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sábado, 30 de janeiro de 2016

GUEST POST: O LEGADO DE BROKEBACK MOUNTAIN

Ainda não tive o prazer de conhecer o Vitor na vida real. Cinéfilo, ele participa do meu tradicional bolão do Oscar há quinze anos, e é sempre um adversário à altura (você pode participar também!).
Ele escreveu este post para falar de um filme que se tornou um divisor de águas na representatividade LGBT: Brokeback Mountain. Assim como Filadélfia em 1993, Brokeback foi fundamental por trazer protagonistas gays para perto do público mainstream. E agora faz dez anos que Brokeback perdeu o Oscar de melhor filme para Crash, o que até hoje é visto como um dos grandes erros da Academia. 
Leia o texto do Vitor, que também tem um blog:

Acompanho premiações de cinema desde a infância. Especialmente o Oscar, que é a única delas, até hoje, que passa (aos trancos e barrancos) em TV aberta no Brasil. E até 2000, pouquíssima gente tinha TV por assinatura. A primeira vez que meus pais me permitiram assistir à cerimônia completa foi em 1997, quando eu tinha 11 anos. A Rede Globo de televisão só começou a transmitir depois de uma hora de evento, como de costume. De lá pra cá eu já vi muita coisa acontecer nesses eventos. Acertos, equívocos, resultados curiosos, previsíveis, surpreendentes e duvidosos. Um dos resultados que causou mais controvérsia até hoje foi o Oscar de 2006, onde Brokeback Mountain perdeu o Oscar de melhor filme para Crash.
Brokeback Mountain, no começo de 2006, tornou-se o filme mais premiado na história do cinema mundial. Ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza, todos os prêmios da crítica especializada, meios de comunicação e sindicatos de artistas dos EUA, entre diversos outros prêmios. O tema do filme [veja o trailer legendado] obviamente lhe rendeu muitos opositores e resistência. Países árabes, muçulmanos e orientais proibiram sua exibição, além de outras organizações religiosas (a direita cristã, especialmente) em todo o mundo reagirem violentamente contra.
Brokeback chegou ao Oscar como favoritíssimo, mas, na semana final, pesquisas com os votantes já mostravam um crescimento em popularidade de Crash, que havia sido lançado no início de 2005, época considerada pouco adequada para filmes competirem ao Oscar. Sua distribuidora distribuiu DVDs para os votantes e montou uma agressiva campanha de marketing para colocar o filme em suas mentes. No fim das contas, Crash levou o prêmio. A repercussão foi imensa e rendeu acalorados debates.
Esse foi o primeiro ano em que eu havia visto acontecer um resultado tão inesperado, sem contar 1999, quando Shakespeare Apaixonado, A Vida é Bela, Gwyneth Paltrow e outras bobagens foram premiadas, mas, nesse caso, a premiação inteira foi desastrosa. Então eu decidi colocar aquela máxima em prática: o tempo dirá. Esperei 10 anos se passarem para rever Brokeback Mountain e Crash, avaliar qual o legado de cada um dos filmes e qual deles suportaria o desgaste do tempo. E, com mais maturidade, poder tecer comentários mais embasados (uma crítica bem bobinha que fiz na época está aqui. Francamente, não tenho vontade de escrever sobre Crash de novo). [Nota da Lola: Também escrevi sobre Crash e Brokeback Mountain na época, mas falta coragem para reler o que escrevi].

O filme
Ang Lee levou a estatueta de
melhor diretor. Foi um dos
três Oscars que Brokeback
recebeu, além de roteiro
adaptado e trilha sonora
Brokeback Mountain originou-se, na verdade. de um conto de Annie Proulx, publicado na revista The New Yorker em 1997. Larry McMurtry, romancista e roteirista vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado por Laços de Ternura em 1984, e Diana Ossana expandiram o conto para um longa metragem. O taiwanês Ang Lee, que já havia feito alguns filmes prestigiados em língua inglesa, como Razão e Sensibilidade, e do sucesso de bilheteria O Tigre e o Dragão, ficou responsável pela direção. Com um tema delicado e controverso, o filme só conseguiu ver a luz do sol de forma independente, como um baixo orçamento (o que até comprometeu a maquiagem dos atores, que não envelhecem muito convincentemente).
