segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NINGUÉM MAIS ACREDITA EM EVOLUCIONISMO

No velho Éden ele nasceu, e entre bravos se criou...

Talvez até não seja uma boa amostra, mas parte de um vídeo com candidatas a Miss USA deste ano é estarrecedora. É quando as cinquenta candidatas (justiça seja feita: tem muito mais diversidade racial nesse concurso que no nosso Miss Brasil, que não contou com uma única negra) respondem à pergunta “Evolução deve ser ensinada nas escolas?” Imagino que aqui no Brasil, se essa pergunta fosse feita a misses, a resposta seria de total incredulidade, algo como “Ué? Isso tá em discussão?”. Mas nos EUA é diferente. Ensinar evolução nas escolas é um dos motivos que mais fazem pais religiosos não deixarem seus filhos estudar fora, preferindo ensiná-los em casa para que não sejam “contaminados” por uma educação secular. Até uns quinze anos atrás, uma indagação dessas seria vista com estranheza até nos EUA. Mas hoje, é apenas vista como “uma pergunta difícil”. O que mostra que os religiosos ganharam: a evolução é considerada só uma teoria, com menos provas que o criacionismo (que tá na bíblia). Leia o que algumas misses responderam (minha tradução):

Miss Alabama: “Evolução? Não. Eu não acredito em evolução, não acho que deveria ser lecionada nas escolas, e eu não encorajaria isso”.
Miss Alasca: “É importante lecionar, porque faz parte das nossas crenças, mas pessoalmente, não acredito em evolução, acho que cada um de nós foi criado com um propósito, por deus, e isso dá a minha vida mais sentido”.
Miss Indiana: “Eu não sei. Vamos deixar isso pro governo. Muita gente seria contra se evolução fosse ensinada nas escolas”.
Miss Kentucky: “Informação sobre um assunto nunca é demais, mas eu acho que evolução não deveria ser ensinada nas escolas, porque há tantas opiniões, tantas definições. Como ensinar uma criança sobre a definição verdadeira de evolução quando tantas culturas têm suas teorias diferentes? Não é um bom assunto, as pessoas não vão chegar a um acordo”.
Miss Lousiana: “Eu acho que sim. Eu acho... Oh deus!”
Miss Massachussetts: “Acho que sim. Eu aprendi a teoria da evolução, mesmo estudando numa escola religiosa”.
Miss Michigan: “Deve ser ensinado nas escolas, porque é bobagem não conhecer os dois lados”.
Miss New York: “Eu pessoalmente acredito que evolução deve ser ensinada nas escolas, e também que religião seja ensinada”.
Miss South Carolina: “Se os pais estiverem de acordo, por que não?”
Miss Utah: “É difícil. De toda forma, alguém vai se ofender”.

