Vigília na Universidade da Califórnia, no sábado
Sabe quando alguém xinga um gay de viado ou um negro de macaco e insiste que não está sendo homofóbico nem racista? Eu fico pensando: mas o quê esse pessoal considera homofobia ou racismo, então? Bater num gay? Não, juram eles, espancar gay não é homofobia. E matar um gay? Aí sim tem que ser homofobia!
Ledo engano. Não é homofobia porque, dizem eles, o gay foi assassinado por "outros motivos". Se você prova que o cara que matou um gay simplesmente por ele ser gay -- e que, pelamor, isso tem que ser visto como homofobia --, a galera dá a cartada final: não, não foi homofobia. Foi apenas a ação de um indivíduo doente.
Logo, a turma conclui: homofobia, racismo, transfobia, misoginia, são coisas que não existem. Invenções de ativistas, apenas (às vezes eles vão além e testam a nossa paciência ao afirmar que o que existe mesmo, mesmo é racismo contra os brancos, heterofobia e misandria).
Assim fica fácil, né?
Anteontem publiquei um post falando sobre Rodger Elliot e outros assassinos em massa que não apenas alvejaram e atiraram em mulheres como ainda deixaram provas (vídeos, manifestos, palavras) que estavam matando mulheres porque as odiavam. Mas pode crer que veio muito cara ofendidíssimo aqui negar que aquilo tivesse qualquer ligação com misoginia (que significa ódio às mulheres).
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| As várias cenas do crime |
A culpa pelo massacre de Santa Barbara, segundo eles, é da doença (sendo que há milhares de pessoas diagnosticadas com Síndrome de Asperger que nunca cometeram qualquer crime), da criação dos pais, do mundo moderno, do clima, das mulheres (o que uma leitora escreveu alguns dias atrás, "Aos homens, a desculpa; às mulheres, a culpa", pareceu mais apropriado do que nunca)...
E, como não podia deixar de ser, recebi um monte de comentários (a maior parte não aceita pra publicação) dizendo que Rodger é uma inspiração, que ele estava certo, que as mulheres têm mesmo que morrer por ousarem escolher com quem querem fazer sexo.
Sério, tem cara que pensa assim. Mas pode apostar que ele não se considera misógino -- porque, afinal, misoginia não existe.
Um sujeito tentou justificar assim a inveja que Rodger sentia de negros e latinos conseguirem namoradas brancas: ah, eles pegavam mulher porque negros e latinos são membros de gangues, e mulher só gosta de bandido. Porque não basta ser misógino, tem que ser racista também. Quer dizer, tenho certeza absoluta que o comentarista que associa negros e latinos a gangues não se vê como racista.
Não daria pra trocar o disco e pensar nem um pouquinho? Rodger não conseguir mulher é prova que muitas mulheres têm bom senso e não gostam de psicopatas. Entenda: não é que "mulher não gosta de cara bonzinho". Rodger não era um cara bonzinho. Ele matou seis pessoas! Caras bonzinhos não matam gente! Mascus não têm nada de bonzinhos. E a mulherada que eles tanto desejam foge deles justamente por isso. Elas sabem. Nós sabemos. Sabe aquele sexto sentido que atribuem às mulheres? Parece que isso é instinto de sobrevivência. Que muitas mulheres desenvolvem esse sentido pra poder continuar vivas.
| De fórum mascu |
Ah, mas a maior parte das vítimas de Rodger (quatro das seis) era homem. E daí? Isso quer dizer que ele não era misógino?
Ele gravou um vídeo e escreveu um manifesto de 140 páginas dizendo que iria se vingar das mulheres (e dos caras que ficavam com as mulheres que deveriam ser dele), matando-as. Não dá pra ser muito mais explícito na sua misoginia do que isso. Ele disse que odiava mulheres, que mulheres eram a praga do mundo, que elas deveriam ser postas em campos de concentração, que o feminismo, a luta pelos direitos das mulheres, deveria ser destruído. Se isso não é misoginia, é o quê, então?
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| Mortas em frente à sororidade |
Aí ele vai e tenta cumprir seu plano de "aniquilação total", de "dia de retribuição", de destruir as "vadias" que o rejeitaram. Porém, como ele matou "apenas" duas, não é misoginia. Sabe por que ele matou "apenas" duas? Porque ele fracassou. Seu plano -- dito claramente no vídeo que ele postou no mesmo dia -- era de entrar na sororidade (espécie de fraternidade, só que para mulheres, uma casa de confraternização) que tinha as garotas mais gostosas e matar todas elas. Isso é do vídeo gravado por ele:
"Vou entrar na sororidade mais agitada da universidade e vou matar cada uma das vagabundas dissimuladas e frescas que eu encontrar lá. Todas essas garotas que eu desejei tanto. Todas elas me rejeitaram e me olharam como um homem inferior sempre que eu tentei algo com elas, enquanto se atiravam nos braços dos brutamontes. Terei grande prazer em assassinar cada uma de vocês. Vocês verão que eu sou, de fato, o mais superior de todos os machos alfa".
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| Martinez, morto ao sair do mercado |
Felizmente, ele não conseguiu entrar. Portanto, ele "só" matou duas mulheres que estavam na frente da sororidade. Daí ele se dirigiu a um supermercado. Lá ele gritou coisas a algumas moças antes de atirar nelas. Apesar de ter disparado diversas vezes, "só" atingiu fatalmente um rapaz que estava saindo do mercado naquele exato momento.
