sábado, 7 de fevereiro de 2009

O FEMINISMO INCOMODA. O FEMINISMO INCOMODA. E É REPETITIVO

Meu post com a resposta a um leitor que reclamou do meu feminismo exacerbado rendeu ótimos comentários, pra variar. Um deles, o da Mica (que discordou de mim outras vezes, e nunca ficamos de mal), me fez refletir bastante. Vamos a ele:
Falando de mim, embora eu tenha adorado a crítica em questão (e quase todas, mesmo com as que eu não concordo), confesso que alguns textos me incomodam justamente porque você enxerga tudo com o seu olhar feminista. Não que eu a critique por isso, mas fico pensando toda vez que leio algo 'Nossa, sou muito ameba, porque nunca enxergo essas coisas', ou então penso coisas como 'é tão triste sempre ver tudo com olhares tão críticos'. Sei lá, soa amargo. Não, não estou me expressando bem. Eu sei que você não é amarga. Aliás, se tem uma coisa que seu texto não é, é amargo. Seus textos são deliciosos de ler. Eu é que fico com a sensação de que enxergar tudo tão profundamente como você o faz, tira um pouco de beleza das coisas.

Miquinha, gostei muito do seu comentário. Sei que você está longe de concordar com muito do que escrevo, e o seu silêncio em tantos posts é bem eloquente. Sei que este meu olhar feminista incomoda muita gente, é bem obssessivo, às vezes. Até o maridão, de quem você é fã declarada, se incomoda! Há dias em que estou mais feminista, noutros menos. Mas sabe, eu pensava igual a você. Quando eu assinava jornal e a Marilene Felinto escrevia na Folha, eu a lia sempre (acho que não existiam blogs, ou eu não sabia deles então era raríssima uma voz dissonante, feminista, como a dela, e negra, ainda por cima), mas não gostava. Eu a considerava repetitiva. Achava que ela insistia muito no feminismo. Tudo pra ela parecia ser sobre feminismo, ou pelo menos essa era a impressão que me causava. Acho que o que me incomodava mais era a falta de humor, na verdade. Um texto muito seco ou, como você diz, amargo. E, logicamente, foi apenas uma questão de tempo até ela ser demitida da Folha. E, desde então, quem fala sobre feminismo na grande imprensa? Ninguém. E tanto do que lemos é misógino e machista que nem nos chama mais a atenção. Já estamos acostumadas, vacinadas, treinadas. Portanto, é muito mais gritante alguém que nada contra a corrente, que peita o status quo, do que alguém que o reenforça a cada texto. Eu fico feliz que A Notícia me dê espaço, porque praticamente tudo que eu penso e escrevo vai contra a linha editorial do jornal (aliás, não só do jornal, mas dos jornalistas! Tá cheio de jornalista machista, racista, homofóbico...). Eu tento não me repetir demais, mas às vezes é inevitável. Nessas horas, eu paro, penso e concluo que repetitivo é o que martelam nas nossas cabecinhas desde que nascemos em nome da normalidade. Não o que umas poucas vozes no deserto dizem.
Pense bem: quem é mais repetitivo, eu ou meu trololó de estimação? Quem dispara mais clichês a cada milímetro quadrado de texto?
E quanto a sua frase, “enxergar tudo tão profundamente tira um pouco de beleza das coisas”, você pode até ter razão. Ignorance is bliss (a ignorância é uma benção), já dizia a sabedoria mais ou menos popular antes mesmo de Matrix. Mas, não sei, primeiro que não me acho nada profunda. Talvez seja esse humor que você citou que seja incompatível com a profundidade (ah, não sei, eu gosto de humor. E adoro quem consegue escrever coisas sérias e inteligentes sendo divertido/a).
Eu já refleti bastante sobre as vantagens da ignorância. Por exemplo, se eu tivesse um trabalho horrendo que pagasse muito menos que a média do mercado, eu preferiria saber que estou sendo explorada ou não saber? Se eu não sei, posso continuar labutando feito escrava sem me revoltar, talvez pela vida toda. Se eu sei, posso fazer alguma coisa (se serei bem sucedida é outra história. De repente todas as empresas querem me explorar?). O problema é que, quando a gente sabe - e nisso Matrix é muito sábio - é impossível voltar atrás. A gente já sabe, não pode esquecer, não dá mais pra varrer pra baixo do tapete. Mas é possível ver beleza nas coisas e ser feliz mesmo sabendo que estamos sendo exploradas? Bom, se é possível ser infeliz e só ver feiúra nas coisas mesmo não sabendo da exploração, então o oposto deve ser verdadeiro (uma lógica um tanto torpe a minha, eu sei). Acho que tenho que responder com um belo Depende. Eu não sou alienada, acho que conheço a exploração, e ainda assim sou feliz. Quer dizer, pra algumas amigas, eu sou é uma boba-alegre.

