domingo, 22 de novembro de 2020

SE BETO FOSSE BRANCO, ELE ESTARIA VIVO

Os racistas de sempre começaram a culpar a vítima desde a repercussão do terrível vídeo que mostra o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, mais conhecido como Beto, que foi morto por dois seguranças num Carrefour de Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra.

Dizem que ele tem ficha criminal, que tinha denúncias de violência doméstica, que a causa da morte não foi o racismo (que nem existe no Brasil, segundo o vice-presidente), e sim asfixia ou parada cardíaca! Até agora ninguém explicou como que uma simples e rápida ida a um supermercado a 600 metros de sua casa, com a esposa, numa quinta à noite, pode resultar em morte. 

Pessoas negras sempre contam como são tratadas como suspeitas em lojas e supermercados. Há inúmeros casos de racismo registrados em todo o país, mas os racistas insistem em negar. 

É só pensar: se Beto fosse branco, ele teria sido espancado até a morte por seguranças?

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

UMA CARTA À GENTE BRANCA

Hoje é o Dia da Consciência Negra, e para marcar esta data tão importante, publico um belo texto de Mahara Santos, que é negra, feminista, apaixonada por literatura e futura engenheira civil, e que escreve no Letras Pretas.

Cara gente branca,

já que vocês decidiram perguntar – a gente já tem falado disso há um tempo e vocês não quiseram ouvir, mas enfim –, vou responder à sua pergunta: o que você pode fazer para não ser racista?

Vamos começar relembrando um pouco da sua história de luta contra o racismo. Sua batalha começou no dia 25 de maio de 2020, em Minneapolis, nos Estados Unidos. Sim, nos Estados Unidos. O dia do assassinato do George Floyd. Um acontecimento muito triste mesmo. Foi nesse dia que você decidiu tomar uma atitude. A polícia não pode matar pessoas negras o tempo todo, sem motivo, e ainda sair impune. “Isso é um absurdo!”, você diz. Eu concordo plenamente, é uma droga mesmo. Depois desse dia, você postou vários stories no Instagram falando sobre o caso, usou a hashtag do movimento Blackout Tuesday, postou a imagem preta. E foi isso que você fez. Ganhou alguns likes e parou por aí.

Fico muito feliz que vocês tenham percebido como o racismo afeta nossa sociedade; reconhecer a existência desse problema já é um grande passo. Mas postar uma foto e usar uma hashtag não resolvem o problema, gente branca. Não adianta chorar a morte do George na internet e falar que aqui no Brasil a polícia só mata vagabundo. Vocês estão se contradizendo, amiguinhos. Vamos ver agora alguns comportamentos que vocês podem mudar em si mesmos e nas pessoas ao seu redor, para que vocês, além de não serem racistas, sejam antirracistas.

Primeira: se eu contar sobre um caso de racismo que eu sofri, não tente minimizar contando o que aconteceu com você. Você é branco, eu sou preta. O que você vive não pode ser comparado com o que eu vivo, porque nós somos tratados de forma diferente. Reconheça essa diferença e entenda que ela existe porque a cor da minha pele é diferente da sua. Se eu ficar chateada ou com raiva, fica chateado e com raiva também, se coloca no meu lugar e tenta entender o que eu estou sentindo. Quando alguma situação desagradável ocorrer, tente ter empatia em vez de dizer que eu estou exagerando. Resumindo: não discuta, escute e aprenda.

Segunda coisa: parem com esse papo de que os negros têm privilégios. Que privilégios a gente tem, gente branca? Não responda que um negro roubou a sua vaga por causa do sistema de cotas, pelo amor de deus. Não é culpa nossa que você ficou com média 400 no ENEM. O sistema de cotas é uma de muitas ações afirmativas que visam diminuir a disparidade social, econômica e educacional historicamente acumulada entre diferentes etnias. O governo decidiu, depois de muita luta, criar o sistema de cotas para que as pessoas negras tivessem acesso à universidade. É dever do Estado garantir acesso à educação para todos, certo? Isso não acontecia, então implantar o sistema de cotas… bem, eles não estão fazendo menos que a obrigação. Mesmo com as ações afirmativas, a população negra é maioria quando se trata de pobreza, população carcerária, desemprego e evasão escolar. Até hoje, tudo que seja relacionado ao povo negro é menosprezado e humilhado. Que privilégios vocês acham que a gente tem?

