segunda-feira, 15 de março de 2010

O ESTUPRADOR HEROÍCO E A VÍTIMA DOMESTICADA

Compare o estupro de homens por homens em Amargo Pesadelo ou Pulp Fiction com o estupro de mulheres por homens em Sob o Domínio do Medo ou Vestida para Matar. Quando o estupro tem vítimas homens, o filme não sugere de forma alguma que eles gostam. Não é bonito de se ver. Não é feito de jeito nenhum pra excitar o público masculino. Mas, no caso que algum doente se excite, a vítima (Ned Beatty) em Amargo Pesadelo é pintada como rechonchuda e chorona ― feminina, enfim. O que importa mesmo em ambas as cenas, mais em Amargo Pesadelo, menos em Pulp Fiction (porque antes da vingança há um prelúdio divertido e paródico em que Bruce Willis escolhe a arma apropriada para liquidar seus algozes), é o alívio proporcionado pelo homem que vai matar os criminosos. Criminosos que são caipiras, transgressores, kinky ― que não aprenderam que estupro socialmente aceito é o de mulheres. No mais longo de todos os estupros, em Irreversível, não há nenhuma sugestão que a Monica Bellucci está gostando, mas ainda assim é uma cena horrível, pra voyeur ver. Precisa mostrar nove intermináveis minutos de um estupro na tela? Pra quê?
Um dos trechos mais fascinantes de Against our Will (Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro), clássico feminista dos anos 70, é o capítulo 9, “O Mito do Estuprador Heroíco”. Susan Brownmiller diz que o principal horror de uma cena como a de Laranja Mecânica não é pela mulher que está sendo estuprada por um rapaz de nariz gigante que corta a roupa dela com uma tesoura, mas pelo marido que é forçado a assistir tudo. O tema de que o estupro de uma mulher é um trauma terrível pro marido/pai/filho daquela mulher (muito mais que pra ela em si) é comum. Segundo Susan, existe um “uso de estupro como uma expressão da masculinidade, indicação de mulheres como conceito de propriedade, e como um mecanismo de controle social para manter as mulheres na linha”.
E como se cria um
mito aceitável, pronto para a degustação masculina? Um exemplo: o Barba Azul original, Gilles de Rais (que lutou ao lado de Joana D'Arc), adorava sequestrar, estuprar e matar meninos. Ele fez entre 40 e 100 vítimas, e foi executado no ano de 1440. Como essa lenda não é palatável (violentar meninos? Eca!), ela foi adaptada para Barba Azul e suas Sete Mulheres. Porque barbarizar mulheres, vítimas “naturais”, tudo bem. O mesmo com Jack o Estripador, ou o Bandido da Luz Vermelha. São heróis mitológicos porque estupraram mulheres. Note como pouco se fala das vítimas de Jack, porque quem liga pra prostitutas?
Brownmiller conta como os Rolling Stones, The Doors e Jimmi Hendrix dev
em parte do seu sucesso à glorificação que fizeram com a violência sexual contra a mulher. O celebrado jornalista Hunter Thompson mitificou os motoqueiros dos Hell's Angels por isso também. É o que fazia o escritor Norman Mailer dar palestras em universidades dizendo que “um pouco de estupro faz bem para a alma do homem”.
Por outro lado, se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua femininidade. A mulher é uma cockteaser (quem provoca o pênis, mas, na hora H, não quer aceitá-lo). As vítimas de estupro aprendem a sentir-se culpadas. A
lguma coisa elas fizeram pra merecer isso. Para Susan, “Força, ou a ameaça da força, é o método usado contra a mulher. O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que ela, mulher, foi treinada desde a infância a temer. Ela não está em pé de igualdade nesta competição. A femininidade a treinou para perder”. Ao mesmo tempo, cerca de 25% dos estupros conseguem ser impedidos pelas vítimas, e há bons indícios de que isso ocorre porque as mulheres reagem. Estupro é um dos poucos crimes em que as vítimas talvez devam reagir. Obviamente, os estudos mostram que, quando o agressor está armado, ou quando há mais de um estuprador, as vítimas tendem a não reagir, na esperança que o horror termine logo e que elas saiam disso com vida.
Mas talvez uma das frases mais chocantes de Susan seja esta: “Mulheres são treinadas para serem vítimas de estupro”. Os contos de fada que ouvimos, antes mesmo de aprendermos a ler, já trasmitem um perigo abstrato. O que é Chapeuzinho Vermelho se não uma fábula de estupro? Chapeuzinho aprende a lição, a
pós ser salva pelo caçador: “Nunca mais na minha vida andarei sem rumo pela floresta”. Os Três Porquinhos derrotam o Lobo Mau sozinhos porque são machos. Já Chapeuzinho e sua avó têm que ser salvas por um outro macho.
E a Bela Adormecida? A passividade de Chapeuzinho é fichinha perto dela, que dorme durante cem anos antes de ser resgatada pelo beijo de um príncipe. Branca de Neve, Cinderela, é tudo igual. Ensinamos às nossas meninas a preciosa lição sobre o que constitui ser mulher, a essência da femininidade: ser passiva e bela. Seguindo esses preceitos básicos, o Príncipe Encantado chegará. Se o lobo chegar antes, não reaja. Com sorte um caçador viril e corajoso te salvará.
Susan afirma que aprendemos o seguinte: “Toda mulher quer ser estuprada. Nenhuma mulher pode ser estuprada contra sua vontade. Ela pediu. Se você for estuprada, relaxe e goze”. Esses são os mitos em que os homens acreditam, e que a gente ouve o tempo todo, de um jeito ou de outro (“ah, vestida assim, ela tá pedindo”, “estupros nada mais são que mulheres que
mudaram de ideia depois do ato”). Isso é tão repetido pra gente que muitas mulheres acabam acreditando.
O importante é que esses mitos que escutamos desde a infância funcionam. Serv
em para nos acomodar, para não reagirmos, para vivermos com medo, e, quando for inevitável, para sentirmos que a culpa foi nossa, não do estuprador. Pois é. Como diz Susan, “Fazer uma mulher uma participante da sua própria derrota é meia batalha ganha”.