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| Moça deixa flores em frente à sororidade |
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| A dor e revolta do pai de Martinez |
Sabe como boa parte dos homens evita pensar em soluções para a violência que aflige a humanidade? Varrendo a sujeira pra debaixo do tapete. Fingindo que não é com ele. Individualizando o problema -- desde que esse "individualizar" não o inclua, é claro. Logo, um estuprador é apenas um estuprador.
Ainda que estupro seja uma chaga universal, cometida por milhões de indivíduos (97% deles cometidos por homens), muitos homens descartam discutir o problema. Pra eles, é um assunto feminino, que não lhes diz respeito. E ai de alguma feminista que diga que a causa de estupro é um modelo de masculinidade agressivo e falido.
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| De fórum mascu |
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| Anúncio liga armas à masculinidade |
A violência masculina não é um problema individual. É social. Existem homens no mundo que tentam entender por que isso acontece, para ajudar a impedir que aconteça novamente. E existem os que chamam estuprador e assassino de "monstro" (quando não culpam a vítima) e dão o caso por encerrado. Desta forma, ignoram o problema.
A vlogueira Laci Green fez um vídeo excelente sobre o massacre de Santa Barbara. No final, ela diz (minha tradução):
"Elliot é o monstro que nós como cultura, como sociedade, criamos. Seus atos aterrorizantes não são isolados. São parte de uma doença cultural séria que afeta todos nós, especialmente mulheres, todo dia. E toda pessoa, todo veículo de mídia que lhe dá o carimbo de 'louco' sem qualquer outra discussão é parte desse problema. Acho que precisamos nos perguntar: por que é tão difícil de admitir que a misoginia realmente mata pessoas?"
E ela pergunta: por que a polícia, advertida pelos pais de Rodger, foi lá, falou com ele, viu os vinte vídeos misóginos que ele tinha feito, e concluiu que estava tudo bem? Será por que a misoginia é vista como algo tão natural na nossa sociedade que, se um jovem diz que vai aniquilar mulheres por elas não saírem com ele, só feministas acham isso meio esquisito?
Green cita que, dos setenta assassinatos em massa cometidos nos EUA de 1982 até agora, apenas um foi cometido por uma mulher. Todos os outros foram por homens, a enorme maioria, por homens brancos. Este post aponta que a maior parte das vítimas de massacres em escolas são mulheres. Com números assim, é preciso muito esforço pra negar que tantos desses massacres são crimes de ódio, cometidos por homens contra mulheres.
Imagine se fosse o contrário. Se, de 70 massacres, 69 tivessem sido cometidos por mulheres. E se a maioria das vítimas fossem homens. Você acha mesmo que a mídia não discutiria o "fenômeno" de mulheres pegando em armas pra matar homens?
Mas não tem problema, porque grande parte dos caras não associa "homens matando mulheres" com misoginia. E eles nem precisariam fazer isso, porque a mídia já faz por eles, por nós. Aqui no Brasil, três anos depois do massacre de Realengo, nenhum veículo chama o ato pelo que foi: feminicídio, crime de ódio. Mesmo que o placar final do massacre não fosse suficiente (dez meninas mortas, dois meninos), ainda haveria várias outras evidências.
Se a mídia não dá muita bola pra misoginia, ela certamente perde tempo em buscar causas pros assassinatos (por exemplo, em Realengo, houve mais meninas do que meninos mortos porque, segundo jornais, as meninas correm mais devagar e sentam na frente da turma, embora testemunhas tenham dito que Wellington separou meninas e meninas e atirou na cabeça das meninas) e em procurar culpados. Ou melhor, culpadas. Ontem os tabloides New York Post e Daily Mail colocaram em sua capa fotos da moça que Rodger apontou como pivô da sua frustração com as mulheres.
Uma moça que, diga-se de passagem, mal sabia que ele existia. Quando ele tinha doze anos e ela, dez, ele se interessou por ela, e foi rejeitado (como acontece com todo mundo). Anos depois, Rodger ainda a estava chamando de "vadia do mal", como escreveu no seu manifesto de 140 páginas. Apesar dos jornais darem voz ao pai da moça, é bem temerário estampar a primeira página com as fotos dela. Afinal, tem muito cara por aí chamando Rodger de herói e inspiração.
Mas, óbvio, esses caras não são misóginos.
Mas, óbvio, esses caras não são misóginos.
Imagina se fossem. Imagina se o mundo fosse misógino.
Relatório final (em inglês) sobre o massacre. Segundo o FBI, entre 2000 e 2013 ocorreram 160 massacres ("mass shootings") nos EUA, resultando na morte de 486 pessoas e no ferimento de outras 557.
Relatório final (em inglês) sobre o massacre. Segundo o FBI, entre 2000 e 2013 ocorreram 160 massacres ("mass shootings") nos EUA, resultando na morte de 486 pessoas e no ferimento de outras 557.



















































































