segunda-feira, 14 de setembro de 2009

NOSSA LÍNGUA MACHISTA

Dá pra eliminar o preconceito da língua, principalmente o sexismo (que, no Brasil, é mais conhecido como machismo. Não gosto de usar o termo sexista porque pouca gente sabe o que é. Mesmo nos EUA as pessoas confundem sexist com sexy)? Bom, a não ser que você pense bastante no assunto, talvez nem esteja ciente de como a linguagem que usamos todos os dias é preconceituosa, e como coloca a mulher como cidadão de segunda classe. Por exemplo, quando usamos a palavra homem como sinônimo de ser humano, em casos como "a origem do homem", passamos a impressão que homem é mais ser humano que mulher. Quando escrevemos sobre um sujeito indeterminado e dizemos ele ao invés de ela, idem. Quando usamos adjetivos no masculino, também. Por isso, em inglês, muita gente hoje escreve s/he. Em português, ele(a), mas mesmo isso de colocar o pronome feminino entre parênteses já pode ser considerado discriminatório. Em alguns blogs, vejo gente usando o @ como gênero neutro.
No português e demais línguas latinas é pior ainda que no inglês, porque todas as palavras têm gênero. Lá doctor e professor podem se referir a médicas e professoras, e o the também vale pros dois. Aqui até uma profissão onde 90% que a exercem são mulheres é vista como masculina, como professores de escola. Ou o nutricionista, o psicólogo, ainda que seja difícil encontrar homens num curso de Nutrição ou Psicologia.
Numa discussão em um post bem polêmico, uma leitora anônima reclamou porque escrevi “todas as psicólogas”: “A propósito, gostei do 'todas as psicólogas'. Homem não pode ser psicólogo? Isso é profissão de mulherzinha? Ok, estou só alfinetando, claro que você não acha isso, mas que soou estranho, soou”.
Eu respondi: “O 'Todas as psicólogas' é porque estou tentando adotar o artigo feminino em situações que têm muito mais mulheres que homens. Acho um absurdo falar em 'todos os psicólogos' (na turma de uma amiga minha não havia um só homem), 'os nutricionistas', 'os enfermeiros' etc. É um fato que a maior parte das pessoas nessas profissões são mulheres. E acho errado, por causa de uns 10% de homens (minoria absoluta), referir-se à profissão com o gênero masculino. No meu blog falo 'pras leitoras', já que 70% do meu blog é leitora, não leitor. Engraçado como vivemos num mundo em que falar 'leitoras' exclui os leitores, mas falar 'leitores' não exclui as leitoras...” Nós, mulheres, estamos tão acostumadas a sermos excluídas na nossa própria língua que até achamos estranho se um artigo for usado no feminino.
Dona de casa ainda é pra mulher, quase que exclusivamente. É muito mais comum ouvir que o homem é o dono da casa (da casa específica, não de casa, genérico), o provedor, que dono de casa.
Isso do gênero masculino ser considerado a norma é um problema, mas não é o único. Até o final da década de 70, todos os furacões recebiam nome de mulher, por serem intempestivos e temperamentais (o que soa ainda mais estranho em português, porque furacão, ciclone, terremoto etc são todas palavras masculinas, o furacão). E o que dizer da própria ordem dos termos? Falamos homem e mulher, pai e mãe, marido e esposa. Isso indica hierarquia (uma das raras exceções é damas e cavalheiros). Mas por que cargas d'água homem viria antes de mulher?
Há inúmeros outros exemplos de machismo na língua, como mulheres adultas serem tratadas de garotas e meninas (raramente usamos meninos para se referir a homens adultos). Alguns termos têm sentido positivo pra homens, e pejorativo pra mulheres. Bruxa é quase sempre um insulto, mas mago é um elogio. As feministas americanas apontam que até em termos considerados “neutros”, como history, o que está sendo narrado é his story (a história dele), e pregam o uso de herstory (a história dela). Homem é comissário de bordo, mulher, até pouquíssimo tempo atrás, era aeromoça. Qual indica mais respeito?
E melhor nem falar de Deus, que é homem, pai, senhor, e volta e meia representado pela figura de um velhinho (branco) de barba branca. Que seja idêntico à figura que temos do patriarca é mera coincidência, claro...
Mas algumas feministas americanas se opõem a algumas “correções” na língua, porque essas correções também servem pra ocultar e desvirtuar a realidade. Por exemplo, substituir chairman por faculty passa a falsa impressão de igualdade, de que na realidade a maior parte dos professores universitários, e principalmente das pessoas em posição de comando nas universidades, não seja homem. Trocar o “Quando o homem começou a agricultura” por “Quando o ser humano começou a agricultura” mascara que, na realidade, quem começou a agricultura foram as mulheres. Dizer que “uma emenda garantiu o direito a voto de ex-escravos” (slaves, em inglês, é tanto pra escravos quanto pra escravas), oculta que esse direito só se aplicava a ex-escravos homens. Mulheres, negras ou não, só tiveram direito a voto nos EUA em 1920, quase meio século depois que os homens negros.
Num outro post mencionarei os insultos destinados a homens e mulheres (podem ajudar com mais exemplos!). Desnecessário apontar que quase todas as ofensas contra as mulheres têm caráter sexual. Por enquanto, fique com a comparação entre vagabundo e vagabunda. Uma letrinha só no fim da palavra muda todo o significado.
A língua é um reflexo da sociedade que a usa. Se a nossa língua continua preconceituosa, é porque a sociedade continua preconceituosa. Ao mesmo tempo, a sociedade é moldada pela língua. As crianças crescem ouvindo homem e mulher. Não é apenas pela língua que elas vão se dar conta dessa hierarquia, mas é também pela língua.

P.S.: Faz dez anos que a Unesco publicou um guia incrível, em inglês, francês e espanhol, para orientar as pessoas a eliminar a discriminação de gênero que todas as línguas impõem. Vale a pena aprender e fazer escolhas certas.

68 comentários:

Fabiana disse...

Mais uma vez um texto perfeito que eu gostaria de ter escrito. Tô até ficando sem jeito de comentar aqui, nunca tenho nada pra dizer :-)

No mais, daqui a pouco vão começar os comentários do tipo: "feminazes querem comandar até o modo como falamos, inventando uma novilíngua". Quer ver 5, 4, 3...

Bruna disse...

Lolinha, você leu meus pensamentos! Já ia te mandar um vídeo interessantíssimo sobre uma "womern enpowerment program" no Líbano - o Khede Kasra - e ele combina perfeitamente com esse seu texto.

O vídeo explicar melhor a campanha e como ele se relaciona com seu artigo (eu acho, ao menos...)
Não deixe de assistir, é muito bom! :)
http://www.youtube.com/watch?v=ienYpISHLg0

Bárbara Reis disse...

Afee...

Essas coisas me dão preguiça de viver, sabia?
Me cansa!
É tão injusto, e ao mesmo tempo, não temos 'poder' de mudar nada.
Já estou com meu saco cheio de preconceito essa semana, e ainda é segunda. Passei o final de semana com meu pai. E ele é quase o extremo do preconceito e machismo. E meu irmão segue pelo mesmo caminho. Debatiamos quem iria lavar a louça do almoço. A namorada do meu pai havia preparado, logo ela não lava louça, eu aleguei que sou visita, e que trabalhei e estudei a semana inteira, e que tinha ido pra balada e tava cansada... meu pai havia ajudado no almoço, e meu irmão, claro que não fez nada...
Ai eu falei, que o justo seria meu irmão lavar... ele tem 12 anos... ele disse que não ia lavar... ai eu questionei o porquê sendo que quando ele nasceu, eu tinha 8 anos, e já limpava a casa. Eu disse que ele tinha de aprender agora, porque quando ele crescesse saberia... ai ele disse que não precisava saber que a mulher dele faria tudo. Minha vontade era de jogá-lo da janela. HAHAHA... '¬¬ Só respondi: - Aham, Cláudia, senta lá e espera... vai pensando que mulher vai fazer tudo por você, que você vai cair do cavalo.

