quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

PIOR GOVERNO DE TODOS OS TEMPOS COMPRA O LEITE CONDENSADO MAIS CARO DA HISTÓRIA

Cris Vector, como pode ser tão perfeito?

E o escândalo da semana é que o pior governo de todos os tempos gastou no ano passado 1,8 bilhão de reais em alimentos para todos os órgãos do Executivo. E isso é fora a orgia que rola no cartão corporativo!

O que mais chamou a atenção e pode render CPI é o LeiteGate, ou seja, mais de quinze milhões e meio de reais em leite condensado para o exército. Maridão viu no Facebook: Forças Armadas diz que leite condensado é pra formação de brigadeiros. Alguém acrescentou que, além dos 15 milhões, teve uns 4 milhões pra chocolate granulado, então faz todo sentido! Mas sério, é rir pra não chorar. 

A lista mostra que cada unidade de leite condensado de 395g saiu por R$ 162! No supermercado, a gente compra por R$ 6. Ah, mas é light! Aí normalmente custa 9. Não 162!

Foi 20% a mais que no ano passado. Como justificar bombons a 89 reais cada? Nem os da Kopenhaggen do Flavinho são tão caros! A gente até entende o mais de um milhão gasto em alfafa...

Mas quem é do exército diz que ele está a míngua. Se o leite condensado chegou, foi usado? E por que foi mais caro que em 2019, se grande parte das instituições trabalhou online por conta da pandemia?

Aí depois o Portal da Transparência saiu do ar (prova de confissão do crime?).

Aí você começa a investigar onde estão essas empresas e vê que são quase todas fantasmas, nas casas ou garagens de pessoas. Típicas fachadas para lavagem de dinheiro.  

Pra ninguém se escandalizar com o gasto de 2 milhões em algo tão nojento quanto chiclete, o genocida disse a apoiadores numa churrascaria que o leite condensado é pra "enfiar no rabo da imprensa". O vice milico Mourão alegou que tudo não passa de "pura fumaça", "da pressão que está sendo feita em cima do nosso governo". 

Ainda bem que não tem mais mamata nem corrupção!


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

GUEST POST: A CRIMINALIZAÇÃO DA CONDUTA NÃO DESESTIMULA

Publico esta ótima thread que a defensora pública Graziela Caponi fez no seu Twitter no final do ano.

Logo que passei no exame de ordem, minhas primeiras petições como advogada foram pedidos de extinção de punibilidade em processos do meu pai, juntando o atestado de óbito dele. 

No último, ele tinha tentado matar minha mãe empurrando-a de um carro em movimento. O cinto a salvou.

Sim, também figurei como vítima num dos processos. 

Há quem saiba e não entenda como, tendo crescido em meio à violência doméstica, ou saído de relacionamento abusivo, eu hoje atue na defesa técnica de supostos agressores. A experiência de vida ajuda a assimilar uns pontos.

1. Esse discurso sobre a "certeza da impunidade" é ilógico. O agressor, em regra, age de cara limpa, deixa marcas. Há testemunhas... Ele não liga pra pena. Converso com vários: eles sabem que serão punidos. A criminalização da conduta não é um fator desestimulador.

2. O que ele sente e verbaliza é a "aprovação social" pro seu comportamento. Faz sentido: a publicidade objetifica a mulher. Os brothers compartilham piadas machistas. A música trata mulher alcoolizada como propriedade. O presidente discursa... Ele está integrado numa estrutura.

3. Os oportunistas de ocasião pedem penas mais rigorosas. Alguns vão se eleger com isso. É uma posição simpática, cômoda e popular. Que não exige ações concretas. Mas o agressor vai deixar de ser agressor do dia pra noite, com base no recrudescimento da lei? Óbvio que não.

4. Muitas vezes, quando vou ao presídio atender um preso acusado de matar, agredir ou estuprar uma mulher, os agentes penitenciários se preocupam, perguntam se eu os quero na sala acompanhando minha entrevista reservada e particular. Se tenho medo. Não tenho. Atendo sozinha. 

5. Na minha posição, nunca recebi nenhum tipo de violência. Mas preconceito sim: a inferioridade da mulher é algo tão arraigado, tão internalizado, tão cultural, tão natural, que muitos deles acreditam que uma mulher será incapaz de prover sua defesa técnica adequada. 

