quinta-feira, 1 de maio de 2008

VOCÊ ACHA QUE É RACISTA?

Chegou pra mim um desses emails-corrente que geralmente detesto, mas este até que foi interessante porque rendeu um post. O título era “Você acha que é feia?”. O email trazia várias fotos de celebridades que todo mundo deve conhecer menos eu, já que eram tratadas pelo primeiro nome, na maior intimidade. Não sei muito bem quem é Avril ou Shakira ou Kelli. Mas tudo bem, sobrevivo sem saber. Cada celebridade vinha acompanhada de uma foto “antes” e “depois”. E como não vinha mais nada escrito, minha conclusão do que o email queria dizer é que essas mulheres eram todas horrorosas antes, e agora, depois da fama, das dietas, das plásticas e do photoshop, elas são magníficas. Ahn... Antes de mais nada, vamos analisar brevemente todas as fotos de “antes” que a gente já viu. As moças estão na sua pior pose. As fotos não têm a menor qualidade. Estão fora de foco. Isso é típico também de fotos de “antes” que saem nas revistas pra vender dieta. Na maior parte das vezes a pessoa do antes nem se parece com a do depois, e não é porque a modelo perdeu trinta quilos em dez dias sem deixar de comer nada e sem nem mexer o dedão do pé. É porque a pessoa no antes tá fazendo careta, ou de cara fechada, ou despenteada, ou com o sol no rosto, ou com roupas que não ajudam. E na fase “depois” tá tudo iluminado e lindo e com photoshop e se bobear tem até um arco-íris. Com um pote de ouro no cantinho. Mas vamos a algumas das fotos.Essa é a Kelli - pra mim, uma completa desconhecida. Se desse pra ver a foto do “antes” direito, eu diria que ela era bem bonitinha. Com uma melhora no cenário, na pose e no maiô, ela ficaria igual ou mais bonita que a Kelli do “depois”. Mas o principal é que a Kelli pré-histórica tinha cabelo preto e cacheado, enquanto a Kelli modernosa é loira de cabelo liso. E os homens preferem as loiras, como já estamos cansadas de saber. Inclusive os homens que põem anúncio em jornal procurando recepcionistas de “boa aparência”, um código racista que ainda não foi abolido.O mesmo fenômeno se dá com a Juliana Paes. A capa da VIP anuncia, pra que não passe despercebido: “Agora loira!”. O slogan da revista é “o prazer de ser homem”. É, deve ser um prazer imenso observar sem ser observado. Ainda mais se o objeto observado fizer de tudo para satisfazer o voyeurismo do observador. Inclusive ficar horas no cabeleireiro alisando e trocando a cor do cabelo pra se enquadrar num padrão de beleza claramente racista.A Ana Hickman tá loira nas duas fotos. Só que na “depois” ela tá mais loira, além de superproduzida, maquiada, e com toda e qualquer imperfeição apagada pelo photoshop. E na primeira ela tá na praia, pô! Você conhece muita gente que sai linda e deslumbrante em foto de praia, cheia de areia? Eu já li uma entrevista da Ana em que ela dizia ter sido gordinha. Se esse era o “gordinha” dela, valha-me Deus. Sabe o que aconteceria se a Ana da foto do “depois” fizesse a pose da Ana da foto do “antes”, né? Ela também ficaria com pose de super-herói (no mau sentido). Só que, por estar magra demais, pareceria uma tábua. Repare que as modelos magérrimas precisam sempre estar entortando o corpo pra um lado ou pro outro pra fingir que têm curvas. Porque o in é ser magérrima, mas sem perder seios e curvas. Ou seja, um padrão de beleza inatingível até para as magras.A Glória Maria continua negra. A diferença tá no cabelo. Agora sim, com penteado lisinho, ela tá bonita, "dentro do possível". Porque na foto do “antes” ela era um trambolho, certo? Certo. Eu conheci a Glória da fase do antes pessoalmente. Eu tava na praia no Leblon, onde ela fazia uma reportagem sobre crianças precoces. E eu naquela época era mais ou menos precoce porque escrevia poesia. Daí apareci no Fantástico recitando o poema mais estúpido que a produção encontrou nos meus cadernos. Eu tinha oito anos, e a Glória devia estar perto dos trinta, imagino. Hoje tenho 40. Faça as contas de quantos anos ela deve ter. Agora, pra quê esconder ou mentir a idade? Mas eu não falo mal da Glória. Ela é uma das poucas repórteres que continuam na ativa, mesmo sem ser mais uma menininha. E é uma das pouquíssimas negras. Porque nesse sentido repórter é que nem recepcionista, entende? Precisa ter “boa aparência” pra conseguir emprego.

