terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

GUEST POST: FUI A OUTRA POR POUCO TEMPO

Relato da Marina:

A minha história não é sobre violência -– bom, depende do ponto de vista, pode ser sim uma forma de violência--, é sobre traição. Eu fui a outra, por pouco tempo, mas fui.
Eu tinha dezoito anos e ainda sequer tinha beijado direito na boca; sexo, então, nem pensar. Eu era tímida, insegura e sonhava com o grande amor. 
Foi então que o conheci. Ele apareceu na minha frente, extrovertido, sorrindo, com um olhar simpático. Desde esse dia comecei a prestar mais atenção nele e não percebi que, pouco a pouco, me sentia mais e mais atraída. Um rapaz mais velho que tinha acabado de concluir o curso universitário, com  ar de experiente, se aproximava de mim cheio de charme. Quando ia me cumprimentar, pegava minhas mãos e fazia carinho nelas, era um carinho paradoxalmente respeitoso, quase pueril, mas repleto de desejo e vontade. Eu me apaixonava.
Todos os dias ele ia me ver, me procurava com os olhos e quando cruzava comigo na rua, vinha em minha direção ansioso e sedutor. Foi então que me convidou para ir ao cinema com ele, e eu aceitei. Não podia acreditar que aquele lindo e cobiçado rapaz estava interessado em mim! Aceitei na hora, sem titubear.
Esperei ansiosa pela noite e quando eu o vi, senti uma felicidade incrível: eu, que não ficava nunca com ninguém (pois era a mais feinha da turma), estava prestes a aconchegar o meu coração, doído e só, que tanto queria um carinho. Minhas experiências com um rapaz se resumiam ao plano da imaginação. 
No meio do caminho, ele resolveu que não iríamos ao cinema e foi bem direto: “Quero beijar você e quero ir para outro lugar!" Fiquei meio desconfiada e neguei, mas ele me assegurou de que não iria tentar nada que eu não quisesse. Era só um momento para que ficássemos sozinhos, longe dos olhos curiosos das outras pessoas. Aceitei, mas cheia de reservas. Enfim fomos para outro lugar, ele tinha carro e me levou para um lugar alto, onde podíamos ver toda a cidade.
De repente, ele me beijou e, certamente, percebeu minha inexperiência. Ele enfiava a língua na minha boca e eu não sabia o que fazer, então ele me abraçou e me fez carinhos intensos e audaciosos no pescoço, no rosto, me apertava pela cintura. Seu toque era forte, seguro, voraz. Durante todo esse momento, ele só tocou nos meus braços, costas e rosto, mas cada toque tinha uma força, uma energia que me envolvia e me tirava o fôlego. Era a primeira vez que eu sentia aquilo, e foi incrível. 
Cheguei em casa flutuando, mal podia acreditar no que aconteceu, foi intenso e inesquecível. Lembro de muitos detalhes, até da música que tocava no rádio. Senti um conforto e um desconforto incríveis, que se alternavam dentro de mim.
Nós tivemos mais quatro encontros, ele cada vez mais carinhoso e ousado, e eu cada vez mais envolvida. Até que um dia, à noite, eu o vi com uma moça que era sua namorada. Nesse instante, minha alegria e meu entusiasmo se acabaram. Eles sorriam, se beijavam e pareciam muito apaixonados. Eu fiquei arrasada, triste e com o coração despedaçado, mas também com muita raiva dele e principalmente de mim. Aí ele me viu e ficou desconsertado. Eu fui embora na mesma hora, chorando. 
No outro dia ele me ligou e quis conversar, dizendo que não era feliz com ela e que iria terminar o namoro, eu só tinha que ter paciência. Eu desliguei e não quis ouvir o resto. Ele ligou mais algumas vezes, mas eu não atendi. Não falei com ele e, quando o via, o ignorava. Não se pode brincar assim com as pessoas.  
Tempos mais tarde, fiquei sabendo que eles tinham se separado porque ela o traiu com um amigo dele. Nessa mesma época, fui à uma festa de casamento e lá estava ele, sozinho e, às vezes, olhava pra mim, mas mantive distância. Toda vez que ele tentava se aproximar, eu saía de perto, não queria contato. Depois desse dia, fiquei anos sem vê-lo.
Há pouco tempo, eu estava no aeroporto, quando percebi que alguém me olhava -- era ele. Olhava fixamente e ameaçou se aproximar, mas, neste instante, anunciaram meu voo. Saí, mas antes acenei afetuosamente para ele, como se tivéssemos sido amigos no passado. 
O mal deve ser cortado pela raiz. Se eu tivesse caído na conversa dele, teria sofrido muito mais. Alguns homens querem simplesmente aproveitar as oportunidades e fazem jogos que lançam sobre nós, mulheres, a responsabilidade das coisas. Ele nunca terminaria com ela e levaria a situação até quando fosse conveniente pra ele, e é nessa situação que ainda muitas mulheres se encontram nos dias de hoje. Esperando anos e anos a fio que ele se separe. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: GORDOFOBIA FAZ MAL PRA ALMA

Esta forma já foi padrão de beleza

A revista TPM de setembro falou de comida e culpa, transtornos alimentares, cirurgia bariátrica, a relação da mulher com seu corpo e com dietas, entre outros temas pertinentes. E me pediu pra escrever um texto curto sobre gordofobia. Eu escrevi este.

