Ontem à noite morreu o Calvin. Ele estava dormindo, cercado por gente que o ama, e simplesmente parou de respirar.
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| Última foto do Calvin, no domingo |
Mas seus últimos dias não foram bons. Sua barriga inchou de repente. E bastante muco começou a sair do focinho. Nós o levamos ao veterinário no sábado. Passamos a dar-lhe um diurético. Ele estava comendo, dormindo, tomando água. Mas ontem desde cedo vimos que ele andava muito abatido, se mexendo pouco.
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| Calvin vendendo livro |
Calvin era como se fosse um filho pra gente. Tinha 18,5 anos, o que, segundo o vet, representa uns 100 anos em idade humana. E agora foi praticamente a única vez que ele ficou doente durante a vida toda. Sempre foi um gato muito saudável. A única das 7 ou 9 vidas (aqui no Brasil gato tem 7 vidas; em países ricos, tem 9) que ele perdeu foi quando foi mordido por um outro gato, infeccionou, e ele ficou com boa parte do corpo sem pelo. Nem isso foi tão grave.
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| Nossa maravilhosa Blanche |
Eu lembro quando ele entrou na nossa vida. Era final do ano 2000 e vivíamos em Joinville. Tínhamos uma gata preta jovem, a Blanche, e um cachorro minúsculo, o Hamlet. Nosso veterinário, o Marcos, nos telefonou. Disse que uma pessoa queria deixar um gatinho com ele, mas que ele só iria aceitar se tivesse alguém que adotasse o felino. Topamos, mas eu e Silvio íamos sair pra viajar durante uns quinze dias. Perguntei pro Marcos se não poderíamos pegar o Calvin assim que voltássemos da viagem. Ele disse não. Então Silvio foi pegar o Calvin, e viajamos uns 2 ou 3 dias depois, angustiados porque a Blanche não estava aceitando o novo gatinho muito bem. Quando voltamos, eles já estavam assim:
Foram grandes amigos. Blanche o tratava como se fosse uma mãe. Calvin era destemido e muito pequeno, só um par de orelhas.
E no começo nem era Calvin. Primeiro lhe demos o nome de Boris, mas minha mãe não gostou (Boris era apelido do meu amado pai, Bernardo). A verdade é que Calvin não parecia muito com um Boris, então aceitamos mudar de nome. Por algum mistério, ele lembrava mais o Calvin que o tigre Haroldo. Optamos por Calvin. Lógico que eu tinha vários apelidos pra ele: Cal, Calvinho, Calzone, Zero Cal, Calvin Klein. Ele era muito inteligente e entendia tudo.
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Calvin em 2000, quando ainda
era um par de orelhas ambulantes |
Quando ele ficava em cima do meu peito fazendo rum rum, eu cantava musiquinhas pra ele. Uma era ao ritmo daquele jingle famoso do McDonald's: "Dois gatinhos, selvagens, lindos, fofos, especiais, bons caçadores de hamsters e gerbelins... São os gatinhos! Gatinhos! Gatinhos". Outra seguindo um jingle de algum supermercado: "É super, é super, é super fofinho... Tem sempre um gato bom, aqui, no meu caminho". Outra era "Gato, como te amo! Non é possibleeee".
Ele adorava as canções. Aumentava o rum rum e olhava fixo nos meus olhos.
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Cãozinho Hamlet, Calvin,
meu braço |
Uma manhã eu estava na cama e ele estava quase dormindo, deitado em cima do meu peito, quando entrou um passarinho no quarto. Sem tomar qualquer tipo de impulso, Calvin deu um salto gigantesco pra cima assim que o passarinho passou por cima da gente, no teto. Cal aterrissou com tudo no meu queixo. O passarinho conseguiu fugir. Eu fiquei levemente ferida.
Muitos passarinhos não tiveram a mesma sorte. Silvinho salvou a vida de vários, tirando-os de dentro da boca do Calvin. Calvin não era rancoroso e perdoava fácil a nossa intromissão. Mas o que ele gostava mesmo era lagartixa. Devorava a lagartixa inteira, não sobrava nada, nem a cauda. Causou um mini-genocídio lagartixal em Joinville, porque caçava e comia várias por semana.
Lembro de uma noite em que eu estava em pé na cozinha, falando por telefone, não sei com quem, quando vejo entrar pela porta o Calvin com pupilas muito dilatadas, carregando alguma coisa na boca. Ele veio correndo e descarregou o que tinha na boca em cima dos meus pés. Era um camundongo, que assim que foi solto, começou a correr. E Calvin a correr atrás dele. E eu gritando e subindo num banquinho.
