sexta-feira, 16 de novembro de 2018

QUER MÉDICO? VAI PRA CUBA!

Mais um desastre do governo que ainda nem assumiu e já anda causando inúmeros estragos.
Anteontem, o governo cubano informou que está se retirando do programa social Mais Médicos depois de declarações "ameaçadoras e depreciativas" do fascista eleito. 
Vocês querem mesmo que o pessoal acredite que reaça que odeia cubano, que não acredita que eles sejam médicos, mas "agentes comunistas infiltrados", esteja agora preocupado com os direitos trabalhistas dos médicos cubanos? Sério? Os mesmos reaças que estão se lixando pra direitos trabalhistas dos brasileiros e pra brasileiros que vivem como escravos? 
Bolso abandona sinal de arminha por 3
segundos pra fazer sinal de aspas em
torno de "médico" cubano
Não é surpresa alguma o fim do Mais Médicos, ou, pelo menos, a retirada dos médicos cubanos. É tragédia anunciada. É promessa de campanha. Tem vídeo do Bolso chamando médicos cubanos de "médicos" (entre aspas). "Em 2019, ao lado de vcs, ó, dá uma canetada mandando 14 mil 'médicos' lá pra Cuba, quem sabe ocupando Guantanamo, que tá sendo desativado pra atender os petistas que vão pra lá, talquei?"
Em 2013, Bolso entrou com ação no STF pedindo a suspensão da medida provisória de Dilma que criava o programa Mais Médicos. Para Bolso, os diplomas dos médicos cubanos não tinham validade no Brasil. 
Dos 18.240 médicos do Mais Médicos, que agiam em 73% das cidades brasileiras, ou 4.058 municípios, 11 mil eram cubanos
Mais de 700 cidades contaram com um médico pela primeira vez na sua história. Os cubanos, que prestam serviços em 67 países, iam a cidadezinhas que os médicos brasileiros não querem ir, nem sendo muito bem pagos. E às vezes a cidades nem tão pequenas assim. Por exemplo, Ponta Grossa é a quarta maior cidade do Paraná, com 350 mil habitantes. 74% dos votos válidos do município foram para Bolso. De presente, a cidade vai ficar sem 75% dos seus médicos. Mas é por uma boa causa: pelo menos tiraram o PT do poder!
Bolso, o rei das fake news, continua divulgando todo tipo de mentira depois de eleito. De acordo com a agência de checagem Lupa, não é verdade que os médicos cubanos não podiam trazer seus filhos para o Brasil. Bolso disse também que não tem "qualquer comprovação de que eles sejam realmente médicos e estejam aptos a desempenhar a sua função". Isso, obviamente, é falso. Todos os médicos que atuam no Brasil têm que apresentar diploma de médico. 
A saída dos médicos cubanos vai impactar diretamente na saúde de 28 milhões de brasileiros (logo os mais pobres, óbvio). Prefeitos de várias cidades imploram para que Bolso volte atrás e peça para que os médicos cubanos fiquem. Mas certamente os médicos brasileiros patriotas que fizeram campanha pra Bolso já estão formando fila para substituí-los. Não? Bom, então é lógico que o presidente tem um plano imediato pra resolver a total falta de médicos. Não? 
Reproduzo o texto que foi publicado originalmente no Twitter pelo médico Thiago Silva, membro da Rede de Médicos Populares (há um texto mais denso dele aqui).
Quer saber como Jair Bolsonaro mente e manipula pra enganar você sobre o Mais Médicos?
1- Salário dos Médicos
Cuba faz cooperação com 66 países em todo o Globo, inclusive europeus. Sabe como isso começou? Com a brigada Henry Reeve criada em 2005 como forma de ajuda humanitária pra atender as vítimas do Furacão Katrina nos EUA. Fidel chamou centenas de médicos e pediu que se organizasse a brigada.EUA negaram a ajuda. A brigada permaneceu mobilizada pois em pouco tempo haveria a crise em Angola e terremoto no Paquistão.
Na maioria dos países que faz parceria, Cuba envia médicos e medicamentos DE GRAÇA, sem cobrar dos países. Isso aconteceu em Angola, no Nepal, Haiti, Congo, e tantos outros países pobres do mundo. Quem arcava com os custos? O próprio governo cubano.
E como o governo Cubano fazia, já que é vítima de um bloqueio econômico há décadas, uma ilha pequena do Caribe que não consegue nem produzir a própria energia, pelas características de seu território?
