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terça-feira, 7 de novembro de 2023

HÉTEROS JURÁSSICOS CONTRA O CASAMENTO HOMOAFETIVO

Faz quase um mês, numa terça-feira, 10 de outubro, a comissão de Previdência, Assistência Social, Infância e Adolescência e Família da Câmara dos Deputados aprovou um projeto asqueroso, desses de envergonhar qualquer pessoa minimamente inteligente. A comissão aprovou, por 12 votos a 5, uma proposta para proibir que pessoas do mesmo sexo possam se casar entre si. 

O projeto original, na realidade, é de Clodovil, o primeiro deputado gay assumido. O que ele propôs em 2007 foi justamente o contrário do que foi aprovado mês passado: que pessoas do mesmo sexo possam se casar. Mas o relator, o deputado bolsonarista Pastor Eurico (PL-PE), alterou o projeto, estabelecendo que "nenhuma relação entre pessoas do mesmo sexo pode equiparar-se ao casamento, à união estável e à entidade familiar".

No relatório do pastor deputado, há aberrações como: o "homossexualismo" "separa a sexualidade do seu significado procriador", "é contrário à lei natural". Ou seja, se uma união não gera cria, nem deveria existir (tipo a minha: sou casada com um homem há 33 anos mas decidimos não ter filhos; logo, pela lógica do pastor, não temos uma união, nem somos uma família). 

Parece que regredimos, sei lá, uns doze anos. O casamento homoafetivo já é uma realidade há muitos anos. Nem é mais discussão. Ainda em 2011 o STF reconheceu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Além do mais, ainda que um projeto retrógrado desses represente bem o Congresso ultraconservador que temos (em que a maior bancada é justamente uma bolsonarista repulsiva), ele não representa a maior parte da população brasileira, que não vê problema algum no casamento homoafetivo.

Em 2021, uma pesquisa internacional realizada em 27 países apontou que 54% dos entrevistados apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo (apenas dois países, Rússia e Malásia, tiveram maioria que se opõe). No Brasil, 55% apoia. A maioria do mundo (61%) apoia adoção por casais do mesmo sexo. No Brasil, 69% apoia. Mais ainda: 65% dos brasileiros são a favor de leis contra a discriminação de pessoas LGBT (o projeto aprovado é abertamente discriminatório). 

Já uma pesquisa do DataPoder no final de janeiro mostrou que 46% dos brasileiros são contra o casamento homoafetivo. A onda retrógrada fez que esse percentual subisse 7 pontos em 7 meses, 13 pontos em dois anos. 44% são a favor atualmente, o que configura empate técnico. A pesquisa também indicou a polarização de acordo com a ideologia política: entre quem aprovava o governo Lula (em janeiro, quando ainda estava começando), 61% era a favor do casamento gay (ainda assim, 27% contra). Entre quem desaprovava Lula, 60% era contra o casamento gay (35% a favor).

Uma pesquisa mais recente, de junho deste ano, revelou um placar mais apertado, mas, ainda assim, favorável ao casamento homoafetivo: 52% dos brasileiros aprovam, enquanto 40% são contra. O Brasil está na média mundial, embora o apoio em países como Argentina e México seja muito maior (67% e 62%, respectivamente). Essa pesquisa da Pew Research Center mostra o contrário daquela da DataPoder -- pela primeira vez nos últimos dez anos, a população brasileira é majoritariamente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

Essa mesma pesquisa demonstra o peso das religiões: 56% dos católicos apoiam o casamento gay, mas esse apoio cai para apenas 32% entre os protestantes. Ainda outra curiosidade apontada pela pesquisa: apenas entre 1% e 2% dos casamentos realizados no Brasil são entre pessoas do mesmo sexo. E, dentro desse universo, 61% dos LGBTs que se casam são mulheres. 

É em cima dessa porcentagem minúscula de gente do mesmo sexo que se casa que a comissão da Câmara quer tripudiar.

