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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

CAROLINE, CONDENADA A 18 ANOS PELO ASSASSINATO DE ELÍDIA

Estou faz uma semana pra escrever sobre este caso tenebroso, mas agora vai.

Na quarta-feira retrasada, dia 26 de setembro, ocorreu o julgamento de Elídia Geraldo, jovem de 19 anos que, no início de julho de 2019, saiu com um casal de amigos em Ubá, cidade de Minas Gerais com 100 mil habitantes. Foi dada como desaparecida durante vinte dias até que seu corpo foi encontrado num matagal por seu tio.

Eu não sei quase nada sobre Elídia, mas conheço um pouco da história de sua assassina, Caroline de Paula Dini (que agiu junto com seu namorado, Igor Resende Lana).

Uma semana depois do desaparecimento, os pais de Elídia (foto ao lado) deram uma entrevista para a Rádio Educadora de Ubá, pedindo ajuda para encontrar a filha, e dizendo que ela foi a uma festa do aniversário da cidade. A mãe contou que Elídia tomava remédios, tinha tendências suicidas, mas era "trabalhadeira" (cuidava de uma idosa). No final da entrevista a mãe de Elídia revelou que, um dia após o desaparecimento, "apareceu um casalzinho procurando a Elídia, perguntando se a Elídia tava em casa". Caroline disse para a mãe de Elídia que a jovem desaparecida havia ficado com o celular dela, e ainda pediu: "Quando ela chegar, a senhora manda ela levar o celular na minha casa". 

Caroline e Igor foram presos um mês depois, no dia 12 de agosto de 2019, e confessaram ter matado a jovem por estrangulamento. Mas disseram à polícia que "não cometeram o crime de estupro contra Elídia Geraldo. Apenas deixaram suas vestes baixadas para confundir a investigação policial". Por toda a cidade, circula até hoje a ideia de que foi um ritual satânico. 

Caroline tinha a mesma idade de Elídia quando cometeu o crime. Foi perseguida por misóginos desde que era menor de idade. Muito antes de mascus da Discord "escravizarem garotas online" (obrigando jovens a se mutilarem, mandarem nudes e se filmarem machucando animais), Caroline passou por tudo isso: fez vídeo enfiando crucifixo na vagina, acusando um desconhecido de estupro, dizendo que tinha sido estuprada por um mascu neonazi, Gustavo Guerra, e que gostou. Mas não era apenas uma vítima. Tal qual seus algozes, era também de extrema-direita, misógina, pedófila, e torturadora de animais. Adotava o codinome de Emma.

Em janeiro de 2017, ela não aguentou mais as perseguições e a vida horrorosa que levava e simulou seu suicídio. Não demorou muito para que os mascus percebessem que ela não havia morrido. Passaram a atacá-la de novo. Ela ainda não tinha 18 anos.

Pouco depois, eu e outra professora feminista tentamos ajudá-la. Conversamos com advogadas, com a defensoria pública, pedindo o acompanhamento do Conselho Tutelar. Eu passei o telefone dela para um agente bonzinho e prestativo da Abin, que ligou pra ela, oferecendo auxílio. Ela teve a opção de ir acompanhada por uma advogada a uma delegacia e denunciar quem a perseguia havia anos. Preferiu contar tudo a Marcelo Valle Silveira Mello (líder mascu e criador de um chan de ódio que está preso desde maio de 2018, condenado a 41 anos de prisão). Foi recompensada com a moderação do chan. 

