quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GUEST POST: INVADINDO UM ESPAÇO QUE NÃO ME PERTENCE

Finalmente tive a chance de conhecer a Déborah Sá quando, em agosto, estive na USP da Zona Leste para uma mesa redonda. Ela, muito doce e tímida, veio falar comigo. Como ativista vegana que é, ainda me presenteou com um delicioso bombom vegano e tofu. O que ela me disse, sobre muitas vezes se sentir excluída em ambientes universitários por ter apenas o ensino médio, me pareceu tão instigante que eu pedi a ela que escrevesse um guest post. E ei-lo aqui. Eu considero este um ponto primordial: como fazer com que a universidade seja vista como um espaço de todos?

Ter um diploma universitário era um fator indiferente na minha família. A maioria dos adultos ao meu redor não possuía sequer o Ensino Médio, incluindo meus pais. Minha mãe sempre valorizou os estudos como uma possibilidade de crescimento pessoal, meu pai por sua vez tratava com desdém essa busca desenfreada de fazer supletivo e almejar o ensino superior. Quando decidi interromper meus estudos na oitava série minha mãe ficou desapontada e não compreendeu minha decisão. Eu passava por um momento de reestruturação interior; sofria bullying em toda parte, os discursos da igreja me faziam sentir uma pecadora e ainda era atormentada pelas lembranças do abuso sexual que meu avô cometera. Interromper ao menos uma coisa que me fazia infeliz era uma tentativa de tomar as rédeas da situação, tanto é que assim que saí da escola comecei um regime insano beirando a anemia. Foi um começo errôneo e desesperado, mas de alguma forma, uma maneira de reconstruir minha vida.
Esse tempo de afastamento do ambiente escolar me fez muito bem. Seguindo a sugestão de um cunhado retornei a escrita (uma das poucas coisas que me davam prazer). Foi o ponto de partida para auto-análise, com a qual gradativamente permiti me libertar de temores. Um dos maiores seria encarar as consequências de falar abertamente meus questionamentos. Por razões incógnitas as pessoas (mesmo desconhecidas) me agrediam com tapas, beliscões, assédios e xingamentos, na rua, em casa, na escola, na igreja, pouco importava o local; eu era refém da passividade. E as pessoas se aproveitavam da minha inércia. Quão piores seriam as agressões se eu revidasse? Eu me resguardei sem mostrar quem era “de verdade”, e foi só ao verbalizar por extenso minhas inseguranças que elas se tornaram compreensíveis.
Anos depois fiz supletivo no período noturno. O cenário parecia igual, mas dessa vez me sentia mais corajosa e segura. Se @ professor@ fazia uma pergunta que eu sabia a resposta a postura era esperar alguém falar para depois me posicionar. O que ocorria quase sempre era o silêncio da classe e eu, respondendo isolada e incomodando alguns, em especial um aluno do fundão (sempre eles), me chamava de “metida que quer saber mais que @ professor@”. Notando minha indiferença, ele tentou outra tática: a cada vez que eu abria a boca na sala de aula ele puxava uma salva de palmas. Foi em vão. Eu esperava terminar, fazia uma reverência e me pronunciava. Esse mesmo aluno certa vez expôs ao ridículo outro que teve um aneurisma e tomava remédios psiquiátricos. Entrei na sala e o moço estava encolhido no canto envergonhado dos risos coletivos. Foi uma das primeiras vezes que passei um sermão público defendendo o rapaz caluniado e tornando evidente a ignorância e prepotência de julgar quem consulta um psiquiatra.
A ideia de conversar entre acadêmicos, porém, me deixava receosa. Eu poderia ser considerada “inteligente” para os parâmetros de escola pública, deixar meus pais e algum@s professor@s orgulhos@s (com exceção dos de matemática), mas percebia que ao ser exposta a universitários “de verdade”, muito provavelmente meus argumentos valeriam coisa alguma. De todo modo, quais seriam as chances disso ocorrer? Praticamente nulas. Correto? Errado.
