quarta-feira, 25 de julho de 2018

MULHERES NEGRAS EM LUTA

Hoje, 25 de julho, é Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, um dia de luta, com manifestações em várias cidades. Em SP, na Praça Roosevelt, às 17h, haverá um ato organizado pela Marcha das Mulheres Negras. 
A palavra de ordem é: "Por todas nós e pelo bem viver: exigimos o fim da negligência e violência do Estado".
Existe o que os movimentos negros chamam de genocídio da juventude negra. Muitos jovens são assassinados no Brasil, e a maioria desses jovens é negra. Os riscos de uma jovem negra ser morta no Brasil é duas vezes maior que entre jovens brancas. Este é um dado alarmante do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017, divulgado em janeiro.
O Atlas da Violência de 2018, divulgado mês passado, mostra que houve um aumento de 15,4% no número de homicídios de mulheres negras nos últimos dez anos (entre 2006 e 2016). Entre as mulheres não negras (o que inclui brancas, amarelas e indígenas), também houve um crescimento da violência, mas menor -- 8%.
Talvez 50% desses homicídios sejam feminicídios (a quinta maior no mundo!). Ou seja, a mulher foi morta por ser mulher, pelo companheiro ou ex-companheiro. Por homens que ela conhecia, convivia, e, até um certo momento, confiava. Só no Piauí, calcula-se que só em 2017 57% das mortes das mulheres foram feminicídios.
Muitas vezes não é possível saber a motivação dos homicídios, mas alguns pesquisadores divide os feminicídios em três categorias: feminicídio reprodutivo, feminicídio doméstico (o que até pouco tempo era erroneamente apelidado de crimes passionais), e feminicídio sexual (estupro seguido de morte). O feminicídio reprodutivo inclui as mortes causadas por aborto clandestino.
Todos os tipos de violência contra a mulher incorrem mais sobre as mulheres negras, que por sofrerem, além do sexismo, também o racismo, e por geralmente estarem em posição de maior vulnerabilidade social, estão mais expostas à violência (inclusive à violência do Estado, ao serem mortas nas mãos das polícias ou de açougueiros, quando fazem aborto clandestino). Por isso, é tão necessário que os feminismos de maneira geral prestem mais atenção às reivindicações das feministas negras.

terça-feira, 24 de julho de 2018

UM MASCU MUITO RELEVANTE

Semana passada, num post sobre a Malala, um mascutroll teve a audácia de escrever que ele se considerava mais relevante que "essa Malala". Eu tive que compartilhar essa pérola com a galera do Twitter, que me fez rir muito. 








segunda-feira, 23 de julho de 2018

"ISSO NÃO ME CALARÁ, COMO NÃO CALOU VOCÊ", AFIRMA DÉBORA DINIZ

Escrevi na quinta sobre as ameaças orquestradas que a antropóloga e professora da UnB Débora Diniz estava sofrendo por defender a legalização do aborto. 
Ontem li esta notícia e fiquei preocupada. A notícia diz que a polícia, "incapaz de punir os responsáveis," pediu para Débora sair de Brasília (havia boatos que ela teria saído do Brasil também). 
Pensei: como assim, a polícia não vai investigar as ameaças contra Débora?! Tem que investigar. A Lei Lola, que a matéria não menciona, atribui à Polícia Federal essa investigação contra crimes cibernéticos contra mulheres. 
A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), autora da lei, quer ir à direção da PF em Brasília comigo para discutir melhor a Lei Lola. Ela quer fazer uma cartilha para orientar as mulheres sobre como, onde e em que casos denunciar. Mas, antes, precisamos ter um comprometimento maior da polícia. 
E, nessa visita, levaríamos o caso da Débora. Aliás, a própria Débora poderia ir junto. Decidi então escrever pra ela. Já nos conhecíamos de vista, e a admiração é mútua.
Débora contou que as as ameaças não começaram agora. Vem desde a época da anencefalia. Para quem não sabe, Débora e o Anis (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero), do qual faz parte, foram os principais responsáveis pela aprovação do direito a interromper a gravidez em casos de anencefalia. Antes de 2012, quando o STF acatou a liminar, uma gestante com um feto sem cérebro era obrigada a prosseguir com a gravidez até o parto. 9 meses de sofrimento para gerar a vida de um bebê que ou nasce morto, ou morrerá poucos minutos depois! 
Nessa época Débora recebeu muitas ameaças e teve de fazer queixa-crime. Agora que uma discussão fundamental sobre a descriminalização do aborto se aproxima, as ameaças voltaram com força total. Nos dias 3 e 6 de agosto haverá uma audiência pública do STF sobre o aborto, com 44 especialistas (contra e a favor). Débora é uma delas. 
Falei com Débora por email, e ela me disse: "Lola, obrigada por escrever. Eu estou bem, e isso não me calará, como não calou você. Não houve 'ordem da polícia' para eu saísse de Brasília. A polícia está investigando (DEAM - Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), recebi apoio do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Houve, sim, o evento de me esperarem na porta de uma palestra -- desconheço quem sejam as pessoas. Estamos atentas e alertas, mas não em silêncio. Obrigada por estar ao lado".
Portanto, por enquanto está tudo bem com Débora. "Tudo bem", claro, no contexto de viver num país nada democrático em que ativistas são rotineiramente atacadas. Mas a polícia está investigando e essas pessoas que se dizem "pró-vida" (e não veem incoerência em se assumir assim e ao mesmo tempo ameaçar uma mulher de morte) e estão atacando Débora verão que a internet não é mais uma terra sem lei. 
Toda sororidade a vc, Débora! O ódio não nos vencerá. Arrase lá no STF na semana que vem!