A pergunta é tão cabeluda pras candidatas americanas (e não vale dizer que misses são burras; uma miss de um estado provavelmente já é celebridade faz tempo, tem muito treinamento, horas e horas de entrevistas. Não há espaço pra amadoras num Miss America) que as melhores respostas acabam sendo as mais tolerantes, do tipo “Sim, por que não? É uma das crenças”. Como o ótimo blog Sociological Images explica, este é um bom exemplo da normatização da ideia de que a evolução é “um lado da história, a religião sendo o outro lado, e que nós deveríamos simplesmente escolher entre essas duas histórias baseado no lado que nos faz sentir mais confortável”. Pra mim é um exemplo do perigo que é um estado não-laico, algo que sempre ameaça ganhar força em muitas partes dos EUA.
É também um problema de quem pensa que teoria é uma opinião, algo sem base nenhuma, como se dizer que o Big Bang aconteceu equivalesse a dizer “eu gosto de chocolate”. Lógico que a ciência deve ser questionada, ou senão vira uma outra religião, acima do bem e do mal. Mas há tantas evidências comprovando que dinossauros viveram (bem) antes da gente, e que os bichos se transformam e se adaptam ao longo dos tempos, que é duro levar a sério o pessoal que vê nos Flintstones um documentário.
Querer que “dois lados” expliquem nossas origens me fez pensar em como os saudosistas (pra usar uma palavra gentil) gostariam que o golpe militar de 1964 fosse ensinado no Brasil como “revolução” (aquela ladainha que, se não fossem os militares que salvaram o país, os comunistas brasileiros ― que eram tantos e tão organizados, como sabemos, e liderados por Jango, aquele comuna-mor ― o Brasil teria virado Cuba), e como golpe de estado que nos mergulhou numa ditadura sanguinária e de direita que durou 21 anos. Bom, talvez o lado da “revolução de 64” prefira que o lado do golpe militar seja esquecido.
Mas tem sempre a história dos “dois lados”. Já cansei de ouvir que feministas seriam chamadas prum determinado debate, desde que “o outro lado” também fosse ouvido. Quem? Os machistas? Conheço bastante gente que até acharia aceitável que tolerância aos homossexuais fosse ensinada nas escolas, desde que “o outro lado” também fosse. Ué, qual é o outro lado da tolerância? Intolerância? (e a gente realmente quer ensinar isso nas escolas? E precisa?). Homofobia? Ou simplesmente espalhar que a heterossexualidade é a única forma sexual aceitável e legítima? (e espalhar isso, pelo jeito, não é homofobia!). Isso de “dois lados” é uma falácia. Primeiro que existem sempre muito mais que dois lados. Depois que, desculpe dizer, alguns lados simplesmente não merecem ser ouvidos. É como fazer uma mesa redonda sobre o holocausto e chamar pra participar neonazistas que negam o massacre de judeus. É como organizar um debate sobre discriminação racial e abrir espaço pra Ku Klux Klan (ou pro pessoal que nega que exista racismo no Brasil, apesar de todas as evidências). Francamente, é como a faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense fazer um debate sobre homoafetividade e chamar o deputado Bolsonaro pra pregar preconceitos e negar direitos humanos. O lado da inclusão, da tolerância, dos direitos para todos, vive sendo deixado de fora. Por que dar voz aos que já fazem tanto barulho numa sociedade preconceituosa como a nossa?
Sobre essa briga entre criacionismo e evolucionismo, lembro de quando eu era coordenadora acadêmica e professora numa escola de idiomas, em Joinville. Na escola havia vários professores de um grupo cristão que formava uma comunidade fechada (de missionários), adotava o homeschooling (os filhos eram ensinados na comunidade, não na escola), e pregava que os membros só deveriam se casar entre si. Eu me dava incrivelmente bem com eles. De vez em quando eles diziam pra dona da escola que o fato da escola estar indo mal era porque a coordenadora era uma ateia (moizinha), o que impedia que deus abençoasse as instalações, mas na maior parte do tempo a gente só evitava esses assuntos espinhosos de religião, papel da mulher na sociedade, estado laico etc, e convivia numa boa. No entanto, um dia lá estava eu, na sala dos professores, preparando uma atividade que iria usar para uma aula de conversação numa turma de inglês avançado. E parte da atividade incluiria as cenas iniciais de 2001, Uma Odisseia no Espaço, aquelas em que os macacos territoriais e agressivos descobrem as armas (ossos de animais mortos) e tornam-se guerreiros muitos mais opressores e agressivos. Acho, não lembro bem, que o exercício inicial era só que os alunos “dublassem” os macacos, algo como “If my monkey could speak” (se meu macaco pudesse falar, o que ele diria?), e depois é que a gente partiria pra um debate sobre território, armas, e inclusive evolução. Mas a questão é que um professor do grupo cristão viu o que eu estava preparando e perguntou: “Você vai falar sobre evolução numa aula? Sério? Ninguém mais acredita nisso hoje em dia!”. Eu pensei que ele estivesse brincando. Não: ele acreditava literalmente em Adão e Eva (nessa ordem, lógico), e realmente acreditava que Darwin, evolução e tudo o mais fossem conceitos ultrapassados. Isso deve fazer quase quinze anos. As candidatas do Miss América mal tinham nascido. Um visionário, esse rapaz!

