sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CRÍTICA: ATRAÇÃO PERIGOSA / Perigo é tatuagem na nuca

Não ligue pra cara de mau do Ben. Concentre-se na tatuagem.

A maior lição que tirei de Atração Perigosa (nome genérico dado pro título original nada inspirado de The Town, A Cidade) é que, se você for ganhar a vida como assaltante, não se tatue. Essa é uma dica valiosa, gente, podem anotar aí. A polícia terá um registro da sua tatuagem logo após a sua primeira vez na prisão, e se alguma testemunha vir a sua tatuagem, de nada adiantará a sua máscara de freira. Bastará a testemunha contar pro FBI “Ele tem uma tatuagem verde na nuca”, que pronto, a polícia já vai ter toda a sua ficha corrida.
Pelo menos isso é o que o personagem do Ben Affleck conta a seu interesse romântico, Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona, Frost/Nixon). Mas ele não pode dizer pra ela que sabe tudo sobre tatuagens e testemunhas porque vive no crime. Assim, inventa que vê muito CSI. O maridão vê muito dessas séries de perícia (mais do que faz bem à saúde mental de uma pessoa), e não sei se ele sabe de todas essas bossas. Mas nem discuto: tudo que sei de polícia, perícia, carceragem, e sistema judiciário, tudo mesmo, eu aprendi no cinema.
Gostei bastante de Atração. Tem um bom ritmo, mistura bem ação com romance, mas não vai ficar na minha cabeça. E, como filme de assalto a banco, ele nem registra. Claro que os criminosos usam máscaras bacanas, como as de freira (no poster tenebroso) e de caveira, mas eu gostava mais da dos ex-presidentes americanos em Caçadores de Emoções (aquele com o Patrick Swayze e Keanu Reeves que você já deve ter visto n vezes na Sessão da Tarde, sem saber que a diretora é a Kathryn Bigelow). Em Atração é tudo meio previsível. A história é basicamente essa: num bairro de Boston, assaltos à mão armada passam de geração pra geração. Ben é filho de um bandido, tem amigos de infância bandidões, assalta bancos junto com os amigos. Num desses roubos, eles fazem a gerente Rebecca de refém. O problema é que ela vive no mesmo bairro. Ben se envolve com ela, pensa em largar tudo, e os outros não deixam. Aliás, taí algo que não compreendi: por que ele insiste em se despedir de todo mundo? Ele nem desconfia que seus comparsas não vão gostar? Ele podia só pegar o carro, ou ônibus, ou avião, e ir embora de lá rapidinho. E precisa se apaixonar pela testemunha? Rebecca não é a única mulher no mundo, Ben. Aqui mesmo no Brasil há outras. (Pecado, eu nem acho o Ben bonito).
Também não entendi por que ele diz que cresceu junto com seu amigo Jeremy Renner, um psicopatão, e com a irmã de Jeremy, Blake Lively (que eu não sei quem é, nunca vi, mas ela tá em Gossip Girl), se há uma diferença de idade de mais de quinze anos entre Ben e Blake. Jeremy rouba todas as cenas com grande facilidade e deve ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante. Ano passado o Oscar se lembrou dele pra ator, por Guerra ao Terror, e ele realmente tem essa intensidade maníaca, esse brilho no olhar. A Academia deve estar ansiosa pra premiá-lo, mas o Oscar de coadjuvante deste ano já tem dono, e ele se chama Christian.
Já o Ben, tadinho, nunca foi acusado de ser um grande ator. Mas ele tem uma história legal, que deve calar fundo em todos os aspirantes de Hollywood (lembra como ele estourou, né? Vendendo o roteiro de Gênio Indomável que ele escreveu com seu amigão Matt Damon e exigindo que eles fossem contratados como atores), e Atração é o segundo longa que ele dirige. O primeiro, O Medo da Verdade (07), em que ele dirigiu seu irmão mais novo, Casey, também era acima da média, e rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante pra Amy Ryan. É bom que Ben esteja se firmando como um diretor relevante, ainda mais um diretor relevante de atores.
Todo o elenco de Atração está bem (Ben deve ser o elo mais fraquinho). Tem o Pete Postlethwaite, morto no começo de janeiro, no seu penúltimo papel (o último, em Killing Bono, será lançado este ano). O gatão Jon Hamm (Mad Men, O Dia em que a Terra Parou) como agente do FBI, e o Chris Cooper (que eu nem reconheci. Taí um grande mistério: por que tantos homens, depois de uma certa idade, ficam com a cara do José Dirceu?) como pai do Ben. Mas toda vez que o Jeremy aparece o filme é totalmente dele.
E eu não sei se reconheceria sua tatuagem, mas penso que lembraria da sua voz. Mais do que vou me lembrar de Atração daqui a um mês.

