quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

GUEST POST: BULLYING QUE SOFRI FOI RACISTA

A Mariana (que você pode seguir no Twitter pelo @marielux) tem 24 anos, é publicitária e mora no Rio. Ela me enviou um relato muito interessante relacionado a nossa autoestima, aos padrões de beleza, e ao bullying que sofreu na escola. Acho que tod@s nós podemos nos identificar.

Minha história com o bullying começou em 1997, quando esse comportamento ainda nem tinha um nome e era considerado "normal", "coisa de criança" pela maioria das pessoas. Eu morava em um dos subúrbios da Leopoldina no Rio e ia fazer 11 anos quando minha mãe me inscreveu na prova de admissão de uma escola de freiras que era tida como "a melhor da Leopoldina". A escola era bem cara e naturalmente minha mãe se esforçou muito pra poder pagar a mensalidade na época, mas pensava no meu futuro e queria "o melhor" pra mim.
Logo que eu cheguei nessa escola, notei que era diferente da massa de alunos. Pra começar, eu sempre me sentava na frente, gostava de ler, de participar das aulas e detestava as aulas de Educação Física. Além disso, eu era FISICAMENTE diferente: era alta demais pra minha idade, magra demais, com seios já desenvolvidos e tinha um cabelo loiro BEM CRESPO, enquanto as meninas consideradas bonitas e populares eram loiras, de olhos claros e cabelos lisos e longos. Por eu ter esse perfil de me destacar pelas notas, de odiar esportes, de ser "mais pobre" e de ser fora do padrão de beleza das barbies que estudavam lá, não demorou muito para as outras crianças começarem a me perseguir...
Minha vida escolar se tornou oficialmente um inferno em 1998, quando meu nome apareceu em um mural como o de melhor aluna da turma e quando começou a Copa de 98. Sim, a Copa de 98. Lembra do meu cabelo? Pois então, era crespo e loiro, o que me rendeu o apelido de Valderrama, aquele jogador horroroso da seleção da Colômbia. Daí pras musiquinhas sobre o meu cabelo, pros gritinhos de guerra me comparando ao jogador durante a Educação Física e às bolinhas de papel que as pessoas jogavam na minha cabeça pra ver se "grudavam" no meu cabelo, foi um pulo. Eu não sabia como reagir. Tinha hora em que eu xingava as patricinhas de coisa pior, mas brigar não faz parte da minha personalidade, sempre fui uma pessoa pacífica. Daí eu resolvi "ignorar", fingir que não ouvia. Mas, fora da escola, eu só fazia chorar. Chorava muito em casa, já que minha mãe trabalhava e não via. Lembro que um dos dias em que mais chorei foi quando um dos meninos disse algo como ter "nojo" de mim por conta do meu cabelo "duro" e do meu nariz "largo". Eu nunca gostei dos meninos da escola, mas imagina o que é pra uma garota de 12 anos, por mais inteligente que seja, ouvir que alguém tem nojo da sua aparência? É pra matar qualquer autoestima em formação!
As zoações estavam ficando tão insuportáveis que eu comecei a desabafar com algumas pessoas da escola. O que eu mais ouvia, além do "não liga", "ignora", "você tem que ser mais forte" era o infame "ah, então já que você não aguenta, por que você não alisa esse seu cabelo armado?". Assim mesmo, com um tom de conselho, de "vou te dar um toque", mas que só me deixava ainda mais triste. Cansada que eu estava de ser hostilizada por conta de um traço racial (sim, racial, eu posso ter a pele e os cabelos claros, mas eles são crespos por conta do meu pai que é mulato, mas obviamente ninguém aceitava o meu argumento por eu ter a pele branca), comecei a fazer relaxamento. E fiquei tão doente por conta do que as pessoas falavam sobre o meu cabelo que comecei a ficar viciada em tratamentos químicos. Se meu cabelo começasse a armar um pouco, já era motivo suficiente pra eu passar o dia triste e não querer conversar com ninguém...
Minha mãe começou a ver o que estava acontecendo comigo e foi à escola tomar satisfações, foi dizer que processaria os pais dos bullies por racismo se uma atitude não fosse tomada. Mas aqui, de novo, a velha hipocrisia do Brasil a respeito da sua miscigenação: "Ah, mas a Mariana não é negra, ela é loira". Esse tipo de cegueira apenas esvazia a realidade de que existe, sim, um padrão de beleza eurocêntrico no Brasil, que faz com que meninas de cabelos crespos sempre SOFRAM para se adequar. Não importa que eu tenha a pele clara, meu cabelo mostra que eu tenho raízes negras e praticar bullying contra alguém por conta disso é racismo SIM! Ah, mas talvez isso seja pura frescura minha, esqueci que no Brasil, esse país igualitário, essa grande democracia multi-étnica, não existe racismo...
