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segunda-feira, 24 de julho de 2023

SÉRIE DOCUMENTAL RECONSTROI O MASSACRE DO REALENGO

Só anteontem entendi por que andava recebendo emails dizendo que, como eu era alvo de muitos ataques, ele, um anônimo, estava mandando um vídeo dele brincando com a filha. Lógico que não abri o vídeo, que tem 95% de chance de conter pornografia infantil e 100% de chance de passar vírus pro meu computador.

Então, mas por que essa novidade? Por causa do documentário Massacre na Escola: A Tragédia das Meninas de Realengo, lançado na HBO há alguns dias. Mascus devem ter visto ou ouviram falar do doc (na realidade, uma série com quatro episódios de cerca de 47 minutos cada), notaram que eu apareço bastante nele, e decidiram, mais uma vez, me atacar. Não que tivessem parado. Como disse minha advogada do Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos (do qual faço parte desde 2016), nos últimos doze anos eu nunca fiquei mais de três semanas sem receber alguma ameaça. 

Em julho do ano passado, viajei até o Rio para ser entrevistada pela equipe do documentário. Foi uma longa conversa, mais de quatro horas. E sábado eu vi a série dirigida por Bianca Lenti, e gostei muito. Faz uma reconstrução marcante do massacre de abril de 2011 numa escola em Realengo, periferia do Rio, que fez doze vítimas fatais (10 meninas e 2 meninos, todos com idade entre 12 e 14 anos). É o maior massacre escolar no Brasil. 

Como em 2011 eu já monitorava alguns fóruns e comunidades mascus, pude acompanhar em tempo real a reação deles. Eles celebraram o ataque, reconheceram o atirador como um dos seus, e ficaram com medo de alguma investigação da Polícia Federal, tanto que vários blogs fecharam no dia seguinte ao massacre. O autor do maior deles, inclusive, desapareceu sem dar qualquer explicação aos seus leitores. 

Eu e outras feministas, como a professora de História Valéria Fernandes, questionamos por que a mídia não estava tratando o massacre como um feminicídio. Afinal, parecia evidente que o atirador invadiu a escola onde havia estudado anos atrás para matar meninas. Alguns sobreviventes testemunharam que ele atirava nos meninos pra ferir, e nas meninas, pra matar, mas a imprensa nem cogitou a motivação da misoginia. 

O documentário entrevista diversas vítimas. Por exemplo, Thaylane, que levou três tiros e ficou paraplégica, conta que o atirador disse a ela: "você vai morrer por que é muito bonitinha". Ela ressalta que ele atirava nas meninas na cabeça, e nos meninos, nos braços e pernas. Outro sobrevivente, Alan, diz o mesmo. Apesar de ter recebido três tiros, Alan conseguiu correr e chamar um policial, o então sargento (hoje subtenente) Alves, que foi um herói ao balear o assassino e assim impedi-lo de matar mais gente. Alves não crê que o atirador matou mais meninas de propósito. Para ele, algumas meninas se abraçaram em vez de fugir.

O doc é muito completo e perspicaz. Eu pessoalmente tiraria o trecho em que o pai de uma sobrevivente, Luiza, diz que ainda não caiu a ficha pra ela do que realmente aconteceu. E colocaria alguma coisa sobre a homenagem às vítimas, que é uma história interessante e bonita. 

Pra quem não sabe, em 2015 foi inaugurado um monumento numa praça nos fundos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. Construído a pedido das famílias das vítimas, o memorial mostra os onze adolescentes que foram mortos. Os familiares de uma das doze vítimas não quiseram que sua filha fosse reproduzida em bronze, então os criadores do monumento puseram uma borboleta para representá-la. Na inauguração, a mãe de Luiza Paula, que tinha 14 anos quando foi assassinada, discursou que o memorial deve ser visto como um pedido de paz, em vez de algo que lembre dor e sofrimento. Nas estátuas, as vítimas estão sorrindo e em movimento.

