Aos 53 anos, devo estar na menopausa há um bom tempo. Não registrei exatamente quando parei de menstruar, e óbvio que não sinto falta.
Como nunca senti qualquer vontade de ser mãe, e não associo ser mulher à fertilidade, não tive qualquer crise. Até agora, não tive nenhum dos sintomas da menopausa, salvo uma noite ano passado ou retrasado em que acordei com um calorão.
Quando os sintomas chegarem, se chegarem (minha pele continua oleosa, ainda tenho espinhas), não quero tomar hormônios. Quero encarar a menopausa do jeito mais natural possível.
Sabem quantos posts sobre esse período marcante na vida das mulheres eu já publiquei nesses doze anos e meio de blog? Nenhum. É uma vergonha, eu sei. É que grande parte do meu leitorado é jovem. E é também porque esta ainda não é uma experiência que eu possa chamar de minha. Mas gostaria de ouvir mais relatos sobre quem já passou ou esteja passando por isso.
Jacqueline Vallejo, assistente social com trabalho em saúde mental, feminista e militante de esquerda, decidiu falar sobre o tema, sobre a sua experiência. Que venham outros relatos!
Para falar da menopausa é importante contextualizar. Ela é particular para cada mulher, pois possui intrinsecamente questões emocionais e biológicas que se fundem -- e confundem a nós que já carregamos tantas normas culturais, tanto senso comum que ditam o que é, o que não é, e como devemos agir.
Falar da menopausa é derrubar um tabu. Existe vida feliz e sexualmente plena após a vida reprodutiva, que vamos lembrar que não é reprodutiva para todas as mulheres.
O meu climatério [a transição do período reprodutivo para o não reprodutivo] chegou num momento complicado em minha vida, quando havia ainda uma esperança de engravidar. Eu tinha passado por uma cirurgia de retirada de miomas, e meu útero estava íntegro e limpo, com aparentemente todas as possibilidades de receber um embrião. Só que além de muito trabalho e mudança de moradia, havia os cuidados com meus pais (papai com demência vascular, bexiga neurogênica, sequelas de dois AVC, e mamãe no auge do Alzheimer, iniciando os episódios de convulsão).
Nesse panorama eu tive o meu primeiro atraso menstrual na vida, aos 43 anos, o que nos levou a pensar numa possível gravidez. Após vários testes de farmácia, exame laboratorial e ultrassonografia, caiu a ficha (detalhe: sou teimosa): o climatério havia chegado.
Passei a ficar na torcida para a menstruação não voltar, mas ela voltou por dois anos, dava umas pausas e voltava com toda a força com que ela sempre me acompanhou. Finalmente, logo após o falecimento do meu pai, ela me deixou de vez.
Aí começaram os sintomas: secura vaginal, calorão, irritabilidade. Comecei a me observar e relacionar os sintomas com o meu momento de vida, os sintomas com o turbilhão de coisas que estavam acontecendo. Percebi que a secura vaginal se resolve com sacanagem, palavras obscenas ao pé da orelha ou lubrificante, caso não tenha tempo para grandes preliminares.
O calorão geralmente aparecia quando eu estava exausta, ansiosa, com algum desiquilíbrio emocional. Parecia que os glóbulos brancos queriam combater algo que estava na minha alma. Quando compreendemos nossas frustrações, nossos desejos, nossos lamentos, e buscamos não sofrer, viver um dia após o outro, oferecendo o nosso melhor para tudo e todos que mereçam, ah, como diminui, como fica mais fácil! Mas o percurso é difícil, o autoconhecimento passa por uma leve depressão, por um período de passar a limpo sua vida, e isso é dolorido. O bom é que passa... Tudo passa.
E a irritabilidade? Vamos combinar: como não ficar irritada com falta de dinheiro, imensidão de responsabilidades, um luto que você não pode processar, vivenciar, uma mãe que você tem um amor imenso e que possui uma doença degenerativa e que depende totalmente de você, um trabalho de conclusão de curso pra fazer, um marido que se sente renegado ao 28º lugar de prioridades na sua vida, e os anos passando...
Tem que ter humor, tem que saber falar uns palavrões, tem que ser mulher. Ser mulher numa sociedade dominada pelo patriarcado, que lhe impõe o papel do cuidado com o outro, da subalternidade, da reprodução, é lutar dia após dia contra preconceitos, contra padrões, contra tudo que foi construído para acreditarmos que não somos as mulheres maravilhosas que somos.
A menopausa pra mim foi libertadora. Desencanei de ter filhos, parei de me esvair em sangue, passei a me entender como ser desejante, mais madura, mais plena como mulher. Me livrei de absorventes e o martírio de pensar se vazou, se manchou a roupa etc. Hoje sou livre das amarras que nos prendem à fertilidade e reprodução. Minha fertilidade está na minha mente, na minha criatividade, na vida que passo aos outros e que me inspira sempre a ser melhor. Isso sim é ser fértil.


