segunda-feira, 27 de outubro de 2014

REELEIÇÃO DA DILMA, A RESTAURAÇÃO DA ESPERANÇA

Foi ontem e ainda estou emocionada! Exausta, mas aliviada e feliz. Ganhamos! E neste "ganhamos" entram todos que não quiseram o retrocesso. Por onde começo?
Até sábado o PSDB e seus eleitores ainda disputavam a paternidade do Bolsa Família, prometendo que não só não acabariam com o programa como o ampliariam. Mas foi só chegar segunda-feira que voltamos à programação normal: a Bolsa Esmola é um atraso, cabresto eleitoral, e quem a recebe é gente preguiçosa do norte sustentada pelas pessoas que realmente produzem e que pagam impostos. 
Por que será que esse discurso esquizofrênico de dupla personalidade não convence a quem recebe o Bolsa Família? (inclusive, muitos dos que o recebem não votam no governo. Vai entender. São Paulo é o segundo estado mais atendido pelo BF, e nem por isso vota no PT).
E, como não poderia deixar de faltar, como a cereja do bolo, veio todo o preconceito contra o Nordeste. Sempre vem, e sempre de pessoas muito ignorantes que pararam no tempo, que resumem a região à miséria e à seca, quando, sei lá, ao se falar de falta de água, o primeiro lugar que vem à mente fica mais embaixo... Essas pessoas estão defasadas há uns doze anos.
Já vimos esse ódio em 2010, e ele esteve mais forte ainda agora. Infelizmente o PSDB, em vez de repudiá-lo e de pedir a seus eleitores que sejam mais sensatos, inventou que essas mensagens vinham de fakes petistas querendo tumultuar (putz, como tem fake no mundo!), e disse que quem estava querendo separar o Brasil era quem protestava contra o preconceito, não quem cometia esse preconceito.
Eu disse e repito: quem estava indeciso sem saber em quem votar só precisava passar alguns poucos minutos em redes sociais de eleitores do Aécio para optar pelo voto em Dilma. O volume de preconceito era enorme, e tinha lado. Não foi à toa que os maiores fracassados da internet, os masculinistas, torceram tanto pelo Aécio.
Recado do deputado
estadual com a segunda
maior votação em SP
Se para boa parte dos eleitores o importante era tirar o PT, e para isso votaria-se em qualquer um (Hitler ou Satanás, como foi dito), à medida que o segundo turno foi avançando, o negócio foi ficando mais pessoal. Aquilo que Aécio repetia em todo debate -- de que ele não representava mais uma pessoa ou partido mas um sentimento  -- não era de todo falso. O "qualquer candidato anti-PT serve" foi personalizado pela figura de Aécio Neves, que conseguiu provar-se mais antipático que Serra (uma missão quase impossível). Entre os eleitores preconceituosos, Aécio ganhou pontos por ser arrogante e machista.
É certo que, para a maior parte da população, que não é preconceituosa, Aécio perdeu pontos justamente por seu machismo. As pessoas, principalmente as mulheres, viram o quanto aquele candidato cínico, que levantava dedo pra Luciana e chamava Dilma de leviana, era agressivo com as mulheres. Não sou só eu que penso assim. Veja o que diz Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio até o final de 2013, e responsável pela campanha do governador eleito no RJ, Pezão.
O adjetivo leviana, usado inúmeras vezes por Aécio para insultar Dilma, tem um significado mais forte em algumas regiões, como se pode ver por esta música famosa de Reginaldo Rossi. Por isso que eu insisti nisso de confronto entre mulheres levianas contra homens honrados -- porque foi Aécio que usou e abusou dessas palavras. Pra se definir, ele sempre se dizia honrado (palavra-chave entre mascus, que há dois anos tinham um fórum chamado justamente Homens Honrados). Pra definir a adversária, uma mulher, ele usava leviana. Em 2014, as levianas ganharam dos honrados.
