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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

PARABÉNS, SILVIO, CAMPEÃO BRASILEIRO VETERANO DE XADREZ!

Estou que não me caibo de orgulho do maridão! Ontem à noite acabou em João Pessoa o Festival Nacional Senior (+50 e +65), e Silvio Cunha Pereira ganhou na categoria veterano (acima de 65 anos). Ele também ficou em segundo no blitz (em que as partidas duram 5 minutos pra cada jogador), que não é o ritmo dele. Sinal que ele estava num final de semana inspirado (na verdade, o torneio começou na quinta).

Silvinho já tinha sido campeão panamericano veterano de xadrez em 2022, quando recebeu o cobiçado título de mestre internacional. Agora ele é campeão brasileiro veterano! Sua performance em João Pessoa foi impecável: venceu cinco partidas e empatou uma. Terminou com um ponto na frente do vice-campeão, José Costa Fernandes Jr, e do terceiro colocado, Milton Kasuo Okamura. 

Seu amigo de longa data e companheiro de equipe Wagner Madeira, que já havia homenageado Silvio com um belo texto dois anos atrás, agora enviou mais um, que publico aqui:

O MI Sílvio Pereira acaba de se sagrar Campeão Brasileiro Veterano! A competição, em seis rodadas no ritmo clássico, teve como sede a cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. Somou 5.5 pontos (5 vitórias e 1 empate, para o MF Herbert Carvalho).

Para quem não sabe, Sílvio foi um dos primeiros enxadristas de Osasco a se destacar no cenário nacional, no início dos anos 70, na categoria infantil.

Desde sempre, foi figura de proa nas competições individuais e por equipes. Participou com brilho das campanhas que fizeram de Osasco tetracampeã brasileira interclubes (85, 87, 89, 90), feito jamais igualado por outra agremiação.

Mais recentemente, em 2022, ganhou o Campeonato Pan-americano Veterano, em Florianópolis, o que lhe garantiu o título de mestre internacional.

Na história do xadrez brasileiro, poucos enxadristas rivalizam com a inventividade do nosso mestre, seja na habilidade tática em uma posição de ataque, seja na destreza frequentemente sutil na condução de complicados finais. Tais habilidades são compartilhadas com os talentos da Escola de Xadrez, treinados em aulas online. Sílvio é muito querido por seus alunos.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

A NARRATIVA DA DIREITA PARA AS TENTATIVAS DE GOLPE NO BRASIL E NOS EUA

Como a extrema-direita está longe de ser enterrada, e como ela segue criando e espalhando suas versões mentirosas pro que aconteceu nos EUA em 6 de janeiro de 2021 e no Brasil em 8 de janeiro de 2023, vale muito ler a coluna de Natalia Viana, publicada na newsletter da Agência Pública. 

Capitólio nos EUA e 8 de janeiro no Brasil seguem sendo objeto de disputa

Na semana [do primeiro aniversário da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023], olhamos para um copo com um tanto de água e quase todo mundo viu ali um copo meio cheio. A pesquisa da Qaest sobre o 8 de janeiro quantificou: 89% dos brasileiros reprovam atos golpistas de 8 de janeiro e 6% aprovam. 

Encontrei só um colunista que viu ali um copo meio vazio, meu amigo Leonardo Sakamoto, a quem sempre acho prudente ouvir. Ele alertou que 6%, calculando assim meio por cima, cerca de 9,5 milhões de pessoas, é muita gente, uma “multidão que pode ajudar a desestabilizar a democracia através da propagação de mentiras, do bloqueio de estradas, da violência civil organizada”. 

Eu acrescentaria outro dado da pesquisa: há um ano, eram 94% os que diziam reprovar os atos, ou seja, existem aí possivelmente, sem contar a margem de erro, uns 8 milhões de brasileiros que passaram a achar que o golpismo era, sim, desejável e quiçá necessário. 

Prova de que o passado nunca é estanque e de que, quando carregado politicamente como foi nosso Capitólio abrazucado, seu significado e interpretação seguem em disputa. Como, aliás, o Capitólio original, ocorrido em 6 de janeiro de 2021 em Washington, e do qual a invasão da Praça dos Três Poderes foi apenas uma cópia, instigada, insuflada e, ao que tudo indica, orientada pelos mesmos mentores, tais como Steve Bannon, cuja coordenação com Eduardo Bolsonaro nós cansamos de demonstrar aqui na Agência Pública.  

