguinte maneira: mergulhe a peneira sobre a massa de modo a deixar o soro entrar na peneira. A seguir retire dali as 5 xícaras. (Observação: esse soro será utilizado para fazer a ricota. Não deve ser jogado fora).
Substitua as cinco xícaras de soro por 5 xícaras de água fervendo.
Mexa para misturar a água quente. Tampe a panela e aguarde 3 minutos.
Com a ajuda da peneira, transfira a massa para a forma (que é o recipiente perfurado).
Obs: Se utilizar um peso, a massa irá perder o líquido (“sorar”) mais rapidamente; senão, irá demorar mais, mas terá mais buracos em seu interior.
Deixe o queijo fora da geladeira por mais ou menos 5 horas.
Vire o queijo na forma e leve à geladeira por mais 5 horas destapado.
Desenforme e consuma.

RICOTA
Ingredientes (para mais ou menos 500 gramas de ricota)
5 xícaras de soro do queijo minas (ver item da receita do queijo minas)
3 litros de leite
1 xícara de chá de vinagre de vinho branco

Material necessário
Termômetro
1 panela grande
1 peneira
1 forma perfurada
1 vasilha (maior que a forma)

Preparo: leve o soro ao fogo até atingir 70oC.
Junte 3 litros de leite e espere até atingir 80oC.
Coloque o vinagre de vinho branco.
Quando os flocos começarem a flutuar, retire com a peneira e coloque na forma, deixando escorrer bem o soro.
Leve à geladeira.

Tá tudo bem detalhadinho, né? Tomara que você consiga seguir a receita e que saia um queijo legal, dentro das suas limitações (não as suas, as do queijo: a gente pode até discutir se um bicho que não derrete merece mesmo ser chamado de queijo). Outro dia eu passo mais receitas queijísticas.
E, de novo, feliz natal! Apesar de eu ser ateia, não tenho problema algum em desejar um feliz natal, e muito menos me ofendo se alguém disser feliz natal pra mim. Até porque o natal está bem desvirtuado de suas raízes religiosas (como reclamam alguns cristãos, com razão), e hoje é mais uma festa pagã que qualquer outra coisa. Aqui em casa não existe conotação religiosa nem consumista (não damos presentes), mas há uma ceia deslumbrante que minha mãe prepara, que é sempre a mesma: torta de frango e bolo de chocolate (não qualquer bolinho de chocolate chinfrim, mas O bolo de chocolate, o Sacher Torte. Aliás, encontrei uma receita e vou publicá-la ainda este ano pra você também experimentar o que é comer um bolo de puro chocolate).
Ah, e eu falei de presentes de natal, né? Devo admitir que vocês ― agora vou adotar o plural ― me deram um presentão de natal. Não só de natal, porque a companhia de vocês, os comentários, o bom humor, os elogios, a troca de ideias, tudo isso é o que me motiva a escrever este bloguinho todo santo dia. Sem modéstia, eu tenho as melhores leitoras e leitores que conheço na blogosfera (trolls not included). E são vocês que fazem este um bloguinho legal. O meu mérito está em atrair tanta gente boa. Mas neste dezembro, pela primeira vez desde que comecei a escrever na internet (em outubro de 2000, nove anos atrás!), vou ganhar um dinheirinho. Vocês gastaram R$ 2.984 no Submarino através deste blog, e graças a isso em breve receberei 126 reais. Não dá pra ficar rica, mas dá pra pagar a consulta social do exame neurológico que preciso refazer porque a droga dos exames médicos pra mostrar pra UFC só têm validade de três meses (é uma longa história, depois explico). Não, vamos pensar em coisas boas. 126 reais praticamente cobre nossas despesas com comida fora no mês. Ou dá pra comprar entre três e quatro livros, ou uns dez dvds. Enfim, são várias escolhas, e eu não esperava chegar à metade desse valor. Muito, muito obrigada mesmo. E um natal alegre e sereno, que natal pra mim é dia de comer sem culpa. Nessa data especial, queijos brancos que não derretem não entram. Aproveitem!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

BLOG RECLAMA CONTRA HETERONORMATIVIDADE DE AVATAR

A legenda diz: “Detenha Avatar. O futuro é transgênero, não hetero”.