(Tradução das imagens: a primeira é a capa do livro da excepcional bell hooks, Feminismo é pra Todo Mundo. A segunda eu acho genial, lembra bem queixa de irmãos brigando: "Se a gente der igualdade pras mulheres, todo mundo vai querer também!" - e isso, aparentemente, não é bom pro capitalismo. Nos buttons há vários slogans: "Sou uma mulher furiosa", "Sou uma mulher mais velha ultrajante", "Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta", "O futuro é mulher", "Toda mãe é uma mãe que trabalha". E, aqui do lado, um termo usado pra designar as mulheres que adotam esses e outros slogans: feminazi, ou feminista nazista. A legenda diz: "Trazendo ódio até você desde 1968!". A direita-cristã americana sempre usa o termo ao se referir às feministas. Porque a direita, como se sabe, só tem amor no coração).

44 comentários:

Liris Tribuzzi disse...

Não tinha lido esse comentário, aliá, não costumo ler muitos comentários e perco muita discussão por conta disso. Ainda bem que você dá um destaque pros mais polêmicos.
Ah sim, concordo com o que a Mica falou. Gosto muito dos seus textos e leio a maioria, mas já percebi que são de fases. Tem semanas que você tá mais propícia a ter um ponto de vista e varia com o passar do tempo (ou dos trolls).
Costumo comentar os que eu mais gosto ou mais concordo (é uma opção cômoda, eu sei, mas não acho meus argumentos muito fortes e escrever simplesmente 'não concordo com isso ou com aquilo' não rende nada).

Experiência Diluída disse...

Eu discordo dessa questão. Não acho que olhar a vida com um olhar crítico seja ruim, afinal quando se é feminista não tem como voltar atrás. Vc percebe, vc enxerga, isso incomoda, e como incomoda hein Lola! Os machistas de plantão. Se todas as mulheres tivessem esse olhar talvez a nossa situação na sociedade fosse outra. Sabe, eu estive no Festival de Verão de Salvador para assistir a Alanis e lá tembém tem outros palco e tal. Num deles tinham só pagode. Passei por lá pra pegar uma cerveja pois fila parecia menor. Mas derepente meus ouvidos capturam a frase de uma música: "RALA A XANA NO ALFATO". A múysica era apenas essa frase que se repetira e repetia. Então comocei a observar o público, nossa, quantas mulheres dançando uma musica tão depreciativa, machista, ridicula. Eu fiquei ali estática me pergutnanto o por que idsso, porque elas não percebem o que estão fazendo, ajudando o machismo a proliferar mais e mais. Talvez se elas tivessem um pouco da nossa visão não estariam ali "ralando a xana no asfalto". Ei Lola acho que vc deveria escrever um texto sobre isso, gostaria de saber sua opinião sobre as mulheres que dançam essas músicam que colocam a figura feminina lá em baixo...

Helena disse...

Sabe Lola, lendo o seu blog foi a primeira vez que tive contato com textos feministas. Minha mãe durante a pos vivia comentando sobre palestra da feminista X, do texto da feminista Y, mas eu nunca me interessei.

Foi lendo os seus textos que me tive absoluta certeza de que o mundo é machista. Ele pode não ser todo machista, ou não ser machista intencionalmente (tenho duvidas), mas é.

Quem sabe seria melhor se eu por acaso não tivesse chegado aqui, pois também concordo que ignorância é uma benção. Mas o que foi bom é que agora fico observando o comportamento de alguns homens e vejo que foram criados para serem homens, para serem machos e dessa maneira exercerem seu poder de forma absoluta.

Agora enxergo esse machismo em cada campanha publicitària que vejo, em cada filme, até mesmo ao meu lado, quando o marido que divide as tarefas domésticas comigo e cuida do bebê pra eu descansar, tem um discurso prontinho (e machista, claro) do que é "certo" no comportamento de homens e o que é "errado" no comportamento das mulheres. Não penso que seja machista de maldade, mas ele (como tantos outros) foram fabricados assim.

Eu te acho repetitiva sim, pois é um assunto que merece, mas não te acho cansativa.

Abraços

olhodopombo disse...

Ser feminina eh uma arma bem mais potente do que ser feminista.

Vitor Ferreira disse...

Gostei do seu texto. Normalmente eu só comento cinema aqui, porque é o que eu tenho mais afinidade e tenho conhecimento maior de causa para opinar. Mas eu leio tudo. Feminismo é totalmente fora da minha realidade e da maioria das pessoas. Então é mais fácil ler, absorver e compreender os outros pontos de vista, do que abrir a boca e falar besteira.

