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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CRÍTICA: SE BEBER NÃO CASE / Memórias desbotadas

Cara, cadê minha memória?

Estava com zero de vontade de ver uma comédia com o título de Se Beber Não Case, que traz uma das palavras-tabu pra mim, algo relacionado ao sagrado matrimônio (costumo detestar todos os filmes que se concentram nesse ritual). O nome em inglês é The Hangover, A Ressaca, que também não me inspira nenhuma confiança. E tudo que eu precisava saber pra me posicionar contra o troço era que é sobre uma despedida de solteiro em Las Vegas (já falei que não há muitos lugares no mundo que eu tenha menos desejo de conhecer que Vegas?). Mas aí vi que os críticos americanos puseram Se Beber num altar, com média altíssima (73 no Metacritic), e decidi dar uma chance. Não sei por que faço isso. Deve ser só pra me lembrar que a maior parte dos críticos é homem. Mas, falando assim, até parece que odiei a comédia. Não. Eu tenho um relacionamento conflitante com ela. Estou perfeitamente ciente que Se Beber é hiper preconceituoso, principalmente machista, e que não foi feito com o público feminino em mente. Mas eu gostei do ritmo e me deixei envolver. Já o maridão não apenas odiou o filme como também me odiou por eu não ter odiado o filme. Ponto pra ele.
Se Beber é o que costumam chamar de bromance, mistura de bro (amigos, irmãos) com romance. Ou seja, um romance entre amigos homens, mas com bastante homofobia no meio pra gente saber que eles são todos espada. Sabe, uma ode aos héteros do sexo masculino. Nesse roteiro as mulheres são sempre ou víboras castradoras, querendo impedir nossos heróis de atenderem o chamado selvagem e se divertirem, ou gostosonas, que proporcionam a diversão (sexual, bem entendido) aos bros. Se Beber já começa com três dos quatro amigões ligando pra uma víbora castradora, a noiva, e avisando que o noivo sumiu. E aí temos o flashback do que aconteceu: eles foram pra Vegas pra uma noite inesquecível, e se esqueceram de tudo que ocorreu (parecido com Cara, Cadê meu Carro?, que não tive o desprazer de ver). O resto é eles tentarem desvendar os fatos daquela noite, pra poder encontrar o noivo sumido. Como falei, eu gostei do ritmo, porque ele lembra um outro gênero, o screwball comedy. Tem até um tigre na jogada. E o Mike Tyson cantando (veja o trailer).
Ao mesmo tempo, a presença do Tyson não é mera coincidência. O filme segue fielmente uma mentalidade frat-boy (aqueles universitários americanos que pertencem a fraternidades em que o programão de todo final de semana é pegar o máximo de mulheres e beber até cair). O boxeador é um ídolo entre os frat-boys. Não deve existir um só rapaz no mundo que não creia que Tyson foi injustiçado naquele caso de estupro que lhe rendeu anos de cadeia. Muitos frat-boys têm uma longa tradição de estuprar moças, mas achar que não foi estupro. Não é à toa que a ressaca do título original não é gerada por bebida, e sim por uma droga que é colocada no copo dos amigos: a típica date-rape drug, a droga do estupro, mais conhecida como “boa-noite Cinderela”. Não preciso dizer que essa droga não foi desenvolvida com o intuito de derrubar e consequentemente estuprar homens, certo? Pois é. Pior ainda: a julgar pelo filme, a droga causa amnésia total em 100% de quem a toma. Nenhum dos quatro amigos se lembra do que aconteceu. Ainda assim, parece que eles permaneceram ativos durante a noite toda (sabemos depois). Siga meu raciocínio: como essa droga é destinada a nocautear mulheres, faz parecer que elas é que estupram os carinhas que colocam esse pozinho inocente em seus copos enquanto elas não estão olhando. E o que tem de mal em transar com alguém que está fora de si e não vai se lembrar de nadinha depois, não é mesmo?
Mas essa é só a mensagem subliminar. Há vários outros elementos em Se Beber que tocam fundo no coração dos frat-boys: cenas de vômito, gordofobia (um personagem até diz: “É tão engraçado ver um gordo caindo!”), racismo (mais contra asiáticos que contra negros), homofobia, pra variar, e, lógico, uma prostituta com o coração de ouro, que obviamente adora sua profissão (a gente fica meio sem entender por que, então, ela se casa com o primeiro sujeito que aparece). Poucas cenas são tão representativas dessa mentalidade frat-boy do que a reação dos marmanjos ao verem a tal prostituta amamentar. Sabe como é, a presença de um seio automaticamente acende luzinhas nos cérebros desses rapazes.