Linda foto do livro MAIS MÉDICOS
de Araquem Alcântara
Alguns países começaram a oferecer trocas pela Força de Médicos. A Venezuela ofereceu petróleo. Alguns países europeus começaram a pagar mesmo diretamente pro governo cubano. E essa parceria virou uma fonte de renda pra ilha, com impacto em suas contas públicas, dado o volume de médicos atuando no mundo todo.
E como funciona o pagamento? 
Cuba abre edital via uma empresa estatal para contratar os médicos. Eles podem se oferecer ou não. As condições salariais e os países são conhecidos PREVIAMENTE por todos ANTES de assinarem contrato. Contrato. Conhecem? Pois é.
A maior parte do "salário" pago fica com o governo cubano? Sim e não.
Sim porque se você pegar o total de recurso destinado ao programa e dividir pelo número de médicos vai ser menor. Mas NÃO porque não são os governos CONTRATANTES os responsáveis pelo salário dos cubanos. Quem é responsável pelo salário dos cubanos é.... a Estatal com a qual eles assinaram contrato! Simples! Ela é responsável por lesão corporal, por invalidez , por seguro, por assistência à família em caso de morte, etc. 
Cubanos morreram aqui. Sabe o que fez o governo brasileiro?
Nada. Pois é. Quem cuida das famílias e repassa dinheiro para famílias é a estatal. 
Além disso, a "diferença salarial" não vai pra financiar outra coisa que não a saúde e educação de todo povo cubano. Detalhe: eles têm isso DE QUALIDADE e de GRAÇA pra todos lá, viu?
Ou seja, o "salário" dos médicos fora de Cuba (quando estão em países que pagam, que não são a maioria) sustenta os direitos sociais de todos os moradores da ilha. É uma fonte de renda pro povo. Impacta o PIB. Como vender nióbio a preço de banana pra canadense, saca?
Sabe quantos médicos cubanos saíram do programa revoltados com o que é feito com o salário? Um total de.... um! Isso mesmo. Uma cubana que foi comprada e sustentada pela AMB numa época pra criar uma campanha vergonhosa contra o Mais Médicos.
Houve algumas deserções, como sempre há, já que tem médicos cubanos que acham que vão enriquecer de medicina nos EUA. Claro que tem. Em todo canto do mundo tem gente que não se importa em pensar no próprio umbigo. Mas foram uma minoria irrisória.
2- Revalidação de diplomas
Essa é uma piada. Cuba manda médicos pra 66 países. Sabe o único que teve gente cobrando isso? Pois é, o Brasil. Ainda tem o disparate de dizer que eles não são médicos, quando tem norte-americano pegando lancha e indo pra Cuba se tratar.
Mesmo assim, por conta dessa pressão, os cubanos foram avaliados quando chegaram aqui, com a aprovação da lei. Avaliados pela fluência no português e questões de Medicina. Foram avaliados por professores e preceptores de medicina brasileiros, a maioria de universidades federais. 
É claro que teve gente reprovada. É claro que vieram no meio dos 14 mil médicos ruins, medianos, bons e excelentes. Mas você acha que entre 14 mil brasileiros viriam apenas médicos bons? Anham. Sou chefe de um pronto socorro do SUS onde só tem brasileiro, e vejo isso todo dia ...
3- Impacto
700 municípios brasileiros não tinham uma ALMA DE LENÇOL BRANCO nem pra confundir com médico. Os números do Mais Médicos são ACACHAPANTES. 63 milhões de pessoas cobertas. 4 mil municípios. Hoje em mais de 1500 municípios só tem cubano.
Lembram do escândalo das digitais de ponto, em que médicos falsificavam a entrada nos serviços de Saúde? Muitos pequenos municípios no interior vão voltar a depender deste tipo de colega, infelizmente.
Parabéns aos envolvidos.
Outro médico, o Dr. Aristóteles, desmentiu mais algumas fakes espalhadas pelos bolsominions. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

ELEIÇÃO DE BOLSO NÃO DEVE INTIMIDAR OS PROGRESSISTAS. HÁ ESPAÇOS A SEREM CONQUISTADOS PELA ESQUERDA

Publico o texto de João Paulo Jales dos Santos, estudante do curso de Ciências Sociais da UERN, que vem fazendo ótimas análises políticas para o blog.