No fim dos anos 90, ainda não havia um debate e nem pesquisas sérias sobre o bullying nas escolas. Como eu disse antes, esse tipo de comportamento nem tinha nome, então a minha escola não fez muito para coibir a prática contra mim... Lembro que rolou um esporro coletivo na aula de Matemática, mas isso só fez a coisa ficar ainda mais forte, já que a "nerd Valderrama" "não tinha força e era idiota de cagoetar pras freiras em vez de ficar quieta". O que acontecia era que o bullying era visto como "coisa de criança", como "normal" e quem reclamasse era por pura frescura ou covardia. Hoje em dia, com os suicídios e tiroteiros generalizados nas escolas americanas por conta de bullying, a abordagem dos educadores vem mudando, mas ainda há muito a ser feito pra matar esse comportamento pela raiz.
Como eu não tive a "sorte" de ser adolescente nos anos 2000, minha vida só ficou um pouco mais tranquila quando eu me dei conta de que o que me fazia diferente dos bullies - minhas notas, meu interesse pelas aulas e minha pouca disposição pra brigar - era o que me fazia melhor do que eles. Comecei a me impor e, em 2000, mudei de escola, fui para o Pedro II, um colégio federal tradicional onde havia alunos de várias origens e que tinham em comum a inteligência. No Pedro II, adotei um estilo alternativo como forma de diferenciação e defesa, mas lá não havia sombra do bullying que sofri na escola anterior.
Hoje eu sou uma pessoa com uma vida legal, me formei pela UFRJ, falo idiomas e trabalho em um lugar legal. Mas o bullying sempre deixa efeitos e estaria mentindo se dissesse pra você que amo meu cabelo. O cabelo é parte fundamental da construção da minha autoestima como mulher, que é baixa. Eu não consigo me achar mais bonita do que as mulheres de cabelos lisos e, até março do ano passado, alisava o cabelo a cada 3 meses. Depois parei de usar química para forçar um processo de auto-aceitação, no qual o seu blog tem me ajudado MUITO, e também porque não é saudável. Tenho um namorado europeu que não é contaminado pelo padrão de beleza daqui do Brasil, então ele jura que me prefere com o cabelo ao natural. Mas eu, infelizmente, não consigo acreditar e algumas pessoas sempre me perguntam como ele, com tamanha oferta de loiras em seu país, namora comigo, como se ele estivesse cometendo um crime. Isso também é uma forma de bullying que me afeta, mas espero conseguir me impor um dia, estou tentando.
Acho que só venceremos o bullying quando aprendermos a aceitar o diferente e não pautarmos nossa vida por um padrão considerado a média ideal. E eu tenho esperanças de que isso um dia aconteça, de que nenhuma criança seja rechaçada por seu cabelo, sua cor, seu peso, seu sotaque... sua particularidade que o faz especial.
No final do ano passado, depois que eu te escrevi, algo mudou: um dia fiquei mal com o cabelo que eu via no espelho (todo quebrado por conta da química, sem vida, metade alisado e com muita raiz crespa) que fiz a louca, fui no salão e cortei, detonei tudo. Ia raspar, mas a cabeleireira fez um corte curto deixando só o que tinha crescido de raiz e agora ele tá 100% natural. Confesso que ainda não me acostumei, ele tá enrolado demais comparado ao que eu cresci ouvindo dizer que era o cabelo "bonito", "certo", "feminino". Mas as pessoas na minha família e na agência em que eu trabalho gostaram do resultado, meu namorado (aquele que vivia dizendo pra eu não alisar mais) adorou. Só falta eu mesma. Efeitos do bullying. Mesmo depois de anos, eu não consigo achar bonito... Mas pelo menos as pessoas estão mudando um pouco a mentalidade e isso é ótimo. Ou será que os adolescentes são mais radicais em excluir os outros do que os adultos?
Agora estou deixando crescer e resistindo bravamente a colocar qualquer tipo de química, mesmo que cresça do jeito que era quando eu sofri o bullying. E vou seguindo assim, na minha luta comigo mesma sobre as influências que o padrão de beleza exerce em toda mulher (minha monografia foi até sobre isso, é algo que me afeta). E, acredite, seu blog nos ajuda muuuito a refletir!