P.S.: E o Sociological Images também linka uma paródia hilária de “Matemática deve ser ensinada nas escolas?”, com respostas como “Matemática é só números. Uma criança de 7 anos deve poder decidir se quer ou não aprender matemática. Ninguém realmente sabe qual é a raiz quadrada de 16. Vivemos na América, não na Rússia, sabe? As crianças devem aprender números, mas também... cores... cheiros... vibrações”.

domingo, 25 de setembro de 2011

O PERIGO DA PALAVRA E A PALAVRA EM PERIGO, NA UNICAMP

Terça-feira estarei na Unicamp para a SELLL: Semana de Estudos Literários, Letras e Linguística Unicamp 2011. Adorei o nome dado à semana, “O perigo da palavra e a palavra em perigo” (veja a programação aqui). Isso abrange muita coisa, e deve render excelentes discussões. O curioso é que fui convidada pra participar no final de maio, antes de todo o imbroglio com um dos membros do CQC. Muito agradecida!
Na terça, às 14 horas, estarei numa mesa redonda chamada “A Palavra em Perigo: Liberdade de Expressão”, com as professoras Dina Maria Martins Ferreira, da UECE (ainda não conheço a Dina, que mora em Fortaleza também), e Eleonora Cavalcante Albano, da IEL/Unicamp. Logo em seguida haverá um coffee break, a exibição do curta metragem Levante sua Voz, e uma oficina (marcada para às 16:30) sobre “O Politicamente Incorreto”, com a minha participação. Ainda estou preparando minha contribuição, mas vou falar da minha experiência com o blog, talvez com uma ou duas revelações surpreendentes (que ainda não fiz aqui e tenho medo de fazer, mas vocês me conhecem e sabem que é difícil eu ficar calada).
Tem muito mais na SELLL, já que a programação vai até sexta. Espero que quem more em Campinas possa participar, porque parece um evento variado e completo.
Infelizmente, eu vou chegar em Campinas na segunda à meia noite, se os voos não atrasarem, e já embarco de volta pra Fortaleza no final da tarde de terça. É que dou aula na quarta, e sempre faço o possível para não ter que cancelar aulas, pois a reposição é complicada. Bom, espero ver vocês na terça. Um leitor querido e antigo, o Lord Anderson, quer almoçar comigo. Vamos marcar alguma coisa pra terça antes da mesa. Quem puder ou quiser ir também está convidado. Marquem aí, ou no Twitter, e, ahn, não se esqueçam de me avisar.
Eu já estive em Campinas umas duas vezes, mas faz tanto, tanto
tempo que não me lembro quando foi. Ah, e estou louca pra conhecer o Diego!

TOMARA QUE ENTRE

Já tomamos o Brasil, agora queremos tomar o mundo

Tropa de Elite 2 foi escolhido para representar o Brasil no Oscar do ano que vem. Isso não significa grande coisa: cada país submete apenas uma produção para concorrer a Melhor Filme Estrangeiro, e depois uma comissão da Academia seleciona cinco candidatos entre vários países. Infelizmente, o Brasil não entra na dança desde 1999, quando Central do Brasil concorreu. Quase entrou com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, mas não. E enquanto a gente não consegue nem ser pré-selecionado, nossos hermanos e maiores rivais já colecionam duas estatuetas de Filme Estrangeiro (A História Oficial, em 1985, e O Segredo dos seus Olhos, ano passado).
Não há dúvida que Tropa de Elite 2 era o melhor que o comitê brasileiro podia escolher. Se tivesse preferido o concorrente famoso, Bruna Surfistinha, ficaria de fora da seleção do Oscar com certeza absoluta. Não sei se Tropa 2 faz o perfil da Academia. Na categoria de Estrangeiro, é impressionante o número de produções que tenham crianças como protagonistas, ou que se passem em tempos de guerra. Tramas violentas demais, no entanto, costumam ser renegadas. Mas acho que o que pesa mais contra Tropa 2 é o 2 do título. Por mais que ele seja superior ao primeiro Tropa (que representa uma visão meio fascista, impossível de agradar aos membros da Academia, mais liberais), não é comum que concorram sequências. Torço para estar enganada, até porque gosto muito de Tropa 2 (e do 1 também). Uma mera indicação faria com que ele fosse mais visto no cenário internacional (por enquanto, os dois Tropas ― embora um sucesso absoluto por aqui ― não engataram em outros países). O Oscar, goste-se ou não dele, continua sendo uma grande vitrine.