Daqui a menos de dois meses, Jair Bolsonaro tomará posse como o novo presidente da república. A premissa, pela equipe formada e pela própria trajetória política do presidente eleito, é que a extrema direita faça um governo de baixa qualidade. O staff bolsonarista, em boa parte, não possui experiência em administração pública, e os congressistas eleitos pelo PSL são de uma total inexperiência e incapacidade político-parlamentar. 
Não deixa de ser interessante a fala de um bolsonarista que disse que os deputados eleitos pelo PSL não conhecem muito de leis e do rito de votação do Congresso Nacional; no entanto, os parlamentares pesselistas sabem que não devem votar conforme vota o PT. É de um assombro o quanto de déficit de expertise legislativa falta nos futuros deputados. A turma extremista acha que que o receituário dos chavões neoliberais vai dar conta de tudo no Brasil. Ledo engano. 
Deve-se fazer uma diferença entre a direita estabelecida que praticamente foi varrida pela direita bolsonarista. Mesmo que conservadora, a direita estabelecida não era de todo modo reacionária. Podia não legislar pelos direitos trabalhistas, sociais e de políticas afirmativas, mas, sempre que essas pautas ganhavam força para serem aprovadas no Congresso, o establishment da direita se fazia permissionário, e mesmo que a contragosto, aprovava legislações de caráter progressista. O que é bem diferente dessa direita extremista que saiu eleita das urnas no 1º turno. 
Depois de décadas tendo que ser liderados por uma direita moderada e razoavelmente social-democrata, aqueles que ficaram irritados com o fim do regime militar-autoritário, e com a chegada do PT ao poder, agora são liderados por si mesmos. É um projeto neoliberal radical, que busca atacar, enfraquecer e desmantelar as políticas sociais do país. Como disse o professor da USP Vladimir Safatle, o Brasil é um dos poucos países do mundo em que as universidades públicas são gratuitas, em que existe um sistema de saúde universal que atende mais de 200 milhões de pessoas. Isso é uma afronta para o projeto neoliberal. 
A aliança evangélica- militar- ruralista- conservadora que alçou Bolsonaro e seu vice, Mourão, ao mais alto posto da política do país, pretende por fim a um Estado que, por mais que oferte serviços precários, consegue atender gratuitamente a maior parte da população que não tem condição alguma de pagar por serviços de saúde e educação privados. Mais de 70% dos estudantes do ensino básico do país estão matriculados em escolas públicas. Cerca de 75% da população só possui acesso aos serviços de saúde via SUS. 
E enquanto países desenvolvidos e outros cobram matrículas em suas universidades públicas, no Brasil as instituições de ensino superior não cobram taxas de seus discentes. Há um terreno gigantesco de desmantelamento dos serviços públicos que o neoliberalismo global quer fazer avançar no Brasil. Certamente, a implementação privatizante nos serviços públicos não se dará facilmente. Porém, precisa ser lembrado, que mesmo com muita resistência, Margaret Thatcher conseguiu impor a agenda neoliberal na Grã-Bretanha que gozava até o início da década de 1980 de um Estado de bem-estar de boa qualidade. A Grã-Bretanha já naquela época era uma das democracias mais avançadas do mundo, com fortes grupos sindicais e civis. 
O projeto que se sagrou vitorioso nas urnas no dia 28 de outubro está imbuído de levar a cabo uma nova concepção de país, privatizando os serviços públicos, flexibilizando as legislações trabalhistas e de seguridade social, e fomentando um agressivo conservadorismo social e cultural. 
Mas como um projeto reacionário desses conseguiu sair vitorioso das urnas no último dia 28, num país em que o uso das políticas públicas para atenuar a abissal desigualdade social tem opinião majoritária na sociedade? A conjuntura econômica e social que toma conta do tecido social brasileiro, nos últimos 4 anos, explica a vitória de Bolsonaro. Entre 20% e 25% dos votantes do deputado federal do Rio de Janeiro são pertencentes ao que podemos chamar de núcleo duro bolsonarista. Ou seja, aqueles eleitores intimamente ligados ao ideário racista, machista e homofóbico de Bolsonaro.  
A outra imensa parcela que votou 17 veio puxada pelo discurso de endurecimento contra a criminalidade, do ‘resgate’ dos valores tradicionais e pelo clima antipetista. A crise econômica e de empregabilidade que assola os trabalhadores torna permissiva a abertura para um voto extremista, como o que foi depositado em Bolsonaro. Há aqui uma compreensão que precisa ser destrinchada. A direita conseguiu construir um discurso que tornava um voto tanto em Bolsonaro como em Haddad um voto de extremos. Mesmo sendo Haddad um candidato de centro-esquerda e tendo o PT feito um governo centrista durante os 13 anos em que esteve à frente do Executivo Federal. 
