Foi ontem e ainda estou emocionada! Exausta, mas aliviada e feliz. Ganhamos! E neste "ganhamos" entram todos que não quiseram o retrocesso. Por onde começo?
Até sábado o PSDB e seus eleitores ainda disputavam a paternidade do Bolsa Família, prometendo que não só não acabariam com o programa como o ampliariam. Mas foi só chegar segunda-feira que voltamos à programação normal: a Bolsa Esmola é um atraso, cabresto eleitoral, e quem a recebe é gente preguiçosa do norte sustentada pelas pessoas que realmente produzem e que pagam impostos.
Por que será que esse discurso esquizofrênico de dupla personalidade não convence a quem recebe o Bolsa Família? (inclusive, muitos dos que o recebem não votam no governo. Vai entender. São Paulo é o segundo estado mais atendido pelo BF, e nem por isso vota no PT).
Por que será que esse discurso esquizofrênico de dupla personalidade não convence a quem recebe o Bolsa Família? (inclusive, muitos dos que o recebem não votam no governo. Vai entender. São Paulo é o segundo estado mais atendido pelo BF, e nem por isso vota no PT).
E, como não poderia deixar de faltar, como a cereja do bolo, veio todo o preconceito contra o Nordeste. Sempre vem, e sempre de pessoas muito ignorantes que pararam no tempo, que resumem a região à miséria e à seca, quando, sei lá, ao se falar de falta de água, o primeiro lugar que vem à mente fica mais embaixo... Essas pessoas estão defasadas há uns doze anos.
Já vimos esse ódio em 2010, e ele esteve mais forte ainda agora. Infelizmente o PSDB, em vez de repudiá-lo e de pedir a seus eleitores que sejam mais sensatos, inventou que essas mensagens vinham de fakes petistas querendo tumultuar (putz, como tem fake no mundo!), e disse que quem estava querendo separar o Brasil era quem protestava contra o preconceito, não quem cometia esse preconceito.
Eu disse e repito: quem estava indeciso sem saber em quem votar só precisava passar alguns poucos minutos em redes sociais de eleitores do Aécio para optar pelo voto em Dilma. O volume de preconceito era enorme, e tinha lado. Não foi à toa que os maiores fracassados da internet, os masculinistas, torceram tanto pelo Aécio.![]() |
| Recado do deputado estadual com a segunda maior votação em SP |
É certo que, para a maior parte da população, que não é preconceituosa, Aécio perdeu pontos justamente por seu machismo. As pessoas, principalmente as mulheres, viram o quanto aquele candidato cínico, que levantava dedo pra Luciana e chamava Dilma de leviana, era agressivo com as mulheres. Não sou só eu que penso assim. Veja o que diz Renato Pereira, ex-marqueteiro de Aécio até o final de 2013, e responsável pela campanha do governador eleito no RJ, Pezão.
O adjetivo leviana, usado inúmeras vezes por Aécio para insultar Dilma, tem um significado mais forte em algumas regiões, como se pode ver por esta música famosa de Reginaldo Rossi. Por isso que eu insisti nisso de confronto entre mulheres levianas contra homens honrados -- porque foi Aécio que usou e abusou dessas palavras. Pra se definir, ele sempre se dizia honrado (palavra-chave entre mascus, que há dois anos tinham um fórum chamado justamente Homens Honrados). Pra definir a adversária, uma mulher, ele usava leviana. Em 2014, as levianas ganharam dos honrados.
Sim, considero esta uma vitória pessoal de todas nós feministas, de todas nós mulheres que queremos mudanças. Compare com o temerário segundo turno de 2010, quando o debate ficou todo centrado na condenação do aborto (porque nem se pode chamar aquilo de debate). Dilma venceu, mas não sem antes ter que escrever uma carta medonha ao "povo de Deus".
