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Só pra exemplificar o fascínio que os americanos têm por seios. Este anúncio hiper machista da rede de fast food Arby's foi veiculado na revista Sports Illustrated de fevereiro, que é tipo a nossa Placar: uma publicação para o público predominantemente masculino. Lindo, né? É uma beleza ver nossos seios (que têm outro propósito no mundo além de despertar o tesão dos homens) comparados a hamburgers de fast food. O anúncio diz "Já já vamos dar a você algo que realmente o fará babar". E a primeira frase no texto é "What a tease" ("Que provocação!"). Tease é como são chamadas as mulheres que só provocam os homens, sem intenção
de transar com eles (eu falei de cockteasers em Vestida para Matar). Os homens mais misóginos acreditam que todas as mulheres são cockteasers. É por isso que andamos de minissaia, pra provocar (tease) os pênis (cock).
O anúncio também reforça a suspeita cada vez mais comprovada que comer carne é algo viril, másculo. Sabe como é: mulheres comem salada, homens comem churrasco. E não é mera coincidência que a palavra vaca se refira tanto ao animal quanto à mulher, ou que, sexualmente falando, homem come, mulher é comida. Tem um artigo interessante, em inglês, chamado "Vegetarianismo como Feminismo: Carne como Símbolo da Dominação Masculina". A vegetariana e feminista Carol J. Adams já escreveu dois livros sobre o assunto (tô louca pra ler): A Pornografia da Carne e A Política Sexual da Carne. Ela inventou o termo antropornografia, que é mostrar animais como prostitutas, pedindo para serem comidos.
Pois é, certas nacionalidades parecem não ter saído ainda da fase oral. Ah, vi aqui essa frase perspicaz atribuída ao Dráuzio Varella (mas que já foi negada por ele) que tem a ver com o post: “Atualmente investem-se cinco vezes mais em silicone para mulher e em Viagra para homem do que em remédios para a cura do mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos teremos velhinhas de seios firmes e velhinhos de pênis duros, mas eles não se lembrarão para que servem”.
Rosopadeletrinhas, fantasia do Batman, e Patrick Wilson de penteado esquizo.Mais ponto
s que eu aprovei em Watchmen (primeira parte aqui).- Adorei a tomada da placa do cemitério que enquadra, ao fundo, as Torres Gêmeas. Depois o “herói” é enterrado com a bandeira americana e vemos as Torres novamente, e no final também. Elas não caem. Nova York é destruída, mas elas não (sem falar que o discurso no final é praticamente idêntico ao do Bush em 11 de setembro).- Gostei da sala de guerra com o Kissinger lembrando o Dr. Fantástico (do Kubrick, não do Quarteto Fantástico), e alguém explicando que, se a União Soviética for destruída, a poeira atômica atingirá o México. E um general diz “Isso não é tão ruim”. O Dia Depois de Amanhã pra eles, tá?!
- A trilha sonora inteira é excepcional. - Jackie Earle Haley (o pedófilo de Pecados Íntimos - é uma metalinguagem irônica vê-lo aqui perseguindo pedófilos) está muito bem como aquele personagem que levo dez minutos pra escrever. Sua voz, principalmente.
- Este é o segundo melhor filme do Zack Snyder (foto)
. Gosto demais da refilmagem de Madrugada dos Mortos, e de menos de 300. Watchmen fica na coluna do meio. - E é a segunda melhor adaptação de uma história do Alan Moore. Pra mim, é 300 vezes melhor que A Liga Extraordinária, e bastante superior a Do Inferno. Só perde pra V de Vingança.- Estou viajando, ou o que acontece com o Dr. Manhattan não é parecido com
aquilo do personagem do Bruce Willis em Pulp Fiction? Um carinha se sacrifica para resgatar um relógio, que significa muito pra ele. Em troca do sofrimento, ele se torna um homem mais durão e completo. Não? Nada a ver? E mais do que não gostei:- O filme é episódico, porque fala um pouco do
passado de cada personagem. Alguns funcionam melhor que outros, lógico. Por exemplo, quando a Terra tá pra ser devastada por uma hecatombe nuclear, eu não dou a mínima que um personagem descubra quem é seu verdadeiro pai. Simplesmente não é importante. Morra. - Matthew Goode qu
e faz o Ozy ou algo assim, sei lá, o riquinho, tá muito mal e não inspira medo algum. Mas nem o reconheci! Ele é o melhor amigo do protagonista em Ponto Final, que eu amo.- Porém, qualquer filme que mostra o Lee Iacocca (o Bill Gates dos anos 80) levando um tiro no meio da testa tem a minha simpatia. “Grátis é sinônimo de socialismo”, diz Lee no
filme, antes de conhecer seu trágico fim. - Transformei a tirada que li de um crítico americano em piada. Ei-la: Por que o Homem-Coruja guarda sua fantasia de super-herói num depósito? Resposta: pra não ser processado por plágio pelo Bruce Wayne. Boa, hein?
