quinta-feira, 30 de novembro de 2006

CRÍTICA: PECADOS ÍNTIMOS / No íntimo todo mundo é igual

Faz quase um mês que vi “Pecados Íntimos” em São José, e só agora chegou a Joinville. Até iria ver o ótimo drama de novo, mas começo a suar frio só de pensar no estado da cópia (“Ponto Final” e “Vôo United 93” vêm à mente, cheios de cortes e com os rolos trocados!). Bom, “Pecados” foi um dos filmes importantes de 2006 preteridos pelo Oscar, assim como “Filhos da Esperança”, “Volver” e “O Grande Truque”: praticamente todos entraram nas listas dos melhores do ano, até receberam uma ou outra indicação, mas acabaram saindo de mãos abanando. Sinal de que houve uma boa safra, como há muito não se via.

“Pecados” é um desses raros filmes adultos, o antídoto de “Norbit”. Mais do que moralista, o drama aponta pra uma vida que é um inferno (como se a gente não sacasse isso vendo o trailer de “Norbit”). Eu me senti melhor vendo “Pecados”, porque constatei que os problemas de todo mundo são bem maiores que os meus. Ou talvez o que o drama represente seja igualzinho ao que acontece em outros subúrbios mais pobres. “Pecados” aponta o preconceito e o tédio vividos pelas famílias americanas de classe média alta. O adultério surge como algo inevitável (pesquisas afirmam que um em cada dois brasileiros já traiu a mulher, e como disse um amigo, o outro é um mentiroso). Essa é uma das historinhas: a personagem da Kate Winslet, que fez doutorado em literatura inglesa (parece familiar?), vive uma enfadonha rotina de dona de casa sem intimidade com o marido e sem carinho pra sua filhinha. Ela se envolve com o bonitão paradão Patrick Wilson (convincente também em “Meninamá.com”), cuja esposa, Jennifer Connelly (de “Diamante de Sangue”), é uma profissional de sucesso que não liga pra sexo. Pra completar, há um pedófilo no pedaço (Jackie Earle Haley, indicado ao Oscar de coadjuvante). Todo o elenco tá perfeito (gostei bastante do Noah Emmerich, que faz o melhor amigo do Jim Carrey em “Truman Show”) e, se houvesse uma estatueta pra melhor elenco, o deste filme concorreria com o de “Pequena Miss Sunshine” e o de “Infiltrados”.

O título original, “Little Children”, ou “Crianças Pequenas”, pra mim se refere aos homens, todos umas criancinhas que se recusam a crescer. O pedófilo vive com e para a mãe, o bonitão sonha em voltar à adolescência, seu amigo também, e o marido da Kate, idem. Não que a personagem da Kate seja muito madura emocionalmente, mas é diferente. Não é uma imaturidade do tipo “eu quero! Eu quero! Agora!”, é mais de acreditar em amor romântico. Eu fiquei com pena de todo mundo.

A adaptação é a mais literal possível. O diretor Todd Field, de “Entre Quatro Paredes”, pegou o romance de Tom Perrotta (que escreveu “Eleição”. Não li nada dele, mas o cara só pode ser bom), e incluiu até uma voz em off bem esquisita. Acho que o que me incomodou foi que fosse voz de homem. Ou talvez que fosse meio épica: uma voz de épico narrando coisas tão banais. Mas seria difícil deixar a voz de fora. Ao menos não é a voz em off tradicional, acompanhando apenas um personagem (o protagonista, em geral), mas todos. É uma voz onipresente, como a de “Dogville”. Ah, outra coisa que remete à “Dogville” são as estátuas, os brinquedinhos decorativos de gesso. Mas “Pecados” lembra mais “Beleza Americana” e, óbvio, “Felicidade”, que tem o melhor retrato de um pedófilo visto nas telas. Quando apareceu a Jane Adams num papel parecidíssimo ao dela em “Felicidade”, não tive mais dúvidas da inspiração de “Pecados”. É “Felicidade” com menos humor.

Aliás, a trama que fala do pedófilo é complicada. Lógico que a comunidade se foca no carinha pra não ter que lidar com seus próprios fantasmas interiores. Ou seja, pra gente é fácil condenar os suburbanos que tiram seus filhos da piscina pública assim que o sujeito entra (essa cena, além de “Tubarão”, também me lembrou de algum filme com a Halle Berry, em que ela entra numa piscina de um hotel luxuoso e todos os hóspedes saem, por ela ser negra. E só voltam a entrar na piscina depois de trocada a água!). Mas e se eu tivesse filhos, qual seria minha reação? Se há um molestador de crianças à solta na vizinhança, eu não gostaria de tê-lo por perto. Mesmo que eu esteja vigiando e dê pra ver que ele não está fazendo nada de errado na piscina, vai que ele se excita em ver crianças em trajes de banho. Eu odiaria que um molestador se excitasse pensando nos meus filhos. Assim como é irritante pra gente, que é mulher, receber telefonema de um tarado arfando do outro lado da linha e perguntando “O que você está vestindo?”. Se você é homem, só passou por isso na condição de predador. Por outro lado, o pedófilo já foi condenado e solto e tem todo o direito de circular por onde quiser. E ele não molestou nenhuma criança (ainda?), só gosta de se exibir pra elas. Mas seria conveniente se ele evitasse lugares cheios de guris, não?

“Pecados” tem seus pecadilhos, como o personagem do marido da Kate, um cara sem qualidades redentoras. Parece que tiraram algo da história. Mas é um drama pra lá de inteligente, que faz pensar. Só dói ouvir a Kate Winslet reclamar por não ser bonita. Vai te catar, diretor!

3 comentários:

Liana disse...

Comecei a ver o filme por acaso, sem muito interesse, gostei e vi até o final. Normalmente eu dispenso voz em off, este caso não foi diferente. Sobre o pedófilo, se exibir para uma criança também é abuso. Alguns nem isso fazem, fica naquele assédio velado, com olhares e meias palavras, que é o mais comum, diga-se de passagem. Tudo isso traumatiza. A "justiça" pode até ter punido, mas perto da minha filha não deixo essa gente chegar perto, não. Qualquer criminoso que se enquadre na categoria de sociopatas, maníacos e coisas do tipo não pode ter o relaxamento da sociedade a seu favor, muito menos quando envolve pessoas vulneráveis. É justamente assim que eles encontram vítimas na maioria das vezes. Quem é que vai querer dividir tranquilamente espaço com um assassino em série, por ex, sob argumento de que ele já pagou com a dívida dele para com a sociedade? Não, obrigada. Tem certas coisas que são graves demais para deixarmos pra lá. Também achei interessante a forma que isso foi retratado neste filme.

aiaiai disse...

vi esse filme ontem porque por acaso tava passando na tv na hora que liguei...Só não gostei mais porque tinha muito intervalo (um saco a warnerchannel).
Mas, vim aqui só pra dizer que concordei com tudo o q vc escreveu neste post. Acrescento apenas o meu sentimento em relação às crianças: tanto o menino como a menina parecem muito tristes, incompreendidos e mal amados. Embora os pais façam tudo por eles, eles tem um olhar sempre triste. A única pessoa q me pareceu feliz no filme foi a senhora q é amiga da Sara (Katie) e tem um grupo de leitura. Mas, mesmo ela aparece perturbada no final, depois de passar uma noite tomando conta da filha da Sara.

Anônimo disse...

O pedofilo é o único personagem que ama verdadeiramente no subúrbio e que está disposto a fazer sacrifícios com verdade e amor. Todos os outros personagens são hipócritas e não vivem sua verdade.