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segunda-feira, 27 de julho de 2009

ALUNOS, ESSES SERES INEXPERIENTES

Agora estou cursando uma matéria do curso de Letras a distância com uma turma que nem sei direito de que é. Acho que é Logística, algo assim. E a disciplina é uma que fiquei devendo ao pular três semestres, a de Metodologia do Trabalho Acadêmico. Que é um porre inominável, e totalmente inútil, porque cada instituição que você for vai ter sua própria metodologia, e você terá que fazer o curso de novo. Lembrando sem pensar muito, eu fiz essa matéria na faculdade de propaganda, na especialização em inglês, na graduação em pedagogia, no mestrado na UFSC, e agora aqui. Pelo menos a disciplina do mestrado foi hiper útil, porque valeu por seis anos, e também porque foi dada por um excelente professor, o meu orientador. No final a minha turminha acabou gostando tanto das aulas que até lhe deu um cartão agradecendo pelo “Academic Writing in Performance”, que era um chiste entre o nome da matéria (porque era em inglês, e segue a metodologia MLA, Modern Language Association), e a área de expertise dele, que é Shakespeare in Performance (ou seja, não o Shakespeare do texto escrito, mas o dos palcos).
Nessa turma de Logística, pra piorar, acho que peguei uma turma nova, recém-iniciada, o que explica o enorme número de alunos (uns 50, pelo que contei por cima), e o comprometimento do professor em cumprir o horário (digamos que foi a primeira vez naquela faculdade que uma aula presencial realmente dura mais de três horas). E o silêncio sepulcral da classe. Só o professor fala, mas pelo menos ele fala. Melhor que outras aulas que já acompanhei, em que alguém só lê as respostas aos exercícios da apostila. Um defeito desse professor, que é muito comum - e que, as God is my witness, eu espero não repetir quando (se?) der aula no ensino superior -, é tratar o aluno como tábula rasa. Quer dizer, o aluno não teve nada parecido com uma vida pregressa antes de pisar na sala de aula. Deve ter hibernado esse tempo todo, esperando a chegada de um ser iluminado, o professor, para despertá-lo. Se a gente não deve adotar essa postura com crianças de seis anos, menos ainda com universitários, já que isso nunca é verdadeiro. Até porque posso apostar que naquela turma, onde há várias pessoas com mais de 40 anos, muitas já devem até ter uma faculdade (uma moça com quem conversei estava concluindo Oceanografia, e começando Logística). Mas o professor tratou todos como se ninguém tivesse lido um só livro na vida. Sério. Numa hora ele contou que estava lendo, e adorando, o Leite Derramado, do Chico (eu não gosto muito do Chico como escritor. Tentei ler Estorvo e achei chato. Faz tempo, talvez eu deva tentar de novo). Mas disse pra gente não começar nossa leitura por aí, porque era complicado. Eu realmente prefiro acreditar que todo mundo naquela sala já havia lido alguma coisa.
E nisso de incentivar os alunos a lerem, às vezes o professor exagera e amedronta. Tipo: ele contou que já escreveu vários artigos pra jornais locais, e pra internet, mas parou, porque isso toma tempo demais. Porque, pra escrever uma ou duas páginas, ele precisa ler cinco livros! Hello? Como que você vai citar cinco livros num textinho de uma página? Escrito pra jornal, ainda por cima, que nem é o espaço adequado pra linguagem acadêmica? Ele também pediu que os alunos lessem de 20 a 35 livros por ano. Podia descontar as apostilas do curso dessa conta (8 apostilas por ano). Sobravam doze livros pra ler no ano. Putz, eu não gosto dessas contas! Pouquíssimas vezes parei pra contar quantos livros li durante um período!
Teve uma hora que ele explicou o que era TCC (vou repetir, porque o maridão, longe das cadeiras escolares há seculos, não sabia o que era: Trabalho de Conclusão de Curso), monografia, dissertação e tese. Eu tenho problemas aqui, porque em inglês, em geral, pelo menos na UFSC, dissertation é pra doutorado, e thesis é pra mestrado. Segundo o professor, uma monografia deve ter cem páginas, uma dissertação de mestrado, entre 200 e 300, e uma tese de doutorado, o tamanho de um livro (ahn, tamanho de livro varia, né?). Na UFSC, ao menos na minha área de Inglês, a dissertação tem entre 50 e 100 páginas (a minha teve 115, mas uma amiga teve que cortar a dela ao ultrapassar a centésima página), e a tese, essa sim, entre 200 e 300. Mas o pior é que o professor disse que um doutorado leva entre um e quatro anos pra completar, e às vezes, seis e oito. Eu não quis falar nada no meio da aula, porque, pô, só vou estar lá durante quatro encontros, e ele vai continuar com aquela turma pelos próximos semestres. Mas, no intervalo, falei pra ele: “Professor, nunca ouvi falar de doutorado de um ano”. Ele respondeu: “É que não dá tempo, porque tem tanta coisa pra estudar. Na verdade, eu nunca nem ouvi falar de alguém que terminou um doutorado em quatro anos”. Aí eu não me contive e disse: “Eu terminei”. Ele, muito perplexo e confuso, quis saber: “Ahn? Como assim?”. Eu expliquei que, em geral, o doutorado deveria ser completado em 48 meses (4 anos), mas que na UFSC, ao menos na minha área, inventaram que o prazo seria de 44 meses! Eu levei 46. Ele fez algumas perguntas sobre a tese e tal. Simpático até, apesar do espanto.
Não sei se falei demais, provavelmente sim, mas, na minha concepção, são só umas pouquinhas aulas. E talvez, quem sabe, ele leve essa experiência em consideração na hora de concluir que seus alunos nunca leram um livro na vida.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE ASSOLA O PAÍS

