sexta-feira, 25 de março de 2011

GUEST POST: VIOLÊNCIA SEXUAL E FALTA DE EMPATIA

Uma leitora de SP que prefere se manter anônima me enviou um email. Eu pedi autorização para transformá-lo em guest post, e ela aceitou. Volto a falar lá embaixo.

Terça-feira foi a cerimônia de colação de grau da minha faculdade, organizada num local completamente fora de mão para qualquer um que não vá de carro. Para qualquer outra pessoa que vá de transporte público, o único caminho possível é descer numa estação de trem e andar mais 20 minutos a pé até o local.
Como eu não conhecia nada naquela região, mas já tinha uma noção de que aquelas redondezas poderiam ser perigosas, me preveni: entrei no Google Maps pra decorar o caminho que tivesse a melhor relação de rapidez e segurança e saí de casa num horário onde ainda conseguiria chegar antes de anoitecer.
A questão é que não dei muita sorte, peguei um trânsito monstruoso por causa de um acidente no corredor de ônibus e acabei chegando na estação de trem mais próxima do local quase às 19h, dando de cara com uma rua completamente escura e deserta. Nessas horas acho que já bate um medo em qualquer pessoa, e comigo não foi diferente: apertei o passo e saí em disparada pelo caminho que já havia decorado, sempre olhando por cima dos ombros para ver se não estava sendo seguida e suspirando de alívio a cada pessoa que cruzava por mim e passava direto, sem mexer comigo ou tentar fazer alguma coisa.
Olha Lola, acho que mesmo se eu tivesse chegado sã e salva, a experiência já teria sido ruim o suficiente. Eu só cruzei com homens, afinal é muito provável que nenhuma mulher que more ou conheça aquela região se aventure por ali, e as que só passaram por lá uma vez - como eu - não voltem nunca mais. E cada homem que cruzava o meu caminho virava uma ameaça em potencial na minha cabeça. Acho que toda mulher que já teve que caminhar por um lugar sem iluminação e deserto de noite sabe exatamente do que estou falando. Eu estava aterrorizada.
Eis que de repente dou mais uma olhadinha para trás e vejo um cara logo atrás de mim, surgido de não sei onde. Bateu um pânico, eu apertei ainda mais o passo, mas não deu outra, o cara foi mais rápido, agarrou o meu braço e me puxou para perto dele. Não sei dizer se ele estava armado ou não, sei que ele encostou algo que eu julguei parecido com uma arma na minha cintura, mas até aí, com o meu conhecimento completamente limitado de armas de fogo, podia ser até um pedaço de cabo de vassoura ou uma arma de mentira.
Lola, eu já fui assaltada antes, mas essa foi a primeira vez que um agressor me agarrou daquele jeito. Preciso dizer que eu gelei?
O cara começou com um papinho de "Olha pra frente, olha pra frente, não olha pra mim não, anda com calma aí que eu acabei de fugir da delegacia, tem uma viatura atrás de mim e se eles me verem sozinho vão me pegar". Eu só assenti com a cabeça enquanto ele segurava meu braço com força e me fazia andar colada nele, como se nós fossemos um casal de namorados.
Essa tortura durou uns 5 ou 10 minutos, não sei mensurar exatamente. Enquanto a gente caminhava ele ficou me perguntando meu nome, onde eu morava, de onde eu estava vindo, para onde eu estava indo... Eu enrolei e inventei a maior parte das respostas. De vez em quando ele dava um puxão no meu braço e duas vezes eu virei por reflexo para olhá-lo. Na primeira vez ele se alterou e ficou repetindo pra mim só olhar pra frente; na segunda vez ele deu um tapa e apertou a minha bunda enquanto me chamava de vagabunda e piranha e mandava eu olhar pra frente "senão as coisas iriam acabar mal pra mim". Eu nunca me senti tão mal e humilhada em toda a minha vida e nessa hora comecei a pensar que a qualquer momento ele iria me jogar num beco e me estuprar. Fiquei tentando segurar o choro com medo dele ficar com raiva e resolver "acabar logo com aquilo", ou com medo dele ser um sádico filho da p*ta com algum fetiche em ver mulher chorando. Eu tentava desesperadamente achar alguma saída praquela solução, mas a rua estava deserta, não havia nenhum comércio, nenhum lugar onde pedir socorro.