Estive pensando em outras coisinhas interessantes sobre seios. Já imaginou como seria o mundo se não
tivessem inventado que o sutiã é uma vestimenta obrigatória pra mulher ocidental? Já parou pra refletir por que o sutiã é tão “necessário”? Primeiro que ele é necessário principalmente pra impedir movimento. Nossos seios se mexem quando a gente se mexe, já que fazem parte da gente. Logo, se corremos ou dançamos ou andamos, os seios pulam. Eles também pul
am apesar do sutiã que os prende “no seu devido lugar”, mas menos. Logo, sutiã é pra restringir. E também é pra modelar, pra fazer com que os seios fiquem de um jeito que seja atraente para os homens - ou seja, durinhos, retinhos, na “altura certa”. Antes os corsetes se encarregavam disso, mas eles sumiram. Foram prontamente substituídos por outra peça com o mesmo objetivo. Se este não fosse um planeta dos homens em que a principal função feminina é servir de enfeite, será que o sutiã existiria?Pra começo de conversa, não é verdade que as feministas queimaram sutiãs no final dos anos 60. Isso foi uma invenção da mídia. Algumas feministas americanas realizaram uma perfo
rmance, pegaram uma grande lata de lixo e lá jogaram diversos objetos, como espartilhos e maquiagem. Mas ninguém queimou nada. Alguém confundiu esse protesto com o que os jovens pacifistas faziam, de queimar suas carteiras de identidade para não serem convocados para a Guerra do Vietnã. Daí escreveram que feministas queimaram sutiãs, e sabe o que acontece quando uma mentira é repetida mil vezes? Vira verdade.Mas, pra mim, pessoalmente, faz todo sentido querer queimar sutiã. Eu odeio sutiã. Acho extremamente incômodo. Ele marca a minha pele, machuca. É péssimo quando pr
eciso usar sutiã o dia inteiro. Tirá-lo é um grande alívio, como tirar sapatos apertados. Quanto maior a obsessão por seios numa sociedade, maior a necessidade do sutiã. Seios são uma obsessão lá nos States. Americano é tarado por peito, como brasileiro é por bunda. Tá, todo mundo sabe disso. O que talvez a gente não lembre com frequência é que há uma correlação entre fetiche por seios como órgãos sexuais e proibição de seios à mostra. Fazer topless dá cadeia na maior
ia dos estados americanos. Ora, se seios são vistos apenas como coisas que excitam os homens, então não vai haver topless nas praias americanas ou amamentação em público. Porque os seios passam a ter uma única função, que é excitar. Mas você deve ter notado que os homens também têm peitos, com mamilos e tudo! E eles são zonas erógenas, têm os mesmos nervos que os nossos mamilos, ficam duros com o frio ou com o desejo... Só que não há nenhuma restrição em relação aos homens andarem de
scamisados. Pra eles tudo bem, já que eles não são objetos sexuais. Tanto que homens feministas se deram conta do seu privilégio masculino de poder tirar a camisa quando tá muito quente (algo proibido pras mulheres), e se recusam a fazer isso, em solidariedade.Existe um movimento chamado Topfreedom, que prega o direito das mulheres ficarem sem camisa, sutiã, nada, na praia, em parques, no jardim, na garagem, enquanto lavam o carro... É um princípio de igualdade que eu considero totalmente justo. Afinal, por que uma parte de nossos corpos é considerada vergonhosa pra ser exposta em público, se a mesma parte dos homens não é se
xualizada? Isso não restinge a nossa liberdade?Ah, dirão alguns (aqueles mesmos que, quando ouvem sobre o mais recente caso de estupro, perguntam: “O que ela estava vestindo?”), mas se as mulheres andassem por aí com os seios descobertos, seriam atacadas o tempo todo. Putz, é mesmo. Igualzinho às mulheres de Camarões. Quando as meninas deste e de outros países africanos atingem a puber
dade, precisam colocar pedras quentes nos peitos para impedir que eles cresçam. Por quê? Porque com o aparecimento dos seios as meninas correm o enorme risco de serem estupradas (e olha que elas andam com os seios cobertos). Só euzinha que vejo algo de muito errado nessa equação? Que os homens passem pedras quentes em si próprios, saco! Que aprendam a se controlar! Faz algum sentido as mulheres terem que se mutilar/esconder/tapar porque muitos homens, tadin
hos, agem como animais irracionais? Eu, que sou mulher, aquele ser irracional que tem TPM, consigo ver um homem de short ou sem camisa e não pensar em sexo. E, ainda que eu pensasse em sexo, eu conseguiria me controlar e não atacar o cara. Às vezes vejo o maridão fazendo xixi no banheiro, e embora eu adore o corpo dele, aquela não é uma situação sexual. Porque sei que o pênis tem outras funções, além da sexual. Todos os órgãos do nosso corpo têm mais de uma função.
