quarta-feira, 28 de maio de 2014

AOS HOMENS, A DESCULPA; ÀS MULHERES, A CULPA

Vigília na Universidade da Califórnia, no sábado

Sabe quando alguém xinga um gay de viado ou um negro de macaco e insiste que não está sendo homofóbico nem racista? Eu fico pensando: mas o quê esse pessoal considera homofobia ou racismo, então? Bater num gay? Não, juram eles, espancar gay não é homofobia. E matar um gay? Aí sim tem que ser homofobia! 
Ledo engano. Não é homofobia porque, dizem eles, o gay foi assassinado por "outros motivos". Se você prova que o cara que matou um gay simplesmente por ele ser gay -- e que, pelamor, isso tem que ser visto como homofobia --, a galera dá a cartada final: não, não foi homofobia. Foi apenas a ação de um indivíduo doente. 
Logo, a turma conclui: homofobia, racismo, transfobia, misoginia, são coisas que não existem. Invenções de ativistas, apenas (às vezes eles vão além e testam a nossa paciência ao afirmar que o que existe mesmo, mesmo é racismo contra os brancos, heterofobia e misandria). 
Assim fica fácil, né? 
Anteontem publiquei um post falando sobre Rodger Elliot e outros assassinos em massa que não apenas alvejaram e atiraram em mulheres como ainda deixaram provas (vídeos, manifestos, palavras) que estavam matando mulheres porque as odiavam. Mas pode crer que veio muito cara ofendidíssimo aqui negar que aquilo tivesse qualquer ligação com misoginia (que significa ódio às mulheres).
As várias cenas do crime
A culpa pelo massacre de Santa Barbara, segundo eles, é da doença (sendo que há milhares de pessoas diagnosticadas com Síndrome de Asperger que nunca cometeram qualquer crime), da criação dos pais, do mundo moderno, do clima, das mulheres (o que uma leitora escreveu alguns dias atrás, "Aos homens, a desculpa; às mulheres, a culpa", pareceu mais apropriado do que nunca)... 
E, como não podia deixar de ser, recebi um monte de comentários (a maior parte não aceita pra publicação) dizendo que Rodger é uma inspiração, que ele estava certo, que as mulheres têm mesmo que morrer por ousarem escolher com quem querem fazer sexo. 
Sério, tem cara que pensa assim. Mas pode apostar que ele não se considera misógino -- porque, afinal, misoginia não existe.
Um sujeito tentou justificar assim a inveja que Rodger sentia de negros e latinos conseguirem namoradas brancas: ah, eles pegavam mulher porque negros e latinos são membros de gangues, e mulher só gosta de bandido. Porque não basta ser misógino, tem que ser racista também. Quer dizer, tenho certeza absoluta que o comentarista que associa negros e latinos a gangues não se vê como racista.
Não daria pra trocar o disco e pensar nem um pouquinho? Rodger não conseguir mulher é prova que muitas mulheres têm bom senso e não gostam de psicopatas. Entenda: não é que "mulher não gosta de cara bonzinho". Rodger não era um cara bonzinho. Ele matou seis pessoas! Caras bonzinhos não matam gente! Mascus não têm nada de bonzinhos. E a mulherada que eles tanto desejam foge deles justamente por isso. Elas sabem. Nós sabemos. Sabe aquele sexto sentido que atribuem às mulheres? Parece que isso é instinto de sobrevivência. Que muitas mulheres desenvolvem esse sentido pra poder continuar vivas.
De fórum mascu

