quinta-feira, 2 de abril de 2020

QUANDO ACABAR A QUARENTENA, FURACÃO VAI CORRER NA PRAIA

Hoje é Dia Mundial da Conscientização do Autismo! Quem me avisou foi a historiadora Tereza Raquel, que é avó coruja de um autista. Pedi pra ela escrever um texto, e ei-lo aqui:

Me lembro de um mês de março em que a família toda se reuniu para fazer uma viagem  à Ubatuba, SP. Meu neto, com 1 ano e meio na ocasião, quando viu a praia, teve uma sensação de total liberdade, de ter conhecido o infinito, pois saiu correndo incontrolavelmente, com a carinha mais feliz do mundo. Assustada, uma parte dos familiares correu atrás, outra parte ficou parada rindo achando lindo. Eu, confesso, sou da segunda turma.
Estou abrindo o meu relato com esta lembrança, porque para falar sobre o Dia Internacional de Conscientização do Autismo, penso, talvez como o meu neto, ter conhecido o infinito… de incertezas, medos, angústia, mas também de muito amor, brincadeiras, comemorações a cada conquista, abraços e beijos mais do que carinhosos e muita resistência para lutar.
O tempo passou e aos 2 anos e meio veio o diagnóstico de autismo do meu "Furacão", apelido que dei ao meu neto, por ser muito levado e deixar rastros de brinquedos e de coisas dele por onde passa.
Quando se fala em autismo, ou qualquer outro tipo de deficiência física/mental, no primeiro momento vem o choro, uma dor, uma revolta, uns tantos por quês? Como? Depois vem a fase "respira" e "vamos ver o tem que ser feito". E no final, se é que tem um final a fase, "bora pra luta, que estamos só começando". A batalha é grande, nosso filho é  autista.
Então sou avó de um Furacão Autista, sou a "vovó Aquel", pois ele ainda não consegue pronunciar o R de Raquel, mas seu vocabulário está enorme e suas habilidades vão se desenvolvendo, principalmente na tentativa de me enganar para pegar o celular.
Ser avó de uma criança autista me despertou para muita coisa para que eu via mas não percebia. Agora eu vivo, sinto, me envolvo, cobro. 
No nível de legislação federal tivemos alguns avanços com nossa luta pela inclusão. Entre elas:
- Carteira Nacional do Autista -- Lei Romeo Mion.
- A Equoterapia faz parte do rol das coberturas obrigatórias da ANS. A Lei 13.830 de 13/05/2019 reconhece a equoterapia como método de reabilitação.
- Professora de Apoio para acompanhar o aluno em sala de aula.
- Direito a atendimento preferencial em estabelecimentos comerciais, bancários, casas de espetáculos, teatros, cinemas.
Muito ainda precisamos fazer para que se evitem retrocessos. Devemos sempre pensar e seguir na vanguarda.
Falei em vanguarda e pensei: 
que coisa esquisita, em pleno século XXI estarmos vivendo uma pandemia quase igual à do século XVIII, só não se compara, porque hoje as informações, os métodos de cura, são outros. Mas as aflições são as mesmas, as dores das mães e avós são iguais, porque nós não mudamos ao longo dos séculos, nos tornamos fortes, sabemos nossos espaços na sociedade, brigamos por respeito, mas também continuamos chorando e nos preocupando com filhos e netos.
Quantas vezes já não me peguei aflita, com medo de que Furacão, que não gosta de andar calçado, fosse contaminado por uma gripe? Autistas costumam ter o sistema imunológico um pouco mais fraco, vai que adoece.
E a quarentena? Como fazer quarentena com uma criança de 6 anos que está acostumada com uma rotina, e se sai dela, ele se perde, é sinal de stress, da famosa birra?
Calma, vovô "Aquel", mamãe tem a solução: foi criada a "Escola da Mamãe". Todo dia as 15h mamãe senta com ele e faz atividades que ele poderia estar fazendo na escola. Mamãe criativa põe sempre um videozinho sobre o assunto que vai trabalhar porque isso desperta mais a atenção dele. Por exemplo, se vai fazer atividade sobre vogais, coloca um videozinho sobre vogais. E por aí vai. Ele a chama de "tia mamãe." Porque é hora da escola.
Acabou a aula, e aí? Para um Furacão que gosta de correr livre na praia, como segurar dentro de casa? E mora numa cidade onde não tem praia? Aí aparecem as brincadeiras com carrinhos, que o Furacão está enjoando. Bora inventar outras brincadeiras. Tipo cineminha. Somente após a aula é que pode pegar celular, e só um pouco. Às 17h quando chega o papai a família toda senta-se à mesa para lanchar e conversar. E aí o Furacão faz suas furacaozices.
Toda essa história é para lembrar a vocês que hoje, dia 02 de abril, é Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Como eu, Tereza Raquel, existem milhares de avós, mães, cuidadoras de autistas querendo ser ouvidas, que precisam ter voz, precisam expressar suas angústias, sonhos, medos, desejos para seus filhos, mostrarem sua realidade, sua luta diária. 
Quando não estamos em quarentena, meu neto pode ir à praia. Muitos filhos e netos não conseguem sequer receber um tratamento ou ir à escola. Precisamos de INCLUSÃO em todos os sentidos.
Queremos que mais autistas corram livres pelas praias.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

