quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A LITERATURA COMO ÁLIBI DA PEDOFILIA

Suely Lima é brasileira e vive na França desde 2016. É bacharel em Relações Internacionais e mestre em Sociedade e Fronteiras. 
Ela me enviou este texto sobre um livro que foi lançado na França no final do ano passado e que está causando grande polêmica, pois é de uma moça que, aos 14 anos, se "relacionou amorosamente" com um escritor de 50, Gabriel Matzneff. Hoje esse autor, que está com 83 anos, está sendo visto como pedófilo, mas, na época, intelectuais discutiam se adultos "transarem" com menores de idade podia ser uma forma de libertação sexual. 
Por incrível que pareça, Matzneff não escrevia sobre fazer sexo com crianças de 12 a 16 anos -- que ele descrevia como "uma experiência sagrada" -- num diário secreto a sete chaves. Ele publicava livros sobre isso. Em outros países, ele seria preso. Na França, ele era festejado. Participava de programas de TV como convidado, recebia prêmios literários. Essa farra acabou agora, com a publicação de O Consentimento (ainda sem previsão de lançamento em português), de Vanessa Springora.
Suely escreve sobre este tema espinhoso.

"Aos quatorze anos, não se deveria ter um homem de cinquenta anos te aguardando na saída de seu colégio, não se deveria morar num hotel com este homem, nem se encontrar na sua cama, seu pênis na sua boca na hora do lanche. De tudo isso eu tenho consciência, apesar de meus quatorze anos, eu não sou completamente desprovida de senso comum. Dessa anormalidade, eu fiz de alguma forma minha nova identidade. Inversamente, quando ninguém se surpreende com a minha situação, eu tenho a intuição de que o mundo ao meu redor não vai bem."
No livro O Consentimento, Vanessa Springora narra sua história na primeira pessoa, a história de uma vítima de um célebre pedófilo francês. Vanessa Springora (V.) nasceu em 1972. Gabriel Matzneff (G.), em 1936. Há uma diferença de 36 anos entre eles. Quando se encontraram pela primeira vez, V. tinha 13 anos, G., quase 50. Na época, a maioridade sexual na França era de 15 anos de idade. Contudo, o “consentimento” “parecia” não ter idade. Essa foi a defesa de célebres pedófilos que contaram com o apoio de parte da elite intelectual, artística e literária francesa. A relativização do "consentimento": 
"E, de fato, como admitir ter sido abusada, quando não se pode negar ter sido consentido? Quando, no caso em questão, sentiu-se desejo pelo adulto, que apressou-se em tirar proveito disso? Durante anos, eu também recusei essa noção de vítima, incapaz de me reconhecer como tal” (p. 163). 
Capa de um dos livros
publicados por Matzneff
Em 1986, V. acompanha sua mãe num jantar literário onde ela encontrará o célebre escritor G. pela primeira vez. Durante todo o jantar, V. recebe olhares insistentes de G., que dias depois passa a escrever para ela cartas “românticas” e a provocar encontros “imprevistos”, “casuais”. Após seguidas insistências de G., V., que acabara de completar 14 anos, aceita encontrá-lo. V. pensou que beberiam um café numa ‘Brasserie’, mas G. diz ter preparado algo para ela em seu estúdio, próximo ao Jardin de Luxembourg. V. visita o estúdio de G. pela primeira vez, onde trocam beijos e carícias. No segundo encontro, G. a sodomiza. Esse é o início de uma “relação” entre um homem de 50 anos e uma menina de 14 anos, “relação” que durará 2 anos.
Filha de uma editora, V. é amante da literatura. G. a proíbe de ler alguns de seus livros e seus Cadernos Negros. Proibição que V. obedece até o momento em que ela se encontra vivendo com G. num hotel em Paris, depressiva, sem amigos, distante da família, morando com um homem que é mais velho que seu pai. V. passa a questionar o mal estar de sua “relação” com G., sem conseguir nomear tal mal estar. A leitura dos livros e cadernos proibidos é a gota d’água da “relação”. 