Ano passado publiquei um outro guest post sobre a imposição dos cabelos lisos. E eu gosto bastante deste post que fala da importância do cabelo na identidade feminina. Este trata de como o padrão de beleza é racista. Ah, e procurando fotos pra ilustrar este post, dei de cara com um blog chamado Cabelo Crespo é Cabelo Bom.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

JULIAN ASSANGE DÁ ENTREVISTA EXCLUSIVA À BLOGOSFERA BRASILEIRA

Foi a Natália, da Carta Capital, quem arranjou esta entrevista exclusiva com o fundador da WikiLeaks, Julian Assange, para a blogosfera brasileira. Semana passada ela recebeu mais de 350 perguntas, das quais selecionou doze. Assange, que está sendo processado por crimes sexuais na Suécia e atualmente vive monitorado na Inglaterra, respondeu às questões por escrito. Achei a entrevista, que está sendo publicada hoje, no mesmo horário, por diversos outros blogs, uma delícia de ler. Espero que vocês gostem também.

Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?
Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso, trabalhamos com grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos humanos que têm uma audiência significativa. Muitas vezes isso inclui veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns jornalistas individuais, veículos alternativos e organizações de ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.
Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros países, usamos a equação inversa. O ideal seria podermos trabalhar com um veículo governista e um de oposição.

Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação de informações por oligopólios de mídia?
A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque em 2003, alavancada apela grande mídia dos Estados Unidos.

Eduardo dos Anjos - Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela sua ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?
O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos. Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa reputação.
Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se vamos ou não publicar o seu material.
Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica, que sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos por alguma ordem judicial.

Vários internautas - Que tipo de mudança concreta pode acontecer como consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas esferas e o público?
James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças que acontecem quando o conhecimento é democratizado.
Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um governo e quem são os mais poderosos dentro de uma corporação.
Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto uma força equalizadora e democratizante na sociedade.

Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder. Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de valores e provavelmente influenciam a política dos países citados nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização frente à opinião pública mundial?
O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem.
Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais, porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização essencialmente pública; não fazemos nada que não contribua para levar informação às pessoas.
O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles “votam” com as suas carteiras.
Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível. Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar.
O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também “votam” por nós todos os dias.

Daniel Ikenaga - Como você define o que deve ser um dado sigiloso?
Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte maneira: "quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo de informação do resto da população?"
A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em uma determinada posição. Assim, o seu medico deve ser responsável por manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das circunstâncias - mas não em todas.

Vários internautas - Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse que pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do WikiLeaks. Quais os planos futuros? Se o governo brasileiro te oferecesse asilo político, você aceitaria?
Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro. Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente Brasil.

Vários internautas - Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai acontecer com o WikiLeaks?
Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos intimidamos nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós.
Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo, quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as publicações de documentos continuaram.
Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.

Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual realidade mudou com as informações a que você teve acesso?
O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas revelações ainda está por vir.
Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu li até agora - tendo em mente que são 250 mil - seria aquele que pede aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações – entre elas a ONU.
Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.

