quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

PIZZA NA CPI? BOLSO NÃO PODE FICAR IMPUNE

Quem achava que o Senado era um pouco menos pior que a Câmara, por causa da atuação de alguns senadores na CPI da Covid, caiu do cavalo. Esta semana os excelentíssimos já aprovaram a regulamentação do orçamento secreto e a nomeação do terrivelmente evangélico André Mendonça para ministro do STF. 

Ou seja: mesmo que por um milagre o cúmplice do genocídio Arthur Lira tocasse um dos 141 pedidos de impeachment contra o genocida e ele fosse aprovado na Câmara, não passaria no Senado. 

Ainda assim, não deixo de me impressionar que todas as provas reunidas na CPI da Covid provavelmente não darão em nada. É revoltante. Reproduzo o artigo do jornalista e escritor Juan Arias, do El País.

Se depois da CPI Bolsonaro ficar impune, será um escárnio nacional

Os brasileiros estão acostumados com que as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) acabem sempre em nada, ou em “em pizza”, como se costuma dizer. Contudo, esperava-se que a CPI da Pandemia fosse uma exceção. Não se tem memória, por certo, de outra CPI que tenha sido tão seguida pela opinião pública com o fervor e paixão de um campeonato de futebol. O Senado ficou paralisado durante seis meses. Fez estremecer o país depois de ter descoberto as feridas abertas de um escândalo de corrupção, de negligência e de negacionismo por parte do presidente Jair Bolsonaro e deu seu Governo, que por um momento se viram encurralados.

Foram seis meses de trabalho de uma CPI que, no final, produziu um documento acusatório de mais de 1.000 páginas. Entre os acusados, estão o presidente e outras 79 pessoas, entre elas ministros, ex-ministros, políticos e empresários. Bolsonaro foi acusado de cometer crimes comuns, crimes de responsabilidade e crimes contra a humanidade.

O documento indicou quantas vidas poderiam ter sido salvas sem os crimes políticos cometidos, abrindo a possibilidade de que o presidente poderia acabar retirado de seu cargo. Ressoou no Senado o grito de “genocida” contra ele. Foi um momento de esperança da sociedade de vingar a morte de seus entes e deixar o pesadelo de um Governo desprestigiado mundialmente.

O documento acusatório foi apresentado pela CPI ao procurador-geral Augusto Aras há um mês. E apenas agora, depois de ter sido chamado por senadores para prestar esclarecimentos, ele afirmou que irá se pronunciar sobre as providências que pretende tomar no dia 27/11, sábado. É verdade que Aras é conhecido como amigo pessoal presidente, a quem tenta sempre proteger, mas desta vez trata-se de algo grave demais, que diz respeito a toda sociedade. Estão em jogo as esperanças de se fazer justiça às vítimas da pandemia.

Se todos os esforços da CPI do Senado que foram elogiados pela opinião pública e vistos como uma reparação pelos excessos cometidos acabarem em fumaça, seria uma grande frustração nacional e até internacional, já que a investigação também foi seguida no exterior com interesse e preocupação. Que a CPI possa não dar em nada se intui pela desenvoltura com a qual Bolsonaro, denunciado inclusive aos tribunais internacionais, está zombado das acusações que recaem sobre ele, assim como pelo silêncio do Congresso Nacional, que poderia ter aberto um processo de impeachment contra o presidente.

O Brasil foi gravemente ferido pela pandemia em grande parte devido à negligência de seus governantes, e isso é duplamente grave porque pode aumentar, se possível, a desconfiança da sociedade em seus políticos e juízes que acabam se protegendo sem nunca serem processados.

Essa foi a única vez que a opinião pública, dada a comoção que o documento final do Senado produziu com suas graves acusações contra Bolsonaro e seu Governo, passou a esperar que servisse para tirar do poder aquele que é considerado o pior presidente da democracia. Democracia que ele tentou minar por todos os meios, ameaçando várias vezes com um golpe.

A gravidade de uma possível frustração dos resultados da CPI da Pandemia poderia ter graves repercussões nas próximas eleições presidenciais, nas quais se esperava poder libertar o país de um dos maiores pesadelos autoritários de sua história, com graves consequências na economia e na convivência do país devido à semeadura do ódio por parte de um presidente.