Sim, considero esta uma vitória pessoal de todas nós feministas, de todas nós mulheres que queremos mudanças. Compare com o temerário segundo turno de 2010, quando o debate ficou todo centrado na condenação do aborto (porque nem se pode chamar aquilo de debate). Dilma venceu, mas não sem antes ter que escrever uma carta medonha ao "povo de Deus".
Desta vez foi diferente. O povo se deu conta do machismo de um candidato a presidente! Isso não é pouca coisa. Uma pesquisa Datafolha do dia 9 de outubro apontou que Aécio caiu 5% entre o eleitorado feminino (indo para 41%) exatamente depois de começar a usar leviana para atacar Dilma. Logicamente que a campanha de Dilma procurou explorar essa percepção. A taxa de rejeição de Aécio pulou de 17% (no primeiro turno) para 41%. Pode-se dizer, portanto, que Aécio perdeu, entre vários fatores, por ser machista.
E eu fico bem orgulhosa da minha participação nesse processo. Como qualquer pessoa que acompanha o meu blog deve ter notado, eu estava quietinha no meu canto, sem me envolver muito na campanha. No primeiro turno, escrevi muito mais sobre a importância de se votar em mulheres de esquerda para o legislativo do que sobre a disputa para a presidência. Aí, logo depois do primeiro turno, começou a circular um vídeo com maior pinta de profissional.
A música do vídeo dizia "Devia ter atacado mais [o Aécio]", enquanto apareciam imagens de blogueiros e políticos de esquerda. De repente eu vi a minha imagem lá (o vídeo me foi enviado anonimamente nos comentários do blog). Eu fui a única mulher não política que eles incluíram! Depois dessa provocação tão cretina, decidi mergulhar com tudo na reeleição da Dilma. 
Comemoração em Alagoas ontem
E não me arrependo. Bom, é provável que, mesmo sem o vídeo, eu também tivesse entrado, porque era impossível ficar impassível diante de tanto preconceito. Mas eu teria demorado mais.
Porque foi sim uma campanha marcada pelo ódio. E esse ódio não acabou ontem. Pelo contrário, segue com com força total.
Muita gente investiu numa campanha de nós contra eles, de demonização não apenas a um partido político, mas a todos os seus eleitorxs, que continuam sendo chamados de corruptos, imorais, burros, vagabundos, favelados.
A resposta a um dos ataques preconceituosos foi -- está sendo -- linda, com a tag Sou do Nordeste Mesmo e Com Orgulho (tudo junto) nos trending topics to Twitter. Muita gente postou fotos de seus municípios e estados maravilhosos.
A verdade é que, de forma geral, o pessoal do Sul e Sudeste não sabe nada sobre o Nordeste. Nos 16 anos que vivi em São Paulo, o preconceito contra os nordestinos era gigantesco, maior que o preconceito contra qualquer outro grupo. 
Nos meus 15 anos catarinenses, o preconceito anti-nordestino não era tão evidente (em Joinville o preconceito maior era contra gente do Paraná!), tirando um ou outro doido de movimentos neonazistas e separatistas. Mas a ignorância continuava imensa: um dono de restaurante, cara com ensino superior, achou que Ceará era vizinho de Minas. Eu mesma nem desconfiava da diversidade enorme do Nordeste. Não sabia, por exemplo, que o Ceará tem cidades serranas com festivais de jazz de causar inveja a Campos do Jordão!
O Brasil precisa urgentemente descobrir o Brasil. 
É mentira que o Nordeste elegeu Dilma. Quer dizer, elegeu, mas obviamente não sozinho.
O mapa em vermelho e azul passa a impressão errada, como se ninguém do Sul e Sudeste tivesse votado 13. Pra começar, Dilma venceu no Rio (que, da última vez que chequei, ficava no Sudeste), por 55% a 45%, e, principalmente, em Minas (52,4% a 47,6%). Por que eu digo "principalmente em Minas"? 
