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sexta-feira, 3 de março de 2023

A BALEIA É GORDOFÓBICO QUE DÓI

Faz dias que estou prometendo escrever sobre A Baleia, mas falta tempo. Vamos ver se agora eu consigo falar desse filme polêmico. Sim, eu sei que muita gente adorou e se comoveu com o protagonista. Mas imagino que a maior parte dessas pessoas não é gorda.

Antes de mais nada, eu sou gorda. Fui gorda a vida inteira, desde a puberdade, salvo um breve período em que consegui emagrecer à base de pílulas para suprimir o apetite. Também sempre fui saudável. Não tomo nenhum remédio, raramente fico doente, posso contar nos dedos de uma mão os dias em que tive que faltar ao trabalho em quase quatro décadas. Mas, com a idade (tenho 55 anos), o peso e o sedentarismo, foram surgindo alguns problemas, como esteatose e pré-diabetes. Meu principal problema no momento é a perda de mobilidade -- entrar em ônibus e subir e descer escadas ficou cada vez mais difícil. Pra reverter isso, agora estou fazendo ginástica.

Outra coisa: sou fã do diretor Darren Aronofsky. Boa parte de quem eu vi elogiando A Baleia faz isso apesar do que sentem pelo diretor. Já eu gosto, e considero este talvez seu filme mais fraco (Noé também é ruinzinho). Adoro Réquiem para um Sonho e Cisne Negro, e gostei até de O Lutador e Mãe!

Dito isso, vamos à Baleia, que pode dar o Oscar de melhor ator para o simpático (todo mundo gosta dele) e talentoso Brendan Fraser, na sua volta às telas depois de dez anos. No filme, ele faz Charlie, um professor de inglês de 270 quilos que nunca sai de casa e, à beira da morte, tenta se reconciliar com a sua filha adolescente, que ele meio que abandonou ao se apaixonar por um aluno. O trailer não menciona, mas Charlie é gay.

O filme é baseado numa peça de teatro (e dá pra ver claramente que é) de Sam Hunter com o mesmo título. A tagline da peça é "encontrando beleza nos lugares mais inesperados". O lugar mais inesperado para a beleza, pelo jeito, seria dentro do corpo e alma de um gordo (ao lado, foto de uma produção da peça).

Pois é, achei o filme muito gordofóbico, a começar pelo título. Tá, tudo bem que quem vê o filme (ou a peça) entende que é uma referência a um trecho de um ensaio sobre o livro Moby Dick. Mas eles podiam ter escolhido qualquer um entre milhares de livros que não são sobre baleias para retratar a vida de um obeso, não? Sei lá, imagina um filme em que o protagonista negro seja alvo de racismo de praticamente todos os personagens. E os criadores do filme colocam o título de “Macaco”. Mas calma aí, não é que os autores do filme estejam associando um negro a um macaco! Eles só incluíram um trecho sobre King Kong em que a palavra “macaco” é usada. Não seria problemático?

Então vamos ser honestos: se A Baleia tivesse a mínima empatia pelos gordos, não teria como título um dos insultos mais comuns usados contra gordos (eu sou chamada constantemente pelos meus inimiguinhos de baleia, jubarte, Jabba, porco. Não conheço algum gordo que nunca tenha sido chamado de baleia). 

Aliás, muitos dos aplausos para a interpretação de Brendan Fraser são justamente que ele faz uma pessoa gorda parecer humana. Gordos geralmente são xingados como seres não humanos -- baleia, porco, elefante, hipopótamo, Jabba the Hut (personagem intergaláctico de Guerra nas Estrelas) etc. Porém, como disse um dos muitos ativistas gordos que se sentiram ofendidos pelo filme, "Se a única maneira que você encontra para 'humanizar' uma pessoa muito gorda é vê-la ser humilhada, aterrorizada, envergonhada e dispensada de um jeito estereotipado, está na hora de refletir".

Sim, o movimento de aceitação do corpo ou body positive detestou A Baleia. Por uma série de motivos. Tipo: por mais que se goste do Brendan e se comemore a sua volta, por que não colocar um ator gordo de verdade para interpretar Charlie? Existem montes de atores obesos desempregados. Da mesma forma que hoje muitos ativistas LGBT criticam filmes que contratam atores cis para interpretar personagens trans, também poderia ser usado um gordo para fazer um gordo.