A responsabilidade pelo fracasso do trabalho da CPI da Pandemia significaria a sobrevivência política de Bolsonaro. O novo triunfo da extrema direita golpista seria um desastre para uma economia já gravemente fragilizada e deixaria no poder as forças reacionárias que fizeram deste país, que já foi a sexta potência econômica mundial e uma democracia consolidada aprovada por 70% da população, uma imitação das chamadas repúblicas das bananas.

A responsabilidade do Senado, caso se resigne em que a CPI que criou tantas esperanças acabe em nada e faça ressurgir o genocida Bolsonaro com ainda mais força, acabará não só manchando a memória dos mortos da pandemia mas também zombando da dor das famílias que perderam seus entes queridos.

Os mais interessados em garantir que o trabalho da CPI não acabe frustrado e sem consequências condenatórias concretas, sem esperar anos, devem ser os vários candidatos a disputar as próximas eleições presidenciais. Se é difícil para um presidente não ganhar a reeleição, já que tem toda a máquina do Estado à sua disposição, neste caso uma vitória de Bolsonaro incólume das graves acusações da CPI da Pandemia significaria uma triste derrota para a democracia.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

CORONEL SIQUEIRA NÃO MORREU (AINDA BEM)

1o update em 30/11, 21h. Dez minutos antes de eu publicar meu post, (leia antes, se estiver boiando nessa história), Coronel Siqueira publicou um texto na Carta Capital chamado "A quem interessa matar o Coronel Siqueira?". Primeiro tem uma introdução categórica da Carta: "Jamais alguém chamado Sergio Liotte enviou textos para a revista".

Em seguida o Coronel conta que mora na Espanha e que usou uma conta criada em dezembro de 2019 para estrear o personagem, mas que nunca quis se expor, apenas se divertir, e que sempre recusou pedidos de entrevistas e lives. Apenas aceitou escrever a coluna pra revista. 

E que ontem recebeu um telefonema da sua mãe, assustada depois de ler que o criador do Coronel tinha morrido. Mandou email pra DCM, falou com o Fabrício que, segundo ele, insistiu em saber seu CPF. O Coronel diz que viu um pedaço da live até "a hora que a moça falou que a foto era de um tio. Ali vi que era realmente tudo uma farsa rocambolesca". E desativou todas as suas contas (o perfil @direitasiqueira voltou hoje, junto com o texto, mas ele disse que vai dar um tempo. E deixou um email de contato: 11coronelsiqueira11@gmail.com 

Bom, a mim ele convenceu e eu mudei de opinião de novo. É ele, alguém cujo nome real eu desconheço, e não o Liotte o Coronel Siqueira. Não concordo com o tom conspiratório do seu texto, como se o DCM quisesse derrubá-lo ou expô-lo ou ficar com seu perfil. Creio que o DCM quis fazer o que qualquer site jornalístico quer: dar uma notícia com exclusividade. Também discordo que ontem o Coronel foi "eleito o inimigo da esquerda punitivista, viciada em cancelamentos, agindo sempre como matilhas". O que toda a esquerda fez foi lamentar a morte do Coronel e destacar como ele fará falta. Isso não me parece exatamente um cancelamento. 

Ninguém o viu como inimigo. O personagem Coronel Siqueira é praticamente uma unanimidade -- todos da esquerda gostam. A dúvida era se Liotte, que de fato morreu, e que de fato era marido de Patrícia, era ou não o criador do perfil. E se quem estava continuando com o perfil era o verdadeiro e único Coronel ou um dos cinco colaboradores que a viúva disse que havia. Muita gente não acreditou nela e na versão do DCM. 

Acho também que talvez a situação pudesse ter se resolvido mais rapidamente e sem tanto drama se o Coronel e Fabrício tivessem conversado, se o DCM tivesse perguntado à viúva sobre a foto do perfil (afinal, aquilo é o mais estranho: ela não precisava ter contado a história elaborada do tio comunista), se o Coronel tivesse seguido com o perfil e se defendido, publicando uma versão do texto ontem mesmo, se a Carta tivesse dito ontem o que só disse hoje sobre nunca ter recebido textos do Liotte (a Carta, pra mim, mostrou a mesma dificuldade de se comunicar com os leitores que tem a grande imprensa). 

