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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

AS NARRATIVAS DE ESTUPRO NA LITERATURA BRASILEIRA (MAS NÃO SÓ)

Recebi um livro que parece formidável (ainda não li inteiro) de Karine Döll, doutoranda em Letras pela UFRGS, e mestre pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. 

Pedi pra ela escrever sobre seu livro, e publico seu relato como guest post aqui, na esperança que você se interesse e compre Gatilho: o estupro na ficção brasileira (Editora Letramento). E divulgue também!

Demorei a voltar a falar sobre o tema da minha pesquisa. Demorei a voltar a falar sobre o crime que possivelmente mais desperta as paixões e perversões humanas. Desde que terminei o mestrado, em 2019, muita coisa aconteceu. Desde que comecei minha pesquisa, em 2017, mais coisa ainda. Não fazíamos ideia do que estava por vir. E veio. Demônios, impotência, pandemia. No entanto, muita gente falou. Muitas mulheres falaram e, de repente, a palavra “estupro” não apareceu mais como um assunto colocado sempre para debaixo do tapete. Será?

Acompanhei de longe o que houve em Belo Horizonte, algumas semanas atrás. De longe mesmo, pois moro e sou do Paraná. E posso dizer que o que houve naquela rua, àquela noite, também me chocou (logo a mim que, pressupunha, tive contato com as mais variadas narrativas de estupro ao longo de todos esses anos). Penso ser este o retrato de nossos tempos. A moça escapou de um, de dois, de três homens, mas não escapou do quarto. Houve avanços. Em outro momento, muito provavelmente ela teria sido estuprada pelo primeiro. Ou, talvez, por todos. Porque é inevitável. Somos todas reféns. Lembro de uma menina, em minha cidade, que também saiu para se divertir com amigos, foi drogada, estuprada por vários homens e se matou algumas semanas depois. Disseram que ela era viciada. 

Lembro de mim, que saí certa vez com um amigo e “passei do ponto”, tendo bebido pouco, pouquíssimo, mas também apaguei, sendo que este meu amigo me salvou (que sorte a minha, não é mesmo?). Demorei para entender que aquilo (que não foi nada) também não foi culpa minha e nunca mais saí na balada com um copo sem tampa. Lembro de uma amiga que me contou recentemente que fora drogada por um primo enquanto bebiam na casa dele e alguns meses depois descobriu que estava grávida, sem nem saber ainda que já havia perdido sua virgindade. 

Não quero simplesmente divulgar um livro e não tenho por intenção propagar um discurso de autoridade sobre assunto tão desafiador e dilacerante, para todas nós. Mas quero lembrar, para além dos martírios, que continuamos lutando, e continuamos existindo, e continuamos escrevendo e pensando. Este livro, para mim, é só a ponta de um iceberg que por vezes afunda completamente, mas por outras reaparece, sólido, imponente, interrompendo a travessia daqueles que cogitaram já estarmos navegando por mares mais ermos. Belo Horizonte nos lembra que não. Cada cidade, em cada canto desse Brasil, certamente tem um relato que, da mesma forma, nos lembra que não. Desconhecidos, conhecidos, aproveitadores, oportunistas... estupradores. Por que o corpo da mulher precisa sempre estar à disposição, afinal? Alguns mais que outros, é verdade.

Meu livro, intitulado Gatilho: o estupro na ficção brasileira, trata deles, esses “monstros” tão encobertos de suposta humanidade, sob a ótica de duas escritoras brasileiras (ou quase) contemporâneas: Paloma Vidal e Sheyla Smanioto, que corajosamente trouxeram o discurso do estuprador à baila. Impregnaram suas páginas de dor, mas também de evidências. Ao expor seus escritos, tenho por intenção mostrar que para ser possível realizar a análise das narrativas de estupro na literatura, é preciso desmembrá-las de um certo sistema de ambiguidades no qual elas parecem estar sempre imbricadas, sistema esse que trato como “retórica do estupro”. 

Penso ser importante esclarecer que, em meu livro, especifiquei o trabalho com o estupro partindo de duas delimitações: a narrativa de estupro enquanto verdade histórica, a qual se impõe como única, sendo traduzida, porém, em diversos mitos (como, por exemplo, “é impossível estuprar uma mulher que resiste”; “o 'não' às vezes quer dizer 'sim'”; “os homens correm o risco de serem injustamente acusados de estupro”, etc) e as narrativas de estupro enquanto verdades literárias, as quais podem ser apresentadas de diferentes formas partindo, contudo, de uma mesma singularidade imposta pela verdade consagrada historicamente. 