Sabe o único que não tem? O clítoris. Esse só serve pra dar prazer mesmo. E fica escondido.Puxa, mas pra gente queimar sutiã e andar sem camisa, os homens teriam que parar de nos ver como objetos sexuais o tempo todo. É, não funcionaria. Seria radical demais. O que eu tava pensando?! Que os homens seriam capazes de parar de nos enxergar como pedaços de carne num açougue! Imagina, que besteira! Mas essa sim seria uma revolução.
UPDATE: Pois é, qu
eridas. Só queria esclarecer que estou provocando um pouquinho aqui. Eu sou muito peituda e, apesar de ficar sem sutiã em casa, nem sonharia sair daqui sem usá-lo. Eu não atendo nem a porta de casa sem usar sutiã. Porque vivo numa sociedade que impõe esse uso. Não é uma escolha, não. Eu não conseguiria emprego se não usasse sutiã. Acho que nem faria amizades se não usasse sutiã. As pessoas apontariam pra mim na rua, e quem quer isso? Minha intenção com o post foi pensar um pouco sobre por que o sutiã se tornou essa peça tão obrigatória. Interessa a quem que os nossos peitos fiquem sempre na altura e ângulo certos? Sutiãs não foram criados por mulheres, mas por homens! A gente está tão condicionada a este uso obrigatório que aprendeu que sutiã é BOM pra gente. Que é confortável. Que foi feito pro nosso bem. Mas há estudos mostrando que o uso de sutiã por mais de 12 horas por dia (dormir com su
tiã, portanto, nem pensar) está ligado ao câncer de mama. O sutiã aperta, restringe os vasos sanguíneos. E não há nenhuma prova que usar sutiã previne que os seios caiam com a idade. Pelo contrário, o sutiã acelera esse processo, porque vicia o nosso corpo (é como quem começa a usar óculos pra corrigir uma miopia mínima, e de repente não pode viver sem óculos, e a miopia aumenta).
Outra coisa que acho instigante é essa do privilégio masculino de poder tirar a camisa, que ninguém vai erotizar os mamilos dos homens. Num mundo sem o domínio masculino, a erotização não valeria pros dois sexos?
Outra intenção é questionar o padrão de beleza único que determina que seios “normais” são assim e assado, e que beleza é apenas juventude. Ou seja, tem bastante food for thought aqui, na minha modesta opinião.
UPDATE 2: A Deborah escreveu um post com esta mesma temática dois meses e meio antes de mim. Vale a pena lê-lo.