Porque MG vem sendo governada pelo PSDB há doze anos. Porque Aécio ora dizia "não olhe pelo retrovisor", para implorar que o PT não fizesse comparações entre o governo de FHC e o de Lula/Dilma, ora elencava realizações do seu governo em Minas. Enquanto isso, muitos mineiros diziam não reconhecer aquele estado fantástico pintado pela propaganda de Aécio.
Aécio foi derrotado em Minas no primeiro e no segundo turno. Isso quer dizer alguma coisa. Significa, sabe? Antes do primeiro turno, a mídia cobrou bastante de Marina por que, nas pesquisas, ela tinha pouca votação no Acre, estado que representava (e olha que ela nunca governou o estado). É realmente uma explicação difícil.
Primeiro turno 2014
Marina acabou ganhando no Acre, e foi capaz de transferir seus votos pro Aécio por lá no segundo turno. Já Aécio continuou perdendo em Minas.
Vamos comparar com Pernambuco. Muitos pernambucanos achavam (acham ainda) que Eduardo Campos havia sido um ótimo governador. Se Eduardo não tivesse morrido no acidente de avião, certamente teria tido sua maior votação em Pernambuco (e mesmo assim não teria mais que 15% em âmbito nacional; ele sabia que estava concorrendo com olho em 2018). 
Marina ganhou em Pernambuco no primeiro turno, porque os pernambucanos viram nela a vice e sucessora de Eduardo (aliás, sinceramente, uma dica pra Marina é ela se candidatar à prefeitura de Recife em 2016). Já no segundo turno, nem o apoio de Marina ou da família de Eduardo a Aécio foram suficientes para impedir que Pernambuco inteiro "dilmasse". Aécio teve apenas 30% dos votos.
Eu queria dizer que o belo estado onde vivo há quase cinco anos, o Ceará, foi o que deu mais votos proporcionalmente a Dilma (quase 77%), mas Maranhão (quase 79%) e  Piauí (78,30%) deram mais. Nada comparado à cidade em que Aécio teve sua maior porcentagem de votos, com 92% -- Miami (não deixe de ler o hilário artigo da Folha sobre eleitores frustrados do Aécio querendo "fugir" pro exterior. Eleitores que têm uma vida muito sofrida no... Leblon).
Eleitoras do Leblon desaprovam o
resultado da eleição
A cidade no Brasil com mais votos para Aécio foi Alto Boa Vista, no Mato Grosso (que ingratamente ficaria fora do Sul maravilha nos mapas separatistas). Para Dilma, foi Belágua, no Maranhão.
Já os estados em que Aécio teve sua maior votação, proporcionalmente falando, foram Santa Catarina (64,6%), São Paulo (64,3%) e Acre (63,7%). A galera do Sul é o Meu País bem que poderia incluir o Acre, né?
Porque só sair não é suficiente. Tem que fugir desta ditadura bolivariana!
Mas olha, em números gerais, Dilma teve 20.175.484 votos no Nordeste. Achou muito? Achou que foi o Nordeste que a elegeu? Pois bem, detesto ter que ser a portadora de más novas, mas Dilma teve 20.931.961 votos no Sudeste. Teve mais votos no Sudeste que no Nordeste!
Foi uma diferença pequena, 51,6% pra Dilma, contra 48,4% pra Aécio? Sem dúvida que foi. Minúscula, apenas 3.5 milhões de votos a mais pra Dilma. Em outra disputa apertadíssima, em 89, Collor teve 53% e Lula 47%. E em todas as outras no meio, sempre disputadas entre PT e PSDB, a distância foi maior.
Mas, e daí? 3.5 mi de votos a mais são suficientes pra ganhar. E quem perdeu deve simplesmente aceitar. Se nós que votamos na Dilma tivéssemos perdido, espero que não estivéssemos falando de golpe militar, fraude nas pesquisas e nas urnas, impeachment. 