Pelos escritos de G., V. toma consciência tratar-se de um pedófilo, de um predador sexual que caça e abusa de menores de idade, e depois registra os atos em livros e em seus cadernos publicados. Após o rompimento, G. também publica detalhes e fotos de sua “relação” com V., como sempre fez com suas vítimas. Um pedófilo assumido, público e militante.
De lá pra cá, a vida de V. é marcada por esse trauma. Com a ajuda da psicanálise, V. finalmente se reconhece como vítima. Em 2013, ao tomar conhecimento que G. acabou de receber um dos mais importantes prêmios literários da França, V. decide escrever o romance O Consentimento. O livro é um ‘récit’, a narrativa da vítima escrita de maneira mais objetiva possível, uma chamada para a razão. Dividido em cinco partes, ela narra sua infância (L’enfant); explicita suas vulnerabilidades que, reunidas, colocam-na na condição de presa perfeita (La proie); tece sobre a dominação e anulação de V. por G. (L’emprise). Chega-se então no ‘livramento’ (La déprise), quando V. abandona G. e tenta seguir sua vida. Na quinta parte do livro (L’impreinte), V. trata das marcas deixadas por esse abuso e das dificuldades na sua trajetória. Por último, V. tece sobre sua vida adulta e as razões que a levaram a escrever este livro (Écrire):
"Por tantos anos, eu giro em círculos na minha jaula, meus sonhos são povoados de assassinato e vingança. Até o dia em que a solução finalmente se apresenta, ali, diante dos meus olhos, tão óbvio: pegue o caçador por sua própria armadilha, tranque-o em um livro" (p. 10).
Hoje V. é editora na editora Grasset (uma das quais, no passado, publicou “romances” de G.), é casada e tem um filho. Com a escrita e publicação deste livro, Vanessa Springora faz um belo serviço à sociedade e às vítimas de pedófilos e predadores sexuais.
Para alguns, a vida em Paris pós-1968 é marcada pelo mantra “é proibido proibir”. Demandas por mais liberdades e narrativas “contra a ordem” impactam diversos setores, sendo a literatura um deles. Entre as personalidades na cena literária parisiense, Gabriel Matzneff, conhecido predador de meninos e meninas menores de 15 anos de idade, publica livros e cadernos de sua vida pessoal em detalhes e fotografias, sendo a totalidade desses relatos intitulada Carnets Noirs (Cadernos Negros).
Matzneff escreve desde 1953 até o presente. Entre livros e "cadernos negros", detalha suas relações sexuais com menores de 16 anos como se fossem “romances”, “aventuras amorosas”, “relações sexuais consentidas”. Um de seus livros recebe o nome Les Moins de Seize Ans (Os Menores de Dezesseis Anos), publicado em 1974. Neste livro, assim como em seus cadernos (disponíveis em uma página na internet até o lançamento do livro de Vanessa Springora, quando o referido site pessoal “saiu do ar”), ele detalha suas “experiências sexuais” em Manila (Filipinas) com meninos “prostitutos” entre 11 e 12 anos, adjetivando-os de “apimentados”.
Apesar de conhecido pedófilo e militante em favor da pedofilia, Matzneff é uma celebridade na cena literária, artística e intelectual parisiense. Em 1977, escreveu uma carta aberta em favor da descriminalização de relações sexuais entre menores e adultos. A carta, intitulada "À propos d’un procès" ("Sobre um julgamento"), era contra o encarceramento de três homens acusados de manterem relações sexuais (com registros fotográficos) com menores de treze e quatorze anos de idade. 
Essa petição foi publicada pelo jornal Le Monde no dia 26 de janeiro de 1977, e em seguida pelo jornal Libération, e contou com 69 assinaturas de intelectuais, psicanalistas e filósofos franceses, majoritariamente de esquerda, entre os mais conhecidos Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Gilles e Fanny Deleuze, Louis Aragon, André Glucksmann, Francis Ponge, Philippe Sollers, Jack Lang, Bernard Kouchner, François Châtelet, Félix Guattari, Patrice Chéreau, Daniel Guérin, Guy Hocquenghem, etc. [Nota da Lola: durante os anos 70, a extrema-direita também defendia pedofilia, mas como uma ferramenta de dominação e controle dos adultos sobre crianças, como meio de educação inspirada na Grécia Antiga]. 
