segunda-feira, 25 de junho de 2018

MULHER CHUTA A BUNDA DE MASCU DEPOIS QUE A FAMÍLIA DESCOBRE MEU BLOGUINHO

Preciso compartilhar essa história com vocês porque ela me deixou muito feliz!
Já aviso que tudo que sei é através de um vídeo que o mascu foragido Emerson gravou. E sem chance de eu divulgar vídeo dele. O que quero dizer é que só conheço a versão dele, que é sempre mentirosa.
Ainda assim, é uma história que vale a pena. Prometo.
No final do ano passado, alguns meses depois de ter sido deportado dos EUA, onde ficou preso uns 120 dias, Emerson, que tem 40 anos,
conheceu R., uma mulher bonita e bem-sucedida pelo menos dez anos mais velha que ele. Não sei o nome dela, não sei o que ela faz. Sei que, de acordo com Emerson, ela já tem filhos adultos, um deles policial. Imagino que R. e Emerson se conheceram via Tinder, pois ele (e demais mascus) são assíduos nessas redes sociais (o que é bem perigoso, né? Pensem que droga sair com um misógino sem saber o que ele pensa de verdade sobre as mulheres).
Emerson ficou encantado que uma loira (o tipo que ele quer, já que ele é "ariano" e segue o "código de honra prussiano" -- eu não sei o que é isso, mas sei reconhecer discurso nazista quando ouço um) deu bola pra ele. E parece que R. deu muito mais. Pagou mil coisas pra ele, o levou pra viajar pelo Brasil, deve ter tomado um preju violento em sua conta bancária. Emerson fascinou-se com tamanha generosidade, já que, segundo ele mesmo, nenhuma mulher antes tinha lhe pagado sequer uma coxinha (o cara faz vídeos falando essas coisas e depois processa os outros por difamá-lo...).
Algum tempo depois, uma irmã de R. descobriu o meu blog. Não sei se é verdade, não sei se os irmãos de R., todos professores e de esquerda, segundo Emerson, já conheciam o meu bloguinho antes, ou se descobriram só naquele momento, talvez procurando maiores informações sobre Emerson. O fato é que a família de R. a chamou para um sítio da família e teve uma conversa franca com ela. Contou todos os podres do Emerson, que não são poucos. Disse que iria deserdá-la se ela se casasse com um patife daquela estirpe.
A preocupação da família é compreensível, visto que Emerson pediu R. em casamento três meses depois de conhecê-la. Iam se casar em março passado, segundo ele. 
Tampouco sei o que a família dela descobriu no meu blog. Nada que um mínimo de pesquisa não revele. Que Emerson foi preso em março de 2012 pela Operação Intolerância, junto com seu comparsa Marcelo? Que foi condenado a 6,5 anos de prisão? Que passou 1 ano e 3 meses na cadeia no Brasil, e outros 4 meses na cadeia nos EUA? Que gravou um vídeo que até hoje circula em que diz que o "estado natural do negro é a sujeira e a criminalidade, o estado natural da mulher é a prostituição, o estado natural do homem branco é o trabalho"? Que todas as mulheres que se envolveram com ele por mais tempo fizeram boletim de ocorrência por violência doméstica? Que acaba brigando com todo mundo que conhece? Que faz vídeos e mais vídeos falando as mesmas coisas, sempre mostrando sua obsessão por uma série de pessoas? Que é assumidamente de extrema direita, além de racista, machista, e homofóbico? 
Estou listando apenas as coisas fáceis de descobrir. Há muitas outras, como ele ter sido expulso das Filipinas quando um chefe indiano viu seu vídeo racista mais famoso, ou um áudio em que ele agride sua própria mãe em longos minutos de violência verbal.
A família de R. a convenceu que Emerson não é flor que se cheire. Enquanto ela estava no sítio, conversando com os irmãos, Emerson estava no apê dela, em Ponta Grossa, PR. Para romper o relacionamento sem que ela corresse riscos, dois dos irmãos dela se dirigiram ao apê e puseram todas as tralhas dele pra fora. The end.
Pouco tempo depois, Emerson, com dinheiro provavelmente da ex-amada, foi para a Europa. Desde 10 de maio, quando finalmente aconteceu a Operação Bravata, que prendeu o líder da quadrilha, Marcelo, ex-comparsa de Emerson (eles brigaram e fizeram as pazes inúmeras vezes nos seus -- no mínimo -- 7 anos de convivência), Emerson está listado como foragido da Justiça. 