A história se expande num período de 20 anos, de 1963 a 1983, e conta parte da vida de Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal), dois “cowboys” que iniciam um difícil relacionamento que, entre idas e vindas, perdura por décadas. Eles se conhecem e se envolvem emocionalmente no verão de 63, em um trabalho sazonal pastorando ovelhas em uma montanha (a tal Brokeback Mountain), e tomam caminhos opostos ao encerrar o trabalho. Ambos se casam e constituem família, mas depois de alguns anos se reencontram e passam a se rever esporadicamente, vivendo seu caso proibido.
O enredo toca em temas muito pertinentes na discussão sobre a homossexualidade, seus impactos nas vidas pessoais e sociais das pessoas. Impossível elaborar interpretações sem revelar o enredo, então deixo meu aviso de spoilers a partir daqui. 
Jack Twist sempre se entregou aos seus desejos e enfrentou riscos da forma mais anônima que podia. Já Ennis Del Mar, traumatizado desde a infância com a imagem do corpo de um gay assassinado na sua vizinhança, reprimia todos seus impulsos. Um dos sinais de como uma sexualidade abafada pode afetar toda uma vida.
Ennis era naturalmente desmotivado, sem objetivos. Sua única motivação era autocensurada. Sua vida profissional era improdutiva e medíocre, um dos motivos de seu casamento com Alma (Michelle Williams) ter falhado. Seus romances com outras mulheres e sua relação com suas duas filhas também não evoluíram devido a seu desinteresse e desânimo. Jack casa-se com Lureen Newsome (Anne Hathaway), uma amazona de família rica, e têm um filho juntos. Jack passa a ter uma vida confortável e cuidar dos negócios da família da esposa junto a ela.
Ennis sentia ciúmes de Jack apenas com outros homens. Era como se um houvesse um pacto velado entre eles onde relações com mulheres eram só uma forma de mascarar para o mundo, e até para eles mesmos, o amor que havia entre eles. Mas mesmo com a insistência de Jack, Ennis resistia à ideia de viverem juntos. Essa resistência frustrava Jack, que acabava sempre por se arriscar mais e mais ao buscar satisfazer seus desejos com outros homens, normalmente em locais de prostituição. Ao ficar sabendo da morte de Jack, Ennis logo imaginou que havia sido devido às suas escapadas.
Ennis se vê, então, sem família e perspectivas de futuro e percebe como nunca fez nada de fato da sua vida. Ao ser convidado para o casamento de sua filha mais velha Alma Jr. (Kate Mara, irmã da Rooney, que está sendo festejada por Carol), ele quase recusa o convite devido a um trabalho à toa, mas logo cai em si e confirma sua presença, reacendendo a relação. Sozinho em seu trailer semi-vazio, só lhe restam duas velhas camisas sujas, sua e de Jack, e um postal da Brokeback Mountain, para lembrá-lo de tudo que sua vida poderia ter sido e não foi. [Fim dos spoilers!]

Além da sutileza e franqueza ao lidar com o tema proposto, muitos são os outros méritos da obra. 
O filme foi uma forma de consolidar o trabalho de Lee no mercado estrangeiro, de estabelecer o jovem elenco com importantes atores dramáticos e catapultar nomes desconhecidos nos créditos técnicos. A comunidade da música country, notoriamente conservadora, tanto politica quanto socialmente, surpreendetemente contribuiu com a trilha sonora, e nomes importantes dessa indústria como Emmylou Harris, Linda Ronstadt e Willie Nelson se fizeram presentes.
Todos do elenco principal hoje são grandes nomes da indústria. Heath Ledger, australiano que já tinha feito o “clássico” adolescente 10 Coisas que Odeio em Você e A Última Ceia, veio a falecer em janeiro de 2008, antes de desfrutar o sucesso que sua interpretação em O Cavaleiro das Sombras lhe proporcionaria, incluindo um Oscar póstumo de ator coadjuvante. Jake Gyllenhaal ganhou fama de galã e fez vários filmes de sucesso. 