Enfim... eu estou cansada dessas coisas... comentários idiotas... brincadeiras desnecessárias... piadas de mal gosto, dentro da minha própria casa.

E particularmente hoje, estou sem condições nenhuma de falar qualquer coisa... só ignoro.
=[

Beijo, beijo.

Bárbara Reis disse...

PS: Quem lavou a louça foi meu pai.

Éris disse...

Já tem um tempo que reparei nisso e tento me policiar, mas é difícil, às vezes quando depois de um certo tempo vou reler o que escrevi noto que uso a "regra" do masculino na frente ou generalizando para o masculino. =x
Excelente texto!

slonzonblog disse...

Eu , realmente, não consigo ver o que há no seu texto de tão profundo. Seu texto é impecável, muito bem feito, muito bem pensad. Contudo, você trata usos e costumes , que nascem das deformações de idéias dentro da própria sociedade, como algo planejado, algo que embute, em qualquer manifestação humana, um direcionamento machista como condição. Não vejo, realmente, assum. Se voc~e apanhar determinados termos, seja do latin, seja relativo ao uso de outros idiomas para novas coisas, vai perceber que é bem possível que o mundo, em sua longa história, tem produzido palavras que dessem uma idéia, nada mais do que isso. Agora mesmo, em alguns sites, pessoas estão colocando "favoritar " para designar a idéia de que, dando o seu clique naquele link, o site irá seer registrado na lista de favoritos do cidadão ou cidadã. Usso apenas esse exemplo porque não enxergo, realmente, que os neologismos sejam criaos a partir de uma visão machista do mundo. O homem não domina mais nada, o homem e apenas um ser que ficou confuso em meio a uma situação que ele não esperava e para a qual não contribuiu. Não acredito, realmente, que as mulheres possam usar a história do mundo como apoio para a defesa de suas teses feministas. E, claro, para mim teses feministas não apenas o oposto de teses machistas. Mas o cerne da questão , me parece é: " E daí? " Qual a razão que faz com que idéias, compreendidas por anos ou séculos, tenham que possuir uma nova conotação. Será que as mulheres desejam umnovo dicionário, mais explícito, mais detalhistas, mais feminino? Não acho que vocês desejem isso. Por isso minha confusão com o seu texto. Ele não traz nada que possa dar base à sua pesquisa e explanação . Não tome como uma crítica. Não tenho esse hábito. É que tento ver, hoje, homens e mulheres apenas como seres, cada um com suas coisas, bagagens que vêm carregando ao longo de séculos de culturas cruzadas, agora com maior velocidade.Só isso. Obrigado.

Mônica disse...

Lola,

realmente tudo isso é super verdade e vem de longuíssima data. Mas estou achando que as feministas americanas viajaram na maionese: history não tem nada a ver com HIS. Dando uma olhadinha rápida na etimologia (ou qualquer dicionário grego-inglês ou inglês-grego), dá pra ver que a palavra chegou no inglês via latim, que por sua vez pegou do grego: history = ιστορία, ou istoria.
E em grego, HIS não é pronome masculino. Ou seja, HERstory não faz o menor sentido... ;-)

Anônimo disse...

Pérola do dia "O homem não domina mais nada, o homem e apenas um ser que ficou confuso em meio a uma situação que ele não esperava e para a qual não contribuiu."

Anônimo disse...

Poxa, a Mônica falou antes de mim, tx :)
Então, Lola, a gente também tem que tomar cuidado com as "viajadas" que beiram o absurdo. Um tempo atrás um grupo de feministas norte-americanas propôs trocar o termo human por huperson, sem levar em conta que human vem do latim humanus e não tem nada a ver com o germânico mann / mannon.
Bjs
Leah

Fabiana disse...

Eu não disse, Lola :-)

Byanna disse...

Sempre me perguntei pq tudo q é bom e grandioso é "ele", "o", "um". Porém quando falava a respeito alguém me olhava com aquela cara de "vc está ficando louca" ou "ih, lá vem a feminista" e cheguei até a pensar q estava mesmo errada... é bom saber q outras pessoas compartilham dos mesmos pensamentos. Melhor ainda é saber que existem pessoas que conseguem cotextualizar tão bem esses pensamentos, como é o seu caso.

Anônimo disse...

olá
compreendo e concordo com excesso do masculino em nossa sociedade, mas o feminismo precisa ser repensado, mulheres e homens são vítimas dessas contruções sociais. Há um trabalho sobre masculinidade muito interessante do profº Durval Albuquerque: 'Nordestino: uma invenção do falo; uma História
do gênero masculino (Nordeste – 1920/1940)', em que é possível confrontar os discursos, tanto machistas como feministas. Não dá mais para pensar em 'times', ou vc está de um lado ou está de outro.
Há necessidade de quebrar as construções de identidades, romperr os rótulos, para tanto sugiro a leitura de Stuart Hall e do brasileiro Tomaz Tadeu da Silva para ir além 'ismos'. Enquanto se classifica o mundo, seja em machistas e feministas, negros e brancos, heteros e homos, temos apenas diferenças, apenas a manutenção de preconceitos, pois reforçar identidades, apenas reforça preconceitos. É preciso 'quebrar' todos os rótulos.
Num mundo há milênios de domínio masculino é difícil romper com vícios de linguagem, ainda mais quando se pensa a partir dos 'ismos'. Mulheres tem muito o que consquistar ainda, mas a emergencia de ser macho também tem suas desvantagens.
Tá na hora de pensarmos estudos de gênero, pelo q de fato é: feminino, masculino, homossexual, transexual, hermafrodita, travestismo, etc. Com todos tendo seus espaços, não dá mais para pensarmos o estudo de gênero apenas pelo feminismo.

Kinna disse...

Oi, Lola. Leio seu blog há mais de um ano, mas só agora tive o impulso de comentar. Adorei o post e não só concordo com quase tudo que você escreveu como divido a indignação e já tento me corrigir para usar artigos femininos quando se trata de uma maioria absoluta e, inclusive, já apresentei um seminário sobre Psicologia Existencial e usei ela/ele para falar de deus.

Mas não concordei com esse trecho:

"Há inúmeros outros exemplos de machismo na língua, como mulheres adultas serem tratadas de garotas e meninas (raramente usamos meninos para se referir a homens adultos)."
Eu vejo direto as pessoas se referindo a homens de 30, 35 anos como 'meninos'. Acho que isso tem mais a ver com a infantilização dos adultos de hoje em dia do que com qualquer outra coisa.
No mais, parabéns pelo ótimo post!

lola aronovich disse...

Pois é, Fabiana, não falha nunca! Sempre vem alguém dizer que o feminismo não tem razão de existir e que os verdadeiros perseguidos são os homens héteros brancos...


Puxa, Bruna, muito educativo o vídeo! Não sabia que no mundo árabe as palavras eram dirigidas aos homens ou às mulheres através da entonação. Sempre que há diferença, a gente sabe qual gênero será considerado a norma e, portanto, privilegiado. Muito legal essa campanha no Líbano. Interessante como só pensar na língua já faz pensar no longo caminho que ainda temos a percorrer...

lola aronovich disse...

Barbara, sei que desanima, mas, aos poucos, as coisas mudam. Muito mais devagar do que queremos, mas mudam. O tratamento MS, por exemplo, nos EUA, começou nos anos 70, com o feminismo. Antes só existia Mrs (para mulheres casadas) e Miss (para solteiras), o que é extremamente desigual, porque pra homem é um só, Mr (ninguém liga se é casado ou solteiro; isso só é importante pra mulheres, aparentemente). Então as feministas sugeriram Ms pra mulher, que seria indefinido. Miss e Mrs ainda existem, porque muita gente resiste, mas hoje em dia as mulheres ao menos têm o direito de escolher como querem ser tratadas.
Bom, pelo menos seu pai lavou a louça... Mas que saco, né? É duro ver um menininho de 12 anos já sabendo que não tem que mexer uma palha na casa, porque vai arranjar uma fêmea pra fazer isso por ele. Até quando?