Lendo apenas este post aqui, que diz que 18 de dezembro foi o dia internacional de protesto contra Avatar, não dá pra saber se o blog Stop Avatar é sério ou não. Certo, parece totalmente ridículo que a comunidade GLBT proteste contra o mais recente filme do James Cameron, reclamando que não há nele uma só personagem gay ou lésbica. Soa ridículo porque uma coisa é insultar gays, bissexuais e travestis e retratá-los como vilões (como Hollywood fez em Parceiros da Noite, de 1980, Silêncio dos Inocentes e Instinto Selvagem, entre outros ― o que gerou boicotes e protestos justos); outra coisa é não representá-los. Seria ótimo se todas as minorias fossem positivamente representadas em todos os filmes, mas isso está longe de acontecer (eu, como gorda, poderia me queixar que não há uma só personagem gorda no filme inteiro). Em Avatar essa queixa da heteronormatividade não procede porque há apenas um par romântico na história, e tudo bem, ele é hetero, mas é só unzinho. Não é que haja milhares de histórias de amor e todos os envolvidos nelas são casais heteros. Avatar se passa basicamente num laboratório/base militar, onde os cientistas e militares não têm interesses sexuais. Estão lá só pra trabalhar mesmo. Se fossemos preconceituosos e acreditássemos nos estereótipos, poderíamos até especular se as personagens da Michelle Rodriguez (a piloto) e a da Sigourney Weaver (a cientista chefa) são lésbicas. Afinal, elas são duronas, mandonas, e não usam maquiagem, vestido ou salto alto. Mas isso equivaleria a dizer que eu era meio lésbica porque jogava futebol, sabe? Além do mais, as heroínas em outros filmes do Cameron, como a Sarah Connor em Exterminador do Futuro 2 e a Lindsey em O Segredo do Abismo, também eram duronas e nada decorativas. A única diferença é que uma tinha um marido, e a outra era viúva (pode-se dizer isso da Sarah, vai). Como tinha pênis na jogada, elas não eram lésbicas. Em Avatar as duas heroínas não se interessam por ninguém, não se acasalam, não desfilam. Mas não há nada que indique que gostem de homem, de mulher, ou dos dois. A mesma coisa com os personagens masculinos. E os nativos de Pandora, os Na'vi, são igualmente assexuados. Menciona-se que um Na'vi macho deve escolher uma fêmea pra acasalar, e só. É levemente heteronormativo, mas vamos lá, os Na'vis não são humanos ou terráqueos. São bichos azuis de três metros de altura que vivem em árvores. Quem sabe um universo desses seja mesmo que nem o Irã, onde não existem gays (tô piscando meu olhinho pra vocês).
Ok, naquele post já há algumas pequenas pistas de que o blog não é sério. Um dos objetivos do protesto, segundo o Stop Avatar, é educar as pessoas sobre a transição da humanidade dos heteros para os transgêneros. Nenhum ativista GLBT diria uma besteira dessas. Outra pista é que uma das formas de protesto indicada é levantar-se no meio do cinema e permanecer de pé. Ainda que deva ser hiper eficaz (e seguro) fazer isso num cinema lotado, essas pistas ainda são insuficientes pra estabelecer o caráter irônico do blog.
Mas os posts seguintes não deixam muita margem pra dúvida, principalmente um que diz que os protestos iniciais fizeram que Avatar não batesse recorde de bilheteria no seu fim de semana de estreia. Ha ha. O filme abriu muito bem, obrigada, mas analistas chegaram a dizer que as tempestades de neve em algumas cidades dos EUA fizeram com que muitos espectadores ficassem em casa. Achar que alguns gatos pintados protestando (se é que existiram) pudessem interferir na bilheteria é um pouco como copiar o Nate, que decidiu comandar um boicote ao Cavalheiro das Trevas no ano passado (por ser “propaganda liberal” e mensagem subliminar, já que o Batman, o mocinho, representaria Obama, enquanto o Coringa, pintado de branco, seria o republicano McCain). Nate disse que foi graças ao seu boicote bem-sucedido que Dark Knight arrecadou menos milhões de dólares na segunda semana (isso acontece com todos os filmes, claro).
Vocês podem ver pelos comentários do blog que a maior parte das pessoas ainda não pescou que o Stop Avatar é uma brincadeira. Quero dizer, eu tenho quase certeza absoluta que seja. E é bastante engraçada, até certo ponto. O lado ruim é que encenar um protesto absurdo desses ridiculariza protestos legítimos. Mas sou a favor da liberdade de expressão, então deixa estar. O que vocês acham? É ironia ou não? Se for, atrapalha futuros protestos GLBT? Ou vocês creem que Avatar merece uma mobilização contra?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