O projeto segue para a Comissão de Direitos Humanos, que tem ampla maioria de parlamentares progressistas, como Erika Hilton (Psol-SP) e Daiana Santos (PCdoB-RS). Essa comissão deve barrá-lo, só que ainda não sabe qual a estratégia mais eficaz. Se engavetá-lo, existe o risco de algum deputado reaça assumir o comando nos próximos anos e tentar aprová-lo novamente. Também há a possibilidade de ganhar no voto, como pontua Erika: “Se virmos que o projeto pode ser enterrado no voto, às vezes é bom. Isso passa um recado para a sociedade, mostra que a democracia se mantém de pé, e que a Câmara não é esse curral do fascismo e do ódio antidemocrático”. 

Ainda que o projeto seja aprovado, o que é duvidoso, ele será barrado pelo STF, pois ele é evidentemente inconstitucional -- simplesmente não se pode ter uma lei que discrimine uma parcela da população, que diga que alguns podem casar civilmente ou constituir união estável e outros não. Mesmo assim, temos que lutar e ficar de olho. A Aliança Nacional LGBTI+, por exemplo, promove a campanha “Nossas Famílias Existem” em protesto contra o projeto.

Eu sempre me perguntei por que existem héteros conservadores que são contra o casamento homoafetivo. Afinal, não tem nada a ver com eles. Não vai interferir em nada na vida deles se Adão e Evo constituírem uma união estável. Opa, mas interfere sim. Se eles não são considerados um casal, os bens de um, no caso de morte, vão pros pais (muitos dos quais cortaram relações com o filho ao saberem que ele é gay). Mas, sinceramente, não sei se os héteros conservadores pensam em herança quando vociferam besteiras contra o casamento gay. 

Encontrei na feminista americana Rebecca Solnit uma boa explicação para os conservadores se oporem ao casamento entre pessoas do mesmo sexo -- é porque ele pode ser de fato igualitário. E é disso que eles têm medo, que o casamento homoafetivo implique que o casamento entre homem e mulher (o tradicional) também deve ser igualitário, não mais com a mulher sendo vista como propriedade do marido, como foi durante séculos. “O casamento igualitário é uma ameaça sim: ele ameaça a desigualdade”, alega Solnit. É uma ameaça aos papéis tradicionais de gênero. 

Mais uma prova de que LGBTfobia e misoginia andam sempre juntinhos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

QUEREM DESTRUIR A FAMÍLIA TRADICIONAL

A tira acima (clique para ampliar) deixa bem claro como age e como pensa o "cidadão de bem", o "homem honrado".  Nenhuma dúvida em quem esse sujeito vota, né? Muito obrigada ao Koppe, meu querido leitor de muitos anos, que encontrou os quadrinhos no Instagram do argentino Gonza Ilustrado, os traduziu e mandou pra mim. Koppe só não resistiu e mudou a cor da camisa do "pai de família", pra ficar mais próximo do contexto brasileiro, sabe como é.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CASAMENTO IGUALITÁRIO É APROVADO NO CHILE APÓS 10 ANOS DE LUTA

Publico hoje o guest post da Isabela, minha correspondente no Chile! A jornalista Isabela Vargas é mãe da Gabriela, é feminista e integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, que organizou os protestos do #EleNao no Chile.

Essa semana o Chile ocupou as manchetes mundiais com uma conquista importante na luta pelos direitos da comunidade LGTBIQ+. É que na terça-feira, 7 de dezembro, o Congresso finalmente aprovou a Lei do Casamento Igualitário, que tramitava desde agosto de 2017. Agora, falta apenas a promulgação pelo presidente Sebastián Piñera.

Com a nova lei, outros avanços importantes ficam assegurados como as garantias dos direitos de filiação a qualquer pessoa que se submeta a mecanismos de reprodução assistida, independentemente do sexo, orientação sexual ou identidade de gênero. Além disso, estabelece a não discriminação com base na orientação sexual ou identidade de gênero, entre outras categorias, para fins do regime e do exercício dos cuidados pessoais de filhas e filhos. 