Em novembro de 2017 ela me enviou um email com o título "Emma aqui, de coração aguardo sua resposta". Ela escreveu (tudo sic): "desde criança me interessei por gore e pornografia bizarra, eu nao tinha amigos e sofria bullying, me batiam me desprezavam, todas minhas amigas me traíram e eu peguei ódio delas e de todo mundo, minha irma por assim dizer é uma 'merdalher' que obviamente é a mais bonita mas ela é burra fútil vazia superficial que nao sabe conversar nada a nao ser garotos roupa e dinheiro, e vendo toda aquela atençao dada pra ela e pra mim nao, só fui me isolando e criando um ódio sem igual... no mais tardar tive anorexia e fui diagnosticada como borderline e esquizofrenica, o que tbm foi dificil pra mim pois nenhum relacionamento eu me dava bem, ai que achei o chan e vi ali um lugar em que eu poderia expressar meus ódios internos sem ser julgada, entao passei a sentir amor pelo ambiente e por algumas pessoas que me fizeram mal, mas sabe pq eu nunca os odiei tanto e nem nunca me importei com nada? PQ EU ME ODEIO. Eu nao gosto do movimento feminista pq acho ruim e injustificavel [...] fui criada em meio ao ódio e em uma familia super religiosa e fanatica, eu nunca disse em video que os mataria e eu nunca faria isso, posso ter comentado no twitter na hora da raiva pq eles pegam no meu pé sempre".

Nesse email ela contou que, quando fingiu o suicídio, Arthur Lopes (um mascu de Aracaju que hoje, pasmem, é candidato a vice-prefeito da capital pelo PCO - Partido da Causa Operária), que ela considerava seu melhor amigo, vazou "fotos horríveis" que ela tinha passado pra ele.

Não foi o primeiro email que ela me mandou. Eu nunca respondi, nunca falei com ela. Ainda em novembro, recebi outro email, dizendo ser da irmã dela. Provavelmente era da própria Caroline.

Num vídeo que gravou há mais de seis anos e que ainda circula (e é monetizado pelo YouTube!), Caroline repete toda a ladainha mascu e diz que a mulher atual está degenerada, que perdeu todo o respeito, "coração e a própria inteligência", e "são atraídas pelo mal, pelo maligno, isso comprova que elas gostam do perigo", e que mulheres apanham porque querem, porque gostam, e que toda mulher se atrai por marginais, que feminismo é uma ideologia de morte, e que a culpa não é do homem que mata, é do feminismo. "Se você é uma mulher, lute pela sua alma. Dê uma chance para o homem beta", e termina dizendo que seu nome é "Maria Dolores" (como tantos mascus, ela também era obcecada por mim, chegando a inventar que era minha filha).

Em maio de 2018 Marcelo foi preso. Em junho, outro moderador do chan, André Garcia (codinome Kyo), deixou uma mensagem jurando que iria se matar, ouviu o coro de sempre ("leve a escória junto"; houve ofertas para pagar sua passagem para Fortaleza, para que ele me matasse antes de se suicidar), e, na mesma noite, saiu às ruas de Penápolis, interior de SP, onde morava, matou uma moça que ele nunca tinha visto antes e vice-versa, e se matou. Pouco depois, Caroline (e o chan) migrou pra deep web. Continuou fazendo vídeos de pedofilia e torturando animais. Talvez ainda fosse moderadora quando o massacre de Suzano foi parcialmente planejado no chan, em 13 de março de 2019.

No dia 13 de julho de 2019, assim que Elídia desapareceu, antes de seu corpo ser localizado, recebi emails anônimos e mensagens no blog acusando Caroline e Igor. Na mesma hora encaminhei esses emails para a Polícia Federal e para um agente da Abin. Escrevi: "Não sei se vc lembra, mas tentamos ajudar a Emma em 2017. Ela é uma jovem com muitos problemas que faz parte do Dogolachan há anos. Dizem que ela é moderadora do Dogolachan agora (ela chegou a ser em 2018, quando o chan ainda não estava na Deep Web). Já recebi acusações de que ela tinha sites de pedofilia e pornografia infantil (passei essas informações pra PF faz tempo). Ela mora em Ubá, MG, justamente a cidade em que Elidia morava. Emma é perigosa e acredito sim que ela seja capaz de matar alguém. Encontrei essas informações sobre o desaparecimento de Elidia: 'Segundo a família, Elidia saiu de casa sozinha e chegou a encontrar com um casal de amigos no Horto Florestal e segundo os pais ela teria ficado com o aparelho de celular de uma moça, que foi buscar no dia seguinte na residência da jovem'. Por favor, vc pode falar com alguém da polícia de MG? Se essa jovem desaparecida não fosse de Ubá, eu não  prestaria muita atenção. Mas é da mesma cidade da Emma, e as informações que li (que Elidia se cortava, por exemplo, e já tinha tentado suicídio) parecem conectá-las."

