domingo, 25 de setembro de 2016

GOLPE 16, A RESISTÊNCIA E O FUTURO DA DEMOCRACIA

Pessoas queridas do Ceará, nesta terça-feira, dia 27 de setembro, às 18:45h, acontecerá o evento "Golpe 16: A resistência e o futuro da democracia".
O evento será na Adufc (Av. da Universidade, 2346, Benfica, Fortaleza) e incluirá uma mesa redonda sobre a conjuntura política do país e um protesto contra o golpe, com a presença de três professoras da UFC -- eu e as aguerridas Alba Pinho de Carvalho (Ciências Sociais) e Irenísia Oliveira (Literatura). Com a ajuda da Adufc, vamos trazer de SP o Renato Rovai, jornalista e editor da Fórum
Depois da mesa-redonda haverá um coquetel e o lançamento do livro Golpe 16, organizado por Renato. O livro tem 224 páginas e 23 artigos com diferentes enfoques escritos por nomes ilustres da blogosfera de esquerda, como Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Luiz Carlos Azenha, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira, Tarso Cabral Violin, e eu. 
Além disso, traz um prefácio do Lula e uma entrevista exclusiva que Dilma deu a Maíra Streit e Renato em agosto. 
Modéstia à parte, meu artigo ficou muito bom. Eu o reli e gostei! Agora arranjei um tempinho e comecei a ler alguns artigos. Eles estão excelentes. Como eu já disse, tenho muito orgulho de fazer parte do livro. Destaco alguns trechos.

Em algumas páginas, Rovai, o organizador do livro, dá um ótimo apanhado da nossa história recente. "Mesmo ganhando pela esquerda, Dilma definiu seu governo da reeleição [em 2014] olhando mais para a direita. Na posse da presidenta Dilma, no dia 1o de janeiro de 2015, já era claro o descontentamento de setores do PT e da esquerda com os rumos que o seu segundo governo tomara. [...] O golpe não é, o golpe vai sendo. Nem aconteceu num único dia e muito menos por conta de erros ou acertos de uma ou outra pessoa". 

Cynara Menezes, do Socialista Morena, trata da perseguição a Dilma como uma "caça às bruxas" e faz uma comparação instigante: lembra o que era dito a e sobre FHC no auge da sua impopularidade, em 1999, e o que era dito a e sobre Dilma no auge da sua. O machismo domina, a gente sabe. "Qual a diferença entre um presidente impopular e uma presidenta impopular? Nenhuma, a não ser o fato de que, em se tratando de uma mulher, os ataques se concentram literalmente abaixo da linha de cintura. O 'fator machismo' do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff ainda será objeto de estudos, mas só um misógino como os que a perseguem não consegue enxergar a influência do preconceito de gênero no ódio em torno dela". 

"Fugiu-se -- aliás foge-se há muitos anos -- da polêmica e da disputa, aceitando a ideia de que o Brasil poderia ser 'o país de todos', o que não foi, não é e não será, no horizonte visível, porque nem mesmo as equações de 'ganha-ganha' as elites brasileiras aceitaram, seja na economia, seja numa prosaica passagem pelos aeroportos" (Fernando Brito, do Tijolaço). 

"Está claro que sem comunicação democrática não é possível haver democracia. E, por outro lado, é evidente que sem democracia não há espaço para a existência de uma comunicação democrática. Por isso, quando são atacados os pilares de um Estado Democrático de Direito, uma das primeiras vítimas é a liberdade de expressão" (Renata Mielli, jornalista e Coordenadora Geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação). 

"No Brasil, na mídia tradicional, criou-se uma versão dos fatos que ignora a realidade. Independentemente de provas, eles já escolheram um criminoso e depois ficam só atrás do crime. Mas eles hoje já não falam sozinhos. A democracia que construímos a duras penas no Brasil permitiu que uma rede de veículos independentes, de blogueiros, de midialivristas e mesmo de ativistas digitais, professores, cidadãos, fizesse o contraponto informativo. E isso é uma coisa que incomoda aqueles que sempre tiveram o privilégio de falar sozinhos" (Luis Inácio Lula da Silva, no prefácio do livro).