Quanto Emerson conseguiu tirar dessa mulher, não se sabe. Mas deve ter sido bastante, pois no vídeo ele, furioso (pra variar), diz que faz questão de devolver tudo pra ela, pra ela enfiar no c*. E diz que perdeu o respeito por ela, depois que ela, recentemente, agora em junho, meses depois de terem terminado o relacionamento, falou com ele no FB. 
R., uma dica: não fale mais com ele. Bloqueie qualquer contato. Ele é um psicopata. Vai falar de você pra sempre de agora em diante. Vai tentar te expor nas redes sociais (pede pro YouTube e o FB deletarem os vídeos dele, ou contente-se que pouquíssima gente vai ver todos aqueles festivais de calúnias e alucinações). O dinheiro que você deu ou emprestou pra ele, esqueça. Você nunca vai reavê-lo. Vida que segue! Esqueça esse estorvo e continue em frente, feliz que você perdeu apenas dinheiro. 
E uma dica geral pra todas as mulheres: desconfiem de caras que são obcecados pelas ex-mulheres, principalmente daqueles que as chamam de loucas. Esses que não conseguem esquecer as ex são geralmente os que cometem pornografia da vingança e feminicídios. Se eles falam mal delas, há boas chances de que você também seja xingada e tachada de doida quando você for a ex dele. 
No caso do Emerson, é 100% certo que ele falou mal da Rafaela dezenas de vezes enquanto vocês estiveram juntos, R. Eu não conheço a Rafaela, nunca me comuniquei com ela (nas fantasias do Emerson, eu e ela somos amigas inseparáveis), mas temo por sua vida, pois já ouvi e li Emerson ameaçá-la. E isso que, pelo que entendi, o relacionamento deles já acabou faz uma década. E Emerson continua fazendo vídeo após vídeo atacando a moça... 
(Aliás, uma dica infalível para entender a mente perturbada de Emerson é: ele acusa os outros por tudo que ele faz. Ele me acusa de discurso de ódio, de perseguir pessoas, de não saber falar inglês, de difamá-lo, de roubar dinheiro, de fazer parte da quadrilha mascu, de ser uma psicopata, de ser estelionatária e parasita, e, ahn, de fazer sexo usando "strap-on de cinta-pica de titânio" [tenho uma vaga ideia do que seja isso; é o tipo de "conceito" que aprendi vendo os vídeos do Emerson]). 
R., tenho certeza que você é forte, linda, e inteligente. Você vai encontrar homens muito mais interessantes e dignos do que um mascu. E, se não encontrar, pode estar segura de que é melhor ficar sozinha do que ficar com alguém que odeia a humanidade, principalmente as mulheres, que acredita que exista uma conspiração internacional contra ele, e que cedo ou tarde pode se voltar contra você.
Eu, de minha parte, estou imensamente contente. A sensação é que meu humilde bloguinho salvou a vida de uma mulher. Só isso já faz tudo valer a pena. 

domingo, 24 de junho de 2018

TAMANHO DE PÊNIS NÃO É PIADA, É RACISMO

Hoje na Copa do Mundo, no horário do almoço, se confrontaram duas seleções que não estão entre as favoritas para o título, Japão e Senegal.
O que me chamou a atenção foi a quantidade de piadinhas no Twitter falando do tamanho do pênis dos jogadores. Os senegalenses, por serem negros, foram associados a pau grande; os japoneses, por serem orientais, a pau pequeno. 
Não preciso nem dizer que esses chistes babacas vieram de quem tem maior obsessão pelo falo e pelo seu tamanho: os homens.
Mas não é piada. É racismo. O mito de que orientais têm bilau pequeno é só mito, preconceito sem nenhuma comprovação científica. 
Num mundo que lucra bilhões explorando a insegurança masculina com o tamanho de seus membros, dizer que um povo inteiro têm pênis pequeno é algo muito, muito preconceituoso. Não é zoeira, é racismo.
Arte com balão
Mas e o contrário? E o mito de que negros têm pênis grande? Também é racismo. É o que se chama de racismo benevolente. Parece positivo, mas não é. Este mito está ligado àquele de que negros são selvagens, animalescos, incontroláveis  -- enfim, um perigo para a mulher branca. Muito do racismo (e do machismo) foi construído em cima da ideia ridícula do "pode deixar que nós homens brancos vamos proteger as mulheres brancas dos terríveis homens negros". 