Quem olha para o Chile, hoje, não tem ideia do longo caminho percorrido por ativistas na luta pelos direitos fundamentais da comunidade LGTBIQ+. Foi somente em 2004 que o país reconheceu o divórcio. Naquele mesmo ano, a então advogada Karen Atala, defensora dos direitos LGTBIQ+ processou o Estado chileno perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos depois que a Suprema Corte do Chile lhe retirou a custódia das filhas por morarem com ela e sua companheira. 

O caso “Atala Riffo y niñas x Chile” não apenas abriu um precedente no sentido de cobrar do Estado a igualdade de direitos, como também de pressionar os gestores públicos em matérias que garantissem avanços nos temas de diversidade sexual. Hoje, Karen exerce a função de juíza e faz parte da direção da Fundación Iguales, que tem sido protagonista na luta por direitos fundamentais.

Em entrevista ao jornal The Clinic, Karen Atala comentou sobre o caminho percorrido para se chegar a este momento inesquecível. A trajetória de Karen é fascinante. Ela denunciou o Estado do Chile perante a Justiça Interamericana e, após oito anos de tramitação da denúncia, em 24 de fevereiro de 2012, o estado chileno foi condenado por graves violações dos direitos humanos contra Karen e suas filhas, por violação da igualdade, considerando que prejulgar ou prejudicar um casal do mesmo sexo e as famílias que elas estavam criando, era contrário à Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos.

O interessante nesse caso é que o desenlace se deu no primeiro mandato de Sebastián Piñera. Depois disso, Piñera se comprometeu com o Sistema Interamericano e a Justiça a dar prioridade a outro projeto que tramitava naquele momento: a Lei Antidiscriminatória. 

Essa lei foi aprovada devido às pressões que surgiram da sociedade civil organizada por conta do caso Daniel Zamudio, um jovem homossexual assassinado num parque em pleno centro de Santiago por um grupo de agressores homofóbicos. 

Embora tenha sido aprovada na gestão de Piñera, a lei foi apresentada por Ricardo Lago, do Partido Socialista, em 2005. 

A mobilização pela diversidade sexual não parou por aí e seguiu com a conquista do Acordo de União Civil (AUC) e, posteriormente, da Lei de Identidade Trans. 

Conversei com outro dirigente da Fundación Iguales, o arquiteto Sebastián Gray. Ele destacou a importância dessas conquistas consolidadas por conta da grande difusão em meios de comunicação e da forte pressão dos setores organizados. Gray afirma que “(reflete) este conjunto de direitos que as pessoas reclamaram de maneira abstrata em 2019”, referindo-se ao plebiscito que definiu uma nova constituição no Chile.

Quando perguntei sobre como podemos analisar o Chile de hoje -- que ao mesmo tempo em que aprova o casamento igualitário, enfrenta um segundo turno polarizado entre a extrema-direita e a jovem esquerda -- ele fez um interessante resgate histórico. A origem das organizações pela diversidade sexual remete à clandestinidade e ao período da ditadura militar. Por conta disso, o movimento sempre esteve muito associado à esquerda, naturalmente.

Foi a partir do caso Atala Riffo e da criação da Fundación Iguales que outros atores aderiram às lutas pelos direitos da comunidade LGTBIQ+. “O grande problema social chileno é a diferença de classes, é o drama chileno”, reflete. “O surgimento da Fundación Iguales foi um ponto de inflexão porque unificou a luta”, explica.  

Pensando nisso e analisando o tempo que cada uma das quatro importantes e recentes leis pela diversidade sexual foram aprovadas no Chile é possível compreender o cenário político atual no país. “O fenômeno é bastante global”, sugere Gray. Cada uma das leis tramitou por distintos governos, tanto de direita, quanto de esquerda, até finalmente serem aprovadas. Ou seja, a polarização política sempre esteve presente na sociedade chilena e a luta pelos direitos iguais atravessou cada governo, sem importar a ideologia politico-partidária. 

