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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A COPA DO MUNDO NO QAATAR É UMA ABERRAÇÃO

Eu, como muitos brasileiros, não estou nada entusiasmada em acompanhar a Copa do Mundo de Futebol Masculino no Qaatar (ou Catar), país conhecido por violar direitos humanos. Vamos ver se de repente eu entre no clima da Copa quando a seleção brasileira entrar em campo. Mas ultimamente tem me dado azia só olhar pro uniforme verde e amarelo, sequestrado por bolsonarentos. 

Reproduzo aqui a ótima versão da newsletter do jornalista e colunista do UOL Jamil Chade enviada no final de semana. 

Carta para a Fifa: a Copa no Qatar é imoral, uma aberração

Prezado Sr. Gianni Infantino (presidente da FIFA), 

Quero te contar uma história. Em dezembro de 2010, numa noite fria em Zurique, estávamos todos esperando pelo anúncio do resultado da votação sobre onde seriam as Copas de 2018 e 2022. Minutos antes de o evento começar, encontrei um lugar ao lado de um colega escocês e, por coincidência, na fileira de trás de uma parte da delegação do Qatar.

Diante de mim, um dos spin doctors mais polêmicos e eficientes do mundo estava sentado. Mike Lee, que já faleceu, trabalhava pela campanha do Qatar, país que tinha sido classificado no relatório técnico da Fifa como o pior entre todas as candidaturas para sediar a Copa. Tirou a nota mínima e só não foi retirado do processo por uma decisão política. 

Era a candidatura de um país que jamais tinha ido para um Mundial, que falava no absurdo de ar condicionado em estádios e que tinha sido humilhado no COI (Comitê Olímpico Internacional), anos antes, ao tentar sediar os Jogos Olímpicos. Contra o minúsculo país estavam a sedução da Austrália, a tecnologia do Japão e a influência política e econômica dos EUA. Bill Clinton, de fato, estava também na sala.

Faltavam cerca de trinta minutos para Joseph Blatter subir ao palco com o envelope ao qual, supostamente, ninguém tinha acesso. Ali estaria o nome do vencedor de um evento que movimenta US$ 5 bilhões.

Lee, então, se vira para mim e, com as mãos, faz um sinal de que o Qatar tinha sido escolhido. E pisca, abrindo um enorme sorriso de satisfação. Ao lado do escocês, minha reação foi de deboche. Mas, em silêncio, pensei: "será que eles terão coragem de fazer isso? O futebol está mesmo à venda?"

Instantes depois, quando Blatter abre o envelope e a palavra "Qatar" explode nas manchetes de todo o mundo, Lee se volta para nós e confirma de novo com as mãos uma mensagem clara: "eu avisei".

Senhor presidente,

A Copa de 2022 é uma aberração. Não existiam motivos técnicos que a justificassem.

A Copa de 2022 é um projeto político de uma elite no poder que, com o futebol, comprou sua inserção no mundo.

A Copa de 2022 é imoral e uma afronta aos defensores de direitos humanos, ativistas e ambientalistas.

A Copa de 2022 é erguida sobre o sangue, lágrimas e a destruição da dignidade de operários que, sem pausa de verão, trabalharam em condições de semiescravidão.

A Copa de 2022 é um deboche aos torcedores de todo o mundo, incapazes de sonhar com a possibilidade de ter recursos para bancar uma estadia em Doha.

A Copa de 2022 é um insulto às mulheres e aos homossexuais, enquanto influenciadores postam nas redes sociais as maravilhas das torneiras douradas dos estádios.

Sempre que coloquei essa minha visão, ouvi duas respostas:

1. A Copa vai ajudar a abrir o Qatar ao mundo.

Minha resposta: a história mostra que isso é uma grande mentira. Em 2008, o COI usou o mesmo argumento para falar do impacto que a Olimpíada teria para a China. E a tal da abertura jamais chegou.

2. A Copa não pode ser o privilégio de apenas alguns poucos países do mundo.

Minha resposta; óbvio que não pode. Mas tampouco pode ser o privilégio de regimes violadores de direitos humanos que usam o evento para mostrar um rosto moderado e aceitável ao mundo.