domingo, 22 de julho de 2018

VEJA COSPE NO PRATO QUE CUSPIU

No meio de todo o retrocesso do "Brasil voltou vinte anos em dois", a Veja, o grupo Abril, a família Civita fingem que não tem a menor parcelinha de responsabilidade na História. 
(E, no canto superior à esquerda -- extrema ironia -- a capa desta semana aponta que não vai apoiar qualquer direita). 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O ESCÂNDALO NO BASQUETE FEMININO PARAOLÍMPICO E AS FEMINISTAS

Compartilho com vocês o questionamento interessante da ilustradora Gui Araújo, que me enviou este email no final de junho, quando eu estava viajando, de férias. Tento responder algumas coisas depois. 

No dia 13 de junho recebi via whatsapp uma mensagem comentando sobre uma notícia que me chocou absurdamente: “Atletas paralímpicas são afastadas da seleção após denúncia de abuso sexual”.
Segue trecho da matéria:
"O caso aconteceu após um treino no alojamento da equipe Gladiadoras/ Gaadin (Grupo de Ajuda dos Amigos Deficientes de Indaiatuba), baseado na cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo. Segundo a vítima, que prefere não se identificar neste momento, as três atletas afastadas pela CBBC -- Lia, Geisa e Denise -- usaram um pênis de borracha para abusá-la sexualmente. Ela teria sido retirada de sua cadeira de rodas contra a sua vontade e, já no chão, teve suas roupas íntimas abaixadas à força. A então coordenadora do time, Gracielle Silva, também aparece segurando a vítima no chão em fotos que circularam em grupos de Whatsapp e às quais a reportagem teve acesso. Gracielle se suicidou no último dia 29 de maio".
Até o momento, eu não sabia quem eram as mulheres citadas, não conhecia suas histórias de vida e ao ler a notícia completa não pude deixar de concordar que se trata de uma situação delicadíssima, mas não menos chocante, triste e dura de aceitar.
Fui pesquisar sobre as suspeitas. A paratleta Lia Maria Soares Martins, com uma história de superação exemplar, é uma pessoa inspiradora, sem dúvida. Ela diz sobre o episódio que ocorreu dentro do alojamento do clube: “Foi uma brincadeira de mau gosto e agora vai destruir a minha vida".
Buscando na rede a repercussão sobre o caso, não encontrei nenhum blog feminista discorrendo sobre o assunto, ainda estou fazendo minhas reflexões sobre o fato, e seja lá como for identificado, “brincadeira de mau gosto”, abuso ou estupro, uma coisa é certa, já destruiu uma vida, a de Gracielle Silva, de quem não consegui encontrar nada a respeito (apenas que, ao contrário das outras envolvidas, ela não tinha deficiência), além do envolvimento no escândalo. Gostaria de saber coisas boas sobre ela. Detestaria pensar nessa mulher como apenas uma pessoa que se envolveu num caso de abuso e merecia punição. 
Não encontrei nada relevante a respeito de Geisa e Denise. Não sei o que cada uma pensa, mas eu acho triste conhecer pessoas a partir de notícias ou casos negativos como este, sem a chance de saber um pouco mais sobre elas.
