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sexta-feira, 31 de julho de 2009

CLÁSSICOS: TARDE DEMAIS PARA ESQUECER /Trágicas coincidências e uma frase infeliz

Comédia num filme pra fazer chorar. Baldes.

No outro post eu falei, falei, mas acabei não dizendo quase nada sobre Tarde Demais para Esquecer, esse clássico de 1957 que continua bastante celebrado ainda hoje. Esta mesma história foi refilmada com o Warren Beatty e a Annette Bening na década de 90, com o título Segredos do Coração, e naufragou na bilheteria. O que poucos sabem é que o filme de 57 era em si um remake. Ele já havia sido feito em 1939 pelo mesmo diretor, Leo McCarey. Pra quem acha que todas as refilmagens atuais representam uma total falta de imaginação de Hollywood, saiba que desde antigamente eles refaziam filmes pra caramba.
Além de ter o Cary Grant, Tarde Demais conta com a Deborah Kerr, que entrou pra história por causa daquele beijo nas ondas com o Burt Lancaster em A Um Passo da Eternidade. Deborah foi uma grande estrela que participou de obras importantes (veja aqui o Oscar honorário que ela recebeu quando Tom Cruise e Nicole Kidman ainda estavam juntos). Eu sempre achei que o nome dela se pronunciava “Quer”, por causa da musiquinha da Rita Lee, “Flagra” (“Se a Deborah Kerr que o Gregory Peck / não vou bancar o santinho”), mas não, é Car mesmo. Aliás, eu nunca sei como se pronuncia nenhum nome de ator. Mas então, a Deborah tá perfeita em Tarde Demais.
Vou precisar contar um pouco do filme, com spoilers e tudo. Imagino que a trama seja conhecida depois de cinquenta anos. E saber o que acontece não tira o prazer de ver Tarde Demais. Deborah faz uma ex-cantora, e Cary é um pintor amador e playboy famoso, prestes a se casar com uma herdeira milionária. Eles se conhecem num transatlântico, se apaixonam aos poucos, e, por causa da publicidade, devem fingir que não estão juntos. Essa parte do filme, que é quase a metade dele, é bem cômica (veja um trechinho dublado em português). Eu adoro a cena na escada do navio. Deborah e Cary dão alguns passinhos e sobem os degraus de uma escada, mas a câmera não acompanha. Reconhecemos que eles estão se beijando, mas só vemos as pernas. Uns fofos, e eles trabalham bem juntos, têm química. Outra sequência que tinha tudo pra ser melosa mas acaba dando certo é quando Cary apresenta Deborah a sua avó. Eu chorei quando a Deborah abraça a avozinha. Sou sensível.
De volta ao cruzeiro, Deborah e Cary fazem um trato: num prazo de seis meses, vão dispensar os respectivos, dar um jeito em suas vidas, e voltarão a se encontrar, no topo do Empire State Building (veja a cena do acordo aqui, em inglês). No dia do encontro, Deborah é atropelada por um carro, em frente ao prédio, e levada a um hospital. Cary não sabe de nada disso. Ele espera com o coração na mão no prédio, até fechar, e pensa que ela não quis vê-lo. Ela, que fica paralítica, decide não procurá-lo, e toca a vida sozinha, virando professora de canto. Chuif. Um ano depois, eles se cruzam num balé. Ele vai atrás dela, com o orgulho ferido, e conta como esteve apaixonado, e como se sentiu rejeitado. Durante esse discurso todo Deborah está sentada, com uma manta cobrindo-lhe as pernas; logo, Cary segue sem entender o que aconteceu. E a gente fica torcendo: “Conta logo, filha!”. Quando ele diz que vendeu um quadro pra uma mulher numa cadeira de rodas, ele finalmente une os pontinhos: era ela! Os dois choram abraçados, e o público cria um dilúvio (na realidade, eu chorei muito mais no meio). The end. Um happy end - os dois ficarão juntos. Mas também um sad happy end, né?
Tarde Demais não é um grande filme porque contem algumas cenas constrangedoras, como uns dois números de crianças cantando enquanto a Deborah ouve, comovida, com uma iluminação que faz dela uma santa. Esses números realmente são dolorosos e quase me fizeram chorar (no mau sentido). E claro que o filme é romântico, mas as coincidências são meio excessivas. Porém, uma fala que me marcou, que ninguém menciona, e que eu nunca vou esquecer, é a que a Deborah diz pro Cary no final: “Oh, darling! If you can paint, I can walk. Anything can happen!” (“Oh, querido. Se você pode pintar, eu posso andar. Tudo pode acontecer!”). Hello? Por que só eu não acho essa declaração lá muito amorosa? O cara tá se esforçando pra sobreviver pintando (o primeiro trabalho que tem na vida, e ele já tá na meia idade) - isso não pode ser tão difícil quanto uma pessoa numa cadeira de rodas há um ano andar. Eu entendo a motivação, mas se o maridão dissesse pra mim algo como “Oh, querida. Se você pode passar num concurso e virar professora universitária, eu posso voltar a ter cabelo! Tudo pode acontecer!”, eu pegava minhas coisas e ia embora. Na hora.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