6. Eu converso com muitos. Eles provém de várias classes sociais, níveis de instrução... Ponto em comum? O machismo. Seja sutil, seja escancarado -- meus assistidos da vara de violência doméstica são reproduções caricatas dos mesmos discursos e piadas do meu pai, modernizados. 

7. Escrevi recentemente aqui sobre a sociedade "tradicional" preferir me ver infeliz, presa a um relacionamento abusivo, que "solteirona". Há uma série de microviolências diárias que mulheres sofrem e que sequer cargos de poder (juíza, deputada...) inibem. É uma bola de neve. 

8. Várias iniciativas educativas de varas de violência doméstica, ou núcleos especializados das Defensorias e MP, têm trazido resultados positivos. Provendo palestras, trabalhos comunitários... combatendo na raiz a masculinidade tóxica. Desconstruindo. Geram resultados.

9. Mesmo enquanto vítima, não queria meu pai preso. Aquilo parecia traumático. Talvez já fosse uma criança abolicionista, sei lá. Queria que ele entendesse que era mau e errado. Queria que outras pessoas não sofressem aquilo... A cadeia nunca reparou as coisas que ele destruiu.

10. Atribuem a Pitágoras a frase "eduquem as crianças e não será preciso punir os homens". Não educar verdadeiramente sobre gênero, objetificação, feminismo, ações afirmativas etc é um erro bárbaro. Talvez, no futuro, a gente ainda puna... Mas que seja cada vez menos necessário.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

V DE VINGANÇA, DE VACINA E DE VERGONHA

Está ficando cada vez mais evidente que o agravamento da pandemia, mais mortes e novos lockdowns estão muito mais próximos que a vacinação da população brasileira. Por isso é tão importante que o auxílio emergencial seja estendido no mínimo por mais um semestre, e que o pior presidente de todos os tempos seja defenestrado o quanto antes.

Reproduzo hoje parte de um texto (para ver o texto inteiro, vá para o
Boletim Ponto) de uma coluna do Brasil de Fato, editada por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile. 

Doria venceu o primeiro round, mas ainda não há vacina para todos. A curto prazo, parece certo que apenas duas coisas não irão mudar: o agravamento da pandemia e o método do governo, mesmo que caiam alguns ministros.

1. NecroMinistro. No dia D os brasileiros comemoraram a chegada da vacina, para no dia E descobrirem que a grande maioria da população terá que esperar muito para ser vacinada. Já na segunda-feira (18), atrasou a entrega do material para pelo menos onze estados, devido a inúmeras falhas logísticas do Ministério da Saúde. Depois da euforia inicial, ficou claro que o lote de Coronavac disponível poderia imunizar apenas 4% do grupo prioritário. E não há data para novos lotes. Nem mesmo um cronograma de vacinação Pazuello apresentou, apesar da exigência do STF, e nesse ritmo vamos adentrar 2022. Além disso, a descentralização dos critérios para definir os grupos prioritários, que ficou a cargo de cada município, abre brechas para práticas de clientelismo e privilégios, como já vem ocorrendo no interior de Sergipe e em Manaus (AM), onde a vacinação chegou a ser temporariamente suspensa.

Depois de tanto negacionismo, negligência e desorganização, é de se desconfiar que a paralisia do Ministério da Saúde não seja apenas obra de incompetência, mas sim um macabro projeto genocida, como denuncia Jeferson Miola. O caso mais grave continua sendo o Amazonas, onde a falta de oxigênio e de insumos básicos prossegue há duas semanas, problema do qual o Ministério da Saúde já tinha conhecimento desde o dia 8 e que fez muito pouco para resolver, ainda que Bolsonaro se isente dizendo  “fizemos a nossa parte”. Mas, apesar de tudo, o Exército só começou a mostrar preocupação com o desempenho do general ministro quando a Revista Época contabilizou  as mortes ocorridas no norte do país na conta dos militares, que reagiram com a tradicional truculência, mas ligaram o sinal de alerta e já pensam em mandar Pazuello para a reserva. Além disso, depois da morte do general Mioto por Covid-19 fica mais difícil para os militares sustentarem o projeto de seu ministro. O desempenho de Pazuello também preocupa o governo, que já conversa reservadamente sobre a necessidade de mudanças. Acontece que ter um bode expiatório para eventuais fracassos faz parte do método de Bolsonaro e a hora do sacrifício talvez ainda não tenha chegado.