Por vezes, na literatura, associa-se o estupro a uma suposta prática sexual e vemos, então, inscrever-se uma narrativa que mascara a violência sexual cometida, deixando figurar em primeiro plano uma noção rasa de prazer masculino em concomitância com um presumido desejo feminino. Por não se apresentarem enquanto violência propriamente, estas narrativas fazem parecer que a imposição de vontade tida pelo homem coincidiria com um certo tipo de desejo tido pela mulher, ou seja, as mulheres permitiriam uma tal violência e, inclusive, até a desejariam. O grande problema que aqui se delineia é que, uma vez não sendo difícil reconhecer que a própria concepção moderna de sexualidade por vezes parte também de uma retórica do estupro, a qual traça um determinado script no que diz respeito a práticas sexuais heteronormativas, essas narrativas tornam-se quase irreconhecíveis enquanto narrativas de estupro por serem colocadas lado a lado de uma certa concepção de literatura erótica. 

O resultado disso é que a violência em si, de fato, acaba por desaparecer, tornando-se assim uma violência dupla: a real e a ficcionalizada. Bem, não é o caso dos romances que fundamentam minha análise, mas como eu disse, trata-se de autoras contemporâneas (e muitas mais narrativas vieram depois delas, como, por exemplo, o romance Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy, publicado em 2021, algum tempo depois de já concluída esta primeira etapa de meu trabalho). 

Hoje, enquanto doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, sigo nessa empreitada, vasculhando mais e mais exemplos de narrativas consideradas por mim como problemáticas, para dizer o mínimo, partindo da metade do século XIX para cá. 

De Machado de Assis a Clarice Lispector, de Adolfo Caminha a Olavo Bilac, de Rachel de Queiroz a Guimarães Rosa, de Jorge Amado a Marçal Aquino, a literatura brasileira parece ter se empenhado em trazer para dentro de suas histórias o crime de estupro, ao mesmo tempo em que parece ter se empenhado também em borrar um pouco os limites que separam a narrativa de estupro da narrativa erótica ou sexual, dificultando a compreensão daqueles que a leem (embora tal dificuldade jamais seja explicitada) e deixando que a violência maior torne-se despercebida: a imposição de um discurso por trás de uma narrativa que a qualifica enquanto estupro ou enquanto sexo, sendo que cada uma tem limites bastante precisos e estes devem ser respeitados.

Por fim, uma vez que só conseguimos comunicar o estupro através do texto (texto aqui entendido como qualquer manifestação de linguagem), é importante que nos atentemos a ele em toda a sua extensão. Dentro e fora dos livros.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

GRATIDÃO POR SABER LER

O psicanalista, fotógrafo e roteirista Manoel Leite escreveu uma crônica no seu instagram e a ofereceu a mim. Agradeço muito, e a reproduzo aqui. 

De todas as competências que aprendi com as mulheres, a que eu sou mais grato é a capacidade de ler. Foi numa escola ― lembro com orgulho que era pública ― e nela todas as professoras eram mulheres, e isso não me é irrelevante, portanto, ler foi um dom que recebi de mulheres. Carregado de sensibilidade, era mais que uma técnica, era uma arte.

Ler era emoção, que depois de ser depositada na mente, decantava, virava semente de saber. Daí que as minhas leituras, quanto mais precoces, mais foram uma experiência emocional do que intelectual.

Essa maneira de ler não me ajudou a guardar com clareza as histórias, mas marcava-me profundamente com uma espécie de espírito, de caldo de emoções, de sensações vinculadas. A simples lembrança de certas passagens lidas me retorna cheiros e palpitações, misturas de afetos entre o que eu experimentava por estar lendo aquelas linhas e o que eu sentia na época, os meus medos, apreensões, desejos e amores.

Lembro de um romance curto de André Gide, do qual pouco me recordo da trama, onde uma cena em especial me tocou, a de um encontro que não se deu por causa de uma hesitação. Os amantes, ou aqueles que poderiam sê-los, estavam separados por uma porta e, sem saberem da presença do outro, ameaçavam entrar (ou sair), cada amante pensando no amado, mas hesitam, o encontro não acontece. A sensação que um pequeno ato ― talvez nem isso, um gemido, um ruído que denunciasse a um a presença do outro ― seria suficiente para uma história completamente diferente. O efeito de um gesto, nessa cena, me marcou por muito tempo. Um mundo se rotaciona, se inverte, gira em apenas um instante, revelando a realidade do tempo em seu caráter de ruptura dramática.