"Apesar da verba dos anúncios institucionais e das empresas estatais na mídia alternativa equivaler a apenas 0,6% do orçamento da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, os golpistas confirmaram que temem as suas críticas e denúncias, que não toleram o contraponto. Por outro lado, eles mostraram sua enorme gratidão à imprensa hegemônica, que foi a principal protagonista do 'golpe dos corruptos', criando o clima para desestabilizar o país, para estimular o ódio fascista na sociedade e para viabilizar o impeachment ilegal da presidenta Dilma" (Miro Borges)

"Acredito que há um centro nesse golpe. Diante da crise, e não estou falando dessa crise, mas da que começa lá em 2008, há sempre um conflito, que surge em todos os países: quem vai perder mais ou quem vai ganhar menos. É a visão do governo interino e provisório, de um lado, caracterizado pela figura do pato [da Fiesp]. O pato é gravíssimo. É uma visão de um segmento da elite econômica do Brasil que acha que quem paga o pato é só a população brasileira. E isso se expressa em algumas medidas propostas pelo governo ilegítimo" (Dilma Rousseff, em entrevista dada em agosto para Maíra Streit e Renato Rovai).  

E tem muito, muito mais. Portanto, se você não é de Fortaleza e quer adquirir o livro, ele está sendo vendido em vários lugares na internet, e também nas livrarias. Agora, se você quiser um livro com dedicatória minha (que deve ser a maior dedicatória já escrita na história da humanidade), basta depositar R$ 43 (equivalente aos 35 do livro, mais o preço do envelope e do envio registrado pelo correio) numa das minhas duas contas (em nome de Dolores): Banco do Brasil, agência 3653-6, conta 32853-7, ou Santander, agência 3508, conta 010772760
Depois me mande um email (lolaescreva@gmail.com) com alguns dados sobre você, pra que eu possa me inspirar e escrever uma dedicatória mais pessoal. E o endereço (com CEP) pra onde eu devo mandar o livro. Dica: você pode dar o livro de presente. Eu escrevo uma dedicatória pra pessoa, é só me falar um pouco sobre ela. 
E se você é do Ceará ou perto, venha pro nosso evento na terça. Aliás, eu peço que, se você for comprar o livro, já traga os R$ 35 certinhos, porque os bancos estão em greve e eu tenho exatamente sete notas de R$ 5, cinco de R$ 10, e dez de R$ 20. Tenho medo de não ter troco suficiente. E se você quiser vir só pra ver a mesa redonda, não tem problema. Mas venha!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

REFORMA DE ENSINO MÉDIO DO (DES)GOVERNO: UMA ESCOLA PARA RICOS, OUTRA PARA POBRES

Ontem tivemos mais um show de horrores do governo golpista, ao lançar uma reforma do ensino médio. 
Primeiro que não se faz uma enorme reforma na educação por medida provisória (MP). Isso tudo tem que ser amplamente discutido, não pode ser imposto. Tem que fazer parte de plano de governo, aprovado nas urnas.
Segundo que não cabe a um governo interino, sem legitimidade, sem voto, reformas estruturais. Não só na educação, como na previdência, nas leis trabalhistas, em nada. Mexer em regras que afetarão a vida de milhões de brasileiros para sempre é o golpe dentro do golpe.
A reforma prevê ensino integral, de 7 horas, uma incongruência, pois o governo já anunciou cortes imensos na educação. Quem vai dar aula pra esses jovens, se o MEC não contratará novos professores? Ah, gente sem diploma. Isso está na MP. 
O que mais chamou a atenção ontem nas redes sociais  foi a eliminação (ou "deixar como matérias optativas", o que dá no mesmo) de Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física. Tantas pessoas protestaram (inclusive os jovens alunos dessas disciplinas, que saíram em sua defesa, certificando sua "utilidade" -- que termo absurdo quando falamos em educação) que o governo teve que voltar atrás. Disse que lançou a versão errada da MP. É rir pra não chorar.
Reaça é mesmo tão burro assim ou
se faz? Esta performance não teve
nada a ver com Ensino Médio
A felicidade dos reaças com o fim de Sociologia e Filosofia mostra mais uma vez o pouco apreço que essa gente tem pela democracia e pelo pensamento crítico. Para eles, essas duas disciplinas (e Artes também, e Geografia, e Literatura) são antros marxista de doutrinação ideológica. Logo, tem mais é que acabar com elas mesmo -- e, de preferência, com os "professores comunas maconheiros" que dão essas aulas. 
É pra isso que fundamentalistas cristãos estão investindo a fundo na "Escola sem Partido", chamada pelos próprios professores de Lei da Mordaça. Esse projeto ditatorial não tem grande chance de passar, porque boa parte da população já percebeu o caráter fascista por trás. 
Então, se não podemos passar a Lei da Mordaça, vamos tirar as disciplinas "problemáticas", aquelas que ensinam os alunos a pensar. 
Ontem pela manhã, numa assembleia que tivemos no nosso sindicato de docentes da UFC, uma professora explicou: em governos de exceção, sempre se mexe na educação. E as primeiras disciplinas a serem limadas são sempre aquelas associadas ao pensamento crítico. Mas não vamos desistir. Vamos pras ruas.
Reproduzo aqui um excelente texto publicado ontem no site da Anped. O texto é da autoria do filósofo e educador Gaudêncio Frigotto, professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da UERJ.