Caro Infantino,

Quando o senhor estiver sentado nas confortáveis e luxuosas poltronas dos estádios no Qatar e sentir um incômodo, não se surpreenda. Pode ser que seja o deserto, que rende a todos nessa parte do mundo. Ou talvez sejam os espíritos que, já com seus passaportes devolvidos pelos empregadores na forma de caixão, agora podem circular finalmente de forma livre pelo país.

"Sabían de la muerte, lo duro que es el pan", cantaria Victor Jara. "Venían del desierto, de los cerros y del mar".

Quando, nestas lindas arquibancadas o senhor gritar gol, não tenha ilusão. Ele será incapaz de abafar o berro que já ecoa por cada corredor desses estádios. O grito do desespero de uma parte da humanidade invisível.

Saudações tricolores,

Jamil

domingo, 15 de julho de 2018

COPA DO MUNDO ACABA HOJE: VAI/VALEU FRANÇA!

Daqui a pouco termina a Copa do Mundo de futebol masculino, e vou ficar com saudades. Não entrei direito no "espírito da Copa", mas um evento internacional que só acontece a cada quatro anos quase sempre me cativa. Pelo menos em 2020 tem Olimpíadas (em Tóquio, eu tive que checar).
Não foi uma Copa marcante. Talvez o jogo mais emocionante tenha sido Alemanha e Suécia, ainda no começo. Não foi apenas o Brasil que esteve longe de ter uma grande equipe. Argentina e Alemanha também não tiveram, e ficaram de fora da competição antes mesmo que o Brasil. Nossa derrota não foi tão traumática, não foi um 7 a 1. A gente supera. 
Hoje eu torço pela França. Totalmente. Parece ter o melhor time, fora que não dá pra torcer pra Croácia, que tem vários jogadores envolvidos com nazismo e xenofobia. Além do mais, conheço muito mais franceses do que croatas, e amo Paris. 
E o Mbappé é lindo, o jogador mais bonito desta Copa, disparado (apesar de já ter dado vários indícios de ser quase tão insuportável quanto o Neymar).
Fora isso, compare a diversidade étnica e cultural da seleção francesa com a croata. Fico com a França, mil vezes.
Não dou a mínima que a França tenha nos vencido na final da Copa de 1998, na própria França, ou que ganhou da gente nas quartas-de-final da Copa de 2006, na Alemanha. Não sou rancorosa. Ontem levei quinze minutos pra lembrar que a Bélgica ganhou do Brasil num jogo da semana passada (e a Bélgica mereceu ficar em terceiro).
E vocês, acompanharam esta Copa? 
Nós dois em Icaraí do Amontada.
Passamos dois dias maravilhosos lá
Eu estava viajando, voltei na quinta. Na terça estava em Icaraí de Amontada (espero falar um pouquinho desta viagem maravilhosa amanhã) e, como não tinha TV no quarto da pousada, eu e o maridão fomos assistir França e Bélgica num restaurante (vazio), comendo deliciosos espetinhos. Deve ter sido a primeira vez que vimos um jogo da Copa num restaurante. Isso sim será marcante.
UPDATE (depois do jogo): Foi uma final empolgante, um super jogo de futebol, com muitos gols (6 no total), gol contra, falha feia do goleiro, ninguém desistindo... 
A França teve sorte ao resistir aos ataques croatas nos primeiros quinze minutos. O juiz argentino errou ao marcar a falta de Griezmann, que rendeu o gol inaugural da partida. A Croácia empatou com um golaço. 
Não achei que foi pênalti (pra mim foi mais bola na mão do que mão na bola), mas Griezmann, o nome do jogo (difícil decidir, porque teve Modric e Pogba também), marcou e fez 2 a 1. 
Depois vieram dois belos gols de Pogba e Mbappé. Acho que estava caminhando pra uma goleada da França, mas o goleiro francês Lloris cometeu erro na saída da bola e Mandzukic se redimiu pelo gol contra ao fazer 4 a 2. Aí foi emoção até o fim de jogo. 
Pogba comemora o terceiro gol.
Depois, na comemoração do título,
ele brilhou ao procurar os haters
Parabéns, França, pelo bicampeonato! Agora a França, assim como Uruguai e Argentina, tem duas Copas cada. Ainda vai levar um tempão pra chegar ao número do Brasil (cinco), Alemanha e Itália (quatro). 
Mas não acredito que a próxima Copa será em novembro (de 2022)! Tô tão acostumada a ver Copa durante as férias escolares... Desde que eu era criança era assim. 