Para marcar o 6 de janeiro em ano eleitoral, Joe Biden fez um duro discurso na sexta-feira anterior, afirmando que os republicanos “abandonaram a verdade e abandonaram a nossa democracia”. Foi seu primeiro grande discurso de campanha. No dia seguinte, marcando a data, o presidente americano postou no Twitter (ou “X”, vá lá) um vídeo que mostra Trump elogiando os golpistas do Capitólio, dizendo que “havia amor e unidade” entre os invasores. Assim, Biden demonstrou que pretende levar o atentado à democracia americana como mote principal da campanha. Os aliados de Trump, aparentemente, querem o mesmo.     

No mesmo dia, a newsletter de Steve Bannon, à qual eu, infelizmente, submetendo-me aos ossos do ofício, assino e leio, trouxe um artigo do ex-chefe de gabinete do Departamento de Defesa durante a administração Trump, Kash Patel, que dava o tom da linha que será adotada pela candidatura do republicano. Segundo ele, “a narrativa dos democratas sobre o 6 de janeiro está desmoronando, o Estado profundo [deep state] está na defensiva e há uma enorme operação para encobrir corrupção em andamento” – tudo porque o maior temor dos democratas, diz Patel, é a volta de Trump. 

Adotando um tom irônico, Patel finaliza o texto com uma pergunta: “Não há chance de o FBI e a mídia estarem conduzindo outra operação de desinformação para manipular as eleições desta vez usando mentiras e sobre a insurreição de 6 de janeiro, não é verdade?” 

O texto de Patel dá a senha: os trumpistas já estão preparando uma nova onda de mentiras sobre eleições manipuladas. Sim, veremos isso em 2024. 

O mesmo Patel apareceu no podcast de Steve Bannon em dezembro do ano passado explicando que a tchurma de Trump tem planos de perseguir todos aqueles que tentaram frear ou punir o atentado golpista – ele usa, de maneira sórdida, o argumento reverso de que são eles, na verdade, os guardiães da democracia.

“Nós vamos atrás e vamos encontrar os conspiradores – não apenas no governo, mas na mídia… vamos perseguir as pessoas na mídia que mentiram sobre cidadãos americanos, que ajudaram Joe Biden a manipular eleições presidenciais… Vamos atrás de vocês. Seja criminal ou civilmente, vamos descobrir isso. Estamos avisando. E Steve, é por isso que nos odeiam. É por isso que somos ‘tirânicos’. É por isso que somos ‘ditadores’… Porque vamos realmente usar a Constituição para processá-los por crimes dos quais disseram que sempre fomos culpados, mas nunca fomos.”

Poderia até parecer verborragia de algum fanático radical, mas uma reportagem do site Axios afirma que Patel está sendo cotado para uma posição de primeiro ou segundo escalão na política de defesa e segurança, se Trump for eleito. O quê, como sabemos, é uma possibilidade real nestes dias que abrem o ano de 2024.  

Por aqui, parece que por ora a narrativa em torno do 8 de janeiro não será objeto de disputa tão feroz, uma vez que a inelegibilidade de Jair Bolsonaro decretada pelo TSE parece, por ora, ter resolvido a questão. Além do fracasso da CPI do Golpe de tentar culpar o governo. 

No entanto, quem observa as redes sociais do ex-presidente não pode deixar de notar que a estratégia de desacreditar (e talvez reverter) essa inelegibilidade está sempre presente: há meses, quase todos os vídeos e fotos mostram Bolsonaro sendo recebido por pequenas multidões de fãs, demonstrando sua “enorme popularidade” (muitas aspas), em contraste com o que repetem ser a “impopularidade de Lula”. São frequentes comentários perguntando: onde estão os 60 milhões de eleitores de Lula”, por exemplo.   