SOMATIZANDO LEGAL

Continuando o post que comecei semana passada, sobre terapia, vou narrar parte da conversa que tive com o psiquiatra bonitinho. Vou só deixar fora os momentos mais picantes. Opa, não, não! Esqueci que o maridão ocasionalmente lê este blog. Ha ha, eu até já contei pro maridão o momento em que o psiquiatra olhou fundo nos meus olhos e ficou levemente acariciando meu braço pra me falar de fibromalgia. No carro, comentei com o maridão (porque pedi pra ele me levar à clínica, já que detesto dirigir pra lugares que não conheço) que pelo menos o psiquiatra bonitinho não me pediu pra ficar de sutiã, como fez o dermatologista. E o maridão: “É tudo um complô!”.
Bom, conversei bastante com o psi. Eu falei que sou bem ansiosa às vezes, e que acho que isso afeta o meu consumo de chocolate. Ele perguntou se eu queria um antidepressivo que controla a ansiedade e faz diminuir o apetite. Respondi que não, porque não quero tomar remédio a menos que eu realmente precise, e tenho medo de me viciar em algum medicamento.
A gente papeou um pouco sobre psiquiatria em geral. Pra ele, o relacionamento entre paciente e médico está deturpado porque as pessoas vão ao médico com muita facilidade: “Um rapaz sente uma dorzinha e pensa que tem um problema cardíaco. Ele não pode ter um problema cardíaco porque tem 30 anos. Mas ele vai ao cardiologista, e se o cardiologista não exigir que o rapaz faça um cateterismo, que custa 2,500 reais, e faça um [ele citou diversos tipos de tratamento que desconheço e deu os preços], o rapaz vai sair da clínica falando mal do médico. E vai procurar um outro cardiologista, que fará o que ele pede, inclusive pra ganhar dinheiro. [...] Metade das pessoas que procuram o SUS e clínicas estão somatizando as doenças. A pessoa não aceita ouvir que é a sua mente que está causando os sintomas, e que não é preciso um marcapasso, mas um antidepressivo. A pessoa come uma cuca e sente azia. Aí procura um gastro, mas é só parar de comer a cuca!”.
O grande momento polêmico foi quando ele disse que fibromialgia (dores generalizadas) nada mais é que um termo inventado para satisfazer os pacientes que somatizam uma doença mas não querem admitir que estão somatizando. Eu digo que foi um momento polêmico porque conheço algumas pessoas que têm fibromialgia. E também porque naquele momento o psi bonitinho pegou na minha mão e apertou a ponta de um dos meus dedos (entre a articulação e a unha), e perguntou se doía. Eu disse que não. Ele: “Pois é, é impossível sentir dor aqui. Mas você aperta o dedo de uma pessoa com fibromialgia e ela vai reclamar de uma dor insuportável”. (Foi depois que ele tocou no meu braço, mas imagino que nessa hora eu já estava anestesiada).