domingo, 24 de junho de 2018

TAMANHO DE PÊNIS NÃO É PIADA, É RACISMO

Hoje na Copa do Mundo, no horário do almoço, se confrontaram duas seleções que não estão entre as favoritas para o título, Japão e Senegal.
O que me chamou a atenção foi a quantidade de piadinhas no Twitter falando do tamanho do pênis dos jogadores. Os senegalenses, por serem negros, foram associados a pau grande; os japoneses, por serem orientais, a pau pequeno. 
Não preciso nem dizer que esses chistes babacas vieram de quem tem maior obsessão pelo falo e pelo seu tamanho: os homens.
Mas não é piada. É racismo. O mito de que orientais têm bilau pequeno é só mito, preconceito sem nenhuma comprovação científica. 
Num mundo que lucra bilhões explorando a insegurança masculina com o tamanho de seus membros, dizer que um povo inteiro têm pênis pequeno é algo muito, muito preconceituoso. Não é zoeira, é racismo.
Arte com balão
Mas e o contrário? E o mito de que negros têm pênis grande? Também é racismo. É o que se chama de racismo benevolente. Parece positivo, mas não é. Este mito está ligado àquele de que negros são selvagens, animalescos, incontroláveis  -- enfim, um perigo para a mulher branca. Muito do racismo (e do machismo) foi construído em cima da ideia ridícula do "pode deixar que nós homens brancos vamos proteger as mulheres brancas dos terríveis homens negros". 
Mulheres negras também são vistas como selvagens, numa tentativa de justificar o estupro que sofreram dos colonizadores brancos e donos de escravos. Então inverte-se a lógica: não foram os homens brancos que estupraram mulheres negras, e sim o contrário. Elas, com seu poder de conquista animalesco, é que "seduziram" os pobres homens brancos.
E aproveitando, já que alguém me perguntou: "E falar b*ceta rosa, é racismo?" Óbvio que é. Sugerir que uma cor clara é superior ou deve ser mais valorizada que uma cor escura é puro racismo. 
Enfim, só um textinho minúsculo pra lembrar que preconceito não é piada.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