Tarcísio Mender e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o “criminoso do ano”, enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?
A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de mídia multinacionais. Isso me parece correto.
Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana) Saturday Night Live sobre a situação: "Eu te dou informações privadas sobre corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o 'Homem do Ano’."
Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a facção pró-Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas depois.

Vinícius Juberte - Você se considera um homem de esquerda?
Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e definitivamente há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.
Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando obedientes a eles.
Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os governantes, nós estaremos do lado das pessoas.
Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de esquerda. Não é correto. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e justiça – e isso se encontra em muitos lugares e tendências.

Ariely Barata - Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua trajetória. Qual sua opinião sobre isso?
Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase uma dúzia de livros estão para ser publicados. Eu não estou envolvido em nenhuma produção de filme no momento.
Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar "WikiLeaks Filme Noire".

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

COMENTÁRIOS SOBRE AS INDICAÇÕES DO OSCAR

Saíram as indicações pro Oscar! (pensei que sairiam depois de amanhã, disfarça. Aqui tem todas).
O Discurso do Rei conseguiu mais indicações (doze), o que é um número incrível e pode afetar as chances do favorito, A Rede Social (com oito indicações). Se Rede não ganhar melhor filme, ganha Discurso. Não tem pra mais ninguém. Não gosto disso de haver dez indicados pra melhor filme, mas enfim. Não muda muito. No momento já vi quase todos os indicados a melhor filme (só Toy Story 3 que não), e todos são bons. Desses, os que menos gostei foram Bravura Indômita (um faroeste totalmente convencional), 127 Horas (emocionante e tal, mas nada memorável), e O Vencedor (boxe é tão argh). A Origem, pra mim, continua sendo o melhor filme do ano. Mas terá que se contentar com prêmios técnicos (vou escrever sobre quase todos os outros filmes - Cisne Negro, Inverno da Alma, além dos já citados - assim que estrearem no Brasil. Já falei de Minhas Mães e Meu Pai).
Diretor – muita, muita sacanagem deixarem de fora o Christopher Nolan. E não é a primeira vez. Acredite se quiser: Nolan, que pra mim é o diretor da década junto com Tarantino, só foi indicado ao Oscar uma vez, como roteirista de Amnésia. Vai ganhar o David Fincher, sem dúvida. Fincher ganharia mesmo que Nolan tivesse sido indicado. Mas que é maldade das grossas, ah, isso é.
Ator – Preferiram o Javier Bardem ao Ryan Gosling. Sinal de prestígio do espanhol. Não faz mal. Vai ganhar o Colin Firth, que já levou o Globo de Ouro. E ele merecia ter vencido já no ano passado, por Direito de Amar (A Single Man).
Atriz – Ainda não vi Blue Valentine, então não posso falar da Michelle Williams. Mas todas as que entraram estavam cotadíssimas. Fico feliz pela Jennifer Lawrence (Inverno da Alma), que só tem 20 anos e ainda vai dar muito o que falar. A Nicole Kidman já tem um Oscar, mas seu papel em Rabbit Hole é o melhor em anos. Entretanto, a disputa ficará mesmo entre Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai) e Natalie Portman (Cisne Negro). Ambas ganharam o Globo de Ouro em suas respectivas categorias (comédia e drama). O Oscar costuma discriminar comédias, mas Minhas Mães tá mais pra drama em vários pontos, e Cisne Negro é terror, outro gênero comumente preterido. Natalie faz um papel dificílimo, ousado, de entrega total. E é jovem, e na última década o Oscar tem premiado atrizes com menos de 40 anos. Acho que o favoritismo é dela. Annette, porém, é uma excelente atriz já com 52 anos (idade em que os papéis começam a rarear), nunca ganhou, e é uma lenda em Hollywood por tirar Warren Beatty da sua eterna condição de Don Juan, num casamento que já dura vinte anos. O fato de não terem indicado Julianne Moore é uma vantagem pra Annette, porque elas dividiriam votos. Olha, vai ser acirrado entre Natalie e Annette.