2. Pobre de direita. O cenário internacional prova que a terra é redonda e que o mundo dá voltas. A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos, o agravamento da pandemia e, agora, o início da vacinação no Brasil fez com que a nossa diplomacia se tornasse um fardo para o país, criando descontentamento dentro do próprio governo. É em grande medida dos países taxados pelo chanceler Ernesto Araújo como comunistas que se pode esperar alguma ajuda, a exemplo da Venezuela que, junto às centrais sindicais brasileiras, está doando oxigênio para o Amazonas. A direita bem que tentou deslegitimar a atuação do governo bolivariano, disseminando a falsa informação de que o oxigênio doado seria da empresa privada White Martins, quando na verdade a doação foi feita pela estatal Sidor. Em relação às vacinas, só agora, depois de cobrada pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski, é que a Anvisa decidiu analisar o pedido de uso emergencial da russa Sputnik V. Já os insumos para a produção da Coronavac vêm da China, país que sofreu sucessivas acusações e ofensas do clã Bolsonaro, de Ernesto Araújo e do ministro Ricardo Salles. Agora a demanda interna da China é enorme e o Brasil não está no topo da lista de prioridades. Por isso, os insumos da Coronavac não têm data para chegar aqui e é provável que o primeiro lote distribuído no Brasil termine antes disso.

Contando com mais sorte que juízo, depois de muitas idas e vindas, o governo indiano resolveu liberar imediatamente para o Brasil dois milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca produzida em seu território. A previsão era de que a entrega fosse feita somente em março. Os motivos da hesitação indiana parecem ser políticos, pois a nossa diplomacia não apoiou a Índia na proposta de suspensão das patentes de vacinas no âmbito da OMC. Ernesto Araújo preferiu fazer do Brasil força auxiliar das nações ricas. Agora, receando as consequências de seus atos, os representantes do Brasil preferem manter o silêncio na reunião da OMC. Ou seja, na discussão da quebra de patentes a nossa diplomacia reproduz com perfeição a mentalidade do pobre de direita: prefere se dar mal do que perder a razão. Ainda assim, pode lhe custar o cargo. Neste caso, Bolsonaro tem muito apreço pelo bode expiatório, mas já pensa numa saída honrosa para o chanceler e há até quem fale em Michel Temer para a pasta.

3. O dilema de Bolsonaro. Como era esperado, o fim do auxílio emergencial, o agravamento da crise sanitária e o aumento do preço da carne derrubaram a popularidade de Bolsonaro. A rejeição chegou a 40%, segundo a XP, maior índice desde julho, e afetou inclusive a base bolsonarista, diminuindo a aprovação entre evangélicos e também nas redes sociais. Sempre que atacado, Bolsonaro reage da mesma maneira. Primeiro, joga apenas para a sua torcida, para a turma do cercadinho. Nestes dois anos de governo, Bolsonaro jamais fez uma ação que fosse universal, para o conjunto da sociedade. Atende sempre os interesses de grupos específicos. E vai insistir no cálculo matemático de que precisa apenas dos seus 30% para chegar ao segundo turno em 2022. Por isso, continuará falando apenas para a sua base social, nas redes sociais e ao mesmo tempo provocando novas ou velhas polêmicas. Como por exemplo acenar para as Forças Armadas e insinuar o apoio às suas pretensões golpistas. Nisso, até Augusto Aras, desaparecido desde a nomeação de Kassio Nunes para o STF, reapareceu para escudar Bolsonaro, com a ameaça de que “O estado de calamidade pública é a antessala do estado de defesa”. Além disso, e em tempos de eleições no Congresso, o insaciável centrão deve ganhar mais 56 cargos.

O dilema de Bolsonaro é de que quanto menos durar a crise sanitária, mais rápido ele precisa responder sobre a crise econômica. Porém, quanto mais se estende a crise sanitária, mais a sua popularidade cai e mais a crise econômica se agrava. A sua salvação depende de acenar para o sistema financeiro ou para as classes mais baixas e órfãs do auxílio emergencial. E em ambos os casos, precisa de Paulo Guedes, ainda que os dois não tenham nada a oferecer a ninguém. Guedes, com sua notória criatividade para inventar números aleatórios, não tem sido capaz nem de aplacar o mercado internacional, nem o empresariado nacional, e, por sua vez, estaria esperando o resultado das eleições no Congresso para ressuscitar sua proposta de CPMF, uma medida que não agrada a ninguém, além de sonhar com a privatização do Banco do Brasil. [Continua aqui].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