Algo que achei muito bacana é que o documentário fala da Lei Lola no quarto episódio. O delegado Flavio Setti (responsável pela Operação Bravata, em 2018) diz: "Sem dúvida a Lei Lola trouxe um ganho pras investigações, principalmente trazendo a possibilidade que a Polícia Federal possa intervir, possa atuar de forma direta em investigações que têm por foco a condição de mulher por si só, então quando essa condição é atacada, a PF tem a possibilidade de agir. Essa é uma coisa que antes não existia". Fiquei feliz ao ouvir isso.

Porém, infelizmente um bocado de gente está falando do documentário por outro motivo. É que no episódio 3 um dos entrevistados, o consultor educacional Ricardo Chagas, associa o massacre a videogames e cita o canal de games do Core (eu nunca havia ouvido falar de nenhum dos dois) como um prato cheio para aliciadores (veja neste post do Tecmundo). Na quinta, Core fez um vídeo de 20 minutos para afirmar que o documentário está tentando destruir sua vida e que seu canal não é para crianças, e Ricardo fez uma live de 30 minutos se mostrando bem arrogante. A Valéria, que sabe tudo de games e animes, escreveu sobre essa treta.

Eu acho que o documentário errou em dar tanta voz ao consultor, que no seu perfil no Instagram parece ser um daqueles cristãos de extrema-direita que culpam os games e a mídia em geral pela "destruição da família". No documentário boa parte de suas declarações até são coerentes, mas no Instagram ele faz campanha contra a Disney por incluir um personagem LGBT numa animação. Enfim. No mínimo, o doc deveria ter editado a fala de Ricardo para que ele não mencionasse um canal em particular. Se ele só tivesse dito que canais de games e desenhos são um prato cheio para aliciadores, evitaria essa confusão toda (que pode até render processo). 

O documentário no final, além de informar como denunciar ameaças a escolas (pelo número 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e pelo site gov.br/escolasegura), explica que "eventuais opiniões de entrevistados não devem ser interpretadas como opiniões da WBD ou da Giros Filmes" (os produtores e realizadores da série). 

Espero que vocês possam assistir ao doc e me contar o que acharam. A opinião de mascus e demais apoiadores e perpetuadores de massacres não me importa.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