As besteiras que tive que escutar no curso de Letras recentemente foram muitas. Demais, pro meu gosto. Meu cérebro não suporta. Não tenho mais infra-estrutura pra tamanha ignorância. Primeiro foi um carinha arrogante, daqueles que acham que tudo que eles falam é de suma importância. Deve ser dos que mandam email com todas as letras em maiúscula, sabe? Pior é que só fala banalidades. Mas com uma voz de autoridade, daquelas que mostram, nas entrelinhas, que ele está enunciando cada palavra bem devagar porque você é um burro e pode perder alguma daquelas pérolas de sabedoria. Tudo que eu podia pensar era “Alguém faça ele parar, por favor!”. Mas ele não parava. Disse que, no estágio que deu, preferiu passar o “arroz com feijão”, o básico, aos alunos, ao invés de “vomitar conteúdo que eles não vão fixar”. Repetiu isso três vezes, pra gente registrar. Era pra tomar nota?
Em seguida assumiu o púlpito, ou melhor, a frente da sala um outro homem, também de meia-idade, pra narrar o seu estágio. E começou afirmando que, com ele, é tudo na base da autoridade. Que se um aluno vem falar pra ele que tem um problema, ele já corta dizendo que “Problemas já bastam os meus. Não aceito desculpas! Fez ou não fez o trabalho?”. Ha ha, se o sujeito estivesse brincando, parodiando, seria hilário. Mas não, pra ter senso de humor é necessário alguma inteligência, e isso parece estar em falta na sala. Não entendi, sinceramente, o que o carinha lecionou nas cinco aulas de estágio. Parece que ficou o tempo todo brigando. Porque com ele é assim. Ele relatou que ficou mandando aluno calar a boca, pra mostrar quem manda. E que aluno respeita muito mais professor homem. E que ele sim teve educação em casa. E que uma das mágoas da sua vida é não estar criando o filho que, por morar com a mãe, vem tendo muitos problemas. Dessa eu quase ri em voz alta. Sei lá, soa como cena de filme, algo como 1964, O Ano que Não Terminou. Filho desse senhor, eu não te conheço, você não me conhece, mas acenda uma vela aos céus todos os dias por não viver com o Multi-Disciplinator Tabajara.
E não sei por que o monólogo virou conversa e foi desaguar na responsabilidade das mães, mas uma mulher do fundo da classe praticamente gritou que mulher não pode querer trabalhar e educar os filhos ao mesmo tempo, é uma coisa ou outra, ela que tem que escolher. Eu virei a cabeça e olhei pra ela feio, mas ela não notou. Fico fazendo uma competição mental pra eleger qual a Abobrinha Mais Ofensiva que Escuto no Curso a Distância (que obviamente não é exclusividade da EAD). Por enquanto, segue em primeiro esta daqui - “filho se não apanha dos pais em casa apanha da polícia quando adulto”. Acho. Não sei, a concorrência é acirrada.
O professor decidiu interromper a discussão pra colocar ordem na casa. E disse que todos nós temos razão, em teoria. Mas na prática a coisa é muito pior que nós pintamos. Porque os alunos do ensino médio não aprendem nada mesmo. E todo o conselho de educação fica contra os professores. Que se ele quiser reprovar dez alunos numa turma ele deveria ter o direito de reprová-los, pô. E não, não vamos ter auto-crítica e parar pra pensar que, se for necessário reprovar um terço ou um quarto da turma, pode ser que haja talvez quem sabe algo de errado com o mestre com carinho. E continua: todo dia o professor entra numa selva e tem que matar todos os bichos lá pra poder sobreviver. Putz. Eu não sei o que tá mais errado, a alusão de querer exterminar os aluninhos, de colocá-los numa posição de nós versus eles, ou de pensar que, pra sobreviver numa floresta, só eliminando todas as outras espécies. Mas não importa, porque os meus coleguinhas faziam sim com a cabeça.
E eu lá, sozinha, náufraga, meditando se a humanidade tem jeito. Eu até estaria olhando a manhã ensolarada passar pela janela. Se houvesse janela.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A UNIÃO FAZ A FORCA