Terceira: pare de hipersexualizar e desumanizar as pessoas negras. Não fale que todo homem negro tem pinto grande, que toda mulher negra é um furacão na cama, que a nossa pele é da cor do pecado, que sua empregada doméstica está quarentenando com você porque ela não tem família. Pelo amor, ela está quarentenando com você porque ela precisa do dinheiro e você não teve a decência de pagá-la enquanto ela fica em casa. Pare de tratar pessoas negras como um fetiche sexual ou serventes. Trate as pessoas negras como pessoas. São pessoas que têm família, sentimentos, problemas e necessidades, assim como você. Não é muito difícil fazer isso, gente branca.

Quarta: leia livros, escute músicas e siga influenciadoras negras e negros. As pessoas negras já estão contando suas histórias e expressando a sua arte já tem bastante tempo. Então, em vez de pedir para um branco colocar um protagonista negro nas suas histórias – o fato de você prestar atenção na falta de protagonismo negro já é um bom sinal –, apoie as pessoas negras que já vêm contando suas próprias narrativas. Repare também nos espaços que você frequenta, seja escola, ambiente de trabalho, ou um restaurante ao qual você vai. Quantas pessoas negras tem ali? Elas estão na mesma posição que você, ou estão de algum modo te servindo? Reconheça seus privilégios para que você conheça as desvantagens que nós sofremos por causa da nossa cor.

Quinta, e essa é bem simples: ninguém liga se a sua tataravó por parte de primo de terceiro grau é negra ou se você tem amigos negros. Isso não é desculpa para reproduzir falas racistas. “Ah, mas o meu bisavô é negro, então eu posso falar sim.” Não! Não, cara! Você não pode! Não use sua família e amigos como escudos. Não tem desculpa, gente branca. De maneira alguma você deve reproduzir falas racistas. Vou repetir, para ver se isso entra na sua cabeça: não importa se a sua tataravó é negra, isso não te dá o direito de reproduzir falas racistas. Na verdade, você não deve reproduzir falas racistas de maneira alguma.

Muito bem! Essas foram algumas das coisas que vocês, brancos, podem mudar em si mesmos. Agora que você aprendeu, espalhe seu conhecimento. Se alguém falar algo racista, corrija. Diga por que está errado. Geralmente eu acho que isso de “a mudança começa em você” é uma bobagem, mas nesse caso é verdade, mesmo. Caso você queira aprender mais, pesquise. Existem alguns perfis educacionais no Instagram, textos na internet e livros como o Pequeno Manual Antirracista, já resenhado aqui. Se você ainda pensa que o racismo não existe, leia um livro de história, pelo amor de deus! E depois a gente discute.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

BORAT 2 É FEMINISTA?

Como vocês sabem, gostei bastante de Borat 2. Até falei um pouco sobre o filme aqui. Sem dar spoilers, quem rouba a comédia é a filha de Borat, Tutar, interpretada pela revelação Maria Balakova. 

O filme traz algumas reviravoltas inesperadas. Tanto que levou a esta matéria da Newsweek: "Borat 2 é um filme feminista? Esses fãs estão chocados que a resposta seja sim". Pedi ao meu querido Vinícius Simões para traduzir este artigo que me chamou a atenção. Deixo a resposta pra vocês.

Borat: Fita de Cinema Seguinte possuindo um toque feminista é uma das últimas coisas que esperaríamos de 2020.

No dia 23 de outubro, a sequência muito aguardada da sátira de Sacha Baron Cohen de 2006, Borat, foi lançada. Borat: Fita de Cinema Seguinte acompanha o protagonista Borat e sua filha, Tutar (Maria Balakova), que viajam aos Estados Unidos para oferecer Tutar como noiva ao vice-presidente Mike Pence. O mockmumentary tira sarro dos EUA e faz pegadinhas com celebridades, assim como seu predecessor. Desta vez, no entanto, o filme tem uma camada feminista – sim, pessoal, vocês leram direito.

Borat menospreza Tutar durante a maior parte do longa, indo de insistir que ela não será bonita a não ser que faça uma cirurgia plástica até perguntar à balconista de uma loja de vestidos pela seção “não significa sim”. Em determinado momento, ele chega a comprar uma jaula para ela ficar dentro.

Entretanto, até o final do filme, Borat muda de opinião. [spoilers] Ele reconhece que sua filha (a quem ele se refere como seu filho não-homem no início) é uma pessoa que pode tomar suas próprias decisões de maneira independente. Ele até lhe diz que a ama mais do que a seus filhos, e proíbe que ela volte ao Cazaquistão apenas para viver em uma jaula.

