domingo, 17 de fevereiro de 2008

CRÍTICA: TROPA DE ELITE / Viva Tropa, apesar de fascista

Fico muito feliz que Tropa de Elite, do José Padilha, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Como tem bastante gente me perguntando o que achei do filme (da vitória só tenho isso a declarar, por enquanto), lá vai. Vi Tropa no meu computador, e comentei sobre ele, bem informalmente, com o pessoal querido da minha comunidade no orkut. Permitam-me reproduzir o que disse (até porque faz meses, e não me lembro bem). Como filme, Tropa é totalmente envolvente e bem-executado, com boas atuações (tirando um ou outro, como o ator que faz o Matias, que é meio fraquinho). Mas a mensagem é fascista! Simplesmente defende a pena de morte sem julgamento pra bandidos, usuários de drogas e policiais corruptos. E defende a tortura também. É uma mensagem altamente perigosa, na minha opinião. Mas pelo menos faz pensar e levanta muitas discussões interessantes. Por exemplo: o que aconteceria se as drogas fossem legalizadas no Brasil? (o filme não levanta essa hipótese em nenhum momento, mas eu pensei nisso). Não tenho nem opinião formada sobre legalização das drogas. Só fiquei imaginando o que os traficantes fariam se as drogas deixassem de ser ilícitas e fossem vendidas normalmente em farmácias. Imagino que num primeiro momento houvesse uma escalada da violência, porque os criminosos teriam que ganhar dinheiro com outros crimes. Mas e depois? Só pra esclarecer. Pessoalmente, detesto drogas. Nunca experimentei nada. Mas também considero o álcool uma droga. Conheço muita gente que usa maconha, e geralmente são pessoas que funcionam bem em sociedade. Mas mesmo essas pessoas devem assumir sua parcela de responsabilidade. Não dá pra fingir que seus atos não tenham consequência. Aí eu fiquei pensando: se chocolate fosse declarado ilegal, eu continuaria comendo? Se gerasse tráfico de chocolate, não. A menos que eu conseguisse cultivar chocolate na intimidade do meu lar, sem depender de ninguém... Quer dizer... Hipoteticamente é muito fácil falar, já que ninguém seria louco de proibir chocolate (o preço já tá bem proibitivo, né?). Sobre a polícia, não gosto dela como uma entidade. Tenho certeza que, individualmente, existem policiais honestos. Mas como instituição é um horror. E quanto mais violentas as pessoas no país, mais violenta será a polícia (suponho que na Suécia os policiais não sejam tão violentos).
Pra gente como eu, polícia é desnecessária. Sempre que precisei, ela não me ajudou em nada. Quando minha casa foi arrombada, prestei boletim de ocorrência, mas não adiantou. Várias vezes quando meus vizinhos joinvilenses sem noção de cidadania põem a música no volume máximo, eu e outros vizinhos chamamos a polícia. Nada. Ou ela não vem, ou ela vem e vai embora sem resolver. Temos um posto policial perto de casa que não tem utilidade alguma. Os policiais de lá não fazem ações preventivas. De vez em quando um vizinho diz, orgulhoso, que os policiais de lá estão espancando alguém que eles pegaram em algum ato criminoso.
Se eu estiver numa rua escura à noite, sozinha, e alguém estiver me seguindo, claro que eu ficaria muito feliz em ver um guarda na esquina. Mas nessas horas nunca tem polícia! Então eu não sei bem pra que serve a polícia. No meu caso, só resta torcer pra que os criminosos mantenham tanta distância de mim quanto a polícia...

Mais Tropa de Elite aqui.

8 comentários:

Vitor Ferreira disse...

Acho que isso é um problema bem geral. Aqui nos EUA a polícia realmente repreeende estrangeiros em qualquer oportunidade que tiver. Várias vezes sem razão. Imagino que em cada país devem existir problemas parecidos.

Daniel disse...