O casamento igualitário é um passo importante no sentido de garantias legais aos direitos da comunidade LGTBIQ+. A mobilização, agora, deve continuar com a luta pela educação, porque o preconceito existe. Na avaliação de Karen Atala, o componente machista, transfóbico, homofóbico e lesbofóbico que obedece a padrões culturais arraigados deve ser combatido, pelo Estado chileno, com programas intensivos de treinamento. “Para que os cidadãos e funcionários públicos sejam educados e treinados em direitos humanos, diversidade sexual e gênero. Porque o que se busca é que haja uma mudança cultural”, sentencia.

Quem também comentou a aprovação da lei do casamento igualitário no Chile foi o escritor e fundador da Fundación Iguales, Pablo Simonetti. “Sinto que conquistamos algo depois de uma jornada cheia de frustrações, dificuldades, pequenos avanços e retrocessos, momentos de esperança e decepção. Mas ver que ele finalmente está aqui para tantos jovens, tantas famílias e tantos filhos, e para os futuros gays, lésbicas e pessoas trans que vão sentir que seu amor é valorizado e reconhecido como o amor de qualquer pessoa. Isso não tem preço”.

Enquanto se aproxima o dia de votação do segundo turno para as eleições que vão definir o novo presidente chileno, a aprovação do casamento igualitário pode ser encarada como um lembrete de que as grandes mudanças acontecem -- ainda que levem muitos anos para acontecer. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

LIVROS QUE AMAMOS DEVEM TRAZER A BIBLIODIVERSIDADE

Publico hoje com muito orgulho o guest post de uma leitora antiga aqui do blog, a Denise. Denise Gomes é advogada, mora em Sydney, Austrália, e tem um podcast super popular sobre contação de histórias para crianças. Não deixe de seguir sua página no Instagram, ainda mais se você é professora, mãe, pai, avó, tia... Enfim, este post espetacular é pra todo mundo que convive com crianças!

Desde que me tornei mãe, há sete anos, ando cada vez mais envolvida com a literatura infantil. No início de 2019 criei um perfil no Instagram para falar sobre literatura infantil e sobre os livros que leio com meus filhos. Crio meus filhos (um menino e uma menina) para que eles tenham respeito para com todas as pessoas, e também para que sejam livres para vestir/ usar/ ser o que quiserem, por isso diversidade sempre foi uma constante na nossa biblioteca.

Como moramos na Austrália e eu queria que meus filhos mantivessem o português como língua de herança, comecei a apresentar podcasts infantis em português pra eles. Na época não  havia muitas opções, por isso no meio de 2019 criei meu próprio podcast, o “Livros que amamos - histórias para crianças”. Era pra ser algo despretensioso, mas em 2020 o podcast estourou e passou a figurar na lista dos top 5 mais ouvidos na categoria família (onde permanece até hoje), chegando inclusive a lista dos top 200 da Apple podcast pra todas as categorias!

Eu sempre falei de diversidade tanto no meu perfil do Instagram quanto no podcast, porque acho muito importante darmos as crianças uma educação antirracista, anti-homofóbica e mostrarmos a diversidade que existe no mundo. Acredito muito na máxima de que livros são espelhos, mas também são janelas (conceito criado por Emily Style em 1988). Os livros são espelhos porque refletem a própria cultura dos leitores e os ajudam a construir sua identidade (daí a necessidade de representatividade nos livros). Mas são também janelas por mostrar uma visão da experiência de outra pessoa.

Nunca é cedo demais para se falar com as crianças sobre raça e minorias! Existem estudos bem interessantes sobre racismo que demonstram que bebês notam diferenças físicas, incluindo cor de pele, antes dos 6 meses de idade. E ainda que, ao chegarem aos 5 anos de idade, as crianças já mostram sinais de preconceito racial. Assim, “Ignorar ou evitar o assunto não é proteger as crianças, mas sim deixá-las expostas ao preconceito que existe onde quer que vivamos”.

Eu faço sempre posts no Instagram sobre bibliodiversidade, e também tenho esse foco no podcast. Procuro escolher livros que sejam boa literatura e ao mesmo tempo tragam essa diversidade. Então já gravei livros na temática indígena, com protagonismo negro, biografias diversas que trazem empoderamento feminino, etc. O público do podcast vai de 1-12 anos, então alterno livros mais curtos pros menorzinhos e livros um pouco mais longos pros maiores (normalmente entre 5-20 minutos cada episódio).