A reforma de ensino médio proposta pelo bloco de poder que tomou o Estado brasileiro por um processo golpista, jurídico, parlamentar e midiático, liquida a dura conquista do ensino médio como educação básica universal para a grande maioria de jovens e adultos, cerca de 85% dos que frequentam a escola pública. Uma agressão frontal à constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes da Educação Nacional que garantem a universalidade do ensino médio como etapa final de educação básica.
Os proponentes da reforma, especialistas analfabetos sociais e doutores em prepotência, autoritarismo e segregação social, são por sua estreiteza de pensamento e por condição de classe, incapazes de entender o que significa educação básica. E o que é pior, se entende não a querem para todos.
Com efeito, por rezarem e serem co-autores da cartilha dos intelectuais do Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio etc, seus compromissos não são com direito universal à educação básica, pois a consideram um serviço que tem que se ajustar às demandas do mercado. Este, uma espécie de um deus que define quem merece ser por ele considerado num tempo histórico de desemprego estrutural. O ajuste ou a austeridade que se aplica à classe trabalhadora brasileira, da cidade e do campo, pelas reformas da previdência, reforma trabalhista e congelamento por vinte anos na ampliação do investimento na educação e saúde públicas, tem que chegar à escola pública, espaço onde seus filhos estudam.
A reforma do ensino médio que se quer impor por Medida Provisória segue figurino da década de 1990 quando MEC era dirigido por Paulo Renato de Souza no governo Fernando Henrique Cardoso. Não por acaso Maria Helena Guimarães é a que de fato toca o barco do MEC. Também não por acaso que o espaço da mídia empresarial golpista é dado a figuras desta década.
Uma reforma que retrocede ao obscurantismo de autores como Desttut de Tracy que defendia, ao final do século XIX, ser da própria natureza e, portanto, independente da vontade dos homens, a existência de uma escola rica em conhecimento, cultura etc, para os que tinham tempo de estudar e se destinavam a dirigir no futuro e outra escola rápida, pragmática, para os que não tinham muito tempo para ficar na escola e se destinavam (por natureza) ao duro ofício do trabalho.
Neste sentido é uma reforma que anula Lei Nº. 1.821 de 12 de março de 1953. Que dispõe sobre o regime de equivalência dos cursos de grau médio para efeito de matrícula nos curso superiores e cria novamente, com outra nomenclatura, o direcionamento compulsório à universidade. Um direcionamento que camufla o fato de que para a maioria da classe trabalhadora seu destino são as carreiras de menor prestigio social e de valor econômico.
Também retrocede e torna, e de forma pior, a reforma do ensino médio da ditadura civil militar que postulava a profissionalização compulsória do ensino profissional neste nível de ensino. Piora porque aquela reforma visava a todos e esta só visa os filhos da classe trabalhadora que estudam na escola pública. Uma reforma que legaliza o apartheid social na educação no Brasil.
O argumento de que há excesso de disciplinas esconde o que querem tirar do currículo -- filosofia, sociologia e diminuir a carga de história, geografia etc. E o medíocre e fetichista argumento que hoje o aluno é digital e não aguenta uma escola conteudista mascara o que realmente o aluno desta, uma escola degradada em seus espaços, sem laboratórios, sem auditórios de arte e cultura, sem espaços de esporte e lazer e com professores esfacelados em seus tempos trabalhando em duas ou três escolas em três turnos para comporem um salário que não lhes permite ter satisfeitas as suas necessidades básicas.  
Um professorado que de forma crescente adoece. Os alunos do Movimento Ocupa Escolas não pediram mais aparelhos digitais, estes eles têm nos seus cotidianos. Pediram justamente condições dignas para estudar e sentir-se bem no espaço escolar.
Por fim, uma traição aos alunos filhos dos trabalhadores, ao achar que deixando que eles escolham parte do currículo vai ajudá-los na vida. Um abominável descompromisso geracional e um cinismo covarde, pois seus filhos e netos estudam nas escolas onde, na acepção de  Desttut de  Tracy,  estudam os que estão destinados a dirigir  a sociedade.
Uma reforma que legaliza a existência de uma escola diferente para cada classe social. Justo estes intelectuais que em seus escritos negam a existência das classes sociais. 
Quando se junta prepotência do autoritarismo, arrogância, obscurantismo e desprezo aos direitos da educação básica plena e igual para todos os jovens, o seu futuro terá como horizonte a insegurança e a vida em suspenso.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