Uma dúvida: Ignorance is bliss seria a ignorância é felicidade ou benção?

Patricia disse...

Todo discurso que vai contra a normalidade incomoda, acho que é natural que isso aconteça. Vejo acontecer sempre com o feminismo, com os direitos animais, veganismo, etc. Acho que é porque dói um pouco perceber que se está contribuindo para algo que não é bacana, e contribui-se até mesmo pelo silêncio. Eu interpreto esse incômodo que muitas vezes causo como um bom sinal, para mim ele mostra que a causa é pertinente.
Eu adoro o seu olhar feminista, não o acho triste nem amargo, talvez por também ser do tipo que vê machismo em tudo, mas saber que o seu bloguinho está aqui me dá uma sensação de não estar sozinha nessa. E isso é muito válido.
Abraços!

Danda disse...

Oi Lola, ocorre como outro blogueiro, falou, algumas pessoas acham que se não se falar de determinados problemas como racismo, machismo e homofobia o mundo vai ser um lugar muito legal e mais leve. Mas não vai, ignorar os problemas não vão faze-los desaparecer. Outra coisa é que a sociedade instituiu que por certos crimes vale a pena lutar e por outros não. Por exemplo, se alguém da sua família foi assassinado, voce deve ir as últimas circunstâncias para obter justiça, se você sofreu assédio sexual, preconceito ou discriminação, e lutar por isso esta fazendo caso, sendo desagradável. 2 pesos e duas medidas...
Adorei o texto lola. Quero um button com Every mother is a working mother para dar para minha mãe!
Experiência diluída, Rala a xana no asfalto é dose, mas tenho quase certeza que a Lola já escreveu um texto sobre isso...

Danda disse...

Esqueci de falar uma coisa, Lola. Eu já tinha te dito que não tinha tanto interesse pelas críticas de cinema quanto pelas sociais. Mas ao contrário do comentário da sua outra leitora, adoro quando mistura as duas e coloca o feminismo em um contexto mais cotidiano para muita gente. E isso é admirável.

Ariadne disse...

Eu também nem sempre concordo e prefiro comentar quando eu tenho algo a dizer além de "não concordo" ou "concordo". Até porque falta tempo para comentar nos posts de blogs que eu gosto (vocês não têm a sensação de que os trololós têm tempo livre demais para quem muitas vezes se coloca como grande exemplo, trabalhador e etc.?)... Mas é verdade, se tem uma coisa que o seu texto não é, Lola, é amargo. E isso, sim, é uma virtude, pois eu penso que criticar com amargor faz com que vários aspectos nos escapem, simplesmente porque não queremos vê-los. E eu fico com essa exata sensação que o teu texto fala, de que eu posso até discordar algumas vezes, mas que alguém precisa trazer esse ponto de vista. Eu tive aula de teoria da literatura no pós com uma professora que falava bastante em feminismo, mas ela, sim, era bem amarga. Uma vez ela estava criticando uma candidata por fugir da pergunta quando perguntaram sobre aborto, mas ela já tinha o discurso pronto do que essa candidata DEVERIA ter dito... Aí não dá, né? Eu acho que quando resvala no autoritarismo é que é problemático, e isso não acontece aqui, na aula dessa professora ela falava um monte sobre feminismo mas ninguém conseguia dialogar, era o tipo de aula super expositiva em que a professora fala e ninguém mais consegue abrir o bico. Eu acho que são coisas que deveriam ser incompatíveis, defender quem não está entre os privilegiados machos brancos e exercer o autoritarismo.

Renan disse...

Oi Lola, tudo bem?

Estou comentando pouco porque, ainda bem, passei no vestibular! Estou de mudanças para São Paulo, as aulas começam na semana que vem, então tá tudo muito corrido por aqui né!

Eu indiquei você para receber o selo "Olha que Blog Maneiro"! Clica no meu nome para ir para o meu blog e dá uma olhadinha.

Abração

Paola disse...