49 comentários:

Haline disse...

Lola, as vezes fico pensando que uma ação feminista seria montar grupos de ensino da auto-defesa. Os meninos crescem aprendendo a lutar, alem da força natural do corpo. Duvido que uma mulher com noções de luta e auto-defesa não consiga se livrar de um estuprador. Os homens meio que são ensinados a brigar. Se um cara mexe com a garota "deles", eles vão lá e brigam. São eles que defendem. Acho que as mulheres tem q se defender tambem. Pq ne? O ser humano tem esse lance agressivo. A gente precisa se proteger.

L. Archilla disse...

vamos ver quantos minutos vai demorar pra aparecer alguém dizendo que tem mulher que tem a fantasia de ser estuprada.

Giovanni Gouveia disse...

Sobre o "relaxe e goze", há quem diga que a mente doentia dos estupradores se a mulher simula estar gostando faz com que eles percam o interesse e se mandem, já que o fetiche está justamente em subjulgar à força a vítima.
Já viu alguma discussão sobre isso, Lola?

Mas, concordo com Haline, inclusive tenho uma amiga que quase mata um...

Introspective disse...

Lola, vc sempre me surpreende! Ótima reflexão (embora o tema em si não seja exatamente agradável). Adoro quando vc desmonta as camadas de mensagens subliminares que estão por trás das coisas.

Mari Moscou disse...

Pois é. Me lembrou o texto que traduzi outro dia no meu blog, na seção de política, com dados de pesquisas no reino unido sobre a culpabilidade no estupro... Interessante.

By the way, a proposta do meu guest post continua de pé?

Jux disse...

Concordo com a Haline mas ainda acho que tem mais uma lição importantíssima a ser ensinada também: os meninos/homens tem que aprender que as meninas/mulheres são SERES HUMANOS - iguais a eles RÁ! - e que não são objetos a serem submetidos à vontade e autoridade deles.

Tipo, beleza, o cara vai lá e briga com os outros caras que mexeram com a garota "dele" sendo que PORRA!!! NÃO tem que mexer com mulher nenhuma, esteja ela sozinha ou acompanhada.

No fim, num caso desses, por exemplo, são os homens - o dela e os outros - brigando pela posse do corpo/vontade que é DELA! BARALHO!!! É ELA quem decide com quem fica e não fica!!!

São dois frontes de batalhas a serem trabalhados igualmente: ensinar as mulheres a se defenderem SIM e ensinar aos homens que ISSO (ESTUPRO, VIOLÊNCIA, HUMILHAÇÃO) SIMPLESMENTE NÃO SE FAZ.

Cantinhos da Surpresa disse...

Lola, esse lance é polêmico, pra mim nenhuma mulher gosta, pois está perdendo a liberdade de todas as formas possíveis, concordo com Haline as mulheres devem aprender a se defender é o melhor pra nós mesmas.
P.S
Lola passa lá no meu blog tem uma surpresa pra vc ;)
http://shylion85.blogspot.com/2010_03_01_archive.html

Iara disse...

