sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

CRÍTICA: SENHORES DO CRIME / Um senhor filme sem exploração

Tenho certeza que a maior injustiça do Oscar 2008 não foi ter deixado “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” e “Persépolis” de fora da disputa pra filme estrangeiro, ou a musiquinha grudenta e fofa “Pop! Goes My Heart” (de “Letra e Música”) sem chance de concorrer à melhor canção. Não. Foi ter renegado o excepcional “Senhores do Crime” a uma única indicação (melhor ator). Não consigo entender essas coisas direito: como que obras tão meia-boca como “Juno” e, menos, “Conduta de Risco”, entram na competição dos melhores filmes, e “Senhores”, não? Meu primeiro palpite é que este drama estreou cedo demais nos EUA, em setembro, e os votantes do Oscar não têm memória pra produções que vieram antes de dezembro. Outro palpite tem a ver com o nu frontal numa das cenas mais memoráveis de “Senhores”. Os velhinhos da Academia não aprovam essa pouca vergonha.

Agora que revi “Marcas da Violência” e gostei mais ainda, noto que ele deve ser visto junto com “Senhores”. Quando David Cronenberg lançou “Marcas”, vários críticos reclamaram que o diretor canadense havia virado mainstream, que seus filmes tinham ficado mais acessíveis (como se isso fosse um crime capital! É que às vezes a lógica é assim: com uma obra complicadíssima, eu, crítica, posso elucidar meus leitores e exibir minha sabedoria). É verdade que agora o David não mostra mais um James Wood tocando uma fita de vídeo no estômago, como em “Videodrome”, ou o James Spader transando entre os destroços de um acidente de carro, como no insuportavelmente chato “Crash” (taí um exemplo de filme cabeça que muitos críticos gostam, porque precisam decifrá-lo pro público – ahn, que público?). Só que na realidade não é bem assim. As realizações mais atraentes do Cronenberg, como “A Hora da Zona Morta” e “Gêmeos, Mórbida Semelhança”, também são bastante padrão (e venhamos e convenhamos, “Scanners” e “A Mosca” estão acima da média). No entanto, de alguma forma, vemos claramente que “Marcas” e “Senhores” são da autoria do Cronenberg, apenas com um roteiro mais linear. E, claro, vamos ficar chocados com cenas asquerosas. Só que, ao contrário dos primeiros trabalhos do diretor, como “Filhos do Medo” (“Brood”) e “Enraivecida na Fúria do Sexo” (“Rabid”), desta vez nada é gratuito.

“Senhores” começa com um barbeiro amigavelmente cortando o cabelo de um cliente em Londres. Em seguida chega um outro homem e ambos passam a cortar sua garganta. O sangue esguicha. É um jeito interessante de abrir uma história, porque é totalmente imprevisível, como será todo o resto. Logo seremos apresentados a uma das protagonistas, a parteira interpretada pela Naomi Watts (“King Kong”). Ela recolhe o diário de uma prostituta de 14 anos que morreu após dar a luz a um bebê. Os segredos devem ser enterrados com os mortos, afirma o tio racista da Naomi. O diário é desolador e relata um inferno de exploração sexual, de como a menina foi tirada de uma vila na Rússia e levada pra Londres pra lá viver dopada e servir de escrava sexual, sem nenhuma chance de fuga. Sem querer, Naomi mergulha na máfia russa. E assim conhecemos o outro protagonista, um faz-tudo do crime vivido brilhantemente pelo Viggo Mortensen. É adorável como a montagem traça paralelos pra unir dois personagens tão distantes. Por exemplo, a Naomi usa seu secador de cabelos pra função óbvia, secar os cachos. O Viggo o usa pra descongelar cadáveres antes de mutilá-los, pra dificultar sua identificação.

