Dispensa explicações, de acordo com Sérgio Moro.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
PRIMEIRA ENTREVISTA QUE DEI SOBRE A CONDENAÇÃO DE MARCELO
Reproduzo aqui a entrevista que dei para a Vice na quarta sobre a condenação do mascu Marcelo a 41 anos de prisão. A entrevista saiu um dia antes de eu escrever o artigo pra Intercept Brasil (que eu coloquei aqui no bloguinho, cheio de links e imagens).
Quem fez as perguntas foi a jornalista Gislene Ramos. A Vice, assim como a Ponte e a Fórum, já publicou diversos artigos sobre mascus.
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| Eu e Silvinho em Buenos Aires na semana passada |
VICE: Quais sentimentos passaram por você após a divulgação da pena de 41 anos a Marcelo?
Lola Aronovich: Como estou de férias, não estou acompanhando direito as notícias. Ontem à tarde [penúltima terça] alguém me perguntou no Twitter se a decisão do STF não soltaria o Marcelo, que foi preso pela Operação Bravata em 10 de maio, e já teve quatro habeas corpus negados. Fiquei preocupada e comentei com meu marido que, se Marcelo fosse solto, a primeira coisa que ele faria seria fugir do país, para só depois voltar a fazer tudo que ele sempre fez na vida, que é atacar, ameaçar, difamar pessoas.
Fora do país ele encomendaria a minha morte (e talvez a do meu marido também), como vinha prometendo havia anos. Depois do jantar, à noite, voltei para a quitinete, e um rapaz passou o link pelo Twitter sobre a condenação de Marcelo a 41 anos. Claro que fiquei muito feliz! Estou sorrindo de orelha a orelha até agora! Mas o alívio maior foi a prisão de Marcelo no dia 10 de maio. De lá pra cá minha vida melhorou bastante.
Em algum momento, ao longo desses anos de ataques e investigações, você teve medo?
Lola: Medo eu nunca tive, sinceramente. Ele e sua quadrilha são muito covardes. Querem nos intimidar com ameaças de morte e estupro. Nas primeiras ameaças às pessoas que a gente ama (como a meu marido e a minha mãe), eu senti um pouco de medo. Mas em seguida vi que eram só mais ameaças vazias. Por outro lado, sou um alvo fácil. Eles sabem meu endereço residencial há 8 anos. Sabem onde eu trabalho. Acompanham as palestras que dou em todo o país. Se eles quisessem me matar, não seria difícil. E não há nada que eu possa fazer. Mas acho que eles sabem que, se me matassem, me transformariam numa mártir (como as milícias fizeram com Marielle), e que eles seriam os principais suspeitos.
Você chegou a perder a esperança de que ele seria punido?
Lola: Foram 5 anos ininterruptos de ataques a mim e a muitas outras pessoas, principalmente mulheres, negros e LGBTs. E ambos me processaram! Dá uma raiva danada ser processada por quem te difama e ameaça de morte. Mas eles fizeram isso só pra incomodar, e quando viram que não teriam chance de ganhar as ações, nem de me forçar a ir a Curitiba ficar frente a frente com eles, desistiram dos processos. Muitas vezes eu perdi a esperança que eles voltariam a ser punidos, mas continuei colaborando com a Polícia Federal, mandando e-mails, prints e links do que eles estavam fazendo. Foi muito compensador saber em maio que tudo que eu enviei foi usado na investigação e na eventual condenação. Tudo que Marcelo criou contra mim (por exemplo, um site horrível em 2015, com meu nome, fotos e endereço) foi usado para sua condenação.
É possível acreditar que a prisão de Marcelo intimide outros misóginos e racistas a não praticarem atos semelhantes?