Anne Hathaway ganhou o Oscar por Os Miseráveis (sua cena de I Dreamed I Dream é memorável) e fez filmes populares como O Diabo Veste Prada. Michelle Williams, que casou-se com Ledger e se divorciou pouco antes de ele falecer, fez filmes como Blue Valentine e Sete Dias com Marilyn, que lhe renderam outras indicações ao Oscar, além da indicação por Brokeback.
Da equipe técnica destaca-se o argentino Gustavo Santaolalla, que despontou no mercado cinematográfico criando as trilhas incidentais, e hoje tem duas estatuetas do Oscar na sua prateleira. Já o mexicano Rodrigo Prieto, diretor de fotografia, tinha alguns créditos no mercado como 21 Gramas, Frida e 8 Mile, e tornou-se “A list” desde então, fazendo filmes como Argo e O Lobo de Wall Street posteriormente.
As cenas de afeto entre Ennis e Jack são um dos tópicos que mais renderam discussões e curiosidade. A “ousadia” nunca foi feita por outros filmes mainstream que tinham personagens ou temática LGBT, como Filadélfia, que trata direitos humanos e de um protagonista aidético, mas se esquiva de exibir demonstrações de afeto entre Tom Hanks e Antonio Banderas. Até hoje são raros os filmes que tenham sido tão francos quanto a este tipo de conteúdo. Neste aspecto, a TV americana está muito mais à frente, com seriados como Will e Grace, Queer as Folk, The L World e Looking. No Brasil, o caso é inverso, e o nosso cinema (apesar de sua notória limitação) é muito mais afeito a pioneirismos.
Brokeback Mountain, a ópera
Como legado, Brokeback Mountain deixou as infindáveis discussões sobre homoafetividade. É objeto frequente de estudos acadêmicos e rodas de discussões entre estudantes e profissionais LGBT mundo afora. É referenciado em uma imensidade de obras posteriores da cultura pop, incluindo o livro Beyond Brokeback, relatando os impactos culturais do filme. Em janeiro de 2014 estreou a adaptação para ópera do conto e filme no Teatro Real de Madrid.

Oscar
A Academia sempre foi conservadora. Os votantes da Academia são 94% de homens héteros, brancos e com idade média acima dos 60 anos, pessoas que costumam preencher o demográfico das camadas sociais mais reacionárias. Basta ver que, neste ano de 2016, assim como o ano passado, todos os concorrentes aos prêmios de atuação são brancos. Isso levou diversos artistas negros a decidirem não comparecer ao evento, entre eles Spike Lee, Will Smith e Jada Pinkett Smith.
Repercussão tão negativa, tanto na imprensa americana e internacional, quanto nas redes sociais e no próprio meio artístico, que a Academia, encabeçada por sua presidenta (negra) Cheryl Boone Isaacs, foi forçada a tomar medidas drásticas para mudar de imediato o demográfico de seus votantes, incluindo mais mulheres, pessoas de outras etnias e nacionalidades e jovens no seu corpo para os eventos futuros.
Sean Penn em Milk
O resultado desse Oscar de 2006 leva à, pelo menos, uma conclusão óbvia: todo movimento por direitos civis e de representatividade de minorias enfrenta percalços e obstáculos. Desde o fim dos anos 60 com os confrontos em Stonewall, a ascenção de Harvey Milk em São Francisco, nenhum romance centrado na temática LGBT tinha chegado tão forte à cultura mainstream. Eram sempre fitas de nicho, “de arte”, ou filmes B. Brokeback Mountain foi um confronto às normas padrões. E toda ação causa uma reação.
Até hoje os movimentos LGBT, negros e feministas sofrem com as reações conservadoras. O Brasil só veio ter um líder aos moldes de Milk hoje em dia, mais de 30 anos depois, com o deputado Jean Wyllys. Não é dificil imaginar que Wyllys é alvo de todo tipo de deslegitimação e afronta da população conservadora diariamente, que se empenha em mostrar oposição a qualquer proposta sua, só por ter partido dele, sem maiores reflexões ou debate. 
