terça-feira, 29 de maio de 2018

COVARDES USAM BULLYING GORDOFÓBICO PARA MATAR DIELLY

Vi há mais ou menos duas semanas o terrível suicídio de Dielly, vítima de bullying. Anotei para falar sobre o caso mas o tempo foi passando, e a falta de tempo aumentando. Foi bacana, portanto, que algumas pessoas me lembraram de fazer um post sobre isso. É importante sim.
Dielly Santos tinha 17 anos e estudava numa escola estadual em Icoaraci, distrito de Belém. Dielly era gorda, negra, estava com depressão. Um alvo perfeito para quem passa a vida cometendo bullying. No dia 16 de maio, ela se enforcou no banheiro. 
Sua tia contou que Dielly era constantemente chamada de "lixo" e "porca imunda". Os ataques não pararam com sua morte: vários trolls foram a página em memória de Dielly no Facebook para continuar com os insultos e fazer novas "piadas", sem o menor respeito à família dela. Outros foram lá para criticá-la por não ter aguentada. Foi fraca, segundo eles. Alguns a chamaram de "vitimista" (ué, ela foi vítima; vitimista é quem se faz de vítima sem ser!). 
Obviamente não é verdade que bullying forma caráter (pelo menos no sentido geral de caráter, que está associado à força e ética). Pode formar mau caráter. Se formasse caráter, não teria como seus representantes-mór vermes do estirpe de um Gentili ou dos reaças disfarçados de humoristas do Twitter. 
Uma lei foi sancionada este mês para fazer que escolas, clubes e agremiações tomem medidas de prevenção e repressão para combater a intimidação sistemática, mais conhecida como bullying (como se chama essa lei? Que tal chamá-la de Lei Dielly?).
A ONU tem um estudo de 2016 que mostra que metade das crianças e jovens no mundo já sofreu algum tipo de bullying. Entre as razões mais citadas por 100 mil jovens de 18 países estavam a aparência física, gênero, orientação sexual, etnia, país de origem. No Brasil, 43% dos jovens responderam já ter sofrido bullying. 
E mais um dado: o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde.
A Capricho fez uma ótima reportagem em que recordou que a modelo Nara Almeida, que morreu de câncer após uma luta intensa, foi aclamada (também) pela sua magreza, sem que as pessoas associassem sua aparência à doença. "Se a magreza de Nara continuou a ser elogiada mesmo após a morte da modelo, que tinha mais de 4 milhões de seguidores no Instagram, o corpo da anônima Dielly também continuou a ser alvo de chacotas após o suicídio", escreveu a jornalista Isabella Otto. 
Paola Altheia, autora da excelente página Não Sou Exposição, diz que evita usar o termo gordofobia porque muita gente o relaciona ao "politicamente correto" e foge. Mas é lógico que gordofobia existe -- e mata. Paola, que é nutricionista, afirma: "o estigma da obesidade mata muitíssimo mais do que a própria obesidade. Mata a pessoa aos poucos, mata a pessoa por dentro, leva ao isolamento, leva à baixa autoestima, leva à depressão, e pode, como no caso da Dielly, culminar no suicídio".