Quando, bem mais tarde, em busca de conhecimento, encontrei o conceito de “instante” na obra de Gaston Bachelard, a flor do saber só desabrochou na minha mente por causa da semente, esse instante que senti a força e as consequências de um momento, nas páginas de um romance, lido no percurso de uma adolescência.

Porque lido com o coração, a memorizar emoções, sensações, a única realidade que escreve na alma. Gratidão, mestras!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

A INJUSTIÇA DE SORTE

Você talvez conheça essa história: em 1981, na Universidade de Syracuse, no estado de Nova York, uma aluna de 18 anos passava por um parque à noite para voltar ao seu dormitório quando foi violentamente estuprada e espancada. Ela sobreviveu, prestou queixa, e alguns meses depois o estuprador (um jovem negro) foi preso e condenado. 

A vítima era Alice Sebold, que virou escritora bestseller com Uma Vida Interrompida e ficou muito famosa quando seu livro foi adaptado para o cinema (Um Olhar do Paraíso), em 2009. Mas o livro que a lançou foi publicado em 1999: Sorte (Lucky), onde ela narra o terrível estupro que sofreu em 1981 e o inferno que virou sua vida. Eu li esse livro uns treze anos atrás por recomendação de uma leitora. Voltei a lê-lo agora por causa dos novos desdobramentos.

E quais são esses novos desdobramentos? No início de 2020, estavam adaptando Sorte para a TV. Timothy Mucciante, um dos produtores executivos, percebeu discrepâncias entre o livro de memórias de Sebold e o roteiro. Ele teve dúvidas -- não sobre o estupro que Sebold sofreu (sobre isso não resta qualquer dúvida), mas sobre o julgamento. Por isso, abandonou a produção em junho, mas contratou um detetive particular para investigar as evidências contra o condenado por estupro Antony Broadwater, e se convenceu da inocência dele. Broadwater contratou um advogado, que revisou a investigação. 

Por conta da sua condenação, Broadwater passou 16 anos na prisão. Foi solto em 1998 (antes de Sebold publicar Sorte). Em 1981, quando Sebold o viu na rua e achou que era ele o estuprador, ele tinha 20 anos e havia acabado de voltar pra Syracuse para ver seu pai doente. Em Sorte (que tem esse nome irônico porque um policial disse a Sebold que ela teve sorte de não ter sido morta, já que uma menina havia sido assassinada no mesmo local do estupro), Sebold conta: "Fiz um retrato falado a partir de microfilmes com feições raciais. Fiz isso junto com um policial e fiquei frustrada porque nenhuma das feições do meu estuprador parecia estar entre os cinquenta e poucos narizes, olhos e lábios. [...] O retrato falado divulgado naquela noite pouco se parecia com ele" (36). 

Uma semana depois de escrever um poema chamado "Se eles te pegassem" para um workshop de poesia, descrevendo o que ela gostaria de fazer com seu estuprador, Sebold esbarrou com ele -- ou com quem pensou que fosse ele -- numa rua perto da faculdade. "Eu só conseguia ver o cara negro de costas, mas estava prestando muita atenção. Repassei minha lista: altura certa, corpulência certa, alguma coisa em sua postura". E ele, ao ver que estava sendo encarado, disse a ela, "Ei, menina, eu não conheço você de algum lugar?" Ela teve certeza que era ele e que ele se lembrava e estava zombando dela.

Antony Broadwater hoje, na mesma rua em que Alice Sebold o reconheceu 40 anos antes

Ela então fez um outro retrato, chamou a polícia, descreveu as roupas dele. E o rapaz, que já tinha ficha criminal -- ou pelo menos foi isso que um policial contou a ela --, foi detido. Mas, na hora de identificá-lo num alinhamento de suspeitos (line-up), ela apontou para outro cara que, segundo ela, era praticamente irmão gêmeo. Mesmo assim, a polícia conseguiu que o suspeito (Broadwater) tivesse alguns de seus pêlos púbicos arrancados, e eles batiam com aquele que foi encontrado na vítima.

Essa forma de análise de pêlos não é mais confiável. Em 2015, o FBI e o Departamento de Justiça reconheceram que esse método forense, que serviu durante três décadas para condenar muita gente  -- 14 dessas pessoas morreram ou foram executadas na prisão --, não prestava (será que todos os programas da série CSI vão pro lixo junto?).