Artigo relacionado aqui.

19 comentários:

Nalu A*) disse...

Nossa, eu juro que tava pensando em escrever sobre isso, sobre essas fotos e sobre um programa que passou no E! sobre as 15 transformações mais que maravilhosamente maravilhosas de celebridades e tinha a Nicole Kidman, a JLo, a moça do Sex and The city etc. E todas, mas todas, todinhas sem exceção,"melhoraram" alisando o cabelo, ficando mais loiras e muito, mas muuuito mais magras. E lógico todas com sua dose de blur e de photoshop. No final, com poucas variações elas pareciam todas ter saído da mesma forma.

Abraços.

Liris Tribuzzi disse...

Não existe mulher feia, existe mulher pobre.
[by não faço a menor idéia, mas não deixa e ter uma pontinha de verdade]

lola aronovich disse...

Nalu, escreva sim. O que eu acho melhor que mostra o "antes" e "depois" de cada celebridade eh quando eh possivel pegar uma foto antes do photoshop, e compara-la com a depois. Mas o que me chateia eh que todo mundo sabe disso. E mesmo assim a gente olha pra essas fotos como se elas representassem alguma realidade. E sim, vira um exercito de gente igual. Um tedio.

lola aronovich disse...

Eh, Li, mas um slogan desses tb ta feito pra vender. Seria legal se a gente acreditasse que nao existe mulher feia, ponto. Ou homem feio. Que beleza e feiura sao opinioes subjetivas e variam de cultura pra cultura, de epoca pra epoca - e que inclusive dentro da mesma cultura e da mesma epoca o que um vai achar bonito outro vai achar feio, e vice versa. Mas a gente ta presa nessa ideologia de beleza unica, de um so padrao universal. E a mesma industria que vende essa ideologia tb vende que a pessoa so podera ser feliz e encontrar o amor se se encaixar nesse padrao.

Anônimo disse...

Uau... é incrível como "emburrecemos" diante do padrão de beleza criado pela indústria da moda. Por mais informadas e conscientes que podemos ser, somos atingidas por essa indústria do culto ao corpo. É a indústria do consumismo. Vendem tudo pela imagem. A imagem é o marketing, é o convite ao consumismo. E assim, de uma forma velada somos convidadas. E aceitamos o convite. E ainda por cima nos fazem achar que todo o sacrifício pela beleza é normal. Eu discordo!
Adorei a crônica. Parabéns, seu texto é uma delícia de ser lido.

Unknown disse...

puxa, Lola,voce não conhece a Kelly Key?? que decepção.....


mas agora falando sério, outro dia me deu uma tristeza imensa quando eu via um show da Ella Fitzgerald no youtube e percebi que ele cantava com um lenço na mão.
....porque ela tinha que enxugar o suor da testa que caía da horrenda peruca !!! quer dizer que uma deusa como a Ella tinha que usar peruca e esconder o pixaim??? que horror,que tristeza.

por outro lado agora se relembra o Wilson Simonal (se v. não conhece, foi um grande cantor e showman, negro,que acusado de colaborar com a ditadura morreu no ostracismo), que eu conheci nos anos 60, e conheci a mãe dele, uma negra velha e gorda que usava uma inacreditável peruca loira resplandecente, com muito orgulho.
dava dor no coração ver que ser loira tinha sido o sonho de toda uma vida...

Juliana disse...

Eu á vi várias dessas fotos e comparações e, realmente, eles pegam as piores fotos possíveis para o antes. Eu particularmente gosto dos antes e depois do photoshop, do tipo que é a mesma foto só photoshopada, mas porque eu gosto de brincar com photoshop, mas sem fugir da realidade, a beleza natural é muito diferente da beleza produzida. Não sei se vc recebeu eu e-mail, mas espero que não tenha ficado ofendida nem nada, foi uma brincadeira pra aprender retoque mesmo, fazia bastante com fotos minhas.
Aliás, falando em padrão irreal de beleza, vc já viu aquela propaganda da Dove?
http://www.youtube.com/watch?v=iYhCn0jf46U

lola aronovich disse...