Porque quando se usa um ator não gordo para interpretar um gordo, o que ele precisa fazer? Usar um "fat suit" (uma espécie de roupa para aumentar o tamanho do ator). O "fat suit" hoje é amplamente condenado, porque quase sempre é utilizado para transformar pessoas gordas em piada. Pense em O Amor é Cego (filme odioso em que Jack Black é hipnotizado para ver a beleza interior e se apaixonada por uma mulher obesa, feita por Gwyneth Paltrow vestindo um fat suit), ou a Monica do passado em Friends. O fat suit é também um jeito de pessoas não gordas contarem histórias sobre pessoas gordas. Deixem que os gordos falem por eles mesmos.

A ativista Aubrey Gordon escreveu uma série de tuítes interessantes sobre A Baleia (que depois ela deletou). Por exemplo: "A Baleia mostra uma pessoa gorda 'humanizada' fazendo o mesmo que as pessoas esperam: vivendo vidas curtas, se matando de tanto comer, sentindo-se deprimido. Tudo que lembra como é trágico ser gordo, e como é superior ser magro". 

Uma das feministas americanas mais impactantes a surgir nos últimos tempos, Roxane Gay, que é gorda, bissexual e negra, escreveu um artigo para o New York Times chamado "O espetáculo cruel de A Baleia". Ela diz esperar que o público possa reconhecer que "esse retrato fílmico da gordura pouco se assemelha às experiências vividas por pessoas gordas. É, na melhor das hipóteses, uma ficção gratuita e exagerada". Ela não entendeu por que gente talentosa quis fazer um filme desumano sobre um ser humano. "O problema não é a aparência do protagonista ou os desafios do seu corpo. O problema é que os criadores do filme não escondem seu desprezo sempre que Charlie tenta satisfazer uma necessidade humana". Pra ela, ficou claro que o diretor e o roteirista veem ser gordo como o maior fracasso possível. Ela ficou para uma sessão de perguntas e respostas com o diretor depois do filme, e se surpreendeu que havia apenas quatro pessoas gordas no público e nenhuma no palco.  

A dançarina Thais Carla, que é obesa, disse no Twitter: "Que filme gordofóbico! Retrataram a obesidade como doença e um gordo homossexual obeso como um depressivo doente. Absurdo completo. Um obeso pode ser saudável". Milhares de especialistas apareceram para afirmar que a obesidade é doença e que obesos não são saudáveis.

Já um veículo de extrema-direita nos EUA (sempre gordofóbica) escreveu que A Baleia vai contra a corrente de Hollywood que lucra com a aceitação do corpo: "O filme é uma obra-prima da ilustração da miséria e é o filme mais eficiente a mostrar os horrores da obesidade severa desde Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador". Vale lembrar que no filme de 1993 com Johnny Depp e Leonardo DiCaprio, uma parte da história é sobre uma mãe que se torna reclusa depois do suicídio de seu marido e, deprimida, ganha tanto peso que seus vizinhos riem dela e seu filho a agride. Parece familiar? Depois que ela morre, os filhos queimam a casa com seu corpo dentro para que não riam dela no funeral. 

A Baleia
legitima o "concern troll". Não sei a tradução pro português. É aquele troll que tenta disfarçar seu ódio e repulsa "se preocupando" com a pessoa. Ou seja, não é que a pessoa te ache um gordo asqueroso ou que odeie obesos, ela até tem amigos que são, é só que ela se preocupa demais com a sua saúde e não quer que você morra amanhã. O "concern troll" não se considera um troll. Afinal, ele está do seu lado! Ele só quer o seu bem!

Pena não é empatia. A Baleia é ódio embalado como empatia, e será lembrado como o filme que possibilita que qualquer um diga a uma pessoa gorda: "Você não quer acabar assim, quer?"

terça-feira, 5 de junho de 2018

GUEST POST: NÃO FAÇO DIETA

Da Paola, do excelente Não Sou Exposição:

Eu sou nutricionista... e não faço dieta. De forma alguma! Porque eu não preciso. E digo para quem quiser ouvir que eu prefiro ser feliz do que fazer dieta... Mas pelo jeito o tradutor da galera está meio doido.
Vou explicar o que verdadeiramente quer dizer "não fazer dieta":
- As minhas razões para comer estão pautadas em como eu me sinto, não na aparência do meu corpo. Não me importa ser a minha versão mais magra, me importa ser saudável.
- Ao invés de viver constantemente preocupada com a comida (se tem carboidrato, se tem gordura, se tem açúcar, se tem calorias, se vai engordar...) eu procuro ser consciente e lembrar que a questão não é o alimento, mas sim o contexto em que ele é consumido -- quantidade e frequência são variáveis que importam, importam muito.
- Não penso nos alimentos de forma dicotômica -- bom/ruim, pode/não pode, certo/errado. Tenho consciência de que eu posso tudo, tenho total liberdade para comer o que eu quiser -- e aproveito a minha liberdade de forma responsável. Conforme dizia o apóstolo: tudo posso, mas nem tudo me convém.
- Eu não como de acordo com estímulos externos (um papel, um aplicativo, a calculadora, o relógio, um conjunto de regras, algo que li na revista). O que verdadeiramente norteia a minha alimentação são os sinais internos que o corpo emite. Como quando tenho fome e decido o que vou comer de acordo com minhas necessidades. O segredo? Consciência corporal.
- O motor de funcionamento das dietas é o sentimento de culpa e a pessoa fica o tempo todo pensando no que ela deve/pode comer. Meu termômetro para saber se estou no caminho certo é a satisfação. Procuro comer o que é saudável, leve e prazeroso. Não porque é uma obrigação, mas porque me faz bem.
- Não busco perfeição, busco constância. Não quero fazer TUDO certo. Procuro saber dosar o frequente e o ocasional. Mas não entro em pânico quando cometo excessos eventuais.
- Não me exercito para poder comer. Como para poder me exercitar. Gosto de atividade física por causa dos benefícios.
Se viver dessa forma significa estar "nas trevas", então eu sou uma verdadeira assombração.
Obs: nem sempre as pessoas querem nos boicotar ou têm inveja. Muitas vezes quando uma pessoa diz que não quer fazer dieta... é só porque ela não quer, mesmo.