Outro problema, ainda mais evidente, é que pessoas brancas costumam se confundir ao identificar pessoas não brancas. Há vários estudos que mostram que pessoas de uma raça (qualquer uma) confundem pessoas de outras raças (sabe como muitos de nós costumamos achar que chineses são todos iguais? Eles acham o mesmo da gente). 

Ano passado, quando Broadwater contratou novos advogados para reverter sua condenação, eles alegaram que ela se baseou apenas na identificação de Sebold (na corte, durante o julgamento; Broadwater se lembra bem desse momento em que Sebold apontou pra ele na corte. Ele era o único negro no local) e na análise microscópica dos pêlos, algo que hoje é visto como junk science. Em 1981, a promotora mentiu pra Sebold, dizendo que dois dos suspeitos na identificação eram amigos muito parecidos, que apareciam juntos nos line-ups. Quando eu li isso em Sorte, fiquei chocada: um suspeito pode fazer isso? Não, não pode. Era mentira. Sem falar que Broadwater nunca tinha sido acusado de nada antes. Aquele foi seu único line-up.

Em novembro do ano passado, Anthony Broadwater, 61 anos, foi exonerado da condenação. Isso é importante porque assim ele deixa de ser classificado como um "agressor sexual". Ele sempre insistiu que era inocente. Inclusive, não conseguiu sair antes da prisão em liberdade condicional porque, nas audiências, não admitia sua culpa. 

Broadwater parece ser uma pessoa boa. Tudo que li sobre o caso indica isso. Em 1998, um ano depois de sair da prisão, por exemplo, ele conheceu Elizabeth. No primeiro encontro, deu a ela uma pasta com tudo sobre seu passado, e disse a ela: "Se você vai entrar num relacionamento comigo, isso é pelo que vou lutar pelo resto da minha vida". Ela acreditou na sua inocência e se casaram. Mas nunca tiveram filhos porque ele não queria trazer uma criança para essa luta. Ele tentou provar sua inocência a todo custo. Passou em dois polígrafos. Tentou contratar o advogado que ajudou a absolver O. J. Simpson. Teve que se contentar com os piores empregos, já que, mesmo depois de ter cumprido sua sentença, era um agressor sexual registrado. 

É interessante que, ao contrário de Broadwater, que é inocente, o produtor executivo Mucciante não é. Ele foi condenado duas vezes e cumpriu pena por fraude. E vê sua jornada para tentar ajudar Broadwater como uma tentativa de redenção (outros dizem que na realidade Mucciante deu calote na produção do filme e está tentando ganhar dinheiro com um documentário sobre Broadwater).

Muita gente culpou Sebold por mandar um inocente pra prisão, mas uma vítima não é responsável por investigar ou condenar alguém. Ela precisava, até para se sentir mais segura, que seu estuprador fosse encontrado e condenado (nunca foi). Só que, quase vinte anos depois do estupro, Sebold foi atrás da documentação do caso para escrever seu livro (Broadwater já tinha cumprido sua pena e saído da prisão; em Sorte, ela troca os nomes). Será que ela, nessa investigação, não notou as inconsistências que o detetive particular encontrou? (claro que em 1999 o método de análise de pêlos ainda era usado e amplamente aceito). Tipo aquela mentira da promotora?

Uma semana depois da absolvição de Broadwater, Sebold pediu desculpas a ele, contando que, como uma jovem vítima traumatizada de estupro, ela confiou no sistema legal americano. Ela publicou um texto no Medium (e o compartilhou com Broadwater antes de publicá-lo): "Fico grata que finalmente foi feita a justiça ao Sr. Broadwater.  Meu objetivo em 1982 era justiça, não perpetuar injustiça. E certamente não era alterar irreparavelmente, e para sempre, a vida de um jovem pelo mesmo crime que alterou a minha. [...] Mas o fato é que 40 anos atrás, ele foi outro jovem negro brutalizado pelo nosso sistema legal com tantos erros. Sempre estarei triste pelo que foi feito a ele. [...] Hoje, a sociedade americana está começando a reconhecer os temas sistêmicos no nosso sistema judicial que muitas vezes fazem com que a justiça para alguns venha a custo de outros. Infelizmente, isso não era um debate, nem uma conversa, nem mesmo um sussurro, quando eu denunciei meu estupro em 1981". 

Ela ainda escreveu: "Vou continuar me debatendo com o papel que eu desempenhei sem querer num sistema que mandou um homem inocente para a prisão". Broadwater declarou que esse reconhecimento de inocência, ainda que tão tardio, foi importante pra ele: "O pedido de desculpas vem sinceramente do coração dela. Ela admite o que aconteceu. Foi um grande alívio. Fazer esse pedido requere coragem. Aceito suas desculpas. Ela é uma vítima e eu sou uma vítima". 