Muito interessante,estou lendo um livro que se chama:Infiel, a história de uma refugiada africana, criada no deserto da Somália, conta que nas tradições do seu país, o sentimento da mulher não é considerado, que a mulher só é valorizada quando trabalha muito, sem reclamar, não há espaço para vontade, para igualdade, são dadas em casamento conforme o desejo do pai.
Lendo as descricões das condiçøes de vida das mulheres tive certeza, sou feminista, fui criada feminista, não me passa pela cabeça viver uma situacão de desigualdade em silêncio.
Minha mãe sempre foi mais para uma feminista armada, que enfrentou o corpo a corpo, eu encontrei o terreno arrumado, sabe?
Acho que no Brasil estamos completamente entorpecidos por essa pretensa "libeerdade sexual" que faz parecer que todos são livres, que cada um só faz o que quer, as coisas não são bem assim, às vezes acho que as mulheres estão aceitando um papel de "objeto sexual" em troca de proteção etc e tal.
São atitudes sociais que mostram quanto as brasileiras, tão vaidosas, ainda são submissas. Muitos nnao entendem nem sempre a escravidão está ligada ao trabalho pesado, quantas mulheres estão se vendendo aos próprios maridos?
Muitas mulheres acham que não precisam pensar no assunto, são solteiras, trabalham, têm o próprio dinheiro, mas elas não percebem que quando resolvem se casar entregam tudo isso de mãos beijadas e esquecem de tudo, em troca de alguma coisa que acham que é amor...
Eu também acho que estou pegando pesado, mas é assim que estou vendo as coisas.
Depois eu volto!

Beijos

PAola

Leila Silva disse...

Buenos dias!

Certíssima, o mundo ainda precisa (muito) de feministas.
Abraço

Leila Silva disse...

Voltei porque acabei de ler o comentário:
"Ser feminina eh uma arma bem mais potente do que ser feminista."

Eu me pergunto o que quer dizer isto. O que é 'ser feminina'?

Mica disse...

Lola, li o texto e não vou comentar, porque...bom, porque não tenho o que comentar.
Aliás, vou dizer só duas coisas:
1) O que eu gosto em você é que mesmo quando eu não concordo, você me faz pensar. E indubitavelmente me faz olhar o mundo com outros olhos.
2) Consegui assistir Apenas um Sonho ontem e passei o filme inteiro pensando na sua crítica (e num texto que eu adorei e que saiu na Folha de São Paulo ontem).

Mica disse...

Fiz dois comentários lá no review de Foi Apenas um Sonho. Dá uma lidinha quando puder ^_^.

Vanessa Dias disse...

Ignorance is bliss...
Se eu acreditasse em verdades absolutas, diria que esta é uma delas.

Mas vamos lá... Sobre o feminismo:
sinceramente, não tenho esperança de que a igualdade entre os sexos seja uma realidade em um tempo próximo. Eu tenho 26 anos e convivo com outras mulheres, da mesma faixa etária, que estudaram, trabalham, são independentes, se dizem solteiras por opção e possuem discursos, extremamente, machistas. Não dizem que homens são machistas porque foram criados por mulheres machistas??? Talvez, se essas mulheres também dedicassem um tempinho para ler seu blog, Lola, as coisas poderiam ser diferentes.

Paola disse...

Essa coisa de feminina no lugar de femonista, é a frase mais machista que existe.Pessoalmente tenho alergia. Antigamente tinha gente que dizia que as mulheres podiam conseguir tudo com jeito e docilidade! Rá, piada, né?
Quando falei que minha mãe é feminista, esqueci de completar, meu pai tb é, ele foi quem mais cobrou de mim atitudes condizentes.
Feminina? Ah! Até sou, mas isso não quer dizer nada nessa conversa toda de igualdade! Aliás, igualdade é muito mais que cada um lavar metade dos pratos....
Beijos

lola aronovich disse...

Li, sei que às vezes vc não tem tempo nem de ler os posts, quanto mais os coments. Mas, realmente, perde-se muito por não ler os coments. Ninguém é obrigado a comentar o tempo todo, só quando tem algo relevante a dizer.


Ex.Dil., tb não acho que seja ruim olhar a vida criticamente. Acho que nós mulheres não podemos mais nos calar e aceitar tudo quietinhas, só isso. Vamos botar a boca no trombone, protestar, revidar (verbalmente). E, sei lá, pôr nossas filhas pra aprenderem defesa pessoal.
E isso das músicas de pagode (e outras), que tem montes de fãs entre as mulheres... Acho que nesse caso é bem coisa de mulher que tem horror a feminismo, nunca imaginou que isso pode ser bom pra ela. Ser atraente pros homens é a única prioridade. Enfim, há muita mulher assim, e muito homem que quer mulher assim. Elas devem achar que o importante mesmo é ser “femininas”, e que “ralar a xana no asfalto” seja algo muito feminino. Não sei. Mas eu fico pasma com montes de mulheres chamando outras de vadias, vagabundas, vacas etc. Mas a gente faz parte de uma sociedade machista. É difícil se rebelar. Pode demorar.

lola aronovich disse...