Trabalho em grupo, o prazer de estudar.

Imagino que deve haver uma tese de doutorado sobre como o trabalho em grupo numa faculdade traz o pior das pessoas. Eu tive duas ocasiões mais recentes no curso de Letras que estou sendo obrigada a fazer (e que estou odiando com todas as forças). Na primeira vez, eu me juntei com três moças. E a redação que tínhamos que escrever era tão, mas tão insignificante, que nem me lembro o tema. Ah tá, lembrei! Era sobre como sintaxe é ensinada nas escolas. Não preciso nem dizer que sou radicalmente contra o método utilizado há tantas décadas, e ainda em voga hoje, que faz os alunos detestarem as aulas de português, que mata neles qualquer prazer de leitura. Algúem me explica por que é importante ensinar o que é uma oração subordinada adjetiva. Não sei nem por que ensinar regras que não se usam mais, como “ser-me-ia” ou “realizar-se-á”, mas, mesmo que a gente decida que é imprescindível saber isso, por que torturar as crianças com termos como ênclise, próclise e mesóclise? Quando os native speakers de inglês aprendem inglês, eles mal sabem o que é sujeito e predicado. Mas isso é tema pra outro post, que talvez eu reparta com vocês outro dia.
Eu sentei com as moças e comecei a tentar levantar essa discussão. Mas uma delas não queria perder tempo com essas coisas banais como discutir o tema sobre o qual teríamos que escrever. Queria era partir logo pros finalmentes. Então ela, uma mulher de ação, típica gente que faz, tirou uma folha do caderno e começou a escrever a capa do nosso trabalho, com os nossos nomes e a data. As outras duas não falavam nada. Eu disse que achava o ensino de sintaxe inútil na sala de aula, e perguntei a opinião delas. Elas responderam, meio sem jeito, que concordavam (menos a mocinha prática, que estava ocupada demais fazendo a capa do trabalho para ter uma opinião). Como as duas não se manifestavam e eu não pretendia dormir na faculdade, passei a ditar, com vírgulas e tudo, o rascunho de uma redação. Logicamente é muito mais rápido e fácil escrever um texto do próprio punho do que ditá-lo a alguém. Mas aí não seria trabalho em grupo! A mocinha prática ainda me apressou num momento, porque o texto tava ficando longo demais, e com a citação que a gente ia colocar, já daria pra cobrir duas folhas. Acabei de ditar, e foi a vez da terceira moça entrar em ação. Agora ela tinha que ditar pra segunda moça o rascunho que eu havia ditado. Eu quase chorei, porque é comovente ver todo mundo colaborando para a construção do conhecimento.
Numa outra matéria foi diferente. Eu estava num outro grupo, adiantando uma disciplina, e tínhamos que escrever um texto sobre “o autor, o texto e o leitor - um diálogo através da leitura”. Juntei-me a um homem e uma mulher (ambos velhinhos como eu) para redigir. A mulher passou a fazer a capa do trabalho e, em seguida, começou a escrever, sozinha, um parágrafo. Como ela tomou essa iniciativa, e como eu já estava escaldada do trabalho anterior, falei que considerava uma boa ideia cada um escrever uma parte, e depois a gente “fazia um Frankenstein”, juntava tudo, e teríamos um trabalho. Ok, admito que não é nada legal. Mas era isso ou a opção narrada acima. Eu disse que escreveria a introdução, a mulher podia escrever o desenvolvimento, e o homem, a conclusão.
