quinta-feira, 22 de abril de 2010

O AMOR É LINDO

Eu disse que iria escrever sobre a última capa da Veja, mas, na realidade, nem sei o que escrever. O Pablo já disse tudo que eu queria dizer ao comparar a meiguice do Serra com a carranca da Dilma (que foi capa da Veja em fevereiro). A principal diferença é que Serra olha diretamente pra frente, pro (e)leitor, enquanto Dilma olha pro lado, o que casa com o que a direita quer associar à candidata do PT (que ela é dissimulada, mentirosa). E, lógico, outra diferença é o que vem escrito em cada capa. A do Serra poderia servir de material de campanha: “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”. Quanto ao “Brasil pós- Lula”, se a capa em questão não fosse da Veja, que faz campanha sistemática contra o PT e outros movimentos sociais, como CUT e MST (ou alguém nega isso?), eu quase leria correndo, sem pensar: “Serra e o Brasil pôs Lula”.
Já não é mais segredo que a capa foi copiada de uma capa da Time com o Obama. Sei que leitor de Veja deve achar que sua revista de estimação é muito criativa, mas lamento informá-lo: a Veja plagia revistas semanais americanas como Time e Newsweek a toda hora. Deu na Time? Pode apostar que mês que vem sai na Veja como “tendência”.
Mas, né? O Obama é simpático e, às vezes, dependendo do ângulo, bonitão. Já o Serra... A Agência Estado garante que Serra já fez duas plásticas, uma para retirar bolsas de gordura embaixo dos olhos, e outra: “a mais recente foi feita para a eleição deste ano: uma alteração do contorno das gengivas, para deixar os dentes maiores e o sorriso mais atraente. Para finalizar, fez um clareamento nos dentes”. A Veja captou bem esse esforço.
Sim, porque pra algumas pessoas, e Serra certamente está entre elas, sorrir exige esforço. Por isso soa tão ridícula a tentativa da Veja de lançar um Serrinha Paz e Amor. O candidato do PSDB não tem exatamente uma reputação de um cara afável e simpático. Pelo contrário. E essa reputação não é apenas pessoal. É política também. (Dilma tampouco é simpática ou sorridente, e também tem fama de mandona. E, como ela é mulher — e espera-se que mulheres sejam cordeirinhos amestrados de tão gentis — essas características são criticadas em dobro).
Teve gente, como a Tina, que captou rapidinho o ridículo da situação e fez uma crítica bem-humorada à tentativa da Veja de mudar a imagem do Serra. Tina posou imitando o Serra, com sorrisinho meigo e mão na carinha. E, pelo jeito, isso virou febre, porque um montão de gente fez igual. O resultado é hilário. Pena que, no meio da bagunça da reforma aqui de casa, eu nem sei aonde está a câmera do maridão. Senão eu também mostraria as minhas gengivas.
Só que aí fiquei sabendo que eleitores tucanos se apropriaram da brincadeira e posaram meiguinhos também. Vai ver que eles veem o candidato deles como um poço de ternura...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TUDO PARANOIA PETISTA

