quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: DO INFERNO / Enquanto isso, em Londres...

“Do Inferno” bem que poderia ser o título provisório da minha auto-biografia não autorizada, neste momento em que me encontro soterrada por dezenas de emails de fãs irados de “O Senhor dos Anéis”. Mas não é. É um filme que vi – o segundo este ano, no cinema, e infinitamente melhor que o primeiro, aquele lá, dos elfos –, e que, por coincidência, também é baseado numa obra literária que não li. História em quadrinho é literatura? Não responda, leitor afoito. Esta é uma pergunta retórica.

Ok, breve resumo da trama, juro. Digo “breve” porque tá cheio de crítica por aí que narra a história inteira pra se esquivar de dar uma opinião, o que cheira à covardia. Então, Londres, 1888. Era vitoriana. Revolução industrial. Miséria absoluta. As mulheres têm duas opções: ou trabalham nas fábricas ou viram prostitutas. No meio dessa desgraça toda, surge um serial killer que mata várias moças de vida fácil (?) das formas mais cruéis possíveis. Seu nome entraria nos anais: Jack, o Estripador. Até hoje não se sabe quem foi esta figura. Uns acham que era um médico americano, ou um membro da maçonaria, ou o próprio príncipe, herdeiro da severa rainha.

Como diria Jack, vamos por partes. “Do Inferno” transforma um investigador da polícia em seu personagem central, interpretado por Johnny Depp. O policial é viciado em ópio, sofre visões mil durante suas viagens, e tem seu lado dark realçado – ou seja, características que o Johnny tira de letra. Sua atuação até remete ao detetive de “A Lenda do Cavalheiro Sem Cabeça”, só que na versão “com cérebro”. Uma das prostitutas é vivida por Heather Graham, a patinadora pornô de “Boogie Nights”. Ela e o investigador se apaixonam, o que não convence nem um pouquinho. Talvez o problema nem seja a Heather, mas seu papel. Só sei que, enquanto suas outras colegas de programa têm dentes podres, unhas sujas e cabelos despenteados, surge a Heather como glamour queen. E sempre naquele velho clichê de prostituta com coração de ouro. Tem também o Ian Holm, que faz um médico de confiança da família real. Ian é o advogado de “O Doce Amanhã” (se não viu, faça o favor, né, veja), e ele é tão bom ator que não é difícil explicar porque suas cenas com o Johnny são as melhores de “Do Inferno”.

O filme é interessante. Tem quem se queixe que ele mutila a história, mas, cá entre nós, neste caso o clima importa mais que o enredo. O suspense é estilo puro, com uma brilhante reconstituição de época. Muita fumaça, neblina, poluição, torres, becos escuros e imundos, preconceitos... A Londres do final do século retrasado realmente parece um inferno. A cidade é a verdadeira protagonista da trama. Junto com “O Homem Elefante”, “Do Inferno” nos oferece vários motivos pra não querer viver no passado. Aliás, Jonh Merrick, uma pessoa tão deformada que se assemelha a um elefante, aparece rapidamente. Só pra nos informar dos horrores da Inglaterra vitoriana e de como os médicos eram uns açougueiros, imagino. Se a gente reclama da medicina de hoje, tem que dar graças aos céus em comparação com a de antigamente. Vai saber, talvez o pessoal daqui a um século também olhe com indignação as práticas medicinais de agora.

Felizmente, o filme nos poupa das atrocidades cometidas por Jack. Tudo acontece longe das câmeras, fica só na sugestão. O único deslize é uma garganta cortada, quando o sangue praticamente esguicha no espectador. Mas a cena mais chocante mesmo não tem nada a ver com assassinatos. É uma que mostra as prostitutas acordando. Elas e mais um monte de indigentes dormem sentadas, amarradas a um banco com uma corda, pra não caírem. Isso revela a situação de total abandono da época. Parece que este procedimento ainda é adotado na São Paulo do século XXI, mas este é um outro papo.

Logo, se você quiser ser transportado a um mundo onde só os ricos tinham acesso a uvas e onde ninguém dava a mínima pela morte de prostitutas, “Do Inferno” é a sua praia. Certamente, as coisas mudaram muito de lá pra cá... em Londres, claro.

3 comentários:

marcus disse...

Estou lendo isso em 2013, devido a uma aula da faculdade Lola.
Suas palavras fizeram meus cabelos ficarem em pé! Agora vou de encontra a essa era Vitoriana, abraços!

Renan Mendes disse...

Não entendi pq Johnny morre no final

Anônimo disse...

Nem eu, Renan mendes. Não se sabe se ele morreu ou bebeu alguma coisa pra se fingir de morto pra ele poder ficar com a quele mulher .