MACHISMO BRASILEIRO ENVERGONHA O MUNDO

A esta altura todo mundo já sabe dos torcedores brasileiros que assediaram uma moça (possivelmente russa) na Copa do Mundo. Eles a cercaram e fizeram um coro de ""B*ceta rosa!" e "É bem rosinha!". 
Tem advogado, engenheiro, policial militar... tudo "homem de bem". Tudo "pai de família" (alguns não pagam pensão, mas tudo bem: pelo jeito basta procriar pra ser considerado um modelo de pai). 
A moça russa tem que dar queixa para que talvez eles sejam deportados. Eu pensava que não iria acontecer muita coisa por lá, já que a Rússia deve ser um país mais machista que o Brasil. Mas uma jurista russa já oficializou a denúncia, e os torcedores podem responder por crimes lá mesmo.
Um deles pediu desculpas, disse estar bêbado. Uma justificativa que não costuma ser aceita quando mulheres que beberam demais são estupradas.
Tem gente (principalmente homens) tratando o vídeo como brincadeira infantil, polêmica, tempestade em copo d'água, exagero. Que tal tratar pelo nome mesmo? É machismo que se chama. 
Hoje circulou um outro vídeo de um rapaz na Rússia pedindo pra estrangeiras repetirem, sem saber o que estão dizendo, "Eu quero dar a b*ceta pra vocês". 
O cara, que é funcionário da Latam no aeroporto de Guarulhos, já foi demitido. (Lembro quando, uns três anos atrás, a Latam demitiu um funcionário em Joinville que era notório troll na internet). 
É óbvio que babacas de qualquer nacionalidade tentando filmar mulheres para se exibirem para os amigos não é nenhuma novidade. Uma leitora me enviou este deprimente vídeo do ano passado, por exemplo. Que bom que isso está se tornando inaceitável!
Uma nota de repúdio da Procuradoria Especial da Mulher no Senado foi lida em plenário pela senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM):
"A Procuradoria da Mulher do Senado lamenta e repudia a atitude do grupo de torcedores brasileiros que ganhou repercussão internacional durante a Copa do Mundo realizada na Federação Russa.
Explorando a oportunidade do clima de festa, eles se acercaram de uma moça estrangeira e entoaram, coletivamente, expressões de conteúdo misógino, pornográfico, com ofensas ao corpo da mulher. Esse grupo de torcedores envergonha nosso país. Eles se aproveitaram do fato de a mulher não compreender nosso idioma para humilhá-la e ridicularizá-la.
Postado na internet, o fato multiplica a gravidade da cena, que mostra em poucos segundos porque as mulheres brasileiras têm razão em lutar contra ao machismo e uma realidade de estupros e feminicídios que os homens insistem em pintar de cor-de-rosa.
A cultura do estupro brutaliza homens do Brasil desde sua formação mais tenra e por vezes os acompanha até a idade em que deveriam mostrar comportamento adulto e maduro.
Que o repúdio das mulheres do Brasil e do mundo tenha um caráter educativo para esses homens e que a solidariedade coletiva feminina tranquilize e alivie o coração de nossa irmã estrangeira."
A OAB também lançou nota de repúdio, em que explica o problema: "O grupo não estava apenas se regozijando às custas de quem não entendia uma única palavra proferida, mas também demonstrando a naturalidade com a qual praticam a imoralidade, pois seus integrantes fizeram vídeos, tiraram fotos e publicaram em suas redes sociais, para que todos compartilhassem com eles esse momento de 'alegria e diversão', registrando o escárnio, o abuso e a agressão contra uma mulher. [...]
A opressão e o constrangimento sexual são parte da vida das mulheres e as atinge em todas as gerações. É responsabilidade de todos nós coibir práticas que exponham as mulheres e as objetifiquem, reduzindo-as aos seus corpos. O abuso foi covarde e humilhante, atingindo todas as mulheres do mundo. É preciso reforçar políticas públicas e institucionais para combater a misoginia, adotando práticas de igualdade e respeito."
Pois é. E depois dizem que as mulheres brasileiras que saem com estrangeiros é que mancham a imagem do Brasil no exterior...
O meu lado Pollyanna Deslumbrette me faz ver o lado bom disso tudo -- justamente a repercussão do caso, a indignação que os vídeos estão causando. 
Ou vocês imaginariam um escândalo desses quatro anos atrás? Imaginariam manchetes de que esse machismo "envergonha o país"? Sinal de que o feminismo está muito forte.  
Ontem dei uma entrevista sobre os ataques que sofro e a Lei Lola. O Jornal da Cultura citou isso ao tratar dos torcedores machistas (aqui, a partir do segundo minuto).

sexta-feira, 8 de junho de 2018

O ESPÍRITO DA COPA (AINDA) NÃO BAIXOU EM MIM

Estou totalmente por fora da Copa do Mundo. E não tenho a menor vontade de vestir verde e amarelo -- imagina se alguém me confunde com uma coxinha golpista?!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

GUEST POST: TRABALHO OU TORTURA?