Ah, mas a maior parte das vítimas de Rodger (quatro das seis) era homem. E daí? Isso quer dizer que ele não era misógino? 
Ele gravou um vídeo e escreveu um manifesto de 140 páginas dizendo que iria se vingar das mulheres (e dos caras que ficavam com as mulheres que deveriam ser dele), matando-as. Não dá pra ser muito mais explícito na sua misoginia do que isso. Ele disse que odiava mulheres, que mulheres eram a praga do mundo, que elas deveriam ser postas em campos de concentração, que o feminismo, a luta pelos direitos das mulheres, deveria ser destruído. Se isso não é misoginia, é o quê, então? 
Mortas em frente à sororidade
Aí ele vai e tenta cumprir seu plano de "aniquilação total", de "dia de retribuição", de destruir as "vadias" que o rejeitaram. Porém, como ele matou "apenas" duas, não é misoginia. Sabe por que ele matou "apenas" duas? Porque ele fracassou. Seu plano -- dito claramente no vídeo que ele postou no mesmo dia -- era de entrar na sororidade (espécie de fraternidade, só que para mulheres, uma casa de confraternização) que tinha as garotas mais gostosas e matar todas elas. Isso é do vídeo gravado por ele: 
"Vou entrar na sororidade mais agitada da universidade e vou matar cada uma das vagabundas dissimuladas e frescas que eu encontrar lá. Todas essas garotas que eu desejei tanto. Todas elas me rejeitaram e me olharam como um homem inferior sempre que eu tentei algo com elas, enquanto se atiravam nos braços dos brutamontes. Terei grande prazer em assassinar cada uma de vocês. Vocês verão que eu sou, de fato, o mais superior de todos os machos alfa".
Martinez, morto ao sair do mercado
Felizmente, ele não conseguiu entrar. Portanto, ele "só" matou duas mulheres que estavam na frente da sororidade. Daí ele se dirigiu a um supermercado. Lá ele gritou coisas a algumas moças antes de atirar nelas. Apesar de ter disparado diversas vezes, "só" atingiu fatalmente um rapaz que estava saindo do mercado naquele exato momento. 
Moça deixa flores em frente à sororidade
A dor e revolta do pai de Martinez
Sabe como boa parte dos homens evita pensar em soluções para a violência que aflige a humanidade? Varrendo a sujeira pra debaixo do tapete. Fingindo que não é com ele. Individualizando o problema -- desde que esse "individualizar" não o inclua, é claro. Logo, um estuprador é apenas um estuprador. 
Ainda que estupro seja uma chaga universal, cometida por milhões de indivíduos (97% deles cometidos por homens), muitos homens descartam discutir o problema. Pra eles, é um assunto feminino, que não lhes diz respeito. E ai de alguma feminista que diga que a causa de estupro é um modelo de masculinidade agressivo e falido. 
De fórum mascu

Anúncio liga armas à
masculinidade
A violência masculina não é um problema individual. É social. Existem homens no mundo que tentam entender por que isso acontece, para ajudar a impedir que aconteça novamente. E existem os que chamam estuprador e assassino de "monstro" (quando não culpam a vítima) e dão o caso por encerrado. Desta forma, ignoram o problema.
A vlogueira Laci Green fez um vídeo excelente sobre o massacre de Santa Barbara. No final, ela diz (minha tradução): 