Quando mais ou menos acabamos, fui ler a introdução, que falava um monte de coisinhas sobre schemata e conhecimento prévio que eu estudei pra Reading na especialização e no mestrado. Eu sei pouco sobre o assunto, porque minha área é Literatura, não Linguística, mas pelo pouco que li, os teóricos de hoje desmitificam a autoridade do autor. O texto não existe antes que o leitor entre em cena, porque é através da sua interpretação que se cria um diálogo com o autor. Se não há o leitor, não há leitura, e o autor será deixado falando sozinho. Portanto, atualmente, o leitor está com o ibope lá em cima. Eu escrevi uns dois parágrafos introdutórios sobre isso, ressaltando também que texto e leitura não se referiam apenas à palavra escrita, mas também a filmes, peças, músicas etc. E, como as instruções do trabalho pediam citações, incluí umas duas, uma de Bakhtin, outra de nem sei quem. Quando acabei de ler, o homem no meu grupo falou: “Você colocou as suas citações, e eu coloquei as minhas”. E pôs-se a ler o que ele havia escrito, como se estivéssemos numa competição. Começava com uma citação (errada) de Fernando Pessoa: “navegar é preciso, viver não”. E dizia que, para se entender realmente (?) o que significava aquela frase, só estudando o contexto da época, as grandes navegações (??). Os dois parágrafos do carinha eram todinhos sobre a irrelevância do leitor perante o deus escritor. Ele terminou de ler e esperava ser aplaudido, imagino. Eu tive que falar, com delicadeza: “Ahn, interessante. Mas está um pouco genérico, não acha? Não trata do tema proposto. E além disso, vai na direção oposta do que se fala hoje sobre leitura”. O carinha não gostou, e tentou se explicar. Disse que é preciso conhecimento pra entender o que aquela frase significa. E emendou: “Não tem problema que você não entenda o significado da frase nem saiba quem é Fernando Pessoa. Não precisa se envergonhar, muita gente não sabe, porque ele é antigo mesmo”. Eu achei aquilo divertido, mas deixei passar. Apenas rebati que, se ele acredita que só existe um significado pra cada texto, qual o diálogo entre autor e leitor? O carinha disse que talvez haja mais significados nos textos em geral, mas, praquela frase, só existe um significado, que o leitor só poderia descobrir se estudasse as grandes navegações. Eu não queria rir ou chorar, mas coloquei que não, não existe verdade absoluta, existem interpretações. O clima esquentou, porque o sujeito realmente acreditava em um único significado, que só podia ser alcançado atráves do Vasco da Gama.
A moça leu as suas cinco linhas, que também passavam como o leitor era um nada e o autor, um tudo, e que o dever do leitor era decifrar o que o autor queria passar e pronto. Eu disse que, desse jeito, com eles pensando de um modo e eu de outro, a redação ficaria bem confusa e contraditória, mas o homem achou que não, que eram diferentes pontos de vista. “Mas o nosso trabalho é em grupo”, falei eu. Então pensei comigo mesma: dane-se, eu nunca vou ser uma aluna popular mesmo. E disse pra eles: “Espero que vocês não se incomodem, mas acho melhor que vocês escrevam o texto de vocês, e eu escrevo o meu. Pode ser? Não levem a mal”. Eles ficaram meio horrorizados, mas aceitaram. Lá pelo meio, o homem declarou à colega: “Até que essa discussão contribuiu pro nosso texto. É útil falar com gente que não tem a mesma opinião”. É, nem eu nem toda a teoria de leitura dos últimos quarenta anos (nem a nossa apostila!) tem essa opinião dele. Mas ele vai sair da faculdade (ele se forma em dezembro) com a mesma opinião de quando entrou.
Eu lembro dos trabalhos em grupo de quando fiz Pedagogia. Uma moça do meu grupo adorava corrigir o meu português. Toda vez que ela lia um “em voga” que eu havia escrito, ela trocava pra “em vaga”. Não tenho mais paciência pra isso não.

domingo, 3 de maio de 2009

SOS VOCÊS!

Foto meramente ilustrativa, pelamordedeus!