Semestre passado, conversei com um aluno querido que trabalhou como motorista em Fortaleza durante a Copa do Mundo. Segundo ele, foi o melhor emprego da sua vida. 
Já a P., uma comentarista frequente e também muitíssimo querida, teve uma experiência totalmente diferente em SP. Ela a relata aqui neste guest post:

Alguns meses antes da copa do mundo, eu procurava uma oportunidade de trabalho. Quando soube que havia vagas abertas para o setor de hospitalidade dos estádios, imediatamente me interessei, embora não soubesse do que se tratava ao certo. Pelo próprio site da empresa, fiz minha inscrição para a vaga. Não havia muita informação; dizia apenas que era preciso saber inglês e que trabalharia como hostess.
Durante a inscrição, online mesmo, já havia uma primeira avaliação do conhecimento de inglês. Como fui aprovada nessa primeira etapa, algum tempo depois recebi um email me convocando para uma entrevista.
A entrevista aconteceu no CAT (Centro de Apoio ao Trabalho). Logo na sala de espera, já aconteceu um momento desagradável. Apareceu um sujeito, que não se identificou, mas se dirigiu ao grupo dizendo que ia dar um conselho de amigo. Ele disse: "O trabalho é bom, remunera bem. Para passar na entrevista, o mais importante para as mulheres é ter 'presença', boa aparência... Para os homens, vão verificar a dicção; mas para as mulheres, o importante é ser bonita mesmo. Se quiserem retocar o batom..."
Eu já fiquei estarrecida. Quer dizer que se a candidata for "bonita" nem precisa falar inglês? Pode orientar os gringos calada? E o pior foi que ainda teve candidata que agradeceu pelo "conselho". Eu nem falei nada, porque se eu falasse, eu ia brigar. E, naquele momento, eu ainda queria a vaga.     
A entrevista (feita por três mulheres) não demonstrou nenhum tipo de discriminação. Foi apenas competitiva, com uma pergunta em inglês para o grupo, para ser respondida em inglês também, e perguntas individuais do tipo: "Por que você é o melhor candidato da sala?" e "Do que você tem mais orgulho?".
Pouco tempo depois, recebi uma ligação me notificando que eu havia sido selecionada e desejando agendar um horário para a assinatura do contrato, o que aconteceria no CAT novamente.
No dia de assinar o contrato, a pior complicação era não poder levar o contrato para ler com calma ou mostrar pra alguém de confiança. Não era permitido sair da sala com o contrato, o que é super estranho. Tivemos que ler lá, tirar dúvidas, assinar e entregar documentos na mesma hora.
Como eu precisava do dinheiro, acabei assinando (depois me arrependi muito). O cachê por dia de trabalho seria R$ 280,00, o que me pareceu uma boa proposta. Mas muitas das dúvidas não foram esclarecidas na hora. A gerente T. alegou que ainda faltava definir muita coisa. Só que no primeiro dia de treinamento, as definições se mostraram muito ruins.
O treinamento é um capítulo à parte. Nele o nível de precarização ficou mais evidente. O cara do CAT, que eu tinha chegado a pensar que era algum funcionário de lá mesmo, estava presente no primeiro dia de treinamento. Ele estava entregando o material e, assim que o vi, tive uma intuição ruim, que se confirmou ao longo do dia.
De cara a gerente regional M. passou o vídeo do momento em que o público cantou o hino nacional junto com os jogadores no Castelão, na Copa das Confederações. Saquei a dela na hora: ela queria emocionar a gente.
Logo em seguida apareceu uma mulher, que vou chamar de K., cujo cargo não lembro, mas ela estava envolvida com a organização desse setor de hospitalidade. Ela ficou pouco tempo por lá só para dar alguns "conselhos".
Entre as regras de segurança definidas pela FIFA, constava a proibição de levar copos até a arquibancada. A esse respeito, essa mulher disse algo assim: "Você vai ter que saber flexibilizar. Você não vai implicar com o CEO da Coca Cola, um desses caras 'pica grossa', porque ele quer levar copo pra cadeira. Se for aquele cara que ganhou o vip do Pão de Açúcar, aí você peita. Mas se for um 'pica das galáxias', você finge que não vê".
