Na primeira sorveteria que vi, ainda no aeroporto de Atlanta, havia uma promoção chamada “Addicted to Chocolate”, ou “Viciado no Manjar dos Deuses”, numa tradução livre. Até o cascão era de chocolate, tudo pela pequena fortuna de 6 dólares – ou eu que sou uma pão-dura miserável? Já instalada com uma geladeira, descobri que dá pra fazer orgias chocolatais em casa. Sorvete de chocolate, calda tipo fudge, biscoitos e M&Ms. Na hora fico muito feliz; a anfetamina atinge o cérebro e dou pulinhos, mas depois o fígado se vinga, e passo mal.quarta-feira, 30 de maio de 2007
ORGIAS COM CHOCOLATE
Na primeira sorveteria que vi, ainda no aeroporto de Atlanta, havia uma promoção chamada “Addicted to Chocolate”, ou “Viciado no Manjar dos Deuses”, numa tradução livre. Até o cascão era de chocolate, tudo pela pequena fortuna de 6 dólares – ou eu que sou uma pão-dura miserável? Já instalada com uma geladeira, descobri que dá pra fazer orgias chocolatais em casa. Sorvete de chocolate, calda tipo fudge, biscoitos e M&Ms. Na hora fico muito feliz; a anfetamina atinge o cérebro e dou pulinhos, mas depois o fígado se vinga, e passo mal.sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
CRÍTICA: ASSASSINATO DE JESSE JAMES / No velho oeste ele morreu
A julgar pelas más línguas, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” tem um histórico de traumas quase tão comprido quanto seu título. As filmagens terminaram dois anos atrás, e os produtores (entre eles o Brad Pitt) e o diretor Andrew Dominik ficaram brigando na sala de montagem. O diretor queria uma versão bem devagar, cheia de paisagens, enquanto os produtores exigiam algo mais à la Clint Eastwood, um faoreste de ação. Não sei quem ganhou, mas o filme é longo que dói, com quase três horas. Tem seu ritmo próprio, o que quer dizer que é lento, até arrastado às vezes, e não é pra todo mundo (o maridão dormiu profundamente). Eu gostei muito e, pra ser franca, gostei até mais depois de sair da sessão. É o tipo de filme que melhora quanto mais se pensa nele.Mas não vá esperando um western agitado. Se esse for seu desejo, vá ver “Os Indomáveis”. “Jesse James” é mais um estudo de personalidades. Conta os últimos dias da vida do célebre fora-da-lei, até ser morto por um fã e membro do seu bando, que acaba ganhando fama só por matá-lo. Como Jesse, Brad está carismático como um total psicopata que não confia em ninguém, remetendo ao seu vilão de “Kalifornia”. Quando ele fala com um charuto na boca, lembra o Marlon Brando de “Poderoso Chefão”, só que mais magro e lindo. Mas o filme pertence mesmo ao Casey Affleck, irmão do Ben. Dá pra notar a semelhança, embora o Casey seja menos bonito. Considerando o que o Ben fez até agora, o Casey é muito mais ator. Ele tá perfeito no filme (e também dá show em “Medo da Verdade”, que estréia no Brasil em 7 de março). Casey faz o Robert Ford, um cara que deseja se enturmar, destinado à grandeza, segundo sua própria definição – só a dele.
O filme não endeusa o Jesse. É ele o verdadeiro covarde: bate em meninos, atira pelas costas, assusta até seus companheiros... E vive de sua lenda. O covardão é um traidor, claro, medroso, mentiroso, cheio de si. Mas o faroeste faz parecer que matar Jesse é quase uma legítima defesa. E o que acontece após a morte é deveras interessante e, por mim, poderia ser prolongado. Robert passa a encenar o assasinato em oitocentas apresentações teatrais, um recorde em repetir uma cena de traição. É o culto à celebridade que ainda tava engatinhando em 1882, ano em que Jesse bateu as botas, e que encontra-se no auge hoje, quando uma legião de fãs acompanha cada passo do astro que interpreta o Jesse, vulgo Brad Pitt.