Mulheres negras também são vistas como selvagens, numa tentativa de justificar o estupro que sofreram dos colonizadores brancos e donos de escravos. Então inverte-se a lógica: não foram os homens brancos que estupraram mulheres negras, e sim o contrário. Elas, com seu poder de conquista animalesco, é que "seduziram" os pobres homens brancos.
E aproveitando, já que alguém me perguntou: "E falar b*ceta rosa, é racismo?" Óbvio que é. Sugerir que uma cor clara é superior ou deve ser mais valorizada que uma cor escura é puro racismo. 
Enfim, só um textinho minúsculo pra lembrar que preconceito não é piada.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

NINGUÉM É A FAVOR DO ABORTO

Eu só traduzi o ótimo tuíte da Gabriela q o Ubiratan mandou pra mim

Julia Rocha escreveu na sua página do FB algumas coisas que são óbvias para quem fala sobre aborto faz tempo, mas que ainda precisam ser repetidas. Nós somos a favor da legalização do aborto, mas ninguém é a favor do aborto (tem uma diferença enorme aí).

Nem quem aborta, nem quem defende a descriminalização do aborto, nem quem acha desesperador ver mulheres morrendo em clínicas clandestinas. Ninguém!
Repita comigo: ninguém luta pelo aborto! Nenhuma de nós fica em casa torcendo pra que várias mulheres engravidem e queiram abortar! Não há prazer nenhum em ver o desespero de um mulher que procura esse tipo de procedimento. Nenhuma mulher faz isso achando bom!
Mulheres engravidam inclusive usando métodos anticoncepcionais. Mulheres engravidam de parceiros abusadores, mulheres engravidam por que não têm acesso à informação de qualidade sobre contracepção e sobre planejamento familiar. Mulheres engravidam por que uns sacanas resolvem furar a camisinha.
A realidade é muito mais diversa do que a realidade que você conhece. Quando a gente comemora que um país legalizou o aborto, a gente não tá comemorando que fetos e embriões, muitos deles concebidos nas condições citadas acima, vão ser retirados do útero das mulheres que os carregam. Isso é triste pra caramba, mas vai acontecer de qualquer jeito. Com aborto legalizado ou não. O que a gente tá comemorando é que as mulheres que decidirem fazer isso não vão correr risco de morrer!
Elas são mães de outras crianças, são pessoas boas, não são as bruxas odiáveis que te contaram.
E só pra lembrar: países que descriminalizaram o aborto tiveram redução das taxas de abortos realizados.
Defendamos educação sexual nas escolas e acesso adequado à informação sobre contracepção e planejamento familiar. 
Defendamos a responsabilização dos homens! O debate é urgente! Mulheres estão morrendo. Principalmente mulheres pobres e negras.
Para parar com essa sangria é que é imperativo legalizar o aborto.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

PESADELO SEM FIM: POR QUE DISTOPIAS FEMINISTAS DEVEM PARAR DE TORTURAR MULHERES

Assim que vi este artigo de Sarah Ditum no The Guardian, pensei no meu curso da pós-graduação. 
Vou oferecer uma segunda parte da disciplina Utopias e Distopias Feministas no semestre que vem (veja aqui o cronograma inteiro da primeira parte, com links pros textos), e planejo incluir uma discussão sobre a segunda temporada da série de TV Conto da Aia. Então pedi pro querido Vinicius Simões traduzir o artigo, que agora compartilho com vocês. 
Não concordo com tudo que diz Ditum (por exemplo, não acho que ficção, feminista ou não, deve apresentar soluções, e gostei pacas do romance Only Ever Yours). Porém, seu artigo rende ótimas discussões e, no mínimo, novas indicações de leituras. 
Estou assistindo (e gostando) da série Conto da Aia, mas tem muita gente incomodada com a violência contra as mulheres. Como diz a chamada: "O Conto da Aia inspirou uma nova geração de escritoras cujos mundos distópicos são cada vez mais sombrios, tenebrosos e sádicos. Mas onde está a esperança?"