Não, brincadeira à parte (não teve clima de paquera não, embora ele tenha acaricidado esse braço que não verá água pelos próximos três dias), enquanto ele falava eu pensava no maridão. Minha cara metade ocasionalmente tem dor nos pés e nas costas. Mês passado, ele foi a uma médica do SUS e fez um raio x do pé e não deu nada. E ele se queixou um monte da médica não ter decifrado o que ele tinha e não ter recomendado mais testes. Falei isso pro psi bonitinho, questionei se o maridão não poderia também estar somatizando a dor nos pés e nas costas, e ele disse que não sabia, porque não havia analisado o maridão. Mas seguiu-se esse diálogo muito tururu tururu (musiquinha do Além da Imaginação):
Ele: Pelo que estou vendo, você deve ser a pessoa que manda na casa, apesar de ser mulher...
Eu: Como assim, “apesar de ser mulher”? Eu sou mulher e feminista!
Ele: Pode ser que ele não lide muito bem com isso de uma mulher mandar.
Eu: Eu não mando, e ele não liga.
Não foi bem com essas palavras, mas foi parecido. Fiquei espantada em como o psi deduziu isso a meu respeito após dez minutos de conversa. Será que eu sou tão mandona que até exalo autoritarismo?
Lendo, parece que foi um papo hostil. Mas não foi não. Teve até várias risadinhas românticas. Quer dizer, o “romântica” é por minha conta e por conta das carícias no meu braço. Mas sério, prefiro mil vezes uma consulta com um psiquiatra que com um neurologista, que bateu no meu joelho com aquele martelinho (eu quase chutei ele de volta no queixo, graças aos meus reflexos de Mulher Aranha).
Já no carro contei tudo pro maridão, que ficou irritadíssimo com a sugestão que ele pode estar somatizando suas dores. Pra ele, isso simplesmente não é uma possibilidade, já que seu preconceito lhe diz que psicólogos e psiquiatras são pra pessoas fracas ou loucas. E ele confunde as coisas, tadinho. Só porque a mente causa um sintoma não quer dizer que esse sintoma não seja real ou que não dói, pô! Claro que o sintoma existe, claro que dói. Apenas que talvez não seja o caso de amputar o pé (Louca Obsessão feelings), e sim de tomar antidepressivo. Mas ele não quis nem saber e se zangou que fui ao psiquiatra falar dele ao invés de me concentrar nos meus problemas.
Eu: Mas que problemas, catzo? Eu não sinto dor nenhuma! Eu fui ao psiquiatra porque preciso de um atestado. Eu não fui ao dermatologista porque estava com problema de pele!
Horas depois, mais calminho, o maridão disse que quem sabe, depois de feitos todos os exames físicos para detectar sua dor nos pés, se realmente nada fosse descoberto, talvez ele pensaria na hipótese remotíssima de suas dores serem psicossomáticas.
Eu adoraria fazer terapia de casal, ainda mais com um psiquiatra bonitinho, mas acho que metade do casal não compareceria às sessões.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

CRÍTICA: AVATAR / Feminismo e outras subversões na veia

Os espíritos puros da floresta acreditam num mundo melhor.