Que bom, Helena. Eu não sei quando não fui feminista. Desde que me conheço por gente sou feminista. Isso sempre foi muito importante pra mim. E sempre foi junto com a questão humanitária, de brigar pelas minorias mesmo. De ser de esquerda. Mas eu tb mudei bastante. Certamente fiquei mais radical. Nunca chamei uma mulher de “vadia” por causa da sua sexualidade, mas eu achei mesmo que o Mike Tyson tinha sido injustiçado ao ser condenado por estupro... E há muitos outros exemplos tb. Mas eu não vejo machismo em tudo, sinceramente. Inclusive, tem coisas que outras pessoas consideram machistas e eu não noto, não vejo. Mas pô, cansativo e repetitivo é o machismo, não o feminismo, né?


Fátima (Olhodopombo), por favor, não diga isso, que é um clichê. Ser feminina é o que se espera de toda mulher. Portanto, ser o que se espera não tem nada de potencial pra mudança. Ser feminista é lutar contra essa situação. Mulheres foram “femininas” desde sempre, e sempre foram considerados seres inferiores. Vc tem uma filha historiadora e feminista. Aprenda um pouco com ela.

lola aronovich disse...

Vitor, fico feliz que vc leia tudo. Sei que vc está absorvendo as discussões, e isso é ótimo. Acho que o termo em português é “a ignorância é uma benção”, não felicidade. Por mais que “bliss” seja felicidade, satisfação...


Patricia, concordo, sempre que a gente abre a boca pra reclamar de algo que vai contra a normalidade, tem um pessoal que fica revoltado. Acho que é um bom sinal, sim. É ótimo a gente saber que não está sozinha, que tá cheio de gente que pensa como a gente - mesmo que essa gente não apareça na mídia...

lola aronovich disse...

Danda, exato, até parece que é só silenciar e não falar sobre esses “assuntos desagradáveis” que eles somem. Parece etiqueta de classe alta nos jantares! Não se pode falar de política, doença, etc etc. Aí o pessoal fica falando do tempo.
Nunca escrevi sobre ralar a xana ou algo assim. Eu já não acompanho as músicas da moda. Não sei de nada. Os meus vizinhos antes tocavam todas essas músicas, e eu ficava chocada. Mas eu tava mais incomodada com o barulho que com a letra. Sei lá, dá pra levar a sério gente que ouve/dança/compõe/canta etc esse tipo de música? Não sei nem se habito a mesma galáxia. É bastante elitista dizer isso, eu sei, porque essas músicas das/pras “cachorras” geralmente abrangem as classes mais baixas. Mas, por exemplo, tem muito garoto da classe média branca que adora rap e heavy metal, que são gêneros altamente misóginos. E eu tb não tenho muito que dizer sobre isso, fora que detesto esse tipo de música.

lola aronovich disse...

Ariadne, definitivamente! Acho que os trololós têm muuuuuito tempo de sobra. Só pode, né? Eles leem o blog inteiro e ainda comentam! Sim, concordo que ser amargo(a) não ajuda. Manter um senso de humor é muito importante. Eu prefiro sempre o humor à sisudez, mas esse é o meu estilo. Tem gente que gosta de falar muito sério, e nem por isso é amarga. E quanto a isso que vc menciona, de ser autoritária e feminista/humanista/de esquerda etc ao mesmo tempo, eu tb acho contraditório, mas as pessoas se contradizem, sim. Eu vejo gente se dizer de esquerda e contra as hierarquias e aí trata os filhos como bichos. E homens de esquerda que são homofóbicos e machistas? Isso tá cheio.Sorry, essas pessoas precisam evoluir.


Oi, Renan! Parabéns por ter passado no vestibular! MAIS UM! Meu bloguinho tá com 100% de aprovação no vestibular! E agora vc tá de mudança pra SP? Uau, toda uma nova vida. Boa sorte nessa jornada, Renan. Obrigada pela indicação do selo.

lola aronovich disse...

Paola, ainda não li esse livro, mas já ouvi falar muito. Pois é, é por causa disso que eu não tenho nenhum respeito pelas tradições. Boa parte das tradições são coisas hediondas, que só trazem sofrimento pras minorias. E isso em TODAS as culturas: na nossa, ocidental, na dos Amish, nas muitas culturas indígenas, nas africanas, nas orientais... A gente ouve direto sobre o valor de “preservar a cultura e as tradições”, mas acho que tá cheio de coisa que não deve ser preservada. Tratar mulher como escrava é tradição, farra do boi e tourada é tradição, bater em mulher e criança pra discipliná-las é tradição, imolar genitais é tradição...
O Brasil deve ser o país mais vaidoso do mundo, com a sexualidade mais à flor da pele. Isso tem seu lado bom, eu acho, mas o fato de sermos (quase) recordistas em cirurgiões plásticas não me parece bom. Essa obsessão pelo físico não é boa. Não tem jeito, se a gente gasta tempo demais em cabelereiro e academia, vai faltar tempo pra outras atividades, não?
Quanto às mulheres que se vendem pros maridos, tem toda uma categoria de mulheres ricas que não trabalham e vivem pra manter a aparência (literalmente), as chamadas trophy wives (mulheres troféus)...

lola aronovich disse...

