domingo, 21 de março de 2010

GLOBO CORTA FILMAÇO EM PEDACINHOS

O pênis do Viggo não passa na TV.

Oi, gente querida! Aproveitando uma folguinha na minha agenda apertada, venho aqui dizer que ontem vi Senhores do Crime. Vocês viram? Passou na Globo. Geralmente a Globo só exibe porcaria nas noites de sábado, mas vi o comercial anunciando Senhores e na hora pensei: "Preciso aproveitar! Senhores é excelente, um dos melhores Cronenbergs!". Só que eu tinha certeza que o filme seria picotado. Mais que cortado mesmo, picotado. E foi o que aconteceu.
Eu ficava imaginando como a Globo faria para (não) mostrar a cena mais famosa de Senhores, aquela do Viggo Mortensen tatuado lutando nu numa sauna. Esta cena é uma das lutas corporais mais incríveis da história do cinema, e faz todo o sentido o Viggo estar nu. Afinal, ele tá numa sauna, e seria absurdo que ele lutasse com uma toalhinha. E é explicado que os mafiosos russos gostam de se encontrar em saunas porque assim eles podem ver no corpo, graças às tatuagens, toda a importância do sujeito. Viggo é enviado pra lá pelo chefão para ser morto no lugar do filho (Vincent Cassel, de Irreversível, talvez mais conhecido por ser marido da Monica Bellucci). Ele é alçado à categoria de capitão na noite anterior (quando é avaliado por vários mafiosos, entre eles o Michael Sarne. Quando vi o Michael ontem me lembrei do post que escrevi há dois anos. Ahn, é que na época eu e o maridão não sabíamos da existência do print screen pra copiar imagens do computador e captamos a aparição do Michael com a máquina digital mesmo. E acho que fotografamos outras coisinhas também, como um diagrama de visitas do SiteMeter. Daí o Pedrinho, aquele desalmado que me abandonou mas ainda se atreve a se auto-intitular "meu melhor fã", escreveu nos comentários: "Lolinha, por favor, diga que você não fotografou a tela do seu computador!". Foi um momento hilário, que rendeu um post espirituoso narrando os meus vastos conhecimentos cibernéticos). Depois desse parêntese imenso, é óbvio que me perdi. Onde é que eu estava mesmo? Ah, na sauna com o Viggo pelado. O filme não dá destaque ao bilau do Viggo, mas ele está lá, faz parte do cara. E a Globo decidiu castrá-lo. Pô, nem que o filme passe após a meia noite dá pra mostrar um nu masculino?! Não dá pra pelo menos seguir a cartilha de Hollywood? (A cartilha é: mostrar pênis em repouso, ganha classificação Rated R; mostrar pênis ereto, classificação Rated X, a mesma dada pros filmes pornôs, e aí o filme reduz seu público, menor de 18 anos não entra, a Blockbuster não compra, jornais não aceitam propaganda do filme - desastre financeiro total.) Pensei que a Globo cortaria a cena inteira, mas ela deixou uns pedaços. Agora, qual seria o grande problema em mostrar o Viggo nu? Eu já vi um pênis (faz tempo, mas já vi)! Juro que eu não me escandalizaria! Eu aguento! (sem falar que o Viggo nem tá bonito neste que é o melhor papel de sua carreira).
A Globo também cortou parte da cena em que o Viggo é forçado a transar com uma prostituta. E outra em que um rapaz com problemas mentais tem sua garganta cortada. Essa cena é tipicamente Cronenberg (diretor de A Mosca, Scanners, Gêmeos etc, e também
do veículo pro segundo melhor papel do Viggo, Marcas da Violência). Passam uma faca por cima da roupa, no pescoço do garoto. E, em seguida, o sangue jorra. Muito sangue. Bom, na Globo não sai nem um pinquinho.
Mas o mais chato é que eles escolheram todos os momentos errados pros intervalos comerciais. Tipo: uma cena-chave em Senhores é quando Viggo está no hospital, depois da luta na sauna. Até então achamos que ele é um psicopata como os outros. Só aí ele se revela (spoilers! Spoilers! Se vocês não viram o filme, deveriam ver. Pulem a frase seguinte): ele é um agente disfarçado, tal qual o Leo em Infiltrados. Que vida péssima essa gente tem, não? Enfim, bem nessa revelação fundamental, a Globo incluiu seu plim-plim. Como o maridão falou, "Eles devem ter aprendido com a Bandeirantes".
Mas querem ver uma
censura que não tem nenhuma explicação? Antes preciso explicar que faz tempo que não via Senhores, então, de repente, posso até estar enganada. Mas acho que não. Tenho quase certeza que não estou inventando. Numa das últimas cenas (não é exatamente um spoiler), o Vincent beija o Viggo na boca. O Vincent, afinal, interpreta um homossexual num dos piores lugares para ser gay (numa organização mafiosa. O segundo pior lugar deve ser no BBB 10, ao lado do Dourado). A atração que o Vincent sente pelo Viggo é palpável, mas ele não pode admitir, tem que continuar no armário pra sempre. Nesse momento de emoção intensa, ele confunde o carinho do Viggo por algo carnal, e o beija. E o Viggo delicadamente o afasta (não pode ser que eu esteja inventando tudo isso, pode?). Pois bem, como é que a Globo corta essa cena? Não tem violência, não tem nudez, não tem sexo. É só um homem beijando outro homem! E ficou de fora da TV. Em seguida, o Viggo beija a Naomi Watts, mas isso a Globo não corta, porque é o padrão heteronormativo, né? Pffff.
Meu recadinho pra Globo:
Ah, algum dia eu filmo o maridão imitando o Viggo nesse gesto de "tô de olho em você, e você corre risco de vida". Ele ainda inclui um movimento de garganta cortada e enforcamento, só pra reforçar a ameaça. É impagável. Quase melhor que um Viggo nu.