Seguinte: esta semana vou começar a fazer estágio dando aula de Português na quinta à oitava série. Faz parte dos meus requerimentos pra graduação em Letras, vocês sabem. Falei com uma amiga e ex-vizinha que é excelente professora e perguntei se poderia estagiar na classe dela. Felizmente, ela permitiu. Ela quer aproveitar minha experiência como crítica de cinema e pediu para eu preparar aulas em que ensinasse os alunos a escrever resenhas de filmes. Taí, gostei! Eu já dei algumas palestras em universidades sobre crítica de cinema, e sempre tive um retorno legal. Bom, minha amiga sugeriu que eu escolhesse alguns filmes bem batidos e populares, que já passaram na TV aberta várias vezes. Como vocês devem assistir mais televisão do que eu (quem não assiste mais TV do que eu?), e como vocês estão mais próximos dessa faixa etária dos 12 aos 14 anos que será meu público-alvo do que eu (quem não está?), peço ajuda a vocês. Por favor, quais são alguns filmes recentes (de cinco anos pra cá) que passaram várias vezes na TV? De preferência filme bacana. O Professor Aloprado 2 não vale!

FALTA DE LÓGICA

O tal edital (clique para ampliar). A parte de baixo é para docente de biologia.

Só pra você ver como parece marcação. Recebi de uma amiga um edital prum concurso pra Universidade Federal Fluminense, em Niterói. O edital contempla duas áreas totalmente distintas, Literatura e Biologia. Ótimo salário, R$ 6.722,85, 40 horas e tal, professor adjunto. Em Literatura, a exigência é graduação em Letras Português/Inglês e suas respectivas Literaturas. Além de mestrado em Letras, com área de concentração em estudos literários, e doutorado em Literatura de Língua Inglesa (a minha área), Literatura Comparada, ou Teoria Literária. Bem restrito, não? Ou você tem exatamente o que pedem ou não pode sequer se inscrever (pra mim, falta a graduação em Letras). Isso quer dizer que doutoras em Letras, mas na área de Linguística, por exemplo, não podem prestar o concurso. Tá. É a regra de 90% dos concursos, ultimamente. Agora veja o que a universidade pede pra Biologia - só vi porque tá no mesmo edital. O candidato deve ter uma das seguintes graduações: Biomedicina, Biotecnologia, Nutrição, Ciências Biológicas, Farmácia, Medicina, Medicina Veterinária, Odontologia, Enfermagem, Química, ou Engenharia Química. Quer dizer, qualquer graduação em ciências biológicas tá valendo. As exigências pro mestrado e pro doutorado também são muito elásticas (pode ser uma dentro de 24 linhas de pesquisa!), de Ciências Morfológicas à Biologia Marinha, passando por Genética e Medicina Tropical. Traduzindo: um dentista, um nutricionista, um médico, um enfermeiro ou um veterinário, entre outros, com um mestrado e doutorado numa entre 24 áreas, é considerado apto a dar aula de Biologia. Não discuto, sou a favor. O que me revolta é que, pra dar aula de Literatura em Língua Inglesa, tem que seguir um roteiro certinho, sem nenhum passo fora do currículo. Graduação em Jornalismo, Pedagogia ou Filosofia, mesmo com mestrado e doutorado em Literatura em Língua Inglesa? Esqueça, não pode tentar o concurso. Eu não entendo nada de Biológicas, mas eu chutaria que Nutrição e Odontologia têm tanto a ver com Biologia quanto Jornalismo e Pedagogia tem a ver com Letras. Pra mim isso não faz nenhum sentido. Quem inventou essa camisa de força logo na minha área?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

NOSSAS DÚVIDAS EXISTENCIAIS

Uma das minhas leitoras mais antigas, a Mica, encontra-se em crise existencial. Ela tem 30 anos, vive atualmente em Floripa, é formada em Direito, e trabalha num emprego que não gosta. Como a dúvida dela é muito frequente, decidi compartilhá-la com vocês. Tenho certeza que vocês vão poder dar sugestões melhores que as minhas!