No fim de outubro, fiz uma sequência de posts no meu Instagram sobre bibliodiversidade com foco na temática LGBTQIA+. Existem poucas opções de livros infantis nessa temática no Brasil, então fiz um apanhado do que eu achei no cenário nacional, mas também dos nossos favoritos publicados apenas em inglês (como a biografia do RuPaul), ou Love Around the World), só pra citar alguns dos livros favoritos dos meus filhos). Como sempre acontece quando faço posts sobre bibliodiversidade no meu perfil, perco seguidores. É incrível como falar de minorias incomoda tanta gente! O que pra mim só reforça a urgente necessidade de falarmos sobre diversidade, respeito e tolerância com as crianças!

Pausa para um adendo: quando meu filho tinha 4 anos, na creche que ele ia a professora levou o livro Heather has two mommies (Heather tem duas mães) para ler e debater com as crianças (a turma tinha entre 3-6 anos). Depois ela fez um relatório pros pais sobre o que as crianças acharam e falaram (não teve nenhuma estranheza ou comentário homofóbico por parte das crianças). Os pais amaram! Eu fui falar com a professora e ela estava super feliz de estar recebendo um retorno tão positivo dos pais. 

Aproveitei e levei outro livro que temos – Julian is a mermaid (lançado recentemente no Brasil -- Julian é uma sereia -- para que a professora debatesse com as crianças também sobre gênero. Aqui na Austrália isso é um debate normalizado (apesar de óbvio que ainda existe muito preconceito), e meu sonho seria ver todas as escolas no Brasil também debatendo diversidade.

Enfim, seguindo com meu intuito de diversificar as histórias do podcast, publiquei no início de novembro um episódio com um livro infantil sobre amizade entre meninos (aborda lindamente masculinidade tóxica, uma pérola!). Só que nesse livro um dos meninos cresce e se casa com outro homem (esse é o livro, lançado apenas em inglês). Tem outros detalhes lindos na história, mas o casamento gay em si bastou pra eu sofrer um ataque no Instagram. Perdi dezenas de seguidores, e isso em si não me abala, mas fiquei muito triste pensando em todas as pessoas que vivenciam esse ódio todos os dias -- como você, Lola!

Teve ainda muita gente que me mandou mensagem privada sem ataques mas dizendo que discordava de tratar sobre homofobia com os filhos porque eram religiosos, ou porque a criança era pequena, e ainda pedindo pra eu colocar um “alerta de conteúdo” no podcast (!?!?). Eu acho curioso como muitas pessoas são homofóbicas (ou racistas) mas defendem com unhas e dentes que não o são. Uma querida amiga fez uma excelente colocação: “homofobia é tratar uma pessoa diferente pela opção sexual dela. Aí a pessoa diz “tem que fazer alerta” para uma situação que deveria ser normal, mas o mesmo alerta não é necessário para  outras situações. E ao exigir tratamento diferenciado para algo que não deveria ser tratado diferente se está sendo homofóbico. Mas tenta dizer pra essa pessoa que ela foi homofóbica! O processo de negação das pessoas é forte, e assim a homofobia do dia a dia destilada em pequenas doses segue firme e forte.

Fiquei arrasada pensando em todos os meus amigos gays que sofrem ou já sofreram ataques. Em todas as crianças que tem dúvidas quanto a sua sexualidade/ gênero e precisam lutar contra esse mundo homofóbico em que vivemos, onde pessoas gays são “apagadas” e tem seu amor por outra pessoa do mesmo sexo visto como “tabu” que precisa ser “escondido” de crianças pequenas.

Recebi muito apoio também, muitas mães (e pais!) que me escreveram dizendo que amaram o episódio, a forma natural e delicada como o assunto foi tratado. A maioria das crianças sequer questionou os dois homens se casando (a homofobia está mesmo na cabeça dos adultos), mas foi uma oportunidade para muitas famílias abrirem um diálogo sobre o assunto e repensarem sua bibliodiversidade. 