"Elliot é o monstro que nós como cultura, como sociedade, criamos. Seus atos aterrorizantes não são isolados. São parte de uma doença cultural séria que afeta todos nós, especialmente mulheres, todo dia. E toda pessoa, todo veículo de mídia que lhe dá o carimbo de 'louco' sem qualquer outra discussão é parte desse problema. Acho que precisamos nos perguntar: por que é tão difícil de admitir que a misoginia realmente mata pessoas?" 
E ela pergunta: por que a polícia, advertida pelos pais de Rodger, foi lá, falou com ele, viu os vinte vídeos misóginos que ele tinha feito, e concluiu que estava tudo bem? Será por que a misoginia é vista como algo tão natural na nossa sociedade que, se um jovem diz que vai aniquilar mulheres por elas não saírem com ele, só feministas acham isso meio esquisito?
Green cita que, dos setenta assassinatos em massa cometidos nos EUA de 1982 até agora, apenas um foi cometido por uma mulher. Todos os outros foram por homens, a enorme maioria, por homens brancos. Este post aponta que a maior parte das vítimas de massacres em escolas são mulheres. Com números assim, é preciso muito esforço pra negar que tantos desses massacres são crimes de ódio, cometidos por homens contra mulheres. 
Imagine se fosse o contrário. Se, de 70 massacres, 69 tivessem sido cometidos por mulheres. E se a maioria das vítimas fossem homens. Você acha mesmo que a mídia não discutiria o "fenômeno" de mulheres pegando em armas pra matar homens? 
Mas não tem problema, porque grande parte dos caras não associa "homens matando mulheres" com misoginia. E eles nem precisariam fazer isso, porque a mídia já faz por eles, por nós. Aqui no Brasil, três anos depois do massacre de Realengo, nenhum veículo chama o ato pelo que foi: feminicídio, crime de ódio. Mesmo que o placar final do massacre não fosse suficiente (dez meninas mortas, dois meninos), ainda haveria várias outras evidências
Se a mídia não dá muita bola pra misoginia, ela certamente perde tempo em buscar causas pros assassinatos (por exemplo, em Realengo, houve mais meninas do que meninos mortos porque, segundo jornais, as meninas correm mais devagar e sentam na frente da turma, embora testemunhas tenham dito que Wellington separou meninas e meninas e atirou na cabeça das meninas) e em procurar culpados. Ou melhor, culpadas. Ontem os tabloides New York Post e Daily Mail colocaram em sua capa fotos da moça que Rodger apontou como pivô da sua frustração com as mulheres. 
Uma moça que, diga-se de passagem, mal sabia que ele existia. Quando ele tinha doze anos e ela, dez, ele se interessou por ela, e foi rejeitado (como acontece com todo mundo). Anos depois, Rodger ainda a estava chamando de "vadia do mal", como escreveu no seu manifesto de 140 páginas. Apesar dos jornais darem voz ao pai da moça, é bem temerário estampar a primeira página com as fotos dela. Afinal, tem muito cara por aí chamando Rodger de herói e inspiração.
Mas, óbvio, esses caras não são misóginos.
Imagina se fossem. Imagina se o mundo fosse misógino. 
Relatório final (em inglês) sobre o massacre. Segundo o FBI, entre 2000 e 2013 ocorreram 160 massacres ("mass shootings") nos EUA, resultando na morte de 486 pessoas e no ferimento de outras 557. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