Um escândalo protagonizado por mulheres, paratletas que ninguém jamais iria supor serem capazes de algo desse nível. Talvez isso provoque ainda mais surpresa de alguns e indignação por parte de outros.
Pesquisando pela rede, não foi surpresa alguma encontrar fóruns onde homens aproveitaram para descer a lenha nas mulheres, nas feministas: "Mas e as feministas? Cadê as feministas? Todo homem é um estuprador em potencial... Péra!"
Não posso negar que este também foi um questionamento meu.
Por que no dia 20 de junho todo mundo só falava na vergonha dos torcedores brasileiros “brincalhões” na Rússia, e uma semana antes ninguém comentou sobre a “brincadeira de mau gosto” / assédio / abuso / estupro das paratletas (que causou uma morte)?
Das lutas, das vitórias e das dores de ser mulher feminista, não podemos fugir da responsabilidade que recai sobre nossos discursos diante da sociedade. 
Como mulher, como feminista, eu sinto profunda tristeza e imensa vergonha. Embora acredite num feminismo individualista, eu entendo a construção do coletivo, e o “mexeu com uma mexeu com todas” nesse caso, me afetou desta forma, eu sinto a dor pela vítima do abuso, sinto o arrependimento que as agressoras devem sentir, sinto a vergonha e aflição que foi capaz de levar Gracielle ao suicídio, sinto o peso da impotência e dos olhares que condenam feministas por acusar todo homem como potencial estuprador e se calarem diante desse escândalo, silêncio que eu procuro entender. 
Durante uma fase da minha vida eu acreditava que mulheres seriam seres mais evoluídos e que homens tendiam a ser mais agressivos, violentos e portanto capazes de maldades que nós mulheres jamais cometeríamos. Faz muito tempo isso, percebi rápido que estava equivocada. Na luta por direitos iguais, já não posso negar que algumas igualdades são reais, somos todos e todas capazes de agredir, abusar, oprimir e cometer erros injustificáveis, que destroem pessoas. Não importa quem faz mais ou quem faz pior. 
Gostaria de crer que é um fato isolado, mas eu não sei. Por outro lado, se admitimos isso, é como se escolhêssemos essas mulheres para eleger como “monstras” e sabemos que não são. São pessoas normais, assim como todos os homens normais, amáveis e queridos pela família e amigos, mas que cometem deslizes, são capazes de atos inconsequentes que fazem sofrer, que destroem vidas. 
É lógico que sei diferenciar um crime de uma atitude inconsequente, mas tanto um quanto outro, independente de ser encarado pela lei como mais grave e passível de punição, são igualmente nocivos e capazes de gerar danos às vítimas. 
Não quero amenizar a gravidade da ação destas mulheres ou justificar de alguma forma. Também não quero comparar abusos cometidos por homens e mulheres, definindo o que motiva uns e outros. Acredito que cada caso é um caso e deve ser analisado dentro de seu contexto. 
Eu queria falar sobre esse fato e ouvir outras mulheres, acho que precisamos cuidar dessa ferida (eu me senti ferida e acho que é ferida de mais gente). Precisamos enfrentar isso, assumir o que precisa ser assumido.