HOJE É BOLSONARO DAY!

Desde o ano passado, 1o de abril, o dia da mentira, ficou mais conhecido no Brasil como #BolsonaroDay.
Afinal, o pior presidente de todos os tempos é também o mais mentiroso. Ganhou as eleições à base de muitas fake news e nunca mais parou de mentir. 
A agência de checagem Aos Fatos dedica uma coluna exclusiva só para as mentiras de Bolso, que a agência delicadamente chama de "declarações falsas ou distorcidas". Em 455 dias de governo, já foram 805 mentiras de Bolso. Número que é atualizado diariamente, é claro. 
No pronunciamento de ontem, que foi muito pouco ouvido devido ao panelaço gigantesco e ensurdecedor em várias cidades do Brasil, Bolso distorceu uma declaração do diretor da Organização Mundial da Saúde e alterou um pouco o tom. De "gripezinha" e "resfriadinho", o coronavírus passou a ser visto pelo pior presidente como "o maior desafio da nossa geração".
A mudança de tom durou poucas horas, no entanto. Hoje pela manhã, seu Jair publicou no seu perfil no Twitter um vídeo de um homem culpando os governadores pelo desabastecimento na Ceasa de Belo Horizonte. "Depois da destruição não interessa mostrar culpados", escreveu Bolso, que investe no caos. 
A rádio CBN foi ao local uma hora depois e constatou que o abastecimento estava normal, sem risco de falta de produtos. O vídeo aparentemente havia sido feito no sábado, dia em que o movimento é bem menor. Pouco tempo depois, o Gabinete do Ódio deletou o vídeo -- antes que o Twitter mais uma vez removesse alguma contravenção do Capitão Corona. 
A capa do jornal Extra de hoje foi dedicada a Bolso. Parabéns! Este dia é todo seu, excrementíssimo presidente da república!
Renuncia, por favor! Já deu!

terça-feira, 31 de março de 2020

GUEST POST: AVÓS NÃO TÊM QUE CUIDAR DOS NETOS

Publico hoje o guest post interessante de uma leitora que prefere não se identificar. Ela escreveu isso antes do corona se tornar pandemia e chegar ao Brasil. 