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| Figurinha antiga: comunidade no Orkut criada por Marcelo e quadrilha em 2009 |
Lola: Acredito que sim. Marcelo existia faz muito tempo na internet, era uma figurinha conhecida nos rincões. Então todos os channers (frequentadores de fóruns anônimos), todos os mascus, sabem muito bem quem ele é. E lógico que eles estão intimidados. Eles achavam que não daria em nada, que seria “feijoada”, um termo que eles usam sempre. A quadrilha que ele comandava, o Dogolachan, fórum que ele criou em 2013, quando saiu da prisão, migrou para a Deep Web pouco depois de Marcelo ser preso novamente, em maio de 2018. Está lá. Ainda há outros membros que devem ser presos e condenados. Mas creio que já ficou evidente que a vida que eles levam não compensa: Marcelo foi condenado a 41 anos, Emerson está foragido na Espanha, André se suicidou em junho (não sem antes matar Luciana, uma mulher que ele nunca havia visto na vida, em Penápolis, SP), e por aí vai. Desconheço o caso de algum misógino que tenha conquistado algo ou que seja feliz. O fracasso os define. A prova disso é que nem mesmo a vitória de um candidato dos sonhos deles os contenta. São eternos infelizes.
O período das eleições foi marcado por diversos casos de ataques racistas e misóginos por eleitores e apoiadores de Jair Bolsonaro . O que você espera para 2019, com a prisão do Marcelo, mas ao mesmo tempo, com uma onda fascista se espalhando no país?
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| Primeiros apoiadores: mascus queriam Bolso presidente já em 2011 |
Lola: Pois é, como eu disse, minha vida melhorou a partir de maio, quando um sujeito que vivia para arruinar os meus dias foi preso. Mas muitas ameaças e ataques voltaram no segundo semestre, junto com as eleições. Sem dúvida, a presença de um candidato abertamente misógino, racista e homofóbico fez com que muitos homens que pensam igual a ele saíssem do armário. Houve vários ataques no período eleitoral, inclusive algumas mortes. Ativistas e grupos historicamente perseguidos por fascistas ficamos com medo, compreensivelmente.
Espero que aqueles que se dizem “homens de bem” entendam que a vitória de um presidente execrável, que é piada no mundo inteiro mas um pesadelo para nós, não anula a Constituição, não acaba com as leis, e que eles não ganharam um passe-livre para nos atacarem. O que me causa mais apreensão é que Bolsonaro cumpra sua promessa de liberar as armas. Se isso acontecer, teremos muitos mais casos hediondos de crimes de ódio, como o massacre de Realengo, em 2012. Viraremos um EUA no que eles têm de pior, que é um massacre por semana em alguma escola. Marcelo, que desfilava com uma camiseta pró-Bolsonaro até ser preso, sonhava com o fácil acesso a armas para poder cometer massacres. Ele jurava que iria cometer um atentado terrorista na UnB (onde estudou Letras Japonês por um semestre) há muito tempo, desde a época do Orkut.
Para a luta feminista, o que essa condenação representa? Como se sente agora para seguir em frente com seu trabalho e luta?
Lola: É uma vitória, um reconhecimento do meu trabalho, e me dá mais ânimo para seguir adiante, mesmo sabendo que viveremos um período horroroso e sem precedentes no Brasil. Toda feminista sabe o que é um mascu, um misógino, porque já foi atacada por eles. Saber que não estamos sozinhas, que a internet não é uma terra sem lei, nos dá força.
Que sentimento fica agora e o que você tem a dizer às mulheres que sofrem ataques misóginos na internet?
Lola: O sentimento é de vitória, de força, de garra, de quem não se deixa calar. Gostaria que as mulheres que sofram ataques sejam fortes também, que continuem lutando, que denunciem, que saibam que não estão sós. Em abril foi sancionada a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes de misoginia na internet. É pouco, mas é um começo para que todos saibam que mulheres merecem ser respeitadas em todos os espaços.
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terça-feira, 25 de dezembro de 2018
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
FELIZ NATAL PRA QUEM NÃO VOTOU NO COISA RUIM
Duas tirinhas fantásticas do André Dahmer, dos Malvados. Admiro muito esse cara!
De fato, não daria pra namorar -- casar nem pensar -- com quem votou num fascista medíocre. Não daria nem pra passar o Natal com tal pessoa.
Mas, pra todas as minhas leitoras e leitores inteligentes, feliz natal!
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sábado, 22 de dezembro de 2018
O CARA QUE TENTOU DESTRUIR MINHA VIDA FOI CONDENADO A 41 ANOS DE PRISÃO
E nós estamos como?