Quando conheci meu atual namorado, Yuri (faz cinco anos), éramos uma combinação de antagonismos: Ele, negro de classe média, estudante de colégios particulares; eu, branca, também de classe média, sem carro na garagem e concluindo o ensino médio numa escola pública. Seus pais são um fisioterapeuta e uma professora de Física. Minha mãe cursa atualmente (aos 45 anos) a primeira faculdade (Serviço Social); meu pai fez até a terceira série do Ensino Fundamental e não tem planos de concluir. Coincidentemente nossas avós maternas vieram de Pernambuco para São Paulo, só que enquanto meus pais me levavam desde pequena para igreja, meu companheiro era levado para passeatas e protestos.
Quando iniciamos um relacionamento é comum existir insegurança da expectativa que noss@s companheir@s fazem sobre nós, inclusive intelectualmente. Os alunos que eram de escolas particulares no tempo do meu ensino médio diziam que éramos “favelados que usavam saco de batatas" (se referindo ao uniforme), e os garotos do colégio cobiçavam as garotas das escolas privadas, quase sempre mais brancas e “femininas”. Felizmente minhas expectativas não se concretizaram e, além do meu namorado, seus amigos e familiares me acolheram maravilhosamente bem.
Contudo, não havia a certeza se valia a tentativa de ingressar em uma faculdade pública ou federal. Sobretudo me desanimava a falta de perspectiva em estudar algo além da “História dos Vencedores”; ouvir e reproduzir feitos de homens brancos e líderes religiosos não me entusiasmava. Mudei ao ver uma palestra da Margareth Rago na União de Mulheres de São Paulo. De modo extremamente pessoal contei brevemente o quanto a escrita mudou minha vida. Ela mostrou-se interessada e me senti lisonjeada -- ela fora capaz de me ouvir sem me rebaixar pela minha formação (ou suas lacunas). Compreendi ser possível ir além do que interpretamos como “História”.
Meu companheiro também cursava História e foi através dele que pela primeira vez assisti a um conteúdo universitário na Unifesp de Guarulhos, no Bairro dos Pimentas. Professores e colegas me trataram com cortesia, e achei simpáticos os cães que transitavam no Campus. O clima foi amistoso, diferente da série de palestras que me dispus a frequentar com o passar do tempo, me familiarizando com o meio universitário, seus jargões e arrogâncias.
Um dos comportamentos mais curiosos é o espanto quando eu digo que não possuo nenhuma formação, já que em algumas palestras as pessoas se apresentam com o nome e em seguida com a graduação ou coletivo que fazem parte, pressupondo que todos ali são “entendidos da área”, usando o pronome “Nós”: "Nós nessa sala, bem sabemos que Robespierre...” Outra constatação peculiar são alguns integrantes do Movimento Estudantil sentirem-se legítimos representantes do proletariado organizando protestos em uma terça-feira no meio da tarde em local de difícil acesso (quem não comparece é taxado de pelego). Todavia, uma das cenas mais constrangedoras que presenciei foi um aluno reconhecido como de “esquerda” escrever na bochecha de uma recém formada o nome de uma universidade paga, em tom vexatório. Ele deveria antes de qualquer consideração reconhecer seus privilégios diante da estrutura elitista e excludente na qual é baseada a educação nesse país. Se não há mais alunos negros e/ou de escolas públicas nos ambientes universitários não é por má vontade nossa -- nos é extirpado o acesso à teoria exigida nos concorridos vestibulares.
Não lhe cabe outorgar quem é digno de exprimir idéias, não interessa o tamanho do seu Lattes. Se o recorte de classe, gênero e raça perpassa os ambientes de interação social e construção do senso crítico, a redoma que envolve a bolha universitária se torna ainda mais reluzente. Sem tal lustre os deixados atrás dos muros são opacos não-sujeitos, esforçando-se para reacender fagulhas dispersas.
Se em outro momento a hostilidade e a sensação de não pertencer entre universitários me causava retração, hoje vejo como uma retomada do que me é de direito.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A VIDA DE ALGUNS TÊM MAIS VALOR