A uma mulher, grávida por conta de um estupro, é negado um aborto. Ela é legalmente detida e submetida a uma cesariana forçada. Uma mulher com baixa renda quer deixar seu parceiro controlador, mas não pode, porque uma política de governo destinada a “impedir o colapso familiar” significa que todos os benefícios são pagos na conta dele. Uma mulher relata uma agressão sexual, mas a polícia não acredita nela, então a processa por fazer uma falsa alegação enquanto seu agressor continua livre para atacar mais vítimas. Meninas são sistematicamente preparadas para a prostituição e a polícia ignora seus agressores. Um homem se vangloria de que ele pode “agarrar” mulheres “pela boceta”: ele é eleito presidente. Tudo isso aconteceu na Irlanda, no Reino Unido e nos EUA na última década.
Como as mulheres do elenco do Saturday Night Live cantaram em sua resposta musical aos homens chocados com as revelações do #MeToo: “Bem-vindos ao inferno/ Isso não é novidade/ Nossa situação tem sido um incômodo desde que temos peitos”. 
Do abuso teocrático de garotas nas regiões controladas pelo Boko Haram na África ocidental, até o assassinato da jornalista Kim Wall por Peter Madsen, inspirado na pornografia da tortura, 
o mundo oferece uma variedade tão rica de pesadelos para mulheres que parece supérfluo para a ficção inventar mundos ainda vez mais horripilantes. Mas não importa: com a segunda temporada da aclamada adaptação de TV de O Conto da Aia, de Margaret Atwood, prestes a começar [em maio 2018], o apetite por distopias feministas não mostra sinais de diminuir, e as editoras mostraram-se mais do que dispostas a satisfazer essa demanda.
No livro Red Clocks, de Leni Zumas, o aborto é proibido nos EUA e um “muro rosa” impede que as mulheres voem para o Canadá. Em Future Home of the Living God, de Louise Erdrich, o aquecimento global parece ter precipitado uma crise reprodutiva: mulheres grávidas são mantidas em centros de detenção e mulheres férteis recrutadas para carregar embriões. The Growing Season, de Helen Sedgwick, imagina um mundo em que úteros artificiais se tornaram a norma. The Book of Joan, de Lidia Yuknavitch, se passa em uma Terra envenenada, comparada a um “preservativo espacial idiota”, onde um punhado de sobreviventes ricos sofre mutação até ficarem sem sexo. 
No encantador The Water Cure, de Sophie Mackintosh, as mulheres têm sido atingidas por uma sensibilidade terrível que torna os homens tóxicos para elas. Gather the Daughters, de Jennie Melamed, indicado ao prêmio Arthur C. Clarke, é ambientado numa apavorante comunidade fechada em que os pais devem estuprar suas meninas pré-púberes para substituir o sexo reprodutivo -- uma medida de controle populacional.
O sofrimento vende, especialmente quando são mulheres que estão sofrendo e, como acontece com qualquer tendência, a pressão para cada nova iteração é superar o que veio antes. Os resultados, às vezes, escapam ao absurdo: em Vox, de Christina Dalcher, que será publicado em agosto, as mulheres são equipadas com pulseiras que emitem choques elétricos caso falem mais do que cem palavras por dia. E há mais por vir. Na Feira do Livro de Londres, em março, os grandes lançamentos foram histórias de coisas terríveis que acontecem com mulheres: 
The Farm de Joanne Ramos, a ser publicada pela Bloomsbury no ano que vem, se passa em uma fábrica de barrigas de aluguel; Vardø, de Kiran Millwood Hargrave, sobre os julgamentos de bruxas do século XVII, foi adquirido pela editora Picador por uma soma de seis dígitos após uma guerra de leilão em 13 rodadas de lances. Na literatura jovem o mesmo fascínio prevalece: Only Ever Yours, de Louise O'Neill, publicado em 2014 [traduzido em Portugal com o título As Filhas de Eva], estabeleceu o tom, revisitando O Conto da Aia para o mercado adolescente.
O romance de 1985 de Atwood permanece como um marco porque seu poder de chocar nunca desapareceu. Limitando-se à tecnologia existente e aos eventos que já haviam acontecido, Atwood criou uma visão do totalitarismo patriarcal que radicalizou geração após geração de leitoras. Atualizado até os dias atuais em sua adaptação para TV, adquiriu nova ressonância. Encomendado antes da presidência de Trump, mas transmitido durante a mesma, O Conto da Aia se tornou um ponto de referência instantaneamente reconhecível. Feministas vestiram trajes de aia para protestar contra a legislação anti-aborto; estilistas enviaram roupas chiques de aias para suas passarelas.