Durante o julgamento na semana passada, Caroline chorou, disse se sentir culpada, declarou várias vezes que não se lembrava do que aconteceu, afirmou que ouvia vozes. Porém, na época, ela agiu com frieza, mantinha perfis fakes para enviar ameaças, e tirou selfie na delegacia.

Caroline e Igor foram condenados a 18 anos de prisão cada um pelo assassinato de Elídia e ocultação de cadáver. Caroline segue presa na penitenciária de Juiz de Fora. Mascus são perigosos e matam. Caroline é uma das muitas provas disso.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

SÉRIE DOCUMENTAL RECONSTROI O MASSACRE DO REALENGO

Só anteontem entendi por que andava recebendo emails dizendo que, como eu era alvo de muitos ataques, ele, um anônimo, estava mandando um vídeo dele brincando com a filha. Lógico que não abri o vídeo, que tem 95% de chance de conter pornografia infantil e 100% de chance de passar vírus pro meu computador.

Então, mas por que essa novidade? Por causa do documentário Massacre na Escola: A Tragédia das Meninas de Realengo, lançado na HBO há alguns dias. Mascus devem ter visto ou ouviram falar do doc (na realidade, uma série com quatro episódios de cerca de 47 minutos cada), notaram que eu apareço bastante nele, e decidiram, mais uma vez, me atacar. Não que tivessem parado. Como disse minha advogada do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos (do qual faço parte desde 2016), nos últimos doze anos eu nunca fiquei mais de três semanas sem receber alguma ameaça. 

Em julho do ano passado, viajei até o Rio para ser entrevistada pela equipe do documentário. Foi uma longa conversa, mais de quatro horas. E sábado eu vi a série dirigida por Bianca Lenti, e gostei muito. Faz uma reconstrução marcante do massacre de abril de 2011 numa escola em Realengo, periferia do Rio, que fez doze vítimas fatais (10 meninas e 2 meninos, todos com idade entre 12 e 14 anos). É o maior massacre escolar no Brasil. 

Como em 2011 eu já monitorava alguns fóruns e comunidades mascus, pude acompanhar em tempo real a reação deles. Eles celebraram o ataque, reconheceram o atirador como um dos seus, e ficaram com medo de alguma investigação da Polícia Federal, tanto que vários blogs fecharam no dia seguinte ao massacre. O autor do maior deles, inclusive, desapareceu sem dar qualquer explicação aos seus leitores. 

Eu e outras feministas, como a professora de História Valéria Fernandes, questionamos por que a mídia não estava tratando o massacre como um feminicídio. Afinal, parecia evidente que o atirador invadiu a escola onde havia estudado anos atrás para matar meninas. Alguns sobreviventes testemunharam que ele atirava nos meninos pra ferir, e nas meninas, pra matar, mas a imprensa nem cogitou a motivação da misoginia. 

O documentário entrevista diversas vítimas. Por exemplo, Thaylane, que levou três tiros e ficou paraplégica, conta que o atirador disse a ela: "você vai morrer por que é muito bonitinha". Ela ressalta que ele atirava nas meninas na cabeça, e nos meninos, nos braços e pernas. Outro sobrevivente, Alan, diz o mesmo. Apesar de ter recebido três tiros, Alan conseguiu correr e chamar um policial, o então sargento (hoje subtenente) Alves, que foi um herói ao balear o assassino e assim impedi-lo de matar mais gente. Alves não crê que o atirador matou mais meninas de propósito. Para ele, algumas meninas se abraçaram em vez de fugir.

O doc é muito completo e perspicaz. Eu pessoalmente tiraria o trecho em que o pai de uma sobrevivente, Luiza, diz que ainda não caiu a ficha pra ela do que realmente aconteceu. E colocaria alguma coisa sobre a homenagem às vítimas, que é uma história interessante e bonita. 