Quando nós estávamos a uns 200 metros de um posto de gasolina bem iluminado, ele me fez diminuir o passo e me prensou num poste comigo de costas e foi me encoxando enquanto me segurava pelos pulsos. Nessa hora eu comecei a pensar "já era", comecei a tentar me soltar e a chorar, tentei gritar mas a voz falhou completamente, me senti miserável, com o coração saindo pela boca. Ele ficou me xingando, me mandou ficar quieta, soltou meus pulsos e mandou eu abrir a bolsa e dar o celular, abrir a carteira e dar o dinheiro que eu tinha. Não sei se alguma coisa fez o cara mudar de idéia, ou se a intenção desde o começo era só me aterrorizar enquanto ele se divertia com isso, mas ele me liberou e me mandou continuar andando sem olhar pra trás.
Eu não tenho nem palavras pra descrever o medo, o pânico, a sensação de terror e impotência. Fui andando cada vez mais rápido até que saí correndo que nem uma louca, e três quarteirões depois já estava no local da cerimônia de colação. Acho que o choque me fez fazer as coisas no automático, vestir a beca, tirar as fotos... Só quando finalmente encontrei alguns colegas de sala (todos homens) e um deles perguntou se eu estava bem é que consegui dizer "fui assaltada". Isso mesmo, eu disse que fui assaltada, e não que um completo estranho se aproveitou de mim E me assaltou. Não sei porquê mas não tive coragem, estava me sentindo suja, horrível, miserável e muito mal comigo mesma por um estranho ter se aproveitado de mim daquele jeito.
E as reações foram muito diferentes do conforto que eu esperava e precisava naquele momento:
"Não foi nada de mais."
"Acontece com qualquer um."
"Ah, mas aqui é perigoso mesmo."
"Tá vendo, ficou dando bobeira."
"Você devia ter tomado mais cuidado."
"Você devia ter feito outro caminho."
"Você devia ter pego um taxi da estação até aqui."
"Ah, mas você é mulher."
De repente toda a culpa do acontecimento virou minha. É muito mais fácil colocar a culpa na vítima, não é? É muito fácil cruzar os braços, vender sistemas de alarmes, câmeras de segurança, cercas elétricas, dizer que o mundo é "assim mesmo" e falar que quem tem a casa invadida é porque não se preveniu o suficiente.
Imagino que se eu tivesse dito que o cara me deu um tapa na bunda e me encoxou, provavelmente iriam perguntar o que eu estava vestindo
E dizer que "acontece com qualquer um" é a pior falácia de todas. Todas as minhas amigas, sem exceção, já foram assaltadas mais de uma vez ou já sofrerem algum tipo de violência na rua. Em contrapartida eu nunca vi NENHUM amigo homem sofrer o mesmo tipo de violência. Não que homens não sejam assaltados ou não sofram violência, mas é muito mais fácil pra algum mal-intecionado abordar uma mulher sozinha que já morre de medo o tempo inteiro de sofrer alguma violência sexual, do que um cara que ele não sabe se vai querer ou não meter a porrada nele. Parece que as pessoas são míopes e não conseguem exergar o óbvio.
Eu não sei quem inventou a frase "todo o cuidado é pouco", mas a verdade é que pra nós mulheres todo o cuidado NUNCA vai ser o suficiente. Me revoltam essas pessoas que ficam querendo jogar a culpa na vítima ou que insistem no "poderia acontecer com qualquer um". Como é difícil fazer as pessoas verem além do senso comum e se empatizarem... Parece que só quem é mulher consegue se solidarizar e empatizar de verdade (e olhe lá!).
Depois dessas pérolas não tive coragem de contar pra mais ninguém toda a história, mesmo pras únicas pessoas que se mostraram verdadeiramente solidárias e não apontaram o dedo na minha cara: uma garota da minha sala que era da minha turma e os meus pais e parentes que estavam na colação.
Só no dia seguinte, depois de absorver melhor o fato, é que consegui contar essa história inteira pras minhas duas melhores amigas, que me entenderam e me apoiaram, e sinceramente, acho que só conseguiram fazer isso porque são mulheres e sabem o terror que é a ameaça de sofrer alguma violência sexual.
Desculpe o texto longo, Lola, mas eu precisava mesmo desabafar.