COMO A DIREITA RADICALIZA UM CARINHA NORMAL NA INTERNET

Recebi um link para um excelente documentário de 41 minutos feito pelo canal Innuendo Studios, com legendas em português, sobre como radicalizar uma pessoa (quase sempre homem) "normal" e torná-la uma extremista patética da direita. Os alvos principais são homens brancos héteros que se sentem emasculados pela sociedade.
Vou compartilhar o que achei mais interessante com vocês, com alguns comentários meus baseados na minha experiência com esses grupos. Mas, por favor, vejam o vídeo, que realmente explica muito. 
Uma estratégia para recrutar homens "normais" (ou seja, não misóginos, racistas e neonazistas de saída) para se radicalizarem é criar fóruns e canais que o carinha encontre sem querer (por exemplo, um "inocente" canal criticando que superheróis brancos dos quadrinhos sejam interpretados por negros ou mulheres). Outra é se infiltrar nos canais que o carinha já acessa.
Uma tática relevante é que a direita não vende política como política (pois política não é legal, e nenhum político exceto o mito presta, lembram?), mas como um estilo de vida conservador. Ataques a feministas, negros, LGBT e outros grupos funcionam como portas de entrada. É o que a gente vive dizendo: misoginia é a porta de entrada na internet para drogas mais pesadas.
O carinha não está a princípio procurando neonazismo ou misoginia, mas uma cura para o seu mal- estar. Ele quer ser feliz, sentir-se melhor, porque se sente um m*rda.
Aí vem outra tática importante: isolar o alvo, fazer com que ele não ouça o contraditório. Isso é típico de lavagem cerebral. Tem muita gente da direita (ironicamente "pró-família") que recomenda cortar laços com a própria família.
O vídeo explica que a esquerda poderia explorar e se beneficiar desses problemas que o carinha sente, mas ele aprende versões racistas e machistas do problema: 
Sim, existe um problema dos trabalhadores serem mal pagos e explorados, mas a solução para combater isso não é criar e apoiar sindicatos, é expulsar imigrantes.
Sim, existe um problema de concentração de renda que deixa um pouquinho de gente com muito e a maioria com nada, e sabemos  que os ricos têm muito poder e influência, mas o problema não é o capitalismo. São os judeus (é só ver o que reaças falam de George Soros, um bilionário).
Sim, há solidão e raiva em ser um homem hoje, mas o problema não é a masculinidade tóxica que o patriarcado impõe, é as mulheres serem vadias. Isso é muito comum entre os mascus. Eles culpam as "mulheres modernas" e o feminismo pra tudo. Mas não são as mulheres nem o feminismo que defendem que o homem seja o provedor da casa. É o patriarcado, estúpido! Não são as mulheres nem o feminismo que exigem que o homem seja um garanhão. É o patriarcado! E aí os mascus, em vez de focarem sua raiva no sistema que os oprime, foca nas mulheres. São uns otários mesmo.
Logo os algoritmos das redes sociais percebem as tendências do carinha e param de recomendar qualquer conteúdo de esquerda. O alvo se afasta da "agenda esquerdista" (ou do marxismo cultural) que pode desprogramá-lo. Ele ficará cada vez mais isolado. 
Pode-se comparar a jornada do carinha ao radicalismo com as camadas de uma cebola. Cada fase se vende como a verdade final e absoluta e nega a validade das fases anteriores (as pessoas daquelas fases estavam dormindo, você está acordado). As fases seguintes (cada vez mais radicais) não existem e você não está sendo direcionado a elas, é apenas imaginação dos esquerdopatas.
Mas, na realidade, crer nessas "verdades absolutas" e cultivar o ódio não ajuda o carinha. Expulsar imigrantes não melhora a economia, e odiar mulheres não faz os homens menos solitários nem menos zangados. Só que a essa altura -- quando o carinha percebe que não está mais feliz, muito pelo contrário -- ele já está tão isolado, tão submerso naquele universo, que sua única alternativa é afundar ainda mais. Tomar a próxima pílula vermelha.
E tudo isso ocorre na base de muita, muita repetição. Através da repetição, as ideias mais radicais e absurdas parecem normais. E agora o carinha quer odiar. Ódio motiva, é um combustível. Ele sempre vai encontrar alguém para odiar. Ele vai a fóruns para ficar com raiva. É a mesma dinâmica de relacionamentos abusivos. 
Quando uma comunidade oferece ao carinha uma piada racista (que não é vendida como racista, e sim como irreverente, polêmica), ele vai ter que escolher entre rir com seus amigos ou não ser racista. O carinha solitário precisa de amigos, e rir de uma piada racista é pessoal. Não rir é político. Ficar numa comunidade que tem nazistas é pessoal, e sair dela é político. O pessoal é o que junta as pessoas, o político é o que as separa. Por isso que uma máxima do feminismo (cooptada pela esquerda de modo geral), "o pessoal é político", é das coisas mais ameaçadoras que podem ser ditas em fóruns de direita. 
O passo seguinte na radicalização é receber uma missão. Mas o vídeo diz que a alt-right (a extrema direita) não pode fazer isso, pois deixaria de ser uma mera hashtag inofensiva ou um grupo que se diz moderado. Entre os mascus, não há essa preocupação. Eles recrutam mesmo, diariamente. Um dos mantras deles é "O mundo te odeia, devolva esse ódio". Outro é "Leve a escória junto", para que rapazes que querem se suicidar cometam massacres e matem mulheres, negros, LGBT, antes de se matarem ou serem mortos pela polícia.