Estaríamos terrivelmente frustrados com os rumos que o país tomaria, estaríamos com medo de que todas as conquistas da última década -- porque é inegável que o Brasil mudou para melhor -- fossem perdidas.
O Nordeste, então, teria razões de sobra pra preocupações, já que o PSDB nunca fez nada pela região. E engana-se muito quem pensa que o Nordeste é PT pelo Bolsa Família (que não tinha sido criado pelo PSDB?). Eu conheci o Nordeste em 1990, e vim morar aqui vinte anos depois, em 2010. É outra região. Irreconhecível. Tipo: em 2000, havia 413 mil universitários no Nordeste. Em 2012, eram 1.434.825. Um milhão a mais de gente estudando. Sete universidades foram abertas na região, todas fora das capitais. O impacto disso é imensurável. Houve também grandes obras, oferta de empregos, melhora de salários. A maior parte das pessoas que vive aqui enxerga a diferença. Por isso vota no PT.
E a vida das pessoas das outras quatro lindas regiões deste Brasil esplendoroso também melhorou. Esta foi, e continuará sendo, uma das maiores dificuldades da oposição: convencer a população de que "nada desse governo presta", ao mesmo tempo em que jurava manter as políticas sociais. Convencer o povo de que seria favorável pra todos voltar atrás, o que eles apelidaram de "mudar". 
Não vamos cair nessa falácia de "país dividido". Se Aécio tivesse vencido, a mídia insistiria tanto nisso? Duvido. 52% a 48% não é tão mais dividido que 56% a 44% (resultado do segundo turno em 2010) ou mesmo que 61% a 39% (resultados das eleições em 2002 e 2006). Se incluir aí abstenções, votos nulos e brancos, então, essa "divisão" fica menor ainda. 
Tudo isso faz parte do jogo democrático. Os EUA se dividem entre republicanos e democratas desde sempre e nem por isso o país se tornou ingovernável. E quando um partido perde, o outro não fica pedindo impeachment, intervenção militar, ou gritando "Fraude!" (nem quando tem bons motivos pra isso). 
Aceitar o resultado não quer dizer não protestar, não criticar. Assim como ter votado na Dilma não quer dizer de jeito nenhum dar-lhe um cheque em branco. 
Protestar é um direito, uma necessidade, uma ferramenta de politização que a direita ainda tem que descobrir. Mas sem papo de golpe. Quando reaças falam de fórum de São Paulo, de ditadura bolivarista, de ditadura gayzista/feminazi (aquela que não começa nunca), a gente sabe que está ouvindo alguns poucos malucos instigados por Olavo de Carvalho, guru da extrema direita. É coisa da internet. Mas quando tanta gente que não sabe perder pede o fim da nossa democracia, a coisa é bem mais preocupante. 
As eleições foram lindas. Estou muito, muito feliz. Feliz também porque muita gente saiu do muro e tomou uma posição, inclusive várias pessoas do PSOL, e este apoio, mesmo que temporário, é uma maneira de colocar o governo do PT mais à esquerda (de onde nunca deveria ter saído). Estou feliz porque as eleições deram uma restaurada na nossa esperança -- bem, pelo menos na minha esperança. Eu estava super desiludida com o governo do PT. Agora quero começar a acreditar novamente. 
Comemoração na Av. Paulista, ontem

domingo, 26 de outubro de 2014

É HOJE O CONFRONTO ENTRE LEVIANAS E HONRADOS

É hoje o grande dia! 
Fui votar cedo hoje, sozinha (chuif, maridão está jogando um torneio em Pipa; se Dilma perder por um só voto já sabem quem culpar -- se bem que os outros enxadristas também não votarão, e desconfio que isso seja bom, porque o que tem de jogador reaça...). Tudo tranquilo. Um dia lindo em Fortaleza, mas qual dia não é? 