Éris, é difícil mesmo, mas a gente pode fazer a nossa parte. Fazer pensar na desigualdade da língua (de todas as línguas, que, por serem construções humanas, expressam os mesmos preconceitos que vemos na sociedade – e não só contra mulheres, lógico, mas contra todas as outras minorias tb) já é um começo. Às vezes só mudar uma palavrinha de lugar é questionar a ordem “natural” das coisas.

lola aronovich disse...

Slonzonblog, não entendi o seu exemplo de “favoritar”. Não estou falando de neologismos, mas de como a linguagem é criada normalizando um gênero (o masculino) sobre o outro. Mas quando vc diz uma coisa como essa - “O homem não domina mais nada, o homem e apenas um ser que ficou confuso em meio a uma situação que ele não esperava e para a qual não contribuiu” - vc mostra a sua ignorância. Primeiro que o homem continua dominando tudinho (representação em governos, cargos de chefia, salários mais altos para homens nas mesmas funções, sem falar no ambiente doméstico etc). Vc acha que o homem tá confuso, tadinho? Ele não esperava essa situação? Qual? Essa perda de domínio? E ele não contribuiu em nada pro seu domínio? Então foi deus que quis assim? ETs? O mundo já nasceu com um gênero tendo poder sobre o outro? Aí vc lança outra pérola, “Não acredito, realmente, que as mulheres possam usar a história do mundo como apoio para a defesa de suas teses feministas”. Certo, a história do mundo não é uma história de opressão. É uma história do quê, então? De direitos iguais para todos? Sendo que não tem nem um século que as mulheres podem votar? Não tem nem 200 anos que a escravidão foi abolida? Mulheres continuam sendo estupradas, homossexuais continuam sendo assassinados, negros continuam tendo muito menos acesso ao ensino superior e a um emprego decente – tudo isso apenas por mulheres, gays e negros não serem o padrão dominante. E aí vc pergunta: “E daí?”. Só homens brancos veem homens e mulheres (nessa ordem, né?) apenas como “seres”, brancos e negros como raças sem diferenças, sem privilégios. Vcs nem acreditam em discriminação! O mundo é uma total utopia pra vcs, um mundo cheio de paz e harmonia. Deve ser lindo viver assim. Pena que tenha que ter nascido com um pênis e com uma cor bem clarinha pra poder viver nesse mundinho cor de rosa.

lola aronovich disse...

Mônica, é verdade, alguns termos não têm uma origem de opressão específica, e “history” é uma dessas palavras. No entanto, consigo ver como as feministas americanas enxerguem history como HIS story, já que a narrativa é sempre a do vencedor. Há termos que associam negritude com trevas, e esses termos são muito antigos. Ainda assim, associar, na língua, tudo que é ruim à negritude passa uma mensagem racista, não acha? O único termo que é depreciativo para os brancos é “Deu branco”. Pense quantos termos depreciativos temos com as palavras preto, negro, escuro etc. Dá pra desvencilhar? Se vc fosse negra, vc gostaria que todo o seu vocabulário fosse construído pra te “denegrir”? Denegrir é outra palavrinha-chave! As palavras têm significados. Elas não foram criadas por acaso, nem continuam sendo usadas fora de um contexto.


Anônimo, Fabiana, é sempre assim...

lola aronovich disse...

Leah, eu acho que é direito nosso questionar a língua. Com ou sem “viajadas”. As feministas americanas invocam com “woman”, porque é um “man” com um prefixo. Com um prefixo, parece que a a gente veio da costela de Adão. Por isso elas sugerem “womyn”. Em português não temos esse problema.


Byanna, acho que não coloquei neste texto nenhuma ideia original minha. Tem muita gente pensando e discutindo a linguagem, que é uma estrutura de poder. Eu só fiz um amontoado de muitas coisinhas que já li e ouvi. Tem muita gente que odeia analisar a linguagem (qualquer uma). “São só palavras”, assim como “é só um filme”, “é só uma música”, “é só um comercial”, etc etc. Ou seja, é proibido pensar sobre todas essas coisas tão presentes no nosso dia a dia. A quem interessa essa proibição? A quem não quer mudar o mundo. Eu quero.

m. disse...

lolinha, adorei o texto. eu sempre escrevia "fulana (o)" quando eu era pequena, nas minhas redacoes. sabe? com o artigo masculino dentro do parentese. rs. fui corrigida varias vezes, mas nao entrava na minha cabeca de jeito nenhum pq eu, sendo mulher, tinha que escrever sobre mim mesma dentro de um parentese. ainda bem que n me conformei!

lola aronovich disse...

Anônimo, em nenhum momento eu disse que as noções de masculinidade e femininidade não são ruins para ambos os sexos. Mas que é indiscutível que as línguas humanas favorecem o homem, isso é. E é sobre isso que estou falando aqui. Se vc vê o feminismo como oposto do machismo, vc tem problemas. Não são opostos. Feminismo é um movimento político que visa a igualdade entre os gêneros. Machismo é um discurso, e um comportamento, sem teoria. Pra ser machista não é preciso fazer muito, basta viver na nossa sociedade machista e fazer tudo o que se espera de nós (mulheres e homens). Pra ser feminista é preciso repensar a sociedade e querer mudá-la. Por mais que não gostemos, temos rótulos. Mesmo que a gente não queira, outros vão continuar nos rotulando. E, para as minorias, esses rótulos são mais conhecidos como “identidades”. A identidade é muito importante pra gente. Estudos de gênero só existem por causa do feminismo (alguém teve que olhar pros gêneros e dizer: vamos prestar atenção no outro também?), mas hoje eles incorporam muito mais que o feminino ou o masculino. Mas quem estuda gênero não tem vergonha de se declarar feminista (mesmo os que fazem parte do Queer Studies). Olhar pros gêneros e não ser feminista é beeeem difícil.


Kinna, obrigada por finalmente comentar! Só te levou um ano!
Sobre o trecho que vc não concorda, confesso que estava pensando mais em inglês que em português. Em inglês existe um termo que é super usado, chicks, que é altamente pejorativo pras mulheres. E é muito comum usarem “girls” pra falar de mulheres adultas. Essa é uma velha queixa feminista, porque é raro nos EUA alguém falar “boys” pra homens adultos. Em português não é tão assim, é verdade. Mas eu vejo homens de 30 anos serem chamados de “rapazes” (um termo que não existe em inglês), muito mais que de “meninos”. E claro que é diferente quando uma mulher se refere a suas amigas como “meninas” (muitas vezes eu chamo minhas leitoras de meninas, sem sentir que estou infantilizando alguém), e quando um patrão se refere as suas funcionárias como “meninas”, certo? Depende muito do contexto. Participe sempre, garota!

Kinna disse...

À propósito, gosto muito de citar seus posts e queria te pedir licença para isso (embora eu já tenha citado dois sem autorização -é, estamos mesmo na era da burocratização dos blogs).

Kinna disse...

P.S.: Detalhe que quando usei ela/ele para me referir a deus, a turma em peso caiu na gargalhada. Isso é revelador do quanto é "excêntrico" questionar o gênero de deus.

Somnia Carvalho disse...

Oi Lola!

Eu vivo me pegando fazendo isso quando escrevo meus posts e é maluco o quanto de vezes eu fiquei pensando como poderia evitar o uso do masculino ao me referir genericamente as pessoas. Vou conferir com certeza o documento que vc citou, embora nao seja facil. Vejo numa mesma frase as vezes tanta generalizacao usando o termo masculino que as vezes e quase mais "facil" eu nao tentar acertar.

Chamo minhas leitoras de molerada, ou enfatizo, voces mulheres, voces homens, tento, mas eu falho muito e acabo usando mesmo do preconceito linguistico.

Voce falou do "dona de casa" e eu logo pensei na Suecia. Aqui, como o pai tem direito de dividir a licenca maternidade com a mae, ou de tira-la a maior parte se o casal preferir, e extremamente comum ir aos parquinhos da cidade (ha centenas) e ver os pais cuidando da criancada. Eles cudiam e limpam a casa. Fazem tudo que a mulher pode fazer (nao e regra, mas e a maior parte) e ai quando minha cunhada esteve aqui ela me disse que era muito estranho ver aquilo. Eles pareciam um bando de vagabundos, passenado pelo parquinho com as criancas ao inves de estarem trabalhando.