sábado, 24 de setembro de 2011

UMA ESCOLA SÓ PRA MENINOS

Sei que o assunto está um tiquinho datado (é da semana retrasada), mas queria só deixar registradas as minhas muitas dúvidas. Estou falando sobre o primeiro colocado no Enem deste ano, o Colégio São Bento, no Rio de Janeiro. O colégio sempre fica nas primeiras posições, mas só este ano a mídia deu tanto destaque ao fato que ele só aceita meninos. Eu, pelo menos, desconhecia esse dado. Lógico que os machistóides de plantão adoraram isso. Pra eles, foi a prova definitiva que 1) homens são mais inteligentes que mulheres, e 2) mulheres só atrapalham os pobres homens de progredirem na vida.
Há muitos outros fatores que foram mais ou menos ignorados: a escola é de elite, cobra uma mensalidade de 2 mil reais, em média (ou seja, os pais dos alunos têm nível universitário, o que já é um indicativo de notas melhores), tem uma taxa alta de professores com mestrado e doutorado, e é em tempo integral ― os alunos estudam lá de segunda à sexta, das 7:30 às 16:30, com aulas também aos sábados de manhã.
Pelo pouco que sei, imagino que o Enem seja bem mais interessante que aquela decoreba que era (e continua sendo em muitos lugares, como a USP) o vestibular. Vários professores da área de Exatas consideram o vestibular uma excelente ferramenta de avaliação, e juram que o Enem colocará toda a meritocracia a perder. Eu conheci alguns colégios que tinham como única meta fazer o aluno ingressar numa boa faculdade, e nunca entendi o porquê de se estudar onze anos (porque eles garantem preparo pro vestibular desde a primeira série) para se passar numa única prova de algumas horas. Parece que o Enem dificulta um pouco essa obsessão de preparo-durante-onze-anos-pra-se-passar-numa-prova. Por outro lado, tenho certeza que os alunos do São Bento conseguem ir bem tanto no vestibular quanto no Enem. E claro que é importante tirar boas notas, garantir ingresso na universidade desejada e tal, mas só isso (sucesso numa prova) não me parece critério suficiente para se medir uma boa escola, ou um bom aluno.
Ainda que eu tivesse um pimpolho e pudesse arcar com uma mensalidade dessas, eu não colocaria filho meu pra estudar numa escola que tem um brasão tão parecido com o da Tradição, Família e Propriedade. Eu iria preferir que a criança estudasse com uma grande diversidade de alunos. Não é só que os alunos do São Bento ficam longe das meninas. A julgar pelas fotos, eles também ficam longe de negros. Segregação total. E olha o final da notinha que a escola divulgou em junho, quando um aluno de 14 agrediu um de 6: o colégio São Bento “continuará empenhado com a verdade e dedicação em formar homens de bem”. Verdade? Homens de bem? Bolsonaro não poderia resumir melhor.
Porém, não estou tão certa que só o fato da escola só aceitar meninos seja algo necessariamente negativo. Quero dizer, quando penso em escolas só pra um sexo, penso sempre em Sociedade dos Poetas Mortos (filme tocante que mostra uma escola hiper tradicional que insiste na disciplinargh), e na felicidade da menina lésbica em Eleição ao saber que será mandada para um colégio só de meninas (o que ela mais quer na vida é virar amigona da Madonna).
Vinte e poucos anos atrás, quando terminei o segundo grau, quase fui e
studar numa universidade em Minneapolis, EUA, chamada St. Catherine... que era só pra mulheres. Não fui por uma série de motivos, entre os quais porque não me agradava a ideia da segregação, mas, pra ser franca, porque eu não queria viver longe do Brasil, do meu pai e do cachorrinho que eu tinha acabado de ganhar. Porém, o pouco que ouço sobre escolas e universidades só pra mulheres é que o ambiente é positivo porque, na falta de meninos, as alunas podem se vestir como quiserem, e existe menos competição entre elas. Dizem que há um clima de camaradagem maior, de sisterhood. Eu não sei, e não pagaria pra ver.
Até porque me parece que toda escola/universidade pra um só sexo tem nome de santo, certo? É tudo escola religiosa. E só esse já seria um ótimo motivo pra não estudar numa escola dessas, ou pra colocar meu filho imaginário em uma. E você, o que acha?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CONTRA O ÓBVIO