Na minha frente na fila da seção eleitoral, apenas quatro pessoas. Sou a única com adesivo. Chega um velhinho em cadeira de rodas, e ele está com adesivo do Aécio. Ele entra pra votar. Depois, um outro senhor, que vota antes de mim. Ele fala rindo com os mesários que seu voto demorou pra ser computado. Eles respondem que é assim mesmo, que demora um pouquinho. O senhor fala: "Espero que meu voto não esteja sendo dirigido pra um outro candidato, porque escolhi uma candidata". 
Eu vou e digito 13 duas vezes, pra governador e pra presidenta. Aparece na tela "carregando". Mas não sou adepta de teorias da conspiração. É só estranho porque nas outras eleições era imediato. 
Na saída, vejo entrando na universidade duas moças, uma delas com adesivo 13 na testa. Vejo muito mais carros com bandeiras e adesivos da Dilma que do Aécio, mas também, aqui é Ceará, onde espero que Dilma tenha pelo menos 75% dos votos (e tô achando pouco). Agora estou aqui, escrevendo essas mal-traçadas. 

Ontem foi um festival de emoções contraditórias. Otimismo, pessimismo, medo de golpe midiático, alívio com as últimas pesquisas do Ibope (Dilma 53, Aécio 47) e Datafolha (Dilma 52, Aécio 48).
Toda santa eleição é a mesma coisa, e um sinal inequívoco que nossa democracia é muito frágil. Fala-se demais em golpe. Os reaças contam com o exército como "última esperança". É ridículo ver essa gente que insiste que vive numa ditadura bolivariana feminista gayzista implorar por um novo golpe militar. A vibe deles na net é totalmente de "família tradição e propriedade pela liberdade".
Já a gente de esquerda fica sempre aguardando a "bala de prata" da vez. Sempre tem algum novo escândalo criado pela mídia e revelado na véspera.
O caso mais famoso é obviamente o de 1989, em que Collor venceu Lula por pequena margem. Aquela foi uma eleição ganha pela Globo, sem dúvida alguma. Teve um monte de falcatrua da mídia. Teve a edição do debate, feita para derrubar Lula. Teve a captura dos sequestradores do empresário Abílio Diniz. Na véspera do segundo turno, a polícia colocou camisetas do PT neles (que eram estrangeiros e não tinham qualquer ligação com o PT) e os jogou pras câmeras. A Globo dedicou longos minutos a essas imagens.
Ontem a Renata, colega minha na UFSC, me enviou um textinho dela sobre essas memórias. Renata está terminando o doutorado e espera poder ser professora em alguma federal já no ano que vem. Isso se o PSDB não ganhar:

Felizmente, como aponta a Renata, nem Veja, nem Globo, nem veículo nenhum tem força hoje pra eleger um candidato, como fizeram em 1989. Hoje temos a internet, que, óbvio, também serve para espalhar boatos (o de hoje é que o doleiro da delação premiada havia sido envenenado). Os reaças estão desesperados, fazendo e falando qualquer coisa pra tirar o PT do poder.
Outra pessoa com quem conversei no Twitter ontem foi o Paulo, que contou ter sido verbalmente agredido e praticamente expulso de um restaurante. Pedi pra que ele me enviasse um email curto narrando o caso. Ele mandou, mas não foi nada curto, então abreviei. 
Capa da Veja da semana
que vem, se deus for
brasileiro
Durante a semana, Paulo, de Curitiba, foi à festa de aniversário de um amigo, num restaurante. Ele relata:
"No final da festa, quando a maioria tinha pago sua parte e ido embora, o restaurante foi fechado e continuamos à mesa, conversando. Como era de se esperar, o tema eleitoral aflorou numa série de declarações contra a campanha do PT. Intervim declarando meu voto e dizendo que, como naquela mesa todos tínhamos os votos definidos, seria bom se conseguíssemos deixar os ataques mútuos de lado e 'discutir o Brasil', isto é, as propostas políticas para o futuro, sejam elas as representadas pelos candidatos ou não. A conversa correu pacificamente nesse sentido por alguns minutos.