Teve ainda uma seguidora (ouvinte do podcast com os filhos) que falou com o marido para ele aproveitar o alcance que ele tem no Twitter e no Instagram e falar sobre o ataque que eu recebi. Foi o suficiente pra eu receber uma avalanche de mensagens no Twitter e centenas de novos seguidores no Instagram. Fiquei feliz em ver o podcast chegando a mais famílias, e também em ver que o amor é poderoso! Acabei me inspirando pra entrar no Twitter e fiz meu primeiro tweet falando desse assunto.

Recebi mensagem também de uma editora brasileira de livros infantis, dizendo que meu trabalho a inspira a se posicionar nesse Brasil tenebroso. Por essas e outras que sigo na luta, Lola, inspirada por você e seu trabalho incansável por um mundo mais justo. Noutra semana publiquei mais um episódio antirracista, e em outra comecei uma série de episódios no podcast sobre liberdade religiosa (um passeio pelas quatro maiores religiões do mundo através de livros infantis encantadores). 

Esses dias li uma frase no perfil da Mariska Hargitay que me tocou bastante: “Você não pode forçar alguém a compreender uma mensagem que eles não estejam prontos para receber. Ainda assim, você nunca deve subestimar o poder de se plantar uma semente.”

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

"A SUA FAMÍLIA NÃO É MELHOR QUE A MINHA"

É muito importante registrar a fala histórica que o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) fez ontem durante a CPI da Covid. 

O empresário bolsonarista Otávio Fakhoury foi chamado para depor porque é acusado de patrocinar bolsominions para espalhar conteúdo negacionista sobre a pandemia, além de discurso de ódio e atos antidemocráticos. Contarato chamou a atenção de Fakhoury porque, em maio, o senador errou a grafia num tuíte, escrevendo "estado fragrancial", em vez de "flagrancial", e o empresário, homofóbico como todo bolsonarista, aproveitou para tuitar: "O delegado [Contarato foi delegado da Polícia Civil antes de ser eleito senador], homossexual assumido, talvez estivesse pensando no perfume de alguma pessoa ali daquele plenário... Quem seria o 'perfumado' que lhe cativou?" 

Contarato, além de pedir à Polícia Legislativa que investigue Fakhoury por homofobia (que é crime), disse, emocionado: 

Muitas pessoas, quando eu tomei posse como senador da República, me perguntaram se essa Casa me respeitava, se meus colegas me respeitavam. 
E eu nunca titubiei. Eu sempre falei: todos têm um respeito, um carinho, admiração e deferência por mim, como deve ter por qualquer pessoa. Mas eu queria falar pro depoente, eu não posso perder essa oportunidade, porque sr. Otávio, o dinheiro não compra a dignidade. O dinheiro não compra caráter. Cursos não compram humildade, compaixão, caridade. Eu sempre pergunto, qual o tipo de imagem que eu vou deixar pros meus filhos? Eu amo a Mariana, que Deus me deu na pandemia -- Deus nos deu, a mim e ao meu esposo, com muito orgulho, e não pense que pra mim é fácil falar isso aqui, me expor, não é fácil. Hoje eu sei muito bem o que é local de fala. [...]

O senhor pegou um tuíte meu e por um erro de grafia de rede social, o senhor fala isso. E é aí que mais me admira. Porque o senhor não é um adolescente. O senhor é casado, tem filhos. A sua família não é melhor do que a minha [o senador, o único homossexual assumido no Senado, é casado com um homem e tem dois filhos, um menino e uma menina]. 

Eu não consigo entender o que leva um ser humano, que tem maioridade, e a maioridade é de 18 anos. O que leva o senhor [a isso]? O senhor tem filhos... Qual imagem enquanto pai, enquanto esposo, enquanto cidadão, o senhor vai passar pros seus filhos? Isso é o seu princípio da legalidade?

Porque o Supremo Tribunal Federal, tardiamente, o mesmo Supremo que o senhor defende extinguir, criminalizou a homofobia equiparando ao crime de racismo. Aliás, um dos poucos crimes que são considerados inafiançáveis e imprescritíveis. O senhor está obedecendo o princípio da moralidade? Qual o conceito de moralidade do senhor? Qual o conceito de legalidade? Qual imagem que você vai deixar para os seus filhos? 