Ela aponta no vídeo que existe hoje uma mentalidade individualista de que cada um deve resolver seus problemas sozinho, sem ajuda, e que depressão é sinal de vulnerabilidade. Não é! É doença. Se você tem depressão, procure terapeuta. Se você é vítima de bullying, não se cale. Ponha a boca no trombone. Se é verdade que as redes sociais estão aí para aumentar o bullying (o jovem hoje não é só xingado e humilhado nas horas em que está na escola, mas quando está em casa também, através da internet), também estão para denunciar. Exponha quem comete bullying. Fale com professorxs, com a direção da escola, com os pais dos "valentões". 
Quanto a esses que cometem bullying, sinceramente, procurem ajuda também. Vocês têm sérios problemas. Não só vocês não têm como ser felizes, mas vocês não sabem o futuro que os aguarda. Você vai ter dificuldade em cometer bullying a vida toda. Já já terá responsabilidades, precisará trabalhar, e comece a rezar agora para que existam muitas fábricas de móveis Alezzia para contratar você. Porque a grande maioria das marcas não gosta de ter seu nome relacionado a quem é cruel com pessoas (ou animais). Você pode acabar como o reacinha do Twitter que perdeu seu emprego na TAM quando seu perfil foi denunciado. Parece que ele era até um bom funcionário, mas a empresa não quis nem saber -- ele foi demitido. E não conseguiu mais emprego no Brasil. Teve que se mudar de país.
Quer dizer, imagina que tristeza deve ser a vida de alguém que só consegue externar seus sentimentos xingando, odiando, zombando outra pessoa (quase sempre uma pessoa que vem de grupos historicamente oprimidos, como mulheres, negros, LGBT). Tem como ídolo Danilo Gentili, que escreveu um livro (que virou filme feito com a Lei Rouanet) incentivando o bullying. Que tal usar dinheiro público para combater a praga do bullying, fazendo campanhas em grande escola, em vez de usar dinheiro público para financiar gente que promove o bullying? Não parece, sei lá, uma ideia revolucionária?
Eu digo sempre aqui que a gente precisa adotar uma mentalidade de "dane-se o que eles pensam" (e dizem), que um cara que te xinga de "gorda escrota" revela muito mais sobre ele do que sobre você, que somos doutrinadas desde crianças a sermos aprovadas pelos homens, e que essa aprovação se baseia na nossa aparência física (baseada num padrão irreal de beleza) e na nossa submissão ("papai não gosta de menina zangada", "por que você não sorri mais?", "ninguém gosta de feminista"), que não temos que depender da aceitação de ninguém, que devemos nos amar como somos, que não estamos numa eterna competição de Miss Universo para sermos julgadas pela nossa aparência. 
Mas pra mim é fácil falar: eu já tenho 50 anos, desenvolvi muita casca grossa, sempre me envolvi com gente boa e dou mais valor ao que eles dizem do que aos trolls, tento não levar pro lado pessoal (eles não me xingam por eu ser a Lola, que sequer conhecem; me xingam por eu ser feminista, de esquerda, uma mulher forte, e se eu não fosse gorda eles escolheriam qualquer outra característica física minha para tentar me ofender). 
E, principalmente, eu nunca tive depressão. Sei que depressão é uma doença séria que tira as nossas defesas e acaba com nossa autoestima. Se ser xingada quando a gente está bem não é legal, ser xingada quando se tem depressão pode ter um efeito muito mais devastador. 
Esses covardes se valeram disso para te destruir, Dielly querida. Não vamos deixar que destruam mais meninas. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