Todo mundo que leu minha cri-crítica do trailer (na realidade, era um teaser) sabe que eu não dava um tostão furado por Avatar. Fui ao cinema meio arrastada, sem vontade de assistir ao mega arrasa-quarteirão, só pra poder ver algum filme no final de semana. E me rendi completamente. Desde os cinco minutos iniciais, fiquei hipnotizada. Entrei sem querer naquele universo todo, mas entrei legal, como se estivesse num daqueles caixões do filme onde os personagens assumem seus avatares e não têm olhos pra mais nada. Amei. E vou lamentar sempre não ter visto essa joia em 3D, que deve ser sensacional.
Também é de se lamentar que James Cameron não filme com mais frequência. Foram doze anos desde que ele se declarou no topo do mundo ao levar o Oscar por Titanic. Neste meio tempo ele, que é canadense e estava no processo de se naturalizar americano, desistiu da cidadania após a reeleição do Bush, em 2004. E a sua ideologia pode ser vista em todos os seus filmes, que sempre têm grupos de idealistas lutando contra corporações gananciosas (Aliens, Exterminador do Futuro 1 e 2, O Segredo do Abismo). São grupos que pertencem ao sistema mas que se rebelam contra ele. Outro ponto em comum na obra de Cameron são as personagens femininas fortes, inclusive fisicamente. True Lies e sua estreia na direção, Piranhas 2, sejam talvez as duas únicas exceções. Não por coincidência, são também seu ponto baixo. Mas Titanic não esconde que os ricos são os vilões da história. E Avatar mais parece um panfleto contra a exploração. Não é que eu adorei o troço só porque ele defende tudo que eu defendo. Eu posso amar filmes que não têm nada a ver com a minha linha ideológica (Bastardos Inglórios, por exemplo; aliás, todos do Taranta). Mas sim, é muito mais prazeroso admirar uma obra que vai contra a corrente que uma que reforça o status quo.
O filme se passa 150 anos no futuro, num planeta chamado Pandora. Como a Terra é descrita como um planeta moribundo, os homens brancos que falam inglês americano vão sugar recursos de outros lugares. Pandora possui um mineral raro vendido por 20 milhões o quilo. O problema é que também tem gente que mora lá, os Na'vi, nativos grandões que vivem em harmonia com seu habitat. Pra poder explorá-los melhor, uma grande corporação manda cientistas para pesquisá-los e fuzileiros navais para coagi-los a "colaborar". Os cientistas, liderados pela chefa Sigourney Weaver, até são boa gente, e criam alguns avatares (que misturam características nativas com o DNA da pessoa que vai assumi-lo) para poder se infiltrar entre os Na'vi. O lindão Sam Worthington (que causou sensação com Exterminador do Futuro 4, mas eu vi primeiro num Macbeth australiano) é um fuzileiro paraplégico que aceita fazer o trabalho em troca de pernas novas. Sim, no futuro ninguém que tenha muito dinheiro será paraplégico. Acontece que Sam rapidamente gosta mais do seu avatar que da sua vidinha militar. Além do mais, ele se apaixona por uma Na'vi, interpretada por Zoe Saldana, a mesma que faz Uhura na nova geração de Star Trek. E aí começa um conflito de interesses: Sam serve a uma corporação que vai tirar de qualquer jeito o que os Na'vi têm, queiram eles ou não, mas ele sente-se mais alienígena que terráqueo ― o que não é incomum. Já vimos o herói branco se identificar mais com o “inimigo” e lutar ao lado dele em Lawrence da Arábia, Dança com Lobos, O Último Samurai etc. O chato é que ele é sempre o salvador da lavoura.
Mas Avatar complica um pouco a situação. Primeiro que, sozinho, Sam não é nada. Aliás, até que ponto ele é um homem branco, se seu avatar é o de um nativo? Ele passa por um intenso treinamento de três meses até se tornar um deles, e não quer voltar atrás. Segundo que não é bem ele que salva a pátria Na'vi. Não posso falar aqui quem ou o que é porque seria um spoiler. Você vai ter que ir ao cinema.