É uma máquina de produção de "lobos solitários". Porque os caras já estão furiosos e precisam desse ódio, e não tem o que fazer com ele. Nos EUA, onde o acesso a armas é mais fácil e incentivado, fazer com que esse carinha cometa um massacre armado é mais fácil. Aqui no Brasil, todos esses carinhas votaram no Bolso não apenas por se identificarem totalmente com suas ideias preconceituosas, mas pela promessa da liberação das armas de fogo. Certamente, diz o vídeo, a violência é a conclusão lógica para uma ideologia de ódio. 
Ou o carinha pode progredir na sua violência começando levemente, por exemplo, xingando pessoas no Twitter, daí se juntando a um grupo organizado que xinga coletivamente, daí compartilhando nudes e fazendo doxxing (descobrir e divulgar dados pessoais de alguém, para assim poder atacá-la), ligar pra elas, mandar fotos da entrada da casa de alguém, gravar vídeos contra elas, ameaçá-las (tudo isso e muito mais já foi feito contra mim, geralmente a mando de um líder mascu). Esses atos são competitivos (quem oprime mais? Quem conseguiu fazer com que a vítima deletasse sua conta?) e tornam o carinha mais aceito na comunidade. 
Se ele sair da comunidade, o vídeo diz, o carinha pode se sentir culpado pelos seus atos. Então o negócio é não deixá-lo sair. Ele tem que ser convencido que, se sair, a esquerda fará com ele o mesmo que ele fez com pessoas de esquerda. 
O cara fica cada vez mais paranoico e anti-sociável, faminto por algum tipo de conexão emocional (eu sinto que muitos dos mascus que me atacam querem que eu me torne amiga e confidente deles; eles fantasiam laços comigo, o que pra mim soa muito doentio), com medo de ser exposto ou denunciado. 
Não há muitas opções. Por isso mesmo aqueles que não tinham tendências suicidas desenvolvem essas tendências nos fóruns. 
O vídeo lembra que esses conservadores são minoritários e nem de longe representam a maioria dos homens (eu concordo!), e que, se você conhece um carinha assim, pode valer a pena falar com ele e tentar afastá-lo do mal, mas é péssimo gastar mais tempo com eles do que se gasta com pessoas que são vítimas de preconceitos de verdade. E, como o vídeo mostra, o seu valor como esquerdista não se baseia em mudar a cabeça de um carinha desses. 
É verdade, e eu nunca dialogo com mascus, porque isso seria dar-lhes a atenção e a conexão emocional que eles tanto desejam. Eu nunca vou mudar um neonazista como o Emerson (que foi preso e condenado em 2012, saiu da cadeia em 2013, depois foi preso nos EUA e deportado, e agora está foragido na Espanha), que sofreu abuso na infância e até hoje, aos 41 anos, tenta se vingar do mundo por conta desses abusos, um cara claramente perturbado e mitomaníaco que precisa de um terapeuta (mas que odeia psicólogas, tornando-o alvo fácil das garras de pastores e de líderes nazis), então eu nem tento. Mas fico feliz quando um texto meu impede que uma mulher se relacione com ele e tenha sua vida arruinada. 
O vídeo termina com razões que podem fazer o carinha sair da comunidade de ódio (ela pode deixar de existir, o carinha pode ser preso ou hospitalizado, ele pode entender que está sendo manipulado, ele pode conhecer alguém e se apaixonar, ou sair para tentar salvar seu relacionamento). Mas o que não funciona são os argumentos de um estranho que prova que todos os seus fatos estão errados e que sua ideologia é uma farsa. Fatos não funcionam porque fatos não ligam pros sentimentos do carinha. Ele queria pertencer, ser aceito. Foi isso que o aproximou do grupo de ódio.
Se existe uma verdade sobre tudo isso, é a seguinte: nenhum carinha sai de uma comunidade de ódio mais feliz do que entrou. Ele se afunda no ódio, só consegue pensar nisso. Vê seus projetos se paralisarem, vê sua vida estagnar. Um exemplo é o Kyo, apelido de André. 
Não sei quando ele começou a frequentar fóruns mascus, a princípio no Orkut, mas pelo menos desde 2010 ele era parceiro de Marcelo (que hoje está na cadeia, cumprindo uma sentença de 41 anos). 
É bem possível que ele tenha entrado nessa vida ainda menor de idade. Com 29 anos, quando decidiu se matar e foi convencido pelo chan que moderava a "levar a escória junto" (ele escolheu Luciana, uma moça que ele nunca tinha visto na vida e que sequer sabia de sua triste existência), ele estava no mesmo ponto de uma década atrás: continuava morando e sendo sustentando pelos pais numa cidade pequena que odiava, não trabalhava, não estudava, não namorava. 
Eu não tenho pena do Kyo, tenho pena da Luciana. Mas ele é um representante da vida que aguarda os caras que odeiam: nada além de ódio e miséria.
Sei que esses carinhas me odeiam e francamente não dou a mínima. Mas fica a sugestão: afastem-se dessas comunidades de ódio. 
Não confiem no meu prognóstico. É só olhar em volta e ver quem são seus "confrades" -- eles parecem felizes? Estão indo a algum lugar? Tem alguma esperança?