No contrato era pra chegar 6 horas antes do jogo, que já é bem cedo. No treinamento já era pra chegar 7 horas antes e ficar 3 horas depois. Quer dizer, mais de 12 horas de serviço nos jogos com prorrogação. E quando a gente ia poder comer? Só na hora do jogo. E revezando entre o primeiro e o segundo tempo.
Só para ilustrar, uma pessoa que tivesse demorado duas horas para chegar ao estádio e fosse "almoçar" no segundo tempo, poderia passar até dez horas sem se alimentar caso não tivesse beliscado nada durante a viagem. E a esse respeito K. disse: "Sei que tem gente que não gosta de tomar café em casa porque vai pegar condução, mas não vai ter jeito, vai demorar pra vocês poderem almoçar lá. Então sugiro que vocês acordem bem cedo e tomem um café da manhã reforçado com ovos e bacon. É pra todo mundo chegar lá 'comidinho'". E pior que ainda teve gente que riu dessa piada infame.
Se a refeição do dia de trabalho seguisse o padrão do almoço do treinamento, seria bem fraca: deram pra gente um saco de papelão com um misto frio, uma goiabinha e um bolinho de chocolate da Bauducco, um Sufresh de uva, uma banana e um Baton. Uma gerente chamava de "lanche" e dizia que estava tentando conseguir que fossem servidos dois no dia do trabalho porque sabia que "um era pouco".
E nós não poderíamos entrar com comida porque não seria permitido pela FIFA, nem poderíamos largar o posto para comprar comida lá dentro. A única solução era morrer de fome até que entregassem comida pra gente.
Quando disseram que não poderíamos comer no trabalho, imaginei que teríamos uma copinha. Mas que nada, separaram umas escadas restritas ao público pra gente sentar e comer. Quando M. falou dessas escadas, acho que todo mundo fez cara de choque, porque ela começou a se explicar: "Não é masmorra. É que eu não quero que no momento em que vocês vão descansar apareça cliente para importunar..."
O outro ponto polêmico era a questão do frio. Havíamos tido alguns dias de frio bastante rigoroso, e o uniforme das mulheres era um vestido. Mas os homens também estavam assustados com a possibilidade de passar frio, ainda mais que no contrato constava que poderíamos usar luvas, e no treinamento suspenderam essa possibilidade porque "luvas só foram liberadas para Porto Alegre".
E, sobre isso, K. disse que poderíamos comprar uma tal blusa "polar" por R$29,90 na Decathlon, pois "dá pra ir pro Alasca com ela". Só que as mulheres não poderiam colocar essa tal blusa por baixo por causa do decote do vestido. E nada poderia bloquear o decote. Por que será, né?
Fora que a empresa só ia fornecer parte do uniforme. Os sapatos, as meias-calças (para as mulheres) e as calças (para os homens) seriam nossa responsabilidade. E cada vez mandavam a gente comprar mais coisa pra compor o uniforme...  Até teve um rapaz atrás de mim que falou: "já foi o cachê", e eu concordei.
O pior eram as gerentes falando das concessões feitas como se fosse tudo caridade: "Pelo menos o uniforme de vocês vai ter um bolero, uma segunda pele, uma pashmina e meia fio 40. Pior é em BH que não foi liberada a meia calça, e lá está frio".
Como assim não foi liberada? Por quê? Pra quê? Submeter as meninas a frio sob que justificativa? Mas a coisa ainda pioraria. Porque todo mundo tinha que se vestir da mesma forma. Então se esquentasse, o pessoal não poderia tirar casaco, nem pashmina. Então M. disse [sic]: "Decidimos que em São Paulo [as hostesses] teriam que usar meia porque de frio pode morrer, de calor, não".
O momento mais torpe foi quando ela insistiu que a meia "tinha" que ser fio 40 porque ela ia reparar por já ter feito muitas provas de roupa. Ela até poderia reparar, mas clientes reparariam? É claro que não. [Imperdível, sobre meia-calça].
Bom, eu estou acostumada a ver show em estádio e sei o quanto é frio. É frio que agasalho não segura, porque tem muito vento e a sensação térmica cai bastante. Imagina um casaquinho e uma meia? E tinha que ir de uniforme; não poderia se trocar lá, porque não ia ter lugar pra gente colocar as coisas. Aliás, não poderíamos nem levar bolsa. Todo mundo ia levar suas coisas dentro do envelope de plástico que envolvia o crachá, um espaço minúsculo.