PRA GENTE COMEMORAR E SE INSPIRAR: IRLANDA APROVA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

Esta sexta foi um dia histórico para a Irlanda. Em referendo, um dos países mais católicos da Europa decidiu votar sim para a legalização do aborto. Até que enfim! (e nós?)
Pedi pra Andresa escrever um post todo especial contando como foi essa luta, essa vitória. Andresa Ramos é doutora em Engenharia Química e mora na Irlanda há quatro anos. 

A Irlanda aprovou na última sexta-feira, dia 25 de maio de 2018, a remoção da 8a emenda da Constituição via referendo. Esta lei criminalizava o aborto e dava ao feto os mesmos direitos da mulher grávida, conferindo ao Estado a obrigação de defendê-lo. A 8a emenda havia sido aprovada, também por referendo, em 1983, e desde então uma sucessão de fatos desencadeou a pressão popular e dos movimentos sociais pela legalização do aborto.
Pela lei irlandesa, uma mulher que
tenta abortar após ser estuprada pode
pegar uma pena de prisão maior
que seu estuprador. Mas isso está
para mudar (e mudou!)
Em 1992, depois do que ficou conhecido como “caso X”, quando uma adolescente de 14 anos que havia sido estuprada foi impedida de viajar para conseguir abortar, foram incluídos na Constituição o direito a viajar e a obter informação sobre aborto. Assim sendo, com a 8a emenda uma mulher grávida na Irlanda tinha três opções: continuar com a gravidez, comprar pílulas abortivas online ou viajar para o Reino Unido e conseguir o aborto seguro em alguma clínica lá. Estima-se que toda semana dez mulheres saíam da Irlanda rumo ao Reino Unido pra realizar um aborto. Segundo uma médica irlandesa contou em rede nacional, são tantas as Irlandesas que recorrem a uma clínica em Liverpool que um quarto lá é conhecido por Shamrock (trevo de três folhas, símbolo da Irlanda).
Em 2012, o caso de uma indiana, Savita Halappanavar, chocou todo o país e impulsionou a campanha pela derrubada da lei que proibia o aborto. Savita estava grávida de 17 semanas quando complicações na gravidez levaram a um aborto espontâneo. Ela pediu para que tivesse o aborto induzido, o que lhe foi negado sob a alegação de que ela não estava sob risco. A resposta foi: “A Irlanda é um país católico”. Quando finalmente aceitaram que ela estava sob risco, já era tarde demais. Ela morreu depois de sete dias de sofrimento. 
O caso Savita chocou o país, e nunca saiu da memória das pessoas. Era sempre bem lembrado pelos movimentos sociais que a 8ª emenda era um risco a todas as mulheres, e que “garantir os direitos dos fetos” na verdade estava não só tirando nosso direito à escolha como à própria vida. 
Ainda em 2012, foi criada uma organização chamada Abortion Right Campaign (Campanha pelo Direito ao Aborto). Eles começaram a se organizar para terem representantes por todo o país, e promoviam uma marcha anual que aumentava de tamanho a cada ano, com mais de 40 mil pessoas em 2017. 
Em 2015, a Irlanda aprovou por referendo o casamento civil igualitário. À época, o que se ouvia era que o próximo seria o aborto. Porém, ao mesmo tempo havia um sentimento entre os Irlandeses de que este seria muito mais complicado de conseguir, pelos tabus envolvidos com a questão da vida -- mais difíceis de lidar do que dois seres humanos adultos se casando.
Durante todo esse período, além das marchas anuais, os coletivos feministas organizavam panfletagens nos centros das principais cidades nos fins de semana. Como resultado do árduo trabalho, no início de 2017 foi decidido que haveria um referendo. 
Entre o final de 2017 e início de 2018 ficou decidido que o referendo aconteceria no dia 25 de maio de 2018. O “Abortion Right Campaign” virou o “Together for Yes” (Juntxs pelo Sim) e deu-se início à campanha oficial pelo "sim", no que ficou conhecido como Repeal the 8th (Rejeite a 8a emenda). 
Todos os coletivos feministas se uniram em torno da campanha e tiveram o apoio de alguns partidos políticos menores e de membros dos principais partidos, além da manifestação pública favorável do primeiro ministro do país. A campanha consistiu em panfletagem, muita conversa boca a boca nas comunidades em todo o país, redes sociais, cartazes espalhados pelas cidades e debates televisionados. 