Se já tem gente que não acredita na existência da homofobia, do machismo e do racismo, imagine o que essas pessoas de pouca fé pensam sobre gordofobia. “Ah, isso é gorda querendo se vitimizar”, já me disseram. Não é não, tolinhos. Preconceito e discriminação contra gordos e, principalmente, gordas, é muito comum na nossa sociedade.
Sim, contra gordas é pior. Num mundo que ainda exige que as mulheres sejam acima de tudo decorativas, a cobrança para que o sexo feminino se encaixe num padrão de beleza irreal é muito maior que pro masculino. Então gordos são zoados, mas, acredite, gordas sofrem muito mais. E tenho provas.
Pra começar, psicólogos de Yale descobriram que jurados homens são mais propensos a condenar mulheres gordas que magras. Pra homens gordos, não há discriminação. Mas os jurados associam as gordas à ganância e à falta de controle. Ou seja, um bando de criminosas em potencial!
O mercado de trabalho também é cruel com as gordas. Ser obeso é prejudicial pra carreira tanto de homens quanto de mulheres, mas ter apenas sobrepeso só é ruim pras mulheres, revela uma pesquisa de uma universidade em Michigan. Gordinhas ganham menos que magras, e a diferença não é pequena: são 9 mil dólares a menos por ano. Já as obesas recebem 19 mil dólares a menos! Se ser gorda faz mal ao bolso, dê graças à gordofobia.
E o sufoco que é pra uma gorda comer em público? Se ela pega uma salada, todo mundo acha que ela está de dieta. Se ela pega a mesma comida que qualquer outra pessoa, alguém vai cochichar: “Tá vendo por que ela é gorda? Ela come!”
Vamos jogar esses preconceitos bestas pra escanteio? Até porque a gordofobia não é maléfica apenas para as gordas, como também para as mulheres com o peso “ideal” (ideal pra quem, cara pálida?). 
Há vários estudos provando que a maior parte das mulheres renunciaria ao sexo em troca da magreza. Muitas dariam um braço pra ser magras
Eu prefiro aproveitar a vida e aceitar a mim mesma e as outras pessoas como elas são. Isso sim é mais saudável.

P.S.1: Esta má notícia pros gordofóbicos não coube no texto: estudos mostram que gordx ativo é tão saudável quanto magrx ativo. Disse um cardiologista: "É melhor ser um obeso que se exercita do que um magro sedentário". Outro percebeu que critérios para definir a obesidade (como o IMC) são falhos: “Talvez a gente esteja sendo muito rígido nessa avaliação”.
P.S.2: A gordofobia está tão presente que é só digitar algo relacionado a corpos grandes que o Google, baseado nas suas buscas mais procuradas, já indica algumas continuações negativas. "Pessoas gordas são..." e o Google sugere "horríveis", "nojentas", "preguiçosas", "irritantes". Uma campanha anti-gordofobia diz que, enquanto muita gente não pode escolher ser ou não magra, o ódio é sim uma escolha. Este poster diz: "Não é sobre o peso. Perca o ódio".
P.S.3: Já leu o manifesto de libertação das gordas? Acredite, ele é de 1973!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

AMANHÃ, FLORIPA! DEPOIS, O MUNDO!