segunda-feira, 24 de junho de 2019

UMA CRÍTICA DO DOCUMENTÁRIO DEMOCRACIA EM VERTIGEM

Várias pessoas me pediram para falar de Democracia em Vertigem, um documentário que foi aclamado em vários festivais internacionais, 
como Sundance, que agora chegou a Netflix, e que fala de um tema muito importante pra gente, que é a política brasileira e como a gente chegou neste fundo do poço em que estamos. Gosto muito desses documentários com um tom pessoal, em que o documentarista aparece, narra, é um personagem, tipo o pai dos blockbusters dos documentários, Michael Moore. 
É isso que Petra Costa faz, ela narra em primeira pessoa e começa dizendo que tem quase a mesma idade da democracia brasileira, pois nasceu em 1983. Aí ela põe uma imagem dela bebê nos ombros do pai, apreciando a multidão pedindo Diretas Já. 
Petra é uma jovem cineasta de 35 anos, neta de uma família riquíssima, de empreiteiros da Andrade Gutierrez, e filha de pais de esquerda que tiveram que lutar na clandestinidade durante a ditadura militar. Ela conta que seu nome é uma homenagem a Pedro Pomar, fundador do PCdoB, assassinado pelos militares. 
Seu filme, Democracia em Vertigem, está cheio de contrastes, de oposições, de lados opostos, de dicotomias. Há muitas cenas filmadas por drones para mostrar a imensidão de Brasília, uma cidade planejada, e planejada também, como lembra Petra, para manter o povo afastado. 
Há um contraste muito grande dos espaços. Vemos enormes espaços vazios, como o Palácio da Alvorada, que aparece em várias cenas, e espaços lotados com multidões. Temos o próprio espaço, uma espécie de fosso, que separa o Palácio da Alvorada dos gigantescos gramados usados para manifestações. Temos os espaços cheios no sindicato. 
O senado lotado, e o senado vazio, com um funcionário reconstruindo a bandeira azul e as palavras “ordem e progresso”. A festa da democracia que são as eleições e a comemoração da vitória. É bom pra gente ver a diferença do que foi no dia 1o de janeiro de 2003 e o que foi agora em 2019. Em 2003 tínhamos policiais molhados, quase que comemorando junto com o povo. 
Há os espaços vazios, representados pelas empreiteiras, pela elite, pelos donos do poder. E o povo. Num ponto do filme, Petra narra um diálogo entre um político e um empresário: "Vc por aqui?", pergunta o politico. O empresário responde: "Nós sempre estivemos aqui. Vcs é que ficam mudando". 
Além dos voos dos drones, há várias caminhadas. A primeira é com Lula demorando pra atravessar o Congresso após sua primeira vitória. É como se ele estivesse moldando argila, moldando seus aliados. A narração enfatiza como demora pra ele atravessar aquele pedaço em meio a tantos braços (incomparavelmente menores que aqueles que o tocam no Sindicato dos Metalúrgicos quando ele sai para ser levado à prisão). Mais pro final do documentário, vemos Bolsonaro passando sem interrupções no Congresso, mostrando quão insignificante ele era, quão baixo clero, e como ele não era representante de nada a não ser de si mesmo e da sua monumental estupidez.
O documentário está cheio de imagens exclusivas e ótimas sacadas, como a análise da postura de Michel Temer na posse de Dilma, em 2011. A volta que ele dá pra sair na foto. O abismo que os separa. Como ele segura as mãos. Uma figura nefasta, sem dúvida. 
Outra figura nefasta que é Aécio Neves. Que a história nunca os absolva. Quando aparece o pulha Eduardo Cunha, a gente já tinha quase se esquecido dele. Foram tantos personagens sórdidos, mas claro que Cunha foi um dos gangsteres com papel principal. 