Permita-me ficar um pouco passada com a ignorância alheia. Ainda sobre a comemoração da Globo dos 45 anos, que a emissora tirou do ar porque não quis ser acusada de tendenciosa (atenção: ninguém proibiu, ninguém censurou. Liberdade de expressão é também poder criticar a Globo), dói ouvir asneiras como “Ah, mas assim eu não vou poder comemorar meus 45 anos”. Não é tão difícil de entender: há uma pequena diferença entre uma celebração na sua casa, ou mesmo num mega salão de festas pra 50 mil pessoas, e uma campanha institucional veiculada diariamente na maior emissora do país. Imagine se a Globo, em pleno ano eleitoral, colocasse o número 13 no ar o tempo todo. Sério mesmo que a oposição não ia chiar (como, aliás, chiou e continua chiando com o "filme do Lula em ano eleitoral", apesar do Lula não ser candidato a nada e do filme não mencionar uma só vez o PT)?
Mas não é só o número. O 45 é só a cereja do sundae. É a mensagem, parecida com o slogan “O Brasil pode mais” do Serra. Junte isso ao número e ao histórico global de sempre apoiar qualquer candidato que concorresse contra o PT, e não resta muita margem pra dúvida (repetindo, há três fatores: a mensagem do mais mais mais, o número 45, e, pra mim, o layout do número). Tanto que a Globo tirou do ar.
Ontem a Lauren lembrou que os anos redondos são mais celebrados que os que terminam em cinco (com exceção dos 25, um quarto de século e tal). Eu fui tentar encontrar no Youtube o vídeo dos 35 anos da Globo (feito em 2000, ano não-eleitoral) e fiquei surpresa ao ver que o 35 é mencionado apenas uma vez. A comemoração é toda em cima do “TV Anos 50”. Há um vídeo relativo à comemoração no Nordeste, essa sim voltada para os 35 anos. Mas uma coisa é uma vinheta regional; outra, completamente distinta, é nacional.
E designers, só eu que fiquei espantada com a mórbida semelhança entre o logotipo dos 45 anos e o 45 do PSDB? Azul, com letra em itálico. Vamos só comparar os logos pra talvez ver que não, é paranoia minha e a Globo sempre adotou o mesmo logo.Em 1990, Globo 25 anos (número do atual DEM, que não existia na época).Em 1995, Globo 30 anos.Em 2000, Globo 35 anos (que não dá o menor destaque ao 35. A comemoração é em cima dos 50).Em 2005, Globo 40 anos.E agora, em 2010, Globo 45 anos. Olhando só pro design do número, qual é mais parecido com o logo do PSDB? Qual tem a mesma curvatura do número?
Acho que não preciso nem desenhar.

terça-feira, 20 de abril de 2010

A NOSSA MÍDIA É TÃO IMPARCIAL

Eu nem deveria me espantar: a Globo sempre pode mais.

Impressionante isso. Eu vi no Nassif e não pude acreditar. A campanha da Globo para comemorar o aniversário deste ano traz artistas dizendo mais, mais, mais. “Emoção? Mais! Mais informação? A gente é capaz! Brasil, muito mais! É por você que a gente faz sempre mais”. Etc etc (veja com seus próprios olhos aqui). Sei lá, não lembra nem um tiquinho o slogan do Serra pra sua campanha presidencial, aquele meio chupado do Obama — “O Brasil pode mais”? Mas aí vem a chave de ouro. Sabe quantos anos a Globo completa este ano?Sabe qual o número do PSDB? O mesmo! O logotipo também tá mais pra Gêmeos, Mórbida Semelhança: Mas deve ser coincidência... Imagina, a Globo não faria campanha pra um candidato assim, na cara dura! Quer dizer, a emissora até deu uma forcinha pro Collor em 1989, e pro FHC em 94 e 98, e pro Serra em 2002, e pro Alckmin em 2006. Mas isso não quer dizer nada! Tenho certeza que, se a Vênus Platinada estivesse comemorando treze anos, faria uma enorme campanha (bem num ano eleitoral) com seus artistas celebrando esse número da sorte. E ainda colocaria seu 13 em vermelho, com direito à estrelinha.

P.S.: Faltou a Regina Duarte no comercial da Globo! Ela está de férias? Pelo menos a velha collorida Claudia Raia compareceu.
P.S.2: Opa! D
epois da repercussão, a Globo decidiu cancelar o comercial de sua campanha. Não quer ser acusada de tendenciosa. Ah, quem iria acusar um órgão da mídia com um histórico tão lindo de serviços prestados ao país? Quem? Só gente sem amor no coração! E por falar em amor no coração, amanhã falo da doce capa da Veja. Love is in the air, minha gente!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O QUE E COMO FALAMOS NOS REVELA