É isso, Adriana, não tem escapatória. Somos mulheres inteligentes e bem informadas, mas não conseguimos descartar toda a lavagem cerebral que recebemos diariamente da indústria da beleza. Agora estou lendo um outro livro, Unbearable Weight, muito interessante. Planejo falar dele também. A autora explica como odiar o próprio corpo (e todas as desordens alimentares que isso gera) tomaram o mundo. 15 anos atrás não havia casos de anorexia e bulimia entre mulheres asiáticas, por exemplo. Hoje...
Mas muito obrigada por comentar e pelos elogios. Apareça sempre!

lola aronovich disse...

Mari, pra não dizer que nunca ouvi falar da Kelli Key, tenho uma crônica minha com um diálogo entre o maridão e eu, e um de nós ouve o nome da moça e pergunta: "Kelli Quem?". E já tem uns 6 anos. Então sim, já ouvi falar. Uma vez e deu pra bola.
Agora, que coincidência vc falar do Simonal! Outro dia mesmo o maridão tava me lembrando do problema do Simonal em ter sido considerado dedo-duro em plena ditadura. O maridão adora o Simonal e tava ouvindo várias canções dele via YouTube.
Agora, que coisa a da Ella Fitzgerald, hein?! É incrível mesmo. Ter um vozeirão daqueles, conquistar corações em todo o mundo, e precisar usar peruca? Que coisa triste! Eu ia dizer que naquela época uma negra precisava esconder o cabelo... quando me lembrei que tá pior hoje!

lola aronovich disse...

Ju, eu fiquei ofendidíssima pelo photoshop que vc cometeu na minha foto! Falei sobre isso nos comentários (Fala Gente Fala) do "Somos Nacos de Carne num Açougue".
Ah sim, vi esse comercial da Dove. Muito bom. Eu tenho preparado um outro post, e nele incluí um outro comercial da Dove, muito bom tb.
Photoshop... Vc acha que, se eu soubesse usar, não retocaria minhas fotos? Acho que todo mundo quer parecer mais bonita. O chato é a gente acreditar que essa ilusão é a realidade, e se odiar por não sermos tão belas e deslumbrantes quanto as modelos e atrizes.

Juliana disse...

ixi, não tinha lido os comentários lá porque não tinha comentado lá. Eu não costumo publicar as minhas fotos que mexo, mas a minha mãe às vezes pede pra eu tirar umas rugas das fotos, haha. Acho que o photoshop é solução virtual pra mudar cor de olho, de cabelo, emagrecer, tirar olheira, perder barriga, ruga, papo, o que quiser... Photoshop na vida real ia ser ótimo, mas tudo que é suado é mais gostoso, vai, hahaha. Mas a ilusão que esses recursos modernos trazem realmente é perigosa.

Juliana disse...

acabei de te mandar um email com os photoshops mais toscos que vc já viu na vida. prepare-se para rir e ter mto, mas mto medo, hahahhaa

lola aronovich disse...

Oi, Ju, entao naqueles comentarios eu respondi pra Juliana errada?! Tinha certeza que era vc! Recebi suas duas fotos devidamente photoshopeadas, bem legais. E segunda ficou boa! Vc de olhos verdes escuros... E dá pra mudar o sorriso e tudo? Dá pra tudo então. Agora, quanto às coisas suadas serem mais gostosas... não concordo! Eu quero vida fácil.

Lolla Moon disse...

já reparou que todas as repórteses têm cara de modelo? sempre que aparece uma negra, é justamente o povão que critica. falam da glória maria e de outra moça (cujo nome esqueci, também negra e menos bonita que a glória) e dizem "o que essa PRETA está fazendo na tela?". eu vou te contar que já ouvi isso de uma pessoa NEGRA. eu desespero, realmente.

a kelly key era MUITO mais bonita antes. agora ela é bombada, oxigenada, com o cabelo ressequido de tanta tintura/prancha. fora que, depois de tanto bronzeamente artificial, ela ficou LARANJA. era uma moreninha linda, mas o padrão de beleza brasileiro é escandinavo. O meu marido se apavorou ao ver uma novela nacional quando esteve no Brasil: "mas será que estamos na Suécia?". Nem falo mais nada.

Unknown disse...

Lola, primeiro qro dizer q é a 1ª vez q escrevo...parabén pelo blog! é muito bom e eu leio sempre!Bom, qto as fotos de antes e depois, vc falou q a Glória Maria é uma das poucas q ainda resiste....pois é, resistia!! como o fantástico perdeu audiência, resolveram colocar uma reporter mais jovem (leia-se branca de cabelo liso, mas não loiro) para dar uma "rejuvenescida" no programa e recuperar ibope...o q acha disso?

Abraços.

lola aronovich disse...