Leila, buenos dias! Pois é, se “ser feminina” é o que manda os status quo, não consigo ver como obedecer o que nos mandam pode ser uma arma potente (e olha a sutileza fálica dessa expressão, arma potente. Ppff!).


Miquinha, legal, isso é importante, que a gente pense e veja o mundo com outros olhos. Vou lá ver já já o que vc achou de Foi Apenas um Sonho.

lola aronovich disse...

Vanessa, mas será? Só tem vantagens em não saber das coisas? Acho que tem desvantagens tb. Eu tb não tenho esperaça que a igualdade entre os sexos seja alcançada durante a minha vida (próximos 40 anos, com sorte). No ritmo que as coisas andam... No final dos anos 60/70, as feministas acharam que seria muito mais rápido. Aí se passou um tempão, a década de 80 e 90, décadas bem perdidas em matéria de feminismo, e agora estamos no final desta, e vemos montes de homens e mulheres que continuam agindo de forma muito machista. E a gente ainda ouve que o feminismo acabou e que não tem mais razão de ser...


Paola, isso de “sou feminina, não feminista” é um clichê, né? Primeiro que implica que feminista não pode ser feminina - que feminista é tudo lésbica machona. Depois que, sei lá, ser feminina é a coisa mais fácil que existe. Eu não me pinto, não uso salto alto nem esmalte nem jóias, mas me considero bem feminina - no sentido que ninguém nunca me confundiu com um homem. Na minha adolescência eu adorava jogar futebol e nem por isso me achavam masculina, se bem que tinha gente que espalhava que eu era lésbica apenas por jogar futebol. Essa divisão super rígida de que mulher é assim/faz isso, e homem é assado/faz assado é péssima pra ambos os sexos. Parece que só posso ser metade humana. É ridículo.

Lila disse...

Acho que as pessoas confundem feminismo com femismo. O equivalente de machismo não é feminismo mas femismo.
Femista são aquelas que querem, ao invés de uma sociedade patriarcal, uma sociedade matriarcal. Que querem que as mulheres dominem e subjuguem os homens, que acham que os homens são fracos e inferiores.
As feministas ao contário querem igualdade, querem uma sociedade em que as decisões possam ser compartilhadas, em que as tarefas possam ser divididas, querem não ser avaliadas simplesmente por seu físico, beleza e aparência.
Querem ter o direito de receber igual salário por igual trabalho. Querem não estar expostas a violência doméstica ou sexual. Querem ter o direito de ser solteira ou estar sozinha e isso não ser considerado estar disponível por primeiro homem que aparecer.
Eu não me considero vaidosa, não me arrumo com roupas chics tdos os dias, mas me considdero feminina sim. Sou mulher, feminista, mulher, hetero, não odeio os homens, muito pelo contrário. Quero igualdade, apenas isso.
Desculpe Lola pelo coment longo.

Ana disse...

Acho que nosso problema hoje em dia nem é mais tanto a eqüidade: é a bosta do mito da supermulher, daquela que trabalha, cuida dos filhos, da casa, trepa em todas as posições do Kama Sutra e está sempre saradona e de bom humor. Essa está fazendo mais estrago do que as questões que tínhamos antes..
:-/

olhodopombo disse...

Lola, a minha filha deve ter bebido na fonte,
so que a fonte agora esta cheia de outras formas de ver a vida,,,,,e dificilemnte eu beberia das aguas da fonte dela....

Vanessa Dias disse...

Lola, eu, particularmente, não gostaria de não saber das coisas. Pelo contrário, quero sempre mais... rsrsrs Apesar de algumas vezes me sentir deslocada em meio a tanta ignorância que circula por aí. Mas acho que muitas pessoas se sentem bem assim, por isso disse que a frase poderia ser uma verdade absoluta. Sabe aquela história da menoridade de Kant? É melhor ter um médico para cuidar da nossa dieta do que fazermos isso por nós mesmos?

Vanessa Dias disse...

Lila, adorei sua explicação. Não sabia que existiam as duas palavras.

Fernanda disse...