No dia 6 de janeiro, Bolsonaro repostou no seu Twitter um vídeo do presidente do PCO, Rui Costa, para fomentar a narrativa de perseguição. “Presidente do PCO, Rui Costa Pimenta: ‘o único candidato capaz de derrotar o Lula é o Bolsonaro, por isso a perseguição…’, escreveu o ex-presidente. Dias antes, como mensagem de ano novo publicou também um videozinho caminhando pela Barra, no Rio, e evocando os batidíssimos versos bíblicos de João 8:32: “a verdade nos libertará”, uma alusão nada discreta à investigação judicial do 8 de Janeiro. 

Se é um fato que nenhum milagre vai salvar os golpistas – como demonstrou o discurso de Alexandre de Moraes e a nova ação da PF especificamente contra os mandantes no próprio dia 8 –, é fato também que há muita gente trabalhando para reduzir a aceitação popular ao fato de que houve, sim, uma tentativa de golpe de Estado. Como os mais de 400 membros e voluntários da Associação dos Familiares e Vítimas de 8 de Janeiro (Asfav) – retratada em reportagem da Pública [na primeira semana de janeiro], que decidiram ser indissociável a defesa dos seus entes queridos de atacar o STF pelo que chamam de “violações de direitos humanos” e de “prerrogativas dos advogados”. 

Não há como defender os seus familiares, ainda, sem negar que houve tentativa de golpe. E nessa toada a associação conseguiu portas abertas em gabinetes dos bolsonaristas no Congresso e a realização de algumas audiências públicas na Câmara e no Senado para discutir a situação dos presos. A morte de Cleriston Cunha, de 46 anos, que faleceu na Papuda em novembro, embora tivesse parecer de soltura expedido pela PGR, deu uma nova bandeira a essa turma. 

O que fica claro é que não há ainda uma versão final do que ocorreu em 8 de janeiro – afinal, ainda estamos descobrindo muita coisa – e nem a sociedade brasileira como um todo está convencida de que se tratou de uma tentativa de golpe de Estado. O que é grave. Porque demonstra que as bolhas informacionais seguem funcionando a toda e que, como sociedade, ainda não estamos na mesma página.   

E, claro: este é um ano eleitoral, quando a polarização, as cisões, os ataques virulentos e o pânico moral rendem dividendos em forma de votos.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

IRINA KARAMANOS, A MAIS JOVEM EX-PRIMEIRA DAMA DO CHILE

Publico aqui mais um excelente post da nossa correspondente oficial no Chile, a jornalista Isabela Vargas (que, além de jornalista, também é mãe da Gabriela, feminista e integrante da coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile). 

Perguntei pra ela se lá no Chile as pessoas andam preocupadas com as eleições da vizinha Argentina, que no domingo pode eleger o maníaco da serra elétrica Javier Milei, causando um grande estrago em toda a América Latina. Ela respondeu que no Chile todos estão em campanha contra o texto da nova constituição, que foi escrito por um conselho constitucional formado pela extrema-direita. O plebiscito está marcado para o dia 17 de dezembro. "Torce por nós!", pede ela. "Tem muito retrocesso no novo texto. Consegue ser pior que a constituição do Pinochet".

A gente não tem um minuto de paz! Mas leiam sobre essa decisão da (ex) primeira-dama chilena e avaliem se pode influenciar outras primeiras-damas. Nossa Janja, sabemos bem, é alvo constante da extrema-direita daqui, mas parece gostar de ser primeira-dama (ela tem opção?). Eis o post da Isabela:

Na última semana, as redes sociais do Chile sacudiram com trechos do TED Talk com a ex-primeira-dama chilena Irina Karamanos Adrian. Num dos vídeos, ela explica os motivos que a levaram transformar o papel tradicionalmente atribuído às companheiras dos presidentes eleitos nas democracias modernas.

O argumento é muito interessante e bastante válido. Na visão de Irina, o cargo de primeira-dama é resultado de afeto e não de um processo democrático. Por conta disso, ela abandonou o cargo em dezembro de 2022, mas antes disso, fez as transformações necessárias.

Na apresentação do TED Talk, Irina explica que nem ela, nem ninguém mais, sonha com ser primeira-dama do Chile, quando se pensa em um futuro profissional. No caso dela, é fácil de entender, especialmente, porque além de feminista, militante do mesmo partido do Gabriel Boric (Convergencia Social), ela tem um excelente currículo, especialmente na área acadêmica.