A despeiro das qualidades do filme, e ele tem muitas, mas é sintomático que Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny sejam as maiores bilheterias nacionais do momento, filmes que falam da contravenção. São filmes importantes para a nossa época, mas de forma nenhuma são obras-primas. Espero que Tropa de Elite ou Meu nome não é JOhnny não sejam escolhidos para disputarem o Oscar, e mais ainda estejam na lista dos concorrentes de filme estrangeiro. Porque aí tem o dilema de torcer para um filme brasileiro e levantar a auto-estima, ou não torcer que ganhe, pois não há méritos para isso.
Tudo seria mais fácil se o filme do Cao Hamburger estivesse na disputa pelo Oscar e, mesmo que não ganhasse,seria condizente de um filme com qualidade suficiente para merecer um prêmio e ao mesmo tempo levantar a bola do brasileiro e fazer carreira dentro do país. É difícil também essa equação de bilheteria com filme de qualidade.

Leonardo Bernardes disse...

Não entendo bem o que significa chamar Tropa de Elite de fascista, mas muito bem, vamos a outro ponto.

No Brasil os policiais matam sem julgamento prévio, executam? Se eles o fazem, qual é o crime de Tropa de Elite? Retratar a realidade, ou conduzir o filme de modo a dar ênfase a um personagem (policial) que se apresenta como um dos protagonistas? Se o filme tem a pretensão de ser realista, nenhuma saída é fácil. De um lado há bandidos, do outro, policiais corruptos ou violentos. A escolha é compreensível, escolheram mostrar as coisas pela via de um dos policiais -- que de modo algum é glamourizado. O que acontece é que não há respostas fáceis nessa situação. Enquanto não houver saídas institucionais para a violência, haverá pessoas que, para o bem ou para o mal, chamarão para si a responsabilidade de regular o nível de criminalidade -- queiram ou não, essa é a realidade.

Não é desejável que essa seja nossa realidade, mas tampouco podemos negá-la ou simplesmente condenar sua expressão. Mary Poppins não ajudará muito com as coisas por aqui.

Alex disse...

Concordo com oque o Leonardo disse, enquanto não houver uma legislação que saiba lidar com a violência em todas os níveis, sempre irão existir pessoas que, de uma forma ou outra, fazem justiça com as próprias mãos. Acho que "Tropa de Elite" criou um novo herói nacional, o Capitão Nascimento, que mostra como o brasileiro popular apóia a violência policial para acabar com a criminalidade. Infelizmente.

lola aronovich disse...

É uma tremenda vitória Tropa de Elite ter derrotado o favorito, Sangue Negro, em Berlim! Isso traz muita repercussão, e é bom pro cinema brasileiro. Se Tropa tivesse sido escolhido pra representar o Brasil no Oscar ao inves de O Ano..., nao sei se teria conseguido ser indicado. Se bem que tá todo mundo reclamando da escolha da Academia pra disputa de filme estrangeiro. Persepolis e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias ficaram de fora! E os críticos os consideram dois dos melhores filmes de 2007...

lola aronovich disse...

Leo, Tropa parece bem realista, e claro que adota um ponto de vista, uma defesa. A mensagem é que, pra zona que a polícia dar certo num país todo bagunçado e corrupto, só com a força e integridade de um só homem (ou um grupinho). Isso é fascista! São homens que se colocam acima da lei pra virarem juízes e algozes. Tipo "Desejo de Matar", ué! A gente fica com a maior vontade de sair por aí liquidando bandidos, como fazem o Charles Bronson e o Capitão Nascimento. Esses filmes são muito eficientes em manipular nossas emoções. Mas nem por isso a gente precisa concordar com o que falam. Não condeno de modo algum que Tropa de Elite exista, faça sucesso, ganhe em Berlim - pelo contrário! Acho um ótimo filme. Mas o Cap. Nascimento nao é um herói pra mim! Essa nao é a policia que eu quero!

lola aronovich disse...

É verdade, Alex, pelo que li o Cap. Nascimento virou herói. Isso é normal. Quando eu morava em SP, toda vez o Maluf disputava uma eleiçao e prometia colocar a Rota na rua, subia 10 pontos no ibope... Violência pra combater violência? Isso nao me agrada nem um pouco.

Leonardo Bernardes disse...

"A mensagem é que, pra zona que a polícia dar certo num país todo bagunçado e corrupto, só com a força e integridade de um só homem (ou um grupinho)"

Mas em que parte do filme essa idéia é sustentada?

Escrevi Um parecer tardio sobre Tropa de Elite que talvez contribua com alguma coisa. Se interessar, leiam.