Em agosto, quando me preparava pro concurso em Fortaleza, tive meu primeiro contato com Linguística Sistêmico-Funcional. E, a princípio, detestei. Achei que, para analisar um texto, não são necessários tantos termos técnicos como a enormidade criada pela LSF. Mas li um capítulo sobre mood and modality (calma que eu já explico) de um livro introdutório de 2004 da Suzanne Eggins (An Introduction to Systemic Functional Linguistics) e encontrei bastante coisa interessante.
Ahn, mood, que deve ser modo em português, é se a frase é declarativa (Meu nome é Lola), interrogativa (Como você se chama?), imperativa (Me diga o seu nome) ou exclamativa (Puxa, como eu gostaria de saber o seu nome!). Modalidade é como “modulamos” as frases, isto é, como fazemos pra que elas sejam mais ou menos fortes. Tem duas divisões: modalization, que são os intensificadores, como muito, bem, totalmente, pouco, e modulation, que inclui pedidos e comandos, onde geralmente se usa por favor.
Eggins aponta um dado que eu nunca nem tinha pensado: que qualquer declaração sem modalidade é mais forte que com. Olha só, se eu disser “Meu nome é Lola”, eu apresento isso como um fato sem discussão (apesar do meu nome verdadeiro ser Dolores). Se eu disser “Meu nome provavelmente é Lola”, há uma suspeita, lógico. Mas mesmo se eu usar modalidade forte, ainda haverá suspeita. Quer ver? “Sem sombra de dúvida, meu nome definitivamente é Lola”. O simples “Meu nome é Lola” é bem mais forte. Não é curioso? A gente coloca umas palavras pra reforçar uma frase, e no fundo a enfraquece. Pensem nisso ao escrever e falar, crianças.
Quando participamos de um papel social, fazemos nossas escolhas de modo de acordo com o que a cultura espera de cada papel. Assim: a gente não costuma usar imperativos com um chefe, né? Ao invés de “Abra a janela”, ou mesmo “Abra a janela, por favor”, com um chefe seria mais comum que disséssemos “Será que eu poderia abrir a janela, por favor?”. Numa aula, um professor usará mais interrogações (muitas vezes retóricas, sem esperar uma resposta), declarações e imperativos que os alunos. Alunos usam interrogações também, mas com mais elipse (“Mas?...”, “Você poderia explicar novamente?”). Isso indica que professores têm mais poder que alunos, ao menos na sala de aula. Já notaram o estranhamento causado quando saímos com um professor pra uma pizza ou uma cerveja? É porque tanto ele quanto nós estamos cumprindo outras funções sociais, menos hierárquicas (demoro pra lembrar que agora estou do outro lado: eu sou a professora!).
E é por isso que a maior parte de nós prefere ter uma discussão acalorada com amigos do que uma conversa amigável, mas formal, com gente que não conhecemos bem (mesmo que não haja nenhum tipo de confronto), ou com um atendente de telefone, ou com os pais do namorado(a), ou com o chefe. Imagine que seu chefe cometa um erro. Você provavelmente não dirá: “Você tá errado!”. Dirá: “Pode ser que isso talvez não esteja correto”. A polidez numa situação hierárquica significa que a gente reconhece a autoridade do superior.
Nossa impressão é que a gente discute menos quando está entre amigos, mas não é verdade. Aliás, é exatamente o contrário! É em conversas formais com estranhos onde geralmente não há discussão. Porque há pouca liberdade, e os papéis sociais são fixos.
O pessoal que analisa discurso transcreve pruma folha uma conversa, e então a observa. Sabemos que a conversa é entre amigos se há envolvimento afetivo, se as pessoas se interrompem umas às outras livremente, sem pedir licença (o que indica posição de poder igual entre as partes – pedir licença não é só ser educado, é também, às vezes, estar numa posição inferior), se há gírias, palavrões, se as pessoas usam seus primeiros nomes, ou apelidos etc. E lembrem-se que a principal diferença entre uma transação escrita e oral é que na oral mantemos turnos conversacionais ("agora é a sua vez de falar, agora é a minha").
Mas por que amigos discutem? Porque é através do diálogo que a gente estabelece e desenvolve nossos papéis sociais. Não há exatamente um rótulo dizendo que o participante numa conversa é Estranho ou Amigo, ou Mandão, ou Tímido, ou mesmo De esquerda ou De direita. A gente se mostra assim ou assado de acordo com nossas atitudes, e, mais ainda, da nossa fala. E o que esses estudos costumam mostrar repetidamente, segundo Eggins, é que se você está numa conversa com três ou mais amigos de ambos os sexos, e se você é homem, isso significa que você pode dominar a conversa, que você vai poder discutir de forma confrontacional. Se você é mulher significa que você vai fazer o possível para que a conversa continue, que você pode dar sugestões mas vai ceder o lugar sem brigar, que você vai pedir pra pessoa clarificar, e que você vai querer saber mais sobre outras pessoas no grupo, principalmente sobre os homens. Ou seja, o que isso tudo quer dizer? Que, mesmo numa conversa livre, informal, entre amigos, as posições hierárquicas são mantidas. E, neste mundo de meu deus, homem tem mais poder que mulher. E isso se manifesta numa simples conversa. Acho tudo isso fascinante, você não?