No dia 23 de maio de 1977, o jornal Le Monde publicou outra petição, uma demanda para a descriminalização de relações sexuais entre adultos e menores de quinze anos: ‘Un appel pour la révision du code penal à propos dês relations mineurs-adultes’ (‘Uma demanda para a revisão do código penal que trata das relações entre menores e adultos’). Entre os 80 signatários estavam, além Gabriel Matzneff e os citados acima, Louis Althusser, Michel Foucault, Jacques Derrida, Françoise Dolto, Pierre Simon, Philippe Sollers, Alain Robbe-Grillet, Alain Cuny, etc.
Na data de 4 de abril de 1978, o canal de TV France Culture levou ao ar o ‘Dialogues’ (Diálogos), programa gravado em 1977 com Michel Foucault, Guy Hocquenghen e Jean Danet, no qual passam 1 hora e 11 minutos relativizando relações sexuais entre adultos e menores de idade, “argumentando” que pedófilos têm sido equivocadamente encarcerados por relações sexuais “consentidas”, além de fazerem uma enorme confusão entre ‘pedofilia’ e ‘homossexualidade’. Encabeçando esse “movimento” pró-pedofilia, o jornal Libération publicou até mesmo anúncios de adultos de 25, 27, 35 e 40 anos, à procura de “jovens” de 12 a 20 anos para “passarem um final de semana juntos”.
Conforme exposto por Cécile de Kervasdoué e Fiona Moghaddam em artigo publicado no dia 3 de janeiro de 2020 no site ‘France Culture’ sob o título ‘Quand dês intellectuels français défendaient la pédophilie’ (‘Quando os intelectuais franceses defendiam a pedofilia’), o caso de Gabriel Matzneff não foi um caso isolado. Assim como Matzneff, diversas pessoas públicas não somente explicitavam suas “preferências” e “experiências” com menores de idade em emissões e escritos públicos, como militavam em favor da pedofilia. Dentre eles, alguns receberam prêmios por seus trabalhos, sendo o último prêmio literário recebido por Matzneff o ‘Théophraste Renaudot’, em 2013.
A tolerância, o silêncio, a ausência do contraditório, a falta de oposição, a normalização, a naturalização, a complacência e a aceitação, tornaram esses fatos ainda mais chocantes. No dia 2 de março de 1990, a escritora canadense Denise Bombardier e Gabriel Matzneff estavam entre os convidados da emissão televisiva literária francesa ‘Apostrophes’ (canal ‘Antenne 2’, hoje ‘France 2’). 
Todos riam, sorriam e faziam “piadinhas” enquanto Matzneff ostentava suas relações “amorosas” com menores de idade e destilava seu machismo contra mulheres com mais idade. Denise Bombardier foi a única a manifestar sua indignação e enjoo em relação ao pedófilo (a partir de 1:35 aqui ou a partir de 13:50 aqui). Ela afirmou que a literatura não podia servir como álibi para a pedofilia.
Frente a frente com Matzneff, Bombardier diz acreditar viver num outro planeta. Aponta que no fim do século XX defendemos o direito, dignidade e integridade das pessoas, sendo o direito das crianças uma das coisas defendidas, ao mesmo tempo em que crianças e adolescentes são protegidos. Ela qualifica Matzneff como lamentável, chama a atenção para os traumas que essas meninas abusadas por ele carregam para o resto da vida, diz não compreender como seus livros são publicados, pois além de chatos e repetitivos, detalham como Matzneff sodomiza meninas de 14 e 15 anos. 
Questiona a cumplicidade das pessoas do meio literário francês, e pergunta como é possível aceitar esses abusos de poder contra as crianças e jovens e ao mesmo tempo denunciar outras violações de direitos. Indignada, pontua que se Matzneff fosse um trabalhador anônimo de uma empresa, ele já estaria acertando suas contas com a justiça da França.