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Acredita-se que o ponto alto da campanha pelo Yes tenha vindo das histórias reais de mulheres que optaram pelo aborto. Nos debates na tv, mas redes sociais (perfil “ In her shoes” no Twitter e Facebook) e nos jornais, mulheres corajosamente compartilharam suas histórias. Isso fez com que as pessoas se solidarizassem com essas mulheres, e a empatia fez com que muitas pessoas definissem ou mesmo mudassem seus votos. 
A mobilização consistiu não só em esclarecer e convencer as pessoas da importância de derrubar a 8ª emenda, mas também em insistir para que elas se registrassem pra votar. Além do voto ser facultativo, é preciso se registrar pra poder votar. Nos dias que antecederam à votação, muitos artistas vieram a público manifestar seu apoio, incluindo nomes como U2, Saoirse Ronan e Cillian Murphy. 
No dia da votação as pessoas se mobilizaram nas cidades pra fazer com que todos chegassem a tempo, tanto nos deslocamentos dentro do país quanto aqueles vindos de outros países. Irlandeses que moram fora do país por até 18 meses ainda podem votar, e por reconhecerem a importância deste momento histórico para o país muita gente voltou pra casa pra votar. 
No twitter a hashtag #Hometovote (Voltando para Casa para Votar) mostrava as histórias de gente vinda das mais diferentes localidades, desde outros países da Europa até outros continentes como a Austrália pra poder votar, muitas vezes numa viagem de um dia com o único objetivo de fazer valer seu voto pelo Yes. As pessoas foram para o aeroporto recepcionar aquelas que chegavam pra votar, voos inteiros cheios de pessoas usando a camisa marca do movimento (moletom e camisas escritos Repeal).
No Twitter e no Facebook as pessoas se organizavam pra ajudar umas as outras. Muita gente se solidarizou e comprou passagens aéreas e de trem pra aquelas que conseguiram retornar pra casa de última hora. Um voo que saia de Londres rumo a Dublin sofreu uma batida ainda na pista e as pessoas no Twitter entraram em contato com a companhia aérea (conhecida Low Cost irlandesa), que rapidamente se prontificou a trazer todo mundo o mais rápido possível. 
Outra companhia irlandesa tinha um voo atrasado saindo de Viena e também foi notificada via redes sociais. Uma balsa trazendo cerca de 30 eleitores teve um atraso que impediria todos de chegarem a tempo, e via Twitter conseguiram se organizar pra fazer a travessia a tempo e encontrar gente disposta a dar carona pra que todos chegassem a seus destinos. Durante a semana, e ao longo de todo o dia da eleição, as pessoas ofereciam carona de um canto a outro do país de modo a fazer com que todos tivessem condições de chegar a tempo. 
O empenho dessas pessoas resultou numa vitória de pouco mais de 68% do Yes pela legalização do aborto, número recorde no país. O Yes ganhou em todas as regiões com exceção de uma, onde a diferença foi muito pequena. Na grande maioria das regiões de votação a diferença se manteve próxima à média do país.
Foi uma vitória e tanto num país que até 1996 ainda tinha as famosas Magdalene Laundries, para onde as mulheres (e meninas muitas vezes) grávidas fora do casamento eram mandadas pra terem seus bebês, que eram muitas vezes separados das mães ou morriam logo depois de nascerem dadas as condições precárias desses lugares. Num país onde o uso de contraceptivos era ilegal até os anos 80. Onde o divórcio só foi legalizado em 1995, onde a primeira escola que não é ligada à igreja católica só foi criada em 2017. 
O resultado desse referendo sinaliza novos tempos -- rumo a um Estado Laico. 
A legalização do aborto na Irlanda só foi possível porque todos aqueles que defendiam o direito das mulheres de decidir sobre o próprio corpo se colocaram lado a lado na luta, e deixaram suas diferenças político-partidárias de lado em prol do objetivo comum -- e conseguiram. 
O que venceu o referendo de legalização do aborto na Irlanda foi mostrar pras pessoas que as gerações futuras merecem o direito de escolha, pra que não passem pelo que as mulheres com uma gravidez indesejada ou de risco tem passado na Irlanda. O sentimento hoje é de que nenhuma mulher na Irlanda terá que passar pelo que Savita passou. Savita, não foi em vão!