Voce tem toda razao e eu tenho absoluta certeza que a linguistica foi e continua sendo construida do ponto de vista masculino. Assim como foi a biblia e tanto jeito de contar a historia. Ate mesmo pessoas inteligentes e letradas se acostumaram tanto a sentir e viver uma sociedade totalmente preconceituosa e machista que ver algo que nao seja isso causa mesmo estranhamento...

mas eu devo dizer que aqui seria um exemplo de ouro para muito do que vc diz... os estrangeiros ainda tem dificuldade de se adaptar, muitos outros europeus nao... mas machismo que nem no Brasil dá material para muito livro extremamente machista, embora haja machismo em qualquer lugar do planeta... eu creio...

beijocas

Felipe Hautequestt disse...

Rá, eu faço parte tanto dos seus 30% de leitores do sexo masculino como dos 10% de estudantes de psicologia do sexo masculino. :P

"O homem não domina mais nada, o homem é apenas um ser que ficou confuso em meio a uma situação que ele não esperava e para a qual não contribuiu" - HAHAHA! Essa piada foi boa, slonzonblog! [o anônimo acima se antecipou e pescou a mesma frase que eu, hehe]

Outro exemplo bom do que você está tratando é que a gente sempre fala "lá vem a mulher do fulano", mas dificilmente diz "lá vem o homem da beltrana". Nesse último caso, em vez de "homem", usamos quase sempre "marido". No primeiro caso, porém, em vez de falarmos "esposa", que seria o mais apropriado, falamos "mulher". Engraçado, né?

Lola, concordo com a Mônica quanto a "history". Na verdade, e isso é palpite total, mesmo que o "his-" de "history" estivesse etimologicamente relacionado com o pronome "his" de "dele", não falamos ou pensamos nossa língua segundo raízes etimológicas. Essa conexão não passaria de uma curiosidade para eruditos e estudiosos que nela reparassem. Para todas as outras pessoas, tais coisas são totalmente invisíveis, eu acho. Não sei se também isso teria o poder de reforçar preconceitos em nós...


Beijos!

PS. A Kinna me deu uma idéia: de agora em diante vou escrever "graças à deus" (e afins) com crase no "a" e observar a reação das pessoas. ;)

Mônica disse...

Lola, não discordo do seu ponto de vista quanto ao masculino/feminino na maioria dos casos, e isso se estende também a outras situações, como no caso de branco e preto, novo e velho, esquerdo/canhoto e direito/destro, etc. Mas continuo achando que ver preconceito em uma palavra que tem origem etimológica numa língua totalmente diversa é forçar o terceiro amarelo... :-)

Andréia Freire disse...

Não tem nenhum guia desse em português? ;~

Andréia Freire disse...

E sempre tem que ter uma pérola, né? Como a pessoa (taí uma palavra que eu sempre utilizo pra não cair nos "ele", "o", "um"...) que falou por aí que o "homem" não domina nada, hahaha. A única coisa que a HUMANIDADE (custa trocar esse injusto "o homem" por "a humanidade"?) não domina é a natureza, o que pode acontecer se o mundo não colocar em prática o desenvolvimento sustentável e doenças que AINDA não se pode controlar. De resto TUDO é controlado e dominado pelos humanos. E infelizmente boa parte dos que dominam são homens, né? Ué, mas o que que mulher quer fazendo na política e em cargos de chefia? O lugar dela é em casa quietinha, caladinha, cuidando do maridinho (de preferência um bem preguiçoso que não tem nem coragem de servir o próprio prato, afinal a função da mulher é servir ao homem, lembram? Meu cunhado é um, no restaurante, e em casa também, fica parado esperando a namorada o servir. Quer arroz? Quer isso? Quer aquilo? Tá bom? Quer mais? Quer que eu lamba seu saco? Só pega no garfo quando o prato termina de ser preparado por ela) da prole e se embelezando, não é mesmo?

Andréia Freire disse...

Gostei dessa definição, hahaha, é basicamente o que um machista de carteirinha pensa, em geral, e tal. Só faltou o item "casar virgem".

Guerreiro Antonio disse...

Lolinha, você tratou de um ponto que vez por outra comento em sala de aula com meus alunos e que me chama muuuita atenção. É incrível como muitas pessoas não param pra pensar no sexismo implícito na língua. E como usamos diariamente e pra quase tudo, acabamos nós mesmas não percebendo certos nuances...
Sobre o post anterior do concurso de blogueiras... até quando devemos indicar um post? Tem que ser de nossa autoria ou pode ser de outra blogueira??
Abs,
Clarissa

=draupadi= disse...

bacana demais =)
só para aumentar a lista: "minha mulher" = minha esposa, ou seja, uso super comum [já que essa relação, numa sociedade patriarcal, é tida como relação de posse].
"meu homem" = expressão quase jocosa [ao 'olhar' de muitos] que expõe a mulher que a usa como uma depravada, praticamente.

já recebeu um spam que fala sobre esse sexismo a respeito das expressões usadas pra designar que uma mulher é sempre vadia?

aqui: http://brasil-web.de/forum/12230-lingua-portuguesa-e-machista.html

Adília disse...

A língua que usamos serve para comunicar, para representar a realidade e também para a construir e por tudo isto é que a linguagem sexista, que herdamos e mantemos, contribui para reforçar muita injustiça e preconceito e manter o status quo.
Já agora não resisto a apontar um uso extremamente impróprio da linguagem, que um comentador anónimo aqui fez, quando opõe o machismo ao sexismo. Claro que estas duas palavras até pela terminação convidam ao equívoco e à ideia de um paralelismo ao contrário. Mas elas não se podem colocar em paralelo :é que o machismo defende de facto, se não de direito, a inferiorização das mulheres, ao passo que o feminismo defende a igualdade entre homens e mulheres enquanto pessoas que devem gozar dos mesmos direitos. Os machistas são contra as mulheres no sentido de as considerarem inferiores, as feministas não são contra os homens, não os consideram inferiores e apenas pretendem partilhar os mesmos direitos.

Resumindo o machismo desvaloriza certas pessoas, o feminismo defende o igual valor de todas as pessoas. A diferença como se pode ver é substancial, portanto está na hora de não fazer confusões que só ajudam o machismo, não ajudam o feminismo, porque fazem parecer que afinal as feministas são machistas ao contrário, e isso é totalmente falso.

L. Archilla disse...

eu nem discuto mais com quem fala que feminismo é machismo ao contrário. sério. levanto e vou embora.

L. M. de Souza disse...

putz quanta bobagem. desculpe, mas isso aí é lugar comum pacas. o preconceito e a discriminação está nas pessoas, a língua não tem nada a ver com isso. a maldade está nos olhos de quem ve, não é o que diz o ditado? linguisticamente isso não faz sentido algum.

Ivana disse...

Loléte, isso é que eu chamo de "desvendar" um assunto para leigos. E eu que não me apercebia destas diferenças tão óbvias...
Beijo.

lola aronovich disse...

M, que legal que vc se manteve no seu estilo de escrever! Até que seria uma solução se as mulheres escrevessem favorecendo os pronomes e adjetivos femininos, e os homens, os masculinos...


Kinna, claro que pode citar meus posts. É só colocar o link pro meu blog. Eu até agradeço. Peço apenas que não se coloque o texto inteiro num outro blog.
Ah é, o pessoal riu quando vc questionou o sexo de deus? Típico! Mas a gente leva super a sério quando dizem que ele é ele, pai, senhor, barbas brancas, e que fez o homem a sua semelhança, e a mulher como um apêndice do homem...

lola aronovich disse...