Queria aqui falar sobre um assunto que me incomoda. Ou melhor, este assunto me fascina. O que me incomoda é a forma como a sociedade lida com este tópico.
Falo da velhice. Tenho 36 anos, mas gosto de observar a velhice, pensar nela, tentar me colocar neste lugar. Obviamente ainda me sinto jovem, e muito, mas quero viver para ser uma mulher velha, em algum momento, se tudo der certo. E espero ser respeitada nesta condição.
Tenho observado que há um desrespeito não muito evidente acontecendo por aí. Refiro-me às avós: nós realmente as respeitamos? Diria que não muito. Achamos as “vovós” e os “vovôs” umas gracinhas, mas não estamos muito a fim de entendermos estas pessoas como o que são: pessoas, seres autônomos que não obrigatoriamente estão a fim de cuidar dos filhos dos filhos. Pessoas que têm vida sexual e afetiva, em diversos casos. Pessoas que também gostam de momentos de solidão. Momentos de festa. Momentos de entretenimento. Momentos de NÃO CUIDAR de nada, nem de ninguém. Momentos de puro livre-arbítrio.
Acho importante chamarmos a atenção para isso: nem sempre os avós acham uma tarde com os netinhos um prazer imenso. Nem sempre eles estão disponíveis (e acabam cancelando compromissos pessoais -– seja encontros com amigos, seja questões da vida cotidiana, idas a bancos etc, só para que possam acatar os pedidos dos filhos). Mas não estamos nem aí, achamos que o que é nosso é deles também, e lá se vai a pessoa que já teve que cuidar dos próprios filhos, cuidar dos filhos de terceiros. Sim, filhos são terceiros. E idosos são indivíduos e têm o direito de dizer não quantas vezes quiserem. (E não deveriam nem ser solicitados como são, incessantemente, tendo que decidir entre o não ou o sim. Deveríamos poupá-los deste tipo de berlinda. Deixemos que eles peçam para ver os netos.)
Penso que a questão dos netos é delicada porque envolve algo muito emocionante. Deve ser divino ser avó/avô. Já ouvi isso de amigas mais velhas, de minha própria mãe: “é algo transcendente”. Daí penso que esta questão emocional acabe incutindo certa culpa nos avós. Se eles gostam tanto assim dos netos, como dizem, por que não cuidariam deles? E os filhos diversas vezes usam essa carta na manga: “Ué, você vai negar cuidar do seu neto lindo? Que tipo de avó desalmada é você?”. Funciona que é uma beleza. 
Então isso pode ser um trunfo para o resto da vida. O neto pode ter 18 anos, 20. Não importa. Os pais deste neto podem usar para sempre desta eficaz chantagem emocional. Não cuidar do neto seria coisa de “vô desnaturado”. Não pagar a faculdade particular dele seria um absurdo. O tipo de pedido varia, de acordo com a idade (mas quando se trata de dinheiro, aí eu vejo com total clareza: idoso não tem direito de ter a grana dele para ele mesmo usar como quiser. Tudo tem que ser para os filhos já criados e os netos).
Não seria justo que neste momento, depois de tanta vida vivida, os avós pudessem ter o merecido descanso, curtindo os netos sem grandes abusos, sem terem que ser os responsáveis diretos (ou quase isso) pela prole da prole?
E há uma questão ainda mais interessante aí, que andei notando. Costumamos relacionar este tipo de coisa da qual estou falando às dinâmicas das famílias pobres. 