Tão bom esse post. Porque eu concordo, muito que as mulheres são educadas pra não reagirem. Inclusive já vi e-mails circulando, de policias, dizendo que a maior parte dos estrupadores não anda armada e que a mulheres deveriam tentar reagir, sim. Que os caras normalmente não querem dificuldade. Tanto que raramente atacam uma mulhere que esteja portando qualquer coisa que pode servir de arma, tipo um guarda-chuva.

Eu sempre fiquei chocada com relatods de mulheres que são assediadas em trens lotados, por exemplo. Como a vergonha as impede de fazer um escândalo. Eu já afastei cara que tentou encoxar só com uma cara feia.

O que mais me irrita é o círculo vicioso que isso representa. As mulheres não reagem porque são educadas pra passividade. E como não reagem, se sentem ainda mais culpadas, e o mito de que são responsáveis é fortalecido. É tão difícil romper essa cadeia de abuso da qual as mulheres são reféns. E a gente precisa ter tanta sensibilidade para não fazer julgamentos. E sensibilidade é algo que está tão em falta!

aiaiai disse...

Eu não consigo imaginar situação mais horrível do que ser estuprada.
Sexo é uma delícia, mas apenas quando a gente realmente deseja. Se não é desejo é nojento, violento e cruel.
Concordo que as mulheres e os homens são educados para pensar que o estupro é uma ação normal na vida. O estupro pode não ser sexual, tem várias formas de subjulgar uma mulher.

Pessoalmente devo dizer que jogo capoeira. Mas não sei se reagiria a um homem armado. Talvez não.

Conheço uma mulher que reagiu, porque percebeu que o cara não iria conseguir disparar, ja que estava envolvido em agarrar ela. Deu um chute no saco (deve ter sido com muita força) e saiu correndo.

Tem outra história que é interessante: uma amiga, que sempre andava em onibus cheio no rio, resolveu ter sempre a mão um broche. Chegou a espetar uns tantos quantos que se aproximavam desrespeitosamente do seu traseiro (essa minha amiga tem um corpo lindo). Eu achei a estratégia dela ótima, até porque servia um pouco como ensinamento. Depois de levar uma agulhada, no mínimo o infeliz ficava com medo de tentar com outra.

Acho essa solução melhor do que separar vagão do metro, como se fez no rio.

Agora, pensa bem, uma cidade ter que colocar vagão exclusivo para mulher no metro porque os homens acham que tem o direito de encoxar as mulheres é o fim, né não?

tania disse...

Melhor texto que li aqui até agora. Concordo em todos os pontos. Sobretudo, é incrivelmente decepcionante ver que mesmo em departamentos acadêmicos povoados por doutoras o grande mérito reconhecido às mulheres até hoje, mesmo lá (digo, aqui), é o de serem "afáveis", ou seja, facilmente manipuláveis por uns poucos homens, que geralmente nem sequer chegam a ser mais inteligentes ou competentes do que elas. Nem estudo nem título nem mesmo isonomia salarial resolve, enquanto as mulheres não se tocarem de que não precisam ser sempre 'boazinhas' e andarem sempre desesperadas atrás de aprovação masculina. "Belas e passivas", é isso mesmo.
Abraços

Charlie disse...

“ah, vestida assim, ela tá pedindo”
ja ouvi muuuito isso,principalmente de mulheres.Dói ouvir isto.

Charlie disse...

ah querem uma dica pra se proteger?mete um soco no pomo de adão do infeliz.Uma colega minha que foi assaltada reagiu e fazia artes marciais,meteu um soco no pescoço do bixo e ele caiu no chão,ficou agonizando roxo e sem ar.Faria isso sem DÓ.

Mari Biddle disse...

Eu ja pensei nisso de grupos de auto-defesa igual a Haline falou la acima. Homens nao saem por ai batendo em outros homens com a mesma 'coragem' que batem em mulheres por medo de levar um boa surra. Eu sei que pelo lado da violencia a gente soh se da mal mas, serah que se soubessemos defesa pessoal nao ajudaria?

Isabela Campoi disse...