NÃO VOTAMOS NELES

Comprei esse ímã de geladeira na última vez que estive em Buenos Aires, em dezembro de 2018. É Mafalda gritando "Yo no lo vote!" ("Não votei nele!"). Era uma referência ao presidente de direita Maurício Macri, responsável por jogar a Argentina na pior pobreza que se viu em dez anos
Quando vi o ímã, entendi a referência a Macri, mas pensei também em Trump e Bolsonaro. 
Não votamos em nenhum desses salafrários reaças. Dois deles já são passado (e põe passado nisso: uma pesquisa nos EUA mostrou que 68% dos americanos não querem que Trump volte nunca e não o querem como líder de nada). Falta o terceiro. Já se vislumbra o impeachment no horizonte. 
Amanhã teremos manifestações exigindo Fora Bolsonaro em todo o país.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

TODAS E TODOS PELAS VACINAS

Esses dias fui convidada para participar da campanha #TodosPelasVacinas, que não é uma campanha de vacinação, mas em prol da vacinação. Lógico que aceitei com o maior prazer. Embora eu não goste nada de injeções, sou grande fã de vacinas. 

No mesmo fim de semana em que a Anvisa aprovou o uso emergencial da Coronavac (Sinovac/ Butantan) e da Oxford/ Astrazeneca, o site Todos pelas Vacinas foi lançado. Você pode ver o site aqui, cheio de informação. Por exemplo, aqui tem muitas perguntas e respostas sobre vacinas em geral. 

A campanha é o resultado de uma grande rede a favor da vacinação. Grupos de divulgação científica como a Equipe Halo, a União Pró-Vacina, o Observatório Covid-19 Br, a Rede Análise Covid, o Blogs de Ciência da Unicamp se juntaram a outros divulgadores para postar conteúdo sobre a importância de se vacinar. 

A ideia é furar a bolha da academia, e também fazer um papel que deveria ser do governo (já que não se pode esperar uma campanha de vacinação de um governo negacionista que tem como única política oferecer um medicamento que não funciona para a covid -- e depois mentir na cara dura que nunca recomendou a cloroquina).

O Brasil, que já foi modelo em vacinação, agora com um governo catastrófico que é anti-ciência, perdeu sua posição. Por isso a campanha Todos Pelas Vacinas, para passar informação de modo simples, adequado para cada plataforma. Afinal, como combater teorias da conspiração que são criadas e espalhadas diariamente se não com informação?

É fundamental que o movimento antivacina (que não é apenas contra a vacina pra covid, mas contra todas as vacinas) seja parado, pois ele representa um grande risco à saúde pública. Ele ainda é incipiente no Brasil, mas, com o crescimento da extrema-direita, grupos que dependem de teorias da conspiração tendem a aumentar.

Esta excelente thread da doutoranda em genética Larissa Brussa Reis explica que o movimento antivacina surgiu já com a primeira vacina.

A discussão sobre a obrigatoriedade da vacina me parece bastante ridícula, pois a vacinação numa pandemia não é uma questão individual, e sim coletiva. Assim como temos que tomar vacinas para entrarmos em alguns países, empresas e instituições podem passar a exigir comprovantes de vacinação para que alguém possa entrar num espaço ou ser contratado. 

Não é exatamente obrigar as pessoas a tomar a vacina, mas as pessoas devem entender que há consequências para atos irresponsáveis e ignorantes. Porém, mesmo essa discussão parece inócua, já que a grande maioria da população quer a vacina. A gente até já começa a ver por aqui gente rica e poderosa tentando furar a fila. 

Meu palpite é que até bolsonaristas que vem fazendo propaganda contra as vacinas contra covid vão querer se vacinar, porque nessas horas de vida e morte a ideologia é deixada de lado. Tomara que haja vacinas pra todos, e rápido, pra estancar essa matança.

Tenho certeza que eu e todo mundo que respeita o distanciamento social está ansioso pra tomar a vacina.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O SONHO ROUBADO POR SER MULHER

Hoje publico este ótimo post da Chrislly Catta Preta Fulgoni, servidora pública federal, sobre algo que não acontece com os homens.