Lolinha querida, eu preciso ventilar minha frustração e escolhi você para cristo. Estou num dilema. Quero fazer outra faculdade (lembra quando te perguntei sobre mestrado em literatura?) e não consigo me decidir. Só sei que não vou trabalhar aqui no gabinete para sempre e fico horrorizada (calafrios mesmo, suor frio, desespero) de pensar em voltar a advogar. Então preciso achar outros caminhos. Estava pensando em outra faculdade. Mas, além de morrer de medo de me enfiar em outra furada novamente, eu confesso que não sei bem o que ou como fazer. Pensei em fazer História (estou olhando na UFSC, porque não tenho din-din para pagar faculdade agora... mas será que passo no vestibular? Será que precisa já tendo outra faculdade?). Agora, se eu fizer História, minha vida será dar aulas? Será que eu sirvo para professora? Aí pensei em Letras. Ingles ou Alemão. O problema é que a UFSC só tem no período vespertino e eu trabalho :-( No noturno sobra Secretariado Executivo em Inglês. A pergunta é: que raios é isso!? A outra opção é tentar fazer um curso de fotografia. Já venho pensando nisso há algum tempo, mas sou meio travada, não sei se tenho o despojamento necessário para ser fotógrafa (ou coragem para investir horrores numa câmera). Socorro! O que eu faço!? Ok, eu sei que você não vai milagrosamente salvar o meu dia, mas como eu disse, eu precisava ventilar minha frustração e tentar organizar meus pensamentos. Desculpe por ter alugado seus ouvidos (ou no caso, seus olhos ^_^).

Mica, embora eu esteja totalmente sem tempo, pra variar, vou ver se posso te ajudar um pouquinho. Sinceramente, se você não quer dar aulas, não faça História ou Letras. O maior mercado de trabalho nessas duas áreas é mesmo a licenciatura (e sempre tem trabalho. É uma garantia anti-crise. Pena que não pague grande coisa). Você já deu aula de alguma coisa? Gostou? Você vai ter que testar um tiquinho antes, pra ver se é a sua “vocação”. Eu realmente adoro dar aulas, mas só fui descobrir isso aos 29 anos, quando comecei a dar aulas de inglês. Eu tenho a impressão que, se a gente gosta de dar aula em alguma área, gosta de dar aula em outras. Se você decidir que é isso mesmo que quer, pô, aproveita que você mora em Floripa e curse a UFSC, lógico! É pública e é excelente, muito melhor que qualquer particular. Você terá que prestar vestibular de novo, pra qualquer área que escolher (se eu fosse fazer Letras na UFSC teria que passar no vestibular também, mesmo tendo mestrado e quase doutorado). Imagino que História e Letras não sejam tão concorridas. Você passa! Você vai poder validar várias matérias por causa da sua graduação em Direito. Eu acho História apaixonante (minha mãe fez História na USP, e várias leitoras aparecem aqui pra dizer o quanto estão amando o curso, o quanto ele amplia os horizontes e abre a cabeça...). Imagino que seja um curso totalmente político. E marxista.
Ah, Secretariado em Inglês é pra quem é/quer ser secretária. É isso que você quer? Ser meio babá de homem adulto? Tenho grande respeito e admiração pelas secretárias. Acho que elas têm que engolir sapos diariamente. Mas um dos meus primeiros empregos foi como secretária júnior e eu detestei a experiência.
Fotografia é ótimo também, só não sei se dá pra viver disso (ainda mais a médio prazo). Eu não sei, Miquinha, depende muito do que você gosta e das suas capacidades. Mas não recomendo pra mais ninguém que não tenha graduação em Letras a fazer mestrado em Letras. A menos que seja pelo prazer de aprender - que foi por que eu fiz o mestrado em primeiro lugar. Mas se for pensando num futuro profissional, vai ter que voltar à graduação pra cursar Letras. É inevitável. E só o mestrado não é suficiente, se algum dia você quiser dar aula numa universidade. Terá que cursar doutorado também. Ou seja, a gente tá falando de no mínimo 6 anos de estudo, mais uns 3 da graduação (dá pra fazer a graduação e a pós ao mesmo tempo, se tiver tempo. Colegas minhas fizeram). É isso que você quer?
É totalmente normal sentir-se um pouquinho sem rumo, arrepender-se da graduação... Quase todo mundo passa por isso. O legal é que dá pra gente mudar de rumo quando quiser! A gente é dona da nossa vida. Como já dizia o Robin Wiliams, carpe diem!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