Irina é formada em Artes Visuais e estudou Ciência Política, Educação e Antropologia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Além disso, tem diploma em Diversidade Linguística pela Universidade Autônoma de Barcelona.

Aliás, em se tratando de diversidade linguística, o currículo dela realmente impressiona. Ela fala espanhol, alemão, inglês, indonésio básico e grego. Recentemente, começou a estudar Kawésqar, língua do povo originário no extremo-sul do Chile e que é falada por apenas uma pessoa.

Na apresentação do TED Talk, ela explica que enfrentou muitas críticas no início do governo Boric, quando tomou a decisão de assumir o cargo de primeira-dama. Apesar de ter deixado claro desde o início que a sua intenção era fazer uma mudança nos rumos do gabinete, as principais organizações feministas no Chile não gostaram nada.

Mesmo assim, ela encarou de frente o desafio e começou o trabalho. Aos poucos, foi repassando as fundações ligadas ao gabinete para determinados ministérios. O trabalho foi concluído em dezembro do ano passado, quando ela anunciou sua saída do Palácio La Moneda.

Oficialmente, Irina Karamanos continua acompanhando Gabriel Boric em eventos protocolares. No entanto, ela agora retomou a sua militância política dentro do partido que os dois fazem parte, além de participar dos TED Talk.

Em sua primeira participação, ela teve a oportunidade de contar como está combatendo os estereótipos de gênero. Para Irina, ao abandonar e extinguir o gabinete de primeira-dama, ela está devolvendo o poder político a quem realmente pertence, ou seja, para pessoas que foram diretamente eleitas pelo voto e, desse modo, protegendo a democracia.

Considerando que os dois são muito jovens (ela tem 32 e ele, 37) e de uma geração que veio realmente para promover mudanças na velha estrutura tradicional da politica, me parece muito interessante a atitude dela. Vamos ver se os próximos governos eleitos irão manter e respeitar essa inovação.

Um dos trechos da palestra dela que mais me chamou a atenção foi quando ela mencionou como temos forte no nosso imaginário a imagem do homem sempre acompanhado, principalmente, aqueles que ocupam cargos de poder. 

E não pude deixar de lembrar do Boric na cerimônia de abertura dos Jogos Pan Americanos sozinho, brincando com o sobrinho dele, um bebê de apenas alguns meses nos braços.  A primeira coisa que eu pensei: onde está a Irina?

Por outro lado, nunca me causou estranheza ver a Dilma sozinha, acompanhada da filha e do netinho em eventos protocolares importantes. Assim como a Bachelet, que desempenhou os dois mandatos [de presidenta do Chile] como uma feliz divorciada. Realmente, são estereótipos que levam muito tempo para se desconstruir. O importante é que a Irina Karamanos está dando os primeiros passos para romper essas estruturas. Acho que isso é super válido.

Se realmente, veremos essas mudanças respeitadas no futuro, não temos como saber. O que estamos testemunhando agora é uma grande inovação, num mundo que está mudando muito, especialmente no Chile, onde as mulheres e o movimento feminista cada vez mais ocupam seu legítimo espaço na disputa política.  

Eu observo com muita alegria esse movimento porque minha filha de 8 anos já tem assimilado que o futuro é feminino. Recentemente, estudando os gregos em História no colégio ela ficou chocada quando viu que as meninas não recebiam educação escolar, somente os meninos. É muito bom saber que daqui pra frente, as mulheres querem sair desse espaço de estar à sombra de alguém simplesmente porque elas não querem e sabem que podem mais. 

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

COM QUANTAS PILOTAS E COMISSÁRIAS DE BORDO NEGRAS VOCÊ JÁ VOOU?

Eu me lembro da Luana Tolentino dos primórdios deste blog. Ela comentava sempre aqui. Minha mãe sempre falava dela, tinha uma enorme admiração por ela. Foi lindo ver a Luana crescer cada vez mais. Hoje ela é educadora, doutoranda da UFMG, palestrante, referência na luta antirracista, autora dos livros Sobrevivendo ao Racismo e Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, entre inúmeros atributos.