Ator coadjuvante – Andrew Garfield deveria ter sido indicado. Ele é a consciência moral de Rede Social (rimou!). Mas todos os cinco estão bem na lista. John Hawkes é um desconhecido e, num filme como O Inverno da Alma, que pertence inteirinho à protagonista, é legal que ele não tenha sido esquecido. Jeremy Renner rouba todas as cenas de Atração Perigosa, e fico feliz que Mark Ruffalo tenha entrado (sua interpretação em Minhas Mães e Meu Pai passou batida pela crítica). Mas este ano vai dar o Christian Bale por O Vencedor. Não tem pra ninguém. Além d'ele estar ótimo e merecer algum tipo de reconhecimento faz tempo, ele ainda fez aquilo que Hollywood ama ― perdeu quilos e quilos pro papel. No entanto, se eu tivesse que premiar alguém, premiaria o Geoffrey Rush, por Discurso do Rei. Mas ele já tem um Oscar na lareira (por Shine - Brilhante).
Atriz coadjuvante – Pode escrever: vai ser a categoria mais imprevisível da noite. Estranho Mila Kunis ter ficado de fora (Cisne Negro). E acho bem ridículo Hailee Steinfeld entrar aqui, e não em atriz. Ela é a única atriz de Bravura Indômita, sua personagem aparece o tempo todo, é a narradora... Como ela pode ser coadjuvante? (Deve ser pela idade, 14 aninhos, ou por ser desconhecida). Eu não vi Animal Kingdom ainda; dizem que Jacki Weaver está ótima como uma das piores mães em tempos recentes. Helena Bonham Carter está um doce em Discurso do Rei, mas aparece pouco. Por outro lado, ela nunca ganhou um Oscar (aliás, esta é apenas sua segunda indicação!), e todo mundo gosta dela e de seu marido Tim Burton. Melissa Leo levou o Globo de Ouro por O Vencedor, então em tese ela sairia na frente (e também porque concorreu a melhor atriz no ano retrasado por Rio Congelado). Mas a indicação de Amy Adams pelo mesmo filme tende a dividir os votos. É raro uma atriz/ator ganhar quando dois são indicados pelo mesmo filme na mesma categoria. Portanto, esta é uma corrida aberta. Pode dar qualquer uma das cinco. Bom, talvez não a Amy. Talvez.
Roteiro original – Outra categoria embolada. Acho que fica entre A Origem (seria uma chance da Academia premiar Christopher Nolan, que é o roteirista, e mostrar que não tem nada contra ele, porque acredite, vai ter muita reclamação por ele nunca ter sido indicado como diretor), Minhas Mães e Meu Pai (também premiaria a diretora Lisa Cholodenko), e Discurso do Rei. Complicado. Como Discurso tem doze indicações, a vantagem é dele. Mas os outros dois são mais criativos, principalmente A Origem.
Roteiro Adaptado – O favoritismo tá todo com A Rede Social. E Aaron Sorkin já ganhou o Globo de Ouro.
Filme estrangeiro – Ainda não vi nenhum, mas talvez o mexicano Biutiful seja o favorito, junto com Em um Mundo Melhor (Dinamarca). Os outros três são Incendies (Canadá), Dente Canino (Grécia), e Fora da Lei (Argélia).
Pra mim a segunda maior mancada (depois do repúdio ao Nolan) é não terem indicado A Origem pra melhor edição. Edição, gente! Edição e roteiro são as principais forças de Origem!
Do jeito que eu tô vendo, seria possível Bravura Indômita (dez indicações) e 127 Horas (seis) sairem com as mãos abanando. Certamente vai ser uma premiação bem pulverizada.
Ah, Lixo Extraordinário, uma coprodução brasileira e britânica, foi indicado a melhor documentário (todo mundo sabia que Lula, o Filho do Brasil, não seria indicado pra Filme Estrangeiro. Não tinha nem perfil pra isso. Mas os outros filmes brasileiros do ano passado também não).
A entrega do Oscar será daqui a um mês, no dia 27 de fevereiro. Esta semana eu ainda falo do meu tradicional bolão do Oscar. Você vai participar, né?