O western é mais forte ao se concentrar nos seus dois personagens principais e no relacionamento entre eles. Quando os dois são deixados de lado e a câmera segue dois cowboys (e um deles se envolve com uma mulher casada), é até instigante, mas parece pertencer à outra trama. Deixa o filme meio solto, menos coeso (dava pra tirar uns 40 minutos, fácil). Acho que o longa seria até melhor se a narração em off fosse do covardão, não de um anônimo. Poderia ser como a parte mais brilhante de “O Som e a Fúria”, do Faulkner, em que um miserável como o Jason vira o narrador. Ou até seria fascinante se o irmão do Robert narrasse. Ele é interpretado pelo Sam Rockwell, tão bem que é como se o ator vestisse uma máscara de medo (o Sam chamou a atenção em “Confissões de uma Mente Perigosa” e como o maior vilão de “À Espera de um Milagre”).
Mas é após o fim do filme que nossos neurônios – um pouco entorpecidos, confesso – passam a funcionar, e as dúvidas levantadas engrandecem “Jesse”. Por exemplo, por que o criminoso permite que um carinha bizarro como o covardão integre o bando? Tá certo que, na época, não havia muita gente disputando a vaga (o irmão tinha se aposentado, e os outros membros estavam enterrados). Mas o Jesse, como sujeito inteligente, sa
bia que o covardão era perigoso. Logo, ou ele o “adotou” porque queria ser idolatrado, ou justamente pelo perigo representado. E por que o Robert idolatrava tanto o Jesse? (essa pergunta pode ser estendida: como alguém em sã consciência idolatra, sei lá, a Britney Spears?). Toda idolatria tem um lado sexual? Sem falar que “Jesse” me fez pensar também nos pobres cavalinhos que vivem com os cowboys, e que pulam e relincham toda santa vez em que alguém atira. Ao contrário do Robert, os equinos não queriam a companhia do Jesse. Não tavam nem aí pro mito.
P.S.: O Casey Affleck não só é irmão do Ben como cunhado da Jennifer Garner e, por ser casado com a Summer Phoenix, cunhado também do Joaquin e do falecido River. Digamos que o Casey tem muito em comum com o Joaquin – ambos têm irmãos mais reconhecidos, e ambos conseguiram sair da sombra dos maninhos famosos. Pro Joaquin o grande ano foi 2005, quando foi indicado ao Oscar por “Johnny e June”. Pro Casey é agora. Ele foi merecidamente lembrado pro Oscar de coajuvante por sua atuação em "Jesse" (se bem que é praticamente o protagonista). Se este não fosse o ano do Javier Bardem...
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
CRÍTICA: RESIDENT EVIL 3 / Que chegue logo a extinção
Agora o subtítulo de “Resident Evil” não é mais “Apocalipse” ou “O Hóspede Maldito” (vulgo “A Visita do Meu Cunhado”), mas “A Extinção”. Como disse um crítico americano, esse título nos dá esperança. Outro sugeriu que a aventura poderia se chamar “Resident Evil: Game Over”, já que é baseada num videogame. Trata-se do embate básico entre crítica e público: os críticos (eu inclusa) odeiam a franquia, e quem joga deve adorar. Bom, não é que eu odeie com todas as forças. Acho que até prefiro essa tortura a “Tomb Raider”. É so que não entendo a história direito, então nem tentarei resumi-la. Como no início de “Resident Evil 3” eu já não estava sacando muito, virei pro maridão e disse: “Acho que a gente perdeu alguma coisa, tipo as partes um e dois”. O pior é que eu não só vi os dois filmes anteriores como também escrevi sobre eles, pra você ver como a experiência foi marcante.O filme já começa a todo vapor, com a Milla Jovovich no seu típico vestido vermelho da Turma da Mônica sendo atingida por algum objeto não-identificado e sendo enterrada numa vala comum cheia de Millas (a maior parte com o mesmo modelito). Mas não se preocupe que são clones. A Milla original e única