Agora sou eu (Lola). Fiquei indignada com este relato. Homens, só porque vocês têm o privilégio de não passarem por isso não quer dizer que não devem acreditar na gente quando dizemos: a ameaça de violência sexual está sempre presente na vida das mulheres. Sempre. Ainda mais numa rua deserta e escura. Como disse a leitora, homens também são assaltados e sofrem violência, mas ela raramente é sexual. Enquanto que pra mulher a violência raramente não é sexual. Dá pra entender a diferença? Dá pra se colocar no nosso lugar? Li uma vez, já faz tempo, que é uma tática de alguns assaltantes incluírem algum componente de violência sexual quando fazem de mulheres suas vítimas. Desta forma a vítima se sente envergonhada ou culpada e não dará queixa. Sim, vivemos numa sociedade em que uma mulher que foi estuprada ou abusada sexualmente é vista como suspeita, quando não automaticamente culpada pela violência que sofreu. Além do mais, uma vítima que passa pelo que passou a leitora sentirá um grande alívio por não ter sido estuprada. Ficará com a sensação de que poderia ter sido muito pior, e assim não denuncia. Vivemos num mundo feito inteirinho para que não denunciemos quem nos agride. Mas o que me choca mais é a falta de empatia. Uma mulher ser abordada à noite é sempre traumático. E o pior é que se a leitora tivesse contado tudo que aconteceu pros seus colegas eles falariam exatamente a mesma coisa: “Você devia ter tomado mais cuidado”. A culpa é nossa. Quem mandou nascer mulher?

quinta-feira, 24 de março de 2011

LIZ TAYLOR, A DOS OLHOS VIOLETAS

Fazia tempo que Elizabeth Taylor, que morreu ontem aos 79 anos, não filmava e só era conhecida por sua vida pessoal – sua excêntrica amizade com Michael Jackson, seu fascínio por diamantes (que eu sempre achei a maior besteira, mas é que eu não só não acho joias bonitas, como ainda as acho cafonas e inúteis), seu envolvimento na campanha contra a Aids. Mas na realidade eu nunca fui muito interessada na sua vida pessoal. Eu e todo mundo sabíamos dos seus oito casamentos (e eu sempre me perguntava: por que alguém quer se casar tantas vezes? Não é possível só namorar mesmo, morar junto?). Achava interessante ela ter se casado duas vezes com o grande ator que foi o Richard Burton, e sei dessas fofoquinhas inconsequentes como ela ter "tirado" (muitas aspas aí) o Eddie Fisher da Debbie Reynolds (Eddie e Debbie são pais da Carrie Fisher, a princesa Léa de Guerra nas Estrelas; eu sou um poço de cultura inútil). Aí, na década de 80, lembro de Liz ter casado com um caminhoneiro e se separado pouco depois. Era o tipo de coisa que saía na revista Manchete.
Lembro que todo mundo falava dos seus olhos violeta, e eu sempre tentava ver se os olhos eram mesmo dessa cor (acho que eram sim, não eram azuis, eram diferentes). Eu a achava bonita mas de um jeito comum, não uma Ava Gardner. Aí uma vez eu fiz um curso de roteiro de cinema com o cineasta Ícaro Martins (de O Olho Mágico do Amor), e a gente ficou um tempão discutindo se a Elizabeth era ou não uma grande atriz. Não sei por que discutimos isso, mas a nossa conclusão foi que ela era, sim. Das grandes.
Um pouquinho subestimada, claro. Cleópatra foi um dos filmes mais caros de todos os tempos, fracassou na bilheteria, e Liz foi culpada por isso. E seu primeiro Oscar foi meio uma premiação de piedade, por ela estar doente. Disque Butterfield 8 não tem nada de memorável. Mas pô, ela fez Quem Tem Medo de Virginia Woolf! Ela era muito nova pro papel de mulher de meia idade que tem um relacionamento um tanto doentio com o marido, mas mesmo assim esteve excepcional. O elenco todo (os quatro) é incrível, a peça de Edward Albee é o máximo, mas pra mim Liz é a alma do filme. Esse seu segundo Oscar em 66 foi mais que merecido.
E ela fez dois filmes baseados em peças de Tennessee Williams, dois papéis difíceis: Gata em Teto de Zinco Quente, suspeitando que seu marido Paul Newman é homossexual, e De Repente No Último Verão (55). Tudo bem que Maggie the Cat em Gata é um grande papel pra qualquer atriz mas, por mais que eu ame Williams de paixão, De Repente é um pouco trash, muito over, vai. Eu adoro a peça e o filme. Só que a história de uma moça que vê seu marido gay sendo comido vivo por jovens e depois é ameaçada de ser lobotomizada pela sogra é rocambolesca demais.
De Assim Caminha a Humanidade ninguém se lembra de nada além do James Dean. Mesmo assim, Liz está ótima em Um Lugar ao Sol, um grande filme em que seria fácil ela desaparecer diante de papéis mais suculentos, como o da Shelley Winters e do protagonista Montgomery Clift.
Não se pode esquecer que Liz foi uma atriz mirim, do tipo que vê sua carreira deslanchar tão rapidamente quanto sumir (Jodie Foster é exceção, não a regra). Lembro dela em Lassie e naquele um com cavalos, National Velvet. E nessas besteirinhas que são O Pai da Noiva (1950). Ah sim, e No Caminho dos Elefantes, isso porque eu via o Cinemania com o Wilson Cunha.
Esqueci quase tudo de A Megera Domada e, do ousado mas não muito bom O Pecado de Todos Nós só me vem à mente o Marlon Brando. E acho que o último filme que vi com ela foi sua breve aparição nos Flintstones, em 94.
Ela era um símbolo de uma era de Hollywood que morreu faz tempo. E o incrível é que, apesar de sua saúde frágil, ela enterrou todas as lendas vivas com quem contracenou: James Dean, Montgomery Clift, Rock Hudson, Richard Burton, Marlon Brando, Paul Newman... Não vou dizer que ela foi a última diva de um tempo que não volta mais porque Lauren Bacall (e a própria Debbie Reynolds) ainda vive. Mas sem dúvida Liz é um mito.