GUEST POST: ATÉ A ÓPERA É GORDOFÓBICA

Um assunto muito interessante que nunca tratei no blog, até porque não entendo nada do assunto: a gordofobia na ópera. A jovem e antenada Amanda é quem escreveu:

Meu nome é Amanda, tenho 15 anos e sou de Fortaleza. Já faz um bom tempo que me apaixonei pela ópera e não posso passar um dia sem escutar pelo menos uma ariazinha. Mas algo nesse mundo de arte tão rica vem me incomodando como feminista.
Sabe-se bem que quando se fala em ópera, as pessoas geralmente pensam numa mulher gordinha, vestida de viking e cantando agudos estratosféricos. Mas ultimamente, parece que as gordinhas vem perdendo seu poder nas grandes casas de ópera.
Deborah Voight antes e
depois da cirurgia (que
também afetou sua voz)
Certo dia, visitando um blog com notícias do gênero, me deparei com um post bem interessante que falava sobre as cantoras de ópera que estão acima do peso. O post se baseava em uma notícia que chocou os operísticos. A soprano Deborah Voight havia sido excluída da produção de Ariadne auf Naxos por estar muito acima do peso e só voltou a cantar no Royal Opera House depois que se submeteu a uma cirurgia de redução de estômago, o que afetou sua voz, que ficou um pouco mais fraca. 
Isso aconteceu em 2004. Muitos fãs ficaram indignados, afinal, não havia grandes relatos na ópera de uma soprano ser demitida por estar gordinha, isso não havia acontecido.
As gordinhas sempre foram estrelas no palco e os fãs pouco se importavam com o peso das cantoras e sim com seu talento. Algo raro hoje. Mas percebe-se que ultimamente as cantoras de ópera estão cada vez mais magras, mais adequadas ao padrão de beleza da nossa infeliz sociedade.
E Deborah não foi a única. Daniella Dessì, que tem um histórico de sucesso em grandes casas de ópera, foi bastante criticada pelo diretor Franco Zefirelli, que não gostou da ideia de tê-la na sua produção de La Traviata. De acordo com o diretor, sua Violetta (personagem principal da peça) era jovem e feita para jovens. Para ele, a cantora estava gorda e velha demais para interpretar a personagem. 
Depois de ouvir tais ofensas, a cantora abandonou La Traviata e seu marido, que também cantaria, fez o mesmo. E ela declarou publicamente que ficou magoada com as palavras de Zefirelli, dizendo: “"Não se canta com o corpo. Canta-se com a voz".
Anna Netrebko, outra cantora, que na época se adequava aos padrões de beleza e era comparada a uma modelo, falou do caso da cantora, e disse que “não é verossímil que uma Traviata de 100 quilos emocione e te faça chorar”. O interessante é que Deborah tinha 65 quilos e 1,70 m.
Além disso, Montserrat Caballé foi uma das maiores Traviatas da história da ópera e com certeza pesava mais do que 100 quilos. 
Inclusive, Caballé é uma das cantoras mais comentadas quando o assunto é gordofobia na ópera. Afinal, ela era obesa e foi uma das melhores cantoras do século XX. E Netrebko, que soltou tamanho preconceito em uma frase, está também ficando cada vez mais gordinha.
Como Caballé, existiram várias outras cantoras gordas, lindas e talentosas. Com certeza muitas das cantoras da atualidade são talentosas, mas vemos que elas são bem mais magras e photoshopadas do que as cantoras antigas.
Infelizmente, parece que a gordofobia, já existente no cinema, no teatro e na música popular, está atingindo também a ópera.
Para os fãs, esse ainda é um assunto polêmico, mas entristece muito ver as pessoas pensarem que uma mulher gorda não é capaz de atuar, não é capaz de emocionar um público e levá-lo às lágrimas. Afinal, ser gordo ou gorda é motivo de piada. Como uma piada pode emocionar atuando e cantando?
Isso não vale apenas para a ópera, mas para qualquer outra forma de arte onde a pessoa aparece em público.
Pelo visto, essa gordofobia não para por aí e devem existir muitas outras cantoras não tão famosas que foram expulsas de produções por causa do seu peso.
Maria Callas quando gorda
A ópera entrará em crise e acabará por causa disso, como dizem alguns? Não. Mas muitos talentos serão perdidos por puro preconceito.
Ficaria muito feliz se você pudesse postar isso no seu blog. É um assunto diferente, é verdade, mas merece reflexão!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

