Semana passada o maridão e eu revimos O Poderoso Chefão Parte III. Já vimos o filme inúmeras vezes nesses trinta anos, inclusive no cinema, quando foi lançado em dezembro de 1990.
Quer dizer, vão falar que não é bem o mesmo filme, que esta é uma espécie de versão do diretor, mas não caia nessa. Francis Ford Coppola, que às vezes fica sem dinheiro, volta e meia faz isso (se bem que Apocalypse Redux tem realmente ótimas cenas acrescentadas, mas essa proeza é de vinte anos atrás). Esta versão de Chefão III tem uns doze minutos a menos. Nem dá pra notar direito. O começo foi alterado, o final também. E o título. Agora não é mais "parte III", é Desfecho: A morte de Michael Corleone.
Eu adoro os dois Chefões, de 1972 e 1974 (embora eu ache que o melhor filme de 72 foi Cabaret), mas nunca gostei da terceira parte. É fácil culpar a Sofia Coppola, tadinha. A Winona Ryder tinha sido escalada para interpretar Mary, filha do chefão feito por Al Pacino. Mas ela estava exausta e acabou não fazendo.
Coppola, nepotista que é, escalou a filha de 19 anos, que nunca havia atuado antes e não tinha intenção de ser atriz (virou diretora, e das boas). Ela é claramente uma amadora (pense no Keanu Reeves, normalmente um ator decente, em Drácula de Bram Stoker, também dirigido por Francis Coppola). Mas o filme não a ajuda. Talvez qualquer atriz teria feito um papelão.
Fiquei feliz em constatar que o maridão e eu temos as mesmas opiniões sobre o filme. Concordamos que, cada vez que revemos a parte III (eu assegurei que esta foi a saideira), ela fica pior. Os diálogos são péssimos, artificiais, e as atuações não ficam tão atrás. Até o grande Al Pacino tá caricato em algumas cenas. Lembrem-se que sua fala mais famosa, parodiada à exaustão, é "justo quando pensei que estava fora, eles me puxam de volta", que não é seu melhor momento no filme.
Mas vejam quando ele vai receber Kay (Diane Keaton, que eu sempre considerei o elo fraco em toda a trilogia) na estação de trem na Sicília. Ela diz que seu atual marido queria muito vir, e Michael responde que tem certeza que sim. É um diálogo artificial. E tudo bem, na vida a gente tem diálogos artificiais, mas este não parece ter sido feito pra dar a entender que o relacionamento entre eles está nesse nível. É só que vários diálogos na Parte III são assim.
Não estão convencidxs? Então que tal a cena em que Connie (Talia Shire) reforça sua lealdade ao irmão e chefão enquanto lhe aplica uma injeção? Ela lamenta que Fredo, que Michael mandou matar no final do segundo filme, e que vai assombrá-lo pro resto da vida, tenha se afogado. Mas a câmera mal a mostra enquanto ela fala isso. É uma cena que poderia revelar bastante sobre sua personagem (tipo: ela acredita nessa mentira?). Ela está quase de costas e há uma sombra sobre ela. Não dá pra saber qual é a dela apenas pelo diálogo e a entonação. Certo, o filme fez essa escolha de não nos deixar interpretar sua fala, mas então qual é o propósito da cena? Por que ela está lá?
Pra mim, quem se sai melhor é Joe Mantegna como um mafioso mais barra pesada. Seu personagem (pequeno) está melhor construído. Andy Garcia como o filho bastardo de Sonny tem boas cenas -- não as que ele compartilha com Sofia --, mas acho que ele se esforça demais pra parecer fora de controle como o pai que nunca conheceu, como se ser explosivo fosse genético.
Quando o filme foi lançado, em 1990, ele foi malhado (a ferina crítica Pauline Kael o classificou como uma "humilhação pública"), principalmente por causa de Sofia. Mas ele teve o azar de surgir no mesmo ano de Os Bons Companheiros, do Scorsese, que é muito superior. Ainda assim, ele foi indicado a sete Oscars, inclusive melhor filme. Sinal de que um monte de gente adorou. Eu realmente não sou uma delas. O maridão tampouco.
Desculpem se vocês amam a terceira parte de paixão. Já ouvi até uma ou outra pessoa afirmar que é o melhor momento da trilogia. Mas pra mim esse "desfecho" é tão péssimo que me faz pensar se os dois filmes que vieram antes não são talvez superestimados (não, não são).