quarta-feira, 23 de março de 2011

QUEM QUER LER MINHA TESE SOBRE IRONIA EM LOLITA?

Faz um tempão que estou pra escrever um (ou mais) post sobre a minha tese de mestrado, defendida em 2005. Gosto dela porque trata de temas queridos pra mim: cinema, literatura, Nabokov, Lolita, Kubrick, ironia, narração em off, essas coisas. Você pode lê-la na íntegra aqui, em inglês. Mas, pra que você possa se situar um pouquinho (e porque sei que não é todo mundo que tem tempo ou vontade de ler uma tese de cento e poucas páginas, por mais interessante que ela seja — e, sem falsa modéstia, minha tese ficou bem interessante), vou falar dela um tiquinho.
Então, a tese recebeu o título de “What have they done to Lolita? The transposition of irony from Nabokov's novel to Stanley Kubrick's and Adrian Lyne's film versions” (“O que fizeram com Lolita? A transposição de ironia do romance de Nabokov às versões fílmicas de Stanley Kubrick e Adrian Lyne”). Essa primeira parte do título é uma referência ao trailer do filme de 62, que perguntava algo parecido, “como fizeram um filme de Lolita?”.
O livro do Nabokov é hoje considerado um clássico indiscutível, mas, claro, nem sempre foi assim. Em 1955, quando o escritor russo tentou publicá-lo, foi recusado por várias editoras. Quando finalmente conseguiu, virou uma espécie de sucesso-escândalo, e foi censurado em muitos países. Eu só vim a lê-lo quando adulta, e fiquei imediatamente hipnotizada por ele. Nem tanto pelo tema, mas pelo estilo. Lolita é um dos romances mais lindamente escritos que já li. Nabokov é um exemplo pra qualquer um que pensa que jamais vai dominar uma língua estrangeira. O inglês (Lolita está escrito em inglês) não foi nem sua segunda língua, mas sua terceira, depois do russo e do francês. E, no entanto, são poucos os autores americanos, ingleses, canadenses, australianos, sul-africanos etc (qualquer autor de país que tenha inglês como língua nativa) que têm um inglês tão rico quanto o de Nabokov. Lolita é praticamente uma declaração de amor à língua inglesa.
Lamento dizer que Lolita é também dos romances mais divertidos que li. É chato atestar isso (faz com que eu pareça uma sádica insensível), porque o livro trata de mil e um assuntos trágicos, principalmente do abuso infantil. Pra quem não conhece a história, quem a narra é um professor de 38 anos chamado Humbert Humbert. Humbert é um pedófilo. Só se interessa sexualmente por meninas com menos de 12, 13 anos. Ele atribui sua predileção a uma paixão de infância, quando ele era um garoto e se apaixonou por Annabelle. Só que ele cresceu, e suas obsessões, as ninfetas (termo inventado por Nabokov), seguiram na mesma idade. Ele vai parar nos EUA, onde aluga um quarto numa casa. Lá mora Charlotte, uma mulher que ele considera vulgar, e que ele topa tolerar pra ficar perto de sua filha, Dolores, ou Lola, ou Lolita, uma menina de 12 anos. Ele fantasia colocar remédio pra dormir na bebida das duas, pra poder abusar de Lolita sem que ela perceba. E até se casa com Charlotte, pra ficar perto de seu objeto de desejo. Logo ele descobre que o plano de Charlotte é mandar Lolita pra um colégio interno. Charlotte lê o diário de Humbert e, entre enojada e revoltada (com justiça), sai de casa. Na rua, é atropelada e morre. Humbert aproveita para mentir para seus poucos conhecidos jurando que, na realidade, é o pai de Lolita. E vai buscá-la no acampamento de férias. Logo Humbert está transando com Lolita e viajando com ela pelos EUA, sem perceber que um outro pedófilo, Quilty, os segue.
Quer dizer, contando a história assim, é horrível, eu nem discuto. Mas não dá pra cruficificar um autor, um livro, um filme, pela sua trama. Na vida real, Nabokov não era um pedófilo. Sua obra-prima não serve pra validar toda uma cambada de estupradores. O pior que o livro fez foi criar termos como Lolita e ninfetas, usados para que homens adultos babem de desejo por meninas menores de idade — o que simplesmente deveria estar fora de cogitação pra qualquer pessoa consciente. Mas o incrível do livro não é tanto do que ele fala, mas como está narrado.
Seu narrador e protagonista, Humbert, é um monstro, não há dúvida. Não apenas por transar com uma menina, mas por pagar-lhe, de vez em quando, para que ela aceite transar com ele (e depois roubar-lhe o dinheiro), e por se aproveitar de que ela não tem lugar pra ir. E, pior, se é que pode ser pior, por pensar no que ele fará quando Lolita completar uma idade (lá pelos 15, 16 anos) que ele não acha mais desejável. Ele cogita até engravidar Lolita para que ela lhe dê uma filha que ele também poderá estuprar!