Alguém disse sobre os vagöes do Rio: sempre achei um tremendo absurdo. Pobre sociedade que precisa de uma lei separando os gêneros. Pra mim é atitude misógina também, mas de alguma forma ao contrário da clássica...hehe...
Eu gosto muito de sair e viajar sozinha. Sabe os pauzinhos japoneses? Uso pra amarrar o cabelo, mas também como arma. Espetar aquilo na barriga, meio escondido do cara, faz ele se safar rapidinho. Já usei mais de uma vez e o efeito foi imediato. A dica do broche também é ótima...rss... Eita, já temos vários subsídios para organizar um curso, heim gente?!..haha..

Ana Flavia disse...

Haline, quando fazia faculdade à noite andava com um spray de pimenta na bolsa. E um dia vou fazer aquela arte marcial israelense de auto defesa, cujo nome me esqueci.

Também acredito que tempos de tentar nos defender, Mas que somos adestradas pra ser frágil e assustadas, ah sim. Na minha familia, meninas mal podiam brincar, pra evitar de cair e se machucar, enquanto meu irmäo tinha o corpo completamente cictrizados e infinitas quedas ou estripulias.
Somos condicionadas a acreditar que o mundo é deles: me mudei recente para uma area onde tem u bosque de pinheiros lindo e eu fazia caminhada só do lado de fora, me perguntaram porque, e avisei que nunca entraria sozinha numa mata, ao que me informaram que aqui (interior da Austria) nao se tem noticia de estrupo e ataque algum.

Roberta disse...

Olha Lola essa materia:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI126936-15230,00-DIVORCIADA+AOS+ANOS.html

Fala sobre uma menina que foi dada em casamento aos nove anos e adivinha,estuprada claro.

Fer disse...

Lolinha: seu post e as respostas das pessoas aqui me deram a satisfação de que um mundo seguro para as mulheres é mesmo possível. É o que estamos tentando fazer (prometi escrever a vc e acabei esquecendo, mas estamos lançando um novo site, lindo).

Obrigada por esse presente, minha linda!! Obrigada por encher meu coração de esperanças de novo!!!!

Beijos
Fer
A Safe World for Women Team

Anônimo disse...

Depois de presenciar 2 casos de abuso dentro de aglomerações (metrô e em um evento de artesanato), confesso pra vocês que ando armada com um canivete.

Infelizmente, tive que agir assim.

Lord Anderson disse...

Lola, esse post é extremanete importante de ser lido e descutido.

Se vc não se importar vou divulga-lo pelo twitter.

Diego Hatake disse...

Texto excepcional! Esse tipo de consciência que as pessoas deveriam desenvolver. Não só as mulheres quanto aos seus direitos, mas os homens quanto à falta de respeito. É um absurdo um homem afirmar sua masculinidade por meio de abusos.

Anônimo disse...

Por volta dos dez anos sofri abuso por parte de um tio distante que quase nunca via. Na verdade nem sei caracterizar, porque ele não me forçou ao sexo, mas me alizava e dizia pra ficar calada, era o nosso segredo. Enfim, eu realmente ficava calada e só contei à minha mãe há pouco tempo, aos dezenove anos. Por um tempo refleti acerca do assunto e volta e meia me indagava sobre o silêncio descabido. Sempre desculpava com minha timidez excessiva. Mas não, é essa questão da criação mesmo, a visão de situações que nos é ensinada desde muito logo. Meninas crescem tolhidas de suas liberdades e sem conhecimento nenhum dessas coisas. O resultado em grande parte das vezes é como o meu. E quando acontece diferente, de uma criança botar a boca no trombone, é levada a psicólogos por estar "inventando mentiras". Complicado!

Flavia disse...

Esse assunto me faz perder a vontade de viver. Mas, como continuo viva, me defendo. O soco no pomo de adão é uma ótima, adorei a idéia do broche e já usei guarda chuva pra reagir.
Outras coisas q podem ser feitas são enfiar os dedos nos olhos do agressor, pisar com MTA força no peito do pé, cotovelada de baixo pra cima no nariz...enfim.

Anônimo disse...

Anonima, sinto muito por voce. Eu tambem passei por isso: fui abusada por um adulto da familia. 'meio' que ja contei sobre isso no blog da Lola. Eh um absurdo como criancas sao desamparadas e abusadas pelos proprios familiares.


Lola, a Kate Winslet e o Sam Mendes se separaram. Lembra que ela deu um tempo na carreira para 'cuidar do casamento'? Ainda bem que ela nao abandonou a carreira de todo pois senao teria ficado igual a personagem de Sex and the City (Charlote) quando Mirando questionou ela sobre largar a carreira na galeria para 'cuidar do casamento'. Mirando dizia que no final ia sobrar para ela somente ceramicas feita a mao caso o casamento acabasse. Eu nao vi o Sam Mendes dar um tempo 'na carreira dele para cuidar de casamento'.