Deveria começar escrevendo que sempre fui uma mulher empoderada e determinada. Estaria mentindo. Quando mais jovem, era apenas uma menina insegura quanto ao sucesso que poderia ter, tanto na vida pessoal como na profissional. Todas as experiências que me forjaram ao longo dos anos tornaram-me mais forte, reservada e confortável com quem sou e com quem desejo ser no futuro. As reflexões sobre o que é ser mulher se intensificaram após o nascimento da minha filha, em 2017.

Conheci aquele que mudaria muito de mim em 2006: meu marido. Um entusiasta do serviço público que me ajudaria incessantemente a estudar para que eu alcançasse aquilo que passara a ser um sonho: ser aprovada em um concurso público. Foram anos de preparação divididos com faculdade e trabalho, anos de reprovações, anos de “fiquei por um ponto”. Muitas e muitas lágrimas. Finalmente, no dia 20/06/2016, meu nome estava no Diário Oficial: APROVADA no tão sonhado concurso público.

Não há como colocar em palavras a sensação que tive. Não era apenas uma alegria pela conquista profissional. Era como um bálsamo de alívio. Finalmente eu provava a mim mesma e para todos -- família, amigos, colegas de trabalho -- que eu também era inteligente como meu tão bem sucedido marido. Finalmente tinha conquistado algo.

Deixo claro que essa sensação de estar sendo julgada não decorre de atos explícitos. Na maioria das vezes vem dos que mais amamos. Lembro bem de um episódio peculiar que demonstra bem o julgamento do outro sobre nossa vida. Ainda na faculdade em que eu e meu marido (então namorado) cursávamos Direito, ouvi de um colega de classe em tom jocoso que eu era uma “Maria Concurseira”, porque tinha escolhido namorar o rapaz mais inteligente da sala, servidor público desde os dezoito anos. Esse comentário era tão absurdo e ofensivo que não tive reação. Ouvi calada. Cheia de raiva, mas calada. Estudávamos os três na mesma sala, minhas notas sempre foram excelentes, eu tinha desenvoltura nos trabalhos, mas, mesmo assim, um homem achava que era engraçado reduzir-me e reduzir meu relacionamento a um alpinismo ou oportunismo. As mulheres dividimos os mesmos espaços que os homens, mas é como se fosse um favor permitirem que estejamos lá.

Enquanto esperava minha nomeação, resolvi engravidar. Acreditava ser o momento certo, pois finalmente não estava sob o estresse da preparação para um concurso público e o decorrente desgaste físico e emocional. Engravidei. Nos nove meses de gestação ouvi coisas assim: “Não entendi por que você fez concurso. Você engravidou, vai trabalhar depois que ela nascer?” -- dita por uma jovem de 20 anos. “Esse salário aí que você vai ganhar é um bom salário para uma mulher!” -- dita por um tio amado.

O tempo passou e há dez dias da data prevista para o parto da minha primeira e única filha, recebi um telefonema de Brasília. Uma pessoa do recursos humanos me ligava para avisar que minha nomeação seria publicada e que eu deveria me antecipar e realizar os exames admissionais. A nomeação foi publicada numa quarta-feira e na quinta-feira, dia 01/07/2017, eu saía de casa para tomar posse no tão sonhado concurso público. Após muito sofrimento, a nomeação estava ao meu alcance. Como num conto de fadas eu estaria empossada no meu cargo e, em seis dias, nasceria minha filha. Como em um roteiro clichê, tudo daria certo.

No entanto, a perita recusou-se a declarar-me apta para o cargo sem um exame ginecológico chamado colposcopia, mesmo com uma declaração da minha obstetra informando que se tratava de  exame invasivo demais para ser realizado no nono mês de gestação. Saí aos prantos do prédio. Meu sonho estava escapando de minhas mãos. Liguei para meu marido. Na minha mente ele estaria mais lúcido e conseguiria me ajudar a resolver aquela situação. Ele e minha grande amiga Ludimila Poirier (advogada também) saíram da cidade vizinha onde ambos trabalhavam e vieram ao meu encontro, para me consolar e pensar no que faríamos. A decisão foi recorrer ao judiciário. Ingressamos com um pedido de tutela antecipada antecedente a fim de afastar a exigibilidade do exame. O juiz negou. Um juiz homem e jovem. Deferiu apenas a reserva da vaga para quando meu exame pudesse ser feito (segundo a obstetra, seis meses após o parto).