Algo que não está no documentário, mas numa entrevista que Petra deu à revista Marie Claire, foi que ela não recebeu resposta para entrevistar Sérgio Moro, e só pôde entrevistá-lo por um minuto. Aí ela lhe perguntou  se ele temia que a Lava Jato, copiada da Operação Mãos Limpas da Itália, trouxesse para o Brasil uma figura como Berlusconi. Segundo Petra, Moro riu e disse que esperava que não. E eis que temos agora uma figura que faz Berlusconi parecer um santinho competente. 
O único que não sorri:
Lula entre Covas e Brizola, em
comício no 2o turno em 1989
(isso não está no documentário)
Petra fala na entrevista que, depois de filmar 40 horas a votação do impeachment no Senado, ela tinha mudado de cara, tinha dificuldade para sorrir. Ela não fala isso no documentário, mas, ao colocar imagens sobrepostas de Lula em suas trajetórias, é possível ver como o semblante dele mudou. Eu lembro do Lula de São Bernardo do Campo, e ainda mais do Lula da campanha de 1989. Ele nunca sorria. Sua mudança foi gigantesca. Não sei até que ponto ele mudou de discurso, já que, ao contrário do que juram os reaças, Lula nunca foi comunista. 
É bom que Petra pontua que foi removida a primeira mulher eleita do país e substituída por um ministério sem mulheres, só com homens brancos. E inteligente também que Petra não gasta tempo nem imagens com figuras coadjuvantes, ou figurantes mesmo, como Marcela Temer. 
99% das pessoas que dizem não ser
 de esquerda ou direita são
de direita (estatística minha)
O documentário vai e volta, fala da construção de Brasília, do golpe de 1964, de como nunca prestamos contas com a ditadura militar, do golpe de 2016. Tudo é pertinente. Ela dedica um pouco de tempo às Jornadas de junho de 2013, que começou contra o aumento da passagem de ônibus em SP. Dilma tinha 65% de aprovação quando esses protestos começaram, protestos que ainda precisam ser melhor estudados, porque foi nesse momento que a direita começou a crescer. 
Cartaz presente nos protestos de 2013:
"Vc acordou agora. A periferia
nunca dormiu"
Olhando pra trás, eu me orgulho de não ter participado dessas passeatas. Me lembro que as bandeiras eram muito difusas, muito mal especificadas, e de eu me recusar a marchar lado a lado com fascistas. Me lembro quando gente que estava saindo pra protestar pela primeira vez dizia que “o gigante acordou”, e eu e várias feministas e ativistas dizendo que a gente não estava dormindo, que a gente sempre estava nas ruas, protestando. Creio que o documentário erra um pouco ao não mencionar nem a Copa de 2014 nem as Olimpíadas. Muitos dos protestos eram por hospitais e escolas padrão Fifa. 
Há cenas magníficas, como o enterro de Marisa, o discurso de Lula e as pessoas chorando antes de ser preso, o Palácio da Alvorado retirando as coisas da Dilma. Na entrevista que li, Petra diz que deu sorte e pôde filmar no vácuo. Então tem os colchões sendo removidos. E pôde entrevistar funcionários. Por exemplo, a mulher da equipe de limpeza dizendo que não existe democracia, que não foi o povo que tirou Dilma. A cena mais bonita, mais poética e pessoal, é a de Petra dançando e girando na avenida, comemorando a vitória de Dilma em 2010.
Aliás, o que me marcou no documentário foi a dignidade de Dilma. Poucos aguentariam o que ela aguentou, de cabeça erguida, sem desistir, sem renunciar. Aí você vê a força dessa mulher. Eu posso não ter gostado do segundo governo de Dilma, mas tenho que tirar o chapéu pra ela. Nenhum desses homens honrados, desses machões “cidadãos de bem”, suportariam o que ela suportou. 
O documentário dedica algum tempo a um dos capítulos mais vergonhosos da nossa história: a votação do impeachment na Câmara dos Deputados, com todos aqueles políticos corruptos agradecendo à família e a Deus. 
Aí a gente vê como foi importante o discurso do Jean Wyllys, em que ele se diz “constrangido de participar desta farsa, desta eleição indireta, conduzida por um ladrão, urdida por um traidor conspirador, e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos". 