Rita disse...

Ana Flavia, o nome da arte marcial israelense de autodefesa é krav maga. E aiaiai, essa do vagão separado é de doer...

Concordo que as mulheres deviam, de um modo geral, investir um pouco mais em técnicas de defesa pessoal. Frágil é o vovozinho.

Bjs, Lola.
Rita

Roberta disse...

Irreversível achei nojento.

Anônimo disse...

Oi gente, olha... Vou contar aqui uma história sobre abuso infantil que minha professora de ECA (estatuto da criança e do adolescente) nos relatou outro dia, e que chegou a ela porque foi ela quem julgou o caso. E depois me deem a opinião de voces (se voces concordam ou não com ela... quero ver se não sou a única a pensar assim).

Bom, o caso é o seguinte: a menina foi abusada pelo PAI dos 9 aos 10 anos e engravidou. Ele deu várias substancias abortivas para a garota, pra incobrir seu crime, mas não surtiu efeito.

A menina contou a história para a mae que, felizmente, ficou ao lado dela e tentou ajudar. Quando a menina disse que queria tirar a criança, a gravidez já estava nos 5 meses.

Eu não sei como funciona: pensei que para o aborto ser permitido, bastava eu ir na delegacia, registrar a ocorrencia de abuso sexual e mostrá-la ao médico, mas pelo visto não é assim, pelo menos quando a vítima é criança.

O caso chegou na mao da juíza, minha professora e eu botava toda fé nela: por ser feminista, uma das grandes defensoras do direito da mulher.. .Faz inúmeras palestras brasil a fora sobre violencia doméstica enfim, minha ídola.

Mas ela se decidiu contra o aborto, justificando que a gravidez já estava em estágio avançado. Dizendo q isso poderia por em risco a vida da menina..

Obviamente que pode por em risco, mas a magistrada precisa de uma opinião téncica (de médicos) pra afirmar isso, concordam? Além do mais, ela deixou bem claro que tal ato - o aborto - seria cruel nesse estágio.

Eu concordo, mas não posso obrigar uma vítima a pensar assim, né? É facultado a ela escolher se que levar a gravidez adiante! Nem q seja no oitavo mes, ela pode interromper! A lei não estipula nem um prazo pra que o procedimento seja feito.

Enfim, a minha professora é bem católica tb, e eu meio que perdi a fé nela depois disso.

O q vcs acham da decisão dela?

Patty Martins disse...

Sou contra o aborto, mas uma criança de 10 anos não pode ser responsabilizada pela vida de outra criança, pelo ato monstruoso de um adulto.
Porém, na minha opinião, isso deveria ter sido feito no começo da gestação. Não concordo em "Nem q seja no oitavo mes, ela pode interromper!". Isso seria uma atitude tão cruel quanto a que fizeram com a menina. É válido matar uma criança para preservar outra??

Olga Elis disse...

Anonima, a lei não estipula um prazo mas o juiz tem esse poder de decisão. Tem certeza que ela não buscou um laudo médico no qual baseou sua decisão? Eu acho estranho que não. No mínimo imprudente da parte dela. De qualquer forma, se ela estiver errada quanto a isso há sempre a possibilidade de recurso. Infelizmente elas correm contra o tempo e a justiça não é lá um exemplo de rapidez.

É uma história complicada, mas ainda assim, sendo a juíza, julgaria a favor do aborto. Com o devido aval médico, claro. O trauma psicológico dessa criança é gigantesco e tende a se agravar quando lhe for imposta a condição de mãe de uma criança que tanto não foi planejada quanto é indesejada. Lógico que, tendo a criança, receberá todo apoio da mãe na criação, mas quais serão as dimensões dessa relação? Com uma carga de drama como essa... Não deve ser das tarefas mais fáceis ser mãe de sua irmã? Os prejuízos psicológicos devem ser incalculáveis. De qualquer forma fazer juízo de valor acerca disso é muito subjetivo. Não tem como dizer se a vida do bebê vale mais que a manutenção do psicológico da criança. Valem muito o ponto de vista e os valores de quem julga.

Beolina disse...

"Vestida assim, ela tá pedindo".

Poucas vezes eu me senti tão ofendida quando no dia em que fui pra faculdade usando uma saia pouco acima do joelho e ouvi de um estranho na rua a pergunta "vai foder ou vai estudar? pq vestida assim..."