Daqui a pouquíssimo vou pra Floripa, para (mais uma) viagem vapt-vupt. Amanhã estarei na UFSC de manhã, pra participar da banca na defesa do Filipe, sobre violência na inacreditável peça Titus Andronicus
À tarde, começando às 13:30 h, estarei numa mesa redonda sobre violência no Sindicato dos Bancários, no Centro. Apareçam! O evento é aberto a todxs. Não precisa se inscrever, não precisa pagar, é só chegar lá. 
E tenho boas notícias! Se tudo der certo, no começo de abril farei parte de uma banca de seleção de concurso pra professores em Marabá, no sul do Pará. 
Deem uma olhada, porque há vários editais pra vagas em universidades federais de todo o Pará. As inscrições são até 19 de março, pelo menos pro concurso de que farei parte. E lógico que aproveitarei os dias lá pra dar ao menos uma palestra. 
Fico muito feliz, porque será a primeira vez que pisarei na região norte! O mais longe que já fui foi pro Maranhão. Vai ser ótimo conhecer essa parte do Pará! Ainda mais porque uma querida colega do doutorado da UFSC trabalha lá.
E talvez, se zeus quiser, eu vá direto do Pará pro Paraná! (porque não vai dar tempo de voltar pra Fortaleza). Não posso falar muito, porque ainda não tenho confirmação, mas a UFPR está preparando um lindo evento pra abril. Espero poder estar lá pra minha primeira palestra no Paraná. Só não quero ficar tão esperançosa porque nos anos anteriores recebi dois convites pra falar em Curitiba, e ambos acabaram não vingando. Vamos ver se agora vai. 
Mudando de assunto: por favor, entrem no meu tradicional bolão do Oscar. Sei que o carnaval vai estar bem no meio, mas não deixem de apostar. É só até o final de sexta-feira, já que a cerimônia será no próximo domingo à noite. 
Sei que muita gente (eu inclusa) estará viajando e terá dificuldade pra assistir. E sei também que muita gente não viu todos os filmes, talvez não tenha visto nenhunzinho, ma isso não é impedimento. Eu já ganhei um bolão (bons tempos) apostando tudo no terceiro e último Senhor dos Anéis, que evidentemente nem vi, nem verei. É tudo no chute mesmo.
E quem não se sente à vontade para gastar a fortuna de R$ 15 para entrar no bolão pago, que entre ao menos no bolão não pago. É grátis, não custa nada, e você podem adivinhar tudo em menos de cinco minutos. Vamulá, pessoal!
E vocês votaram bastante na enquete pra melhor animação. Frozen, que é uma gracinha, ganhou fácil. Não vi os outros concorrentes, mas acho difícil outro ter uma cena tão divina como a de "Let it Go" (que concorre também à melhor canção). Agora estou sem ideias pra próxima enquete. Sugestões?
Um dia os livros vão acabar... Compre o seu! E inscreva-se no meu curso de extensão, que começa depois do carnaval. É só mandar um email para lolaescreva@gmail.com

REGRAS PARA GATOS

O maridão viu isso em algum lugar do Facebook e mandou pra mim. Eu só traduzi e encontrei algumas fotos fofinhas.
O gato não pode subir nos móveis.
Certo, o gato pode subir nos móveis, exceto na bancada da cozinha.
Ok, o gato pode subir na bancada da cozinha também, mas não quando estou preparando comida. Trato?
Então tá... O gato pode ir onde quiser, quando quiser, desde que não me estapeie no rosto às 5:30 da manhã exigindo ser alimentado.
O gato será alimentado às 5:30 da manhã. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

GUEST POST: O BLOG ME AJUDOU A SUPERAR O VÍCIO EM COCAÍNA

O V. me enviou este relato.