HOMEM ENSINA: MULHER NÃO PODE SAIR DE CABELO MOLHADO

Gente querida, estou muito sem tempo e nem ia postar nada hoje, mas esta pérola me chegou e não pude resistir.
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Um consultor de carreira escreveu, em pleno 8 de março de 2014 (Dia Internacional da Mulher), uma dica que, segundo ele, havia obtido "muito sucesso em 2013, assim mais e mais mulheres poderão aprender a se portar diante deste temido mundo corporativo". Aham. Vamos ver um homem ensinando mulheres a se portar (o patriarcado já faz isso todos os dias por você, campeão).
A "dica de extrema importância" é: "Evite cabelos molhados. SEMPRE! Os cabelos molhados passam uma mensagem de que você passou a noite no motel, atiçando assim os hormônios do público masculino e denegrindo sua imagem, constantemente associada a promiscuidade". 
Não sei por que essa estupidez de dois anos e meio atrás voltou à pauta do dia em alguns espaços no FB. Deve ser porque essas barbaridades nunca saem de moda. Eu ouvi isso de "cabelo molhado faz parecer que a mulher veio do motel" (homem tudo bem) recentemente. 
Não sei faz quanto tempo, mas certamente eu já tinha passado dos quarenta e já tinha ido pra todo lugar (escola, trabalho, faculdade, quiçá até motel) de cabelo molhado, porque eu não uso secador (nem tenho, aliás).
Eu não sabia que eu e o montão de alunas e colegas de cabelo molhado estavam distraindo os pobres homens, "atiçando os hormônios do público masculino" (ha ha, rio muito com essa frase), e fazendo com que legiões de senhores nos associassem à promiscuidade. 
Eu pensava ingenuinamente que o pessoal iria deduzir o óbvio -- que eu lavei as madeixas em casa mesmo e fui direto pro trabalho ou local de estudo. 
Mas as conspirações sobre nossas excitantes vidas sexuais são muito mais interessantes, claro!
Parece que a recepção a essa pérola em 2014 não foi tão positiva quanto no ano anterior, porque o consultor a tirou do ar. Hoje, quando uma mulher reclamou (com muita razão: "Qual o problema em fazer sexo, você não faz?", perguntou ela), o consultor avisou que já havia se retratado a respeito dessa "famigerada colocação" (e deu um jeito de lembrar do seu maravilhoso currículo). 
E aí? Vocês saem com cabelo molhado? Vocês associam cabelo molhado a sexo (e tipo, não a banho? Lamento informar que eu, por exemplo, tomo mais banho do que faço sexo)? Vocês associam mulher ir a motel com promiscuidade? Vocês confiariam num consultor que dá uma dica dessas? Vocês não acham que o que de fato "denigre a imagem" (e deve-se evitar usar essa palavra, denegrir, porque ela é vista como racista; talvez arruinar, difamar? Pode manchar?) dos homens, e não das mulheres, é que alguns deles não podem ver uma mulher de cabelo molhado sem que os hormônios deles fiquem saltitantes? Ou sem que eles pensem "Putz, ela transa! Que vadia!".