Marcelo Valle Silveira Mello, 33 anos, foi condenado a 41 anos e seis meses de prisão por vários crimes, entre eles associação criminosa, divulgação de pedofilia, racismo e terrorismo. Todos crimes que ele cometeu na internet.
Ele está na cadeia em Curitiba desde 10 de maio deste ano, quando a Operação Bravata, lançada pela Polícia Federal, o prendeu pela segunda vez. De lá para cá, teve quatro habeas corpus negados.
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| Uma das ilustrações publicadas no chan de Marcelo contra mim |
Encontrou na internet o espaço ideal para extravasar seu ódio. Foi criador de inúmeras comunidades no Orkut e fez amizades e contatos com homens misóginos de extrema-direita que pensavam como ele. Conseguiu se destacar pelo seu ódio sem fim e sua dedicação em atacar desafetos.
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| Carteira de estudante. Marcelo a colocou no seu chan criminoso e supostamente anônimo |
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| Minha foto num dos sites de ódio criados por Marcelo (este em 2014) |
Eu, que sou autora de um blog feminista, professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Federal do Ceará, casada, e quase vinte anos mais velha que Marcelo, nunca havia ouvido falar dele até 2011. Porém, pouco depois de iniciar meu blog, em 2008, conheci indiretamente um nível de misoginia que era inédito pra mim. Ingênua, eu não fazia ideia que existiam homens que se reuniam para xingar uma feminista que teve a coragem de relatar a vez em que foi estuprada e deixada para morrer numa poça do seu próprio sangue. Os comentários no post da blogueira americana lamentavam que ela não havia sido morta, duvidavam da sua história (ela seria feia demais para merecer ser estuprada), prometiam finalizar o serviço.
Ao ler isso, fiquei horrorizada. Não sabia que homens cruéis eram aqueles. Um tempo depois descobri que se autointitulavam MRAs (Men's Rights Activists), ou defensores pelos direitos dos homens. Descobri com surpresa que há muitos homens que estão convictos que vivemos num matriarcado e que a verdadeira vítima da sociedade é o homem branco e hétero. Não fiquei muito surpresa ao descobrir que esses grupos, que existem nos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália, não lutam por direito algum -– apenas odeiam mulheres e atacam feministas.
Meu primeiro contato com esse tipo de grupo no Brasil foi no caso Eloá, em outubro de 2008. Para quem não se lembra, um rapaz chamado Lindemberg invadiu a casa de sua ex-namorada Eloá, de 15 anos, em Santo André, e a manteve, junto com a amiga Nayara, em cárcere privado durante mais de cem horas. O caso se tornou famoso porque programas de TV sensacionalistas tiveram a oportunidade de entrevistar o agressor por telefone durante o sequestro, enquanto ele mantinha uma arma na cabeça de Eloá, e porque a polícia paulista permitiu que Nayara, que havia sido liberada, voltasse ao cativeiro. No trágico final, a polícia invadiu a casa, e Lindemberg atirou em Eloá, que morreu, e em Nayara, que sobreviveu. O assassino foi preso.
Eu estava tão indignada com o caso que escrevi quatro posts sobre ele na época. Um deles era sobre uma comunidade no Orkut assinada pela “Ordem Suprema dos Homens de Bem” e chamada “Eloá virou presunto –- foi tarde”. Na comunidade, a jovem de 15 anos assassinada covardemente era xingada de tudo quanto era nome, com ênfase na sua sexualidade, enquanto Lindemberg era saudado como herói por ter posto um fim “naquela puta”. Os participantes só reclamavam que ele não tinha também conseguido liquidar Nayara.![]() |
| "Como matar mulheres?": lições de uma das inúmeras comunidades misóginas no Orkut |
Em fevereiro de 2011 descobri não só que esses grupos no Brasil se autointitulavam masculinistas, como que eles já me xingavam fazia tempo. Pelo jeito, eu era a única feminista que eles conheciam. Escrevi nesta data um post informativo chamado “O pensamento vivo (modo de dizer) dos masculinistas”, explicando quem eram esses estranhos rapazes que odiavam tanto as mulheres. Um mês depois, reuni num outro post, este humorístico, as “pérolas” deixadas nos comentários do post anterior. Foi a primeira vez que chamei masculinistas de “mascus”, uma mera abreviação. O termo pegou, ficou pejorativo, e rapidamente acabou com o masculinismo (pelo menos no nome) no Brasil, já que nenhum mascu queria ser chamado de mascu. ![]() |
| Wellington automaticamente virou herói entre os mascus |
Assim como Lindemberg, Wellington virou herói entre os mascus. Mas, diferente do primeiro, Wellington era ele mesmo um mascu. Ele tinha queimado seus computadores antes de cometer o massacre, mas havia registros de suas ligações com fóruns mascus, tanto que a Polícia Federal passou a investigá-los. No mesmo dia do massacre, o maior blog mascu do Brasil, o de “Silvio Koerich” (não seu nome verdadeiro) deixou de ser atualizado.