Somnia, tem que fazer acrobacia demais pra não favorecer um só gênero. Muitas vezes é impossível. Mas o importante é ter em mente que a língua não tem nada de neutra. Sobre a Suécia, deve ser muito diferente mesmo. Isso de licença-paternidade ser tão longa quanto a lic-maternidade me parece maravilhoso. Mas tb é bom porque a sociedade aí tá muito mais avançada que nos outros países. O homem entende que cuidar da casa e dos filhos não é uma obrigação apenas da mulher, mas do casal. Aí o homem que não entende isso é que é exceção, enquanto nos outros países exceção é o homem que participa da vida doméstica. Abração, querida! Algum dia quero te visitar aí.


Felipe, bom, isso dos 10% de estudantes de psicologia serem homens é meio chutado, baseado nos cursos de Psicologia que eu observei. Não tenho uma estatística. Mas acho que tá meio como os cursos de Letras, sabe? Ou até pior. Na classe de uma amiga minha, de 40 alunas, não tinha nenhum homem! Como é no seu? Mais que 10%?
É, isso de “minha mulher” e “meu homem” eu já comentei em algum post, mas não lembro onde. Nós mulheres só falamos “meu homem” em tom jocoso, mas prum homem falar “minha mulher” é mais comum que “minha esposa”. Pelo menos em português!
Ah, não sei como o pessoal não cai matando porque tanta gente deu pra escrever deus com minúscula! Acho que no jornal onde publico a editoria “corrige”...

lola aronovich disse...

Mônica, zuzo bem, até concordo. Só acho interessante questionar a língua que usamos, tanto faz se a origem etimológico da palavra...


Andréia, eu só encontrei esse guia da Unesco em inglês, francês e espanhol. Pena, né? E já tem 10 anos!
O leitor que disse que homem não domina nada estava falando do homem mesmo, não do ser humano que envolve os dois sexos, pelo que entendi. Será que entendi errado? É que é tão comum ouvir essa falácia (isso vem da mesma raiz de “falo”?) que o pobre homem hétero branco não tem mais poder algum... Ai, já conheci tantos casais assim como o que vc descreve, do carinha não se levantar nem pra pegar um copo d'água na geladeira! Eu fico com vontade de chacoalhar a mulher e o homem!

lola aronovich disse...

Guerreira Clarissa, é importante pra gente, como professoras, chamar a atenção dos alunos pra discriminação na língua. Até pra quem não é professora de línguas...
Espero que vc participe do concurso de blogueiras! Pode indicar post de outra blogueira, lógico, ou um post seu tb. Ou ambos! Até o final da semana, por favor.


Draupadi, ah, isso era spam? Eu vi nuns 3 blogs diferentes, e uma leitora, a Barbara, colocou num dos posts tb. Achei muito interessante e vou usar parte disso no artigo da semana que vem.

lola aronovich disse...

Adília, obrigada por explicar como machismo e feminismo não são opostos. Explicou muito melhor do que eu! É isso sim: machismo é contra a igualdade entre os sexos. Quer manter uma situação de opressão. Feminismo quer a igualdade entre os sexos. Aquele mito de que feminista é tudo lésbica mal-comida que odeia homem é só isso, um mito. E minha frase ficou estranha. Como se 1) lésbica fosse mal-comida – acho que elas são mais satisfeitas no sexo que muita hétero por aí, e 2) como se lésbica odiasse homens... Lésbica só não gosta de homem sexualmente, o que não quer dizer que odeia os homens. Eu não gosto de mulheres sexualmente, e nem por isso as odeio, né?


Lauren, é uma tremenda de uma ignorância, né? Mas é o que eu vejo direto em blogs burrinhos...

lola aronovich disse...

LM, vc tem coragem de falar seriamente que o preconceito está nas pessoas mas não na língua? Ou seja, que dá pra desvencilhar pessoas das línguas? Quem criou a língua? Deus? ETs? Não foram pessoas com um bando de preconceitos? Estou esperando vc negar alguma coisa que eu escrevi (diga que a língua não favorece o gênero masculino, dê exemplos!), ao invés de dizer que falar nisso é uma bobagem.


Ivana, putz, e eu acho essa discussão tão clichê... É muito óbvio mesmo essa discriminação na língua. Eu penso nisso desde que me conheço por gente. Mas foi depois de ter um blog, ver que a maior parte das pessoas que me leem é mulher, referir-me a elas como “leitoras”, e não leitores (só porque as mulheres são a maioria aqui), e ver que muitos leitores homens ficam chateados e se sentem excluídos, que notei como nós, mulheres, lidamos com isso diariamente e raramente nos sentimos excluídas. Estamos condicionadas a aceitar que, ao entrar numa sala com 100 mulheres e um homens, vamos ouvir algo como “TodOS vocês estão tão simpáticOS hoje”, ou algo do gênero. E a gente nem pisca.

Experiência Diluída disse...

Adorei o texto Lolinha! É interesssante ver a importância da liguagem nesse contexto machista. Acredito que o próximo post sobre xingamentos vai ser digno de aplausos!
Beijão!

=draupadi= disse...

lola, sorry por te confundir.. Spam no sentido de corrente, um e-mail que roda muito, apenas isso. =)

"Mariana" disse...

Lola, te admiro muito, e gosto muito do blog. por isso peço que veja esse post no blog da Denise, e se puder, dê seu pitaco.

Gratíssima

http://sindromedeestocolmo.com/archives/2009/09/meu_noivo_e_viciado_em_pornografia_a_mariana_pede_ajuda_o_que_vcs_podem_dizer_a_ela.html/

Leonardo disse...

Oi Lola, eu vou ser obrigado a discordar contigo sobre o português ser machista porque o masculino é o gênero não marcado. Mas como tem alguém que já explicou isso de forma muito melhor do que minha capacidade permite, vou copiar e colar aqui um texto que li uma vez e saiu em alguma revista:

PRECONCEITO CONTRA A LÍNGUA
JOSÉ AUGUSTO CARVALHO
(escritor e professor/doutor em língua portuguesa)

A revista Mátria, publicação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, no seu número de 8 de março de 2005, nas páginas 38-39, traz um artigo intitulado “Feminismo e o preconceito na língua portuguesa”, de autoria da profa. Raquel Felau Guisoni, que merece algumas reflexões por causa da afirmação de que a língua portuguesa é machista. A autora baseia-se no fato de que, havendo numa sala um maior número de mulheres do que de homens, a concordância nominal se faz no masculino plural, como se as mulheres fossem deixadas em segundo plano pela gramática. A autora conclui sua análise aconselhando os profissionais da lingüística a estudar e a modificar as regras gramaticais “machistas”.
Em primeiro lugar, a autora parece confundir gênero com sexo. O sexo é uma distinção semântica, biológica. O gênero é uma distinção gramatical, lingüística, e, portanto, relativamente arbitrária. Em português, se eu disser que Vera Fischer é um mulherão, estarei usando o masculino para fazer um elogio à exuberante feminilidade da atriz. Em português, normalmente, o aumentativo em –ão é do gênero masculino, mesmo que a palavra-base seja feminina: casa – casarão, panela – panelão (o sentido da palavra-base se alterou), flor – florão (o sentido da palavra-base se alterou), voz – vozeirão, etc. Em alemão, uma regra gramatical ensina que os diminutivos são neutros. Ora, a palavra “Fräulein” significa “senhorita”, mas, como é um diminutivo, é do gênero neutro. Não se pode dizer que os alemães desprezam as moças solteiras...
Em português, o plural é marcado com um afixo –s (-es). Por isso eu sei que a palavra “pratos” está no plural. Mas não existe marca para o singular. Sei que “prato” é singular porque não tem o –s de plural. O mesmo fenômeno ocorre com o gênero. Sei que “deusa” é feminino porque tem a marca de feminino, isto é, o afixo –a. Mas eu sei que “Deus” é masculino porque não tem a marca de feminino, isto é, o masculino em português é um gênero não-marcado assim como o singular é um número não-marcado.
Palavras como “pente”, “ouro” e “mantra”, por exemplo, são arbitrariamente masculinas.Repare-se que “linotipo”, por exemplo, é feminino, embora termine em –o, e que “poema” é masculino, embora termine em –a. As terminações –e, –o –a, chamadas vogais temáticas, são apenas classificatórias. Assim “samba” é masculino (em francês, é “la samba”, feminino), mas “casa” é feminino, porque o –a aí não designa gênero. O –o de “menino” também não designa gênero; é apenas vogal temática. O masculino NÃO é marcado em português. “Mar”, cuja vogal temática só aparece no plural (marEs), era feminino em português antigo, como atestam expressões atuais como “preamar”, “baixa-mar” (em francês, “mer”, mar, é feminino).
Assim, não é por machismo que se faz a concordância no masculino quando há muitas mulheres numa sala e apenas poucos homens, antes, pelo contrário, por deferência: como o masculino é gênero não-marcado, usa-se o masculino para não ofender os brios de ninguém. Por isso, pronomes como isso, aquilo, quem, tudo, nada etc. exigem a concordância no masculino: Nada (tudo) é “perfeito”, isso é “bom”, quem é “sério”, etc.
Em segundo lugar, o que os lingüistas e gramáticos deveriam fazer, para evitar a idéia de machismo da língua, não é mudar regras, porque as regras estão interiorizadas em cada falante, e ninguém é dono da língua. O que eles deveriam fazer é mudar a terminologia: em lugar de gênero masculino e feminino, deveríamos dizer gênero não-marcado e gênero marcado.
Afinal, o preconceito não está na língua, mas no falante.