Pra quem não sabe, em 2015 foi inaugurado um monumento numa praça nos fundos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. Construído a pedido das famílias das vítimas, o memorial mostra os onze adolescentes que foram mortos. Os familiares de uma das doze vítimas não quiseram que sua filha fosse reproduzida em bronze, então os criadores do monumento puseram uma borboleta para representá-la. Na inauguração, a mãe de Luiza Paula, que tinha 14 anos quando foi assassinada, discursou que o memorial deve ser visto como um pedido de paz, em vez de algo que lembre dor e sofrimento. Nas estátuas, as vítimas estão sorrindo e em movimento.

Algo que achei muito bacana é que o documentário fala da Lei Lola no quarto episódio. O delegado Flavio Setti (responsável pela Operação Bravata, em 2018) diz: "Sem dúvida a Lei Lola trouxe um ganho pras investigações, principalmente trazendo a possibilidade que a Polícia Federal possa intervir, possa atuar de forma direta em investigações que têm por foco a condição de mulher por si só, então quando essa condição é atacada, a PF tem a possibilidade de agir. Essa é uma coisa que antes não existia". Fiquei feliz ao ouvir isso.

Porém, infelizmente um bocado de gente está falando do documentário por outro motivo. É que no episódio 3 um dos entrevistados, o consultor educacional Ricardo Chagas, associa o massacre a videogames e cita o canal de games do Core (eu nunca havia ouvido falar de nenhum dos dois) como um prato cheio para aliciadores (veja neste post do Tecmundo). Na quinta, Core fez um vídeo de 20 minutos para afirmar que o documentário está tentando destruir sua vida e que seu canal não é para crianças, e Ricardo fez uma live de 30 minutos se mostrando bem arrogante. A Valéria, que sabe tudo de games e animes, escreveu sobre essa treta.

Eu acho que o documentário errou em dar tanta voz ao consultor, que no seu perfil no Instagram parece ser um daqueles cristãos de extrema-direita que culpam os games e a mídia em geral pela "destruição da família". No documentário boa parte de suas declarações até são coerentes, mas no Instagram ele faz campanha contra a Disney por incluir um personagem LGBT numa animação. Enfim. No mínimo, o doc deveria ter editado a fala de Ricardo para que ele não mencionasse um canal em particular. Se ele só tivesse dito que canais de games e desenhos são um prato cheio para aliciadores, evitaria essa confusão toda (que pode até render processo). 

O documentário no final, além de informar como denunciar ameaças a escolas (pelo número 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e pelo site gov.br/escolasegura), explica que "eventuais opiniões de entrevistados não devem ser interpretadas como opiniões da WBD ou da Giros Filmes" (os produtores e realizadores da série). 

Espero que vocês possam assistir ao doc e me contar o que acharam. A opinião de mascus e demais apoiadores e perpetuadores de massacres não me importa.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

O MASCU QUE MATOU A EX NA FRENTE DO FILHO JURAVA QUE HOMENS SOFREM MAIS VIOLÊNCIA QUE MULHERES

No dia 6 de maio, Marcius dos Reis Resener de Oliveira foi preso depois de matar a ex-mulher Aline Resener na frente do filho de 8 anos do casal.

Por que falar deste feminicídio em particular? Afinal, o Rio de Janeiro teve em 2022 o maior número de feminicídios dos últimos seis anos. O estado está batendo recorde de feminicídios este ano: é uma mulher morta a cada três dias. Este foi apenas um dos quatro casos de feminicídios ocorridos no RJ em quatro dias. Nos outros três casos, os assassinos eram os maridos. As vítimas tinham idades diversas: Anna tinha 22 anos, Dayana, 40, Zenaide, 68. Em comum, o fato de serem mulheres mortas pelos companheiros. Um detalhe: Zenaide era pastora, e conheceu o marido enquanto evangelizava na prisão. Aparentemente, não sabia por que ele estava preso: havia assassinado a esposa em 2005.  

O que mais chamou minha atenção no feminicídio de Aline é que Marcius é um mascu. Ele se passava por advogado criminalista e especialista na defesa de acusados pela Lei Maria da Penha. Só que ele não tem registro na OAB e, sem isso, não pode exercer a profissão. Ele também se dizia pastor, psicanalista e policial. Mas na audiência de custódia, ele registrou que é funcionário público na Secretaria de Educação no Rio e trabalha numa escola em Realengo. Estava de licença remunerada desde junho do ano passado. 