Pelo que vi, o DCM ainda não se manifestou depois do texto do Coronel. Vi apenas uns tuítes do Fabrício dizendo que estavam respeitando o luto de Patrícia e esperando que ela mostre as provas que disse ter. Meu palpite é que ela não vai mais querer falar disso, e sobrará pro DCM se explicar e, talvez, admitir a barrigada (um erro jornalístico que não é necessariamente resultado de péssimas intenções).

Eu fico feliz que o Coronel não morreu. 

A "MORTE" E OS MISTÉRIOS DO CORONEL SIQUEIRA

Ontem à noite a internet, ou a parte progressista da internet, entrou em polvorosa com a suposta morte de um perfil muito querido e admirado, o Coronel Siqueira. O @direitasiqueira, que existia desde meados do ano passado, divertia a esquerda (e enganava quem não entende ironia) ao fingir ser um bolsonarista fanático. Nas entrelinhas, era evidente que era um admirador do Lula e do PT. 

Ontem às 9 da manhã morreu de pancreatite aos 48 anos o advogado e mestre em Geologia Sergio Vicente Liotte. Eu não o conhecia, mas ele me seguia no seu perfil no Twitter. Às 14 horas de ontem, Patricia Liotte, viúva de Sérgio, escreveu no Twitter: "É com imensa dor e pesar que informo o falecimento do meu marido, Sergio Vicente Liotte, na data de hoje. Agradeço as manifestações de pesar de todos os amigos".

Quanto a isso não resta dúvida. Existiu um homem chamado Sergio que morreu ontem, muito jovem, lamentavelmente. Patricia era sua esposa e Jessica, sua filha. O velório e enterro acontecem hoje. Meus pêsames à família. 

À noite, o Diário do Centro do Mundo (DCM) publicou uma matéria assinada por Fabrício Rinaldi dizendo que Sergio Liotte era o criador do Coronel Siqueira e havia morrido. A matéria cita Patricia, que explica que o Coronel estava no CPF do Sergio, que havia compartilhado o perfil com outros colaboradores para que eles também postassem "no estilo do Coronel": "Agora o Siqueira está mais democrático. Quem está postando mais é um pessoal de Porto Alegre. Eu estou com pouco tempo. Estou com minha mãe internada, caso grave".

Patricia também fala do rosto que aparece no perfil de Siqueira: "O rosto do Siqueira era o do meu tio, comunista doente, falecido em 2018 quando essa Bozo já tinha sido eleito. Tributo a um assistente social que trabalhou por 40 anos em creches municipais de SP". 

Antes, Fabrício trocou mensagens com quem ainda estava com o perfil do Coronel, pedindo para entrevistá-lo, avisando que fariam uma live na TV DCM com a viúva. Nesses tuítes, o Coronel diz que não conhece Sergio e que irá "processar quem quer que seja". 

Minutos depois do DCM publicar a matéria, o Coronel desmentiu a notícia: “Gente, que barrigada do DCM foi essa?” Eu caí. Fiz um tuíte afirmando que, se o Coronel Siqueira apareceu pra se dizer vivo, eu iria acreditar nele. Ele então me enviou umas três DMs (direct messages) dizendo estar chateado com aquilo tudo, sem saber o que estava acontecendo ou por que estavam fazendo isso. 

Em seguida, algum seguidor me enviou o link pra live do DCM, que trazia Patrícia em cores e ao vivo repetindo o mesmo que havia dito para Fabricio na matéria escrita. Ela, que também é advogada, falou que iria processar a pessoa que continuava usando o perfil. Os ânimos estavam acirrados na live. Fabrício e o diretor de redação do DCM, Kiko Nogueira, também falaram em processo e em investigar para descobrir quem continuava por trás do perfil, se passando pelo Coronel. 