11 comentários:

Rafaela disse...

Vi esse filme há umas duas semanas, e gostei muito. Acho que o gostar ou não de um filme depende muito da expectativa que a gente leva pra frente da tela, e nesse caso, minha expectativa era ser entretida num domingo à tarde. E isso esse filme faz com primor. No quesito sessão da tarde leva 10 com louvor.
O Ben nunca me despertou nenhuma grande paixão, nem como ator, nem como diretor. mas fica sempre acima da média. Vale a pena ser visto.
Gosto bem quando o assunto do dia é cinema. Principalmente depois das discussões dessa semana.
Bom final de semana, Lola

Júlio César disse...

Eu fiquei pensando se o Ben precisava ser o protagonista do seu próprio filme, isso me cheira a um ego do tamanho do mundo. Se ele quer se firmar como diretor, deveria sumir da frente da câmera. Ele não é nenhum Woody Allen ainda. Pode ser que eu esteja implicando demais porque não gosto dele como ator... Sobre o filme, gostei da primeira hora.

Bruno Stern disse...

O título em português, com certeza, me leva a um pré julgamento ruim do filme. Pela discrição, parece divertido.

Quanto ao Ben, me parece um ator mediano que foi alçado a galã e escolhe muito mal seus filmes. Fora os do Kevin Smith, Gênio Indomável e Shakespeare só tem porcaria na lista.

Mariana. disse...

Vi o filme e não me empolguei tanto. Não gosto do Ben como ator também, acho que minha reação se deve um pouco a esse fato.

A história é normal, previsível, e nem me lembrava mais do filme até você ressucitá-lo das cinzas.

marthacomth disse...

Achei o filme realmente bem dirigido. O roteiro està longe de ser genial (e eu odiei o fim do filme), mas a dinâmica que o Ben soube dar ao filme é o grande mérito dele (e o que eu acho que faz dele um diretor promissor).
E, realmente, o Jeremy é sensacional. Achei que vc descreveu muito bem a coisa do brilho nos olhos e tal.
E sobre o que alguém nos comentàrios disse, sobre o Ben ser o ator principal, sei là, nao vejo problema. Se ele fosse realmente egocêntrico ia tratar de tentar apagar o Jeremy, e nao é o que acontece.

lola aronovich disse...

Ué, gente, acho que o fato do Ben Affleck ter se escalado pro papel principal não tem a ver com ele ser o diretor. Ele é um astro do cinema, bem mais conhecido que os outros nomes do elenco. E, apesar da gente achar que ele é um ator meio fraquinho (ele tá muito bem em Procurando Amy, do pouco que me lembro), tem muit@s fãs. E lógico que um astro encabeçando o elenco atrai mais público. Vejo a decisão dele como meramente comercial. Se ele quer continuar recebendo dinheiro pra dirigir, precisa fazer que seus filmes sejam lucrativos. E acho que Atração Perigosa foi.


Mariana, eu vi o filme esses dias (no computador), por causa das indicações do Oscar, que devem sair na semana que vem. E o filme tem chances de entrar pra ator coadjuvante, nao sei se mais alguma categoria (acho que não). Aí eu vi que passou no Rio em setembro. Mas tá passando em Fortaleza esta semana! Ou seja, é um filme em cartaz. Quero escrever sobre outros filmes (Cisne Negro, Reencontrando a Felicidade, 127 Horas etc) assim que eles entrarem em cartaz no Brasil.

Luciana disse...

Lolinha,

Vai ter bolão do Oscar esse ano?
=)

lola aronovich disse...

Opa, Luciana, claro que vai! Assim que saírem as indicações pro Oscar (acho que é dia 27/1, né?), eu já faço um post convidando todo mundo. Mas o que vcs acham? A gente faz que nem o ano passado, um bolão pago (baratinho, 10 reais por pessoa), e outro bolão sem pagar? (ACHO que foi assim que a gente fez ano passado).
Espero que muita gente participe!

... como se eu fosse a única. disse...

em "machete" tbm usam disfarce de freira. Gostei muito mais do filme do Robert Rodriguez....

Andrea disse...

a única pessoa que consegue alguma reação do Ben Affleck é o Kevin Smith! vide Dogma, Procura-se Amy e até O Império do Besteirol Contra-Ataca

mas sou suspeita, Kevin Smith é meu Deus....

Vitor Ferreira disse...

Ai, Lola, acho o Ben tão babaca, tão cheio de si, que ele teve a capacidade de escrever, dirigir, produzir e estrelar um filme que termina da maneira que vimos. Eu só posso interpretar que o que ele fez foi uma ode a si mesmo.