O filme é tão cruel e perverso em tantos sentidos que, pra rir com ele, é preciso copiar o mecanismo descrito por Robert Jensen (teórico anti-pornografia) quando se assiste à pornografia (outra modalidade que goza de enorme popularidade entre frat-boys): desligar-se do mundo, esquecer o contexto, e centrar-se apenas naquele objetivo (no caso de porn, o orgasmo, quase sempre o masculino; no caso de Se Beber, a risada). Por exemplo, se a gente refletir, dificilmente rirá de uma cena que mostra um senhor idoso sendo atendido por um médico e observado, nu, por três estranhos. Quero dizer, não é o tipo de tratamento que a gente gostaria que nossos pais ou avós recebessem num hospital. E todas as cenas com um bebê são bem perigosas, digamos. Um bebê sendo cuidado por um carinha que, o filme sugere, foi condenado por pedofilia? Violência policial também geralmente não é engraçada. Mas tá lá. E é por isso que o ritmo é tão eficaz: ele não nos dá tempo de pensar nessas situações.
E, por incrível que pareça, a nossa falta de noção é auxiliada pelo fato do elenco ser composto por um bando de desconhecidos. Tem um carinha bonitão, o Bradley Cooper (de Sim Senhor e Penetras Bons de Bico, e também da nova comédia-veículo da Sandra Bullock, All About Steve, que ainda não estreou no Brasil, e que vem sendo massacrada pela crítica americana - média 17... em 100!). Tem também um nerd, o Ed Helms (o Andy do The Office), mas quem comanda o comic timing é um tal de Zach Galifianakis, prestes a se tornar o novo Jack Black. Só que com cachê muito menor, pelo menos por enquanto.
Por falar em dinheiro, Se Beber foge da raia nesse quesito. No começo, somos informados que a suíte presidencial que os amigos pegam custa 4,200 dólares por noite. (Atenção: spoilers) E que eles ganham 82 mil num cassino no fim. Alguém diz que ainda sairão no lucro. Mas quanto custa reformar a suíte? Quanto eles terão que pagar por uma cama king-size num hotel de luxo? E o carro (isso não é bem um spoiler. Desde Curtindo a Vida Adoidado, a gente sabe que todo carrão emprestado por uma figura paterna será totalmente destruído)? E o casamento com a stripper? E a anulação do casamento? Pô, tudo em Vegas gira em torno da grana. Não fechar as contas no final de Se Beber cheira à hipocrisia.
Pra não dizer que o filme não tem valor, ele me fez refletir. Como já mencionei, os amigos vão pra Vegas passar uma noite inesquecível, e se esquecem dela. Mas eu não preciso tomar drogas pra me olvidar das coisas. Quanto eu me lembro do meu ano em Detroit? E de quando estive em Moscou, cinco anos atrás? Muito pouco. Tenho flashzinhos, pequenas memórias. Lembro perfeitamente que estive lá, mas não sei os detalhes. Então pensei em Vingador do Futuro, aquele filme do Schwarzza que começa bem e termina em Marte (e que é baseado num livrinho do Philip K. Dick, We can Remember it for You Wholesale). Uma empresa vende memórias de férias inventadas. Você não precisa viajar até Marte pra ter em sua cabecinha uns poucos implantes sobre suas aventuras no planeta. As fotos (que são armações) já bastam. Pensei também em outro Philip K. Dick, Blade Runner, em que os andróides mais chiques, como a Sean Young, guardam vagas memórias implantadas da infância. Só que eles não tiveram infância. As fotos que Sean exibe com tanto orgulho pra tentar provar sua humanidade são da sobrinha do seu criador. Em outras palavras, vale a pena ter férias tão maravilhosas (e caras) se em poucos meses elas serão apenas lembranças desbotadas? E se houvesse mesmo uma maquininha que nos garantisse memórias por atacado?
Imagina a economia que seria ter um álbum de casamento sem precisar aturar essa chatice de organizar uma cerimônia de casamento! Ou de guardar lembrancinhas de Vegas sem nunca ter estado lá. Tá, lembrancinhas de Vegas eu passo. O chato é que, quando eu me esquecer de Se Beber, haverá uma sequência na esquina pra me fazer lembrar. Já está em pré-produção.