Durante a live, duas coisas importantes ocorreram: primeiro, a Carta Capital publicou um texto não assinado afirmando que Siqueira "segue vivíssimo", e que "a pessoa por trás do perfil" foi pega de surpresa, não conhece Sergio, e que só ele é o criador e autor das postagens do Coronel Siqueira, sem colaboradores. 

A Carta, que tinha/tem o Coronel como colunista (provavelmente pago, então não tem como a revista não saber quem ele é), mencionou que Patrícia havia dito que a foto que ilustrava o perfil do Coronel era de um tio dela, mas mostrou um print de um email de março de Siqueira dizendo que a imagem era do site This Person Does Not Exist, que gera rostos através da inteligência artificial. Teria sido bem esclarecedor se o DCM tivesse questionado a viúva sobre essa ponta solta de sua história.

A segunda coisa importante que aconteceu durante a live é que o perfil Coronel Siqueira no Twitter foi tirado do ar. No Instagram também, ao mesmo tempo, o que desmonta a tese de que foi derrubado. Quem o removeu tem a senha e decidiu removê-lo. Agora, por quê? Se o perfil é seu, você fica e prova que é seu. Não o retira após ser ameaçado de processo. Pra mim e pra muita gente, soou como uma confissão de culpa. 

Aí eu fiquei pensando: eu acompanhava muito o Coronel no Twitter. Dava RT em vários de seus posts e ele nos meus (tínhamos/temos praticamente o mesmo número de seguidores, uns 175 mil). Muitas vezes respondíamos os tuítes um do outro. Nesses quase dois anos de convivência, sabem quantas DMs o Coronel me enviou? Zero. E aí ontem me envia logo três? Tudo bem que ele nunca tinha morrido antes, mas eu deveria ter desconfiado naquele instante. Depois outras pessoas vieram me contar que também receberam DM dele, antes de deletar o perfil (quando o perfil desaparece, as DMs também somem). 

A essa altura o Twitter já estava um pandemônio, apesar do UOL ter publicado uma matéria comprovando boa parte do que a viúva e o DCM disseram (menos sobre a tal da foto polêmica). Tinha gente aproveitando pra declarar que o DCM mente sempre (é impressionante como tem gente de esquerda que odeia o DCM e o Brasil 247), gente julgando a viúva e determinando regras de etiqueta sobre luto (basicamente: você não pode fazer uma live no mesmo dia em que seu marido morreu, mesmo que todo mundo esteja falando sobre ele), gente falando que deveríamos focar na votação sobre o orçamento secreto, gente especulando que o DCM quis acabar com o Coronel porque ele gostava do PCO (não me perguntem que eu também não entendi), gente muito chateada com o fim do perfil do Coronel... E isso que eu perdi o Spaces comandado pelo JairMeArrependi, outro perfil anônimo fabuloso (pô, por que a galera faz Spaces se o troço nem fica gravado?!).

Hoje de manhã uns três perfis bastante hostis vieram me dizer a mesma coisa: que eram amigos pessoais do verdadeiro Coronel (que não seria o Sergio) e que ele estava muito decepcionado comigo. Um me contou que o perfil sempre foi administrado da Europa, não de Porto Alegre, e acusou a viúva de delírio. Outro tentou responder a minha pergunta mais frequente: por que Patrícia mentiria? A resposta do "amigo (anônimo) do Coronel" foi que talvez Sergio tivesse mentido pra esposa e a filha (que foi bastante atacada e deletou seu perfil). Um outro justificou que o Coronel não tem que aparecer nem provar nada, porque senão seria marcado e perseguido. Pra mim, que sou marcada de morte e perseguida há mais de dez anos, é estranho ler algo assim. Parece que coragem é um item em falta no mercado.