No entanto, com a segunda temporada já sendo exibida nos Estados Unidos e prestes a começar no Canal 4 [Reino Unido], algumas espectadoras começaram a manifestar seu desconforto com os níveis de brutalidade no drama. A primeira temporada, aproximando-se bastante do romance, tinha um conhecido arco de dor para Offred. A segunda temporada, solta de seu material de origem, tem um potencial de desprazeres ilimitados em Gilead. A revista New York classificou-a de “uma horrível cavalgada incessante de pornografia da tortura feminista para rivalizar com nossos maiores autores misóginos”, e perguntou se havia justificativa para ser tão chocante, dado o assunto, ou se a série estava simplesmente sendo sádica.
O Conto da Aia efetivamente inaugurou a distopia feminista como um gênero, e à medida que a distopia feminista florescia, seu oposto -- a utopia feminista -- desaparecia. A obra do século XVII de Margaret Cavendish, O Mundo Resplandecente, o livro  de 1915 de Charlotte Perkins Gilman, Terra das Mulheres, A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. Le Guin (1969), e The Female Man (1975), de Joanna Russ, todos ofereciam não-lugares onde ser mulher não significava mais ser inferior. Revisitar estes “e se...” é revigorante.
No mundo imaginário de Mão Esquerda de Gethen, por exemplo, não há seres humanos masculinos e femininos: em vez disso, todo indivíduo é capaz de ovular e inseminar, e assume cada papel dependendo da situação. Em tal mundo, escreve Le Guin, não há “divisão da humanidade em metades fortes e fracas, protegidas/ protetoras, dominantes/ submissas, proprietárias/ propriedades, ativas/ passivas”. É uma invenção que aponta para a crueldade das classes sexuais humanas existentes e a possibilidade de uma vida sem restrições de gênero.
Um dos poucos romances que revisitaram esse escopo imaginativo nos últimos anos é O Poder, de Naomi Alderman. No romance de Alderman, as mulheres desenvolvem um órgão especializado chamado meada que lhes permite dar grandes choques elétricos, o que, por sua vez, permite que elas dominem os homens, do jeito que homens dominaram historicamente as mulheres. É gratificante entrar em um mundo em que as mulheres podem ser condescendentes com os homens com a autoridade alegre dos temidos, e as inversões do romance são deliciosamente reveladoras sobre o padrão masculino da nossa própria sociedade. É engraçado ler uma personagem feminina nobre dizendo a um homem servil que a ideia dele de um “mundo dirigido por homens” seria “certamente mais gentil, mais carinhoso e -- ouso dizer isso? -- mais sexy do que aquele em que vivemos”.
Mas quando um protagonista masculino, Tunde, descreve o que é ser a classe sexual inferior, é chocante ouvir essas palavras da boca de um homem. Somente quando você vê um homem sendo tratado como as mulheres são tratadas você entende o quão longe estamos da noção radical de que mulheres são pessoas. No entanto, O Poder não é exatamente um manifesto de mudança. Em um trecho do texto religioso do seu futuro matriarcal, O Livro de Eva, nos é dito: “A forma do poder é sempre a mesma”. Quando os homens têm poder, eles o usam sobre as mulheres; quando as mulheres têm poder, elas o usam sobre os homens. A perspectiva de uma sociedade que não é definida por um sistema de classe de sexo é uma impossibilidade nebulosa aqui.
Claro, essa crítica sugere que um romance tenha alguma obrigação de ser um manifesto para a mudança, o que levanta a questão espinhosa de o que significa para uma obra de arte ser feminista. Para Atwood (mentora de Alderman durante a criação de O Poder), este sempre foi um ponto de discórdia, e sua relação com o rótulo “feminista” e com o movimento em geral há muito tem sido incerto. Em um artigo opinativo de 2017 para o New York Times, ela respondeu à pergunta se O Conto da Aia é um romance feminista:
"Se você quer dizer um tratado ideológico em que todas as mulheres são anjos e/ou tão vitimizadas que são incapazes de fazer uma escolha moral, não. Se você quer dizer um romance em que as mulheres são seres humanos -- com toda a variedade de caráter e comportamento que isso implica -- e também são interessantes e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, estrutura e enredo do livro, então sim. Nesse sentido, muitos livros são 'feministas'”.
