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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

CRÍTICA: 500 DIAS COM ELA / 500 coisas que odeio no filme

- Eles estão olhando pra gente! Vamos fazer pose de cool!

Já vou começando com uma colher de chá: sim, é possível que eu estivesse muito cansada após um dia inteiro de caminhão de mudanças pegando os meus móveis para entregá-los em Fortaleza, no melhor estilo “Mandou a Mobília e Foi ao Cinema” (espero que o pessoal mais jovem tenha entendido o trocadilho com “Matou a Família e Foi ao Cinema”?). Mas não gostei nem um pouco de 500 Dias com Ela (trailer aqui). Pausa para vocês jogarem tomates podres e ovos em mim. Tô aqui. Mandem. Metam bala. Agora, por favor, taquem alguns tomates no maridão, que gostou menos ainda. Obrigada, obrigada.
Na saída, perguntei pra minha cara metade: “Por que tanta gente gosta tanto desse filme?”. Ele respondeu: “Porque mostra que gente totalmente desinteressante pode parar no cinema”. E galera que nunca mais vai falar comigo depois de eu pichar 500, posso dizer que concordei com ele? Porque o casal de 500 é chatinho que dói. O carinha, Tom, um arquiteto frustrado que trabalha criando cartões e que acredita no amor, é feito pelo Joseph Gordon-Levitt (Stop-Loss). A mocinha, Summer (o título original é 500 Days of Summer), uma não-entendi-a-profissão-dela (mas não importa, desde quando mulher precisa de profissão, né?) que não crê no amor, é feita pela Zooey Deschanel (Sim Senhor, Fim dos Tempos). É a história de um caso que não dá certo, e que é contada dia após dia. Esse é um fator que me torrou a paciência. Odiei aqueles numerinhos na tela, dia 2, dia 326, assim como detesto as legendas em filmes de ação dizendo “Casa Branca, Washington, quinta-feira, 25 de janeiro de 2009, 14:32, tempo nublado”. É realmente importante saber se é o dia 123 ou 258 do relacionamento entre Tom e Summer? Eu mal sei quanto tempo é 500 dias (um ano e meio, aprendi).
Pra vocês não ficarem revoltadas(os) demais e jogarem objetos cortantes na tela do computador, vou contrabalançar o que odiei com algo que gostei do filme. Gostei da narração em off no início, falando do tipo de pessoa que Summer era quando criança. Havia duas coisas que ela mais amava: seu cabelo longo e sedoso e como ela podia cortar esse cabelo sem sentir nada. Algo assim. Mas isso não é explorado. Se a narração não tivesse dito isso, essa característica da Summer apareceria pra gente? Mesmo com a narração, aparece? Não, e sabe por que não? Porque Summer não é um personagem bem construído. Ela não é nada, só objeto do amor de Tom. Tudo bem, entendo que ela seja totalmente vazia e não dê explicações pro seu comportamento porque, afinal, ela não existe fora da visão do Tom. Mas e ele? Como explicar como ele é opaco? E por que euzinha aqui devo me preocupar com o destino de duas almas tão pouco sólidas que desmancham no ar?
(Rápido, Lolinha, rápido! Um aspecto positivo!). Ahn, gostei da cena em que Tom sai sorrindo, e isso vira um número musical, porque, afinal, sou fã de musicais. Só acho que faltou criatividade nos gestos que fazem pra ele. Todo mundo apontando, como se dissesse “You're the one!”, “você é o cara”. Mas eu me identifico, porque tem vezes em que estou tão, mas tão feliz, que começo a rir sozinha, na rua, e dá pra ver como isso é contagiante. Só que o diretor Marc Webb faz de praticamente toda cena um número musical. Este é seu primeiro filme, mas ele já era diretor de videoclips, e juro que eu saberia disso sem que precisasse ter lido. 500 é inteirinho um segmento de videoclips, um após o outro. Como disse um crítico americano, o filme é como se fosse um Noivo Neurótico, Noiva Nervosa para a geração i-pod.
Ah, concordo com a crítica, se se pode chamar assim, que 500 faz da indústria de cartões. Tem cartão pra tudo. Uma data fabricada exige um cartão, certo? Cartão pro dia das mães, pro dia dos namorados, pro natal. E pra expressar o que você sente. E aí eu penso: pô, você se expressa sendo você mesmo, escrevendo o que você sente. Não comprando um cartão genérico cheio de obviedades que alguém (alguém que não te conhece nem conhece a pessoa que vai receber o cartão) escreveu. Cartões com desenhos ou fotos bonitinhas, eu gosto. Mas dispenso os dizeres. E a internet fez proliferar muito esse culto à impessoalidade. Email é ideal praquela pessoa incapaz de mandar ou responder um email, mas