Ele ganhava a vida como coach. Em reuniões online com outros mascus, cobrava R$ 350 para passar instruções a homens acusados de violência doméstica. É um comércio lucrativo. O Intercept Brasil publicou recentemente quatro excelentes reportagens mostrando como psicólogos, assistentes sociais, promotores e juízes estão usando a Lei de Alienação Parental para ganhar dinheiro livrando acusados de abuso sexual infantil ou de violência doméstica, muitas vezes tirando os filhos das mulheres e entregando-os a quem elas denunciaram. Obviamente, a alienação parental era uma das bandeiras de Marcius. 

Em fevereiro, por exemplo, Marcius deu uma entrevista à TV Cidade de Teresópolis em que mentiu que Aline (que ele matou dois meses depois) o agredia e também agredia o filho para atingi-lo. Assim como seu currículo, era tudo mentira. O tema da live já partia de uma fake news espalhada por todos os mascus -- "homens sofrem mais violência doméstica do que as mulheres". 

Na entrevista, Marcius repetia que "as humanas mudaram". E dizia que, segundo o IBGE, 92% das denúncias contra homens são falsas, uma estatística tirada direto do Instituto Mascu As Vozes Me Disseram. Os dois entrevistadores homens não fazem nada para estabelecer a verdade. Muito pelo contrário: prometem um programa maior sobre essas falácias. Junto a Marcius está a Dra. Ana, psicóloga (ambos se chamam e são chamados de doutores), que afirma que 8 em cada 10 casos da Lei Maria da Penha são falsos, e que entre 30 a 90% dos casos são falsos (qualquer estatística que vai de 30 a 90 não pode ser séria). Gostaria de saber o que a TV Cidade e a psicóloga tem a dizer agora.

Em 6 de maio, Aline foi pegar o filho de 8 anos na escola. Marcius apareceu encapuzado e atirou. Aline tentou proteger o menino e foi baleada nas costas. Em seguida, atirou na cabeça dela. Marcius tentou fugir levando o filho, que ele já havia sequestrado durante um ano e meio e o escondido em Brasília, longe da mãe. Aline o denunciou, e a Polícia Civil pediu a prisão de Marcius duas vezes, mas a Justiça negou. 

Uma semana antes de ser assassinada, Aline teve negada pela Justiça uma medida protetiva que proibisse o ex de se aproximar dela. Também uma semana antes, ela registrou duas ameaças na delegacia. Uma era da atual companheira de Marcius, Rafaella. O próprio filho alertou a mãe. O pai -- um cidadão de bem defensor da família -- lhe disse várias vezes que iria dar um tiro na cabeça de Aline. Uma semana antes do Dia das Mães, cumpriu a promessa.

Marcius foi preso em flagrante no dia 6, enquanto tentava fugir e levar o filho pro mesmo lugar em Brasília do último sequestro. Contava com a ajuda de Rafaella, que também foi presa. Ela diz que está grávida, e ele alega ter problemas psiquiátricos. O juiz decretou prisão preventiva para ambos por julgá-los perigosos, um risco para as testemunhas. A família de Aline está com medo que ele saia da cadeia e mate mais gente.

Marli, mãe de Aline, declarou, comovida: "Minha filha lutava para pegar de volta o filho dela. Ela largou o Marcius há mais de dois anos e ele perseguia ela, minha filha não podia ter ninguém, ele bateu nela, colocou ela em cárcere privado e, mesmo com exames comprovando que ele tinha estuprado ela, ele não foi preso, só agora prenderam. Até quando?"

A advogada de Aline, Michele Monsores, lamentou: "A Aline buscou proteção em delegacias da mulher, foi à Justiça. É uma pena que ela tenha precisado morrer para que o Marcius fosse preso. Talvez, se isso não tivesse acontecido, ele nunca teria sido preso. Tentamos diversas vezes em vão".