sexta-feira, 19 de março de 2010

LOLINHA CASAMENTEIRA, PARTE 2

A agência de casamento (leia a primeira parte antes) durou dois anos e, durante o primeiro ano, pelo menos, tudo funcionou muito bem. Pela carta que enviei aos associados (ao lado; clique pra aumentar), posso ver que havia 40 inscritos em apenas dois meses. Na realidade, isso de agência casamenteira só funciona bem se tiver muita gente nova entrando todo mês. Se não, você fica com um cadastro parado, e as pessoas que ainda não conheceram a “alma gêmea” começam a reclamar. Tive uns 200 clientes, praticamente todos de classe média. Acho que “formei” uns três casais. Aliás, quem fez tudo foram eles, eu só apresentei. E eu digo “acho que formei” porque a vergonha do pessoal era enorme. Pra eles era um ato de extremo desespero procurar uma agência de casamento; logo, se houve casamento, eu não fui convidada (e, pra ser franca, não fazia nenhuma questão).
As agências já eram comuns nos EUA e na Europa e, com a internet, o neg
ócio estourou. Hoje é super banal que americanos se conheçam através de dating services na internet. É apenas mais um meio de conhecer pessoas, e acho que o preconceito de “gente desesperada” não procede. Meus clientes, em sua maioria, eram absolutamente "normais", bonitos, sociáveis, gente boa. Posso contar nos dedos de uma mão os carentes que insistiam em me ligar a qualquer hora do dia e da noite. Quer dizer, não lembro de ninguém, putz. Havia um senhor simpático que tinha uma fábrica de papel. Lembro dele porque ele me trazia bloquinhos de anotações de presente (e esse era da turma dos ricos, não da classe média. Mas rico no Brasil é que nem o pessoal de direita: ninguém se assume!).
Claro, nem tudo era perfeito. Todas as agências de casamento tinham (imagino que tem até hoje) mais mulheres que homens em sua clientela. Não era tão desproporcional, coisa de 60% mulheres, 40% homens. O problema, lógico, é a idade. Pra mulher de 18 a 30 anos, não faltava gente pra apresentar. Homem de 20 topa conhecer mulher de 25. Homem de 30 topa conhecer mulher de 25, e, bom, homem de 40, 50 e 70 também (aí a moça é que não topa). Pruma mulher de 40 era muito mais difícil. E depois dos 50, então, era quase impossível. Eu ficava indignada com aquela situação, porque tinha várias clientes belas e independentes com mais de 50 anos, com muita vontade de começar um novo amor, e não havia homens que quisessem conhecê-las. E não tinha nada que eu pudesse fazer, fora discursos inflamados. Lembro que uma mulher pediu: “Então me apresenta mulher mesmo”, não pra fins afetivos ou sexuais, mas pra amizade. Foi o que fiz, e três delas passaram a se reunir pra jogar cartas, conversar e viajar. Uma ou duas vezes organizei um churrasco aqui em casa pros clientes, e foi muito bom. Vários vieram.
O lado ruim é que todos os estereótipos estúpidos da sociedade são repetidos na agência, como se ela fosse um microcosmo. Às vezes eu recebia um telefonema de um cara dizendo “Quero uma loira, alta, magra”, e eu tinha que me conter pra não responder “Peraí que vou ver se tenho uma na estante”. Já entre as mulheres, havia as que diziam “Se ele não tiver carro, nem me apresenta”, o que eu considerava um absurdo (e às vezes eu falava: "Tá, o sujeito tem carro agora. Mas e se o carro quebrar, você termina o relacionamento?"). Estranhamente, essa exigência do carro só vinha de mulheres mais velhas. As de vinte e poucos não faziam nenhuma questão, mas as senhoras tinham medo de homens aproveitadores, que só se interessassem pelo seu dinheiro. Já entre os senhores, não havia essa preocupação. Ou seja, aquela dicotomia ridícula: aparência e juventude são fundamentais pras mulheres; pros homens, uma boa posição econômica.
Com o tempo, eu fui me cansando de tudo isso. A procura pela agência diminuiu, a renda caiu, e percebi que estava na hora de voltar a trabalhar fora de casa. Vi um anúncio no jornal procurando um redator publicitário e mandei meu currículo. Não fui chamada, mas isso só aumentou minha vontade de voltar ao mercado de trabalho. Decidi, então, aproveitar a minha fluência no inglês e dar algumas aulas. Visitei várias escolas de idiomas, e fiquei espantada com uma que pagava R$ 2,16 a hora (respondi que, por esse valor, eu nem saía de casa). Inicialmente, eu pensava em continuar com a agência de casamento e só dar aulas de inglês à noite numa escola de idiomas, como um bico. Mas rapidamente descobri que, se eu quisesse ser boa professora, precisava estudar e correr atrás do prejuízo (minha única qualificação era que meu inglês era bom, mais nada). E foi isso que aconteceu. Pouco depois vi que o inglês tomava um tempão e dava mais dinheiro do que eu ganhava com a agência, e fechei a Hearts Club. Comuniquei os clientes, todos foram bem compreensivos. Até tentei vender o cadastro pra uma outra agência, pra ver se meus clientes poderiam continuar conhecendo pessoas, mas não deu certo. E pronto, fim. Quero dizer, meu contador fez besteira, não fechou a agência direito, e a Receita Federal me mandou uns avisos. Só dei baixa (definitivamente, espero) agora, doze anos depois.
A agência foi uma experiência interessante. Às vezes olho pra esses dois anos com um ar de desperdício (por que não cursei uma faculdade durante esse tempo?); às vezes sinto que foi uma fase mais calma e caseira pela qual precisava passar. Fiz um trabalho honesto e dedicado, o melhor que eu pude. E aprendi muitas coisas. A principal foi que não devemos impor os nossos gostos como se fossem valores absolutos. Lembro de uma vez em que uma senhora veio ao escri. Conversamos bastante e, por algum motivo, ela acabou não se inscrevendo. Eu pensei cá com meus botões: Ufa, ainda bem, porque ela é feia e eu nunca iria encontrar um cara que se interessasse por ela (naquela época eu era muito mais escrava dos padrões de beleza do que hoje). Aí, por coincidência, porque isso era raríssimo de acontecer, quando ela estava saindo, um senhor entrou na agência. Os dois se cruzaram e eu percebi as faíscas, sabe? Foi uma das maiores paqueras explícitas que já vi! E a primeira pergunta que o homem me fez, todo entusiasmado, quando ficou sozinho comigo: “Aquela galega tá na agência?”.
Foi bom enquanto durou.