Ano passado Sorte, que já vendeu mais de um milhão de cópias, foi retirado de circulação em todos os formatos. Até que a editora e a autora decidam como serão as revisões, Sorte não será atualizado nem terá novas impressões. A adaptação do livro para a TV foi cancelada. E um documentário chamado Unlucky (Sem Sorte, Azarado) já está sendo produzido -- este sobre a vida de Broadwater, que evidentemente pedirá indenização ao Estado. Espero que receba, e que seu caso ajude a revisar e evitar outras condenações injustas.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

LIVROS QUE AMAMOS DEVEM TRAZER A BIBLIODIVERSIDADE

Publico hoje com muito orgulho o guest post de uma leitora antiga aqui do blog, a Denise. Denise Gomes é advogada, mora em Sydney, Austrália, e tem um podcast super popular sobre contação de histórias para crianças. Não deixe de seguir sua página no Instagram, ainda mais se você é professora, mãe, pai, avó, tia... Enfim, este post espetacular é pra todo mundo que convive com crianças!

Desde que me tornei mãe, há sete anos, ando cada vez mais envolvida com a literatura infantil. No início de 2019 criei um perfil no Instagram para falar sobre literatura infantil e sobre os livros que leio com meus filhos. Crio meus filhos (um menino e uma menina) para que eles tenham respeito para com todas as pessoas, e também para que sejam livres para vestir/ usar/ ser o que quiserem, por isso diversidade sempre foi uma constante na nossa biblioteca.

Como moramos na Austrália e eu queria que meus filhos mantivessem o português como língua de herança, comecei a apresentar podcasts infantis em português pra eles. Na época não  havia muitas opções, por isso no meio de 2019 criei meu próprio podcast, o “Livros que amamos - histórias para crianças”. Era pra ser algo despretensioso, mas em 2020 o podcast estourou e passou a figurar na lista dos top 5 mais ouvidos na categoria família (onde permanece até hoje), chegando inclusive a lista dos top 200 da Apple podcast pra todas as categorias!

Eu sempre falei de diversidade tanto no meu perfil do Instagram quanto no podcast, porque acho muito importante darmos as crianças uma educação antirracista, anti-homofóbica e mostrarmos a diversidade que existe no mundo. Acredito muito na máxima de que livros são espelhos, mas também são janelas (conceito criado por Emily Style em 1988). Os livros são espelhos porque refletem a própria cultura dos leitores e os ajudam a construir sua identidade (daí a necessidade de representatividade nos livros). Mas são também janelas por mostrar uma visão da experiência de outra pessoa.

Nunca é cedo demais para se falar com as crianças sobre raça e minorias! Existem estudos bem interessantes sobre racismo que demonstram que bebês notam diferenças físicas, incluindo cor de pele, antes dos 6 meses de idade. E ainda que, ao chegarem aos 5 anos de idade, as crianças já mostram sinais de preconceito racial. Assim, “Ignorar ou evitar o assunto não é proteger as crianças, mas sim deixá-las expostas ao preconceito que existe onde quer que vivamos”.

Eu faço sempre posts no Instagram sobre bibliodiversidade, e também tenho esse foco no podcast. Procuro escolher livros que sejam boa literatura e ao mesmo tempo tragam essa diversidade. Então já gravei livros na temática indígena, com protagonismo negro, biografias diversas que trazem empoderamento feminino, etc. O público do podcast vai de 1-12 anos, então alterno livros mais curtos pros menorzinhos e livros um pouco mais longos pros maiores (normalmente entre 5-20 minutos cada episódio).

No fim de outubro, fiz uma sequência de posts no meu Instagram sobre bibliodiversidade com foco na temática LGBTQIA+. Existem poucas opções de livros infantis nessa temática no Brasil, então fiz um apanhado do que eu achei no cenário nacional, mas também dos nossos favoritos publicados apenas em inglês (como a biografia do RuPaul), ou Love Around the World), só pra citar alguns dos livros favoritos dos meus filhos). Como sempre acontece quando faço posts sobre bibliodiversidade no meu perfil, perco seguidores. É incrível como falar de minorias incomoda tanta gente! O que pra mim só reforça a urgente necessidade de falarmos sobre diversidade, respeito e tolerância com as crianças!