Leonardo disse...

Aqui tem um link para uma explicação similar: http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/05/07/ela-foi-o-segundo-juiz/

Não sei se tu vais concordar, ou discordar, mas seria interessante saber o que tu acha dessas explicações.

L. M. de Souza disse...

exemplos: eu sou cientista, linguista, e instituições importantes a igreja, a família, a constituição, a universidade, a cidade, a vida, a terra, a lua... veja, como nós homens somos bonzinhos (ironia), nessa conspiração imaginária, há espaço para que coisas importantes tenham 'sexo', e sejam mulheres; "o conhecimento' e "a sabedoria" deveriam morar juntos (casar não, prq tb acho que isso é só um ritual pra fotógrafos ganharem dinheiro). o que faz um homem machista ou não é a educação que ele recebe, é ele ajudar a lavar uma louça, ser educado com as mulheres, não achar que as mulheres vieram ao mundo para servi-lo. Claro, vc tem razão em certos pontos. não há versao feminina de certas profissoes porque no latim não havia necessidade de ter profissoes com feminino prq na idade media mulheres nao tinham profissao (pelo menos nao oficialmente), a lingua não é imune da cultura, ninguem nega isso. mas o fato do ingles não ter concordancia de genero entre o artigo o substantivo (e o adjunto adnominal opcional) nao faz deles um povo mais ou menos machista. de novo, o machismo está na atitude, evidentemente, a escolha que fizemos de alguma palavras não é isenta de opçoes, mas me recuso a acreditar que mando uma criança aprendendo o portugues aprende que as palavras no masculino servem para designar todo mundo (homens e mulheres) ele(a) esteja aprendendo a ser machista ou a menina esteja aprendendo que seu lugar seja submissa ao homem. tá meio confuso isso aqui, uma hora dessa eu escrevo um ensaio e coloco no meu blogue. desculpe se fui meio grosso no primeiro comentario, nao foi essa a intenção.

lola aronovich disse...

Digno de aplausos, Inali? Duvido! Na realidade o texto não é só sobre xingamentos. É sobre um monte de coisa. Acho que nem vai caber num só post.


Ah, obrigada por esclarecer, Drau!

lola aronovich disse...

Mariana, deixei um comentário lá na Denise. Eu li o post ontem, e achei muito interessante, mas não sabia (nem sei) bem o que dizer. O meu pitaco é igual ao de todo mundo...


Leonardo, obrigada pelo artigo. É claro que não concordo com ele. Ah, quer dizer que o jeito de se eliminar o machismo na língua é mudar a terminologia? Simples: é só chamar o gênero masulino de gênero não-marcado! Pronto! E tudo é resolvido num piscar de olhos. Santa ingenuidade, Batman! Sem falar que é só coincidência que a norma, o padrão, seja o gênero não-marcado, que é igualzinho ao gênero masculino! E quem parece confundir gênero com sexo é o autor! Ele não entendeu que provavelmente a autora do artigo que ele critica estava falando de gênero na teoria feminista (Gender Studies), não na linguística. Não é a mesma coisa! Olha só essa pérola do cara: “Como o masculino é gênero não-marcado, usa-se o masculino para não ofender os brios de ninguém”. Pois é, né, porque imagina se a gente usasse o feminino como gênero não-marcado! Certamente iria ofender os brios de alguém! (tipo, dos homens). Mas mulher não tem brio, certo? A gente não deveria se ofender por sentir-se excluída na nossa própria língua! E não é só a língua portuguesa que é machista, Leonardo: são todas. Bom, todas que eu conheço - português, inglês, um pouco de espanhol e bem pouquinho de francês. Mas a Bruna mandou um vídeo que mostra como na língua árabe a preferência também é pelo gênero masculino, sempre (continuo com a resposta pro LM). Acho que teríamos que viver numa sociedade não-patriarcal pra encontrarmos uma língua que não fosse moldada no homem.

lola aronovich disse...

LM, não estamos falando de substantivos. A conversa não é por aí. Eu não tô nem aí que “mesa” ou “igreja” sejam substantivos femininos no português. Estou falando de pronomes e adjetivos, e de como, quando não há especificação, a norma é o masculino. Sempre. Em todas as línguas que conheço. Inglês eu conheço bem, e ela não é uma língua muito menos machista que as latinas apenas por não ter gênero. No inglês ainda há muita gente que fala “doctor” como se fosse apenas referente a médicos homens. Pra mulheres, inventam “lady doctor”. E esse é apenas um exemplo. Qualquer pessoa que já escreveu dez linhas em inglês sabe onde está o problema. É mais no uso de HE quando o sujeito não é determinado. Hoje é considerado correto escrever S/HE ao invés de apenas HE. Veja a apostila da Unesco. Ela dá vários exemplos de problemas e como evitá-los (nem sempre dá). E vc não acha que a ordem das palavras, que coloca homem sempre na frente de mulher, seja problemática? Não indica hierarquia não? Não passa uma noção de hierarquia pras crianças? É como eu disse, não será apenas a língua que ensinará às crianças a sua posição de poder no mundo. Mas essa dominação se dá também pela língua. Achar que a língua é neutra é como dizer que a bíblia não é preconceituosa porque é a palavra de deus, e não de homens que a escreveram de acordo com os seus valores de 2 mil anos atrás.

leila disse...

Lola, eu sei q é um blog feminista e sei o q vc quis dizer, porem eu faço psicologia e meu tenho vááários amigos q sao descriminados por fazerem psicologia e por ser considerado um curso de mulherzinha, ou espera marido, é foda pq além da minha profissao ser criminalizada (pq consideram q psicologia não é uma ciencia e q qm cuida mesmo da psique humana é o neuro ou psiquiatra)

ainda tenho amigos q passam por situações incomodas de serem chamados de bixas, como se fosse um pecado um homem fazer psicologia

Leonardo disse...

Bom, meu objetivo em deixar um comentário não foi para dizer que estás errada, foi só para deixar uma opinião divergente. Eu não tenho a mesma interpretação que tu tens, então vamos concordar em discordar. :-)

Minha opinião pessoal é que a língua pode ser machista sim, afinal é um reflexo da cultura de um povo (e a maioria das culturas é machista, umas mais do que as outras), embora a língua sendo algo que muda lentamente não vai refletir necessariamente o pensamento da geração atual.

De qualquer forma, eu me considero um cara que tem a cabeça aberta (pelo menos eu acho) mas sinceramente neste caso eu acho que se está procurando pêlo em ovo, se é que me permite dizer. Explico: acho que existem tantos outros problemas de sexismo e opressão velada contra as mulheres que ficar gastando tempo argumentando sobre a língua é anti-produtivo. Pros desavisados isso passa uma idéia de radicalismo, o que pode fazer com que sejam menos receptivos a outras idéias que sejam realmente importantes (ou mais importantes).