TARDE DEMAIS PRA ESQUECER CARY GRANT

Durante os doze meses que morei em Detroit (e já faz quase um ano que voltamos pro Brasil, incrível!), vi um bocado de filmes. Graças à Netflix, um sistema excelente que cedo ou tarde vai substituir as locadoras de vídeo. Se houver justiça divina, um dia algo parecido se espalha por aqui também. Eu aproveitei pra ver vários clássicos que, aparentemente, todo mundo na face da Terra já havia visto menos eu. Um deles foi Tarde Demais para Esquecer (no original, An Affair to Remember). Esse filme é de 1957, ou seja, tão, mas tão jurássico que é da mesma data em que o maridão nasceu, quando os dinossauros habitavam a Terra e tal. Muita gente mais nova só ficou sabendo de Tarde Demais por causa de Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle), que consegue a proeza de parecer ainda mais datado que um filme com mais de meio século (é, eu não gosto de Sintonia). Quando esse águinha com açúcar falou de Tarde Demais, em 1993, o clássico vendeu dois milhões de cópias em dvd, e foi ressuscitado. Hoje ele aparece em todas as listas das maiores histórias de amor de todos os tempos. Na relação do American Film Institute, as dez maiores são... Ah, adivinhe. Casablanca (1942) em primeiro, depois E o Vento Levou (1939), Amor Sublime Amor (1961), A Princesa e o Plebeu (1953), Tarde Demais em quinto, Nosso Amor de Ontem (1973), A Felicidade Não se Compra (1946), Love Story (1970), e Luzes da Cidade (1931) (lista completa aqui).
O galã que mais aparece na lista dos cem é, disparado, Cary Grant, seguido por Humphrey Bogart. Ah, Cary... O cara morreu em 86 e eu sigo apaixonada por ele, de um jeito meio necrófilo. Mesmo que ele interpretasse quase sempre o mesmo papel, o de um carinha bonitão, sofisticado, galante e bem-humorado, ele fazia isso como ninguém (e simplesmente não houve um ator tão bom de screwball comedy, comédias cheias de farsas e com grande subtexto sexual, como em Levada da Breca). Foi o ator preferido de Hitchcock. Casou-se cinco vezes. Teve sua primeira e única filha com 62 anos. Detestava o estilo naturalista do Actor's Studio que lançou Marlon Brando, Montgomery Clift e James Dean. Praticamente todas as biografias apontam que ele era bissexual, até porque morou, no início da carreira, com um outro ator, Randolph Scott. Os estúdios ameaçavam que, se eles não vivessem em casas separadas, não teriam papéis. Eles não ligaram e ficaram juntos doze anos (embora sempre desmentissem os rumores). Mas parece que a grande paixão de sua vida foi mesmo Sophia Loren. Cary já estava no terceiro casamento (sem contar aquele com Randolph) quando se apaixonou perdidamente por Sophia, que ele conheceu em 57, durante as filmagens de Orgulho e Paixão. Tiveram um casinho, ela não quis mais, porque já namorava o produtor Carlo Ponti (com quem se casou e ficou casada até a morte de Carlo, em 2007). Cary fez montes de filmes, foi um dos primeiros atores a ter controle de sua carreira, sem depender dos estúdios (razão, talvez, pela qual ele nunca recebeu um Oscar, só um honorário - veja o vídeo aqui). Decidiu se aposentar em 1966 e nunca mais atuou, ainda que tenha vivido mais vinte anos. Ian Fleming se inspirou nele pra criar James Bond. E reza a lenda que, em 1981, Charlton Heston foi a um jantar com sua esposa em homenagem a Reagan. Charlton contou, todo prosa, que sentou-se ao lado da primeira-ministra Margaret Thatcher. Sua esposa respondeu: “Isso não é nada! Eu me sentei ao lado de Cary Grant!”.
E isso tudo vindo de um sujeito que nasceu se chamando Archibald Leach, coitado! Chamar-se Arquibaldo já derruba qualquer um, mas ainda por cima ter um sobrenome como Leach, que lembra leech, sanguessuga? (esse nome foi homenageado pela comédia hilária Um Peixe Chamado Wanda, em que o personagem do John Cleese chama-se Archie Leach. Mas o próprio Cary já havia feito uma brincadeirinha com o nome em Jejum de Amor). O estúdio trocou seu nome de batismo rapidinho pra Cary Grant. Felizmente eu não era nascida nessa época, ou eu pensaria que isso foi apenas pra que eu confundisse por toda a eternidade o nome do Cary com o do Gary Cooper. Mas não, foi proposital: Gary era o maior astro na ocasião, e o estúdio quis aproveitar e ver se um nome parecido traria sucesso a Cary. Hoje alguém se lembra de Gary Cooper? (tá, sacanagem, ele esteve em Matar ou Morrer, e, na lista dos 25 maiores atores de todos os tempos, aparece em 11o; Cary em segundo, depois de Humphrey Bogart).
Opa, me empolguei, pra variar, e fiquei só falando do Cary. Na sexta eu me aprofundo um pouquinho e discurso sobre Tarde Demais para Esquecer. Dá pra você ver ou rever o filme até lá?