O menino de 8 anos, traumatizado, não conseguia parar de repetir: "Meu pai matou minha mãe com dois tiros na cabeça".

segunda-feira, 3 de abril de 2023

O QUE MAIS SE SABE SOBRE O ATENTADO NA ESCOLA

Hoje faz uma semana que um adolescente de 13 anos matou a facadas a professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, feriu outras três professoras e um aluno na escola estadual Thomázia Montoro, em SP, e foi apreendido. Foi pelo menos o décimo ataque em escolas brasileiras nos últimos nove meses.

Em depoimento à polícia, o adolescente disse que não gostava do pai, que o pai batia nele com cinta e que também era agressivo com a mãe, e que pensou em matá-lo quando tinha onze anos. Mas alegou que não foi isso que o levou a cometer o atentado, e sim o bullying que dizia sofrer por sua aparência. Segundo ele, era chamado de "rato de esgoto" por alguns colegas. Ele já planejava o ataque havia dois anos, inspirado em Columbine.

No dia 7 de fevereiro, ele enviou a seguinte mensagem pelo WhatsApp a um colega: "Vc vai morrer. Vc tá fudido. Vou matar vc e sua mãe fdp". A mãe do menino ameaçado (de 12 anos) viu a mensagem uma semana depois e escreveu: “Vou na escola hj mostrar o tipo de conversa que vc tem com as pessoas. Aqui ninguém tem medo de vc não”. Três minutos depois, o adolescente pediu desculpas, disse que era só brincadeira, e implorou para que ela não contasse: "vc não conhece meus pais". A mãe fez a coisa certa: foi à escola e denunciou a ameaça.

Até o início de março, o adolescente estudava em outro colégio, na escola Estadual José Roberto Pacheco. Um mês antes do atentado, os pais do garoto foram chamados para conversar sobre o comportamento suspeito do filho. Além da ameaça de morte a um outro aluno, ele já pedido a uma aluna um isqueiro e gasolina, mostrado a colegas imagens suas portando armas de fogo, e elogiado outros massacres. Toda essa comunicação com os pais foi registrada em ata. Ou seja, eles sabiam que o filho tinha "interesse em realizar uma chacina". O pai agiu com indiferença, disse que estava tudo normal e que a arma era dele. 

A vice-diretora da escola mostrou à Polícia Civil não só a ata da reunião com os pais, mas também o boletim de ocorrência que registrou. Ela repassou o que sabia ao Ministério Público, que não fez o que deveria a tempo. A promotoria só apresentou o pedido de internação compulsória um mês depois do boletim de ocorrência. 

Ao que me parece, a escola agiu muito corretamente: pediu que os pais levassem o adolescente para um exame no Capsi (Centro de Atenção Psicossocial Infantil) para ver se ele teria condições psiquiátricas de seguir no colégio. Os pais apresentaram somente um laudo preliminar, e a escola recusou que o garoto continuasse a frequentar as aulas. No dia 1o de março, os pais então transferiram o filho para a escola Thomázia Montoro. No dia 27 de março, ele cometeu o atentado lá. 

A polícia já ouviu quarenta pessoas, entre elas um aluno que conversou com o adolescente no banheiro antes das facadas (o menor negou qualquer participação), e outro que pode ter instigado o assassino nas redes sociais. Ainda há bastante para se desvendar, mas eu fico imaginando a reação de todo mundo que havia alertado sobre o comportamento perigoso do adolescente. Não há dúvida que ele deu sinais claros do que iria fazer.

Mais duas notinhas relacionadas: Há seis meses houve um ataque à uma escola em Barreiras, BA. Uma aluna cadeirante de 19 anos foi morta a tiros e facadas por um adolescente de 14 anos, frequentador de fóruns de ódio, que tinha pegado a arma do pai, que é policial. Uma coisa que eu ainda não sabia: o adolescente ficou tetraplégico.