Meu. Quem é ele e o que ele tem a ver com a roupa que eu uso? A surpresa do comentário me fez passar direto, sem reação, mas depois eu quase chorei de tanta raiva!! De ódio mesmo.

Quanto a essa "cultura" do estupro ser culpa da mulher e uma reação natural da masculinidade do homem, eu indico esse texto, muito bom, sobre como prevenir estupros:

http://drkathleenyoung.wordpress.com/2009/09/06/how-to-prevent-rape/

Kai disse...

Lola, concordo com todo o post mas nada a ver a observação sobre o filme Irreversível.

Passam mil coisas na cabeça de um cineasta para a escolha de uma sequência no seu filme: estudos de linguagem cinematográfica, estética, paradigma do próprio roteiro,etc. E você apenas analisou a premissa machista de se mostrar 9 minutos de um estrupo. Por Deus, um filme é uma obra de arte!

Agora vamos ter que ver filmes apenas de campos de flores belas porque senão o expectador se excitará e será voyeur?

Indira disse...

Pois eu também odiei o filme "Irreversível". E acho q a maioria dos filmes mostra o estupro como se fosse algo excitante.
Lembro de quando eu tinha os meus 15 anos fui ver "Laranja Mecanica" no cinema. Estava com a minha amiga, mas pq ela esqueceu os óculos, foi sentar na primeira fila do cinema. Eu resolvi ficar onde estava. Depois de um tempo senta um fulano na minha fileira, duas cadeiras ao lado da minha. Ele se masturbou vendo a cena de estupro ali mesmo, do meu lado.
Ateh hoje eu nao entendo pq eu nao levantei imediatamente, mas eu fiquei paralisada e sem reacao. Só depois de alguns minutos eh q consegui levantar.
Hoje, eu tenho raiva de ter demorado a reagir.

L. Archilla disse...

Kai, obras de arte não podem ser questionadas? Não sei pra que servem, então. Odeio quem rebate crítica com "é arte, vc não entendeu", ou algo do tipo. Se tem um sentido muito profundo em mostrar 9 min de estupro, conte pra gente qual é, porque até agora ninguém descobriu...

Carina disse...

Já existem técnicas de auto-defesa exclusivamente femininas, chama-se wen-do.

Livia Luzete disse...

Católicos praticantes SEMPRE vão seguir ao pé da letra o que o vaticano dita!

Eu já conversei com minha filha de 10 anos sobre o que é estupro. Infelizmente...pq não queria ter que falar sobre esse assunto,mas melhor alertar do que chorar as pitangas depois...
Quem disse que o mundo é cor de rosa?
Prefiro trazer essa realidade sórdida para a ciência da minha filha do que ter que lamentar porque não a alertei!Ao menos evita que "conhecidos próximos" tentem algo e ela não cair na armadilha de não poder falar sobre.
E com certeza é muito importante sabermos uma defesa, eu gosto do ai-ki-do,mas aqui na cidade onde moro não tem.

ELEUZA disse...

hum, tema dificil, mesmo pq graças a Deus não passei por isso "ainda", "nessa vida", primeira vez que comento, nesse blog, covardia ate de minha parte, afinal, estou sempre on, rsrs sou sua fã nº1, leio todos os dias, creio, que um estupro, seja a invasão, o fim, o the end, para as mais romanticas, puxa sem palavras, desculpem -me.

Carol disse...

Lola, leio seu blog ha algum tempo e é a primeira vez q comento. Escrevo por dois motivos: primeiro porque vc mencionou o Irreversível, filme q contem a cena mais monstruosa de estupro q ja vi na vida. Sai da sala pra esperar a cena terminar, nervosa, com os olhos cheios de lagrimas... serio, nao deu pra ver inteira (mais engraçado q o namorado da época achou forte mesmo a cena das extintoradas... começa por ai a cabeça de um homem...)
Em segundo porque, embora vc sempre trate desse assunto, acho q esse foi um dos melhores posts sobre o tema até hoje. Fico impressionada como nós mesmas nos culpamos quando sofremos uma violência dessas. Quando vc falou em outro lugar q toda mulher tem uma historia de terror pra contar, nunca me senti tão representada (embora não tenha passado por nada como o relatado por aqui, o assedio q ja sofri nao é menor violência). E dá mais força pra gente, perceber q não somos excessão, somos regra! Excessão é a mulher q NAO tem história de assédio ou violência pra contar...
Como sou leitora, aproveito pra te parabenizar por todas as conquistas! Felicidades em Fortaleza!

Anônimo disse...