sábado, 17 de abril de 2010

MENINO PEDE AJUDA CONTRA TIA DO SÉCULO PASSADO

Ontem recebi este email de um menino de 13 anos e, como não sabia direito como responder, perguntei se poderia publicá-lo no meu blog. Ele autorizou, então taí. Claro, pode ser trote. Pode ser brincadeirinha de alguém. Mas, e se for verdade? Não tenho como saber, e, a princípio, acredito em tudo que me dizem (a menos que as informações venham dos usual suspects, como os meios de comunicação. Aí, sempre fico com o pé atrás). Enfim, não dá pra duvidar que tais casos como o relatado pelo garoto existam. Existem sim. O duro é que continuem existindo em pleno século 21. Tipo, quem viu A Fita Branca, cuja história se passa quase cem anos atrás, lembra do pai que amarrava as mãos de um jovem para que ele não pudesse se masturbar. Mas é incrível que algo do gênero aconteça ainda hoje.
Bom, vamos acreditar no menino que mandou o email e tentar ajudá-lo?

“Ola tudo bem, tenho 13 anos e uma duvida. É que eu não posso me masturbar.Pois moro com minha tia e ela acha isso errado.Por isso me obriga a tomar banho de porta aberta. Ela faz isso pra me vigiar pra eu não mexer no meu pintinho.
Estou escrevendo esse email enquanto ela está no quarto, o computador fica na sala.
Tenho muita vergonha disso. E o pior é que mesmo quando chega amigas dela pra visitar ,eu tenho que tomar banho de porta aberta.Morro de vergonha de ficar pelado na frente dela.
E ela me obriga a dormir no quarto dela, em cama separada, pra ela também me vigiar.E evitar também que eu fique de pintinho duro durante a noite. Moro com ela pois estudo na capital.Meus pais ficam no interior.
Eu sinto vontade de me masturbar.Mas não tenho oportunidade. Não aguento mais segurar.Por isso quero saber se você pode me dar dicas de como fazer pra eu poder fazer isso, sem minha tia ver. Não tenho coragem pra conversar com outras pessoas, por isso escrevi pra você.
E se puder mandar um email pra ela, falando sobre a nescessidade que os garotos tem de se masturbar,por favor diga e explique isso pra ela, fale que não é errado fazer isso.Mas por favor não diga que eu pedi isso, tenho medo dela ficar com raiva.
Muito obrigado!!!!”

Segundo email: “Agradelo sua atenção. Pode publicar no seu blog.
Pois está muito dificil aguentar. Todos os dias de manha ela quer ver minha cueca, para ver se eu não tive ejaculação noturna. Não aguento mais isso.”