Meus comentários: Há vários questionamentos seus, Gui, e todos são válidos. Em primeiro lugar, a Copa do Mundo monopoliza tudo mesmo. Não dá pra ser diferente. É um evento internacional que ocorre a cada quatro anos. No "país do futebol" (masculino), no esporte em que somos os melhores do mundo, não se fala em muita outra coisa.
Este escândalo no basquete feminino paralímpico aconteceu ano passado, e só agora veio à tona. É um assunto delicado, pois envolve três jogadoras importantes, e já resultou em um suicídio. Falar disso é também falar do envolvimento de Gracielle. Antes de publicar este post, entrei em contato contigo, perguntei se havia atualizações sobre o caso. Parece que não há nada até agora. 
Acho que se falou relativamente pouco sobre o escândalo na ginástica olímpica masculina. E isso que saiu no Fantástico, um programa de TV muito popular. O técnico Fernando de Carvalho Lopes foi acusado por pelo menos 42 atletas de ter praticado abuso sexual enquanto trabalhava em São Bernardo do Campo. Lopes foi afastado da seleção em 2016. Um outro técnico, de outra cidade, sabia dos abusos e não fez nada além de piadas. 
O medalhista Petrix Barbosa teve a coragem de falar abertamente sobre os abusos de Lopes. Já o famoso campeão Diego Hypolito negou abuso, mas, depois da reportagem, falou do bullying que sofreu de companheiros de equipe mais velhos no início da carreira. Um desses episódios foi ter que, nu, pegar com o ânus uma pilha com pasta de dente em cima. Obviamente isso também é abuso!
Eu, pessoalmente, acho esses dois escândalos bastante parecidos. Infelizmente, isso é comum em muitos esportes. Eu participei durante anos dos Jogos Abertos do Interior, tanto em SP quanto em Santa Catarina, jogando xadrez. Não vi abusos no xadrez, mas a gente falava com atletas de outras modalidades, e era horrível. Era muita violência e hierarquia disfarçadas de piada. Sabe os trotes nas universidades, em que um veterano acha que pode mandar num calouro? Então: nos alojamentos esportivos, a forma mais suave de "mandar num calouro" era que ele deveria lavar seu prato após cada refeição.
Mas havia mil e uma "brincadeiras" humilhantes, inúmeras delas de cunho sexual. Se o atleta reclamasse, ele seria odiado pelo grupo. Os técnicos viam tudo e muitas vezes incentivavam. Portanto, denunciar estava fora de cogitação. E denunciar o quê? Afinal, aquilo não era visto como abuso ou bullying, só brincadeira, confraternização. Se o calouro achasse ruim, ele teria a chance de se vingar em outro calouro no ano seguinte.
Isso a gente ouvia de várias modalidades esportivas, tanto no masculino quanto no feminino (embora mais no masculino). Era corriqueiro, rotina mesmo. Só recentemente que algumas pessoas vêm vendo essas "piadas" como abuso inaceitável.
Creio que foi isso que aconteceu com as atletas paralímpicas do basquete. Elas devem ter achado divertido usar um pênis de borracha em outra atleta. Claro que isso choca, até porque são atletas de alto nível, e creio que espera-se que atletas paralímpicas comportem-se melhor, tenham mais maturidade. Mas aí é que está: elas não são diferentes. A cultura de estupro lhes ensinou que aquilo que fizeram não é estupro. 
Quanto a misóginos gritarem "Cadê as feministas?!", danem-se eles. Eles vivem nos demonizando, atacando, ridicularizando, mas quando surge algum caso que envolve mulheres ou em que o acusado é alguém de esquerda, pedem a opinião das "malditas feminazis" (aliás, pedem nada. Eles nem vão ler este texto. Só vão dizer que as feministas não se manifestaram, porque seríamos hipócritas).
Eu nunca disse que todo homem é um estuprador em potencial. Desafio que encontrem um só texto em que escrevi isso. Nunca escrevi, porque não acredito nisso. Mas aí você vê um mascu num vídeo afirmando que fui eu que inventei essa expressão! 
Outra coisa é que nunca neguei que mulheres possam ser violentas, que mulheres não podem estuprar. Existem feministas que creem que homens não podem ser feministas, e que mulheres não podem ser machistas. Eu acredito que homens podem (e devem) ser feministas e que mulheres podem ser machistas
Uma coisa é dizer que a maioria dos casos de violência e estupro são cometidos por homens. É um fato incontestável, uma realidade que precisa ser mudada. Outra coisa é dizer que só homens cometem violência. Simplesmente não é verdade, e duvido que muitas feministas digam isso. 
Espero que este caso lamentável de abuso no basquete feminino paralímpico (assim como o da ginástica olímpica masculina) sirva para acabar (ou no mínimo questionar, ou desnaturalizar) a violência nos esportes. Não é "brincadeira de mau gosto", é abuso!