tá mais ocupada imitando o Mel Gibson no badalado “Mad Max 2”, explicando por que precisa viajar e evitar cidades grandes, cheias de zumbis. Tirando a parte dos zumbis e o fato de que, pro meu gosto, o Mel é muito mais bonito que a Milla, o resto é idêntico. No caminho a margarina que veio do milho Milla é capturada por um bando de humanos depravados (a gente esperaria que, num mundo pós-apocalipse repleto de mortos-vivos, os vivos fossem mais solidários) e mata todos em legítima defesa da honra, não sem antes lidar com dobermans do além. Já no primeiro “Resident Evil” eu comentei que sou contra um filme que chuta cachorro morto, nem que seja cachorro morto-vivo. Neste terceiro a Milla não apenas distribui pontapés como eletrocuta e tosta uns cãezinhos mais atrevidos. Teve uma hora que o maridão não compreendeu p
or que os mortos-vivos humanos não atacavam a Milla, e eu ofereci a minha explicação científica: “Acontece que a Milla é magra demais, quem gosta de osso é cachorro, e como os cães já foram todos mortos, não sobrou ninguém pra pegar os ossos”.Tem também uma cena que só não é cópia de “Os Pássaros” porque os produtores devem considerá-la uma homenagem a Hitchcock. Mas é igualzinha: corvos se reúnem em cima de um fio e de repente atacam os humanos. Tem um potpourri de várias cenas clássicas do filme de 1963: troços explodindo, pássaros cobrindo de bicadas um corpo que cai, uma ave arrancando os olhos de uma vítima. O que impressiona é como algo feito quatro décadas atrás pode ser tão superior. Não tô falando por um ter sido dirigido pelo hiper-mestre Hitch e outro por um tal de Paul W. S. Anderson . Tô falando dos efeitos especiais mesmo. E é muito mais aterrorizante ver corvo atacando criança do que gente crescidinha. Aliás, nenhum dos sobreviventes parece ter mais que trinta anos. Eu e o maridão aparentemente não teríamos a menor chance de sobreviver a um apocalipse. E, que eu saiba, Alasca fica pra cima, e Las Vegas pra baixo, mas o grupinho decide que tem que enfrentar uma jogatina antes de chegar ao congelador. Lá pelas tantas eles precisam optar: vocês preferem ficar aqui nesse deserto apocalítico ou ir rumo ao Alasca sem roupas adequadas pro inverno? Imaginei que alguém iria levantar a mão e sugerir o Havaí, mas essa gente do fim do mundo não tem senso de humor.
Daí, numa cena chupada de “Dia dos Mortos”, do George Romero, dois cientistas dão objetos a um morto-vivo em processo de domesticação enquanto um terceiro cientista observa. Eles dão um celular, e o zumbi consegue abri-lo. Um cientista fala pro outro: “Puxa, ele sabe pra que serve isso!”. Sussurrei pro maridão: “Tá melhor do que a gente”. Em seguida dão uma máquina fotográfica pro zumbi e ele, no ato, tira uma foto do pessoal pra guardar de lembrança. Reclamei com o maridão: “Você demora dez minutos pra dar o clique”. Quando os cientistas dão pro morto-vivo um joguinho de encaixar, e ele acerta todas as peças nos buraquinhos, não me contive e gritei pro maridão: “Mal posso esperar pra que você vire um zumbi!”.
P.S.: Embora “Mad Max 2: A Caçada Continua” (1981) seja mais cultuado que o “Mad Max” original, de 1979, eu prefiro o primeirão (do terceiro, “Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão”, de 1985, é melhor nem falar). Lá podemos encontrar um filme de ação perfeito, apesar do tema fascista – afinal, o Mel Gibson vira um justiceiro querendo se vingar dos motoqueiros apocalíticos que mataram sua família. A cena da morte da mãe e do filho, aliás, é um primor. E se você tinha alguma dúvida de onde o pessoal de “Jogos Mortais” tirou aquela idéia sádica de um carinha ter que serrar o próprio tornozelo pra salvar sua vida – bom, tá em “Mad Max”.