O discurso de Bolsonaro homenageando o Coronel torturador Brilhante Ustra é outro ponto marcante, porque a gente vê que ninguém aplaude. Naquele momento, num país sério, Bolso seria cassado politicamente e considerado inelegível. Bom, num país sério, um tipo como esse seria naturalmente inelegível, no sentido de que jamais seria eleito. 
Eu discordo da análise de Petra que a elite rapidamente embarcou no barco de Bolsonaro. Bolso não era a primeira nem a segunda opção da elite (e nem da mídia que a representa) nem a pau. A elite queria o PSDB. Vendo que Alckmin e outros candidatos de direita não conseguiam crescer, aí sim a elite apoiou Bolso, porque, pra ela, qualquer coisa menos o PT. Mais vale acabar com a democracia e com o país do que a esquerda voltar ao poder. Aí vale tudo, até apoiar um sujeito que tinha fotos emolduradas no seu gabinete dos presidentes militares como seus heróis. 
Ah, praqueles que vivem cobrando autocrítica do PT, o ex-ministro Gilberto Carvalho diz no documentário: "Achamos que poderíamos ser amigo dos grandes. Esquecemos do que nos propúnhamos na luta política com o que chamávamos ‘pé-dentro, pé-fora’. Ou seja, um pé na luta institucional; o outro na mobilização social. Ficamos concentrados no pé-dentro. [...] Começamos a fazer como os outros naquilo que condenávamos em financiamento de campanhas. É dali que vem a corrupção”. Na fala mais sensata, Carvalho lamenta não ter feito a reforma política. Já Lula lamenta não ter votado a regulamentação da mídia. 
Pra mim um dos maiores erros do PT nesse xadrez político foi ter querido colocar Lula como ministro da Casa Civil para blindá-lo da prisão. Aquilo foi uma provocação que serviu como gás pro pedido de impeachment. Talvez o impeachment teria acontecido de qualquer jeito, com ou sem nomeação de Lula. Certamente demoraria mais, mas isso é análise pra outro momento, e um documentário de duas horas não tem como abranger tudo. Teria que ser uma minissérie.
Eu amei Democracia em Vertigem, uma análise tão triste, quase fúnebre da nossa história recente, que faz chorar. Falta talvez uma contextualização mais internacional. A subida da direita não é exclusividade brasileira. 
E uma imagem que eu certamente incluiria foi a comemoração no puteiro da prisão de Lula. Aquilo diz tudo sobre o Brasil e sobre a misoginia que derrubou Dilma. Vocês lembram? Tem uma outra figura nefasta: o cafetão e gigolô Oscar Maroni, que vive de explorar mulheres sexualmente, que já esteve preso por sonegação de impostos e outros crimes, e que se candidatou a presidente em 2017 com o slogan "O Brasil está uma zona, e de putaria eu entendo". Vários reaças, incluindo os moleques patrocinados do MBL, estiveram no seu puteiro para comemorar a prisão de Lula em abril de 2018.  
Maroni ofereceu cerveja de graça e exibiu uma de suas prostitutas nuas a um público de virjões que gritava "Mito! Mito!" Atrás dele, havia faixas saudando a ministra do STF Carmen Lúcia e o juiz Sérgio Moro. Ele prometeu mais cerveja se Lula fosse morto na cadeia. No discurso celebrando a prisão de Lula, Maroni disse ao seu ídolo, Moro, que ele teria um vale vitalício para frequentar o puteiro, “enquanto seu pau funcionasse”, e pediu para a Polícia Federal e o Ministério Público sortearem cinco agentes para frequentar o prostíbulo. 
Esta imagem é emblemática por mostrar como os juízes andavam próximos e eram tão cúmplices da bandidagem que fingiam combater, e por provar que os coxinhas, além de terem muitos bandidos de estimação, também tem cafetão de estimação.
Petra termina perguntando, "De onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo?" É o que nós que ainda amamos no Brasil, apesar de tudo, temos que descobrir. 
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