Até porque não há solução fácil; mudar a língua não se faz por decreto, e escrever de uma forma "não-machista" não é fácil e acho o texto resultante muito truncado. Acho que se focarmos em mudar a cultura, a língua vai refletir naturalmente essa mudança.

Mas enfim, já me estendi demais. Parabéns pelo blog, descobri agora e achei muito interessante. São mulheres como vocês que vão mudando o mundo, um pouquinho a cada geração. Boa sorte!

lola aronovich disse...

Leila, isso é péssimo, né? Eu fiz Pedagogia e Letras, dois cursos que têm muito mais homens que mulheres (mas depende, não sempre. No Letras a distância, era equilibrado. E no meu concurso na UFC, para professor de Literatura, havia mais homens que mulheres concorrendo!). E o preconceito contra os poucos homens na área é muito grande. É como se todo homem que fizesse curso com maioria de mulheres fosse automaticamente gay (quer dizer, e daí se fosse? Algum problema? Mas vários carinhas não são). Mulher que faz cursos “masculinos” também é discriminada. É absurdo: como se estudar ou trabalhar numa área nos fizesse mais ou menos femininas, mais ou menos masculinos. Homem só deve fazer engenharia, medicina e direito! E mulher só deve ser professorinha primária ou se dedicar a algo fútil como a mente das pessoas (estou sendo irônica, ok? Eu adoro psicologia! Só não cursei porque vi a grade curricular e encontrei umas 3 disciplinas hediondas, Anatomia, Química, e mais alguma que eu não passaria em cem anos). Essa é uma noção tão anos 50! As feministas lutam contra essa discriminação por gênero. Queremos abolir esses pré-conceitos, esses estereótipos ridículos que mulher tem que ser assim, homem tem que ser assado. Deixa o carinha cursar Psicologia em paz! Deixa a moça ser engenheira elétrica! Depois a gente achava terrível quando lia que, na USSR, o governo muitas vezes determinava a profissão de cada um. Até parece que, com todos esses estereótipos que nos rodeiam, a gente (livre, capitalista) tem muita escolha!

lola aronovich disse...

Leonardo, concordamos que a língua é um reflexo da cultura em que vivemos. Aliás, mais que um reflexo, é uma construção. Esse é um ponto importante: reconhecer que não falamos a língua que falamos por acaso, assim como não moramos nas casas/apês que moramos por acaso. Moradias e linguagens não são coisas naturais (aliás, pouquíssimas coisas são). Só fiquei sabendo faz uns anos que em Lima, Peru, boa parte das casas não têm teto! Não tem porque lá não chove, então não é necessário. Assim como os países de língua inglesa não tem uma palavra própria para golpe de estado. Eles usam uma palavra francesa, coup d'état. A gente precisa de palavras para descrever o que temos. E a língua muda rápido, muda todo dia! Na academia, hoje em dia, boa parte das teses é escrita com uma linguagem mais “democrática”, menos excludente com o gênero feminino. Isso em praticamente todas as áreas. A Unesco não é exatamente um órgão feminista, é? Mas a instituição viu a necessidade de fazer um manual para tornar as línguas menos machistas. Faz dez anos que ela (e outras instituições) procuraram pelo em ovo! Ninguém está “gastando tempo”, Leonardo. Esse não é um argumento muito bom, se me permite. É tipo abrir um abrigo animal e todo mundo reclamar que a gente está gastando tempo com os bichinhos, enquanto tanta criança passa fome. Por que uma ação anula a outra? Por que essas críticas quase sempre vem de gente que não mexe uma palha pelas crianças e não gosta de bichos?

L. M. de Souza disse...

de novo, não concordo com sua argumentação. quem usa a língua são as pessoas. mudar a língua não vai mudar a atitude, como vc bem notou ao comentar o artigo acima. mudar de genero masc pra genero nao marcado nao muda nada prq a atitude de um machista vai continuar a mesma. se vc não gosta de religioes o fato de deus ser homem nao faria diferença. é aquela velha dica: se a tua religiao nao gosta do teu comportamento, mude pra uma que o aceite como vc é (discurso é facil claro, mas acho que é só mais uma estratégia dos homossexuais para conseguirem aceitação social, mas esse não é o problema). de novo, acho q vc nao entendeu a argumentaçao do homem do artigo acima. a norma nao é o masc. a norma é o nao-marcado, que por ventura é chamamos de masc. o fato de expressoes como 'marido e mulher' o homem vir na frente é simples, é assim q as coisas funcionam na sociedade, mudar a lingua nao vai mudar a sociedade. pode me achar machista, mas 99% das mulheres acham que elas vieram a esse mundo para ter um marido, uma casa e se reproduzirem. 0.5% é feminista que discorda disso pelo simples fato que isso é a norma e representar tradiçao, e outras coisas mais. (duvido que 90% das lesbicas nao gostariam de casar na igreja ou no civil pelo menos). esse manual da unesco é tao furado como aquele da linguagem politicamente correta contra preconceitos contra etnias. o que passa noçao de hierarquia pras crianças é elas verem seu pai levantar da mesa e ir ver tv enquanto a mae tira a mesa e limpa a casa sozinha. a categoria (substantivo, adjetivo) nao importa, o que importa é o que as palavras significam. ofensas contra homens tb sao na maioria sexuais: cuzão, pau-no-cu, viado, filho da puta, escroto, vagabundo (tao ofensivo pro homem qto vagabunda é pra mulher).

L. M. de Souza disse...

parte 2: seguir a normas morais da religiao é escolha pessoal. claro, todo mundo fica chocado qdo digo que nao acredito em deus e q nao preciso ter religiao pra ter um codigo de conduta moral, o problema é que ainda a nossa educação nao forma seres pensantes. queria ver o escandalo se algum professor começasse a discutir com os alunos textos como "prq nao sou cristao" do Russell ou "crepusculo dos idolos" de Nietszche (acho que jovens de 17 anos teriam consciencia pra discutir isso, ja que com 18 eles vao entrar na faculdade e vao ler isso). só que ninguém dá bola pra isso e as mulheres mesmo sao as maiores responsaveis por isso tudo, o machismo, na medida em que se submetem ao status quo. sim, nao discordo que ideologia seja materializada na lingua (é o que dizia bakhtin, por exemplo), em termos de lingua nao há neutralidade ideologica, mesmo a neutralidade é uma posição ideológica. ah, e o "ladies and gentleman"? Senhoras e senhores? mulheres e crianças primeiro? já que a idéia é todo mundo igual vamos sortear quem vai na frente. as mulheres tem um papel fundamental na religiao, nao sou leitor da biblia, mas madalena é o simbolo do perdao, maria ter concebido virgem talvez esteja mais para simbolizar o poder de deus, do que propriamente colocar o sexo como uma coisa suja, afinal até deus precisou de uma mulher para ter um filho. ele nao criou adao do barro? prq nao criou um jesus do barro tb? o cristianismo é politeista e acho que dá pra dividir meio a meio o nr de santos e santas (temos uma santa como padroeira, temos uma santa brasileira, madre paulina). alem disso nao dá pra interpretar a biblia de acordo com a cultura e valores atuais ela foi escrita em um tempo diferente, com valores diferentes. eu até rio da minha namorada que é crista fervorosa, vai na missa toda semana e eu conheço a biblia melhor do que ela. enfim, to mudando o assunto. além disso, as pessoas nao criam a língua, a gente aprende ela inconscientemente. qdo crianças somos inseridos num mundo de linguagem (e o que isso acarreta) logo, se essa lingua vem com historia, cultura, ideologia é inevitavel que as crianças aprendam isso. aí é que está o meu ponto, mudar as expressoes da língua não mudarão o comportamento de ninguém (não dá pra mudar a sintaxe por decreto), posso usar uma expressao nova qualquer que for declarada obrigatoria em determinado contexto, mas se eu for machista ou preconceituoso vou continuar a ser. lingua é algo natural sim, preconceito a gente aprende.