ADEUS, CÉREBRO

Eu me identifico demais com essa cena do computador Hal sendo desligado em 2001. "Minha mente está se esvaindo. Eu posso sentir".
A graduação em Letras mal começou e já estou sofrendo. Sofri pra escrever o primeiro paper que, pelo que entendi, era pro curso de Literatura Portuguesa mas acabou sendo sobre Literatura Brasileira. Sofri nas duas aulas que tive até agora. Estou sofrendo por antecipação por tudo que está por vir.
Todo mundo que conheço que sabe que estou cursando uma nova faculdade - não porque tenho um mórbido desejo de estudar Letras após ser quase doutora em Letras, mas porque preciso se quiser prestar algum concurso - diz que vai ser baba, que vou tirar de letra, moleza, bico. Só eu que não sinto isso. Muito pelo contrário, aliás. Estou sentindo meu cérebro encolher.
O curso a distância é organizado de uma maneira quadradinha, sem surpresas. Posso estar falando besteira aqui, porque ainda sou nova e tem montes de coisas que não captei, mas, pelo que vi, é assim: cada módulo (semestre) é com uma só professora. Ela que vai dar aula de tudo pra turma. É uma novidade pra mim: não tenho apenas uma professora pra todas as disciplinas desde a sexta série. Cada matéria ocupa mais ou menos cinco aulas presenciais. A gente recebe o material, que é mezzo apostila, mezzo livro, e tem que ler em casa (eu havia pensado que era tudo online, mas prefiro assim, impresso). Na primeira aula presencial, a professora apresenta o conteúdo do capítulo (eles chamam de tópico) 1 e fazemos uma atividade que vale um ponto (ainda não descobri o que seria essa atividade, porque estou entrando no meio de uma matéria). Na segunda aula, a professora apresenta o tópico 2 e diz como deve ser o paper que cada aluno deve escrever. Na terceira aula, não temos aula. Ficamos em casa pra escrever o tal paper. Na quarta aula, a professora recolhe os papers (que têm peso 3), e apresenta o tópico 3. No final da aula, há um teste de dez perguntas, com consulta. Na quinta aula, há um teste de 30 questões sem consulta sobre toda a apostila. Isso vale 5 pontos. Passa-se com 7. Toca pra matéria seguinte, que repete todo o esquema, só que com um tema diferente.
A apostila tá cheia de detalhes. Parece apostila de cursinho pré-vestibular, pelo que me lembro (só fiz cursinho durante três meses, vinte e poucos anos atrás). Nesta de Literatura Portuguesa, falam de Trovadorismo, Humanismo, Barroco, Arcadismo, Romantismo, entre outros movimentos, e mencionam os principais autores portugueses de cada período, suas obras e seus temas. Eu acho que no cursinho foi igual. E igual também foi o que guardei dessa batelada de informações: nada. É o tipo de matéria que serve pra passar ou reprovar num teste, que o aluno memoriza apenas praquela avaliação e depois esquece pra sempre, porque a gente tem mais com o que ocupar a mente fora guardar que Fernão Lopes foi o cronista-mor da torre do Tombo (whatever that is). Eu li os tópicos 1 e 2 da apostila entre a semana passada e ontem, mas se alguém me perguntar o que estava escrito, eu não saberia dizer. Pode ser a minha velhice eminente, eu sei. Pode ser minha total falta de interesse, mas não lembro. O que lembro é que nas aulas de mestrado e doutorado a gente discutia ideias, e era uma delícia. Havia debates. A gente lia muito, muito, e vários textos eram chatos e difíceis, mas, sei lá, eram ideias, não dados.
Não sei se na faculdade e meia que fiz antes desta (uma de Pedagogia, na qual me formei em 2002, e metade da de Propaganda, até 1988) o esquema era parecido com este do curso a distância. Eu simplesmente não lembro. Assim como não vou lembrar nada desta. E depois o pessoal critica o Lula por ele não ter diploma universitário...
Sei apenas que vai ser difícil. Já me avisaram, en passant, que só terminar a faculdade não garante o canudo. Que são necessárias mais 200 horas de curso pra compensar a carga horária e se formar. E onde que vou arranjar tempo pra cursar essas 200 horas? E tem o estágio, que a maior parte da minha turma já fez. Cada módulo tem um estágio. Quando ouvi que teríamos que dar aula pra 5 a 8a série, perguntei pruma aluna: “Aula de quê?”. Ela me olhou como se eu fosse uma neandertal e, pausadamente, respondeu: “De português”. Eu ainda tentei disfarçar com um “Não pode ser aula de inglês?” (não, não pode), mas a verdade é que estou boiando. Como se eu estivesse tentando acordar de um pesadelo.
Nesses dias eu adoto um mantra: “My life is a living hell” (“minha vida é um inferno”). Se eu pudesse substituir essa frase que não sai da minha cabeça por algo como “o simbolismo começou em Portugal com a publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro”, eu estaria melhor na fita.
My life is a living hell. My life is a living hell.