E como isso tudo é engraçado? Bom, pois é, é o jeito como está contado. Humbert se leva a sério, mas no fundo é um paspalhão. Em inúmeras passagens, Lolita soa mais esperta que ele — o que é estranho, já que a narração é todinha de Humbert. Ele se acha um poeta apaixonado, e justifica seu desejo por ninfetas citando outros loucos, como Edgar Allan Poe e Dante, que também tiveram suas Lolitas (mas Humbert omite que eles eram meninos quando se apaixonaram por suas meninas). Além disso, o livro começa com o (falso) testemunho de um psiquiatra, que decide publicar os diários de Humbert, morto num hospício. Em várias ocasiões, Humbert se refere a nós, seus leitores, como “senhoras e senhores do júri”, e tenta convercer-nos que o que ele fez foi por amor. O tom do romance, do início ao fim, é totalmente irônico. Lolita é frequentemente usado para ilustrar um modelo de ironia. Kubrick, tão gênio na sua área quanto Nabokov na dele, decidiu transformar Lolita em filme em 1962. Deu tudo errado. Hollywood ainda adotava a auto-censura imposta pelo Código Hayes, e Kubrick teve que reescrever o roteiro um monte de vezes. Foi obrigado a transformar Lolita numa garota de 15 anos (interpretada por Sue Lyon, que pode parecer mais velha), e a descartar qualquer trecho menos sutil. Sem falar que, em 62, Kubrick ainda não era o monstro sagrado que se tornou após fazer Doutor Fantástico, 2001, Laranja Mecânica, Iluminado e Nascido para Matar. Era o início de sua carreira, mesmo que ele já fosse respeitado por dirigir O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue e Spartacus. Mas Kubrick admitiu depois que, se soubesse dos obstáculos que teria que enfrentar para fazer Lolita, não o teria feito.
Ainda assim, o Lolita de Kubrick é uma graça. James Mason emprega o toque de humor negro no seu Humbert, Sue está muito bem, e Shelley Winters rouba todas as cenas como Charlotte. Mas o meio que Kubrick escolheu para driblar a censura e contar a história foi dar mais destaque a Quilty, aqui interpretado por Peter Sellers, a lenda. O que concluo na minha tese é que, embora o Lolita de Kubrick não seja fiel ao livro no que se refere à trama, ele capta o espírito irônico do romance de Nabokov. É péssimo falar em fidelidade e espírito, porque a gente cai na tentação de crer que uma obra contem uma essência que deve ser seguida (e não de ser uma obra sujeita a interpretações múltiplas). Os estudiosos de cinema dizem que é errado insistir em fidelidade. Mas, ao mesmo tempo, continuam comparando filmes e livros e falando em fidelidade. Não é fácil escapar.
Em 1998, 26 anos depois de Kubrick, Adrian Lyne quis fazer o seu Lolita (veja o trailer). Lógico que Lyne nunca teve um décimo da reputação daquele que é elencado como o segundo diretor mais consagrado da história do cinema (geralmente atrás apenas de Hitchcock). Pelo contrário, Lyne é mais conhecido por sucessos comerciais (e polêmicos) como Flashdance, 9 ½ Semanas de Amor, Atração Fatal, e Proposta Indecente. Ele viu Lolita como sua chance de redenção, de fazer um filme de arte, que fosse levado a sério. Não conseguiu muito. E, tal como Kubrick, também teve problemas com a censura. Os anos 90 foram marcados pela luta contra a pornografia infantil. Clinton havia acabado de proibir que qualquer filme usasse uma criança numa relação sexual, mesmo que fosse um dublê. O Tambor (vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 79), por exemplo, mostra uma cena de sexo implícito entre duas crianças. E foi recolhido em algumas locadoras nos EUA nos anos 90. Por causa de toda essa atenção, que em casos como o do Tambor beiravam à histeria, Lyne penou até encontrar uma distribuidora. Lolita foi lançado nos EUA oito meses depois de passar na Europa, o que fez Lyne reclamar: “Se eu estivesse fazendo um filme sobre uma menina de 13 anos que é cortada em pedacinhos por um canibal, eu não teria problemas com a censura”.
O Lolita de Lyne é sério até a medula. Narrado em off por um Jeremy Irons atormentado (e arrependido pelo mal que causa a Lolita), com Melanie Griffith como Charlotte, Frank Langela (de Frost/Nixon) como Quilty, e Dominique Swain como Lolita (ela tinha a idade de Sue Lyon, mas parece mais nova, e Lyne a veste com trancinhas e aparelho nos dentes), o filme segue as mesmas palavras e ações do livro. A diferença, gritante, é o tom. O Lolita de Lyne não é irônico.
Adoro essa citação que peguei de uma revista eletrônica chamada Suck (minha tradução): “[no livro] cada perversão, cada abuso, cada dia que Humbert mantem Lolita prisioneira é visto como poesia de Keats. O livro nunca condena Humbert; ele o celebra. É o que se chama ironia, grande como um celeiro, e Lyne não entendeu isso de um modo tão gritante que a gente não sabe como um cara com tão pouca visão pode ser habilitado a dirigir um carro”.
Mas, pra falar de como o livro e o filme de Kubrick são irônicos, e como o filme de Lyne não é, antes preciso tratar de ironia. Num outro post, pois este já tá quase tão longo quanto a minha tese.
Leia aqui: 60 anos de Lolita, um livro maravilhoso sobre um tema terrível.