Desta vez foi diferente. O povo se deu conta do machismo de um candidato a presidente! Isso não é pouca coisa. Uma pesquisa Datafolha do dia 9 de outubro apontou que Aécio caiu 5% entre o eleitorado feminino (indo para 41%) exatamente depois de começar a usar leviana para atacar Dilma. Logicamente que a campanha de Dilma procurou explorar essa percepção. A taxa de rejeição de Aécio pulou de 17% (no primeiro turno) para 41%. Pode-se dizer, portanto, que Aécio perdeu, entre vários fatores, por ser machista.
E eu fico bem orgulhosa da minha participação nesse processo. Como qualquer pessoa que acompanha o meu blog deve ter notado, eu estava quietinha no meu canto, sem me envolver muito na campanha. No primeiro turno, escrevi muito mais sobre a importância de se votar em mulheres de esquerda para o legislativo do que sobre a disputa para a presidência. Aí, logo depois do primeiro turno, começou a circular um vídeo com maior pinta de profissional.
A música do vídeo dizia "Devia ter atacado mais [o Aécio]", enquanto apareciam imagens de blogueiros e políticos de esquerda. De repente eu vi a minha imagem lá (o vídeo me foi enviado anonimamente nos comentários do blog). Eu fui a única mulher não política que eles incluíram! Depois dessa provocação tão cretina, decidi mergulhar com tudo na reeleição da Dilma.
E não me arrependo. Bom, é provável que, mesmo sem o vídeo, eu também tivesse entrado, porque era impossível ficar impassível diante de tanto preconceito. Mas eu teria demorado mais.
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| Comemoração em Alagoas ontem |
Porque foi sim uma campanha marcada pelo ódio. E esse ódio não acabou ontem. Pelo contrário, segue com com força total.
Muita gente investiu numa campanha de nós contra eles, de demonização não apenas a um partido político, mas a todos os seus eleitorxs, que continuam sendo chamados de corruptos, imorais, burros, vagabundos, favelados.
A verdade é que, de forma geral, o pessoal do Sul e Sudeste não sabe nada sobre o Nordeste. Nos 16 anos que vivi em São Paulo, o preconceito contra os nordestinos era gigantesco, maior que o preconceito contra qualquer outro grupo.
Nos meus 15 anos catarinenses, o preconceito anti-nordestino não era tão evidente (em Joinville o preconceito maior era contra gente do Paraná!), tirando um ou outro doido de movimentos neonazistas e separatistas. Mas a ignorância continuava imensa: um dono de restaurante, cara com ensino superior, achou que Ceará era vizinho de Minas. Eu mesma nem desconfiava da diversidade enorme do Nordeste. Não sabia, por exemplo, que o Ceará tem cidades serranas com festivais de jazz de causar inveja a Campos do Jordão!
Nos meus 15 anos catarinenses, o preconceito anti-nordestino não era tão evidente (em Joinville o preconceito maior era contra gente do Paraná!), tirando um ou outro doido de movimentos neonazistas e separatistas. Mas a ignorância continuava imensa: um dono de restaurante, cara com ensino superior, achou que Ceará era vizinho de Minas. Eu mesma nem desconfiava da diversidade enorme do Nordeste. Não sabia, por exemplo, que o Ceará tem cidades serranas com festivais de jazz de causar inveja a Campos do Jordão!
O Brasil precisa urgentemente descobrir o Brasil.
O mapa em vermelho e azul passa a impressão errada, como se ninguém do Sul e Sudeste tivesse votado 13. Pra começar, Dilma venceu no Rio (que, da última vez que chequei, ficava no Sudeste), por 55% a 45%, e, principalmente, em Minas (52,4% a 47,6%). Por que eu digo "principalmente em Minas"?
Porque MG vem sendo governada pelo PSDB há doze anos. Porque Aécio ora dizia "não olhe pelo retrovisor", para implorar que o PT não fizesse comparações entre o governo de FHC e o de Lula/Dilma, ora elencava realizações do seu governo em Minas. Enquanto isso, muitos mineiros diziam não reconhecer aquele estado fantástico pintado pela propaganda de Aécio.