que manda correntes ou slides de fotos pra toda sua caixa de endereços. É o seu jeito de dizer “Estou pensando em você”. E se você reclama que não tem notícias da pessoa faz séculos, ela pergunta, espantada: “Mas você não recebeu meu email?”, referindo-se ao slideshow que ela enviou com as abelhas se reunindo em torno de um jarro, e que você deletou sem abrir. E pior que cartões ou emails impessoais, só aqueles cartões telefonados, ou o caminhão de som que vai até sua porta explodir fogos de artifício. Já contei sobre uma vez em que eu convidei uma turma de amigos pra um churrasco no meu aniversário? Poucos minutos antes do início marcado pras pessoas começarem a chegar, quando eu estava desesperada correndo de um lado pro outro organizando as últimas coisinhas, toca o telefone. Uma voz diz que eu recebi um cartão telefonado, que ela tocará a seguir, mas que só dirá quem enviou o treco após eu ouvir o cartão. E eu lá, revirando os olhos, pronta pra ouvir qualquer banalidade sobre como o meu aniversário é uma data especial pra humanidade ou, pelo menos, pra mim. E aí começa a gravação: “Mãe, o seu dia é...”. Quando terminou, voltou a voz, disse que ele foi enviado pela minha amiga tal (anotei no meu caderninho negro pra toda a vida), e ainda perguntou: “E aí, gostou?”. E eu: “Ô. O problema é que eu não sou mãe”. E a pessoa: “Opa! Desculpe, foi o cartão errado. Espera que eu já coloco pra tocar o certo!”. Então eu desliguei, né? E depois fui tentar explicar delicadamente pra minha ex-amiga por que esses cartões-aberrações representam o atraso da sociedade moderna.
(Espero que essa pequena interrupção tenha dissipado a sua raiva. Pra vocês poderem reabastecer:) odeio quando mostram uma cidade, falam que é uma das mais bonitas do mundo, e só depois de uma hora de filme anunciam que cidade é — Los Angeles. Dá licença, ô centro do universo! Ninguém é forçado a reconhecer uma cidade americana só de olhar pra ela. Nova York é até fácil, tem aquele skyline clássico (e eu fiquei boba ao pisar em NY em 2008 e perceber o quanto eu já conhecia a cidade — pelos filmes!). Mas LA não é NY. E vem cá, uma das cidades mais lindas do mundo?! Aquele lugar em que sem carro você não é nada? Minha definição de beleza é um pouco diferente.
E por falar em beleza, a Zooey é bonitinha com uma pontinha de cinismo. É doce mas um tiquinho amarga ao mesmo tempo. E o filme é assim mesmo, copiando a Zooey. Só que, acima de tudo, vazio. Vápido. Obscuro. Vocês pensam que Summer e 500 são cool, mas não são. Ambos se esforçam demais pra agradar, e isso não é cool.
E o pior (preparem-se que vou falar bem) é que acho que, no departamento amoroso, eu tô muito mais pro Tom que pra Summer. Eu meio que acredito em destino, no sentido de como que eu e o bofe do maridão fomos parar no mesmo lugar ao mesmo tempo. E eu preciso fazer planos. Isso da Summer gostar do Tom por enquanto, não pra sempre, seria difícil pra mim (quer dizer, não tô falando só de sexo, de uma noitada, mas de um relacionamento de meses). Summer está longe de ser uma vilã, já que é bastante honesta com Tom. Mas eu me senti muito mal na semana em que namorei dois carinhas ao mesmo tempo (um deles era o maridão), sem contar nada pra eles. Não sabemos o que Summer sente, e nisso 500 é bem convencional e conservador. Ela faz o que quer (mesmo que tenha a grande preocupação de não ferir os sentimentos do homem-protagonista), mas o universo permanece totalmente falocêntrico. Ele é que conta a história, his story.
(Vocês devem ter reparado que não tenho mais pontos positivos pra falar sobre o filme há uns cinco parágrafos. Ah, lembrei:) Adoro como o dinheiro nunca é problema na vida dos dois privilegiadinhos. (ops, não foi exatamente um elogio; enganei vocês, foi sem querer).
500 é pra pessoas que não entenderam A Primeira Noite de um Homem (o único personagem interessante daquele clássico dos anos 60 não é o mocinho, e muito menos a mocinha, mas a mãe da mocinha, a Mrs. Robinson!). É meio uma comédia romântica pra gente cool que não gosta de comédias românticas, e que, pior, se acha superior a quem gosta de comédias românticas. (Agora que vou ser linchada mesmo). Mas a Summer é tão insípida quanto qualquer protagonista de comédia romântica. E troca de roupa tantas vezes quanto qualquer princesa que se preze.
E agora quem vai trocar de roupa sou eu, que todos esses tomates jogados em mim me deixaram vermelha.