Seu autor somente reapareceu um semestre depois para anunciar que o blog estava fechando as portas, sem explicar o porquê. Logo depois, um blog com o mesmo nome e layout passou a publicar posts escabrosos, pregando a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas, a matança de mulheres, negros e gays. Além disso, o blog oferecia recompensas para quem matasse o deputado federal Jean Wyllys e eu (éramos chamados de “escória”), e prometia um atentado ao prédio de Ciências Sociais da UnB, para matar o máximo de “vadias e esquerdistas”.
O blog de ódio permaneceu no ar durante longos meses e rendeu quase 70 mil denúncias à SaferNet. Ele não estava hospedado no Brasil e, sempre que um país o expulsava, ele reabria em outro. Com a ajuda do grupo Anonymous, descobrimos seus dois principais autores: Marcelo e Emerson Eduardo Rodrigues, que se dizia engenheiro (não era) e que havia gravado um vídeo racista na Índia dizendo atrocidades como “o estado natural do preto é a sujeira, o estado natural da mulher é a prostituição, o estado natural do homem branco é o trabalho”.
Em março de 2012, a Polícia Federal lançou a Operação Intolerância e prendeu Marcelo e Emerson em Curitiba. Na conta bancária de Marcelo foram encontrados 440 mil reais, dinheiro que sua mãe lhe havia passado. Marcelo e Emerson brigaram na cadeia, mas foram condenados a mais de seis anos e seis meses de prisão. Infelizmente, cumpriram apenas um ano e dois meses. Ao saírem, em maio de 2013, ambos me mandaram emails me responsabilizando por sua prisão e jurando que iriam me processar. ![]() |
| Marcelo no Twitter em setembro de 2013 (clique para ampliar) |
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| Marcelo e Emerson em foto de janeiro de 2016 |
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| Abertura do chan do Marcelo em 2014: seja um herói como Elliot, Wellington e Anders |
Outro passatempo de Marcelo era lançar “novos” sites de ódio, na tentativa de repetir a popularidade do Silvio Koerich. Eu ponho a palavra “novos” entre aspas porque os blogs eram todos iguais, com o mesmo design, o mesmo ódio, e vários textos repetidos, trocando apenas alguns trechos e imagens. Nesses últimos cinco anos, Marcelo criou sites como Realidade, Homens de Bem, Tio Astolfo, PUAHate, Reis do Camarote, Filosofia do Estupro, e Rio de Nojeira, entre outros.