Porque MG vem sendo governada pelo PSDB há doze anos. Porque Aécio ora dizia "não olhe pelo retrovisor", para implorar que o PT não fizesse comparações entre o governo de FHC e o de Lula/Dilma, ora elencava realizações do seu governo em Minas. Enquanto isso, muitos mineiros diziam não reconhecer aquele estado fantástico pintado pela propaganda de Aécio.
Aécio foi derrotado em Minas no primeiro e no segundo turno. Isso quer dizer alguma coisa. Significa, sabe? Antes do primeiro turno, a mídia cobrou bastante de Marina por que, nas pesquisas, ela tinha pouca votação no Acre, estado que representava (e olha que ela nunca governou o estado). É realmente uma explicação difícil.
Marina acabou ganhando no Acre, e foi capaz de transferir seus votos pro Aécio por lá no segundo turno. Já Aécio continuou perdendo em Minas.
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| Primeiro turno 2014 |
Vamos comparar com Pernambuco. Muitos pernambucanos achavam (acham ainda) que Eduardo Campos havia sido um ótimo governador. Se Eduardo não tivesse morrido no acidente de avião, certamente teria tido sua maior votação em Pernambuco (e mesmo assim não teria mais que 15% em âmbito nacional; ele sabia que estava concorrendo com olho em 2018).
Marina ganhou em Pernambuco no primeiro turno, porque os pernambucanos viram nela a vice e sucessora de Eduardo (aliás, sinceramente, uma dica pra Marina é ela se candidatar à prefeitura de Recife em 2016). Já no segundo turno, nem o apoio de Marina ou da família de Eduardo a Aécio foram suficientes para impedir que Pernambuco inteiro "dilmasse". Aécio teve apenas 30% dos votos.
Eu queria dizer que o belo estado onde vivo há quase cinco anos, o Ceará, foi o que deu mais votos proporcionalmente a Dilma (quase 77%), mas Maranhão (quase 79%) e Piauí (78,30%) deram mais. Nada comparado à cidade em que Aécio teve sua maior porcentagem de votos, com 92% -- Miami (não deixe de ler o hilário artigo da Folha sobre eleitores frustrados do Aécio querendo "fugir" pro exterior. Eleitores que têm uma vida muito sofrida no... Leblon).
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| Eleitoras do Leblon desaprovam o resultado da eleição |
Já os estados em que Aécio teve sua maior votação, proporcionalmente falando, foram Santa Catarina (64,6%), São Paulo (64,3%) e Acre (63,7%). A galera do Sul é o Meu País bem que poderia incluir o Acre, né?
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| Porque só sair não é suficiente. Tem que fugir desta ditadura bolivariana! |
Mas olha, em números gerais, Dilma teve 20.175.484 votos no Nordeste. Achou muito? Achou que foi o Nordeste que a elegeu? Pois bem, detesto ter que ser a portadora de más novas, mas Dilma teve 20.931.961 votos no Sudeste. Teve mais votos no Sudeste que no Nordeste!
Foi uma diferença pequena, 51,6% pra Dilma, contra 48,4% pra Aécio? Sem dúvida que foi. Minúscula, apenas 3.5 milhões de votos a mais pra Dilma. Em outra disputa apertadíssima, em 89, Collor teve 53% e Lula 47%. E em todas as outras no meio, sempre disputadas entre PT e PSDB, a distância foi maior.
Mas, e daí? 3.5 mi de votos a mais são suficientes pra ganhar. E quem perdeu deve simplesmente aceitar. Se nós que votamos na Dilma tivéssemos perdido, espero que não estivéssemos falando de golpe militar, fraude nas pesquisas e nas urnas, impeachment.
Estaríamos terrivelmente frustrados com os rumos que o país tomaria, estaríamos com medo de que todas as conquistas da última década -- porque é inegável que o Brasil mudou para melhor -- fossem perdidas.