PADRONIZAR É IGUALAR AS PERDAS

Descobri um dado que é interessante pra quem acha que média é algo necessariamente positivo. A palavra average (média, em inglês) vem do árabe awar, que significa mácula ou defeito. Isso se tornou awariyah, que quer dizer mercadoria defeituosa. No português e no italiano isso virou avaria, mas foi para o francês como avarie, querendo dizer dano no envio. No contexto da época, era o dinheiro que se jogava fora quando um produto era danificado ou perdido durante uma viagem de barco. Essas perdas eram compartilhadas em partes iguais por todos que tinham dinheiro investido na viagem. É dessa ideia de igualar a perda que vem a média. Avarie, com essa mesma noção, tornou-se average em inglês.
Dois anos atrás escrevi um texto chamado “Quando a média se tornou o ideal”, em que eu falava da Patrulha da Normalidade, que a cada desvio do que é considerado padrão, vem com suas luzes e seu barulhão uó, uó, uó, pra nos trazer de volta à média, de onde não deveríamos nunca ter saído. Alguns exemplos: você não tem carro e nem quer ter? Pô, isso é seríssimo, todo mundo (que não seja pobre) deve ter como prioridade máxima um carro, e se você não quer está mentindo, você quer mais que nada no mundo, só está dizendo que não por não poder comprar. Você está fora do padrão de beleza e é feliz? Opa, não pode não, no mínimo você precisa sentir-se miserável e fazer o possível e o impossível para entrar na linha. Naquela linha pontilhada lá, viu.
No doutorado tive a oportunidade de ler um excelente artigo chamado “Constructing Normalcy” (“Construindo a Normalidade”; faça o download aqui). Seu autor, Lennard J. Davis, diz que certas palavras como média e normal só entraram no vocabulário das línguas europeias em 1840, substituindo o ideal. O normal, a média, pegou o lugar do ideal. Isso não é fascinante? Acontece que o padrão é muito mais danoso que o ideal, já que o ideal carrega a aura de inatingível. Perder quinze quilos seria o ideal praquela mocinha, mas, como é impossível, se perder sete já entra no normal. Mas se ela não perder esses sete, ihhh, cuidado, porque aí ela tá fora da média, e isso não iremos permitir.
Assim como a média substituiu o ideal, a origem dessa palavra vem de avaria. E não apareceu para equiparar os ganhos, mas as perdas. Acho que isso já diz bastante sobre essa normalidade, esse padrão, que queremos alcançar a qualquer custo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SÓ LEMBRAMOS QUE ERA HOMEM