Penso de forma totalmente diferente, neste caso: não consigo pensar em razão melhor para se contar com a ajuda da família do que a falta de grana. Outras boas razões são a pouca idade (gravidez na adolescência é mais comum nos bairros pobres), a falta de perspectivas, a falta de instrução sobre como cuidar de um bebê. Quando falamos de pessoas pobres, penso que esta talvez seja a melhor solução, mesmo: contar com a família para que aquela criança cresça da melhor forma possível dentro de uma realidade de escassez. 
Mas o que venho observando, ultimamente, é que a classe média já planeja seus filhos contando com a babá gratuita, digo, a avó. Falo de pessoas que pagam escolas particulares para crianças de sete anos, mas se negam a pagar uma babá e livrar a barra de uma pessoa de 66/70 anos, às vezes de até mais idade (visto que na classe média as mães são mães mais tarde). Não falta grana. “Só confio na minha mãe para cuidar de meu filho”. 
Sua mãe teve poder de decisão quando você planejou gerar seu filho? Creio que não, na maioria dos casos. Então, por que ela deveria ser responsabilizada por algo que não compete a ela? Por que esta situação foi criada, onde só se confia em um ser humano específico para cuidar de alguém, sendo que este ser humano específico não escolheu ser avó/avô? Não me parece justo.
Sei que há casos onde a avó insistiu, “quero um neto” etc. Ok, que bom para esta avó, se ela estiver feliz cuidando do neto. Mas duvido que haja muita gente por aí não querendo ser mãe e só sendo porque a futura vovó insistiu. No fim das contas, a decisão de ter filhos é mesmo dos pais, e não dos avós.
Queria apenas abordar este assunto porque percebi nele bastante racismo estrutural, também. O pobre é que leva a fama de “ter filho adoidado”; o pobre é que merece o nojinho da sociedade por ter filho muito cedo. Mas a classe média também tem seus filhinhos sem ter condição de criá-los, se endividando, matriculando em escola que não pode pagar, morando em bairro que não pode morar, jogando essas responsabilidades nas costas de seus pais. 
Pedindo dinheiro a vida toda aos avós da criança, sendo inconvenientes. Mostrando, com todas as evidências, que não soube crescer, se desvincular dos próprios pais e cuidar de seus próprios filhos. A classe média e seus bebês mal planejados não merecem nosso julgamento, também, então? Só os favelados? Mesmo sabendo-se que os favelados, na maioria das vezes, de fato não têm outra opção?
Se alguém tiver ficado chateado com o que escrevi, digo que também estou chateada. Vejo isso acontecendo com minha própria mãe, com minhas amigas mais velhas. Todas sofrendo nas mãos de filhos sem-noção que não entendem que aquela mulher ali, que os pariu, é um ser humano que também sente cansaço. Que tem vontade própria. Que gosta de viver e curtir, do mesmo jeitinho que nós.
Já há pessoas pensando a maternagem. Já há pessoas pensando o que é ser mãe, pai. Já há pessoas pensando quais seriam as melhores maneiras de se criar os filhos. Mas estou vendo pouca gente falando sobre os avós. Na verdade, não vejo ninguém falando sobre eles sob este prisma, dos cuidadores gratuitos. Por isso, enfatizo que meu intento não é demonizar ninguém, até mesmo porque observo que ser mãe/pai é mesmo algo dificílimo. 
O meu ponto aqui é só defender o lado dos mais velhos, mesmo. Acho que não estamos sendo muito respeitosos com eles.
Termino indicando a leitura desta matéria sobre Josefa Feitosa, mulher viajante de 59 anos que disse uma frase óbvia: “Avó não foi feita para cuidar de neto”.