Avatar é o tipo de filme que os conservadores odeiam com todas as forças, feito por e para “liberais” (no sentido americano da palavra). Eu já assisti a uma palestra de um guru direitista (brasileiro) dizendo que a história que narra que os colonizadores exterminaram os índios é só mito, que no fundo os índios se mataram a si mesmos, e afinal, mesmo que algum selvagem tenha porventura morrido pelo bem de uma causa maior (a nossa!), quem estava aqui pra contar quantos índios morreram? Pode apostar que esses carinhas vão detestar Avatar. E sabe o pessoal que acha que aquecimento global é balela? Esses também. E aqueles que creem que os americanos fazem muito bem em empregar seu poder bélico para usurpar os recursos de outros povos (e lamentam que o Brasil não empregue os mesmos métodos com a Bolívia)? Mais uns que vão falar mal do filme. A boa notícia é que essas pessoas são da mesma patotinha. Não são grupos diferentes. Eles podem se dar as mãos e sair por aí cantando hinos de fuzileiros navais.
Dá pra interpretar Avatar como uma mensagem ludita, que ensina que o que é puro e harmonioso é o que é feito sem tecnologia, porque tecnologia equivale a armamentos pesados. Eu não preciso nem mencionar a ironia (e a hipocrisia) dessa mensagem vir de um filme que custou entre 300 milhões e meio bilhão de dólares, dependendo da fonte, e feito com efeitos de ponta por um dos cineastas mais tecnologicamente antenados de todos os tempos. Mas, francamente, tô me lixando pros efeitos especiais. É, eles são maravilhosos, claro. Mas já eram bárbaros em Exterminador do Futuro 2, e isso já tem quase vinte anos. Não sei se foram realmente melhorados de lá pra cá. Só sei que mentiram. Disseram (o James Cameron especialmente) que os efeitos gerados por computador barateariam o cinema. E aí o cara faz um filme caréssimo (não creio nem que vá se pagar).
E, se eu já n
ão tivesse adorado Avatar por vários motivos, ele ainda deve ser a aventura de ação mais feminista de todos os tempos. Não há apenas uma personagem feminina marcante, mas três. Quem lidera a equipe de cientistas é a Sigourney, durona e competente. O único piloto que se rebela e diz “Eu não vim aqui fazer isso” (cometer genocídio, suponho) é mulher (a Michelle Rodriguez, de Resident Evil). E Zoe, a heroína na'vi, é tudo que uma heroína pode ser. É ela que ensina ao herói tudo que ele sabe e, de quebra, ainda salva sua vida uma penca de vezes (e, quando ela vai à luta, faz aqueles barulhinhos que as mulheres árabes fazem com a língua. Mais um recadinho subversivo do Cameron). O único porém é que o guerreiro na'vi, quando pronto, logo depois de escolher o seu, hum, bichão voador (que será só dele a vida toda, e vice versa), também pode escolher sua mulher. Mas Sam quer que ela o escolha também. E, além disso, as duas “candidatas” sugeridas não são indicadas pela beleza, mas por serem boas caçadoras. Em nenhum momento menciona-se a aparência de Zoe. Seu momento “mulherzinha” é quando ela se pinta ― pra guerra! O herói certamente não se apaixona por ela pela beleza, mas por tudo que ela faz. Nisso também Avatar é subversivo: subverte os padrões de beleza. No começo, a gente acha os Na'vi (homens e mulheres) feiosos, desngonçados, “macacos azuis”, como os chamam os militares. Mas depois de um tempinho já os consideramos lindos e felinos. Não que isso importe. Nenhuma mulher do filme se preocupa com roupa ou maquiagem. Em nenhum momento alguma delas é avaliada pela aparência. Nenhuma mulher é julgada bonita... ou feia. Elas são julgadas por outras qualidades: inteligência, liderança, bravura. Coisa de homem, sabe?
Sem falar que há várias menções a “mamas” como algo bom, da natureza, e a “papas”, como algo bélico (o maior vilão, o coronel Stephen Lang, refere-se a ele mesmo como papa), que vira um conflito entre the mamas and the papas. E as mamas ganham! Isso fica explícito numa cena em que Zoe nina Sam (não seu avatar, mas o terráqueo): ela é grande, ele pequeno, como se ela fosse sua mãe. Olha, o roteiro é tão feminista que até deus é uma figura feminina.
Avatar me fisgou, e pra mim está fácil entre os melhores do ano. E aí, é preferível um filme anti-imperialista ou um pró-imperialista, como Guerra nas Estrelas? Fábula por fábula, eu fico com a fantasia de um mundo melhor.
Homofobia em Avatar? Leia aqui.