A tática direitista foi construída na seguinte lógica: como as falas preconceituosas de Bolsonaro consequentemente se encaixavam no espectro extremista, a questão era fazer do PT um ator político também extremista; desse modo, extremista por extremista, o eleitorado se inclinaria por votar num candidato que defendesse o moralismo da tradição cristã, como faz Bolsonaro. 
Assim, a tática foi montar uma enorme estrutura organizacional de comunicação que espalhasse mentiras dizendo que o PT queria implantar o comunismo no Brasil, que o petismo defendia a ideologia de gênero, que Haddad criou o kit gay e fazia apologia ao incesto. As fake news da mamadeira em formato de pênis e a do Jesus é travesti, entre tantas outras centenas de absurdos, foram eficazes. Ao tocar em pontos polêmicos que afloram os ânimos dos costumes ultraconservadores dos brasileiros, era notório que ficaria fácil o deslocamento para um voto em Bolsonaro. No rescaldo de uma aguda crise socioeconômica, inflamar a ignorância ultraconservadora que detém o brasileiro foi a fórmula ideal encontrada pela direita. Fórmula esta explicitamente desenhada nas divulgações de correntes de mentiras pelos grupos de WhatsApp das famílias.   
Nesses pouco mais de 10 anos de governo petista criou-se a sensação nos círculos acadêmicos de esquerda, e nos movimentos sociais, que a sociedade tinha se deslocado à esquerda no que tange aos costumes. Sem ter a compreensão da realidade objetiva dos valores formadores do tecido social do país, essa falsa noção progressista levou muitos membros da esquerda a crer que a pauta das lutas identitárias seria facilmente aceita pela opinião pública. 
Mas no país em que o aborto ainda é crime, enquanto que em muitas nações o aborto é legalizado ao menos até a 12ª semana de gestação, que a mulher que aborta é vista como criminosa, como mostra pesquisa Datafolha veiculada em agosto deste ano, fica mais fácil compreender que o ultraconservadorismo que toma conta do Brasil não se romperá tão cedo. 
Lula e Dilma sagraram-se vitoriosos em quatro eleições consecutivas porque tocaram em questões econômicas sensíveis a população. O PT sempre fugiu, como Dilma fez em plena campanha em 2010 quando o PSDB de modo cretino trouxe a temática do aborto à cena eleitoral, dessa seara do debate dos costumes. A alta cúpula do petismo sempre soube que se tratasse de aborto, casamento gay, legalização da maconha em campanha, o ultraconservadorismo dos brasileiros seria refratário a um voto no PT. 
Mas esse discernimento nunca esteve presente na esquerda acadêmica e nas lutas dos movimentos sociais. Compreensível então porque muitos ativistas de fato acreditaram que enquanto estava a esquerda no comando do Palácio do Planalto, avançava-se na sociedade a agenda progressista dos costumes. É preciso entender que o Brasil é uma nação ultraconservadora para até mesmo se pensar como avançar os direitos civis das minorias e a equidade destas numa sociedade como a brasileira. 
Enquanto os movimentos progressistas estiverem se digladiando entre si, não pensando firmemente como interseccionar as lutas identitárias com as lutas sociais, será bom para a direita, que ganhará ainda mais terreno com a divisão interna dentro da própria esquerda. A luta social, travada contra a opressão neoliberal, dialoga com a luta por direitos civis e políticos para minorias raciais e sexuais ao evidenciar que trabalhadores, assim como mulheres, negros e a comunidade LGBTQ+, sofrem opressões no seio do sistema capitalista conservador- reacionário. 
Portanto, se faz imprescindível que o campo progressista esquerdista possa ter a consciência de que o apoio dos trabalhadores e excluídos é importante para romper com as amarras das estruturas racistas e sexistas do patriarcado- capitalista. Dialogar, e não afastar, as lutas de classe com as lutas identitárias, interseccionando as necessidades materiais da vida dos trabalhadores, com as necessidades de direitos emancipatórios das minorias étnico-racial e de gênero. Só assim pode-se fazer com que o ultraconservadorismo que lateja no Brasil possa, ainda que lentamente, ir se rompendo e tolerando avanços progressistas. 