Mas mesmo quando não foca na misoginia sem noção de Borat, o filme aborda sexismo – e a sequência até mesmo inclui alguns momentos genuínos e tocantes de empoderamento.

Tutar fica chocada, por exemplo, quando Jeanise Jones, uma mulher contratada por Borat para ser sua babá, explica que mulheres podem dirigir e ler, e até administrar empresas (vale notar que Borat deixa Tutar passando o dia com uma bola e uma corrente, uma tigela de cachorro e um manual de instruções). Jones também diz a Tutar, horas antes d'ela ser encaminhada para a plástica, que ela é bonita e inteligente do jeito que é, e a encoraja a escapar do relacionamento tóxico em que está com seu pai. 

Muitos fãs ficaram positivamente surpresos ao perceberem que a sequência de Borat está sinceramente preocupada com o feminismo.

“Borat 2 talvez seja o filme feminista mais esperto da história recente”, uma usuária do Twitter escreveu. “Eu amo que as pessoas que estão assistindo estão claramente se divertindo e se perguntando ‘espera,... isso é... isso é feminista?’”

“Acho que serei xingado por dizer isso... mas Borat 2 é um filme feminista surpreendentemente bom, ou estou perdendo algo?”, outra pessoa tuitou.

“Sem spoilers, mas o novo Borat talvez seja o pequeno e vulgar filme feminista mais doce que já vi. E uma deliciosa peça de sátira”, acrescentou um terceiro.


Uma usuária apontou que a “confusão envolvendo [Rudy] Giuliani”, na qual o ex-prefeito de Nova York aparenta fazer investidas sexuais em Tutar, distrai dos momentos feministas e radicais do filme. 

Ao retornar para casa, Borat convence o premiê cazaque Nursultan Nazarbayev a reverter as leis misóginas do país. A última cena até inclui a dupla pai e filha apresentando juntos um segmento de notícias. Muito legal!

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

SOMOS TODAS ANA LUCIA MARTINS

Ainda estamos comemorando a eleição da primeira vereadora negra da história de Joinville quando ficamos sabendo que ela vem recebendo ameaças de morte e ofensas racistas antes mesmo de sair o resultado oficial.

Ana Lúcia Martins, professora e servidora pública aposentada, conquistou a façanha de receber 3.126 votos numa cidade (e num Estado) em que negros são invisíveis (tanto que Floripa foi a única capital do país que só elegeu vereadores brancos em 2020), embora 12% da população catarinense seja negra. Ana Lúcia será a única vereadora do PT na Câmara, que havia ficado sem nenhum representante da esquerda em 2016. Será também uma das duas únicas mulheres (a outra é do PSL).

Infelizmente, a violência não é novidade na vida de Ana Lúcia. Em dezembro de 2018, seu marido Maurício Rosskamp, advogado e servidor concursado na Câmara de Vereadores, foi vítima de latrocínio, num caso que chocou a cidade. Na noite de domingo, as redes sociais de Ana Lúcia foram invadidas, mas felizmente sua equipe foi capaz de resolver o problema rapidamente. Um radialista local criticou a eleição da vereadora e disse que o PT deveria acabar. Ela recebeu através de um perfil falso duas ameaças de morte, uma delas da "Juventude Hitlerista". Anteontem ela fez um boletim de ocorrência e afirmou: 

"Sabia que não seria fácil. Estava ciente que enfrentaria uma certa resistência em uma cidade que elegeu apenas na segunda década do século XXI a primeira mulher negra. Só não esperava ataques tão violentos e com aval de parte de pessoas que se declaram 'profissionais da imprensa'. No mais, conto com o apoio de todas, todos e todes que são contra o discurso de ódio e a violência, que se levantam contra o racismo, o machismo, LGBTfobia e toda forma de opressão. Não vão nos calar. Não vamos recuar. Seguimos firmes, com coragem e disposição para defender os direitos da população negra, das mulheres, da juventude, da população periférica, Imigrantes e refugiados e da classe trabalhadora".

Marcio Cruz, do Instituto de Direitos Humanos, Econômicos e Sociais (IDHES), Coletivo Joinville, enviou nota pedindo para que todas as organizações sociais denunciem essas ameaças contra a vereadora: 

"Bom dia, pessoal. Já esperávamos por reações negativas após o resultados das eleições, mas não esperávamos uma reação violenta e desproporcional, como uma ameaça de morte. Lembramos do que aconteceu com Marielle Franco e não vamos deixar que isso se repita nunca mais. Esse sujeito do print diz estar organizado com uma Juventude Hitlerista. Precisamos dar a resposta nas redes e nas ruas, precisamos cobrar justiça e investigações sobre esse caso. Precisamos exigir uma mega operação contra grupos neonazistas da cidade e do estado. Vamos à luta!"