Estaríamos terrivelmente frustrados com os rumos que o país tomaria, estaríamos com medo de que todas as conquistas da última década -- porque é inegável que o Brasil mudou para melhor -- fossem perdidas.
O Nordeste, então, teria razões de sobra pra preocupações, já que o PSDB nunca fez nada pela região. E engana-se muito quem pensa que o Nordeste é PT pelo Bolsa Família (que não tinha sido criado pelo PSDB?). Eu conheci o Nordeste em 1990, e vim morar aqui vinte anos depois, em 2010. É outra região. Irreconhecível. Tipo: em 2000, havia 413 mil universitários no Nordeste. Em 2012, eram 1.434.825. Um milhão a mais de gente estudando. Sete universidades foram abertas na região, todas fora das capitais. O impacto disso é imensurável. Houve também grandes obras, oferta de empregos, melhora de salários. A maior parte das pessoas que vive aqui enxerga a diferença. Por isso vota no PT.
E a vida das pessoas das outras quatro lindas regiões deste Brasil esplendoroso também melhorou. Esta foi, e continuará sendo, uma das maiores dificuldades da oposição: convencer a população de que "nada desse governo presta", ao mesmo tempo em que jurava manter as políticas sociais. Convencer o povo de que seria favorável pra todos voltar atrás, o que eles apelidaram de "mudar".
Não vamos cair nessa falácia de "país dividido". Se Aécio tivesse vencido, a mídia insistiria tanto nisso? Duvido. 52% a 48% não é tão mais dividido que 56% a 44% (resultado do segundo turno em 2010) ou mesmo que 61% a 39% (resultados das eleições em 2002 e 2006). Se incluir aí abstenções, votos nulos e brancos, então, essa "divisão" fica menor ainda.
Tudo isso faz parte do jogo democrático. Os EUA se dividem entre republicanos e democratas desde sempre e nem por isso o país se tornou ingovernável. E quando um partido perde, o outro não fica pedindo impeachment, intervenção militar, ou gritando "Fraude!" (nem quando tem bons motivos pra isso).
Aceitar o resultado não quer dizer não protestar, não criticar. Assim como ter votado na Dilma não quer dizer de jeito nenhum dar-lhe um cheque em branco.
Protestar é um direito, uma necessidade, uma ferramenta de politização que a direita ainda tem que descobrir. Mas sem papo de golpe. Quando reaças falam de fórum de São Paulo, de ditadura bolivarista, de ditadura gayzista/feminazi (aquela que não começa nunca), a gente sabe que está ouvindo alguns poucos malucos instigados por Olavo de Carvalho, guru da extrema direita. É coisa da internet. Mas quando tanta gente que não sabe perder pede o fim da nossa democracia, a coisa é bem mais preocupante.
Protestar é um direito, uma necessidade, uma ferramenta de politização que a direita ainda tem que descobrir. Mas sem papo de golpe. Quando reaças falam de fórum de São Paulo, de ditadura bolivarista, de ditadura gayzista/feminazi (aquela que não começa nunca), a gente sabe que está ouvindo alguns poucos malucos instigados por Olavo de Carvalho, guru da extrema direita. É coisa da internet. Mas quando tanta gente que não sabe perder pede o fim da nossa democracia, a coisa é bem mais preocupante.
As eleições foram lindas. Estou muito, muito feliz. Feliz também porque muita gente saiu do muro e tomou uma posição, inclusive várias pessoas do PSOL, e este apoio, mesmo que temporário, é uma maneira de colocar o governo do PT mais à esquerda (de onde nunca deveria ter saído). Estou feliz porque as eleições deram uma restaurada na nossa esperança -- bem, pelo menos na minha esperança. Eu estava super desiludida com o governo do PT. Agora quero começar a acreditar novamente.
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| Comemoração na Av. Paulista, ontem |






























