Pausa para um adendo: quando meu filho tinha 4 anos, na creche que ele ia a professora levou o livro Heather has two mommies (Heather tem duas mães) para ler e debater com as crianças (a turma tinha entre 3-6 anos). Depois ela fez um relatório pros pais sobre o que as crianças acharam e falaram (não teve nenhuma estranheza ou comentário homofóbico por parte das crianças). Os pais amaram! Eu fui falar com a professora e ela estava super feliz de estar recebendo um retorno tão positivo dos pais. 

Aproveitei e levei outro livro que temos – Julian is a mermaid (lançado recentemente no Brasil -- Julian é uma sereia -- para que a professora debatesse com as crianças também sobre gênero. Aqui na Austrália isso é um debate normalizado (apesar de óbvio que ainda existe muito preconceito), e meu sonho seria ver todas as escolas no Brasil também debatendo diversidade.

Enfim, seguindo com meu intuito de diversificar as histórias do podcast, publiquei no início de novembro um episódio com um livro infantil sobre amizade entre meninos (aborda lindamente masculinidade tóxica, uma pérola!). Só que nesse livro um dos meninos cresce e se casa com outro homem (esse é o livro, lançado apenas em inglês). Tem outros detalhes lindos na história, mas o casamento gay em si bastou pra eu sofrer um ataque no Instagram. Perdi dezenas de seguidores, e isso em si não me abala, mas fiquei muito triste pensando em todas as pessoas que vivenciam esse ódio todos os dias -- como você, Lola!

Teve ainda muita gente que me mandou mensagem privada sem ataques mas dizendo que discordava de tratar sobre homofobia com os filhos porque eram religiosos, ou porque a criança era pequena, e ainda pedindo pra eu colocar um “alerta de conteúdo” no podcast (!?!?). Eu acho curioso como muitas pessoas são homofóbicas (ou racistas) mas defendem com unhas e dentes que não o são. Uma querida amiga fez uma excelente colocação: “homofobia é tratar uma pessoa diferente pela opção sexual dela. Aí a pessoa diz “tem que fazer alerta” para uma situação que deveria ser normal, mas o mesmo alerta não é necessário para  outras situações. E ao exigir tratamento diferenciado para algo que não deveria ser tratado diferente se está sendo homofóbico. Mas tenta dizer pra essa pessoa que ela foi homofóbica! O processo de negação das pessoas é forte, e assim a homofobia do dia a dia destilada em pequenas doses segue firme e forte.

Fiquei arrasada pensando em todos os meus amigos gays que sofrem ou já sofreram ataques. Em todas as crianças que tem dúvidas quanto a sua sexualidade/ gênero e precisam lutar contra esse mundo homofóbico em que vivemos, onde pessoas gays são “apagadas” e tem seu amor por outra pessoa do mesmo sexo visto como “tabu” que precisa ser “escondido” de crianças pequenas.

Recebi muito apoio também, muitas mães (e pais!) que me escreveram dizendo que amaram o episódio, a forma natural e delicada como o assunto foi tratado. A maioria das crianças sequer questionou os dois homens se casando (a homofobia está mesmo na cabeça dos adultos), mas foi uma oportunidade para muitas famílias abrirem um diálogo sobre o assunto e repensarem sua bibliodiversidade. 

Teve ainda uma seguidora (ouvinte do podcast com os filhos) que falou com o marido para ele aproveitar o alcance que ele tem no Twitter e no Instagram e falar sobre o ataque que eu recebi. Foi o suficiente pra eu receber uma avalanche de mensagens no Twitter e centenas de novos seguidores no Instagram. Fiquei feliz em ver o podcast chegando a mais famílias, e também em ver que o amor é poderoso! Acabei me inspirando pra entrar no Twitter e fiz meu primeiro tweet falando desse assunto.

Recebi mensagem também de uma editora brasileira de livros infantis, dizendo que meu trabalho a inspira a se posicionar nesse Brasil tenebroso. Por essas e outras que sigo na luta, Lola, inspirada por você e seu trabalho incansável por um mundo mais justo. Noutra semana publiquei mais um episódio antirracista, e em outra comecei uma série de episódios no podcast sobre liberdade religiosa (um passeio pelas quatro maiores religiões do mundo através de livros infantis encantadores). 

Esses dias li uma frase no perfil da Mariska Hargitay que me tocou bastante: “Você não pode forçar alguém a compreender uma mensagem que eles não estejam prontos para receber. Ainda assim, você nunca deve subestimar o poder de se plantar uma semente.”