quarta-feira, 17 de março de 2010

LOLINHA CASAMENTEIRA

Pouca gente daqui do bloguinho sabe, mas eu já tive uma agência de casamento. Vou relatar em duas partes, porque ficou longo demais pra um texto só.
Verdade absoluta isso da agência! Não tô de gozação. Deixa eu contar como foi: eu morava em SP e já estava me cansando de ser publicitária/revisora/assessora de imprensa/qualquer coisa relacionada à palavra escrita. Meu amado pai morreu em 1993, e eu aproveitei pra me mudar pra Joinville e começar vida nova. Antes, ainda em SP, visitei algumas agências de casamento pra saber como funcionavam. Eu sempre tive um lado cupido forte, dessas pessoas chatas que não podem ver um amigo(a) sozinho sem querer emparceirá-lo com alguém. Até levo jeito pra coisa, modéstia à parte. Já motivei amigos meus a se juntarem, amigos que estão juntos há vários anos. Mas, lógico, uma coisa era fazer aquilo informalmente, outra era abrir uma empresa. Por isso visitei agências paulistas (a maior era uma que pertencia a Marcia Goldsmith, que pouco depois viraria apresentadora de TV de programas barraqueiros), e anotei algumas ideias. Lembre-se que isso foi antes da internet. Antes até do computador, pensando bem. Claro, o computador já existia, mas ainda era raro ter um em casa. Eu, por sinal, não tinha. Só vim a comprar um em 95 ou 96. E desconfio que a internet (discada!) levou quase um ano pra aterrisar por aqui, ou será que não?
Cheguei em Joinville e fiquei sem fazer muita coisa por um ano e meio, por aí. O maridão, naquela época ainda namoradão, veio logo e foi ficando, sem grande planejamento (arranjou uma escola pra dar aula de xadrez). Pra sobreviver, eu gastava a mixaria de cem dólares por mês. Alugava a casinha dos fundos e ganhava uma graninha jogando xadrez. Se bobear, ainda sobrava um pouquinho de dinheiro a cada mês. Dava muita liberdade saber que poderia sobreviver gastando tão pouco. Mas notei que minha vida estava um tanto sem rumo, sem ambição, e decidi abrir a agência em Joinville. Abrir de verdade, com alvará e tudo. Escolhi o nome Hearts Club, em homenagem aos meus amados Beatles e ao seu Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Mas não creio que tenha sido um bom nome, porque pouca gente fala inglês, e fica difícil de pronunciar (por outro lado, muita gente é fã dos Beatles). Pedi um logotipo pro meu amigo designer e diretor de arte Mucinho, fiz uma placa pra colocar na frente da casa, uns cartões de visitas, e pronto. Fui minha própria assessora de imprensa, e bastante eficiente. Mandava press releases pra colunas sociais (argh, ninguém odeia colunas sociais mais do que eu, juro). Descolei entrevistas pra divulgar o negócio nos jornais locais. Aí em cima você pode ver uma das matérias que saiu, e como eu ainda era magrinha (a camiseta da Letras USP foi minha mãe que me deu. Ela cursava História lá. E eu genuinamente pensava que vestir uma camiseta dessas era como usar uma do New York University, sabe? De quem nunca nem pisou no prédio? Naquele tempo eu não tinha diploma universitário e nem imaginava que o pessoal iria me perguntar, por causa de uma camiseta, “Você fez Letras na USP?” Não, não fiz. O maridão usava uma camiseta "História da USP" que minha mãe lhe deu, e acho que ele