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
O PONTO G
A cada dia que passa meu coraçãozinho perde mais fé na humanidade. Antes fiquei chocada ao saber que alguns negros não só não querem se juntar na defesa dos direitos de outras minorias, como odeiam mulheres e gays. Agora vi que vários homossexuais não dão a mínima pra outros grupos. Na “The Advocate”, revista-bíblia da comunidade gay, um leitor gay escreveu que não tá nem aí com os direitos dos transsexuais. Ou seja, se nem os membros da comunidade GLBT se apóiam entre si, esperar qualquer empatia entre qualquer minoria parece utópico. Não é um caso isolado. Outra pancada que acompanhei esta semana vem do meu colunista sexual preferido, Dan Savage, que é gay. Ele deu um conselho horrososo a um leitor que não sente mais desejo pela esposa, recebeu trocentos emails, e, em troca, passou a atacar as mulheres gordas. Equivale a um membro de uma minoria bater numa outra minoria. Não sei se gordas se encaixam numa minoria, e se podem ser comparadas a outras minorias, já que, ao contrário de negros e gays, que nascem negros e gays (sim, gays também, este é o consenso mais recente), gordas optam por ser gordas. Puxa, é mesmo? Se fosse uma opção assim tão fácil, duvido que as gordas continuassem gordas, sabendo do estigma social que isso carrega. Isso inclui os homens gordos também, claro, mas acho muito mais difícil ser gorda que gordo nessa sociedade que, em pleno século 21, ainda espera que as mulheres sejam acima de tudo belas. Há um monte de gordas que comem pouco e fazem exercícios e não conseguem emagrecer. Mas é simples ser magra a vida toda podendo comer de tudo e sem se incomodar em frequentar a academia de ginástica: basta escolher pai e mãe magros. De preferência, opte por avós e bisas magros também, só pra garantir.
Eu fui uma criança magra. Assim que chegou a puberdade, minha magreza foi embora. Já tentei mil e uma dietas. A única vez que mantive meu peso ideal na vida adulta foi antes dos 30, durante sete anos, quando tomei anfetaminas que me faziam passar o dia sem comer nada. Ao parar com essa medicação, que todos dizem ser perigosa, o peso voltou. Sou saudável, tenho colesterol sob controle, mas é lindo ir ao médico pra tratar do ouvido e a primeira coisa que o sujeito me pergunta é: “Você já pensou em perder peso?”. Meu impulso é responder: “Não, hoje ainda não”. Quantos anos de vida uma mulher daria pra ser magra sem sacrifícios? Numa pesquisa com um grupo de obesas que tinham conseguido emagrecer, indagaram o que elas prefeririam, ser cegas ou gordas. 90% preferiu a cegueira. Por quê? Porque a sociedade costuma ajudar os cegos, enquanto despreza os gordos.
No começo do ano, em Floripa, um simpático vendedor de Herbalife olhou pra mim e afirmou que, se eu não emagrecesse, iria “vestir um paletó de madeira” rapidinho. Eu devolvi com um discurso: “Você se deu conta que preconceito contra gordos é o único preconceito socialmente aceito hoje em dia? Pega mal ser racista ou homofóbico, mas tudo bem afirmar que quem é gordo é pavoroso, imoral, doente, e vai morrer amanhã. E você tem o aval da ciência pra falar isso! Mas se esquece que, faz pouco tempo, a ciência também validava preconceitos 'provando' que negros e gays eram inferiores e doentes”. Não sei se aquele senhor mudou sua estratégia de vendas.
É verdade, odiar gordos tá liberado. Muita gente acha que esse ódio é inclusive um dever, porque se os gordos não forem maltratados, eles não vão se tocar e continuarão sendo gordos. Uma colunista americana que dá conselhos pessoais num jornal escreveu que recebe centenas de emails ultrajados do tipo “Por que você se incomoda com essa gente?!” sempre que sugere que qualquer um dos seguintes grupos é humano e pode ter sentimentos: muçulmanos (!), fumantes e gordos. Isso num país em que mais de um terço da população é obesa. Mas pelo menos os americanos têm termos menos pejorativos pras gordas – eufemismos como “full-figured” –, e movimentos de “aceitação das gordas” como o Big Beautiful Woman. O Brasil tem o quê? Tem no máximo o termo “fofinha” pra quem quer descrever uma moça sem usar o pior insulto que há hoje em dia, aquela palavrinha feia que começa com G.
segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
A GUERRA CONTRA O NATAL
Esperando pra falar com o diretor da escola, as crianças explicam o que fizeram de errado: "Eu disse a palavra m***a", "Eu dissa a palavra f**k", "Eu disse Natal". Este é o meu primeiro e provavelmente único Natal nos EUA, então não entendo bem as coisas. Mas parece que a Fox já vem fazendo uma campanha há vários anos para salvar o Natal. Preciso esclarecer uns detalhes. A Fox é representante oficial da direita cristã (e um em cada quatro americanos é o que chamam de “born-again Christian”, os cristãos evangélicos). Pra essa rede de TV, a pior cidade americana é São Francisco, na Califórnia, símbolo de tudo que há de mais terrível nos States, e primeiro lugar a ser castigado pela ira divina quando Jesus voltar à Terra, o que está cada dia mais próximo. Se dependesse da Fox, o Bush já teria mandando bombardear Irã e Venezuela há pelo menos dois anos, além de construir um muro pra conter os mexicanos que querem invadir a terra das oportunidades. A Fox odeia qualquer um do Partido Democrata, que pra ela é tudo esquerdista, e vive posando de neutra, imparcial e objetiva. Mais ou menos como a nossa “Veja”.