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

MAIS UMA PROVA DE QUE A CULTURA DO ESTUPRO SEGUE FIRME E FORTE

Hoje saiu uma pesquisa do Datafolha, feita a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 
E os resultados, mais uma vez (só eu me lembro dos 26% da pesquisa do Ipea que, dois anos atrás, concordavam com a afirmativa "Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas"? Ou dos 59% dos entrevistados que afirmaram que "Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros"?), são revoltantes. 
Segundo o Datafolha, 30% das 3.625 pessoas entrevistadas em 217 municípios afirmaram concordar com a frase "A mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada" (mesmo percentual para homens e mulheres). Para a frase "Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas", 37% concordaram (42% dos homens, 32% das mulheres). 
Pessoas mais velhas, que moram em cidades pequenas, e quem têm menor índice de escolaridade são as que mais concordam com essas barbaridades. Por exemplo, 41% daqueles que têm ensino fundamental concordam. Mas, entre os que têm ensino superior, isso cai para 16% (o que ainda é um absurdo). Sinal de que o "Antes e depois da Federal" é uma calúnia nada engraçada dos reaças zueros (que certamente estão entre os que concordam que a vítima é culpada pelo próprio estupro). 
Educação ajuda a combater preconceitos. E isso que não temos aulas de gênero nem nas escolas, nem nas universidades...
Outro dado interessante da pesquisa é que 85% das mulheres no país temem sofrer algum tipo de violência sexual. 
Ou seja, é um medo que atinge a praticamente todas nós, e obviamente esse medo afeta a nossa vida, a nossa liberdade. Mesmo entre os homens, o temor se sofrer agressão sexual é de 46%. Estranho: homem adulto tem medo de ser estuprado a menos que seja preso? 
De todo modo, os números mais uma vez confirmam que cultura de estupro existe e continua firme e forte. Mais de um terço da população culpa a vítima pelo próprio crime que sofre!
Por coincidência, hoje recebi este relato da R. que se aplica bem à pesquisa. Volto no final. 