Nunca sofrí estupro, mas já fui bolinada por um pediatra, quando eu tinha 10 anos. Ele me pediu pra sentar no colo dele e lambeu meu ouvido e depois pediu pra eu lamber o dele. Fiquei com nojo! Bem.. foi SÓ isso, mas até hoje, com meus namorados não admito que lambam a minha orelha, broxo na hora!

Além disso, já sofrí muita violência física e psicológica por parte do meu pai. Já apanhei na cara por 2x (uma aos 10 anos, outra aos 12). Aos 12 apanhei na cara por conta de R$5,00. E o pior é que eu sempre ouvia da minha mãe que se eu fosse menos respondona, mais obediente ele não faria isso. O velho mito da família burguesa que Marx já falava. Quer dizer, os filhos são propriedade dos pais e portanto estes podem fazer o que quiserem, pois tudo se justifica com um "estou educando". Enfim, já na adolescencia peitei meu pai quando ele quis me bater e nunca mais ele teve coragem de levantar a mão pra mim. Mas novamente fui julgada pela minha família, como a garota rebelde que não sabe respeitar pai e mãe. Detalhe: nunca falei um palavrão com ele, nunca tive comportamento dificil do tipo, envolver com drogas, roubar, prostituir. E ainda que tivesse não acho que a violência seja o caminho pra consertar um pau que nasce torto.

Ághata disse...

Pois é, Lola, para quê 9 minutos de um estrupo...?
Era mesmo para mostrar horror...?
Então, por que em filmes de terror não se prolonga uma cena horrível por nove minutos? Pode-se prolongar a tensão, mas não a tortura em si porque se não a pessoa a banaliza, se acostuma, e por aí vai.

...fora que esta cena da Berlucci pode ser encontrada fácil na internet em vários sites pornográficos...
As pessoas veêm estas cenas com o intuito de se masturbarem.
[E é engraçado como as atrizes estão sempre lindas, bonitas e em posições sensuais enquanto são estupradas. Mera coincidência claro. E senso estético. Em arte é fundamental.]


PS: Dizer 'É arte' não é argumento.

Ághata disse...

"O q vcs acham da decisão dela?"

O cúmulo!!!
Para verem como mulher não Vale PN mesmo!!
É por isso que é tão importante legalizar o aborto com a população entendendo que isto é um direito da Mulher que deve ter Autonomia sobre seu corpo!! Não é só questão de saúde pública!!!!
Absurdo!!

Ághata disse...

Se você é contra o aborto, ótimo. É só não abortar.
Problema Seu e da sua consciêndia depois se um dia precisar! Mas não venha forçar seus valores pra cima de mulheres!!

Anônimo disse...

acho que no caso de Irreversível, tem a coisa do erótico voyeur sim. Mas é q o filme inteiro é meio zoado. A cena do espancamento no começo do filme, em que o estuprador é surrado com o extintor de incêncido, é um contraponto com a cena do estupro, parece-me. Também é desnecessariamente longa e horrivel, e sem motivo aparente, que não seja o de dar embrulhos no expectador.
Concordo plenamente! Não acho que bastou colocar a tag de "arte". Odiei, achei desnecessario, e aconselho todos que conheço a não assistir, sob pena de perder preciosos minutos de vida e preciosos neurônios. Alias, o titulo é otimo. Irreversiveis são os danos de se assistir a um filme de tal conteúdo, ainda que sua idéia de que "o tempo destrói tudo" seja razoavel. Não precisava provar tão empiricamente a quem assiste a idéia. Eu demorei 3 dias pra me recuperar do mal estar da cena do estupro e da cena do espancamento. Precisa mesmo, a arte precisa disso msm?

Lidiany CS disse...

Não pude deixa de prestar atenção ao seu comentário sobre a bela adormecida, excelente post esse Lola.
Já conhecia uma versão bizarra desse conto e pude notar que mesmo com a adaptação ele continua parecendo um estupro como vc disse.
Dá uma olhada nesse texto:

Essa sim tem um passado bizarro. Nas primeiras versões, ao invés de espetar o dedo numa agulha e cair desacordada, a bela adormecida tinha uma "farpa" encravada debaixo da unha. Parece uma mudança pequena, mas ela nos leva ao ponto que realmente importa. Nessa mesma versão, o príncipe não é tão encantado assim, e resolve, digamos... se satisfazer na bela ainda adormecida. Depois de satisfeito, ele simplesmente vai embora (o Budd do Kill Bill não foi tão inteligente e acabou morto). Nove meses depois, a adormecida dá luz a gêmeos que, em busca de leite acabam acidentalmente chupando o dedo dela, retirando assim a farpa amaldiçoada.