Eu já disse algumas vezes: escrevo pra quem gosta de mim, pra quem gosta do que escrevo, pra quem me lê. São nessas pessoas que penso quando crio um post. São pra elas que faço o blog. Não pra quem me odeia. Quem me odeia é fiel, vai me odiar sempre, independente do que eu disser ou deixar de dizer. As pessoas que gostam de mim podem eventualmente se cansar de ler posts tão longos, podem querer migrar pra outros blogs, podem achar que estou repetitiva; enfim, podem abandonar o blog por uma série de motivos (e acho que isso acontece sempre, e não só com blogs). Mas quem me odeia não vai desistir de mim nunquinha.
Aceito numa boa sugestões de leitor@s querid@s. Se tenho tempo e interesse, escrevo sobre aquele assunto que me pedem pra escrever. Pra mim isso não é querer pautar meu blog, é sugerir. E é maravilhoso e faz parte da comunicação. E @s leitor@s daqui são super antenad@s e vêem mil e uma coisas que eu não vejo. Se eu não escrever sobre determinado assunto que foi sugerido, el@s não ficarão de mal. Não ficarão cobrando. Certamente não pensarão que só porque não escrevi sobre uma atrocidade em particular quer dizer que eu concorde com ela.
Quem quer pautar o blog são as pessoas que me odeiam. Pra elas, eu tenho obrigação de falar sobre tudo que elas acham que eu tenho que falar. Mas se eu não escrevo pensando nessas pessoas, por que devo seguir suas ordens?
Tenho um hate club especializado em interpretar meus silêncios. Por exemplo, nunca escrevi sobre a condição das mulheres no Irã (tirando, talvez, quando falei de Persépolis. Isso conta?). Pra esse pessoal, só as mulheres iranianas são vítimas do machismo. Aqui no Brasil as mulheres são totalmente livres e têm todos os direitos assegurados, dizem eles. Em outras palavras, não há motivo algum pra ser feminista aqui. Mas no Irã sim. Lá elas precisam de mim, porque, óbvio, o Irã não tem suas próprias feministas (estou sendo irônica). Pô, até parece que tenho algum apreço por um governo, uma religião, um sistema, que relega as mulheres a segundo plano. Mas a verdade é que prefiro escrever sobre situações mais próximas a minha realidade. Não gosto absolutamente nada do Ahmadinejad, mas entendo que, pro governo brasileiro, tentar dialogar com ele é melhor que simplesmente tê-lo como inimigo número 1, impedindo qualquer possibilidade de comunicação. Isso me parece tão óbvio. Mas pro pessoal de direita (sim, porque não adianta negar, eu tenho dois hate clubs principais: gente de direita que me odeia por eu ser de esquerda, e gente preconceituosa que me odeia por eu ser feminista, anti-racismo, anti-homofobia etc. Muitas vezes o hater tem carteirinha dos dois clubes), o governo dialogar com o Irã é um sinal inequívoco que apoia as barbáries que o Irã comete contra as mulheres e gays (esse pessoal de direita não liga muito pras barbáries que mulheres e gays brasileiros sofrem). E eu não falar sobre isso é sinal inequívoco de que sou totalmente a favor do apedrejamento de iranianas. Estranho um pouquinho que o pessoal nunca me cobre pra falar das mulheres na Arábia Saudita e em outros países aliados dos EUA, como se a situação delas fosse um mar de rosas.