terça-feira, 29 de maio de 2018

COVARDES USAM BULLYING GORDOFÓBICO PARA MATAR DIELLY

Vi há mais ou menos duas semanas o terrível suicídio de Dielly, vítima de bullying. Anotei para falar sobre o caso mas o tempo foi passando, e a falta de tempo aumentando. Foi bacana, portanto, que algumas pessoas me lembraram de fazer um post sobre isso. É importante sim.
Dielly Santos tinha 17 anos e estudava numa escola estadual em Icoaraci, distrito de Belém. Dielly era gorda, negra, estava com depressão. Um alvo perfeito para quem passa a vida cometendo bullying. No dia 16 de maio, ela se enforcou no banheiro. 
Sua tia contou que Dielly era constantemente chamada de "lixo" e "porca imunda". Os ataques não pararam com sua morte: vários trolls foram a página em memória de Dielly no Facebook para continuar com os insultos e fazer novas "piadas", sem o menor respeito à família dela. Outros foram lá para criticá-la por não ter aguentada. Foi fraca, segundo eles. Alguns a chamaram de "vitimista" (ué, ela foi vítima; vitimista é quem se faz de vítima sem ser!). 
Obviamente não é verdade que bullying forma caráter (pelo menos no sentido geral de caráter, que está associado à força e ética). Pode formar mau caráter. Se formasse caráter, não teria como seus representantes-mór vermes do estirpe de um Gentili ou dos reaças disfarçados de humoristas do Twitter. 
Uma lei foi sancionada este mês para fazer que escolas, clubes e agremiações tomem medidas de prevenção e repressão para combater a intimidação sistemática, mais conhecida como bullying (como se chama essa lei? Que tal chamá-la de Lei Dielly?).
A ONU tem um estudo de 2016 que mostra que metade das crianças e jovens no mundo já sofreu algum tipo de bullying. Entre as razões mais citadas por 100 mil jovens de 18 países estavam a aparência física, gênero, orientação sexual, etnia, país de origem. No Brasil, 43% dos jovens responderam já ter sofrido bullying. 
E mais um dado: o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde.
A Capricho fez uma ótima reportagem em que recordou que a modelo Nara Almeida, que morreu de câncer após uma luta intensa, foi aclamada (também) pela sua magreza, sem que as pessoas associassem sua aparência à doença. "Se a magreza de Nara continuou a ser elogiada mesmo após a morte da modelo, que tinha mais de 4 milhões de seguidores no Instagram, o corpo da anônima Dielly também continuou a ser alvo de chacotas após o suicídio", escreveu a jornalista Isabella Otto. 
Paola Altheia, autora da excelente página Não Sou Exposição, diz que evita usar o termo gordofobia porque muita gente o relaciona ao "politicamente correto" e foge. Mas é lógico que gordofobia existe -- e mata. Paola, que é nutricionista, afirma: "o estigma da obesidade mata muitíssimo mais do que a própria obesidade. Mata a pessoa aos poucos, mata a pessoa por dentro, leva ao isolamento, leva à baixa autoestima, leva à depressão, e pode, como no caso da Dielly, culminar no suicídio".
Ela aponta no vídeo que existe hoje uma mentalidade individualista de que cada um deve resolver seus problemas sozinho, sem ajuda, e que depressão é sinal de vulnerabilidade. Não é! É doença. Se você tem depressão, procure terapeuta. Se você é vítima de bullying, não se cale. Ponha a boca no trombone. Se é verdade que as redes sociais estão aí para aumentar o bullying (o jovem hoje não é só xingado e humilhado nas horas em que está na escola, mas quando está em casa também, através da internet), também estão para denunciar. Exponha quem comete bullying. Fale com professorxs, com a direção da escola, com os pais dos "valentões". 
Quanto a esses que cometem bullying, sinceramente, procurem ajuda também. Vocês têm sérios problemas. Não só vocês não têm como ser felizes, mas vocês não sabem o futuro que os aguarda. Você vai ter dificuldade em cometer bullying a vida toda. Já já terá responsabilidades, precisará trabalhar, e comece a rezar agora para que existam muitas fábricas de móveis Alezzia para contratar você. Porque a grande maioria das marcas não gosta de ter seu nome relacionado a quem é cruel com pessoas (ou animais). Você pode acabar como o reacinha do Twitter que perdeu seu emprego na TAM quando seu perfil foi denunciado. Parece que ele era até um bom funcionário, mas a empresa não quis nem saber -- ele foi demitido. E não conseguiu mais emprego no Brasil. Teve que se mudar de país.
Quer dizer, imagina que tristeza deve ser a vida de alguém que só consegue externar seus sentimentos xingando, odiando, zombando outra pessoa (quase sempre uma pessoa que vem de grupos historicamente oprimidos, como mulheres, negros, LGBT). Tem como ídolo Danilo Gentili, que escreveu um livro (que virou filme feito com a Lei Rouanet) incentivando o bullying. Que tal usar dinheiro público para combater a praga do bullying, fazendo campanhas em grande escola, em vez de usar dinheiro público para financiar gente que promove o bullying? Não parece, sei lá, uma ideia revolucionária?
Eu digo sempre aqui que a gente precisa adotar uma mentalidade de "dane-se o que eles pensam" (e dizem), que um cara que te xinga de "gorda escrota" revela muito mais sobre ele do que sobre você, que somos doutrinadas desde crianças a sermos aprovadas pelos homens, e que essa aprovação se baseia na nossa aparência física (baseada num padrão irreal de beleza) e na nossa submissão ("papai não gosta de menina zangada", "por que você não sorri mais?", "ninguém gosta de feminista"), que não temos que depender da aceitação de ninguém, que devemos nos amar como somos, que não estamos numa eterna competição de Miss Universo para sermos julgadas pela nossa aparência. 
Mas pra mim é fácil falar: eu já tenho 50 anos, desenvolvi muita casca grossa, sempre me envolvi com gente boa e dou mais valor ao que eles dizem do que aos trolls, tento não levar pro lado pessoal (eles não me xingam por eu ser a Lola, que sequer conhecem; me xingam por eu ser feminista, de esquerda, uma mulher forte, e se eu não fosse gorda eles escolheriam qualquer outra característica física minha para tentar me ofender). 
E, principalmente, eu nunca tive depressão. Sei que depressão é uma doença séria que tira as nossas defesas e acaba com nossa autoestima. Se ser xingada quando a gente está bem não é legal, ser xingada quando se tem depressão pode ter um efeito muito mais devastador. 
Esses covardes se valeram disso para te destruir, Dielly querida. Não vamos deixar que destruam mais meninas. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