Anúncios muito eficazes do CVV

Durante alguns meses de 1990 fui voluntária do CVV, Centro de Valorização da Vida. E foi uma experiência gratificante, porque a gente sentia que estava ajudando e que havia seriedade no programa (laico, graças a deus). O treinamento era longo, e obrigatório antes que se começasse a atender telefonemas de possíveis suicidas.
Lembro como eu, do alto da minha ingenuidade, fiquei surpresa ao ser informada que pelo menos duas em cada dez chamadas eram de homens querendo se masturbar ao som da sua voz. Pô, como assim? Olha o nome do serviço, Centro de Valorização da Vida. Em SP muita gente conhecia, e sabia que se tratava de voluntári@s que não recebiam um tostão sequer para ouvir e, dessa forma, demover gente no fundo do poço de se matar. Então sério que uns caras desocupados ligavam pra gente, a qualquer hora do dia e da noite (o serviço era 24 horas), pra se masturbar? Sério. Parte do treinamento que as mulheres recebiam (pois era comum o masturbador desligar e ligar de novo, até encontrar uma voz feminina) era aprender a lidar com eles. Alguns treinadores diziam que deveríamos ser cordiais, já que tarados também podem ser suicidas em potencial (desculpe usar a palavra tarados, tão pesada em seu julgamento e tão moralista. Nada contra a masturbação, muito pelo contrário. Porém, ligar pra um serviço deprê cheio de voluntárias ainda hoje me cheira à perversão. E querer usar uma mulher sem a permissão dela para o seu prazer quase me cheira a estupro). A maioria dos treinadores, no entanto, dizia que deveríamos desligar o quanto antes para manter a linha aberta para quem realmente precisasse. Isso tudo foi bem antes da internet. Mas os telefones para sexo já existiam. E tenho minhas dúvidas se com a internet os tarados que ligavam para atendentes do CVV enquanto se masturbavam tenham parado. O pessoal, eu inclusa, achava que esses caras ligavam pro CVV, e não pra um disk-sexo qualquer, só porque o CVV era de graça. Só que não era isso. Hoje eu sei. Esses caras não queriam fazer sexo virtual com uma mulher que consentisse. O prazer deles estava em dominar uma mulher, fazê-la desconfortável, forçá-la a estar numa situação que ela não queria. Havia masturbadores que rapidamente perguntavam “O que você está vestindo?”, e aí pelo menos você já sabia com quem estava lidando (porque, né, quando que um suicida vai fazer essa pergunta?). Mas a maior parte queria mesmo enganar. Elaborava historinhas, fazia o máximo pra ouvir sua voz, e tentava disparar perguntas cada vez mais pessoais. Muitas vezes terminavam com um “Ahhhh, gozei!”. E eu ficava lá, com cara de “Por que tenho que me submeter a isso?”.
Não é incrível? Num serviço em que a gente passava horas conversando (mais ouvindo) com pessoas muito deprimidas e solitárias, o mais triste era ser usada por carinhas sem noção que não estavam nem aí em ter o seu consentimento. Isso também é um exemplo de entitlement –- aquela sensação que tantos homens têm de que merecem alguma coisa só por serem homens. Pensar que voluntárias num serviço de atendimento a suicidas estão lá para o seu deleite sexual? Isso é entitlement. E é errado.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

SORRIA, MEU BEM

Grande quadrinho (clique para ampliar) do Barry Deutsch (Ampersand), criador de excepcionais cartuns políticos. Leia minha tradução tosquinha e me diga se a situação não soa familiar.
“Quero que você saiba que sou totalmente a favor da igualdade entre os sexos. Quero dizer, dentro de limites razoáveis. Sou a favor se isso não significar rotineiramente lavar roupa, pisos, e pratos. Sou a favor desde que todos os sacrifícios na carreira feitos na nossa família sejam feitos por você. Sou a favor se eu puder 'ajudar' a criar os filhos, em vez de fazer a metade sem que me mandem. Sou a favor se eu não tiver que considerar que as minhas conquistas tiveram uma mãozinha do machismo. Sou a favor se eu nunca tiver que pensar criticamente sobre pornografia. Resumindo, estou pronto para um relacionamento completamente igualitário com as mulheres! Você não está feliz? Por que você não está sorrindo? Você é uma gracinha quando sorri!”.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