Poxa. Acabei de votar na sua enquete e percebi que estou há um tempão te acompanhando (desde o Lost Art). Danado de bom esse blog. Sempre fui uma visitante anônima, mas agora estou aqui para te contar que te escolhi para dar um selo "blog de ouro", selinho que só mulheres recebem...
Parabéns pelo seu blog!

Mônica disse...

Lola,
eu às vezes me sinto como a Mica, lendo suas postagens e pensando 'nhééé, não concordo com isso não'. E quer saber? É exatamente por isso que eu volto sempre. Gosto de ler opiniões por vezes diferentes das minhas, conhecer pontos de vista distintos dos meus e analisar as questões a partir de outros ângulos. Conhecer opiniões diferentes das minhas me ajuda a refletir (e mudar ou não de idéia, mas sempre faz pensar).

O que me incomoda em comentários em muitos blogs e canais como o YouTube, por exemplo, é que muita gente usa o espaço pra bater boca, não para discutir. O debate sai do nível das idéias e entra pelo terreno da guerrinha de egos, dos 'achismos e certezismos'. Ao invés de discordar ou elaborar seu próprio argumento, o comentarista já chega metendo o pé na porta, armando barraco. Acho isso o fim da dinastia.

E é por isso então que eu venho sempre que posso. Porque tem hora que eu leio e penso 'legal, eu também acho isso', tem outras em que eu paro e digo 'interessante, não tinha pensado nisso' e tem umas em que eu bato o pé e decido que não concordo não, e com isso me obrigo a pensar nos porquês.

Meu avô dizia que 'gente é que nem sorvete, tem de diversas qualidades', e acho que é isso que as faz tão interessantes; seria um tédio se todo mundo pensasse exatamente como eu. Acho muito perigoso ficar eternamente na zona de conforto.

Um abraço,
Mônica
Crônicas Urbanas

anália disse...

Oi, Lola!
Realmente, o machismo é horrível e super entranhado. O ponto é que muitas vezes está entranhado mesmo em alguns discursos feministas. A mulher passa a ter que se comportar como homem, e isso é péssimo. O mundo masculino virou modelo e objetivo final para conseguir ser uma "mulher plena".
Eu sinto isso muito no dia-a-dia, uma vez que cometi a heresia de parar de trabalhar para cuidar de meu filho. Por isso fiquei muito feliz com o comentário da Ana.
Bjs,
Anália

Débora disse...

Acabei de perceber que eu fazia isso com a Vange Leonel, me cansava o fato dela enxergar homofobia em tudo, mas a verdade é que a gente está tão condicionado a achar que é normal que não percebe. Putz, me abriu os olhos.

Kenny Guilherme disse...

Lola, vc já ouviu falar do Velhas Virgens? É a maior banda independente do Brasil. Nunca vamos vê-la no Faustão, por exemplo. 80% de suas músicas fala de sexo, putaria, bebida e mulher. E o machismo das letras é gritante. A maioria das mulheres detesta, umas pq acham muito machista a banda, outras por puritanismo mesmo, "ai, eles falam muitos palavrões". O que elas não percebem é que esse machismo escrachado é justamente uma crítica ao...machismo. Sem falar que é muito bem humorado. Tem uma que diz: "aqui em casa vc se encontrou, já não quer mais cantar ou ser atriz, de avental fazendo o jantar, já não quer mais desfilar nem ser Miss. Eu de chinelo e a barba por fazer, tomando uma e vendo futebol...". É só uma passagem machista tosca ou é uma crítica às mulheres submissas? É só pensar um pouco.
Muito bem colocado pela Helena, se referindo ao marido: "Não penso que seja machista de maldade, mas ele (como tantos outros) foram fabricados assim". Não me considero machista, mas às vezes me pego tendo uns pensamentos do gênero. Aí paro e penso em tudo o que já ouvi nessa vida, de coisas que me diziam na infância e tal. Ainda mais eu que morei até os 18 anos numa cidade de 20 mil habitantes. Tem muita coisa que temos como verdades pq crescemos ouvindo, de tanta repetição. Como naquele fabuloso livro "Admirável Mundo Novo".
Mais triste que homem machista só mulher machista mesmo.
E como dizia o Raul: "antes eu tivesse nascido burro, aí não sofria tanto". Não saber é uma bênção mesmo.
Mas vem cá, vc se referiu mais uma vez ao heavy metal como música misógina. Até procurei no dicionário o significado do termo. Vem de misoginia, que significa aversão mórbida às mulheres. Aversão mórbida às mulheres??? Poderia me esclarecer o que vc quer dizer quando se refere à uma música como misógina?
Abraço, Lola.

Suzana Elvas disse...