É, Lolla, é muito estranho... Continuam fazendo comercial de margarina com todo mundo da família loiro. E passam isso daí na Bahia, que tem 80% de população negra! Agora, ver uma negra reclamar da presença de uma negra na TV é demais pra mim. Não entendo o que se passa. Ou melhor, entendo. É como pobre votar em político milionário.
E vc tem razão, a Kelli Key tá bem laranja na foto mesmo.
Uma vez escrevi um artigo pra reclamar de um comercial do governo de Joinville. O slogan era "Joinville de Todos Nós" mas não havia um só negro. Dezenas de pessoas, e nenhuma negra! Tudo bem que SC não é a Bahia, mas ainda assim tem 13% de negros... a mesma porcentagem dos EUA. E a TV americana aprendeu a mostrar negros.
Isso o governo Lula tá fazendo muitíssimo bem. Desde que ele assumiu, não existe mais comercial do governo ou de empresas estatais que não tenham negros em posição de destaque. É um contraste enorme com a publicidade dos governos anteriores, e também com a dos governos estaduais. Pra mim, sorry, devia ser lei ter diversidade na mídia.

lola aronovich disse...

Rubens, obrigada pelos elogios, e sinta-se à vontade pra comentar sempre. Sério isso que vc disse da Gloria Maria? Eu não sabia! Tenho que escrever um post sobre algo interessantíssimo que a Naomi Wolf diz acerca dos apresentadores de telejornais... Mulher só pode ser jovem e bonita.

Anônimo disse...

80% ? HAHAHA É meio incerto mas já li noticias que falavam que era no minimo 87% e de boa, a la filme "eles estão em todos lugares"...(eu já conversando soltei até que eram 95% hahaha) O_O
Mas tem lugares que a gente se sente fora de SSA devido a realidade economica e eu acho isso de preconceito uma conversa meio estranha. Pq alguns viram e falam que não são preconceituosos, mas se vc se basear por estatisticas vc é preconceituoso ? Aquele caso que aqui é mto realidade, vem um negro andando em sua direção, com uma "cara suspeita" (não interpretem polemicamente, essa foi para vc Lolinha hahaha) e vc vai para o outro lado do passeio, vc esta tentando prevenir e visando sua proteção. É ser racista ?
Então talvez a maioria da população esperta seja, ou não.

E convenhamos que a Ana Hickman nem parece ela mesmo nessa foto hahaha e que ela tem perna d+, ela tem. 1 m e 20 né ? A Gloria evoluiu, de sexo indefenido para ao menos uma femea com certeza, alguem alguma vez me contou que ela tomava milhares de pilulas diariamente para interromper "que a idade chegasse"... será que é verdade ou é por ela ser negra que não percebemos que ela já deve ser uma mumia ?

lola aronovich disse...

Pode ser que haja 95% de negros em Salvador, Pedrinho. Eu confio mais no índice de 80%. É difícil medir negritude no Brasil. Não é que nem aqui nos EUA, onde basta ter uma gotinha negra no sangue que vc é negro. No Brasil existe muito mais miscigenação. Mas não é isso que é importante. O ridículo é que mesmo numa cidade onde a imensa maioria seja negra, quem se vê representado na mídia não é o negro. Bom, que a mídia não represente a realidade, a gente já tá mais que acostumada. Mas nesse caso é racismo, sim! E quanto a mudar de calçada ao ver uma "cara suspeita" vindo na sua direção, interessante a sua colocação, Pedro. Já faz tempo que venho falando disso com o maridão. Quem é suspeito? Pra nós mulheres, qualquer cara sozinho à noite é suspeito, se a gente estiver sozinha tb. É perigoso porque há um histórico de violência sexual contra a mulher, e tanto faz o cara ser negro ou branco. Claro que existem atenuantes. O jeito como o cara está vestido influi. Um sujeito de terno (branco ou negro, se bem que numa sociedade racista como a brasileira, é difícil ver um negro de terno) não nos mete o mesmo pavor que um cara de boné. Eu presto muita atenção no que o cara tá carregando. Se for um estudante, com livro ou caderno na mão, tenho menos medo. Se estiver carregando uma pizza, idem. Mas se estiver com as mãos desocupadas, eu tenho medo. Mas pra mim isso não tem nada a ver com cor. Mulher não tem medo de mulher negra, por exemplo.
Sobre a Gloria Maria, não sei o que ela toma. Mas também não sei se dá pra culpá-la por tentar "retardar o envelhecimento". Afinal, ela trabalha num meio onde a gente quase nunca vê mulheres mais velhas.