A mãe do jovem de 18 anos que em agosto do ano passado tentou realizar um massacre em Vitória, ES (felizmente ele foi impedido e hoje está preso) deu uma entrevista dizendo: "Não sei como comunidades na internet capturam e seduzem esses jovens, mas parece que pescam mesmo essas possíveis vítimas para poderem fazer de soldado deles". Essa mãe não desconfiou de sinais bastante evidentes de que o filho pode estar radicalizado, como pedir livro para "entender a mente de Hitler", querer vestir capa preta e coturno, se interessar por armas de fogo, não demonstrar mais afeto, idolatrar atiradores de massacres, e frequentar comunidades de ódio na internet. De novo, algo que repito há anos: pais, vocês precisam saber o que seus filhos fazem na internet e conversar com eles.

segunda-feira, 27 de março de 2023

MENINO DE TREZE ANOS MATA PROFESSORA E FERE QUATRO EM ESCOLA DE SP

Mais um atentado numa escola brasileira hoje. E o autor tem apenas treze anos. Um menino.

Foi às 7:40 da manhã, na Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, SP, que um aluno da oitava série esfaqueou a professora pelas costas, sem chance de defesa. Câmeras de segurança captaram esse momento hediondo. 

Elisabete Tenreiro tinha 71 anos, era professora de Ciências, e trabalhava na escola fazia pouco tempo. Ela não resistiu às facadas e morreu no hospital.

O adolescente ainda feriu outras quatro pessoas. Foi contido por três professoras, três heroínas que conseguiram imobilizá-lo, como mostra o vídeo (algumas notícias dizem que o garoto estava atacando uma outra aluna, negra, e que foi contido por duas educadoras, entre elas a professora Cíntia, de Educação Física). 

Ainda há muita desinformação. Hoje cedo circulava a notícia de que o agressor sofria bullying. Mas um menino contou que, semana passada, o autor do atentado chamou um colega de "macaco", e ele e o colega brigaram a socos. Foi a professora Elisabete quem apartou a briga. Justamente a primeira vítima de hoje. 

Hoje um veículo divulgou a carta que o jovem deixou a seus familiares. Parecia uma carta de despedida em que pedia desculpas. Dizia que estava planejando o atentado há dois anos e que ele fazia isso por uma "causa maior". É um forte indício de que o adolescente é um incel que participava de fóruns neonazistas e misóginos. Outro indício é que ele usava uma máscara do tipo Columbine, que foi popularizada no Brasil com o massacre de Suzano. Mais um indício: no seu celular havia informações sobre ataques a outras escolas no país.

Semana passada, as Polícias Federal e Civil, com ajuda da Interpol, impediram um massacre numa escola no Rio. O adolescente de 17 anos planejava comemorar os 24 anos de Columbine (em abril). Faz duas semanas que o massacre de Suzano completou quatro anos. Datas assim são celebradas por esses grupos e sempre são perigosas, pois inspiram novos ataques (assim como o o aniversário de Hitler, por exemplo). 
 
Desta vez não há como culpar Bolsonaro ou o governador de São Paulo. Massacres em escolas ocorrem em vários lugares do mundo, principalmente nos EUA (este ano já houve dezenas de tiroteios em escolas americanas). É certo que o adolescente de 13 anos do atentado de hoje preferiria ter um fuzil, e com ele mataria muito mais gente. Aqui no Brasil, não existe incel que não votou no Bolso por causa da promessa de distribuição fácil e farta de armas de fogo. Mesmo assim, os massacres precedem a ascensão da extrema direita.

Ficamos revoltadas e atordoadas sempre que um massacre desses acontece. Imagino o pânico dos estudantes, das professoras, de mães e pais que querem que seus filhos estejam seguros nas escolas. Não há saída simples para o fim dos massacres. Pra mim, tudo passa pela educação. Em dezembro, eu e outras doze especialistas redigimos um relatório sobre esses atentados e como tentar impedi-los. Foi para a área de educação do governo de transição de Lula. É possível lê-lo aqui

Muito mais do que discutir a redução da maioridade penal -- como a direita parece querer pautar agora --, seria mais eficaz se toda a sociedade realmente começasse a falar sobre a proliferação de grupos na internet que usam o discurso de ódio como chamariz. E de maneiras para que esses grupos parem de ser tão bem sucedidos em recrutar meninos. Cada vez mais jovens.