Também agora de manhã, o DCM escreveu que a Carta Capital mentiu em sua matéria. Numa troca de mensagens (que o DCM infelizmente não conta entre quem), um jornalista da Carta escreveu ontem: "Morreu o criador da conta [do Coronel]. Tem outros cinco administrando, mas acabaram de derrubar a conta dele". A revista Fórum (outra publicação de esquerda, assim como o DCM, o Br247, a Carta) confirmou isso, mas depois publicou outra resposta da Carta: "nós nunca nos comunicamos com alguém de nome Sergio Liotte. Apenas com a pessoa que, até ontem, manteve acesso de fato ao perfil Coronel Siqueira. Os canais de contato que mantemos com essa pessoa desde o início da colaboração, no início do ano passado, seguem operantes”.

Se Sergio era de fato o criador do perfil e há mais de uma pessoa colaborando, como conta Patrícia, o que elas deveriam ter feito, a meu ver? Lamentar a morte do criador, e anunciar que o perfil (a criação) continuaria. E pronto, não haveria problema algum. Agora, se Sergio não tem nada a ver com a história, a viúva deveria se explicar. Algo me diz que ainda vamos ouvir falar bastante nesse imbróglio. Espero que não chegue aos tribunais. Ninguém merece isso.

O que me leva a refletir sobre a fragilidade das informações e dos relacionamentos na internet. Isso tudo me lembrou demais uma situação que vivi em 2012. Uma comentarista querida, inteligente e frequente do meu blog, a Niemi, "morreu". Só que pouco depois começaram a chegar desconfianças sobre a doença que a levou a sua morte. Depois concluiu-se que não existia uma Niemi com aquele nome. Mais tarde, que a foto que ela usava pertencia a outra pessoa. Mas eu só me convenci mesmo que Niemi não tinha morrido ao receber um email considerando desrespeitoso duvidar de sua morte. Mesmo que o email não estava assinado por Niemi, veio da conta dela! Putz, não teria sido tudo mais simples e menos melodramático se Niemi apenas tivesse deletado todos os seus perfis? 

Bom, agora tenho que preparar e dar aula, que a vida real não para aqui fora. Atualizarei o post com novas informações. Só que o primeiro update já ficou tão longo que vou colocá-lo num post separado, ou ninguém vai vê-lo (aqui, ó!).

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

POLÍTICAS MULHERES SÃO AMEAÇADAS POR COLEGAS QUE NÃO SÃO PUNIDOS

Reproduzo aqui uma ótima reportagem de Catia Seabra e Mathilde Missioneiro que a Folha de S. Paulo publicou semana passada sobre como as mulheres são tratadas na política. 


Brasil é 142o no ranking de participação de mulheres na política 

"Vou te tratar como homem", ameaça um vereador. "Você gosta de ficar superior ao homem", vocifera um deputado estadual. "Você não vai falar coisa nenhuma aqui", censura outro vereador. Dirigidas a parlamentares do sexo feminino durante sessões plenárias, essas frases ilustram cenas de violência contra mulheres dentro de suas casas legislativas.

Até agora, nenhum dos autores dessas afirmações foi punido pelos colegas de Parlamento.

Dentre 192 países, o Brasil ocupa a 142ª posição do ranking internacional de participação de mulheres na política. A vizinha Argentina figura em vigésimo lugar nessa classificação, que é elaborada pela União Interparlamentar com base na composição dos parlamentos de cada país na esfera federal. Na América Latina, só o Haiti fica atrás do Brasil na lista, que foi atualizada em outubro.

No Brasil, as mulheres representam 15% da Câmara de Deputados, enquanto a bancada de senadoras eleitas em 2018 corresponde a 11,54% da Casa. Em 2018, foram eleitas 161 deputadas estaduais, o equivalente a 15,56% do total.

O número de vereadoras eleitas em 2020 (898) corresponde a apenas 16,51% dos assentos das câmaras municipais, embora as mulheres representem 52,50% do eleitorado.

Pela lei brasileira, os partidos são obrigados a destinar 30% de suas vagas a mulheres, com distribuição proporcional de recursos para campanha.

Um estudo realizado pelo Instituto Marielle Franco concluiu que 98,5% das candidatas negras sofreram mais de um tipo de violência política na disputa eleitoral de 2020. Segundo a pesquisa, para a qual foram ouvidas 142 candidatas negras em 21 estados, 78% delas foram alvo de violência virtual. Mais da metade (62%) respondeu ter sofrido violência moral e psicológica, enquanto 42% relataram violência física e 32%, sexual.