Nada que os reacionários de outrora não tenham feito também com Milk, Martin Luther King, Malcolm X, as sufragistas, líderes feministas, entre tantos outros. A história costuma se repetir. Pessoas, principalmente reacionárias, não gostam de confrontar seus próprios valores, recalques (no sentido real da palavra) e preconceitos.
O Oscar ser a última das premiações de Brokeback Mountain permitiu o fortalecimento do backlash conservador influenciar o resultado. Na privacidade do voto secreto, é mais cômodo demonstrar seu honesto desconforto, de dizer “estamos cansados de ver esse filme ganhar tantos prêmios e fingir que isso não nos incomoda”. Isso já podia ser sentido no anúncio das indicações, quando foi ignorada a canção original "A Love That Will Never Grow Old", composta por Santaolalla e Bernie Taupin, antigo parceiro de Elton John, que havia vencido todos os prêmios da temporada.
Crash era a desculpa perfeita, por ser um filme que fala sobre racismo (de forma grosseira, superficial e caricata, convenhamos -– nem todo filme bem intencionado é bom), e se passar em Los Angeles, onde a maioria dos votantes residem. Dessa forma ninguém poderia acusar a Academia de discriminação, certo? Errado...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

CLÁSSICOS: 12 HOMENS E UMA SENTENÇA / Dois filmaços

Época pré-vídeo em que um júri era composto só por homens brancos.

Eu li a teleplay (peça feita pra TV) Doze Homens e uma Sentença (12 Angry Men no original, ou 12 Homens Zangados), de Reginald Rose, na oitava série. Acho que foi em 82, quando eu tinha 14 ou 15 anos. Adorei, e fiquei muito impressionada com aquela história que se passa inteirinha numa sala quente com doze jurados discutindo o destido de um acusado. Só agora, neste natal, quando revi o clássico filme de 1957 de Sidney Lumet, me fiz a pergunta “Ué, por que eu e meus coleguinhas não vimos o filme na escola?”. E a resposta veio correndo: porque eram tempos pré-históricos. Vídeocassete tava engatinhando, duvido que minha escola (apesar de cara) tivesse um e, mesmo que tivesse, não haveria a fita em si (pouquíssimas fitas eram seladas, mas mesmo gravar da TV era serviço pra profissionais). Em compensação, naquela época a Globo passava filmes maravilhosos na madrugada, e Doze Homens era uma atração constante (eu e muita gente da minha geração viu seus primeiros clássicos na TV aberta. Atualmente contamos com o Intercine pra decidir se preferimos ver Norbit ou Garfield 2). Hoje, graças aos céus, é fácil baixar o clássico. Logo, você não tem desculpa: se não viu Doze, tá esperando o quê? Trata-se de um belo filme humanista. A trama é simples: um rapaz de 18 anos é acusado de matar seu pai. Não vemos nada do julgamento, apenas as considerações do juiz: a sentença do júri deve ser unânime, todos os doze jurados precisam votar igual, e se o rapaz for condenado, a pena será a morte. Os jurados, que não têm nome (são apenas mencionados como jurado número 1, jurado número 2 etc), estão convictos que o acusado é culpado. Só um dos doze membros quer discutir o caso, pois vê espaço para dúvidas razoáveis. Um outro quer acabar logo para ir assistir um jogo. Outro é um racista inveterado que crê que “pessoas daquelas bandas” (cortiços, favelas) são sempre culpadas. Outro tem um problema pessoal com o próprio filho, que não fala com ele há anos, porque ele, o pai, passou a vida toda batendo no rapaz para “torná-lo um homem” (violência, um remédio testado e aprovado para afastar seus filhos de você). Apesar dos jurados não terem nome, seus intérpretes têm, e vários são famosos. O principal, o jurado que duvida da culpa do rapaz, é Henry Fonda, pai de Jane e Peter, grande ator de Vinhas da Ira e Era uma Vez no Oeste (Oscar por Num Lago Dourado no seu último ano de vida, 1982). Martin Balsam, que faz o jurado número 1, é o detetive de Psicose. Já Lee J. Cobb, o jurado com motivos mais pessoais, é o detetive de O Exorcista e o principal mafioso de Sindicato de Ladrões. E o rosto mais velho do Jack Warden (o jurado brincalhão fanático por esportes) é conhecido por Todos os Homens do Presidente, Muito Além do Jardim, e Enquanto Você Dormia, entre muitos outros. Mas todos os doze atores estão perfeitos.