GORDOFOBIA SÓ É PIADA PROS PRECONCEITUOSOS

Como estava viajando e desconectada, não vi a ótima reportagem sobre gordofobia que a BBC publicou na véspera do Natal.
A matéria fala sobre o preconceito e a discriminação que as pessoas gordas sofrem. É a isso que damos o nome de "gordofobia". E é esse preconceito que se vê diariamente que muita gente tenta negar que existe. Eu sou alvo constante de gordofóbicos (que me atacam principalmente por eu ser feminista e de esquerda, mas sempre xingam o meu corpo para tentar me atingir). Disfarçam ataques com piadas batidas e sem a menor graça, fingem estar preocupados com a sua saúde (é irônico ver gente que quer que eu morra pedindo para eu fazer dieta, se não vou morrer -- porque, como sabemos, só gordo morre), associam gordura à sujeira, feiura, doença, mau cheiro, desleixo e até falta de inteligência, e se irritam sempre que alguém os chama pelo que são: babacas preconceituosos cheios de ódio.
As partes que mais gostei da matéria da BBC foram: uma nutricionista, Marcela Kotait, falando o óbvio (mas é importante uma nutricionista dizer "Existe a crença de que alguém acima do peso é doente. Isso não é verdade"); uma ativista, Alexandra Gurgel, afirmando que "uma das minhas maiores ajudas para me recuperar de tudo isso [traumas e baixa autoestima] foi descobrir sobre o feminismo, porque ele me mostrou que eu não sou obrigada a nada e posso ser da forma que quiser"; e outro ativista, Bernardo Boechat, lembrando que apenas se aceitar não é suficiente para mudar a sociedade: 
"Não interessa o quanto eu me ame e me aceite, a sociedade continua sendo contra mim. Não é porque eu me amo que vou conseguir passar em uma catraca de ônibus, que vou conseguir assento no avião ou que vou encontrar roupa com facilidade. Não adianta eu me achar lindo e maravilhoso, porque a estrutura gordofóbica vai dizer que não faço parte daquilo ali".
Concordo com ele, e isso vale para outros tipos de preconceitos também (não é por você descobrir que tem uma cor maravilhosa que a polícia vai parar de te considerar suspeito pela sua cor, por exemplo). Mas desconstruir os próprios preconceitos e aceitar a si mesmo ajuda muito. É um primeiro passo. Afinal, como lutar contra a gordofobia se você internalizou e acredita no que os babacas preconceituosos cheios de ódio falam das pessoas gordas?
Um desses babacas que apareceram para gritar "Chamaram? Presente!" foi o invariavelmente detestável Danilo Gentili. No mesmo dia que a reportagem foi publicada, o reaça disfarçado de humorista tuitou para seus milhões de seguidores: 
E, no dia seguinte, Natal, ele decidiu atacar diretamente a Alexandra (cuja foto abria a matéria da BBC):
O bacana é que Alexandra, que tem um canal sobre aceitação do corpo e contra gordofobia no YouTube, não deixou barato: gravou um vídeo respondendo a Gentili, lançou a tag #Gordofobia Não é Piada (tudo junto), que viralizou, e ganhou a grande mídia (Bernardo também fez um bom vídeo). 
No vídeo Alexandra não fala só de gordofobia, mas de quem reclama de que o mundo tá chato, não se pode mais rir de nada (típico de Gentili e seus asseclas zumbis):
"O mundo para quem é minoria já é chato há muito tempo. Nunca foi divertido sofrer preconceito. Nunca foi legal ser marginalizado. Nunca foi motivo de riso ser expulso de casa, ser maltratado, ser visto como doente, ser visto como desprezível. Nunca foi divertido pra gente. Agora que a gente está tendo visibilidade, está tendo espaço, está começando a ficar um pouco mais legal o mundo, porque esses assuntos estão vindo à tona. Está começando a ficar chato para você, né?" 
Só não compartilho o otimismo da Alexandra sobre a possibilidade de Gentili aprender e mudar de opinião. Tem gente que não quer nem vai mudar, que ganha a vida sendo preconceituosa. Que outro tipo de humor alguém tão limitado intelectualmente como Gentili conseguiria fazer, afinal?
É excelente que as pessoas falem sobre gordofobia e aceitação do corpo. Hoje vi um tuíte incrível de uma moça que não conheço, Marcelloca, que colocou uma foto sua de biquíni e escreveu:
Uma ótima mensagem para quem ainda está encucada sobre ir à praia ou o que vestir ou se tem o "corpo certo" para curtir um mar. Se você tem um corpo, você tem o corpo certo, ué. E sobre a roupa, dá uma olhada no que os moralistas de 1949 achavam sobre as mulheres que usavam maiô:
"Espetáculos afrodisíacos e atentatórios à moral", "exagero nos trajes estimula a imoralidade", "necessário um pouco mais de comedimento", trajes "que fazem concorrência à parra bíblica", "a um passo do nudismo"... A gente lê essas palavras, olha a foto com o tamanho dos maiôs, e morre de rir, né? Mas tinha babaca preconceituoso cheio de ódio que realmente falava essas besteiras setenta anos atrás, que por falta do que fazer gastava tempo demais julgando mulheres, seus corpos, suas roupas. 
Assim como ainda tem gente que condena topless, que inventa que mulher gorda não deve poder ir à praia, pois seria uma afronta aos "bons costumes" (e aos seus olhos sensíveis), que passa o dia nas redes sociais zoando de gente que aprendeu a se amar -- que é, no fundo, tudo que essa galera do ódio mais quer: se amar.
Tomara que leve bem menos que setenta anos pra que essas pessoas do nível Gentili sejam vistas como o embuste ridículo e moralista que são. 

domingo, 3 de setembro de 2017

OI, GORDOFÓBICOS, TUDO BEM?

Só um recado pra vocês hoje: valorizem suas curvas. Imagino que até vocês devem tê-las, gordofóbicos.