Ainda segundo a pesquisa, pouco mais de 32% das candidatas tiveram coragem de denunciar as agressões. Mas 70% afirmam que as denúncias não surtiram efeito. Os percalços atingem também as ocupantes de cargos eletivos.

Em Niterói (RJ), a vereadora Verônica Lima (PT) registrou ocorrência contra o colega Paulo Eduardo Gomes (PSOL), a quem acusa de homofobia e de intimidação durante reunião de líderes da Câmara Municipal.

O embate começou quando Verônica questionou Gomes por ter apresentado um projeto com teor semelhante a uma proposta de sua autoria.

Diante dos demais líderes, a vereadora perguntou a Gomes por que seu projeto estava parado desde setembro de 2019 na comissão que é presidida por ele.

Gomes lançou dúvidas sobre a constitucionalidade da proposta dela. Em resposta, ela lembrou que o projeto já tinha sido aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa.

Segundo Verônica, Gomes se exaltou e se lançou em sua direção quando ela também subiu o tom de voz pedindo que ele parasse de gritar. "Você quer ser tratada como homem, então vou te tratar como homem", disse ele, sendo contido por colegas.

"Foi assustador. Encostei na parede. Ele se projetou na minha direção. Saí de lá aos prantos", conta ela.

Primeira mulher negra eleita para a Câmara de Niterói, Verônica diz que sofreu violência por ser lésbica, mas foi orientada a registrar o caso como "injúria" e "constrangimento ilegal".

O vereador se desculpou e foi punido pelo PSOL com suspensão das atividades parlamentares por 60 dias, corte do salário, e comparecimento obrigatório em curso de formação do partido. Mas a Comissão de Ética da Câmara ainda não se manifestou sobre o caso.

"Sigo em um processo de reciclagem e aprendizado permanente com o partido e com toda a militância. Cometi um erro, mas a frase foi distorcida e não houve nenhuma menção à violência física. Este conteúdo será debatido judicialmente. No entanto, independente disso, reitero que me arrependo profundamente da frase dita em meio a uma discussão acalorada", diz o vereador.

Ex-chefe de gabinete e sucessora política da vereadora Marielle Franco —assassinada em março de 2018—, a deputada estadual Renata Souza (PSOL) chora ao recordar o papel da amiga em sua trajetória profissional. Ela conta, por exemplo, que Marielle foi fundamental para que obtivesse bolsa integral para cursar jornalismo na PUC-RJ.

Foi Marielle quem articulou a reunião em que Renata se apresentaria à comissão responsável para análise de seu currículo para concessão de bolsa, recomendando que a hoje deputada procurasse uma pessoa.

Chegando à faculdade, que fica na Zona Sul do Rio, Renata foi informada que a pessoa indicada por Marielle não estaria no prédio. Desesperada e sem crédito para o celular, telefonou a cobrar para Marielle, que insistiu para que Renata não desistisse.

"Se hoje fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado, eu devo a Marielle. Ela não pediu para eu ficar. Ela mandou", relembra.

Cria do Complexo da Maré, Renata também se emociona ao contar que sua casa abrigou reuniões políticas determinantes para o destino político de Marielle e do deputado federal Marcelo Freixo, hoje no PSB.

Na casa onde nasceu e foi criada, ela relata as ameaças que passou a receber depois de sua eleição para a Assembleia Legislativa do Rio.

"Depois que fui eleita a mais votada do campo da esquerda do Rio, no dia seguinte da votação, já tinha diversas ameaças nas nossas redes sociais, desde xingamento machistas, racistas… Recebo muita coisa do tipo 'presta atenção no que está falando, Marielle morreu porque falou isso'", diz.

A deputada, de 39 anos, passou a contar com escolta após sua eleição para Alerj.

"Não vou morrer. Não serei uma presa fácil", repete.

Além da escolta e de uso de carro blindado, Renata teve que deixar a Maré. "Talvez essa tenha sido a coisa mais difícil para mim. Porque é aqui que consolidei toda a minha vida. Com toda dificuldade que se tem, desigualdade social, é aqui que eu bati minha laje", afirma ela, acrescentando que não saiu da Maré por causa da violência dentro da favela, mas dos riscos que poderia correr a caminho dela.