Em 2015 e 2016 ele lançou "guias de estupro", em que só mudava o nome da universidade, mas sua base era "como estuprar vadias" na USP, UFC, UFRGS, UFRJ e, claro, UnB. Através dos sites de ódio, Marcelo cumpria três objetivos: o de divulgar sua ideologia, o de enfurecer o "gado" (qualquer pessoa que não seja um mascu), e o de tentar incriminar inimigos. Em cada um dos sites ele colocava o nome completo de algum desafeto como autor, como por exemplo o meu marido, Silvio, com direito a fotos e endereço residencial e comercial. Silvio também teve que registrar boletim de ocorrência, já que Marcelo tinha/tem grande obsessão por ele. Marcelo não se conforma que uma feminista seja heterossexual, e que uma mulher gorda tenha um marido que a ame. Logo, vários de seus planos envolviam a destruição de Silvio.![]() |
| Um dos sites de ódio de Marcelo: montagens com fotos do meu marido |
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| O site de ódio no meu nome, no segundo semestre de 2015 |
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| Mais do site de ódio que Marcelo fez no meu nome |
Mas nem tudo foi negativo. Por causa desta “verdadeira caçada, uma perseguição impiedosa pontuada por um jogo pérfido e sádico promovido por Marcelo em face de Dolores Aronovich Aguero, professora da Universidade Federal do Ceará”, como definiu um desembargador federal em auto de setembro de 2018 para indeferir o pedido de habeas corpus de um advogado de Marcelo, a deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) apresentou um projeto de lei para fazer com que a Polícia Federal investigue crimes de ódio contra mulheres na internet. O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em dezembro de 2017, durante os 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, no Senado na semana do dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), e foi sancionado pelo presidente em exercício Michel Temer em abril deste ano. É a lei no. 13.642/18, também conhecida como Lei Lola, em minha homenagem.
Um mês depois da sanção da lei, a Operação Bravata prendeu Marcelo. Teria também prendido Emerson, mas ele está foragido na Espanha. A Polícia Federal disse, na ocasião, que os crimes cometidos por Marcelo somavam 39 anos. No dia da sua prisão, pela qual eu aguardara ansiosamente durante cinco anos, tive que cancelar minha aula na pós-graduação. A felicidade era grande demais e, além disso, muitos veículos de comunicação me procuraram para entrevistas.
Porém, um mês depois, um fato veio para abalar minha satisfação e alívio. No dia 15 de junho, no Dogolachan, um rapaz de 29 anos chamado André, codinome Kyo, que fazia parte da quadrilha de Marcelo havia sete anos, e que inclusive era moderador do chan, deixou uma mensagem no fórum afirmando que não aguentava mais a sua vida e que iria cometer suicídio. Recados como esse eram frequentes, e mais frequente ainda foi a resposta: “Leve a escória junto”. Vários membros do chan se prontificaram para pagar a passagem aérea de André, habitante de Penápolis, interior de SP, para Fortaleza, para que ele pudesse me matar e depois se suicidar. Na mesma noite, André saiu às ruas de sua pequena cidade, abordou duas moças que jamais havia visto, atirou pelas costas na nuca de uma delas, e se matou. Sua vítima, Luciana de Jesus do Nascimento, 27 anos, permaneceu vinte dias internada na UTI, e faleceu em 5 de julho. Para quem acha que mascus vão só fazer ameaças vazias, é bom se lembrar de Luciana.![]() |
| Marcelo num vídeo deste ano, em que aparecia gritando "Viva Bolsonaro!" |
Muita gente me pergunta como aguentei tudo isso durante tanto tempo. Bom, eu sei que sou forte. Eu vejo como outras pessoas reagem quando são atacadas de um jeito muito mais discreto. Eu tenho uma certa maturidade, a vantagem de ter começado um blog feminista quando eu já tinha 40 anos. E é maravilhoso contar com meu marido, que sempre me apoiou. Meu bom humor também é uma defesa fundamental. Rir realmente é o melhor remédio muitas vezes.
Mas talvez o principal motivo da minha resistência foi sempre lembrar quem eu sou, e quem são eles. Eles são seres cheios de ódio e não me atacam porque sou Lola (eles sequer me conhecem), mas por eu ser feminista. Um dos maiores elogios que já recebi foi do presidente da SaferNet, Thiago Tavares, que conheci num evento inspirador para jovens ativistas em Manaus, em agosto. Ele me elogiou por, apesar de todos os ataques recebidos, jamais me rebaixar ao nível dos misóginos. Não sou nenhuma santa, não tenho pena, mas não odeio Marcelo, nem quero sua morte, muito menos que ele seja torturado ou estuprado na prisão. Estou radiante com sua condenação e espero que ele fique na cadeia durante muitos anos. Mas sei que seu pior castigo é saber que, apesar de tanto esforço, ele não conseguiu nos calar.
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