domingo, 27 de maio de 2018

MELHOR THREAD DO TWITTER ESTA SEMANA: PALAVRAS DIFÍCEIS PARA GRINGOS

Esta definitivamente foi a thread mais divertida que vi no Twitter esta semana (quiçá no mês!), cortesia da Shannon. Selecionei os que foram pra mim os melhores momentos:





sexta-feira, 25 de maio de 2018

GUEST POST: NADA TORNA ILEGÍTIMA A GREVE DOS CAMINHONEIROS

Reproduzo aqui o texto de Larissa Riberti, que considera legítima a greve (ou locaute) dos caminhoneiros.

Tem ao menos seis anos que colaboro com um jornal de caminhoneiros e não me arrisquei a fazer nenhuma análise sobre a recente greve da categoria. Mas muitas opiniões, sobretudo de "esquerda" proferidas nessa rede social [Facebook] (ninguém se importa, na verdade) me geraram um incômodo. Por isso, me arrisco agora a escrever algumas pontuações sobre a greve dos caminhoneiros, lembrando que, dessa vez, muita gente perguntou.
1) A greve começou como um movimento puxado pela CNTA, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos. A convocação da paralisação se deu após encaminhamento de ofício ao governo federal em 15 de maio, solicitando atendimento de demandas urgentes antes da instalação de uma mesa de negociação. As urgências eram: o congelamento do preço do Diesel, pelo prazo necessário para a discussão sobre benefício fiscal que reduzisse o custo do combustível para os transportadores (empresas e caminhoneiros); e fim da cobrança dos pedágios sobre eixos suspensos, que ainda está acontecendo em rodovias de caráter estadual, conforme compromisso assumido pela lei 13.103/2015, conhecida também como Lei do Motorista.
2) No ofício encaminhado pela CNTA se fala na deflagração de uma paralisação em 21 de maio, caso não fossem atendidos os pedidos da Confederação. Também se explicita o apoio de 120 entidades representativas, mas não se esclarece se essas organizações são sindicatos patronais ou de autônomos.
3) A paralisação prevista para 21 de maio aconteceu, já que o governo se recusou a negociar com a CNTA e com demais entidades. Ao que consta nos comunicados de imprensa do organismo, também estavam na pauta discussões como o marco regulatório dos transportes e a questão da "reoneração da folha de pagamento".
4) Abro parênteses para o tema: desde 2011, a discussão da desoneração da folha de pagamento vem acontecendo no Brasil com vistas a garantir a geração de empregos. Nos anos seguintes ela foi ampliada para outros setores, como o do transporte rodoviário de cargas. Com a desoneração os patrões tem a possibilidade de escolher a forma mais "vantajosa" de pagar a contribuição previdenciária, recolhendo 20% sobre os pagamentos dos funcionários e contribuintes individuais (sócios e autônomos) ou recolhendo uma alíquota sobre a receita bruta (cujo percentual variava entre diferentes setores da economia, no caso do TRC é de 1,5 a 2%). No ano passado, o governo Temer, através do Ministro da Fazendo, Henrique Meirelles, anunciou a reoneração da folha de pagamento com a justificativa de que era necessário reajustar "as contas" da União. Atualmente, a ampliação da reoneração da folha de pagamento está sendo discutida no âmbito do TRC.
5) Com a mobilização que se potencializou em 21 de maio, uma série de pautas foram levadas para as "estradas". Dentre os mobilizados nesse primeiro momento estavam autônomos e motoristas contratados. As informações que nos chegam é a de que eles estão deixando passar as cargas perecíveis e os medicamentos e os itens considerados de primeira necessidade.
6) A paralisação continuou e ganhou adesão das transportadoras que prometeram não onerar os funcionários nem realizar cortes salariais ou demissões por causa da greve. Afinal de contas, a redução do preço do Diesel também é do interesse da classe patronal.
7) A greve conta com grande apoio nacional, porque a alta do preço dos combustíveis afeta não só a prestação de serviços, mas a vida de grande parte dos brasileiros.
8) Os sindicatos estão batendo cabeça. De um lado, muitas federações e entidades soltaram nota dizendo que não apoiam a greve e que ela tem características de lockout justamente porque a pauta tem sido capitaneada pelos setores empresariais em nome dos seus interesses. Do outro lado, existem sindicatos de autônomos, como a própria CNTA, o Sindicam de Santos que puxou a paralisação na região do porto, e agora a Abcam, que recentemente se mobilizou na negociação, apoiando o movimento. Segundo nota, o presidente da Abcam esteve em Brasília hoje e depois de uma reunião frustrada disse que a greve dos caminhoneiros continua. A reunião tinha como objetivo negociar a redução da tributação em cima dos combustíveis.
Esse é o cenário geral da mobilização. Ela é composta por uma série de segmentos que conformam o TRC. E, obviamente, suscita algumas questões:
1) Existe uma clara apropriação da pauta dos caminhoneiros por parte da classe empresarial que exerce maior influência nas negociações. Isso significa que, por mais que a greve seja legítima, pode acabar resultando num "tiro pela culatra" a depender dos rumos tomados na resolução entre as partes e as lideranças.