terça-feira, 22 de março de 2011

RESPOSTA AO RAPAZ QUE SE ACHA TÃO ESPECIAL

No post que escrevi sobre os masculinistas, entre as dezenas de aberrações em forma de comentários que recebi (os repetitivos eu apaguei), este me chamou a atenção. É de um tal de Lord Insanus (nome bastante adequado). Não alterei nada no comentário, tudo sic, nem a paixão pelas maiúsculas:

Olha só, EU NÃO SOU FEMINISTA NEM MASCULINISTA. Acho que as mulheres devem ter sua liberdade(inclusive o fim do casamento arranjado foi ótimo PARA HOMENS E PARA MULHERES QUE NÃO SÃO MAIS OBRIGADOS A CASAR À FORÇA PELOS PAIS), contudo POR EU POSSUIR A MINHA LIBERDADE ASSIM COMO AS MULHERES TEM AS DELAS eu não me casaria com uma mulher vadia (sim elas existem!!!). Então se uma mulher resolver sair por aí curtindo o sexo à toa bom pra ela (eu até gosto, teria mais opção sexual), mas nem por um acidente eu me casaria com uma mulher assim (POR ESCOLHA PESSOAL MINHA E SOMENTE MINHA) assim como, segundo vocês mesmas dizem não gostam de homens cafajestes. E NÃO VEJO NENHUM MACHISMO NA MINHA ATITUDE POIS É UMA QUESTÃO DE ESCOLHA E DE LIBERDADE PESSOAL”.