Ana Lúcia, você não está só. Esses ataques são criminosos e devem ser investigados e punidos com urgência. A tag é #SomosTodasAnaLuciaMartins

UPDATE: O rapaz de 22 anos que ameaçou a vereadora já foi descoberto. Hoje (domingo, 22/11), houve busca e apreensão em sua casa, em Joinville. Aliás, na casa da mãe, já que -- óbvio -- ele mora com a mãe. Também óbvio, o covarde negou ter sido o autor das ameaças. A polícia investiga se ele, que sofre de esquizofrenia, foi instigado a fazer as ameaças. Na quarta, muito nervoso, engoliu o chip do celular. Pode pegar entre 2 a 5 anos de prisão. Vai se ferrar bonito. Que sirva de exemplo.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

GANHEI PROCESSO CONTRA O MASCU NEONAZI EMERSON

                                        Vídeo com a participação especial da Joinha

Olá, gente ótima! Não sei se o pessoal que me lê aqui é o mesmo que vê meus vídeos no canal Fala Lola Fala. Tenho que deixar um pequeno registro aqui também.

No final de semana passada, gravei um vídeo com uma excelente notícia: ganhei um processo! Não vou explicar tudo aqui (veja o vídeo!), mas em 2013, assim que saiu da cadeia, o mascu neonazista Emerson Eduardo Rodrigues abriu um processo contra mim, exigindo indenização de quase R$ 41 mil por danos morais (lembrando que tudo que eu denunciei foi julgado e comprovado, já que ele e seu comparsa Marcelo Valle Silveira Mello foram condenados). Só fiquei sabendo da ação quase dois anos depois, e então, sob orientação da minha advogada na época, entrei com reconvenção (ou seja, eu o processo). Anexei alguns dos inúmeros vídeos que Emerson gravava me difamando. 

Ele me acusava (me acusa ainda: ainda faz literalmente centenas de vídeos mentindo sobre mim e qualquer outra pessoa que ele tente fazer parceria e ela não responde ou o manda pro inferno) de todo tipo de crime: de roubar a universidade onde trabalho (aparentemente a verba pra adquirir livros pra biblioteca é tão grande que eu comprei carrões e mansões com ela), de trocar notas por sexo, de fraudar concurso, de sacrificar bebês, de ser pedófila, racista e antissemita, de promover massacres, de comprar meu diploma, de matar o pai dele, de ser "a grande porca da mãe terra desta seita satânica" (o feminismo)... Enfim, o cara é um completo psicopata que me ataca desde no mínimo 2011. 

Nunca houve nenhuma audiência, e Emerson acabou abandonando o processo. Ano passado o juiz decidiu que ele deve pagar R$ 4 mil de custas processuais para a minha advogada. Estávamos esperando ainda o julgamento da reconvenção, que saiu no final de outubro. A sentença classifica os ataques de Emerson como discurso de ódio, afirma que o direito à liberdade de expressão não pode ferir a imagem e dignidade de terceiros, e fixa em R$ 25 mil a indenização que ele deve pagar a mim, além de 15% do valor da ação a minha advogada.

Fiquei muito feliz, mas é óbvio que ele não vai pagar, porque ele fugiu pra Espanha há quase três anos. Ainda vou ver com advogadas o que podemos fazer. Mas lógico que ele já gravou vários outros vídeos estranhos sobre isso. Num deles ele diz que eu não ganhei, que o advogado dele abandonou o processo, mas que eu só ganhei porque alguém me sustenta (?). Noutro vídeo, ele diz que eu sou transexual, e é por isso que não tenho filhos. Uma "fonte confiável" contou a ele, sabe.

Outro dia eu vi num site (que copia a Wikipedia escrito por mascus e que tem um verbete quilométrico sobre ele) este trecho, referente à vida de Emerson em 2013 (clique para ampliar):

Não sei faz quanto tempo este amontoado de mentiras está lá, mas não paro de me impressionar como eles não têm qualquer compromisso com a verdade. 

Mas é isso, gente querida. Vejam o vídeo, inscrevam-se no canal, deem like, e todas essas coisas que quem tem canal no YouTube sempre pede! E Emerson, go f* yourself, que é a melhor coisa que um incelzinho metido a ariano pode fazer!