O que mais gosto do Henry Fonda nesse filme é que, apesar d'ele interpretar um personagem “do bem”, preocupado com direitos humanos e mais livre de preconceitos que seus colegas de júri, ele ainda assim é um homem zangado. Seu tom de voz não é dócil e carinhoso, mas bastante agressivo. Bem diferente do Jack Lemmon, que fez o papel quarenta anos depois, em 1997, numa versão para TV, dirigida por um cara de respeito, William Friedkin (Exorcista, Operação França). Essa versão é excelente também, já que a peça é excelente, mas não se compara ao clássico de 57. Pra começo de conversa, a peça em si tá datada, já que hoje seria impensável ter um júri composto apenas de homens (apenas brancos, em 1957, e misto, 40 anos depois). E seria complicado transformar alguns personagens em mulheres, já que mudaria toda a dinâmica. A versão de 97 ainda tenta colocar uma juíza (Mary McDonnell, de Dança com Lobos), mas é pouco. A ausência de mulheres ainda pode não chamar a atenção em algumas áreas, mas num júri, seria inegável.
O filme de 97 também tá cheio de atores famosos. Além do grande Jack (Quanto Mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse), tem entre os jurados James Gandolfini (Sopranos), William Petersen (CSI), George C. Scott (Patton, Rebelde ou Herói, Dr. Fantástico), Hume Cronyn (Cocoon), Ossie Davis (Faça a Coisa Certa), Edward James Olmos (O Preço do Desafio, e o detetive colega do Harrison Ford em Blade Runner), Armin Mueller-Stahl (Shine, Senhores do Crime), e Mykelti Williamson (o Bubba de Forrest Gump). Mas deixa eu tentar explicar por que prefiro o de 57 (fora a interpretação mais assertiva do Henry).A cena mais conhecida do clássico, aquela em que o jurado racista inicia um monólogo cheio de ódio contra “essa gentalha”, e os jurados se levantam um a um, deixando o irado falando sozinho, não funciona tão bem no remake. Nele, os jurados dialogam com o irado. O monólogo e a mesa vazia são muito mais eficazes. E tem uma escolha que eu considero bem problemática: quem faz o jurado racista na versão de 97 é um negro. E, numa história que não menciona religiões, é desconfortável que, nessa versão pra TV, esse jurado seja muçulmano com direito a chapéuzinho e tudo. Entendo que o discurso do sujeito nessa versão seja de racismo contra hispânicos (o rapaz acusado é hispânico), mas é complicado usar um negro pra ser racista. Não que eles não existam, mas, pô, pra mim o personagem tem que ser o típico homem branco padrão. Ou o pessoal que refez o filme achava que o racismo de brancos contra outras raças estava datado em 97?Também funciona muito melhor o jeito do jurado com problemas pessoais mostrar a foto do filho, e depois rasgá-la, como acontece na versão de 57. O modo como ele diz “Not guilty” (inocente) passa mais a ideia que ele está absolvendo o filho. George C. Scott é um ator excepcional, sem dúvida, mas nesse caso a idade atrapalha (ele, já velhinho, dificilmente teria um filho adolescente), e o Lee J. Cobb, com todo seu cinismo, marcou o papel em 57 (tanto quanto Henry marcou o seu).