A Renata escreveu um post que me fez lembrar de uma das minhas histórias de horror (porque, vocês sabem, toda mulher tem pelo menos uma pra contar, e os homens, tolinhos, vivem confortavelmente achando que nada disso acontece, ou que só psicopatas atacam mulheres e crianças). O que me chamou a atenção na história da Renata foi o sentido de impotência, de sentir-se perdida num mundo cheio de predadores. Com ela foram duas vezes no mesmo dia: primeiro, ela, com 19 anos, à tarde, sozinha no cinema, vendo Twister, quando viu um cara se masturbando a duas fileiras da dela. Chocada, ela foi pra outra cadeira, mas o cara a seguiu e sentou-se atrás. Ela saiu correndo do cinema, chorando, falou com a caixa da bilheteria, nada. Foi embora, ainda chorando, quando um homem de meia idade perguntou por que ela estava chorando e, em seguida, disse que sabia como consolá-la. O que você faz com monstros assim? Esse último é do tipo que, se ouvir que o pai dele tá estuprando uma menina, não vai denunciá-lo, e sim reivindicar a sua parte.
Renata, muito eloquente, diz sobre o masturbador no cinema: “não me lembro se era velho ou jovem, branco ou negro, careca ou cabeludo, gordo ou magro. Só me lembro que era homem”.
Eu lia aquilo e pensava: putz, que azar, dois tarados no mesmo dia?! Na mesma semana é totalmente normal, mas no mesmo dia?! Aí me lembrei que eu também tive meu dia premiado. Já contei aqui, mas quero contar de novo. Eu tinha mais ou menos a idade da Renata e vivia em SP e queria muito ver Era uma Vez na América, que tava passando no Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Como o filme dura quatro horas, não arranjei ninguém que me acompanhasse num dia da semana, e lá fui eu sozinha. O cinema estava vazio, era oito da noite. Mas homem não pode ver mulher sozinha, né? Veio um sentar-se ao meu lado. Eu me mudei de cadeira. Aí veio outro. Tive que me mudar de novo. E mais outro. Acho que foi um total de três ou quatro vezes. Quatro completos imbecis incapazes de entender que eu tinha ido ao cinema pra ver um filme, não pra arranjar namorado, transar, ou ser musa de suas masturbações. Gente, tarado se masturbando no cinema é a coisa mais comum que existe. Minha mãe, que já era cinquentona na década de 80, foi ver Berlim Alexanderplatz, que deve ser um dos programas mais deprês do mundo, no cine Belas Artes (que talvez será tombado). E um sujeito foi se masturbar ao seu lado mesmo assim, porque, né, pra que mais uma mulher iria a um cinema de arte ver um filme do Fassbinder se não fosse pra servir de inspiração prum macho? Uma leitora contou uma vez que um criminoso (não dá pra atenuar) ejaculou na perna da irmã dela no cinema. Outra, mais sagaz, com uma reação mais rápida, assim que notou o que estava acontecendo, levantou-se e falou, em voz altíssima pra todo mundo ouvir: “Será que o tiozinho pode bater uma em outro lugar?”. Pra mim, sinceramente, é chocante que essas coisas que aconteceram comigo vinte e poucos anos atrás sigam acontecendo. Não podemos nos calar. Nada de abaixar a cabeça e ter vergonha. Quem tem que ter vergonha é o desgramado que acha que tudo bem se masturbar em público. Levante-se, grite, chame o segurança na hora. Não prenderam um carinha de 18 anos por beijar um garoto de 13 que era sua paquera, ambos de comum acordo? Então acho que há base pra prender um idiota te perseguindo pelo cinema com as mãos por baixo das calças.
A gente facilita demais a vida desses infelizes se apenas vamos embora ou mudamos de lugar. Eles não vão dar a mínima e buscarão a próxima vítima. Tá muito fácil pra eles. Já contei que fiquei perplexa com a minha passividade faz uns cinco anos, numa viagem de ônibus entre Floripa e Joinville. Um senhor de uns 65, 70 anos, sentou do meu lado. Até aí era poltrona marcada, tudo bem. E o sujeito desandar a conversar comigo? Tudo bem também, eu sou simpática, algumas pessoas são carentes, eu converso. Mas ficar segurando a minha mão? E beliscar a minha perna? Não, aí não tá tudo bem. Começar a dizer que eu era bonita e fazer gestos duvidosos? Enveredar por uma conversa ambígua? Definitivamente não tudo bem.