segunda-feira, 30 de março de 2020

A ROTINA DE TRÊS BRASILEIRAS DE DIFERENTES GERAÇÕES NA ESPANHA DURANTE O CORONA

A Espanha não lidou bem no enfrentamento à pandemia (demorou para reagir, e só começou a quarentena no dia 14 de março), e hoje é um dos maiores focos do corona no mundo, com mais de 800 mortos por dia. 
O país já ultrapassou a China no número de infectados (está com 85 mil). Em número de mortos, já conta com 7.340, atrás apenas da Itália. 
Mas nem tudo é desespero. Publico hoje um texto maravilhoso que Maria Ferreira escreveu especialmente pro bloguinho, cheio de detalhes e esperança. Ela foi estudar espanhol por 6 meses em Madri em 2017, depois de se aposentar do Banco do Brasil em Fortaleza, e acabou ficando por lá com a filha (e, depois, a neta). Agora Maria começou um canal no YouTube. Vai lá!

Acompanho desde o início o caos ocorrido na China com a expansão do coronavírus. Quando começou na Itália, eu já imaginava que ele chegaria até nós rapidamente. Sabemos que a globalização ocorrida nas últimas décadas nunca trouxe benefícios para os mais necessitados no planeta, mas é inegável a evolução nas telecomunicações, transporte etc. Em poucos dias estaríamos todos no mesmo barco.
Assim, iniciei um planejamento para uma possível quarentena. No dia 28 de fevereiro fiz uma compra de produtos de limpeza, alimentação, fraldas, paracetamol, soro para hidratação para o caso de disenteria etc. Busquei álcool gel e máscaras, mas já não havia, naquela ocasião.
Sempre que eu falava com pessoas conhecidas sobre o assunto, todos me diziam que esta seria somente mais uma gripe, mas algo me dizia que não era bem assim. Eles acreditaram nisso porque aqui a gripe é muito comum, principalmente durante a mudança das estações do ano. 
Eu estive estudando artesanato por um tempo porque gosto de atividades manuais e tenho muito tecido em casa. Comecei então a costurar nossas próprias máscaras e quando o governo, em seu primeiro decreto, determinou o fechamento de escolas e universidades, eu distribuí 30 máscaras entre conhecidas.
Algumas Ações do Governo Espanhol
Ao atingirmos 4.200 casos de contágio e 120 mortes, o governo, na figura do primeiro ministro Pedro Sanchez, decretou por 15 dias o “estado de alarma”, um estado de alerta imponto uma série de restrições, dentre as quais:
- Redução em 50% do sistema de transportes (trem, metrô, ônibus), e sua limpeza diária;
- Cancelamento de qualquer atividade social, cultural, esportiva e similares;
- Limitação da circulação das pessoas. Somente está autorizado: a) ir ao supermercado comprar produtos de primeira necessidade; b) ir a consultas médicas (a maioria dos agendamentos foi cancelada); c) ir e voltar ao trabalho (com uma autorização), e somente para trabalhos que não poderiam ser feitos em casa.
O governo anunciou a criação dos ERTE (Expediente Temporal de Regulação do Emprego), uma das ferramentas para minimizar os efeitos econômicos nas empresas aliviando seus custos. Pelo que entendi (confesso que não me aprofundei), poderá haver uma suspensão temporária do contrato de trabalho, mas a pessoa tem direito a usar o seguro desemprego, independentemente do tempo de contribuição. Assim, mesmo que a pessoa tenha sido contratada há pouco menos de um mês, será beneficiada. Também poderá haver redução de jornada, de 10 a 70 por cento, com redução do salário e aí o complemento seria o seguro desemprego.
Minha filha já trabalha em casa desde o dia 11 de março e logo na semana seguinte, a empresa comunicou a  cada um dos que estaria em ERTE. Hoje, de um total de quase 200 funcionários, cerca de 10% trabalha fisicamente na empresa, a maioria foi afastada pela ERTE. 
Há também medidas que amparam os autônomos, e está prestes a sair outro decreto para a redução dos aluguéis. Está suspenso o pagamento de financiamento de imóveis e está proibido cortar água, energia e gás, por falta de pagamento.
O Confinamento
Desde o dia 11 de março estamos as três confinadas em casa. Já são quase 20 dias e como havíamos nos preparado em termos de mantimentos, não estamos tendo dificuldades. Os espanhóis e todos os residentes estrangeiros estão obedecendo às normas do governo. Uma ou outra exceção ocorre, que geralmente resulta em multa e/ou prisão. De vez em quando ampliam-se as restrições e não duvido que parem tudo a qualquer hora.