Um outro detalhe que faz toda a diferença é que, na cena em que o jurado dos problemas com o filho vai mostrar como foi a facada (ou punhalada), na versão de 97 ele pede um voluntário, e quem se levanta é o Jack Lemmon. Essa cena é cheia de tensão porque, antes dela, vemos o jurado exaltar-se e gritar “Eu vou te matar!” pro dissidente. Então não é de bom tom que esse mesmo sujeito realize uma demonstração envolvendo uma faca e o corpo de seu desafeto. Que o filme faça com que o jurado “do bem” se voluntarie dá a ele poderes místicos, meio “bom demais pra ser verdade”, sabe? No filme de 57, Lee J. Cobb não pede voluntários. Ele vai até alguém que já está de pé, e esse alguém calha de ser o Henry Fonda. Claro que a continuação dessa cena (nas duas versões) já revela um monte sobre o caráter do jurado bonzinho, já que, quando o irado usa a faca e todo mundo espera o pior, o bonzinho nem pisca. De todo modo são dois ótimos filmes feitos a partir de uma teleplay incrível. Os conservadores odeiam a trama porque ela é sobre como um “bleeding heart liberal” (um sujeito que insiste em ver o contexto da criação do acusado, e que não quer mandá-lo pra cadeira elétrica, até porque o guri tem apenas 18 anos — alô você que defende a redução da maioria penal, tudo bem?) convence uma cambada de homens de cabeça feita a refletir e mudar de ideia. Ao mesmo tempo, o filme de 57 é um hiper clássico do cinema não só pelas suas inúmeras qualidades, mas também porque traz um tema querido aos americanos: o do indivíduo que luta sozinho contra todo um sistema. E ganha, lógico.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

CLÁSSICOS: VINHAS DA IRA / O filme mais à esquerda que Hollywood já fez

Faz um tempão que não via Vinhas da Ira, este clássico de 1940. E mais tempo ainda que não leio o romance do John Steinbeck em que foi baseado. Li o livro em inglês na minha adolescência, e fiquei impressionada. Tanto que um dos primeiros artigos "acadêmicos" que escrevi na minha vida (quando eu tinha 16 anos) foi um comparando Steinbeck com Graciliano Ramos, Ratos e Homens com Vidas Secas (outro livro que amo de paixão). Porque, pô, há montes de semelhanças: ambos escreveram na mesma época sobre as desgraças dos sem-terra dos anos 30. E em ambos a polícia aparece como aparato puramente repressor. Mas, enfim, não era sobre isso que eu ia falar.
Vinhas da Ira. Lembro até hoje do final do livro, absolutamente marcante. Rosasharn, irmã do protagonista, é uma moça mimada e individualista. Seu marido a abandona grávida. No fim, ela dá à luz a um bebê natimorto, no meio de uma enchente, em que sua família mais uma vez perde tudo. E nessa hora a moça aproveita o leite que sai de seu peito para amamentar um homem morrendo de fome. Obviamente, amamentação de adultos não entrou no filme. Hoje não entraria, imagine setenta anos atrás. Mas, apesar dessa parte fundamental (em que uma personagem individualista aprende o sentido de comunidade) ter ficado de fora, a versão pro cinema é um filmaço.
Começa com Tom Joad (Henry Fonda, pai de Jane e Peter, avô de Bridget), recém saído da prisão, tentando encontrar a família de lavradores pobres em Oklahoma. É a Grande Depressão, embora ninguém mencione essa palavra. A casa continua lá naquele pedacinho de terra que sua família cultivou durante cinquenta anos, mas seus parentes tiveram que se mudar. A terra é de uma empresa agora, e a empresa quer tratores, mais eficazes que meros trabalhadores rurais. Todas as famílias do local são mandadas embora. Um sujeito, dono de sua terrinha, quer saber em quem atirar. Quem é o responsável pela fome de sua família? Não há um responsável. O carinha que lhe entrega uma ordem de despejo é apenas um empregado. O outro que chega com um trator pra derrubar as casas é um morto de fome, contratado para fazer esse serviço sujo (“Se eu não fizer, há milhares que farão”). Mas e aí, e o dono da empresa? Não, quem manda nele são os bancos. Ah, então eu vou ao banco e atiro no dono, pensa o novo sem-terra. Não, quem trabalha lá é apenas um gerente que mal sabe o que está acontecendo. É bem a face do capitalismo: um monstro sem face, sem responsáveis. Sem que haja um culpado, fica mais fácil acreditar que esse sistema de exploração é natural, que é assim que as coisas são e sempre serão. Como se a Depressão de 30 ou a nossa última crise, de 2008, tivesse caído do céu!