Acho também que essas pessoas ou usam de má fé ou são um tanto tolinhas. E não são só elas. Falta um pouco de interpretação de texto. De fazer conexões. Tipo: anteontem no Twitter recomendei uma excelente compilação de capas da Veja, e escrevi “Pra quem acha que a Veja é neutra e imparcial”. Recebi vários tweets de gente dizendo que as outras revistas, principalmente as de esquerda, tampouco são imparciais. Isso é óbvio. Não existe neutralidade. Mas eu disse que só a Veja era parcial? Acho que não. Acontece que, ao contrário das revistas à esquerda, que em época de eleição sempre declaram abertamente o seu voto (isso é ser transparente), Veja, Globo, Folha e afins posam de imparciais e apartidárias. E se tem uma coisa que leitor da Veja acredita é que sua revista-bíblia é totalmente neutra. Duvido muito que leitor de Carta Capital ou Caros Amigos tenha essa falsa impressão das revistas que lê.
Tem outra coisa também, que talvez não seja tão perceptível pra quem me lê. É que eu prefiro não escrever coisas óbvias. Por exemplo, agora o pessoal que me odeia cobra que eu fale de um caso escabroso de um dirigente do PT em Minas que estuprou sua enteada de 9 anos. O cara (que eu nunca tinha ouvido falar -- não sou filiada ao PT, não sou de Minas) participou da organização dos Blogueiros Progressistas, mesmo após ter sido condenado. Isso é horrível, não deveria ter acontecido, o criminoso já deveria ter sido expulso do PT faz tempo, e quem o blindou também. Mas também é bem horrível sugerir que os outros participantes do BlogProg MG ou do PT apoia(ra)m o estuprador. Eu e um monte de gente só ficamos sabendo do caso esta semana. Aí o pessoal fala: ah, mas e se fosse um dirigente do PSDB/DEM que tivesse estuprado uma criança? Aí choveriam posts contra o meliante, certo? Errado. Qual o meu interesse em escrever sobre o óbvio? Por que eu gastaria meu tempo escrevendo um post dizendo que o estupro é um crime hediondo que não deveria ser acobertado e que o estuprador deve ser punido? Todo mundo no meu blog pensa assim. Chover no molhado, pra mim, é chato. Eu faço o possível pra fugir do óbvio.
Outro exemplo: por mais que eu tenha me indignado com o caso do ex-marido que torturou e escreveu seu nome com uma faca quente nas costas da mulher, o que vou escrev
er sobre isso? Eu divulgo essa notícia no Twitter, mas não tenho muito mais que falar sobre ela. Eu a guardo pra que, talvez, quando eu escrever sobre misoginia e machismo, usá-la como exemplo. Mas só redigir uma nota pra mostrar minha revolta me parece redundante. 
Não é só isso. É que meus posts quase sempre são sobre reações a um ato, muito mais que sobre o ato em si. O que significa que eu raramente escrevo sobre um indivíduo, e sim sobre grupos, sistemas, ideias. Não é difícil de conferir. Quando Lindemberg matou Eloá, sua namorada de 15 anos, eu escrevi mais sobre a reação a isso, ou seja, sobre um programa de TV que disse que Eloá deveria casar com o carinha que bateu nela, a ameaçou, a encarcerou, e finalmente a matou. Quando três jovens estupraram e filmaram com seus celulares (e depois colocaram na internet) o crime contra uma garota em Joaçaba, meu foco não foi no óbvio (que tais atos são horríveis), mas na reação a esse ato ― sobre as hordas de carinhas que vasculhavam a internet em busca do vídeo com o estupro.
Alguns posts meu