2) Não existe uma pauta unificada, o movimento não é hegemônico, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista ideológico. Existe um grupo de caminhoneiros bolsonaristas, outros que são partidários de uma intervenção militar, outros pedem Diretas Já e Lula Livre. Ou seja, é um movimento canalizado principalmente, pela insatisfação em relação ao preço do Diesel.
3) Em função da grande complexidade e fragilidade das lideranças sindicais de autônomos, o movimento carece de uma representatividade que possa assegurar as demandas da classe trabalhadora, bem como que possa evitar o crescimento dos discursos conservadores e das práticas autoritárias. Enquanto isso, os sindicatos patronais acabam por exercer maior influência, determinando os caminhos da negociação e o teor das reivindicações.
4) Isso se faz notar, por exemplo, no tipo de reivindicação expressada por grande parte dos caminhoneiros que é a redução da tributação em cima do preço do combustível. Ora, todos nós sabemos que o cerne do problema é a nova política de preços adotada pelo governo Temer e pela Petrobras, que atualmente é presidida por Pedro Parente.
5) Novo parênteses sobre o tema: desde o ano passado, a Petrobras adotou uma nova política de preços, determinando o preço do petróleo em relação à oscilação internacional do dólar. Na época, esse tipo de política foi aplaudida pelo mercado internacional, que viu grande vantagem na venda do combustível refinado para o Brasil. Aqui dentro, segundo relatório da Associação de Engenheiros da Petrobras, a nova política de preços revela o entreguismo da atual presidência da empresa e governo Temer, que busca sucatear as refinarias nacionais dando prioridade para a importação do combustível. Tudo isso foi justificado na época com o argumento que era necessário ajustar as contas da Petrobras e passar confiança aos investidores internacionais.
6) É verdade, portanto, que o movimento em si tem uma percepção um pouco equivocada da principal razão do aumento dos combustíveis, mas isso não significa que toda classe dos caminhoneiros não faça essa relação clara entre o problema da política de preços da Petrobras e o aumento dos combustíveis.
7) De fato, portanto, o grande problema nesse momento é saber quem serão as pessoas a sentar nas mesas de negociação. De um lado, existe uma legítima expressão da classe trabalhadora em defesa das suas condições de trabalho e dos seus meios de produção. O aumento do Diesel é um duro golpe entre os caminhoneiros autônomos e a reivindicação da sua redução, seja pela eliminação dos tributos, seja pelo questionamento da política de preços da Petrobras, é legítima e deve ser comemorada.
8) A questão fundamental agora é saber o que o governo vai barganhar na negociação. Retomo, então, a questão da reoneração da folha de pagamento. O governo já disse que haverá uma reoneração da folha e esse é um dos meios de captação de recursos caso haja fim do Pis/Cofins incidindo sobre os combustíveis. Na prática, porem, a reoneração pode ter um impacto sobre os empregos dos próprios caminhoneiros, resultando em demissões.
9) Se houver o fim da tributação no Diesel, conforme inclusão do relator, Orlando Silva (PCdoB/SP), na Medida Provisória, de parágrafo que exclui a tributação, a classe trabalhadora e toda sociedade serão impactadas. Afinal de contas, com redução de receita, haverá, consequentemente, um corte no repasse da verba para a seguridade social, previdência, saúde, etc.
Considerando tudo o que foi dito, expresso meu incomodo com análises e percepções simplistas da esquerda, ou de pessoas que se dizem da esquerda, sobre o movimento. Locaute virou doce na boca dos analistas de facebook. Porque não atende à nossa noção de "movimento" ideal, os caminhoneiros que legitimamente se mobilizaram em nome da redução do preço do diesel estão sendo taxados de vendidos e cooptados, como uma massa amorfa preparada para ser manipulada.
Os "puristas" não entendem a complexidade da categoria, e tampouco atentam para a dificuldade que é promover a mobilização ampla desses trabalhadores, tendo em vista não só a precarização extrema à qual estão sujeitos, mas também à realidade itinerante de seu trabalho. Soma-se a isso o duro golpe que atualmente foi proferido contra as entidades sindicais menores de autônomos, com o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Sinto dizer aos colegas acadêmicos, portanto, que nem sempre nossos modelos de análise social se aplicam a realidade. Não se trata de uma disputa entre o bem e o mal; nem de um movimento totalmente cooptável e ilegítimo; uma massa manipulável e "bobinha". 
Por outro lado, também não é um movimento cujos protagonistas tem uma consciência enquanto classe, enquanto categoria. Não é unificado, as pautas são heterogêneas e também voláteis. Por tudo isso, parte desses trabalhadores expressam reações conservadores e, alguns grupos, visões extremistas sobre a política e suas estratégias de luta.
Nada disso, ao meu ver, torna ilegítima a mobilização. Pelo contrário, é um convite para que busquemos entender mais das categorias sociais e para que aceitemos que as mobilizações sociais nem sempre atendem ao nosso critério idealizado de pauta, objetivo e organização.