Um dos presentes explicou que votaria em Aécio porque acreditava que, com alternância no poder, a eficiência do governo aumentava. Retorqui que se isso fosse verdade, deveria ser também para o caso de São Paulo, onde o PSDB já governa há vinte anos. Ele respondeu que, no caso de SP, a eleição tinha sido democrática, apesar dos milhões que o Movimento Passe Livre tinha recebido em 2013 com o intuito de prejudicar Alckmin eleitoralmente (eu não estou nem brincando: foi assim que foi dito).
Passaram a acusar o PT de sustentar-se eleitoralmente no povo nordestino, 'que é ignorante'. Quem afirmava isso, o namorado da dona do restaurante, era alguém com que eu encontrava por intermédio daquele meu amigo há muitos anos, em cada festejo de aniversário. Respondi, nestas palavras: 'o senhor está sendo preconceituoso'. E abriu-se o inferno.
Primeiro, aos gritos, exigiam de mim que 'conhecesse o Nordeste' para provar o que estava falando. O cara havia se levantado e, às minhas costas, andava de um lado para o outro. Então, explodindo, gritou: 'A CULPA É TODA DE VOCÊS, QUE MANTÉM O POVO NORDESTINO NA MISÉRIA'.
O salão inteiro parou. Virei-me e perguntei. 'Vocês, quem?'. Ao que ele, com o dedo em riste: 'VOCÊS PETISTAS, ESQUERDISTAS'. Foi assim que eu percebi que eu era o único naquela sala que ele estava responsabilizado, PESSOALMENTE, pela miséria no Nordeste, que existe há séculos, muito antes do PT chegar ao poder.
Típico eleitor de Aécio, com Beto
Richa, em Curitiba
Não dava pé. Levantei-me, e disse ao aniversariante: 'Com licença, eu vou embora'.
Fui até o balcão e paguei minha parte. Enquanto me dirigia à porta, ouvia atrás de mim acusações, insultos e imperativas ('vá embora', 'saia daqui e não volte').
Minutos mais tarde, meu amigo me ligou para pedir desculpas pelo constrangimento que sofri em sua festa. Nossa amizade não ficou abalada. Na sexta, assistimos o debate juntos, na minha casa."

Dilma votando hoje
Que bom que a amizade do Paulo não foi abalada! Porque tem gente brigando feio por aí. Poucas horas atrás falei por telefone com a Marcela, uma amiga de São Paulo, e ela disse, sobre as discussões: "Isso está acabando com as famílias! E o pessoal que vota no PSDB fala cada coisa..."
Ô se fala. É assustador o nível do preconceito, da ignorância, da violência. E claro que essa virulência toda não vai desaparecer com o resultado das urnas, daqui a algumas horas. Preparem-se para muitos ataques contra os nordestinos. O Nordeste é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, e é todo Dilma. O PT tem voto suficiente aqui pra compensar a enxurrada de votos pro Aécio em SP, sempre SP, o mesmo estado que desempenhou papel decisivo na eleição de Collor em 89. 
Vai sobrar também pras mulheres, pode apostar. Principalmente as feministas. A queda de Aécio nas pesquisas é atribuída à percepção geral de Aécio ser machista, de não tratar bem às mulheres. 
Ontem um mascu resumiu o que representa esta eleição pra eles: um embate entre eles e nós. "Nós", os inimigos a sermos derrotados, somos os esquerdistas, as mulheres, os nordestinos. 
Eles são os homens honrados, adjetivo que Aécio adotou para descrevê-lo. Bom, se ser honrado é ser machista, é ser agressor de mulheres, é louvar valores retrógrados e excludentes, eu prefiro mil vezes ser leviana --  o outro adjetivo que marcou essas eleições, usado por Aécio várias vezes contra Dilma. 
Estou otimista, acho que vamos ganhar sim. Por pouco, mas vamos. O futuro, porém, é bem mais sombrio. Porque esse ódio todo não vai sumir só porque apertamos 13 na urna.