Após o lançamento do livro de Vanessa Springora, Denise Bombardier concedeu algumas entrevistas, nas quais testemunha que não conseguiria se olhar no espelho se não tivesse feito tal intervenção. Sobre esse episódio, Springora menciona que Bombardier foi a única pessoa a intervir publicamente contra o pedófilo, e conclui que, infelizmente, o escritor, como sempre, ganhou a partida: "Fim de jogo. O célebre escritor venceu a mulher desagradável e agressiva, que passou por ‘mal amada’, invejosa da felicidade de meninas muito mais desabrochadas que ela” (p. 110).
Habituado com a impunidade, Gabriel Matzneff foi finalmente intimado a comparecer perante o Tribunal Penal de Paris por conta de uma denúncia feita por uma associação contra a pedofilia (‘L’association L’Ange’) no mês de dezembro de 2019. No dia seguinte à publicação do livro de Springora, um procurador anunciou uma investigação para tentar encontrar outras vítimas do pedófilo. Até aqui, a única pessoa ouvida pela mídia era o algoz. O livro de Vanessa Springora veio romper com essa ausência de fala das vítimas. Mulher das letras, Springora questiona: “não há limite para a literatura?”
O livro tem chacoalhado a mídia francesa e a sociedade. Publicação de mea culpa atrás de mea culpa. E, evidentemente, subterfúgios atrás de subterfúgios. Alguns argumentam que não se pode confundir "pedofilia", termo que significaria “amor pelas crianças”, com "pedocriminalogia", termo que significa pedofilia. Outros argumentam que “é culpa da época”.
Para terminar, compartilho três entrevistas concedidas por Vanessa Springora após a publicação de seu livro: aqui, aqui, e aqui (todas em francês, sem legendas).

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

VOCÊ NÃO VAI ENTRAR NO BOLÃO DO OSCAR?

Devo dizer que adorei Jojo Rabbit (veja o trailer legendado), filme do neozelandês Taika Waititi que concorre a seis estatuetas do Oscar. 
Entre os nove indicados a melhor filme, Jojo deve ser o mais levinho, o mais "feel good" (que faz a gente se sentir bem). Se bem que ainda não vi Adoráveis Mulheres e Ford vs Ferrari
Mas como assim, se Jojo se passa na Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial? Pois é, e ainda assim é uma comédia, uma sátira, que me fez verter umas lágrimas no fim. 
É um filme muito bonito sobre um menino de 10 anos que tem Hitler como amigo imaginário (o ídolo de Bolso é interpretado pelo próprio diretor, que também é comediante). Lá pelas tantas, o mini-nazi descobre que há uma menina judia escondida nas paredes de sua casa. Foi a mãe dele, feita pela Scarlett Johansson (indicada a melhor atriz coadjuvante), que a acolheu. 
É tudo muito fofo, ousado e criativo. Algumas pessoas não gostam que temas sérios como o antissemitismo e o holocausto sejam usados para fazer rir, e teve gente que criticou que Jojo pode passar a perigosa mensagem de que até nazistas podem ser boa gente (não, não podem). Mas eu achei que é uma sátira acima de tudo aos nazistas e ao que eles ainda hoje pensam e falam dos judeus.
Acabei de ler um livro muito bom, que a antropóloga Adriana Dias (que pesquisa neonazismo há 18 anos) me enviou em pdf. Chama-se Inside Organized Racism: Women in the Hate Movement, de Kathleen M. Blee. A autora entrevistou dezenas de mulheres que fazem parte da Ku Klux Klan, dos skinheads e de grupos neonazis nos EUA, e o que todos esses movimentos têm em comum é seu ódio aos judeus. Pra eles, judeus são seres abstratos (como identificar um judeu, se tantas vezes eles são tão parecidos com as "pessoas brancas"?), demoníacos, monstruosos, que agem nas sombras. Todas essas absurdas teorias da conspiração são exploradas em Jojo Rabbit. A gente ri do ridículo. E o humor pode ser uma arma poderosa contra o ódio. 