é incapaz de encontrar o prédio de História). Eu também anunciava a agência nos classificados pessoais, sempre com anúncios diferentes, pra chamar a atenção. O texto não era nada criativo (“Para viver um grande amor, participe da Hearts Club”, “Inscreva-se e apaixone-se” etc), e nem podia ser, por causa do tamanho (duas linhas custavam 8 reais) e das convenções. Porque, vamos admitir, quando você tem uma agência de casamento você lida com ideias bem tradicionais, de gente que quer casar mesmo.
Os cartazes eu que fiz. Até hoje fico surpresa como consegui fazer uma colagem com fotos de astros de cinema e cortar o coração tão direitinho. Hoje em dia eu não colocaria o Schwarzenegger em primeiro plano de jeito nenhum, mas era 1995 e eu precisava de alguma foto de alguém casando (Casablanca, E o Vento Levou e mesmo Ghost provavelmente não são bons modelos de casais felizes ― eles nem terminam juntos!). Romeu e Julieta, que usei prum outro cartaz, tampouco. Eu peguei um papel transparente e copiei o desenho de um livro de Shakespeare em quadrinhos que eu tinha (tenho ainda; deve estar numa das caixas espalhadas pela sala). E aí fiz o resto na minha velha máquina de escrever IBM, aumentando o tamanho da letra com xerox, e colando tudo (tá torto por causa da foto, não pelo layout). O outro desenho eu nem sei de onde peguei, mas enfim. Como xerox colorida era caríssima, reservei as cópias para o poster com a colagem dos filmes. Para os outros, eu coloria alguns pedacinhos com canetinha. E aí tentava colocar os cartazes onde me deixassem (supermercados, livrarias etc). Ah sim, um dia fui a um forró com o maridão, só pra distribuir cartões! Não foi uma boa tática de marketing.
Havia uma outra agência na cidade ― que eu saiba, minha única concorrente. Nunca conheci os donos nem nada.
Se não me falha a memória, eu cobrava uma taxa de 120 reais por pessoa. Não por mês, por pessoa. Taxa única (muitos pagavam em três vezes). A pessoa pagava e ia conhecendo gente. Os critérios eram caretões: pra ser aceito na agência, tinha que querer compromisso sério. Homem já casado não entrava (e olha, alguns tentavam). Era também uma agência que tentava formar casais heterossexuais (havia algumas, em SP, para casais homossexuais. Mas nenhuma misturada). E era tudo bem simples. A pessoa geralmente vinha até a minha casa, onde funcionava o escritório, fazia uma entrevista comigo, preenchia uma ficha com características e preferências, deixava uma foto, pagava, e eu ia apresentando pessoas da agência que estavam mais ou menos dentro daquele perfil. Com o tempo, a agência ganhou um tiquinho de fama e fui recebendo fichas de outras cidades catarinenses, e até de outros estados.
Eu não fazia nada de mais. Só cruzava as fichas, ligava pra pessoa, dizia que havia uma pessoa assim e assado, quer conhecê-la? Caso a resposta fosse afirmativa de ambas as partes, dava o telefone de uma pessoa pra outra. Eu perguntava se eles queriam que eu mesma marcasse um encontro (era só me dizer onde: restaurante, praça, cinema, na agência mesmo?), mas praticamente todos preferiam marcar sozinhos. Portanto, minha interferência era mínima. (Continuo em breve. Paciência!).
Mas e aí, despenquei muito no seu conceito? Ou era impossível cair mais?