Fui estuprada na infância por duas pessoas da minha família e não posso dizer quem são elas, mesmo que eu queira mostrar que existem criminosos por trás da aparência de bons pais, líderes religiosos, gente "do bem". A minha vivência me diz que o silêncio, que pode ser imposto com ameaças ou apresentado como benefício, é algo que alimenta as ações de estupradores. 
Uma das pessoas que me estuprava na infância não morava comigo, mas estava sempre presente em ocasiões de férias, festas e feriados. E me estuprou sempre que quis. Com sete anos tentei falar. Ouvi de alguém também da família, tão adulta quanto o estuprador, que eu deveria ficar quieta e afastar-me dele, que se eu falasse iria promover uma tragédia. 
Anos depois o silêncio foi quebrado novamente. Todos então passaram a saber que ele era de fato um estuprador. Não importou. Continuei sendo levada a almoçar todos os domingos na casa dele. Até o dia que eu disse que não entraria mais lá e passei a ficar esperando no carro da família até que o almoço se encerrasse. 
Com 17 anos fiz uma denúncia anônima por telefone contra ele, informei à voz que atendeu a ligação seu nome completo, endereço e crimes. Nenhuma atitude foi tomada, nem por autoridades a quem fiz a denúncia anônima, ou pelos familiares que o protegeram até a sua morte.
O outro estuprador morava comigo, deveria cuidar de mim e me proteger -- ao menos é o que todos esperam que alguém na posição dele faça. Não me recordo dos estupros cometidos por ele. Mas lembro bem da desesperança e sentimento de vazio que me levaram a tentar o suicídio por duas vezes, na infância e na adolescência. Me recordo também de sempre me cobrar uma postura mais afetiva em relação a essa pessoa que todos me diziam que eu tinha que amar e ser grata. 
Todo mundo me diz "Não
seja sequestrada". Mas
ninguém diz a ele:
"Não sequestre"
Esses estupradores não vitimaram só a mim, vitimaram também outras meninas da família. Uma ao contar o que acontecia passou a ser tratada desde os 12 anos com forte medicação psicotrópica, rotulada como doente mental, louca... não por médicos, mas pelo próprio estuprador e por sua esposa, que se valiam da autoridade do seu papel para silenciar com mentira a voz que o denunciava. 
Outra ao falar o que acontecia foi ameaçada de morte e obrigada a escrever uma carta desmentindo o que ocorreu. Essa o estuprador e sua esposa rotularam como mentirosa.
Eu suspeitei um dia que o estuprador que todos me diziam que eu tinha que amar e ser grata havia tentado fazer algo com a minha filha, uma criança. Procurei o Conselho Tutelar, procurei um médico, procurei uma psicóloga. O Conselho ouviu minha fala e disse que não há possibilidade de ação baseada em suspeita. O médico disse que não havia prova física. A psicóloga disse que acreditava ter havido uma tentativa, mas não poderia garantir isso e orientou-me a não conversar com minha filha sobre isso pra não induzir uma narrativa.
Silenciei. Convivi por quase uma década com a suspeita. Até que recentemente eu e minhas irmãs sentamos para conversar. Quando ouvi a história de cada uma das minhas irmãs tive certeza de que o homem que deveria ter nos amado e protegido era de fato um estuprador. Eu disse então ao estuprador que ele e a mulher que sempre encobriu suas ações estavam fora da minha vida pra sempre. 
Em seguida reunimos os outros irmãos e contamos nossas histórias. Meu irmão mais novo contou então que o estuprador sempre pedia para que meus irmãos saíssem do quarto por que precisava fazer massagem em mim para uma dor de barriga. Ele então trancava a porta do quarto com chave e ficava comigo dentro desse quarto. Não tenho memória disso, mas não preciso ter pra saber da violência que ocorria no interior desse quarto. 
Procuramos eu e minhas irmãs meios de denunciar esse estuprador à justiça. Fui três vezes à Delegacia da Mulher, várias vezes ao Ministério Público, para descobrir que os crimes prescreveram, exceto a tentativa que houve com a minha filha. Ouvi coisas como fazer uma denúncia depois de tanto tempo pode soar como mentira, não há prova física, não há testemunhas, façam terapia para aprender a lidar com o que aconteceu e sigam em frente, isso só vai trazer dor a vocês.
Não posso falar o nome dos criminosos, o que faleceu não me interessa mais denunciar. Ele já não vai mais vitimar ninguém. O estuprador que está vivo e com muita saúde ameaçou a mim e as minhas irmãs com um processo de calúnia e difamação e fomos aconselhadas a silenciar novamente por que não temos como provar. 
Pesquisando alternativas de ação para romper as mordaças que nos impuseram e fazer o que entendemos ser certo no intuito de impedir que novos crimes ocorram descobri histórias semelhantes a minha. Histórias com estupradores e silêncio. Embora haja campanhas falando sobre a importância de uma vítima de estupro denunciar o criminoso, a prática se mostra incoerente em relação ao discurso. 
Na prática uma criança vítima de estupro ao denunciar é silenciada pelos adultos que não sabem lidar com a situação, tanto os familiares quanto os profissionais. Quando a vítima de estupro é uma mulher adulta, a mulher ao denunciar é silenciada por vozes e ações que transferem a culpa do agressor para ela mesma. Como se seu comportamento justificasse a ação do criminoso. 
Como medida de sobrevivência, o silêncio muitas vezes parece ser a melhor saída para lidar com as dores.  Mas isso já não faz mais sentido para mim, o que também acaba não servindo de nada, já que tentei agir e não há meios para isso.

Meu breve comentário: Estupro realmente é o crime mais impune que existe. Tudo isso que você narrou, querida R., é mais uma prova que a existência de uma cultura de estupro é real -- a incrível ocorrência com que estupros ocorrem, as tentativas de acobertar o crime, a falta de preparo dos profissionais para lidar com os inúmeros casos, as narrativas de que a culpa é da vítima ou de que é melhor deixar quieto, porque senão vai destruir a família... Tudo isso é cultura de estupro
Mas não pense que o que você decidiu fazer -- romper o silêncio -- não serviu pra nada. Você conversou com seus irmãos e irmãs sobre um passado traumático. Você tirou esqueletos do armário da família. Só falar sobre isso pode ajudar a evitar novas vítimas. É um trabalho de conscientização, e não é nada fácil, porque não são apenas as vítimas de estupro (crianças ou adultas) que são vistas como mentirosas e loucas
Feministas como eu, que denunciamos a cultura do estupro, que exigimos que o tema seja levado a sério, que queremos aulas de questões de gênero nas escolas para que a sociedade possa enfrentar essa praga social chamada violência contra a mulher, também somos tachadas de mentirosas e loucas. Apenas por insistir em trazer à tona um assunto que todo mundo sabe que existe e é comum. Mas não. Pra muita gente estupro deve ser somente tema de piada ou de vingança ("Castre! Mate! Agora ele vai virar mocinha na cadeia!").
Nós estamos fazendo a nossa parte para mudar o mundo e não vamos parar. E você, R., faz parte desse "nós".