Hey Lola, meu nome é V., tenho 20 anos, e estou pra te escrever esse email há uns quatro meses, mas faltou tempo e coragem, um pouquinho dos dois. 
Enfim, minha história com seu blog é um pouco diferente das outras que chegam até você. Bem, conheci seu blog há três anos, quando estava no cursinho e um amigo sociólogo me indicou, e foi em você que eu descobri as razões que me incomodavam sobre a sociedade mas que eu não sabia como explicar. 
Na época eu tinha 17 anos, tive uma formação até então liberal, mas ver você falando dos "humoristas" me afetou -- eu finalmente tinha encontrado uma opinião como a minha, um argumento para debater com os reaças. Esse é meu primeiro agradecimento, muito obrigado! 
Mas Lola, nem tudo são flores na vida. Eu, quando criança, fui abusado durante cinco anos por um primo quatro anos mais velho do que eu, e bem, nunca contei isso a ninguém. Na verdade eu sempre pensei que, se eu não reagia, era porque de certa forma eu gostava. Sabemos que não é a verdade, mas essa questão foi resolvida com esquecimento. Eu deixei essa memória no limbo da minha mente, e não sei até que ponto isso me afetou. 
É agora que começa a minha história mais profunda com suas palavras, que às vezes nos abraçam como ninguém poderia fazer, esse é o seu dom. Mas o que aconteceu foi que com 17 anos eu montei uma banda com um amigo de colégio e conheci a cocaína. Quando se tem 17 anos, o peso da sociedade nos ombros, a necessidade de acabar o colégio e começar uma faculdade é enorme, e a cocaína foi meu escape perfeito, eu usava e me sentia melhor, mais leve, sem nenhum problema. Com a cocaína eu tinha a ilusão de ser uma pessoa mais forte, a cocaína era meu amuleto da sorte. 
Além da cocaína eu comecei um relacionamento autodestrutivo com esse meu amigo de banda. Eu sempre me senti bissexual, e isso sempre foi um problema, afinal -- dizem -- não é possível gostar de homens e mulheres na mesma medida. Eu posso afirmar com todo o meu coração que é possível sim! Aliás, os bissexuais sofrem preconceito das próprias minorias muitas vezes, mas esse é outro assunto. 
A verdade é que com 18 anos eu estava completamente viciado em drogas e num relacionamento homossexual muito destrutivo para nós dois. Foi quando, por um descuido meu, minha mãe pegou meu celular e descobriu mensagens minhas pedindo drogas a esse companheiro. Foi aí que minha vida desmoronou. Como você deve imaginar, não é fácil para uma mãe descobrir que seu filho é um viciado, e para minha surpresa, minha mãe, sempre tão liberal, ficou muito mais revoltada por eu estar envolvido com um homem do que por eu estar usando cocaína! 
Sim Lola, eu gastava 2 mil reais por mês com cocaína, mas minha mãe desmoronou quando descobriu que eu estava com outro cara. Isso foi muito forte pra mim, pra todo mundo, e minha família perfeita e invejada por todos havia desmoronado, e justamente com drogas e um filho gay. Eu me expliquei como bissexual, mas não adiantou, então eu fiz o pior: eu menti, eu disse pra minha mãe que eu não era nem mesmo bi, que por culpa da droga eu havia feito coisas que não queria, que aquele não era eu. 
Bem Lola, minha mãe engoliu, quis se enganar, ou seja lá o que for. Eu de fato terminei meu relacionamento com o rapaz, porque não podia mais continuar com aquilo, não pelo relacionamento, mas pelas drogas, e agora eu tinha o pior pela frente: me livrar do vício. Meu pai me perguntou se seria necessária uma internação, eu disse que não. Mas Lola, eu trabalho num espaço de livre circulação de drogas e, pra ajudar, eu estava num horário na madrugada, onde não havia ninguém. Nada me impediria de me drogar. 
Mas eu não podia, não mesmo. Foi então que eu descobri as suas resenhas de filmes, e aquilo me ajudou mais do que qualquer tratamento jamais ajudaria. Eu passava horas na madrugada lendo suas críticas, muitas vezes chorando, tremendo, sofrendo sozinho com uma abstinência terrível. Era nessa hora, quando a falta da cocaína literalmente doía, que você me abraçava com as suas palavras. 
Eu lia suas críticas e pelos cinco minutos que eu lia, a dor passava, a vontade passava, então quando voltava, eu lia mais e mais críticas. Foi assim por dois meses, eu li todas as suas críticas, eu sorteava a letra e lia todas, e após dois meses já não doía mais, já não me fazia querer morrer por não cheirar. 
Sem remédios, sem psicólogos, só eu, um computador no trabalho e suas críticas. E eu nunca mesmo vou poder mensurar em palavras o quanto eu sou grato a você por isso, nunca mesmo. 
A vida não é um conto de fadas, Lola, então minha família continua fingindo que não sabe que sou bissexual, esqueceu o passado, e prefere acreditar que eu namoro uma menina, que na verdade é só uma grande amiga. Eu sinceramente não os culpo e penso que se pra eles é melhor assim, que seja, eu vivo hoje muito bem sem nenhuma droga, sem nenhum relacionamento destrutivo, seja ele hétero ou homo, e sem banda, haha, e vivo com a certeza de que eu sei quem sou e do que gosto, e eu gosto de meninos e meninas da mesma maneira. Olho pra uma mulher bonita quando passa, e olho pra um cara bonito quando passa, simples assim. 
Estou começando a pensar em fazer terapia pra resolver algumas questões, mas definitivamente na pior fase da minha vida, a única pessoa que eu pude contar foi alguém que eu nem conhecia, e que nunca me viu na vida. Foi você, Lola, e como eu disse, nunca vou poder te agradecer por isso. Continue fazendo o que você faz, porque você faz a vida de milhares de pessoas melhor, tenha sempre certeza disso, obrigado.
Um abração, Lolinha, e um muito obrigado do tamanho do seu amor por chocolate!

Meu comentário: Muito obrigada por todo o carinho, V.! Devo dizer em minha defesa que já me acusaram de muita coisa na vida, mas nunca de curar alguém do vício das drogas! Fico feliz que minhas inocentes crônicas de cinema tenham te ajudado. Agora é vida pra frente, querido! Tudo de bom pra você, e muito agradecida pelo suprimento vitalício de chocolate (que cada um tem o seu vício). 
E ó, já que minhas crônicas fazem milagres, acho que vocês bem que podiam comprar os últimos exemplares do meu livrinho.