terça-feira, 16 de março de 2010

PLANTA DA CASA

Cumprindo meus deveres de maridão e por estar a Lolinha absolutamente sobrecarregada de trabalho, exponho as plantas superior e inferior da nossa casa que eu fiz usando o Google Sketchup, uma ferramenta sensacional pra fazer plantas em 3D.
Abaixo a planta inferior (o espaço da esquerda é o quintal dos fundos e o espaço da direita a frente). Acima a planta do 1o andar mas vista ao contrário: à esquerda é a frente e à direita o quintal dos fundos onde se vê o jardinzinho que a Lolinha quer fazer para os gatos.
O que não dá prá ver são as caixas com todas as nossas coisas e que só poderão ser desempacotadas depois da reforma concluída. Ô vida!

segunda-feira, 15 de março de 2010

O ESTUPRADOR HEROÍCO E A VÍTIMA DOMESTICADA

Compare o estupro de homens por homens em Amargo Pesadelo ou Pulp Fiction com o estupro de mulheres por homens em Sob o Domínio do Medo ou Vestida para Matar. Quando o estupro tem vítimas homens, o filme não sugere de forma alguma que eles gostam. Não é bonito de se ver. Não é feito de jeito nenhum pra excitar o público masculino. Mas, no caso que algum doente se excite, a vítima (Ned Beatty) em Amargo Pesadelo é pintada como rechonchuda e chorona ― feminina, enfim. O que importa mesmo em ambas as cenas, mais em Amargo Pesadelo, menos em Pulp Fiction (porque antes da vingança há um prelúdio divertido e paródico em que Bruce Willis escolhe a arma apropriada para liquidar seus algozes), é o alívio proporcionado pelo homem que vai matar os criminosos. Criminosos que são caipiras, transgressores, kinky ― que não aprenderam que estupro socialmente aceito é o de mulheres. No mais longo de todos os estupros, em Irreversível, não há nenhuma sugestão que a Monica Bellucci está gostando, mas ainda assim é uma cena horrível, pra voyeur ver. Precisa mostrar nove intermináveis minutos de um estupro na tela? Pra quê?
Um dos trechos mais fascinantes de Against our Will (Contra a Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro), clássico feminista dos anos 70, é o capítulo 9, “O Mito do Estuprador Heroíco”. Susan Brownmiller diz que o principal horror de uma cena como a de Laranja Mecânica não é pela mulher que está sendo estuprada por um rapaz de nariz gigante que corta a roupa dela com uma tesoura, mas pelo marido que é forçado a assistir tudo. O tema de que o estupro de uma mulher é um trauma terrível pro marido/pai/filho daquela mulher (muito mais que pra ela em si) é comum. Segundo Susan, existe um “uso de estupro como uma expressão da masculinidade, indicação de mulheres como conceito de propriedade, e como um mecanismo de controle social para manter as mulheres na linha”.
E como se cria um
mito aceitável, pronto para a degustação masculina? Um exemplo: o Barba Azul original, Gilles de Rais (que lutou ao lado de Joana D'Arc), adorava sequestrar, estuprar e matar meninos. Ele fez entre 40 e 100 vítimas, e foi executado no ano de 1440. Como essa lenda não é palatável (violentar meninos? Eca!), ela foi adaptada para Barba Azul e suas Sete Mulheres. Porque barbarizar mulheres, vítimas “naturais”, tudo bem. O mesmo com Jack o Estripador, ou o Bandido da Luz Vermelha. São heróis mitológicos porque estupraram mulheres. Note como pouco se fala das vítimas de Jack, porque quem liga pra prostitutas?