Lolinha se apresentando pra missão do título acima.Antes
do filme começar, fiquei jogando conversa fora com o maridão, que confessou não saber nada de Watchmen, a história em quadrinhos, perdão, a graphic novel de Alan Moore, que é considerada literatura do mais alto nível. Eu disse que só conhecia o básico, aquele slogan de “Quem vigia os Vigilantes?”. E o maridão, surpreso, perguntou: “Ah, então Watchmen é Vigilantes? É esse watch de vigiar?”. Eu: “Sim, por que? Você pensou que fosse watch de relógio?”. Frente à resposta afirmativa, eu me senti uma expert no assunto, comparativamente falando, porque estava indo ver Watchmen já sabendo não se tratar dos destemidos Homens-Relógio. Mas, durante o filme, toda vez que alguém falava de tempo ou relógio eu apertava a mão do maridão e me perguntava se ele não
tinha razão. Nah - eu é que estava certa, pra variar. Ele odiou tanto a aventura que a comparou a Os Vingadores (aquela tragédia com o Sean Connery comandando uma legião de ursinhos carinhosos). Eu até que gostei bastante. Tudo bem, Watchmen podia e devia ser mais curto. Talvez devessem lançar um filme com quinze horas pros fãs da graphic novel, e um com duas pra quem só quer ver o troço no
cinema, sem precisar se filiar a um clube pra isso. Do jeito que ficou, tem exposição de mais pra quem não é iniciado, o que mesmo assim deixa os personagens no ar (não literalmente falando). E há também excesso de supers. O início, ainda nos créditos, com aquelas poses, é bem estranho. E demora um tantão pro filme começar, eu acho. Mas tá cheio de coisas legais. Gostei do un
iverso paralelo criado. Não estamos em 2009, nem tampouco nos anos 80. Estamos numa década de 80 em que o Nixon, o presidente mais corrupto que os EUA tiveram, o único que teve que renunciar, está no poder há cinco mandatos, porque “é melhor que os comunistas”. Os soviéticos existem, e a ameaça nuclear paira sobre a Terra. E há vários super-heróis aposentados. Enfim, um mundo em que os EUA ganharam a Guerra do Vietnã. Mas a que a que custo? Precisaram mandar um mega super duper herói pra lá, porque os soldadinhos americanos não dariam conta. E o preço da eterna vigilância é o Nixon manda
r pra sempre. O maridão sentiu falta de um super-vilão (fora o Nixon). E precisa? Você tem um super, o Comediante, que mata manifestantes pacifistas, mulheres grávidas, e parece sentir um prazer todo perverso por espancar (e estuprar) mulheres. Você tem outro, o Rorschach (levo dez minutos pra escrever o nome dele), que é um verdadeiro vigilante, do tipo que odeia liberais porque não acredita no princípio de “todo mundo é inocente até ser julgado culpado
”. E ainda tem um outro, um gigante azul que brilha no escuro, que é uma máquina mortífera de guerra, explodindo malditos vietcongues com um gesto. Esse, mais conhecido como Dr. Manhattan, anda nu em várias cenas. Apesar disso, achei muito difícil olhar pra ele. Tenho aflição com gente sem pupilas. Não entendi bem o que o Batman tá fazendo no filme. Hã? Como assim? Não é o Batman? Mas é o uniforme dele! Tá, é o Corujão, não sei o nome real. Só sei que ele é
interpretado pelo Patrick Wilson e que eu gosto muito que o Patrick mostre seu belo bumbum em tudo quanto é filme (aqui, em Pecados Íntimos, em O Vizinho, esqueci se em Menina Má.com também?) e que eu acho o Patrick lindo mesmo com penteado de nerd. Ele acaba fazendo par com a Espectra, que ganhou o meu prestigiado prêmio de Fantasia Mais Horrenda Já Vista num Filme de Super-Herói. E a Espectrinha não tem uma vida sexual fácil, coitada. Quando um dos supers vai transar com ela, ele broxa e não consegue. O fetichista só consegue depois de se vestir de super, e aí a trilha sonora
toca “Aleluia”. Olha, não tem como isso não ser propositalmente sarcástico. Eu gostei. Mas até a broxada é melhor que uma cena de sexo que vem antes, em que o Dr. Manhattan se desdobra em três homens grandões azuis para satisfazer Espectra. O problema é que ele continua consertando sua maquininha ao invés de estar presente no ato, mas jura estar prestando atenção (Homens azuis! Humpf! São todos iguais!). Espectra fica cheateada, compreensivelmente. Ela compara sexo com o doutor com “chupar uma pilha”.