QUEM A MISOGINIA MATOU HOJE?

Moça em Sta Barbara observa janela com buracos de bala


Na sexta à noite, Elliot Rodger, 22 anos, executou a missão que vinha planejando há meses: vingança. Retribuição. Aniquilação total. "Se não posso ter vocês, garotas, irei destruí-las", havia jurado ele num vídeo postado no mesmo dia do massacre.
Rodger começou matando a facadas três colegas de quarto em Santa Barbara. Depois foi com sua BMW para uma sororidade na Universidade da Califórnia, assassinando duas moças com sua pistola automática. Dirigiu até um supermercado e, na rua, do carro, passou a atirar em pessoas que passavam. No total, foram sete mortos (incluindo ele próprio) e treze feridos.
No vídeo perturbador, Rodger, entre uma e outra risada sinistra, se diz um homem alfa, ao mesmo tempo em que reclama ser virgem. Algumas de suas frases, dirigidas às mulheres: "Vocês me negaram uma vida feliz"; "Odeio todas vocês. A humanidade é nojenta"; "Vou dar a vocês o que vocês merecem por terem me rejeitado e se dado para outros homens. E aos homens por terem uma vida melhor que a minha"; e "Vou massacrar cada vagabunda loira, mimada e metida que via lá dentro, e todas essas garotas que eu tanto desejei e que me rejeitaram e me olharam com desprezo, como se eu fosse um homem inferior".
Rodger também deixou seu manifesto, ou suas memórias, um calhamaço de 140 páginas. Num típico pensamento mascu, ele protesta contra as mulheres: "As garotas se reúnem em torno do macho alfa, dos garotos que parecem ter mais poder e status". Ele conta que, ao ver um vídeo pornô, aos 13 anos, concluiu: "Sexo... as próprias palavras me enchem de ódio. Assim que cheguei à puberdade, eu sempre queria sexo, como qualquer outro garoto. Sempre desejava, sempre fantasiava, mas nunca iria fazer. Não conseguir sexo é o que formatará toda a fundação da minha juventude miserável". 
Evidentemente, Rodger também odiava feministas. Ele se considerava um incel (celibatário involuntário), e pedia a destruição do feminismo: "Um dia incels vão perceber sua verdadeira força e quantidade, e irão derrubar este sistema feminista opressivo. Comece a imaginar um mundo em que as mulheres te temem".
Em seu manifesto, ele escreve: "Mulheres são como uma praga. Elas não merecem ter qualquer direito. Sua maldade deve ser contida para prevenir gerações futuras da sua degeneração. Mulheres são animais malditos e barbáricos, e precisam ser tratadas como tais". Ele queria criar campos de concentração para mulheres em que todas passariam fome até morrer.
Racista, ele via conhecidos negros e latinos com namoradas, e não entendia como eles, feios e sujos, conseguiam mulheres brancas e bonitas, enquanto ele, "descendente da aristocracia britânica", não. Num vídeo, Rodger registra sua inveja ao ver um casal namorando na praia. "Não é justo", diz ele. "A vida não é justa". Noutro, ele exibe suas roupas e seus óculos de 300 dólares e afirma, "Eu mereço garotas. Muito mais que aqueles preguiçosos que vejo na universidade".
Mesmo sendo filho do diretor assistente de Jogos Vorazes, Rodger não se sentia rico.  Pelo contrário, era obcecado por ganhar na loteria e ficar milionário. Achava que assim seria capaz de atrair mulheres (outro típico pensamento mascu). 
Numa parte de seu manifesto, Rodger escreve que, ao ver um casal, sonhava em matá-lo lentamente, removendo sua pele: "Eles merecem. Os homens merecem por tirarem as fêmeas de mim, e as fêmeas merecem por escolherem esses homens em vez de mim".
Uma vez, conta Rodger, ele jogou café em duas "loiras gostosas" porque elas não sorriram de volta pra ele. "Elas mereceram a punição que dei a elas. Uma pena que meu café não estava quente o suficiente para queimá-las. Essas garotas merecem ser jogadas em água fervente pelo crime de não me darem a atenção e adoração que eu justamente mereço".
No final de 2012, Rodger comprou uma pistola automática e passou a se preparar para o "Dia da Retribuição" ("minha guerra contra as mulheres por me rejeitarem e me privarem de sexo e amor"). Ao comprar a arma, escreveu: "Quem é o homem alfa agora, vadias?"
Imagino que consegui provar que Rodger era um misógino de marca maior, que usava a mesma linguagem dos blogs e fóruns de ódio que frequentava, sites de masculinistas americanos e PUAs (Pick-Up Artists, ou "artistas da sedução"), que fingem ser adversários mas são exatamente a mesma coisa. 
Vigília com velas na universidade