Brownmiller conta como os Rolling Stones, The Doors e Jimmi Hendrix dev
em parte do seu sucesso à glorificação que fizeram com a violência sexual contra a mulher. O celebrado jornalista Hunter Thompson mitificou os motoqueiros dos Hell's Angels por isso também. É o que fazia o escritor Norman Mailer dar palestras em universidades dizendo que “um pouco de estupro faz bem para a alma do homem”.
Por outro lado, se homens estupram em nome da sua masculinidade, mulheres são estupradas em nome da sua femininidade. A mulher é uma cockteaser (quem provoca o pênis, mas, na hora H, não quer aceitá-lo). As vítimas de estupro aprendem a sentir-se culpadas. A
lguma coisa elas fizeram pra merecer isso. Para Susan, “Força, ou a ameaça da força, é o método usado contra a mulher. O uso da força é o requisito básico do comportamento masculino que ela, mulher, foi treinada desde a infância a temer. Ela não está em pé de igualdade nesta competição. A femininidade a treinou para perder”. Ao mesmo tempo, cerca de 25% dos estupros conseguem ser impedidos pelas vítimas, e há bons indícios de que isso ocorre porque as mulheres reagem. Estupro é um dos poucos crimes em que as vítimas talvez devam reagir. Obviamente, os estudos mostram que, quando o agressor está armado, ou quando há mais de um estuprador, as vítimas tendem a não reagir, na esperança que o horror termine logo e que elas saiam disso com vida.
Mas talvez uma das frases mais chocantes de Susan seja esta: “Mulheres são treinadas para serem vítimas de estupro”. Os contos de fada que ouvimos, antes mesmo de aprendermos a ler, já trasmitem um perigo abstrato. O que é Chapeuzinho Vermelho se não uma fábula de estupro? Chapeuzinho aprende a lição, a
pós ser salva pelo caçador: “Nunca mais na minha vida andarei sem rumo pela floresta”. Os Três Porquinhos derrotam o Lobo Mau sozinhos porque são machos. Já Chapeuzinho e sua avó têm que ser salvas por um outro macho.
E a Bela Adormecida? A passividade de Chapeuzinho é fichinha perto dela, que dorme durante cem anos antes de ser resgatada pelo beijo de um príncipe. Branca de Neve, Cinderela, é tudo igual. Ensinamos às nossas meninas a preciosa lição sobre o que constitui ser mulher, a essência da femininidade: ser passiva e bela. Seguindo esses preceitos básicos, o Príncipe Encantado chegará. Se o lobo chegar antes, não reaja. Com sorte um caçador viril e corajoso te salvará.
Susan afirma que aprendemos o seguinte: “Toda mulher quer ser estuprada. Nenhuma mulher pode ser estuprada contra sua vontade. Ela pediu. Se você for estuprada, relaxe e goze”. Esses são os mitos em que os homens acreditam, e que a gente ouve o tempo todo, de um jeito ou de outro (“ah, vestida assim, ela tá pedindo”, “estupros nada mais são que mulheres que
mudaram de ideia depois do ato”). Isso é tão repetido pra gente que muitas mulheres acabam acreditando.
O importante é que esses mitos que escutamos desde a infância funcionam. Serv
em para nos acomodar, para não reagirmos, para vivermos com medo, e, quando for inevitável, para sentirmos que a culpa foi nossa, não do estuprador. Pois é. Como diz Susan, “Fazer uma mulher uma participante da sua própria derrota é meia batalha ganha”.