Com a negativa, voltei à esfera administrativa. Falei com o gerente executivo, com o chefe do RH local e com o chefe do RH em Brasília. Todos eram unânimes em afirmar que o que tinha acontecido era absurdo, mas que nada poderia ser feito, pois a perita tinha autonomia para decidir. Por fim, procurei a chefe do departamento de perícias. Ouvi da médica chefe: “Não sei por que você está com tanta pressa, você deu sorte de ser nomeada.”

“Sorte”. Após todo sacrifício da aprovação, após toda aquela situação no fim da gravidez, todo o estado emocional envolvido, tive de ouvir que não tive mérito algum. Foi “sorte”. 

Sem nada mais a ser feito e temendo perder a vaga, decidi conversar com minha obstetra sobre o que tinha acontecido. Aos prantos, contei toda a história. Ela deu a solução: “Consigo fazer esse exame em você com um pequeno risco de sangramento, o que é normal, mas sem risco para a bebê. No entanto, será um exame sem efetividade. É um útero todo alterado e ferido pela gestação avançada. Mas, se é um laudo que eles querem, um laudo eles terão.”

Terça-feira, dia 06/06/2017, um dia antes do parto, eu estava com todos os exames exigidos em mãos. Voltei à perita e fui recebida com a frase: “Hoje não posso. Vou ao dentista, volte depois de amanhã.” Indignada, respondi: “Não, doutora. Meu parto é amanhã. Vou sentar aqui e espero quantas horas for preciso.” E esperei. Depois que ela voltou, o exame foi feito. Durou cerca de dez minutos. Ela olhou os exames e disse: “Você fez a colposcopia? Deveria ter esperado.” Fiquei em silêncio, pensando como uma mulher, médica, podia ser tão desumana assim.
Tomei posse na véspera do parto e entrei de licença imediatamente. Não queria encontrar nenhum deles pelos próximos seis meses. Isso faz quase quatro anos e ainda hoje sinto muita tristeza e raiva dessa história. É como se tivessem roubado algo que não pode ser repetido. A experiência da conquista do primeiro concurso após tanto sacrifício. Mesmo vencendo outros, esse, o primeiro, roubaram. 

Quando finalmente comecei a trabalhar, após a licença maternidade, outra pergunta era constante, já que eu estava trabalhando na mesma entidade federal em que meu marido havia trabalhado. Era “óbvio” para as pessoas que nos conheciam que eu “só” estava lá, porque “ele” tinha “arranjado” para mim. “O Ricardo arrumou para você essa vaga?” No começo eu tentava explicar que concurso público não funcionava daquela maneira, que ele tinha me ajudado muito a estudar, mas eu tinha feito prova e conseguido a aprovação por meus méritos. Mas depois de algum tempo desisti e passei a responder: “Sim, foi ele mesmo que arrumou. Você acredita que eu sento até na mesma cadeira?” E a vida seguia.

A filha crescia e os objetivos da nossa família se tornavam maiores. Quando meu marido decidiu estudar para a magistratura eu sabia que exigiria um esforço coletivo ainda maior do que os anteriores, vivenciados em outros concursos. E tem sido assim por quase dois anos. Agora, novamente, a condição de mulher, esposa, profissional e mãe virou questão de debates. A eterna opressão para que eu, mulher, esteja em um cargo melhor, com mais títulos, para que eu permaneça interessante para ele e não seja trocada. O olhar da sociedade para a mulher é eternamente julgador e sem empatia. Novas perguntas surgem: “O marido vai ser juiz, você não vai fazer outro concurso? Vai ficar para trás?” Como se eu e ele estivéssemos numa eterna competição e precisássemos provar que merecemos o amor do outro pelo que conquistamos e não pelo que somos.

É cansativo ser mulher. Mas eu não desisto. Há um mundo a preparar para minha filha. Ela está crescendo, conhecendo esse mundo aos poucos. Precisamos lutar. A luta feminista não é por privilégio. É por igualdade. É por equilibrar a balança entre os ônus e os bônus femininos. O mundo que minha filha vai viver será melhor? Não sei. Mas farei tudo para construí-lo. Utópico? Talvez. Mas como meu marido gosta de dizer, é a utopia que nos faz caminhar. Caminhemos, pois! Lutemos! A mulher pode ser o que ela quiser.