E qual foi a minha reação diante de tudo isso, euzinha aqui, que me considero feminista desde os oito anos de idade? Foi fazer um escândalo, gritar, parar o ônibus e exigir que o cara trocasse de assento? Não, nada disso. Primeiro foi usar um dos subterfúgios mais covardes e machistas que existem, mencionar que sou casada. Porque, né, se o medonho sabe que eu tenho dono, talvez ele me deixe em paz. Isso raramente funciona – eles não são ciumentos. E também, o cara tem que me respeitar porque eu sou um ser humano que merece ser respeitado, não por eu ter um homem. Então eu levei loooongos minutos até esboçar uma reação (até porque, admito, eu sou lerda e demoro pra entender a situação). E aí, quando vi que de jeito nenhum que eu iria pegar no sono ao lado do taradão, o que fiz? Falei pra ele mudar de poltrona? Que nada, eu sou uma trouxa. Eu inventei uma desculpa pra que eu, hiper florzinha delicada que sou, me mudasse de lugar, sem ofender os sentimentos daquela pobre alma libidinosa.
E quero acreditar que, já num novo lugar, já segura, eu me senti imediatamente mal por ter sido tão passiva. Eu pensei: não acredito que eu fui gentil com um verme desses. Só porque ele era velho? E daí? Isso lhe dá carta branca pra ser palhaço? E nessa hora eu decidi: nunca mais. Tá muito fácil pra eles. Quequié, um cara começa a me importunar e o máximo que pode acontecer de ruim é eu inventar uma desculpinha pra mudar de lugar? Temos que dificultar, senão eles não vão mudar (e lógico que cabe a eles mudarem o comportamento. Mas também acho que precisamos reagir).
Voltando a minha sessão de Era uma Vez na América no cine Bijou. Acabou o filme, meia noite, eu peguei um ônibus e fui pra casa. Morava numa área nobre de SP, perto do FHC, em Higienópolis. Desci na Av. Angélica e, quando estava na R. Sergipe, quase em frente ao prédio onde eu morava, fui agarrada por trás. Nem tive tempo de pensar: eu caí. Meus óculos caíram longe. Eu me levantei imediatamente e parti pra cima do cara. E o cara também nem piscou: ele fugiu em disparada. E eu atrás dele, gritando, furiosa. É até engraçado, né? Por que corri atrás dele? O que eu faria se o pegasse? Não tenho a menor ideia, mas não foi pensado. Foi instintivo. Eu tava com muita raiva, e isso deve deixar a gente mais forte.
Aí fui pra casa. Cheguei lá, imagino, chorando a essa altura, e meu pai, ao ver meu desespero, desesperou-se também. Ligou pra polícia e desceu pra rua, querendo muito encontrar o criminoso. Nada. Ficamos lá os dois, com muito ódio e nojo de viver num mundo em que uma mulher não pode sair sem ser atacada. E eu me lembro exatamente o que a Renata se lembra: não me lembro do rosto do sujeito que me derrubou, ou dos quatro que me abordaram no cinema, tudo isso no mesmo dia. Não me lembro se eram velhos, jovens, magros, gordos, nada – só me lembro que eram homens.
E aí, quando a gente conta essas coisas, a reação masculina costuma ser: putz, você tá me ofendendo! Você tá generalizando e atacando o meu pobre gênero! Eu não sou assim, e eu nunca atacaria uma mulher! Pelo contrário, se alguém fizesse isso com a minha mulher, minha mãe, minha irmã, minha filha, eu matava o crápula! Pois é, não são todos os homens. Mas sabe, são muitos. São demais. E eles queimam o seu filme também. Porque, quando a gente vê um cara sozinha no cinema, quando um cara vem na nossa direção à noite, na rua, a gente não tá nem aí se você é bonzinho. É homem, a gente tem medo. Nosso passado, toda uma vida de humilhações e abusos começados quando a gente ainda é criança, nos ensinou a ter medo. Não tente nos convencer que nosso medo é irracional. Quer mudar a situação? Ajude a mudar os homens. Seus amigos, seus conhecidos, seus parentes. O quê, eles também jamais fariam qualquer barbaridade contra uma mulher? Puxa, que estranho. Alguém tá fazendo. Se toda mulher tem uma história de horror pra contar, e você não conhece nenhum homem que protagonizou uma dessas histórias, há algo de errado nessa equação. Vai ver que a Terra foi invadida por marcianos e ninguém nos avisou.
E a gente até fica feliz que você diga que mataria alguém que humilhasse uma mulher conhecida sua, mas não é isso que importa. A gente não quer um príncipe encantado pra nos salvar. A gente não quer um justiceiro, até porque justiceiros muitas vezes costumam cobrar a fatura. Não. A gente não quer ter que se defender e nem quer que você nos defenda. A gente só não quer ser atacada. Agora olha nos meus olhos e me diga que é pedir demais.