Tá, mas esses são os "good guys”, ok? Há um diálogo intrigante, em que um super pergunta, abalado, “O que aconteceu com o sonho americano?”, e o Comediante, um demente, responde: “Este é o sonho americano”. E é mesmo. É o sonho da super potência com poderes absolutos, sem ninguém para pará-la. O Comediante também tenta estuprar uma super-heroína, numa cena forte. Não achei a cena machista, mas vi machismo no fato da mulher
se interessar pelo agressor anos depois. E não sei, não dá pra confundir as coisas. O personagem do Comediante é absolutamente misógino e repelente, mas o filme não o glorifica. Watchmen é só um pouco machista, a meu ver, porque os heróis homens podem envelhecer e continuar combatendo, enquanto as mulheres ou viram alcóolatras, e são substituídas pelas filhas, ou morrem. Os “vilões”, que não são páreo pros heróis, são asiáticos, negros, gordos e
anões. E os heróis são todos brancos (quer dizer, tirando aquele que é azul). Ainda que alguns de nossos heróis não sejam modelos de comportamento, pelo menos eles são super. Porque não vem dizer pra mim que eles não têm super poderes. Sinto muito, qualquer pessoa desarmada que luta contra vinte carinhas de uma vez e consegue quebrar ossos e neutralizá-los, no meu livrinho é um super-herói. Entendo a ideologia por trás disso de dizer que o super não tem super poderes: é pro garoto na aca
demia de musculação treinar até não poder mais, pra pensar que ele também, com seu esforço, poderá enfrentar sozinho um batalhão. É a ética protestante de que o trabalho enobrece o homem. Eu não caio. O maridão se redimiu um tiquinho ao sair do cinema e avisar que o herói de nome que levo dez minutos pra escrever tem essa alcunha por causa do teste de (dez mi
nutos depois...) Rorschach. Há uma longa cena de flashback usando esses borrões. Mas por que a máscara com borrões do herói fica mudando de manchinhas? Posso chamá-la de Mancha Negra? No meu livrinho essa é uma máscara super poderosa. Escrevo mais uns pontinhos sobre Watchmen neste post, porque isso daqui já tá mais interminável que o próprio filme.
Hamlet, o fabuloso (1992-2007). Clique nas fotos para ampliá-las e ver melhor meu cutie-cutie.
Falando um pouquinho mais sobre algo associado ao freeganismo, lembro de um restaurante de comida por quilo em Joinville a que
eu e o maridão íamos quase toda sexta. Excelente comida mesmo, e bem em conta. Criamos uma certa amizade com a cozinheira, uma simpatia. Uma vez perguntei o que eles faziam com a comida que não era consumida. E ela respondeu que ela e as demais funcionárias a levavam pra casa. Até que o patrão proibiu, e ordenou que tudo que sobrasse fosse pro lixo. O medo dele era que as funcionárias passassem a fazer mais comida só pra que sobrasse mais pra levar. Ridículo, né? E não pense que eles faziam uma super liq
uidação nos últimos 15 minutos antes de fechar. Ia pro lixo mesmo.E rodízio? Você já foi a rodízio de carne que proíbe que você leve os seus restos pra casa? Eu já, e odeio. Pô, se eu não como todo o pedação de carne que o garçom me dá, e separo um pedacinho pra levar pra casa, é meu e ninguém tasca. Por que isso iria pro lixo? Mas esses restaurantes juram que as pessoas fazem isso de propósito. Eu não levo carne pra casa pra eu mesma reaproveitá-la. Sei lá, ela não fica boa. Mas eu levava pro meu cachorri
nho e pra todos os cães amigos da região. No dia seguinte, quando passeava com o Hamlet, levava uma sacola cheia de carne (já cortada) e ossos, e dava um pouco pra cada cão amigo. Quando tinha um cão de rua eu dava mais. Os cachorrinhos ficavam tão felizes... Era uma festa. Na realidade, como meu amado cão não foi acostumado a comer ração quando era filhote, a gente comprava carne moída e frango e fazia pra ele. Não todo dia; a gente preparava a comida pra u
ma semana, e a guardava em potinhos. Mas quando abriu uma churrascaria mais ou menos perto de casa, o maridão passava lá a cada duas semanas e pedia restos. Vinha uma sacolona de carne e ossos. Claro, o que a gente economizava em dinheiro a gente perdia em tempo. Era um tempão gasto pra separar o joio do trigo, cortar tudo em pedacinhos minúsculos, misturar tipos de carne diferente, colocar em potinhos. A gente sempre separava partes pros cachorros amigos também. Sei que os veterinários não recomendam isso, mas sei lá, o
Hamlet viveu quase 16 anos. E, convenhamos, nos últimos três ou quatro a gente não se preocupava mais com “Será que isso pode fazer mal?”. Se ele quisesse se empaturrar de gordura, por exemplo, ou comer um osso perigoso, àquela altura da vida, tava tudo liberado. Fico fazendo os cálculos pra ver com quantos anos eu vou poder me comportar assim.