Adoro quando alguém fala um amontoado de besteiras e termina dizendo “Não vejo nenhum preconceito/machismo/racismo/homofobia/gordofobia etc etc na minha opinião/atitude porque é só minha escolha pessoal”. Bom, começando, porque estou curiosa: o que é uma “mulher vadia”? Você certamente acredita que elas existem, ou não teria jogado fora três pontos de exclamação. Uma mulher vadia é uma que gosta de sexo? Imagino que não, pela sua definição. Afinal, suponho que quando você estiver casado com a sua esposa recém-saída da virgindade, você achará de bom tom que ela goste de sexo (só com você, lógico). Então uma mulher vadia deve ser a que tem vários parceiros. Quantos, assim? Há uma fórmula exata, uma equação que a gente possa fazer pra determinar cientificamente se uma mulher é ou não vadia? E se a mulher tiver mais de um parceiro ao mesmo tempo, ela é mais vadia que uma mulher que tenha 24 parceiros por ano, digamos, dois por mês? E se de repente ela pular algum mês, ela deixa de ser vadia naquele prazo? Não, né? Aposto que não importa se ela teve vinte parceiros num ano e depois apenas um pelos próximos 50 anos. O que conta são aqueles vinte. Porque fazer sexo deve gastar muito! E também, imagina você, a mulher que transou com dois ou cinco ou vinte ou cem deu pra eles, permitiu ser usada. Como mulher não gosta de sexo, pregam os mascus, ela só pode ter transado esperando alguma coisa em troca. E não há a menor possibilidade que ela quis, que ela procurou, que ela não foi passiva (“dar” é uma palavra meio passiva, não acha?), que ela “usou” tanto ou mais do que “foi usada”. Aliás, falar em uso já remete a essa ideia absurda de gasto. Vou revelar um segredo pra você: a gente (nem homens nem mulheres) não nasce com um número máximo de transas, com um placar oculto que fica marcando quantas vezes a gente foi pra cama com alguém. Não é assim que funciona. E nossos órgãos sexuais são bem elásticos. Eles não gastam não, coração.
E se já é difícil decifrar o que diabos seria uma mulher vadia, eu gostaria de saber o que é um homem vadio. Ele existe? Porque eu desconfio (e recomendo que você faça o mesmo) de termos que só existem para um dos gêneros, sabe? Inclusive quando há tantos termos ofensivos para mulheres baseados apenas na sua sexualidade (por exemplo, existem duzentos termos em inglês pra chamar mulher de promíscua, e só vinte para o homem -- sendo que os termos pros homens são elogiosos, não ofensivos!). Mas, pra falar a verdade, eu nunca conheci alguém que use termos como “vadia”, “vagabunda”, “piranha”, “galinha” que acredite que a liberdade sexual das mulheres deva ser a mesma que a dos homens. Não. Pessoas que empregam esses termos costumam crer que mulheres não gostam de sexo, apenas o toleram, que homens têm alguma missão incontrolável de espalhar a sementinha (e vocês contam com toda uma ciência pra dar suporte a esse conceito), e que é assim que os homens são (e que as mulheres não são), então fazer o quê? Se você nasce com um pênis, você recebe uma espécie de certificado de privilégio de poder transar com quem e quantas (quantos é outra história) quiser sem ser julgado por isso. Claro, talvez seus amigos te critiquem se você transar com uma mulher fora do padrão de beleza. Mas você certamente não ficará mal