FEIO É O SEU RACISMO

Ontem, 20 de novembro, foi o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Se temas como racismo e orgulho negro não são discutidos com a frequência com que deveriam neste país em que não somos racistas (imagina se fossemos!), pelo menos perto da data eles precisam ser trazidos à tona. É obrigatório.
Pra mim um tópico sempre interessante é o racismo velado que existe por trás das convenções de beleza. Poucas pessoas assumem que foram e continuam sendo condicionadas a achar que o belo é ter olho claro, cabelo liso e de preferência loiro, traços “finos”, e pele branca com um pouco de bronzeado. A galera que acha sexy os lábios carnudos da Angelina Jolie parece achar horríveis os lábios carnudos de tantos negros. Mas essa gente nunca assume seu racismo. Diz apenas que é uma total coincidência não gostar de negros. É só seu gosto pessoal, puxa vida! Que, obviamente, não sofre influência alguma do meio onde vive!
Outro dia vi a prévia de um documentário americano chamado Dark Girls (Meninas Escuras). Nele, uma mulher negra diz se lembrar de pedir pra sua mãe colocar alvejante na água da banheira, para que ela pudesse embranquecer. Outra negra conta que os negros americanos preferem negras mais claras, e fazem divisão entre mulher pra transar, e mulher pra casar (só as menos escuras). Claro, porque os negros também fazem parte de uma cultura que prega que a beleza é clara. E isso se aprende desde criancinha. O comediante Chris Rock decidiu fazer o documentário Good Hair (Cabelo Bom) depois que sua filha de seis anos chegou da escola perguntando por que ela não tinha cabelo loiro e liso, como deveria ter se quisesse ser bonita (e que menina não quer ser bonita? Faz parte da nossa lavagem cerebral de todos os dias).
Ano passado vi um documentário de 17 minutos, The Colour of Beauty (A Cor da Beleza; veja aqui), que acompanha uma modelo negra nas suas tentativas (a maior parte frustradas) de conseguir trabalho. Os dados são que 87% das modelos no New York Fashion Week são brancas, a maior parte loiras. 6% são asiáticas, e 6% são negras. Mas as negras são o mais brancas possível. Um agente as descreve como “brancas banhadas em chocolate”. Elas devem ter as mesmas características das brancas e serem clarinhas. Nada de nariz ou lábios grandes ou cabelo afro. E quanto ao corpo, se tiver bumbum ou quadril um pouquinho maior, tá fora. Não há diversidade nas passarelas da moda, sabemos disso.
Aqui no Brasil, país em que até em Salvador (onde 80% da população é negra ou parda) comercial de margarina é protagonizado por loirinhos escandinavos, o Ministério Público instituiu, em 2006, uma cota obrigatória de 10% de modelos negras. Os estilistas chiaram. Além do manjado “não somos racistas”, alguns chegaram a dizer que a cor negra não combinava com uma indústria de roupas luxuosas. A cota de 10% acabou ficando mais como “sugestão”. E sugestão pode muito bem ser ignorada. Na São Paulo Fashion Week deste ano, por exemplo, quase todas as marcas só tinham modelos brancas. As marcas mais inclusivas traziam duas negras num batalhão de 26 modelos.
Enquanto isso, um grupo de ativistas negras protestava do lado de fora, exigindo que a cota fosse aumentada para 20%, para que o Brasil parasse de fingir ser o fiel proprietário de uma beleza suíça. Cantavam elas: “Eu vi a luta, estava lá, SP Fashion Week não deixa negro entrar!”. Que frescura, né? Afinal, se mal vemos negros nas passarelas, no concurso Miss Brasil (nenhuma candidata negra; até a Miss Bahia era loira, mas tingiu o cabelo de castanho porque sentiu vergonha), nos comerciais, em qualquer lista de mais belos, é porque... hum, por que mesmo? Ah sim, deve ser o gosto pessoal de toda uma nação!
Já faz um tempinho, uma leitora minha, a D, lembrou que, quando era criança, participou de um concurso de beleza na escola. Numa festa, os meninos montaram uma passarela de cadeiras para que as “meninas bonitas” desfilassem, sendo saudadas com gritos de aprovação pela plateia masculina. Conta D: “Eu, achando que os padrões não eram tão rígidos assim (afinal, vários adultos já tinham me dito que eu era uma criança 'bonita'), e ávida por ter aquela aprovação e me confirmar como parte do grupo das 'bonitas', me arrisquei a desfilar, com meus cabelos longos cacheados e minha 'cor de jambo'. Subi na tal passarela e logo a abandonei aos gritos de 'sai daêee', 'nega da favela', 'cabelo pixaim', etc. Naquele momento eu entendi o significado de MUITO feia. Era a questão da cor que definia tudo. E a questão da cor estava intrincada com a questão de classe. Ser feia era ser negra, ser negra era ser pobre”.
Bom, se este depoimento e os três documentários não te convencerem que o padrão de beleza é racista, sempre temos aqueles vídeos de cortar o coração em que os pesquisadores pedem pra crianças negras de três, quatro anos apontarem qual é a boneca feia (é a negra), qual a boneca burra (é a negra), qual a boneca má (é a negra). No final, a criança tem que dizer com qual boneca mais se parece, e ela sabe que é com a negra. Como deve ser crescer com uma autoestima dessas? Crer que a pele que habitamos é inadequada tem força pra afetar todas as nossas atividades. Odiar a própria aparência rapidamente se espalha para odiar o próprio ser, em tudo que ele representa (não só na sua aparência).
O Dia da Consciência Negra é uma data pertinente pra nos lembrarmos daquele slogan dos anos 60 que, a meu ver, não deveria ter saído de moda: black is beautiful. E serve para pensar no Zumbi, um herói nacional que lutou pela liberdade. Já passou da hora da gente se livrar das nossas amarras. Ao adotarmos um padrão único de beleza, todos saímos perdendo.
Mas, se todas essas evidências não adiantarem, fica a dica: não use mais o discurso de “gosto pessoal” pra justificar seu racismo. Fica feio.