Teve um rapaz que perguntou sobre a questão da chuva, porque não poderia entrar guarda-chuva no estádio. Ele falou sobre a necessidade de chegar "arrumadinho" caso chovesse. A gerente respondeu torto: "A sua obrigação é chegar arrumado, a minha é orientar. Você pode usar uma capa de chuva, uma capa de chuva cabe aqui (indicando o envelope do crachá)".
Teria que ser uma capa de chuva bem vagabunda pra caber naquele espaço, e imagina guardar uma capa de chuva molhada com o resto das coisas? Ela provavelmente estava sugerindo que ele jogasse fora ao chegar ao estádio. Que foi a mesma sugestão que ela deu para que as moças não precisassem andar de salto até o estádio; usar chinelinho de pedicure. Por nossa conta também, claro.
Agora chegando à gota d'água que me levou a desistir do serviço: os sapatos. Para as mulheres tinha que ser escarpim preto básico com até 6 cm de salto. E ainda diziam que o escarpim precisava ser confortável. Isso é conversa pra responsabilizar as hostesses; qualquer pessoa que já usou sabe que confortável e escarpim são praticamente antônimos.
Eu tenho um par lindo de linha conforto, que era o que eu pretendia usar. Em nenhum momento eu cogitei usar um escarpim desconfortável. Mas no treinamento a gerente disse que o escarpim não podia ter pespontos aparentes no bico, e sapatos de linha conforto (como o meu) costumam ter, porque isso reduz a pressão nos dedos. 
Concluindo: saldo final 16-17 horas de pé de escarpim não confortável, considerando o tempo de transporte. E assim, elas não conseguiram me convencer de que eu precisava usar esse uniforme.
Por que não um terninho? É claro que é para mostrar o corpo da gente. Eu sei que aeromoças se vestem mais ou menos assim, mas não vai comparar com as condições de trabalho duma comissária, que pode se sentar durante boa parte da duração de um voo.
E é no mínimo curioso que tenham nos orientado a recusar gorjeta por causa de uma política "anticorrupção". Colocam os corpos das garotas à mostra, e depois as proíbem de aceitar gorjeta pra tentar moralizar. Ok.  
Na boa, é um absurdo entrevistar a gente em inglês e depois oferecer condições tão precárias. Aliás, no treinamento descobri que nem todo mundo que estava lá falava inglês. Pretendiam colocar essas pessoas ao lado de quem fala, mas claro, não iam pagar nenhum adicional para quem teria que obrigatoriamente efetuar a conversação.
Mas tem algo pior ainda. Nós teríamos que pegar o uniforme antes de cada jogo, depois devolver lavado, seco e passado. Tudo isso no Itaquerão. Ou seja, três idas ao Itaquerão para cada jogo. Por que não podiam simplesmente entregar os uniformes antes do começo dos jogos e receber no final? Porque não davam certeza pra gente de que trabalharíamos em todos os jogos. A convocação aconteceria antes de cada jogo. Ou seja, todo mundo ia investir em roupa e sapato sem nem ter certeza de que o investimento seria recompensado.
Além de tudo isso, o controle do corpo era muito forte. As moças deveriam obrigatoriamente fazer manicure, e com esmalte de cor clara, além de manter a maquiagem retocada ao longo do dia (base, pó, sombra clara, blush leve, batom vermelho e sem delineador). Rapazes deveriam fazer a barba completamente. Só poderiam manter, desde que aparada, os que tinham barba completa. Até entendo que pedissem para que piercings fossem retirados, pois são acessórios. Mas os furos não poderiam aparecer, teriam que ser tampados com esparadrapo "cor de pele".
Eu contei essa história para muitas pessoas, e nenhuma delas achou que eu deveria ter ficado com a vaga. Na minha opinião ninguém deveria ter aceitado, mas infelizmente não é todo mundo que pode escolher. Para mim foi terrível, pois investi tempo, dinheiro e energia na esperança de ganhar algum dinheiro. Para não ficar com uma sensação total de perda, o que me resta é compartilhar a experiência para que outras pessoas tenham mais condições de avaliar e escolher caso desejem trabalhar nessa área.