Sei que alguns se lembrarão que eu detestei A Vida é Bela, que também usa o holocausto para provocar risos, e também tem um menino como um de seus personagens principais. Confesso que meu desgosto pela comédia dramática de Roberto Benigni (que nunca revi, então não me lembro muito bem) foi influenciado pela competição com Central do Brasil (Vida concorria com Central pra Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999, e lamentavelmente ganhou). Mas Jojo me parece totalmente diferente de Vida. Mais inteligente, menos piegas. 
O maridão, que também gostou pacas de Jojo, discordou de mim quando afirmei que o filme nos faz sentir bem. "É como assistir Bambi de trás pra diante e achar que ele tem final feliz", disse ele. 
Corram pra entrar no bolão!
E aí, você acha que Jojo tem chances de ganhar uma das seis estatuetas a que foi indicado (filme, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, design de produção, figurino e edição)? Entre no meu tradicional bolão do Oscar pra fazer suas apostas! Clique aqui para entrar no bolão grátis e/ou aqui para o bolão pago (custa R$ 25, as instruções você lê neste post). Só até o dia 7 de fevereiro, gente!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

SOMOS AUTISTAS ASPIES: CONHEÇA NOSSA MINORIA POLÍTICA E NOSSA LUTA CONTRA O CAPACITISMO

Hoje publico o guest post do escritor e ativista aspie Robson Fernando de Souza, colaborador frequente aqui do blog.

Permitam nos apresentar: nós somos os autistas aspies. Ou seja, temos o “Transtorno” ou Condição do Espectro Autista de Nível 1, conhecida popularmente pelo termo obsoleto Síndrome de Asperger.
Hoje somos uma das minorias políticas mais desrespeitadas, discriminadas e, ao mesmo tempo, invisibilizadas nas sociedades modernas. 
Se você ainda não sabe o que sofremos no dia-a-dia por causa da exclusão e patologização que nos são impostas, convido você a conhecer, neste artigo, a nossa demanda por respeito e contra o preconceito das pessoas.
Antes de tudo, quero definir o autismo nível 1, ou Síndrome de Asperger. Essa é uma condição de neurodesenvolvimento -- que, ao contrário do que muitos creem, não é uma doença, nem um transtorno psiquiátrico, nem algo do qual sofremos -- caracterizada por uma faceta de deficiências e uma de notáveis pontos positivos.
No âmbito das deficiências, o autista aspie tem dificuldades como as de interação social, compreensão e uso de linguagem não verbal (expressões faciais, gesticulações, figuras de linguagem, postura corporal, mensagens escondidas nas entrelinhas, tom de voz etc), percepção de regras sociais implícitas e regulação emocional, além de sensibilidades sensoriais muito elevadas ou muito baixas e eventuais condições coexistentes, como TDAH, TOC, dislexia, prosopagnosia, Síndrome de Tourette, déficit de coordenação motora etc. Todas essas características nos proporcionam o reconhecimento como pessoas com deficiência, portanto necessitadas de políticas de acessibilidade e inclusão, pela Lei Federal nº 12.764/2012.
E no dos pontos positivos, o aspie costuma ter valorosas virtudes como a inteligência acima da média (sendo muitos aspies superdotados), a paixão profunda por uma ou mais áreas de conhecimento -- a ponto de ter o potencial de se tornar uma renomada autoridade nessa(s) disciplina(s) --, a personalidade autêntica, a honestidade e sinceridade, a lealdade, a aversão a joguinhos psicológicos, a comunicação clara, direto ao ponto sem intenções ocultas e mensagens dúbias, a atitude de questionar e desafiar autoridades, a postura de ir fazer sua parte ao invés de esperar pelos outros, a capacidade de se focar profundamente no trabalho ou estudo daquilo que mais gosta etc.
O que nos distingue dos chamados autistas clássicos é o nível de necessidade de apoios e aparatos de acessibilidade: temos uma necessidade menos intensiva do que a de autistas com níveis 2 (comumente conhecidos como “autistas moderados”) ou 3 (conhecidos pelo rótulo pejorativo de “autistas severos”). Mas preciso ressaltar que essa nossa necessidade é significativa à sua maneira e nunca deve ser ignorada ou subestimada, sob pena de termos uma qualidade de vida inferior, passarmos por muitas situações evitáveis de sofrimento e sermos privados do atendimento a diversas necessidades nossas.