Quando Tom encontra sua família, todos estão indo tentar a sorte na Califórnia. Afinal, receberam um panfleto dizendo que lá se paga bem na colheita de frutas, e que 800 empregados serão contratados. Não sabem que dez mil desses panfletos foram impressos, ou que vinte mil sem-terra apareceram, ou que o salário pago não será suficiente para bancar sua sobrevivência. Tal e qual nossos retirantes nordestinos, a família Joad parte em busca da Terra Prometida. No mesmo pau-de-arara. Os avós morrem no caminho, as crianças passam fome. E, quando chegam à Califórnia, deparam-se com um sistema prontinho pra explorá-los. Por exemplo, um empreendedor vai procurar no acampamento de desabrigados mão de obra barata para trabalhar em sua colheita. Um lavrador pede por escrito qual será o salário, ao que o empreendedor responde: “Ah, isso depende. Veremos”. Um policial já está ao lado dele para “manter a ordem” (pois é, qual ordem?) e prender o “agitador”. O sujeito tenta fugir, e o policial atira nele, atingindo uma mulher.
Os Joads vão de campo em campo, passando fome e vendo só miséria e repressão policial à qualquer tipo de revolta. Finalmente, vão parar num acampamento com condições tão boas que parece piada. O diálogo entre o diretor do acampamento e Tom é mais ou menos assim:
- Fiquem com a cabana número 25. Lá vocês vão encontrar luz e água corrente.
- O quê? Água corrente? Poderemos lavar nossas roupas?
- Isso. E, depois, se vocês quiserem, podem participar das comissões que fazem e mantêm as leis do acampamento.
- Como assim, comissões? Quem manda aqui são as pessoas que vivem aqui, não a polícia?
- São as pessoas. A polícia não pode nem entrar aqui. Apenas em caso de tumulto. Você pode falar com os membros da comissão no baile de sábado e...
- Baile? Vocês têm bailes?
- Os melhores da região. Todo sábado.
- Mas... Mas quem é responsável por este acampamento?
- O governo.
- E por que não há mais acampamentos como este em todo lugar?
- Não sei. Talvez você descubra e possa me dizer.
Juro que não tô inventando! Nessa hora me lembrei do pessoal que quer acabar com o Bolsa Família porque só dá o peixe e não ensina a pescar. Mas voltando: o diretor do acampamento, no fundo um servidor público, é o primeiro personagem no filme inteiro que trata bem à família Joad. Mas Tom logo vê que há alguns problemas. Tipo: um cartaz do lado de uma torneira diz “Mantenha limpo o acampamento e conserve água. Feche a torneira”. Uma mulher acaba de encher um balde e vai embora, deixando a torneira aberta.
E há os agentes infiltrados. Num dos bailes, policiais à paisana entram no baile com a intenção de provocar um tumulto. Assim, a força policial poderá invadir o acampamento, esmagando os agricultores (não sei porquê, mas esse negócio dos policiais à paisana me fez lembrar do protesto dos professores em São Paulo). Com a força da comunidade, esses agentes conseguem ser detidos e colocados pra fora antes que o tumulto comece.
O filme todo mostra o longo aprendizado de Tom. No fim, ele vira líder sindical. Ok, sindical talvez não, mas comunitário, com certeza. Ele diz pra sua mãe que andou pensando na injusça que é uma só pessoa ter um milhão de acres e explorar cem mil trabalhadores para trabalhar nela, pagando-lhes salários de fome. E que se talvez todas essas pessoas se unissem e gritassem, juntas... Ele acha que cada pessoa não tem uma alma individual, mas um pedacinho de uma só alma gigantesca, comunitária.
E olha só a última linha do filme, dita pela mãe (interpretada por Jane Darwell, que mais parece uma figurante tirada de alguma obra comunista do Einsenstein): “Os ricos aparecem e somem, e seus filhos não prestam e somem também. Nós somos as pessoas que sobrevivemos. Eles não podem nos varrer da Terra. Nós continuaremos pra sempre, porque nós somos o povo”.
Só faltou tocar a Internacional Socialista na trilha sonora!