É uma resposta que engenhosamente se exime da demanda sufocante de fazer propaganda de seu romance, mas também não é tanto uma resposta quanto um deslize entre dois espantalhos feministas. O feminismo não é nem a afirmação de que mulheres são perfeitas, nem é qualquer coisa que por acaso seja sobre mulheres: é um movimento para desmantelar um sistema no qual os homens sistematicamente detêm o poder sobre as mulheres e as exploram economicamente, sexualmente e (como O Conto da Aia examina mais obviamente) reprodutivamente.
Parte desse movimento sempre foi chamado de “conscientização”, no qual mulheres compartilham suas experiências e afirmam a natureza do problema. O boom das distopias feministas parece se encaixar exatamente nessa descrição -- elas estão identificando problemas, às vezes com exagero satírico, e dando às leitoras o alívio do reconhecimento. Mas a conscientização é um primeiro estágio, apenas significativo quando forma a base para uma ação coordenada, e como a comentarista política e cultural Helen Lewis apontou, o feminismo contemporâneo mostrou incrível força na conscientização, mas muito menos convicção quando se trata de objetivos concretos.
Há campanhas vitais e sucessos notáveis ​​(a campanha Revogue a Oitava Emenda, para remover as restrições brutais da Irlanda ao aborto, por exemplo, e o trabalho de Caroline Criado-Perez sobre representação feminina), mas enquanto movimentos de grande repercussão como o projeto Everyday Sexism (o machismo de todos os dias) e o #MeToo estabeleceram inequivocamente que temos um problema de sexismo e assédio sexual, eles ainda não se uniram em torno de uma solução. O mesmo dilema -- um senso aguçado do que está errado, um impasse quando se trata de formas de corrigi-lo -- caracteriza grande parte da atual literatura de distopia feminista.
Essa tendência se manifesta de algumas maneiras. A obra de Sedgwick, The Growing Season, questiona se úteros artificiais forneceriam a liberação definitiva dos papéis de gênero ou deixariam as mulheres ainda mais vulneráveis ​​à coerção masculina. Com a reprodução terceirizada do corpo feminino, as mulheres não são mais estereotipadas em papéis de “cuidado”: ​​um recepcionista homem é tão pouco memorável quanto uma executiva mulher. 
Mas a violência masculina persiste, e os úteros externos oferecem um novo alvo para ela. “Nós inventamos uma nova forma de abuso. Demos aos homens o poder definitivo sobre as mulheres”, lamentou a feminista inventora da “bolsa”. Mas essas grandes ideias são deixadas de lado à medida que o romance muda para o modo conspiração/ suspense e, de certa forma enganosa, estabelece a gestação interna e externa como escolhas igualmente válidas. (Diz algo sobre como só a “escolha” é vazia como meta feminista que Sedgwick deva conjurar esse improvável equilíbrio para torná-lo convincente.)
O romance de Dalcher, Vox, acerta um pouco em relação a como a socialização feminina é simplesmente o processo de habituação das mulheres a consequências violentas -- a protagonista Jean observa com horror sua filha de cinco anos adquirir habilmente o silêncio feminino -- mas chega a um clímax que é tanto um ato de wishful thinking [auto-engano, "bem que eu queria"] como Cinquenta Tons de Liberdade, de EL James. Jean não só derrota o patriarcado, como também foge com um sexy linguista italiano. É uma espécie de vitória, mas não responde a nenhuma das questões levantadas por Dalcher sobre linguagem, poder e consentimento.
No livro de Erdrich, Future Home of the Living God, a fuga desesperada da narradora Cedar das autoridades que querem tomar seu bebê e controlar seu corpo é apenas um pequeno desvio da realidade de coerção reprodutiva para as mulheres nativas americanas, que sofreram esterilização forçada e a retirada de seus filhos (Erdrich, como Cedar, pertence à tribo Ojibwe). Não há como escrever uma conclusão satisfatória para essa situação. 
Onde O Conto da Aia (o livro) evita tanto a salvação desonesta quanto o tormento desgastante, cortando abruptamente a história de Offred, Future Home insiste em uma desolação paralisante. A ferrovia subterrânea das parteiras que protegiam Cedar fracassa e termina com a captura dela e seu bebê levado embora: “Espero na minha cela pela próxima gravidez”, ela escreve para a criança que nunca conhecerá. “Onde você estará, minha querida, na última vez em que nevar na Terra?”