Oi, Lola;

Sobre a questão da ignorância: bom, você sabe que eu tenho duas filhas pequenas e elas me ensinam muito. Eu invejo nelas a capacidade de acreditar com todas as forças em Papai Noel, fadas e Coelhinho da Páscoa. E sempre penso naquela frase que diz que as crianças, ao aprenderem a ler, começam o inexorável processo de não serem mais crianças.

Não sei se vou me fazer entender; mas acredito que a ignorância pode ser, sim, uma bênção. Muitas vezes "Cinderela" é somente "Cinderela", uma história onde triunfa o amor e a bondade que faz as meninas quererem sapatos de cristal e fadas madrinhas e não uma alegoria sobre a dominação masculina numa sociedade fortemente patriarcal, onde o sapatinho de cristal representa o falo (i.e., o poder masculino) que levará a mocinha às alturas do poder.
Bjs

Anônimo disse...

Embora pelo fato de viver em um lugar onde a mulher já conquistou um espaço consideravel, e eu não tenho obice algum a este fato, vez que vejo a mulher como um ser humano que tem os mesmos direitos e deveres que eu tenho. Apesar disto sei também que infelizmente em muitas partes do mundo nascer mulher não é exatamente uma dádiva, lamento por isso, vez que como já disse respeito integralmente vocês mulheres. A minha dúvida é a seguinte, com a relação ao feminismo, o que de fato busca o feminismo, a igualdade dos sexos ou o poder, o desejo feminino de alguma forma se vingar dos homens pelos milênios de dominação que submeteram as mulheres. Esta ai um tema interessante.

Ale Picoli disse...

É, não tem como voltar atrás. Inocência não é uma coisa que se perde (e, portanto, poderia ser "encontrada" de novo). É uma coisa que acaba. Mas eu não acho que seja bom ser ignorante e inocente. Estaríamos nas cavernas até agora se tivéssemos continuado assim.
Hoje em dia eu sou cética e bem pentelha, feminista bem patrulhadora mesmo, mas consigo ver beleza no mundo, sim. Beleza no acaso, na improvisação, na evolução, na natureza. Beleza na criação artística, na música, no humor, nas interações entre as pessoas e a superação de dificuldades.

anacris disse...

Hmm, por várias e várias vezes me perguntei se não seria mais fácil viver, se eu vivesse na ignorância, se seria menos doloroso simplesmente ignorar as coisas que acontecem ao meu redor, já conversei muito com meus amigos sobre isso, e a gente sempre chega à conclusão de que é melhor saber, pra poder se defender, e até mudar a realidade. O fator "ser explorada no trabalho" é gritante em mim, e eu não admito tal situação, cada indivíduo tem seu valor, sendo ele mulher, homem, homossexual, hetero, com alguma limitação física ou mental, sempre haverá algo que a pessoa seja apta a fazer e deve ser recompensado por isso. Beijo, beijo!

anacris disse...

Hey, Experiencia Diluida, EU CONCORDO PLENAMENTE! Não consigo ficar num lugar que toque esse tipo de música, machista e que depreciam a imagem da mulher, eu fico de cara feia mesmo, vou embora. Sempre tento falar com minhas amigas pra elas ouvirem realmente o que está sendo cantado, pois é vergonhoso, eu tenho vergonha.

anacris disse...

Ahh! Lola, eu escuto na maioria, Heavy Metal, mas tento escolher bem as bandas, principalmente porque a letra, a sonoridade e a atitude dos integrantes das bandas tem que estar em harmonia. Não é qualquer viking que me apareça que eu abraço, não! hahaha

Suzana Elvas disse...

Lola, gosto muito do termo "Muffia" (a máfia do muffin), criado pela escritora e jornalista Allison Pearson no livro "Eu não sei como ela consegue" (recomendo, apesar de me decepcionar um tantinho no fim; saiu pela Rocco). Os membros da Muffia são mulheres que acham que seus filhos devem estudar violoncelo desde os três anos para enriquecer o currículo; meninas devem ser treinadas para darem boas esposas e mães; aos meninos, o mundo e algo mais.

Kenny Guilherme disse...

Como eu faço pra comentar no seu blog, Anacris?

ana_alice disse...

lolinha, seu blog não me deixa estudar.

reli esse post aqui, por acaso, e fiquei pensando nesse negócio da amargura. acho q fiquei meio amarga mesmo, não sei... eu costumava ser mais engraçada, acho. eu era mais objetiva tb, não ficava temendo mal entendidos, fiquei hipersensivel pra n machucar ninguem sem querer (e, por minha vez, me magoo com qq comentario ofensivo). nunca fiz ou gostei de piada preconceituosa, mas as coisas q todo mundo acha graça não me incomodavam tanto, não chamavam - negativamente - a minha atenção.