domingo, 20 de novembro de 2011

GUEST POST: QUERO SER UMA GORDINHA BEM RESOLVIDA

Obrigada, Marilia querida, que me enviou este relato e autorizou sua publicação.

Eu conheci o seu bog há pouco tempo, e desde então, não consigo parar de ler.
Tenho 21 anos, 1,65 de altura e 95 quilos. Sempre fui acima do peso, e, dessa forma, passei por tudo aquilo que todas nós somos obrigadas a passar: insultos, piadas, e todas essas coisas cruéis que acabam por moldar a imagem que a gente tem da gente.
Então eu meio que cresci assim, cultivando essas coisas que eu ouvi. Involuntariamente eu acabei por torná-las o centro de quem eu sou e de todos os meus problemas, e é muito difícil ver algo em mim mesma além de uma gorda.
Sabe, eu sou completamente saudável. Não tenho nenhum problema de saúde, me alimento direito, colesterol baixo, não tenho problemas glandulares, nada. Eu chego até a ficar triste por ser assim, saudável. Se eu tivesse uma doença seria mais fácil, eu poderia simplesmente tratá-la e deixaria de ser gorda. Mas não tenho. Não posso culpar ninguém além de mim mesma por ser do jeito que eu sou.
Mas parece que ninguém acredita. Meu pai passou a minha vida inteira me levando a nutrólogos, nutricionistas, comprando remédios pra emagrecer -- remédios que me causam insônia e me deixam depressiva --, fazendo tudo o que ele podia pra eu ser "normal". Eu sei que ele não faz isso por mal, ele acha que é uma forma de cuidado, mas, inconscientemente, acho que ele pensa que se eu não emagrecer eu vou ficar sozinha pra sempre. Acho que eu também acho isso.
E é um ciclo, sabe? Eu fico me sentindo gorda e feia, não tenho um pingo de amor próprio, não tenho vontade de me arrumar, não tenho vontade de sair de casa, tenho me afastado até dos meus amigos. Resumindo, nos últimos tempos eu só saio de casa pra ir pra faculdade e pro estágio. Faz quatro anos que eu não me relaciono com ninguém, porque eu não quero que as pessoas me toquem, que elas olhem pra mim, que se envolvam comigo, porque eu acho que quando elas se derem conta da anormalidade do meu corpo elas vão se afastar de mim e vai ser mais difícil do que se eu nunca as tivesse conhecido.
E agora é a idade mais crítica, onde esse processo de "coisificação" da mulher é mais intenso. Às vezes eu desejo ter 80 anos só pra poder me livrar desse compromisso que é imposto pra gente, de ser magra, ser decorativa, ser um pedaço de carne.
E eu só queria dizer que o seu blog tem me ajudado bastante ultimamente. Antes eu estava plenamente decidida a fazer uma cirurgia no estômago, e agora já não acho uma boa ideia. Lógico que estou muito longe de superar todos os meus problemas, mas saber que tem alguém que entende toda a nossa frustração e ver que, apesar de toda essa sociedade maldita que fica tentando nos moldar segundo o que é mais lucrativo pra ela, apesar de todas as pessoas babacas que sustentam essa mesma sociedade, saber que em algum lugar do mundo existe uma gordinha feliz e bem resolvida, é algo que me dá vontade de sair do quarto e aproveitar a vida! Talvez um dia eu consiga o mesmo.