E a coisa não para por ai, o príncipe que a engravidou (estuprou) continuou voltando (se é que vocês me entendem) durante os nove meses. Quando ele chegou lá e encontrou a bela, já não mais adormecida e com duas crianças, ele decidiu se casar com ela (pelo menos isso, né?), mas ele não poderia levá-la ao seu castelo, pois sua mãe era uma OGRA! (o feminino de ogro é ogra?) que tinha o habito de comer qualquer criança que aparecesse em seu caminho.

Por isso ele esperou alguns anos até que seu pai morresse e ele virasse rei para aí então poder levar sua mulher para seu reino. E assim aconteceu, mas na primeira viagem que ele fez, sua mãe ogra resolveu fazer o que todo ogro tem que fazer: comer seus dois netos, e não satisfeita, também sua nora. Mas, com a ajuda do cozinheiro a bela acordada conseguiu se esconder até o retorno de seu marido (rei “half-ogro”), que quando ficou sabendo dos planos de sua mãe (ogra) mandou mata-la. Bunito né!?

Em outras versões, o príncipe na verdade já era rei, e a mãe ogra era a esposa do rei, o resto é bem parecido. A esposa ciumenta quer, como vingança, comer (no sentido alimentício) os dois filhos bastardos do rei, mas acaba sendo descoberta e é queimada viva numa fogueira. Moral da história, se você encontrar uma mulher desmaiada num bosque, se divirta e não volte nunca mais; ou, se você for uma ogra, não tente comer seus netos; ou ainda, se vocês for uma mulher adormecida no meio do bosque, use cinto de castidade, ou ainda, não espete seu dedo numa agulha amaldiçoada!

fonte:http://www.nerdssomosnozes.com/2009/03/os-verdadeiros-contos-de-fada.html

Lidiany CS disse...
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Lidiany CS disse...
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Lidiany CS disse...
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Lidiany CS disse...
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Penkala disse...

o mais nojento é que ser treinada para ser estuprada e aceitar isso com culpa é algo que atravessa coisas tão inocentes na nossa criação que nenhuma de nós, mulheres, deve desconhecer: menina são cordatas, são flexíveis, aceitam ordens e são comportadas. é feio menina ser rebelde, xingar, ficar descontente ou ter um momento de raiva exposto. até nossa postura imposta ajuda a nos treinar pra aceitar a violência: devemos ser afáveis, quietas e não devemos investir energia em "brincadeiras agressivas" (como correr, pular ou outra coisa que envolva usar o corpo físico ativo - não é mesmo?). nos colocam saia e nos aconselham a ficar quietas, imóveis, com as pernas fechadas porque é inadequado ficar "agindo feito um moleque". crescemos e começamos a observar o quanto nos tolhem qualquer manifestação não feminina como falar alto, rir alto, xingar, falar palavrão, usar a força ou usar qualquer coisa que remeta ao imaginário da agressividade (mulher usando coturno: ou é lésbica/"machorra", ou é policial militar, ou é revoltada, ou as três coisas. todas elas "não femininas"). nos ensinam, portanto, que devemos nos constranger por sair da passividade, por reclamar direitos, por levantar a voz (ativa) ou por usar a força. assim, formam um batalhão de vítimas possíveis. a menina estouradinha que chuta os meninos no meio das pernas porque eles estão abusando? essa menina nunca será feminina. bom... foi talvez por ser atleta, enérgica e criada como uma criança sem frescuras de "feminino" e "não feminino" que me livrei de uma situação de abuso e de um estupro. não foram as únicas violências sexuais que sofri, mas não foi por não reagir.

Patty Kirsche disse...

Pois é, não aguentei ver essa cena de "Irreversível". Pulei mesmo, não quis nem saber. Uma amiga tinha me falado que a cena do extintor era pior, mas não me pareceu nem de longe... E parece mesmo que a Alex está sendo culpada. Ela resolve ir embora da festa após uma briga, resolve ir pela passagem subterrânea... E pra quê uma cena tão explícita? Meu prof de cinema me falou que não recomenda esse filme, porque ele não faz bem pra ninguém. Eu concordo. Aquela cena de "Os homens que não amavam as mulheres" do Fincher também é bem pesada. A de "Baixio das bestas" também é terrível. Acho que o Cláudio Assis se inspira até demais no Noe.

Quéren Abreu disse...

A defesa israelense chama-se Krav Maga

http://www.kravmaga.com.br/

tem em vários lugares pra treinar