s são mais informativos, narrando (e sempre comentando) um fato que acredito que não seja muito conhecido de quem me lê. Outros posts, como sobre a piada de Rafinha Bastos a respeito de estupro, ou a ridicularização do CQC à amamentação em público, eu faço para explicar algumas coisas que podem não estar claras pra muita gente (por que aquela piada é machista? Por que uma piada não é só uma piada? Por que ridicularizar a amamentação em público equivale a condenar a amamentação, ponto? Por que lutar a favor da amamentação em público é um tema feminista?). Escrever um post só pra condenar Rafinha ou CQC é fácil: bastaria colocar uma foto deles e uma legenda espirituosa, pronto. É, inclusive, o que meus haters fazem comigo (tirando a legenda espirituosa, a menos que você considere que chamar alguém de feminazi baranga gorda mal-comida tenha algo de espirituoso).
Mais uma coisinha a meu respeito. Eu não gosto de linchamentos. Sou contra a pena de morte. O que isso quer dizer? Que eu perdoo. Que eu acho que quem comete um crime tem que ser castigado pelo seu crime, mas eu, na minha enorme e quiçá ingênua esperança no ser humano, também creio em reabilitação. Acho que as pessoas podem mudar. Aliás, acho que têm que mudar. Então já fiz post perguntando por quanto tempo deve-se detestar, ou boicotar, um ator (tipo o Sean Penn) que bateu na mulher (tipo a Madonna). Pra sempre? Por alguns anos? Fiz a mesma pergunta referente ao Netinho, candidato derrotado a senador. Ele foi um monstro e espancou a mulher. Mas aparentemente se arrependeu e apresentou projetos em favor das mulheres. Devo sempre odiá-lo por ele ter batido na mulher? Mas isso não seria uma uma condenação perpétua? E se eu acredito na reabilitação? Não posso?
No que deve ser meu posicionamento mais polêmico até agora (ou ao menos um dos que meus haters mais citam), eu disse que o diretor de cinema Roman Polanski já havia cumprido sua pena pelo estupro de uma menina de 13 anos, que o crime tinha mais de trinta anos, e que havia muitos erros no processo, como demonstrado pelo excelente documentário Roman Polanski: Wanted and Desired (alguém viu? Sigo recomendando). Eu não fui a única a pensar assim ― mais de cem pessoas do cinema têm a mesma opinião. Inclusive, a justiça suíça negou a extradição de Polanski aos EUA por causa dos inúmeros erros no processo. Mas, dois anos depois, os haters continuam dizendo que eu defendo estuprador de meninas. Esses haters nunca falariam do Polanski se não fosse pra me atacar! Até parece que eles ligam pra vítima...
Não é muito diferente da atitude de meia dúzia de haters à esquerda, que me odeiam não sei por que cargas d'água. Na polêmica mais recente, fui bastante agredida verbalmente porque cometi o crime inafiançável de enviar um email a uma deputada homofóbica que disse mais ou menos isso pelo Twitter: “Eu também quero denunciar aquele blog que te ameaçou de morte e me xingou. Me mande os links pra eu encaminhá-los às autoridades competentes”. De repente, todos os posts que escrevi contra a homofobia foram apagados porque eu fiz aliança (você não sabia? Mandar um email é fazer aliança) com uma pessoa indesejável.
E por aí vai. E la nave va. Mas eu sigo escrevendo, quase sempre com muito prazer e vontade, pensando nas pessoas que gostam de mim e do blog. As que não gostam vão continuar usando cada vírgula escrita e não escrita por mim pra tentar me desabonar. E vão falhar. Porque quem conhece meu blog sabe perfeitamente bem o que defendo.