Sim, não á fácil lutar vendo que tanta mulher, tanto negro e tanto gay votou em Bolsonaro, um candidato que tem uma retórica de humilhar e tirar a dignidade humana destas pessoas. Mas quem disse que a luta no ativismo é fácil? Não é hoje e não será por muito tempo. É no ativismo que se fazem as transformações sociais, por isso que Bolsonaro e a direita extremista querem criminalizar o ativismo. 
Dentro de poucos dias, Bolsonaro estará tomando posse e todo o círculo ignaro que o ajudou a ser eleito estará à frente de ministérios, secretarias e órgãos que têm o poder de definir o rumo do país nos próximos anos. Bolsonaro governará numa lógica de formato e conteúdo violento, como é contumaz ao neoliberalismo e à tradição conservadora. Resistir a isso é essencial. É preciso criar e ampliar campos e ambientes de resistência a um governo que tentará fazer do Estado uma instituição possuidora de instrumentos que privatize e torne profundamente precários os serviços públicos, pauperizando ainda mais as condições sociais da imensa parcela de excluídos da sociedade. 
É de uma ignorância sem escalas o projeto político-social que o governo Bolsonaro buscará implementar, um projeto que se choca com a própria noção de civilização. É a característica dessa direita que emerge. Esta não é uma direita liberal, comprometida com os direitos civis individuais, mas uma direita reacionária, que tem como único objetivo tornar o Brasil um país ainda mais desigual, sem possibilidades de ascensão e mobilidade social, fazendo com que negros e pobres fiquem escravizados nos lugares que o ideário escravagista lhes deu na formação do caráter da sociedade brasileira. 
Com Sérgio Moro como um superministro do governo Bolsonaro, fica evidente o verdadeiro objetivo da Lava Jato. A operação conseguiu, de algum modo, desmantelar uma rede de corrupção. Mas se perdeu completamente ao querer tão somente criminalizar a esquerda. Lula foi julgado numa celeridade que até mesmo prazos e trâmites jurídicos foram desrespeitados. Moro e companhia ficaram obcecados em prender e desorganizar a candidatura do ex-presidente, enquanto que no tucanato Aécio ficava livre, leve e solto, para ao menos ser eleito deputado federal. 
Prender o maior líder da esquerda latino-americana, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o que objetivou o núcleo estratégico-pensante da Lava Jato. É altamente questionável a indicação de Moro como ministro do governo Bolsonaro. Após divulgar a delação de Palocci na semana da votação do 1º turno, só para atrapalhar ainda mais a candidatura de Haddad, a contribuição da Lava Jato na ascensão meteórica de Bolsonaro está firmemente explicada com todo o enredo desde a divulgação da conversa entre Dilma e Lula, em março de 2016, até a prisão do ex-presidente, e tudo que seguiu até o dia da consagração de Bolsonaro nas urnas. 
Transformado em herói ético da classe média de mente excludente que foi para as ruas em 2015 e 2016, Sérgio Moro se junta ao MBL e demais para que se visualizem os tantos rumos e labirintos que fizeram de um medíocre como Bolsonaro ser eleito presidente de uma nação com as credenciais econômica e populacional como as que detém o Brasil. Com Bolsonaro na Presidência, a rede global da extrema direita terá um governo para fazer vitrine ao mundo. 
É interessante notar como Haddad e o PT foram feitos de inimigos pelos agentes do mercado financeiro-econômico. Logo Haddad, que equilibrou as finanças da Prefeitura de São Paulo, e deixou o cofre da Prefeitura com saldo positivo, tendo cumprido, portanto, o receituário fiscal que o sistema financeiro tanto pleiteia como credencial de um bom gestor. Logo o PT, que fez governos moderados e atendeu as demandas de diferentes setores e agentes econômicos, da indústria à agricultura, mas que foi taxado pelo neoliberalismo como uma perigosa agremiação comunista. O PT sempre respeitou as instituições liberais da democracia -- algo que a direita dizia que Lula não faria quando foi eleito em 2002.    
Ainda é uma incógnita a capacidade que terá Bolsonaro de implodir a ‘Nova República’. Há muitos interesses em jogo. A direita estabelecida que perdeu em 2018 terá de fazer uma frente de poder para se contrapor ao governo Bolsonaro. O presidente tende, ainda que se duvide, a governar dentro dos freios e contrapesos da ordem jurídica-institucional liberal. Mas se seu mandato criar uma profunda crise nas estruturas políticas da ordem constitucional estabelecida desde 1988, veremos como se comportarão os diversos atores políticos que durante essas três décadas foram o sustentáculo da República inaugurada com o fim do regime militar-autoritário. 