Tomo a liberdade de reproduzir aqui seu artigo mais recentes na Carta Capital, "Racismo explica a ausência de comissários de bordo negros nas empresas aéreas do Brasil", onde ela declara, citando dados, que ano passado não havia uma única mulher negra trabalhando como pilota no Brasil. No serviço de bordo não melhora muito: há 2,3% de negras que são comissárias (não se diz mais -- faz tempo -- "aeromoças"). Mas sabe onde tem negras? Na limpeza. Pois é, é puro racismo!

Ontem divulguei o artigo no meu Twitter e uma leitora, a Lorrene, recomendou o site Quilombo Aéreo, uma instituição incrível com um grupo de psicólogas, advogadas, mestres e doutoras negras que buscam visibilizar tripulantes negras e negros da aviação civil brasileira.

No site deles descobri que o aeroporto de Fortaleza, Pinto Martins, leva esse nome como homenagem a um aviador pioneiro dos anos 1920, que era negro! 

Segue o excelente artigo desta profissional maravilhosa que é a Luana!

Tenho trabalhado e viajado muito. Nos últimos 15 dias, estive em São Paulo, Taubaté, Campinas e Curitiba, participando de eventos em que a educação e o racismo foram temas destacados, o que me deixa muito feliz.

Sem sombra de dúvida, o crescente interesse pelo tema se deve à Lei Federal n.º 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira, como também à luta de ativistas e pesquisadores negros, que tensionam as escolas e toda a sociedade quanto à importância de se promover o combate à discriminação racial nas instituições de ensino.

Nesses dias em que fazer e desfazer malas têm sido uma atividade corriqueira, passei por vários aeroportos e companhias aéreas. Os primeiros pouco ou nada lembram os que tínhamos antes da Copa do Mundo de 2014. Ficaram enormes e, em alguns casos, as distâncias até os portões de embarque são quilométricas. Já o serviço oferecido pelas companhias aéreas, com raríssimas exceções… meu Deus do céu! É praticamente impossível se mexer nas poltronas de tão apertadas. Viajar nos assentos do meio é um verdadeiro castigo. Sem falar nos preços altos das passagens e na impossibilidade de despachar malas sem pagar uma pequena fortuna. Tudo cansativo e estressante demais.

Mas a visível piora da qualidade dos serviços não é o assunto principal desse texto. Viajando pelas principais empresas aéreas do país e aguardando a escala entre um voo e outro, não vi um único negro ou negra exercendo a função de comissário de bordo. E isso não é coisa da minha cabeça ou “vitimismo”, como gostam de dizer os que negam a persistência do racismo no Brasil. Muito pelo contrário. Minha observação encontra fundamento em pesquisas recentes.

Um estudo realizado pelo Organização Quilombo Aéreo, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aponta que, em 2022, não havia uma única mulher negra trabalhando como pilota no país. O estudo mostrou ainda que, em funções relacionadas aos serviços de bordo, as afro-brasileiras representavam apenas 2,3% do quadro de funcionários efetivos das companhias aéreas.

Em entrevista à EBC, ao ser perguntada sobre as razões dessa baixa representatividade de pessoas negras na aviação civil, Natália Oliveira, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), foi taxativa ao apontar o racismo como principal responsável pela falta de afrodescendentes nesses espaços:

“O corpo negro incomoda e é rejeitado. Olhando para o cabelo da mulher negra, por exemplo, identificamos profissionais negras que foram barradas em processos seletivos porque estavam com seus cabelos naturais soltos nas entrevistas de emprego. É explícito como essas mulheres não são selecionadas, mesmo tendo um currículo bem qualificado ou até melhor que candidatas brancas.”

Em meio a esse processo de exclusão e discriminação, é explícito também que, nos aeroportos, os corpos negros são empurrados para as funções de limpeza. Um olhar atento nos corredores e nos banheiros permite perceber que é lá que as mulheres negras estão.

A ausência de profissionais da aviação negros é mais uma faceta de um Brasil racista que não se envergonha de sê-lo. Muito pelo contrário: banaliza os abismos que separam brancos e pretos no país.