Lá pela metade “Senhores” dá uma de “Psicose”, relega sua protagonista original, a Naomi, a segundo plano, e centra-se no Viggo. A sequência da sauna é uma das mais originais e bem coreografadas dos últimos tempos. Ajuda que o Viggo esteja completamente nu (como disse uma leitora, “mostrou o bumbum, merece meu voto pra melhor ator” - e ela não viu nada ainda!), pois dá um clima de maior vulnerabilidade. O sangue, as facadas, os murros, o medo de castração, tudo parece mais real. E que outro diretor filmaria uma cena de ação com alguém pelado? Só o Cronenberg, e talvez o outro David, o Lynch. E o impressionante é que não há nada de gratuito. Faz total sentido que o cara esteja sem roupa. Afinal, eles estão numa sauna, e há uma explicação pra sauna ser um excelente lugar para encontros de negócios (porque dá pra ver todas as tatuagens nos corpos, e assim saber as afiliações de cada um). Não seria ridículo o Viggo lutar com uma toalha que não cai nunca? Ou a edição incluir todo tipo de objetos pra cobrir suas partes pudentas, como em “Os Simpsons”?

Se dependesse de mim, todo o elenco de “Senhores” seria indicado pro Oscar. O Armin Mueller-Stahl (de “Shine – Brilhante”) e o Vincent Cassel (marido da Monica Bellucci) estão perfeitos como coadjuvantes. E não dou a mínima que ninguém seja russo de verdade (eles tampouco são mafiosos sanguinários na vida real, são?). O final é implausível e, por isso, um tantinho fraco. Não deixe ninguém estragar as surpresas. Mas o Viggo, ah, o Viggo... Por que ele e o Cronenberg não fizeram mais filmes antes? Em “Senhores” o Viggo tem seu segundo papel mais marcante (o primeiro foi em “Marcas”). Eu quero um Viggo só pra mim! Pode ser embrulhado pra presente... com roupa.

Viggo Mortensen mostra o que pode acontecer com quem não participa do bolão do Oscar

11 comentários:

gabriel disse...

To louco pra ver o filme mas seria bom se vc não contasse tanto da história...a parte do barbeiro já não vai mais me surpreender!!!( por isso não li o resto da sua resenha do filme!!!)heheheh

abraços.

lola aronovich disse...

Ah, Gabriel, a parte do barbeiro eu acho que é até antes dos créditos! Primeiros 3 minutos de filme... Mas é melhor só ler críticas depois de ver um filme, na minha opinião. Depois de vc ver o filme, volta aqui pra comentar.

Liris Tribuzzi disse...

Eu quero ver!!!
Preciso aproveitar enquanto minha carteirinha da escola ainda é aceita.

lola aronovich disse...

Por que, Liris? Sua carteirinha vai deixar de ser aceita? (eh aquilo do ano passado?).

Liris Tribuzzi disse...

É sim. Terminei o médio em 2006 mas minha carteirinha velia até janeiro desse ano, não me pergunte o motivo. Eu é que não fui reclamar quando vi.

lola aronovich disse...

Isso de carteirinha eh uma droga. Espero que me deem de volta minha carteirinha ultra chique pra entrar em todos os cinemas do GNC (com acompanhante!) quando eu voltar pra Joinville. Eh taoooo legal...

claudemir disse...

Lola vc tem a carteirinha preta ou vermelha do GNC? eu queria tanto uma vermelha pra mim, mas nunca consigo passar da azul, chuif!!!

lola aronovich disse...

Nao lembro da cor, Claudemir. É uma VIP. Ja foi prata, ja foi preta, ja foi branca. Depende do ano.

Chris disse...

Lolaaaaaaaaaaaaa!!! Você acredita que só ontem consegui assistir "Senhores do Crime"?!? Viggo, ah, viggo... *suspiros, que marido não escute*.
O filme é muito bom, roteiro idem, mas gostei muito do final. Só me faltou um toque de dubiedade ao Vigo quanto ao seu papel x real propósito...
Enfim, maravilhoso!
Beijocas

Cinemarco Críticas disse...

Parabéns pela sua escrita. O filme realmente é "cinema". A direção marcante e o cuidado com cada cena dá a cada segundo a realização por um filme foda. Sua forma de escrever é um tanto peculiar, bem direta como se jogasse tudo sem rodeios, ficou interessante tirar argumentos técnicos até! Abraço, se quiser visita meu blog tb: http://www.cinemarcocriticas.blogspot.com.br/

Paola Yadira Sánchez disse...

Se houver um tipo de filmes que são como eu e investigação da criminalidade. Além disso, também difruto ver series de detectives 2, a diversidade dos capítulos e duração da história , eu gosto de a maioria deles.