Pois bem, já tem tempo que a Fox coleta dados de que liberais, secularistas e ateus querem acabar com o Natal. Começou com gente desejando “Feliz Feriado” (pra não ofender quem não é cristão) ao invés de “Feliz Natal”, o que pra Fox significa um tabefe contra a tradição e um golpe contra a liberdade religiosa. É verdade que colocar presentes embaixo da “árvore do feriado” soa absolutamente ridículo, mas, de acordo com todas as fontes menos a Fox, esse excesso do “politicamente correto” foi limitado. Foram casinhos isolados. No entanto, a emissora deu uma cobertura escandalosa a qualquer repartição ou loja que ousasse omitir a palavra “Natal”. Agora parece que as notícias desse tipo minguaram, o que levou a Fox a dar o seu veredito: a guerra contra o Natal acabou, e nós vencemos. “Nós” é a direita cristã, lógico. Ah, bacana. Não seria lindo se todas as guerras pudessem ser criadas assim do nada e, melhor ainda, terminadas por decreto, sempre com a vitória dos mocinhos? Porque isso de ter que esperar Hollywood lançar “Rambo” e afins mostrando o que realmente aconteceu no Vietnã (vencemos) é tão demorado... Vamos ver se até o próximo Natal a guerra do Iraque já tenha terminado. E, aproveitando, boas festas!
Pior Lugar do Mundo pra se Participar de um Reality Show
Tá certo que os prêmios de um milhão de dólares são ótimos, mas sabe aquilo que a gente ouviu sobre “O Aprendiz” dos EUA ser muito mais anti-ético que o do Brasil? É verdade. Bom, ainda não vi o programa em questão, mas esses dias vi a final de um “Survivor” da vida (que a Globo adaptou para “No Limite”). Quem ganhou foi o participante mais manipulador e mentiroso. E todos diziam: “Parabéns, meu chapa, você jogou muito bem”. Aqui quem não for extremamente competitivo é considerado um frouxo, um loser. O clima na faculdade é diferente ao do Brasil. Posso estar sendo ingênua, mas no meu doutorado na UFSC não me sinto competindo com minhas colegas. Penso que estamos todas no mesmo barco, ninguém passa a perna em ninguém, todo mundo se ajuda. Aqui nos EUA não é assim.
Outro dia conversei com um americano muito querido. Ele tem só 19 anos e faz Administração. Apesar de ser uma ótima pessoa, ele está doutrinado, sem dúvida: acredita que o importante é ser bilionário, não apenas pra poder comprar tudo que quer (inclusive mulheres), mas principalmente pra mostrar que se deu melhor na vida que o vizinho. Ele nem pisca ao repetir tudo que ouviu desde que nasceu. Tentei argumentar com ele que não é necessário ser milionário, que basta calcular quanto se gasta por mês, multiplicar isso por 200, e pronto – com esse valor no banco, dá pra parar de trabalhar e viver de renda até morrer (ou seja, digamos que suas despesas fiquem em torno de mil reais mensais. Multiplique isso por 200, dá 200 mil. Claro que é uma fortuna, mas é menos inatingível do que quando nos falam dos milhões que deveríamos ter). Essa conta não funciona por aqui porque americano não faz conta mensal. Eles calculam seu salário por hora ou por ano, nunca por mês. Meu amigo riu da minha matemática. Disse que mil dólares por mês pra despesas não dá nem pro cheiro (e ele é adolescente), que precisaria no mínimo de 3 mil. Então tá, 3 mil vezes 200 dá 600 mil dólares, ainda bem longe dos milhões. Mas ele insistiu que uma renda de 60 mil dólares por ano é uma miséria. “Isso é o que o meu pai ganha”, falou o rapaz, cheio de desdém. O pai dele tá acima da média, que é de 48 mil dólares por ano por residência nos EUA. Mas aqui estar na média é visto como total falta de ambição. Coisa de loser.