Tal conclusão pode aparentar ser contundente, enquanto na verdade se regojiza na dor feminina. Erdrich se esquiva dessa armadilha, mas algumas distopias feministas não. Em Only Ever Yours, de O’Neill, garotas são criadas como “Evas”, escrupulosamente inculcadas na feminilidade para tornarem-se esposas agradáveis ​​para os homens da classe dominante. Aquelas que fracassam são jogadas mais para baixo no sistema de castas de mulheres até que, no fundo do poço, são enviadas ao “Subterrâneo” para o extermínio. Em um trecho desgastante, a protagonista Freida é punida por uma infração sendo trancada em seu quarto, onde as paredes são telões que mostram repetidamente sua humilhação pública em cadeia nacional.
É uma cena que capta a auto-aversão da adolescente ampliada pelas mídias sociais, mas uma reflexão não é o mesmo que uma crítica. Ao ler isso, com o foco preciso no peso e na aparência, uma jovem pode ficar mais propensa a reforçar suas ansiedades do que a desconstruir o mito da beleza. O desfecho mostra Freida abraçando seu final no Subterrâneo com uma paixão quase erótica: “A agulha afunda na minha pele, o líquido sussurra, esquece, esquece, ao meu sangue… Estou pronta para não sentir nada, para sempre”. Ao contrário do que diz Atwood, feminismo não se trata nem de idealizar mulheres, nem de simplesmente representá-las, mas ambas as opções parecem muito mais preferíveis a um tipo de “feminismo” que oferece consolo na autodestruição.
Se a distopia verdadeiramente feminista deve retratar honestamente as lutas das mulheres sem sensacionalizar suas dores e dramatizar uma análise política sem cair em slogans pesados, então talvez tal coisa nunca possa existir. Afinal, uma das razões para Atwood ter cautela com o rótulo “feminista” é que muitas vezes ele é um padrão a mais aplicado apenas às mulheres escritoras -- um padrão que falhará, já que o propósito da maioria dos padrões aplicados apenas às mulheres é garantir que elas nunca serão boas o suficiente.
Mas há ficção que entende a opressão das mulheres, reconhece a subjetividade delas, tem a imaginação para testar como o pior dos casos pode acontecer e a esperança de que possamos encontrar algum tipo de futuro melhor no final. Uma distopia feminista, em outras palavras, deve conter um pouco de utopia feminista. Em Red Clocks, o horror do “Muro Rosa” (um cenário que é mais ou menos um fato para mulheres sem passaporte na Irlanda, ou mulheres em regiões conservadoras nos EUA que não têm recursos para o transporte através das divisas estaduais) é entrelaçado com uma comovente resistência feminina, à medida em que as personagens de Zuma aprendem a olhar umas às outras em busca de ajuda. 
Há um vínculo que se estende não apenas entre mulheres, mas através do tempo: “Milhares de anos em desenvolvimento, aprimorados pelas mulheres nas obscuras dobras da história, ajudando umas às outras”, pensa uma. 
A sororidade também é resgatada em The Water Cure, embora de maneira um tanto perturbadora. No final, suas personagens femininas matam um homem para proteger seu mundo fechado: elas o deixam na praia como uma mensagem para outros intrusos de que “aqui não é seu lugar”, e sua utopia ambígua utopia. 
The Book of Joan, com seu estranho e contínuo sentido de tempo (a narradora, Christine, e seu adversário, Jean de Men, são reproduções da proto-feminista medieval Christine de Pizan e do autor hiper-misógino de The Romance of the Rose), não oferece exatamente progressismo: como você pode progredir quando a história está se autodesmoronando? Mas há algo de esperançoso na reivindicação que delimita uma volta ao reconhecimento da materialidade na política, e não à expropriação insustentável do planeta ou do corpo: “O corpo é um lugar real”, diz a rebelde Joan, enquanto comanda as sobreviventes terrestres em um exército. "Um território tão vasto quanto a Terra."
E há o soberbo A Parábola do Semeador, de Octavia Butler (1993). Em uma Terra superaquecida e pobre em recursos num futuro próximo, onde as mulheres são mais um recurso a ser explorado, a protagonista Lauren lidera um grupo de peregrinas através de uma selva violenta com o sonho de começar algo novo. Esse algo é Earthseed: parte religião, parte projeto de colonização interestelar, “a derradeira mudança humana à beira da morte... um destino que é bom buscarmos se esperamos ser algo diferente de dinossauros de pele suave”. 
Enquanto o mundo em que vivemos ainda não é um lugar para as mulheres, o feminismo precisa desses sonhos de coisas melhores. Enumerar nossas feridas, por si só, não nos levará a um lugar além do mal.