Temos um gigantesco potencial para trazer grandiosas contribuições para o mundo, em especial naquelas áreas de conhecimento e talentos nos quais mais temos primor, fazendo dele um lugar muito melhor para se viver. Da mesma maneira, podemos muito bem ser os melhores amigos ou namorados da vida dos felizardos que gostarem genuinamente de nós do jeitinho que somos. 
Tanto é que atualmente vemos aspies brilharem perante o mundo, entre eles a ambientalista Greta Thunberg, o ator Anthony Hopkins e cantores como Susan Boyle, Courtney Love e Gary Numan. Além disso, acredita-se que personalidades como Albert Einstein, Bill Gates, Alan Turing, Isaac Newton, Michael Jackson, Jeremy Bentham, Syd Barrett, Tim Burton, Andy Warhol e Charles Darwin podem ser (os vivos) ou ter sido (os falecidos) aspies. (Obs.: Foram refutadas as alegações de que Lionel Messi e Satoshi Tajiri, criador de Pokémon, seriam autistas.)
Isso sem falar em marcantes personagens de novelas, filmes e seriados como Benê (Malhação: Viva a Diferença e As Five), Sam Gardner (Atypical), Shaun Murphy (The Good Doctor), Sheldon Cooper (The Big Bang Theory e Jovem Sheldon) e provavelmente Newt Scamander (Animais Fantásticos).
Que bom seria se nossos potenciais pudessem sempre ser desfrutados por completo e fôssemos integralmente respeitados e estimulados a dar o nosso melhor. Isso nos faria ser muito mais livres e felizes e o mundo, muito melhor. Mas infelizmente não é isso que costuma acontecer.
Isso porque há um severo obstáculo em nosso caminho: o capacitismo da sociedade contra autistas. Ele se manifesta de diversas maneiras, todas as quais nos relegam a ser tratados de maneira discriminatória, intolerante, patologizante, diminutiva, paternalista e excludente.
Em primeiro lugar, as pessoas não entendem nossas peculiaridades autísticas, como a dificuldade de entender regras sociais implícitas e formas de linguagem não verbal e de manter contato visual, o hábito de fazer stims (movimentos repetitivos que fazemos para regular nossas emoções e o estresse), a sinceridade muitas vezes desmedida e nossos comportamentos considerados dessincronizados com nossa idade cronológica.
Daí consideram essas características falhas de personalidade ou mesmo desvios de caráter. Nos julgam de maneira severa e preconceituosa. Nos tratam com rispidez e repreensão, como pessoas inferiores, defeituosas e antiéticas. Nos tacham de imaturos, grosseiros, insensíveis e outras depreciações. Nos induzem vergonha e culpa. Nos excluem das interações sociais ou limitam as oportunidades de participar delas. Nos veem como inferiores. Dizem que não seríamos capazes de ter empatia, quando curiosamente elas mesmas não são empáticas para conosco.
Muitos outros, como se tudo isso não bastasse, pegam mais pesado, são explicitamente cruéis e nos atacam com bullying capacitista. Nos insultam, nos rebaixam, nos agridem até fisicamente, defendem que não nos misturemos com os neurotípicos. Chamam nossa condição de “doença”, “perturbação”, “patologia” ou “distúrbio”, inspirados no infame e antiético modelo médico do autismo, também conhecido como paradigma da patologia.
A discriminação capacitista também é extremamente comum no mercado de trabalho: as empresas, em sua grande maioria despreparadas para ter funcionários autistas, consideram nossas limitações de linguagem não verbal e interação social sinais de “incompetência” e assim tendem a nos rejeitar nas entrevistas ou, se conseguimos ser contratados, nos demitir em pouco tempo. Não é à toa que mais de 75% de todos os autistas, incluindo aspies, padecem no desemprego.