Por exemplo, um dos mais conhecidos "puazeiros" mostrou-se preocupado com os inimigos que virão por causa das ações de Rodger: "Mas nós somos a solução para este tipo de massacre. Esta é a sociedade que os progressistas queriam, onde mulheres são capazes de escolher os 10% de homens alfas ao mesmo tempo que culpam a masculinidade, deixando homens betas com recursos modestos comendo poeira". Quer dizer, só mudam os números. Um popular mascu brasileiro costumava pregar que 20% dos homens pegam 80% das mulheres (estatística, aliás, que ele copiou dos mascus americanos).
Gráfico que Rodger deixava em sites misóginos para reclamar da "hipergamia feminina" (clique para ampliar)
Logicamente, Rodger não foi o primeiro (e infelizmente não será o último) misógino a colocar em ações concretas (violência) o seu ódio. Enquanto o feminismo nunca matou ninguém (pra quem citar Solanas: felizmente, Andy Warhol não morreu; pra quem citar aborto: primeiro que aborto não é invenção nem exclusividade feminista, segundo que considero vida quem já nasceu; pra quem citar alguma mulher que já matou alguém -- embora 90% de toda a violência no mundo seja causada por homens, mulheres também cometem atos de violência --, favor checar se a assassina em questão é feminista, afinal, nem toda mulher é feminista, "apenas" cerca de 30% a 40%, dependendo do país), o machismo mata todos os dias.
Cinco mulheres são assassinadas diariamente nos EUA pelos parceiros íntimos. Aqui no Brasil há quinze feminicídios todos os dias, a maior parte cometida por parceiros ou ex-parceiros, que não aceitam a separação. Pelos cálculos da ONU, um terço de todas as mulheres mortas no mundo são assassinadas pelo parceiro ou ex. E isso que estou falando apenas de feminicídios individuais, não em massa (aliás, pra quem jura que mulheres são tão violentas quanto homens, você vai ter que rebolar pra encontrar uma mulher que tenha cometido massacres em massa). 
Pra massacres coletivos, nada melhor que a forcinha de movimentos coletivos, como a misoginia organizada dos mascus e puazeiros. Gostaria de lembrar a vocês de outros misóginos que cometeram massacres.
Marc Lépine foi praticamente um pioneiro do masculinismo que mata. Em 1989, Lépine, um canadense de 25 anos que não estava conseguindo ingressar na universidade que queria, invadiu uma sala de aula da Escola Politécnica, em Montreal. Separou os homens das mulheres, ordenou que os homens se retirassem, e atirou nas mulheres, gritando: "Vocês são todas feministas! Eu odeio feministas!" Matou 14 mulheres, feriu outras dez (e 4 homens), e se suicidou. Numa carta, justificou sua revolta dizendo que a ideia de mulheres ocuparem um espaço masculino como engenharia era insuportável. Para muitos mascus ainda hoje, Lépine é um herói.
George Hennard foi responsável pelo massacre mais fatal a ocorrer nos EUA fora de uma escola. Em 1991, numa pequena cidade do Texas, Hennard invadiu um restaurante com sua caminhonete. Gritou "Hoje é o dia de dar o troco! Todas as mulheres de Killeen e Belton [cidadezinhas] são víboras!", e matou 24 pessoas, 14 delas mulheres, antes de se matar. Hennard era um sujeito de 35 anos que, pouco tempo antes, havia stalked duas jovens irmãs. Em uma das cartas que ele lhes enviou, escreveu: "Eu vou prevalecer no final". As garotas ficaram assustadas o bastante para entregarem a carta pra polícia, que não lhes deu bola e entendeu as ameaças de Hennard como um gesto romântico.
Charles C. Roberts, 32 anos, casado e pai de três filhos, em 2006 entrou numa escola numa comunidade Amish na Pensilvânia (ele não era Amish), separou os meninos das meninas, e expulsou da sala os meninos. Amarrou com fita colante onze meninas (entre 6 e 13 anos) e atirou nelas, matando cinco e ferindo seis. Em seguida, se suicidou. Não se sabe exatamente por que ele quis matar meninas. Rumores apontam que ele havia abusado sexualmente de duas garotas vinte anos antes e estava fantasiando abusar novamente. Para evitar isso, preferiu matá-las.
George Sodini, 48, estava tão desesperado por não transar havia 19 anos que pagou por vários cursos PUA. Durante nove meses, ele registrou em seu blog seu ódio pelas mulheres (neste post traduzi alguns de seus textos). Ele acreditava que tudo que precisava para conquistar lindas jovens era dinheiro, mas não estava dando certo. Em 2009, foi a uma academia de ginástica em Pittsburgh, entrou numa aula de aeróbica só para mulheres, e abriu fogo. Matou 3 mulheres, feriu outras nove, e se suicidou. Não conseguia entender por que 30 milhões de americanas (sua estimativa para o número de jovens desejáveis existentes) o recusaram. Segundo ele, elas lhe deviam sexo.
Pausa. No seu recente (e excelente) livro Angry White Men (Homens Brancos Furiosos: A Masculinidade Americana no Fim de uma Era), o sociólogo Michael Kimmel inclui comentários que ele pegou de blogs e fóruns masculinistas nos EUA sobre Sodini, em 2009. Vou traduzir alguns:
"George Sodini é um herói masculinista. Finalmente um assassino em massa escreve um manifesto relativamente coerente. Podia ser melhor, mas ao menos sugere que a culpa é do feminismo e que Sodini está tomando uma posição. Estava esperando por isso (quase pensei que eu mesmo teria que fazê-lo)! Parabéns!"
"As mulheres devem aceitar este incidente como um imposto. Elas conseguem homens para que lhes paguem bebidas e jantares e casamentos, e não dão nada em troca. De vez em quando, algumas mulheres são assassinadas. As mulheres, particularmente as feminazis, têm muito o que refletir."
"Um cara razoavelmente atraente que recebe um bom salário e não bate em mulheres MERECE fazer sexo. Ponto final. O fato de que muitos não fazem é um crime. E numa sociedade justa, todos os crimes são eventualmente punidos".
"Eu aplaudo estupro e violência contra as mulheres quando fica claro que homens amargurados as matam por elas não aceitarem fazer sexo. Só assim as mulheres abandonarão sua igualdade e serão forçadas a um casamento monogâmico por pura necessidade econômica."
Na época do massacre em Pittsburgh, uma colunista do The Guardian buscou explicações para um fenômeno: por que o fracasso na vida amorosa faz alguns homens irem pelo caminho de um Sodini, enquanto as mulheres no máximo tornam-se Bridget Jones? Você já viu alguma mulher virgem sair por aí atirando em caras porque ela merece sexo?
Ah, tem mais dois ou três misóginos que eu me lembro sem esforço. Outro que frequentava blogs e fóruns mascus era Jared Loughner, que em 2011, no Texas, atirou na cabeça da congressista Gabrielle Giffords, que milagrosamente sobreviveu. Outras seis pessoas não tiveram a mesma sorte. Loughner não se suicidou nem foi morto pela polícia. Após ser julgado mentalmente incapaz de responder por seus atos, foi condenado à prisão perpétua. Nos sites mascus que visitava, Loughner gostava de compartilhar histórias de como era rejeitado pelas mulheres, e de dizer que elas nunca deveriam ter posições de poder.
E quem não conhece o terrorista norueguês Anders Breivik, que em julho de 2011 matou oito funcionários públicos em prédios do governo, em Oslo, e 69 pessoas, a maior parte adolescentes, num acampamento? Sua motivação foi o combate à religião islâmica, ao marxismo cultural e, como não poderia deixar de ser, ao feminismo. Breivik era, e é ainda (talvez passe a vida toda na cadeia), um mascu. E como tal foi defendido por vários mascus. Um deles disse que, em outras épocas, Breivik seria chamado de herói. Por aqui, fotos suas ilustram muitos avatares misóginos.
E não devemos, é claro, nos esquecer do "nosso" Wellington, a prata da casa. Em abril de 2011, um jovem de 23 anos, Wellington Menezes de Oliveira, entrou numa escola municipal no Rio, em Realengo (onde havia sido aluno), e atirou nas meninas, principalmente nas bonitas, para matar, e nos meninos, para machucar. Matou dez meninas e dois meninos (todxs entre 12 e 14 anos), e se suicidou após ser acertado por um policial. 
Na ocasião do maior massacre desse tipo já cometido em solo brasileiro, a polícia federal investigou vários fóruns e blogs mascus, pois sabia que Wellington era um fiel frequentador. Silvio Koerich, responsável pelo maior fórum mascu, teve tanto medo das investigações que simplesmente sumiu, sem dar explicações. 
Um outro mascu brasileiro compreendeu o massacre, já que as meninas transavam com outros, não com Wellington: “esse mercado sexual seletivo cria homens errantes, como o caso deste assassino. Alguns homens com menos poder diante do mercado sexual adquirem uma extrema raiva e frustração contra o processo seletivo das mulheres”. Pois é, como elas ousam escolher!
Menos de um ano depois, os mascus sanctos que tomaram conta do blog de Koerich postaram o log da conversa que tiveram com Wellington (leia aqui). 
Eu não tenho a menor dúvida que Wellington era um mascu que, influenciado por outros mascus, cometeu seu ato de misoginia, seus feminicídios. Até hoje ele é tratado como grande herói pelos sanctos -- que, obviamente, agora tem uma nova inspiração na figura de Rodger Elliot. 
No sábado recebi várias mensagens de Marcelo Mello, o mascu sancto que, junto a Emerson, foi preso em março de 2012, por planejar um atentado no prédio de Ciências Sociais da UnB ("para matar esquerdistas e vadias"). Apesar de condenado a 6,5 anos, Marcelo está solto desde maio do ano passado, fazendo exatamente o que fazia antes de ser capturado (ameaçando e espalhando ódio):