Já na Alerj, Renata enfrenta oposição incisiva do bolsonarista Rodrigo Amorim (PSL), o mesmo que, durante a campanha de 2018, quebrou uma placa em homenagem a Marielle.

Em plenário, Amorim já chegou a sugerir que a deputada tirasse vantagens financeiras ("capilés") da morte de vereadora. Em plenário, o deputado também sugeriu que Renata fosse submetida a uma inspeção sanitária após volta de um seminário na Espanha em março de 2020, no início da pandemia. O bolsonarista disse ainda que a deputada queria ser superior aos homens, além de "mimada" e "nariz empinado".

Renata, que já foi comparada a uma bruxa por um aliado de Amorim, entrou com uma representação contra o adversário por quebra de decoro parlamentar.

Amorim disse receber com alegria tudo que venha contra ele da deputada Renata Souza e de seu partido.

"Sou um declarado opositor do partido dela e refuto essas acusações de violência contra a mulher na política. O problema é que todas as vezes que eu refuto qualquer ideia —e aqui peço aspas para 'ideia'— ela usa o recurso do vitimismo para tentar vencer o debate. Sempre serei contra as ideias que representam ameaças aos valores da família."

Segundo Amorim, essa representação surgiu quando ele questionou o lucro que seu guru político, o deputado Marcelo Freixo, obteve com a morte de Marielle Franco, "principalmente vendendo-a como obra para uma empresa de streaming".

A história da vereadora foi contada em uma série documental lançada em 2020 e está sendo transformada em um projeto de ficção pela Globoplay, com produção executiva de Antonia Pellegrino e José Padilha e direção de Jeferson De.

Em agosto, o presidente Jair Bolsonaro sancionou lei para combater violência política contra mulheres. 

A lei prevê pena de um a quatro anos de prisão, além de multa, para quem "assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar, por qualquer meio, candidata a cargo eletivo ou detentora de mandato eletivo, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição de mulher ou à sua cor, raça ou etnia, com a finalidade de impedir ou de dificultar a sua campanha eleitoral ou o desempenho de seu mandato eletivo".

​A lei não determina o canal para realização de denúncias.

Em outubro, uma sessão da Câmara de Vereadores da pequena cidade de Pedreiras, com pouco mais de 20 mil eleitores, no Maranhão, ganhou projeção nacional e virou caso de polícia, sendo encaminhado à Justiça.

O vereador Emanuel Nascimento (PL) avançou sobre a colega Katyane Leite (PTB) e arrancou o microfone, impedindo que ela contestasse uma afirmação feita por ele: de que ela teria votado contra a cessão de um terreno federal para a construção de um parque na cidade.

A vereadora, que havia pedido vista ao projeto, tendo votado em seu favor, cobrava respeito do colega, quando foi interrompida.

"Você não vai falar coisa nenhuma aqui", gritou Nascimento, após levantar-se da cadeira e arrancar por duas vezes o microfone das mãos de Katyane.

"Fiquei com medo. Achei que fosse me bater. Apenas levantei o braço", diz Katyane.

A vereadora apresentou representação Ministério Público e ao conselho de ética da Câmara. Como ela requereu a cassação do mandato de todos os integrantes da mesa-diretora da Casa, o pedido foi rejeitado pelos vereadores. Foi instaurado um inquérito policial, que já foi encaminhado à Justiça.

Procurado, o vereador não atendeu à Folha. À Polícia, disse que tomou uma atitude impensada, atribuindo seu comportamento a hipertensão e diabetes. Nascimento disse ainda que toma 12 remédios diariamente e que está completamente arrependido.

Vítimas podem denunciar eventos de violência política nos Parlamentos em que atuam ou em delegacias de polícia.

Mulheres também podem reportar agressões pelo Ligue 180 (basta teclar 180 de qualquer telefone fixo ou celular). O serviço está disponível 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados.

A ligação é gratuita.