Nestes 19 dias fui ao supermercado duas vezes comprar frutas e verduras. A cada dois ou três dias, desço para por o lixo nos contêineres de fora (só permitido à noite entre as 20:00 e 22:00).
Aqui no prédio, há poucos ruídos. Do lado esquerdo ouvimos uns gritos outro dia, mas não conseguimos identificar de que se tratava. Poucos minutos depois, o barulho do carro da polícia chegando e falando algo por megafone. Do lado direito faz uns quatro dias ouvi uma mulher chorando por umas duas horas. Provavelmente nunca saberemos o que houve.
Os casos
A uns 600m daqui, mora uma amiga brasileira, a Jussara. Eu a conheci em uma manifestação “Fora Temer” que fizemos em frente à Embaixada Brasileira. Ela me contou que faleceu um vizinho e depois vieram desinfetar todo o prédio. Lá todos estão assustados.
Semana passada fiquei sabendo, através do Google Classroom, que Marta, minha professora de espanhol, nos comunicou que não teríamos aula, pois seu pai faleceu de coronavírus pela manhã.
E seguimos assim, aos poucos vão surgindo casos com pessoas conhecidas. Há um grupo de cientistas espanhóis que pedem ao governo restringir mais ainda a mobilidade.
Nossa rotina
Na semana, Carol trabalha das 8:30 às 18:00 trancada no quarto para que possa se concentrar e Sofia. sua filha, a deixe trabalhar. Ali mesmo almoça.
Sofia tem 2,8 anos e parece não perceber que deixou de ir à creche e de passear no parquinho aqui perto. Segue brincando, dançando, cantando, fazendo seus desenhos, vendo seus cuentos e, infelizmente, vendo muita TV (é o jeito). Hoje ela me viu saindo para por o lixo fora e falou que queria passear. A mãe inventou qualquer coisa.
Minha filha às vezes tem dor de cabeça e um dia teve fortes dores na coluna. Eu tive uma  dorzinha ou outra de cabeça, mas acabo com ela com uma “lapada de cana” da reserva que ainda tenho em casa. Choramos algumas vezes, mas seguimos bem.
Como me sinto
Maria Ferreira, autora do post
Muito preocupada com o povo brasileiro. Às vezes me pergunto o que vai ser do tapioqueiro que vende tapioca com café bem cedo nas paradas de ônibus de Fortaleza se tiver de parar de trabalhar. De onde vai retirar seu sustento? E aquela empregada doméstica cuja patroa burra ainda não a liberou para que ela fique em casa? E caso libere, será que vai adiantar o salário? E os velhinhos aposentados do INSS, ficarão amontoados na fila do banco no próximo pagamento? São apenas alguns casos pontuais, dentre milhares que temos em nosso país. Isso sem contar as outras situações que imagino que ocorrerão pela falta de atendimento nos hospitais, cuja saúde está no chão.
Fora isso, meu tempo para sofrer é pouco. Além de estar sempre ocupada com a casa e com Sofia, todo dia falo com a família, amigos, vejo e leio as notícias diárias e, nos intervalos, sigo costurando. Não sou costureira, só sei o básico, mas tenho máquina e tecido suficiente para fazer umas 300 máscaras. Enviei e-mail para a prefeitura, oferecendo minha doação, liguei para dois hospitais, mas não obtive resposta. 
Finalmente liguei para a polícia e eles me transferiram para a Guardia Civil e a pessoa que me atendeu falou que eu podia seguir costurando que ela mandaria um policial pegar. Que alegria! Entretanto, calculei que exagerei na empolgação, pois eu tinha muito tecido, mas pouca linha. 
As máscaras de pano que Maria faz
não são para hospitais, mas são úteis
para quem já está com o vírus. Maria
usa no dia a dia, para ir ao super-
mercado e retirar o lixo
Coloquei um anúncio no grupo do Facebook (Eres de San Sebastián de Los Reyes) aqui da cidade e imediatamente tanto apareceu gente querendo me dar mais linha, como gente se oferecendo para me ajudar a costurar. Como pegar essa linha se não posso sair? Liguei para o moço da Guardia Civil e ele já perguntou se eu tinha algumas para lhe dar. Então, combinamos a entrega e o mesmo policial foi antes pegar a linha na casa de uma das pessoas. Na terça só consegui entregar 36, mas até quinta tinha outras 50. Termino o dia cansada mas já planejando como vai ser o dia seguinte. Sei que é pouco, mas isso me motiva e me faz um bem enorme.
Às vezes, se consigo dormir bem à noite, dou graças ao universo por tanto privilégio, mas lembro daqueles que sequer dormiram. Peço por eles.
Penso que isso vai durar ainda um bom tempo e creio que depois que tudo acabe, o mundo não será mais o mesmo e nós também não. Ojalá que nos tornemos um pouco melhores e que possamos ver as coisas sob um novo olhar!