Ela também reina nas escolas, que, quando não simplesmente negam matrícula para crianças e adolescentes autistas, tratam-nos como se fossem neurotípicos “defeituosos” e usam métodos didáticos que lhes desconsideram as necessidades específicas e dificuldades de aprendizagem, acarretando um aprendizado abaixo do desejado e esperado.
E não só isso: os ambientes urbanos geralmente são muito hostis para com autistas com hipersensibilidade sensorial. É extremamente comum que as ruas, as lojas, os ônibus, os trens e metrôs, os shoppings, os prédios de empresas de serviços, as indústrias, os restaurantes e lanchonetes, os parques de diversão, as festas e eventos sociais etc emitam barulhos, cheiros e luzes que para nós são fortes demais. Diante desses pesados estímulos sensoriais, é comum sofrermos sobrecarga mental, picos de estresse e irritabilidade e, em muitos casos, até mesmo crises nervosas, os temidos meltdowns.
E o pior é que, mesmo nós sendo alvos frequentes de preconceito e discriminação capacitistas, muitos não nos veem como autistas, nem como pessoas com deficiência. É comum que ponham em dúvida nosso autodiagnóstico ou nosso laudo psiquiátrico, ou que julguem que “não somos autistas” porque temos boa habilidade de fala e somos inteligentes, ou que achem que, por termos um autismo considerado “leve”, seríamos menos autistas e sofreríamos menos com discriminação, exclusão social e inacessibilidade do que os autistas de graus maiores de necessidade de apoio.
Diante de toda essa realidade de exclusão e maus tratos sociais contra nós, estamos começando a nos organizar e lutar pela aceitação do autismo, pela inclusão dos autistas, pelo asseguramento e respeito aos nossos direitos e contra o capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência, incluindo autistas) e a psicofobia (preconceito contra pessoas com transtornos mentais, entre elas a maioria dos autistas, que sofrem com depressão, ansiedade, transtorno bipolar etc).
Estamos construindo e desenvolvendo o movimento defensor da neurodiversidade autista, ou seja, da diversidade de cérebros humanos como algo natural da humanidade, ao invés de uma patologia. É basicamente o movimento que defende os autistas de maneira similar a como o feminismo defende as mulheres e combate o machismo, o movimento negro defende as pessoas negras e combate o racismo, o movimento LGBT defende as pessoas sexodiversas e combate a LGBTfobia etc.
Entre nossas pautas, estão a abolição de toda forma de capacitismo e psicofobia e do modelo médico do autismo, a substituição deste pelo modelo social do autismo, a universalização dos diagnósticos infantis e tardios do espectro autista -- os quais infelizmente ainda não são um direito no Brasil hoje em dia -- no SUS e nos planos de saúde, 
a implementação de políticas públicas de acessibilidade e inclusão para os autistas, políticas ambientais que controlem estritamente as poluições que nos causam sobrecarga sensorial, o banimento dos fogos de artifício barulhentos, a inclusão plena de alunos, professores e técnico-administrativos autistas em instituições de ensino, o combate a propostas de “cura” do autismo, a abolição das terapias de supressão de características autísticas inofensivas, o fim da repressão sociocultural dos comportamentos autísticos, a valorização dos talentos dos autistas, a capacitação dos jornalistas para que evitem discursos preconceituosos ao falar da condição etc.
Está chegando o dia em que nós autistas, incluindo aspies, nos tornaremos tão visíveis, coletivamente fortes, reconhecidos, ouvidos e respeitados como minoria política em luta quanto as mulheres, as pessoas negras e as pessoas LGBTs. Este artigo, espero eu, contribui para que esse futuro chegue mais rápido.
Queremos que cada vez mais pessoas se conscientizem das nossas necessidades e dificuldades, das opressões que sofremos e das nossas reivindicações em prol de uma sociedade que nos respeite, nos aceite e nos inclua. Portanto, se você ainda não havia lido, ouvido ou assistido nada sobre isso, então seja bem vindo à nova era da luta dos autistas, e sinta-se mais que convidado a apoiar nossa bandeira e desconstruir as suas crenças e atitudes capacitistas e psicofóbicas.