Num fórum aberto recentemente, que parece ser dele, os membros comemoram:

Não faço a menor ideia quem seja Eric, mas o discurso racista de Rodger é parecido mesmo com o de Emerson. Já pensar que Rodger conversava com mascus brasileiros é delírio de grandeza dos insignificantes sanctos...
No único segmento mascu do Brasil em que os misóginos ainda crescem, nos blogs de finanças pessoais, o chorume à la Rodger corre solto. Este é um comentário de ontem:

E este é um dos trechos dos inúmeros manifestos de um mascu do Mato Grosso do Sul, cuja missão na terra é acabar com o feminismo. E, se bobear, com as mulheres:
Chris deve dedicar mais da metade dos seus muitos posts a minha pessoa:

Pois então, como uma feminista consegue acabar sozinha com o masculinismo? Deve ser porque gorda remelenta não confunde vítimas (Eliza) com algozes (goleiro Bruno). 
E há os machistas simplistas, que creem que, se Rodger (e Sodini, e Wellington -- isso não se aplica aos outros mascus citados acima) tivesse contratado uma prostituta para fazer sexo com ele, muita gente estaria viva hoje. Só que não é verdade. Prostitutas não resolveriam o problema de Rodger, porque mais do que sexo, mais do que amor, ele queria validação. Ele queria ser visto como um ótimo cara e merecedor de todas as coisas boas que lhe foram prometidas desde que ele nasceu, apenas por ter nascido homem. E, por mais narcisista que fosse, ele sabia que prostitutas só diriam que ele era um ótimo cara se ele pagasse.
Se você acha que estou exagerando, vá ao início deste post gigantesco e veja quantas vezes a palavra merecer aparece no discurso de Rodger. Esta é a razão principal da revolta dele e dos outros -- eles não estavam recebendo o que mereciam. A palavra-chave é entitlement, o sentimento de merecimento que está sempre associado à masculinidade. Homens, principalmente homens brancos e héteros de classe média pra cima, sentem-se no direito de ter bons empregos, de ganhar bem, de ingressar na faculdade, de ter poder, e, acima de tudo, de obter sexo com as mulheres que eles quiserem (e dane-se o que elas querem).
O site de humor inteligente Cracked resumiu este sentimento brilhantemente num post de dois anos atrás chamado "Cinco maneiras que rapazes são treinados para odiar mulheres"(minha tradução):
"Parece que os homens sentem-se meio merecedores de sexo? Parece que reagimos à rejeição com a maturidade de uma criança a quem é negada um brinquedo? O que aprendemos quando crianças é que homens merecem, e eventualmente serão recompensados com, uma linda mulher. [...] Então é muito frustrante, e quero dizer frustrante ao ponto de violência, quando não recebemos o que nos é devido. Um contrato se rompeu. Essas mulheres, ao exercerem suas próprias escolhas, estão negando isso a nós. É por isso que todo Carinha Legal se choca ao descobrir que comprar presentes pra uma garota e fazer favores pra ela não farão com que ele receba sexo. É por isso que usamos 'vadia' e 'puta' como insultos-padrão -- não estamos bravos que as mulheres gostem de sexo. Estamos bravos que as mulheres estão distribuindo a outras pessoas o sexo que elas devem a nós".
É evidente que todos os assassinos citados acima não eram/são apenas misóginos revoltados porque as mulheres e o mundo lhes devem alguma coisa. Eles também tinham/têm algum grau de psicopatia ou sociopatia, algum desvio (Rodger, por exemplo, tinha Síndrome de Asperger, fazia terapia, e seus pais haviam procurado a polícia em abril, alarmados com o conteúdo dos vídeos que ele postava no YT). 
Mas há milhares de pessoas (mulheres inclusive) que sofrem de algum transtorno e nem por isso matam gente. E suponho que existam misóginos que não sejam sociopatas e, portanto, não pegam em armas para metralhar mulheres (eles "só" motivam os misóginos sociopatas que pegam em armas para metralhar mulheres). É quando a misoginia se junta com a psicopatia que temos uma mistura explosiva -- e letal.
Porém, diante da diferença gritante com que homens e mulheres lidam com a rejeição e a frustração, fica difícil não se lembrar da célebre frase da escritora canadense Margaret Atwood: "Homens têm medo que mulheres riam deles. Mulheres têm medo que homens as matem".

Leia também: Aos homens, as desculpas; às mulheres, a culpa.