O enxugamento dos ministérios já começa a mexer com os ânimos da influente alta burocracia estatal, mostrando que Bolsonaro encontrará resistência organizada na pretensão de romper a tradição dos governos de centro do PSDB e do PT. É saber até que ponto, a depender dos ajustes fiscais e econômicos, o governo Bolsonaro irá sobreviver dentro dos freios e contrapesos. 
Que a esquerda acompanhe atenta, resistente e organicamente articulada, os resultados que sairão do mandato presidencial de Bolsonaro. Que a eleição de 2018 possa ter deixado evidências de que erros em áreas estratégicas custaram caro, fazendo com que uma figura grotesca como Bolsonaro tenha chegado à Presidência. É preciso ficar em estado de alerta. Afinal, a direita nunca dorme no ponto.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A QUEM INTERESSA NÃO ENSINAR EDUCAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA?

Todo dia um esgoto a céu aberto. Ontem um repórter perguntou ao fascista eleito se o ministro das relações exteriores seria homem ou mulher. 
Bolso respondeu: "Tanto faz. Pode ser gay também. Você é voluntário?"
Quer dizer, o tio do pavê que elegeram pra presidir o quinto maior país do mundo não sabe a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. É meio básico: um homem não deixa de ser homem por ser gay. Uma mulher não deixa de ser mulher por ser lésbica. Veem como aulas de educação sexual são importantes? Impedem que a pessoa continue ignorante pro resto da vida.
Semana passada Bolso falou em pronunciamento do seu bunker que só quem deve ensinar sexo "é o papai e a mamãe", nunca a escola, porque escola não é lugar pra essas safadezas. O novo presidente estava indignado com uma questão da prova do Enem que usava "vocabulário de gays e travestis" para perguntar sobre como uma linguagem é vista como dialeto. Para Bolso, isso é "doutrinação exacerbada".
Mas voltando ao conceito ridículo de Bolso e outros fundamentalistas cristãos sobre como só os pais devem falar sobre sexo com seus filhos.
Em outubro do ano passado, uma adolescente de 13 anos viu uma palestra do Conselho Tutelar na escola, e logo depois denunciou seu tio. Ela contou que vinha sofrendo abusos desde os 5 anos.
Em abril deste ano, duas meninas de 8 e 9 anos tiveram aula de educação sexual na escola em Goiás e contaram para a professora que haviam sido estupradas pelo padrasto enquanto a mãe delas trabalhava fora. 
Em maio, uma menina de 12 anos de Tocantins viu uma palestra sobre educação sexual na escola e decidiu denunciar o padrasto que a estuprava. Ele foi preso. 
Também em maio, no Mato Grosso, duas meninas de 10 anos viram uma palestra sobre violência sexual contra crianças e procuraram a professora para denunciar um amigo da família que as havia estuprado. 
Também no Mato Grosso, mas em setembro, uma garota de 10 anos viu uma palestra na escola do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência. No final, ela escreveu um bilhete: "Eu já fui abusada pelo meu pai, isso pode ser denúncia? Sim ou não?" 
Em todos esses casos, não foi a educação sexual nas escolas que ensinaram as meninas a fazer sexo. Mas foi a educação sexual que ensinou a elas a se defenderem.
Segundo o Atlas da Violência, 51% dos casos registrados de estupro em 2016 foram cometidos contra menores de 13 anos. A maior parte desses casos acontece dentro de casa, por conhecidos da vítima. 
Qualquer especialista em educação e sexualidade sabe que a melhor maneira de prevenir abusos, gravidez precoce, doenças sexualmente transmissíveis, é através de aulas de educação sexual nas escolas. Na Alemanha, por exemplo, educação sexual é visto como um dever do Estado (não um direito dos pais se seus filhos devem ou não ter aulas na escola sobre o tema).
Segundo a educadora sexual Julieta Jacob, "estudos comprovam que a educação sexual não acelera o processo de amadurecimento sexual. Uma criança que teve mais orientação sobre sexo e sexualidade não desenvolverá seus instintos sexuais primeiro do que aqueles que não tiveram. Isso é mito".
O "mito" que teremos como presidente mais uma vez prova que entende de sexo e de educação sexual tanto quanto entende de economia.