L. M. de Souza disse...

http://verbeat.org/blogs/manualdominotauro/assets_c/2009/02/10tiras-4.html
o problema nao está no comunismo, no feminismo, ou outro ismo qualquer, o problema é o mal uso dessas expressoes, o mal uso disso no dia a dia. marx e engels teriam vergonha do que fizeram e disseram em nome deles.

Thiago Beleza disse...

è isso aí.. vamos ensinar nas aulas de história que as mulheres chegaram a lua, o homem não destrói a terra, o homem não é defeituoso... ao invés de falar uqe vou ao médico vou dizer que vu à médica, à psicóloga... e assim, lutamos pelo fim do sexismo.. substituindo 6 por meia dúzia.. sua idéia é válida em mostrar que a sociedade é machista e a linguagem é uma amostra disso (dentre tantas outras) mas qual a proposta? Vamos rebaixar os homens ao invés da mulheres? Não soa muito justo...dessa forma, o seu feminismo, ao invés de uma luta por uma sociedade livre de gêneros, sugere uma substituição do poder...

Leonardo disse...

Lola, tem razão quando diz que meu argumento não foi lá muito convincente. É que me expressei mal. O que quis dizer é que se eu fosse uma feminista engajada (estou assumindo que tu sejas) em mudar o status quo, não concentraria meu esforço nesta questão da língua mas sim em outras coisas que *eu* considero mais importantes. É apenas uma discordância de prioridade. Como nasci homem, branco, de classe média, então é possível também que o fato de pertencer ao "grupo dominante" e não ser vítima de preconceitos me deixa insensível ao desconforto que o machismo inerente à língua causa em pessoas como você.

Tem razão de novo quando diz que geralmente quem reclama são aqueles que não mexem uma palha para mudar. Concordo contigo. Neste caso pode até me incluir neste saco, já que eu sou apenas um mero simpatizante não engajado. :-) Minha participação limita-se a policiar o meu comportamento, como disse antes acho que tenho uma cabeça aberta mas sei que ainda tenho um longo caminho a trilhar. O fato de morar na Suécia ajuda, pois não faltam bons exemplos por aqui.

Só quis chamar atenção de que às vezes não se pode parecer radical demais pra não alienar sua audiência. Eu sou um "homem médio", por assim dizer, e mesmo simpatizante à causa quando ouço que temos que mudar a língua porque ela é machista isso parece um pouco radical pra mim (de novo, pode ser porque sou homem e isso não me afeta da mesma forma) e me faz fechar um pouco os ouvidos para as demais coisas que tu tens a dizer. (Uma analogia: sou esquerdista, mas quando alguém começa o discurso com "abaixo o FMI" inevitavelmente perde um pouco a credibilidade comigo.) Provavelmente não vai concordar comigo, mas é normal. Entendo e respeito seu ponto de vista.

Mais uma vez, legal o blog. De vez em quando vou passar e deixar um comentário, ok? Abraço.

Lila disse...

Acho "lindo" que os homens queiram pautar até o que e o que não é prioridade no feminismo, nas reivindicaçãos femininas.
Outro dia conversei com um cara que queria dizer qual devia ser os direitos pelos quais as mães deveriam lutar, sendo que ele não é mulher e nunca vai ser mãe!
Olha, leiam os textos da Lola com a mente aberta, de alma desarmada,tentem se por no nosso lugar.
Um pouco de empatia não faz mal a ninguém.

Adília disse...

Em relação ao carácter sexista da linguagem e tendo em atençãp a intervenção do Leonardo queria chamar a atenção para o seguinte:
As mulheres são ignoradas pela linguagem, isto é, não lhes é dada visibilidade, sobretudo por causa da utilização do genérico masculino que afinal é um pseudo-genérico. Diz-se, os trabalhadores, os estudantes, o porta-voz, os homens de boa vontade, etc. etc. partindo-se do princípio que o genérico masculino: homens é neutro e engloba portanto também as mulheres, como se estivéssemos perante a utilização daquilo que se designa por um epiceno, isto é, um substantivo de um só género, feminino ou masculino, que se aplica a indivíduos de ambos os sexos, como por exemplo, vítima, testemunha, pessoa, personagem. Mas «homem» não se pode considerar um epiceno porque o seu sentido é ambíguo, umas vezes, na sua aplicação, estão incluídos homens e mulheres, outras, apenas os homens. Aliás foi precisamente esta ambiguidade que permitiu aos pensadores esclarecidos do século XVIII reivindicarem direitos universais (para todos os homens) e ignorarem tranquilamente as mulheres que ficaram excluídas desses direitos. Podia focar outros aspectos que ilustram o sexismo da linguagem, mas para já penso que este é por demais importante para ser ignorado.
Por outro lado, de facto há coisas bem piores que o sexismo da linguagem, mas não é bom esquecer que este refoça o sexismo em geral e por isso também não pode ser negligenciado.

Anônimo disse...

Insisto: o termo é sexismo.
Se "as pessoas não sabem o que é" (quanta condescendência...), é mais um motivo para utilizar o termo correto. É um deboche a autora apontar o dedo para os outros e fazer a mesma coisa.

Sacha disse...

Muito bom o post. Estudo enfermagem, e em boa parte dos livros vem escrito "enfermeira". Um colega de classe ficava incomodado com isso, até ouvir a opnião de nosso professor, que defendia o uso da palavra no feminino, já que a maior parte do pessoal de enfermagem é composta por mulheres ... muda, tudo muda, devagar, mais muda.

Ana Amorim disse...

Meio banal meu comentário, mas depois de ler a postagem, muito bacana, mais precisamente a parte sobre a ordem dos termos (homens e mulheres, pai e mãe...), lembrei de uma música que adoro que canta "we're women and men of action, let's stop clapping let's start doing", às vezes me pergunto se foi feita assim pela musicalidade, por pura vontade ou para lutar contra "a ordem vigente".

hannakanawari disse...

Até estava concordando, essa história do "history" é demais. Por favor! Pegar uma palavra e desmontar pelo som é paranóia sim. Especialmente quando a palavra tem raízes em outra língua.

Claro, de fato existe muito machismo na nossa língua. Você deu ótimos exemplos. Mas poxa, é esse tipo de coisa que faz parecer palhaçada.


Mas eu sou a favor do neutro, quando é plural.

Anônimo disse...

Recomendo fortemente a leitura deste artigo para esclarecer algumas questões linguísticas sobre o tal "machismo":
http://wp.clicrbs.com.br/sualingua/2009/09/21/sexismo-na-linguagem/

lola aronovich disse...

Quem coloca machismo entre aspas já mostra que tem problemas... Tanto é possível e desejável diminuir o sexismo da língua que faz anos que a Unesco lançou guias de como se fazer isso. Aliás, como está no meu post. Hoje mesmo saiu uma matéria um tanto tendenciosa de como a Suécia quer adotar um terceiro pronome.

Leonardo Brondani Schenkel disse...

Pra falar a verdade Lola, vi esta notícia aqui ontem no jornal (moro na Suécia) e me pareceu muito mais crítica do que a da Carta Capital. Moro há 6 anos aqui e nunca ouvi, nem uma única vez, a utilização de tal pronome por ninguém. No curso de sueco, ministrado por professoras mulheres inclusive, citaram o tal pronome (e as gramáticas que usei também não o tem). Minha impressão é que nem na Suécia está se levando realmente a sério este tal pronome (tanto que foi introduzido de forma prescritiva há algumas décadas e nunca usado, só entrou em pauta novamente porque um livro infantil que o usa foi publicado recentemente).

Leonardo Brondani Schenkel disse...

Opa, faltou um "não" no meu comentário anterior.

De qualquer forma não estou discutindo o mérito da questão, só estou dizendo que aqui o pronome já foi artificialmente introduzido há algumas décadas mas mesmo assim parece que não "colou" (eu nem sabia que existia até lançarem o tal livro infantil).