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Não parece uma vida tão intensa,
mas era |
Cal teve uma vida muito intensa em Joinville. Ele ignorava ser castrado e saía todas as noites. Saía um pouco, ia sabe-se lá onde, e voltava, querendo entrar pela janela. Ficava o tempo suficiente para brincar, receber carinho, comer, e saía de novo. Várias vezes por noite, todas as noites. Em algumas ocasiões ele ficava no nosso jardim e caçava algum sapo, mas era mais comum ele ir pra casa do vizinho (os gatos da vizinhança viam aquela casa como zona neutra e tinham várias assembleias por lá) ou andar pra longe, em lugares perigosos com muitos carros. Mais de uma vez passamos de carro por um gato amarelo a três quarteirões de casa e nos perguntávamos: "Aquele é o Calvin? Não pode ser o Calvin!" Claro que era. Não sei como ele sobreviveu tantos anos em Joinville.
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| Blanche e Cal sempre dormiam juntinhos em Joinville: yin e yang |
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| Calvin com Isabel |
Em fevereiro de 2010 nos mudamos pra Fortaleza. Calvin ainda estava na metade da vida e em plena forma. Ele sentiu a mudança. Não tinha mais como sair de casa ou confraternizar com outra gata que não fosse a Blanche (que morreu em 2013, aos 14 anos) e, depois, a Isabel (que morreu muito jovem, em 2016, aos 3,5 anos, de Aids felina) e, por último, a Sofia (que está viva, jovem e bem). O jardim enorme foi substituído por um quintalzinho com quase nenhum passarinho ou lagartixa. Não era a mesma vida.
Eu continuei cantando as mesmas musiquinhas pra ele.
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| Sempre um companheiro |
Eu usava um longo corredor pra brincar com ele. Colocamos um pedaço de veneziana numa parede. Ele gostava de se esconder atrás dela. Eu jogava bolinhas e ele saía correndo pra pegá-las. Era um goleiro excepcional. Quando voltei da China em 2015 trouxe um monte de bolinhas novas, de várias cores. Não podiam ser muito grandes nem duras e tinham que quicar. Às vezes eu ficava de um lado do corredor e Silvinho do outro, e ambos jogávamos bolinha pro Calvin. Depois de brincar, eu recolhia as bolinhas e as deixava no parapeito de uma janela interna, que dava pro corredor. De madrugada o Calvin ia e derrubava todas as bolinhas, uma por uma.
Quase toda madrugada o Calvin ficava locão. Corria, pulava, e fazia sons selvagens e guturais. Esses dias eu reparei que já fazia algumas semanas que ele não ficava mais locão.
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| Usando fralda em abril 2019 |
Ele teve uma vida muito ativa e cheia de saúde até o final do ano passado, por aí. Ou seja, até completar 18 anos, ou um pouquinho antes. Aí passou a ter incontinência urinária, tadinho. Ele, que literalmente não tomava banho havia 17 anos (demos um ou outro banho nele quando ele era jovem, até que ele deixou claríssimo que, por mais bonzinho que fosse, não iria tolerar aquela desfeita), passou a tomar um banho por semana. Mesmo assim, cheirava muito mal. Virou o "smelly cat".
Como nunca tínhamos tido um bichinho que viveu tanto, não sabíamos o que fazer. Tentamos dar banho a seco. Colocávamos toalhas nas camas. Mas era ruim, pra ele, pra nós, pros colchões. Uns dois ou três meses atrás, passamos a por fralda nele. Funcionou. Ele ficava sequinho e mais bem humorado. Mas não quis mais dormir na cama com a gente.
Quase até o fim, ele gostava de ficar do lado de fora do box enquanto eu tomava banho. Assim que eu terminava e abria a porta do box, ele entrava e lambia o chão. Adorava beber água com shampoo, condicionador e sabonete. Ontem minha mãe relatou que ele fazia isso com ela também.
Minha mãe chorou muito quando eu desci pra contar que o Calvin tinha morrido. Ela conversava com ele, falava como era ruim estar velho. E ele entendia tudo.
Ela também sabe que nunca teremos outro gatinho como o Cal. Ele era muito companheiro, de muito boa índole, um gatuno todo especial, sem maldade (talvez as lagartixas contem uma versão diferente).
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| Minha foto preferida: Isabel olha pra um Calvin que é quase uma miragem. Que os dois se reencontrem no céu dos gatos! |
Estou triste, mas sei que ele viveu uma vida longa e feliz e que tudo chega ao fim. Eu imaginava que ele iria viver mais, talvez até os 20, mas não sou eu que decido. Sei que ele não sofreu e morreu em casa, dormindo, do lado de quem ele cuidou a vida toda, obviamente a melhor forma de morrer.
Ainda vai doer bastante -- ver todos os pedaços da casa em que ele andava e perceber sua ausência. Mas torço para que exista um céu pros gatos.
Nunca nos esqueceremos de você, Calvin (outubro 2000 - junho 2019).