falado por isso, principalmente se compensar com uma mulher bonita pra exibir. Já as mulheres precisam cuidar de suas vaginas como se tivessem a chave do tesouro secreto. Devemos ser super-duper-hiper seletivas porque, né, a gente não pode entregar esse tesouro pra qualquer um. Porque vagina é diferente de pênis. Vagina a gente só tem uma, enquanto o homem tem uma infinidade de pênis. Opa, desculpe, me confundi com as sementinhas. Porque tudo na nossa vida sexual é movido pelo instinto de engravidar (e já falei da ciência que vocês têm pra validar essas ideias?).
Esse modelo de sexualidade que você defende até podia combinar com os anos 50. Mas meio século depois, ele soa um tanto datado. A virgindade de uma mulher ainda era assunto quando eu era adolescente, na década de 80. Hoje, felizmente, vejo cada vez menos gente dando importância a esse “lacre de validade”. Só gente muito, muito conservadora, da espécie que acredita que o mundo era lindo e maravilhoso até os anos 60, e que hoje, depois de todas as reinvindicações por direitos iguais das minorias, ele está um lixo.
Agora vamos falar do orgulho que você demonstra por ter sua liberdade baseada unicamente na sua escolha pessoal. Desculpe te decepcionar, mas por que você se acha tão único e individual, cara pálida? Quem colocou na sua cabecinha que as suas opiniões são suas? Você faz o que o senso comum te manda fazer desde o seu primeiro dia de vida, que é igual ao que falavam pro seu pai e sua mãe fazerem, e se estende aos seus avós e bisavós, e você pensa, “Putz, graças a deus que tenho minhas escolhas pessoais!”?! Sério que você faz exatamente tudo que te mandam, tudo que teus pais fazem, tudo que a mídia ensina assim que você liga a TV, e você ainda se considera livre?
Além do mais, há diferenças entre seguir a sua “escolha pessoal” (que de pessoal não tem nada) e decidir que você só quer casar com uma mulher virgem porque você é inseguro pra caramba e não admite comparações e chamar de vadia qualquer mulher que não seja virgem. É aquele negócio: você pode não se sentir sexualmente atraído por uma mulher gorda porque o seu “gosto pessoal” foi construído em cima de um padrão de beleza absolutamente estanque. Tudo bem. Você não precisa transar com uma mulher gorda (ela provavelmente nem está muito a fim de você). Mas daí a sair xingando uma mulher gorda ou xingando quem transa com uma mulher gorda vai uma certa distância, não acha?
Mas você quer tudo. Você quer chamar mulheres que saem “por aí curtindo o sexo à toa” de vadias e não aceita ser chamado de machista. Aí já não é possível, filho. Você tem todo o direito a sua “escolha pessoal”, mas você deve entender que há consequências. Dividir mulheres entre as boas pra casar e as boas pra transar é machismo. Achar que você pode sim curtir o sexo à toa, por ser homem, mas mulheres não podem, é machismo. Até pensar que mulheres que gostam de sexo vão necessariamente querer transar com você (o que você quer dizer quando menciona que teria mais opção sexual) é machismo.
Portanto, ache o que quiser, case com quem quiser, mas seja honesto: não se considere tão especial. E, minha dica: apague do seu vocabulário termos ofensivos referentes à sexualidade feminina. A menos que você não se incomode de ser chamado de machista.