O senhor pode ter todo o dinheiro do mundo. Eu tenho minha vida modesta e com muito orgulho, cuidando da minha família, um orgulho com o meu esposo e com os meus dois filhos, Gabriel, de 7 anos, e Mariana, que fez 2. E eu quero que eles tenham a certeza de que eu lutei e vou continuar lutando para reduzir essa desigualdade que há no Brasil. 

Porque se o senhor obedecesse o princípio da legalidade, o senhor saberia que no artigo 3o, inciso 4 da Constituição Federal, está expresso que um dos princípios, um dos fundamentos da República Federativa do Brasil é promover o bem-estar de todos e abolir toda e qualquer forma de discriminação. O senhor não é um adolescente, então eu não poderia deixar de me pronunciar. 

Eu aprendi que a orientação sexual não define o caráter, que a cor da pele não define o caráter, que o poder aquisitivo não define o caráter. Eu aprendi isso. E eu fico muito triste, sabe por quê? Porque eu fico me colocando no lugar dos seus filhos. Isso vai ficar aqui registrado no Senado Federal ad infinito. E o senhor não sabe como é difícil pra mim expor a mim e a minha família, os meus filhos, num momento tão delicado como esse. Mas é necessário isso, para que outros não sofram o que eu estou sofrendo. Porque se o senhor faz isso comigo, como Senador da República, imagine num Brasil que mais mata a população LGBTQIA+? Então o mínimo que o senhor deveria fazer é pedir desculpa não só a mim, a toda a população LGBTQIA+, a toda a população.

Assim como Martin Luther King teve um sonho, eu também tenho um sonho. Eu sonho um dia em que eu não vou ser julgado pela minha orientação sexual. Eu sonho um dia em que não vou ser julgado pela minha orientação sexual. Eu sonho um dia em que meus filhos não serão julgados por serem negros. Eu sonho um dia em que minha irmã não vai ser julgada por ser mulher. E que meu pai não será julgado por ser idoso. 

Esse dia ainda não chegou porque o senhor é o tipo da pessoa que retrata muito bem esse presidente da República, que fala na família, na família tradicional. Mas a minha família não é pior do que a sua porque a mesma certidão de casamento que o senhor tem eu também tenho; que fala na Pátria, que fala na legalidade, que fala na moralidade, mas o senhor é o principal violador dessa legalidade e moralidade; que fala em Deus acima de todos. Deus está no meio de nós. 

Então eu não poderia deixar de fazer esse registro e de requerer, à presidência [da CPI], que seja remetido cópia dessas postagens à Polícia Legislativa para que apure o crime de homofobia praticado por esse depoente aqui, na certeza de que nada -- não vai ser a responsabilidade penal, não vai ser a responsabilidade civil, não vai ser nenhuma responsabilidade administrativa que vai tirar a dor que o senhor me causa, que o senhor me ocasionou. O senhor nunca me viu, o senhor nunca conheceu minha família, o senhor não conhece meus filhos, mas nada te dá direito de fazer o que o senhor fez, porque essa dor é incomensurável. Não tem dinheiro que pague isso. Mas eu espero, eu estou expondo mais uma vez a minha família, meus filhos, meu esposo, pra que outros não passem pelo que eu passei. Muito obrigado, senhor presidente [da CPI].

Vejam a fala toda aqui. Ao empresário só lhe restou dizer que foi uma "brincadeira de mau gosto" e pedir desculpas. 

Em seguida o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), sempre atacado por bolsonaristas, que o chamam de "gazela", mostrou um tuíte de Fakhoury em que ele legenda "Saltando sem parar" sobre uma foto de Randolfe. O vice-presidente da CPI também pediu que o tuíte fosse enviado à Polícia Legislativa.

A cereja do bolo é que o favorito para ocupar a vaga no Senado pelo Espírito Santo era o impastor Magno Malta. O povo preferiu eleger Contarato.