sábado, 24 de março de 2012

GUEST POST: A INSISTÊNCIA EM DOMAR CABELO CRESPO

Por que o segundo tipo é tido como o padrão aceitável?

Adorei este comentário que a Yssy deixou no post Feio é o seu racismo, e decidi reproduzi-lo aqui. Ele trata do padrão de beleza racista que determina que só um tipo de cabelo é bonito, e como isso afeta a autoestima de montes de meninas. Aproveitando o tema, ontem recebi vários tweets de leitoras indignadas com o novo anúncio de uma marca de lingerie.

Lola, este post me tocou especialmente porque eu cresci exatamente com esse padrão de beleza martelando a minha vida e isso trouxe sérios danos em todo o processo de formação da minha autoestima.
Tenho a pele clara e o cabelo muito crespo mas um pouco claro também, o que as pessoas chamam de "Sarará". Minha mãe é branca de cabelo liso. Eu nunca tive contato com meu pai, que já faleceu e era negro.
Fui levada por todos os lados a acreditar que eu era feia por causa do meu cabelo, que era “de preto”, “ruim”, e vivi muitos anos em luta com ele. Eu não saía na rua quando ele estava natural, alisei o cabelo sistematicamente desde os nove anos de idade, usei até ferro de passar roupa para alisá-lo (como muita gente) e fiquei careca duas vezes por alisamentos com soda cáustica, uma dessas vezes no dia da minha “formatura” da quarta série, aos dez anos de idade.
Quando eu era menor, queria ser paquita. E minha mãe, que também era muito nova, chorava porque sabia que eu nunca seria paquita, afinal, eu não era uma menina branca, loira de cabelos lisos! Como minha mãe e toda a família dela são brancos, eu não tinha nenhuma referência, e achava que eu era simplesmente feia.
Eu demorei décadas para perceber que o que eu sofri na infância na verdade era racismo! Estudei em uma escola pequena, privada, classista e racista -- que só tinha um aluno negro, bolsista, claro. E as crianças lá cantavam para mim a música “Reggae Night” e eu não percebia na época porque aquilo para eles era uma ofensa e porque eu realmente me ofendia tanto.
Minha mãe conta que, quando eu nasci, uma das primeiras coisas que falaram pra ela foi “Ainda bem que nasceu branquinha”… E outras pessoas da família da minha mãe falavam que meu cabelo era crespo por causa da idade, hormônios da adolescência, ou de uma influência sei lá daonde (nunca negra!).
Enfim, hoje, aos vinte e cinco anos, com o cabelo crespíssimo, totalmente natural, formada em Antropologia e morando na África, em Moçambique, eu olho para trás e percebo quantas formas e diferentes expressões o racismo pode adquirir na nossa sociedade, principalmente nessa fábula da miscigenação que é o Brasil e na formação de uma auto-estima feminina, o que por si só já é um processo complicado nesse bombardeio de padrões que a sociedade machista nos impõe.
Fico revoltada por imaginar quantas crianças, principalmente meninas, da minha e de tantas outras gerações cresceram sem imaginar que podiam ser consideradas bonitas -– por elas e pelos outros!
Por outro lado, vejo uma luzinha no fim do túnel em algumas coisas como o clipe da Willow Smith de uma música chamada “Whip my Hair”. Tudo bem, sei que não é uma coisa lá muito progressista e reproduz vários clichês, mas é a linguagem da molecada mostrando uma menina negra, de cabelo crespo, trançado como a “popular”, incentivando as outras crianças a “whip your hair” seja lá como ele for… Precisamos de mais expressões desse tipo no Brasil, que ajudem a empoderar as crianças negras, fazê-las ter orgulho se sua origem e sentirem-se lindas e poderosas com seus cabelões!
Quem sabe o fato de a maioria da população brasileira já ter “coragem” de se auto-intitular parda ou negra seja também um indício de que esta caminhada contra o racismo pode começar a andar a passos um pouco mais largos… porque o caminho ainda é muito longo!

sexta-feira, 23 de março de 2012

INÍCIO DE JUSTIÇA. ATÉ QUE ENFIM!

Só essa imagem do engenheiro ariano algemado já me faz comemorar

Gente querida, estou muito, muito feliz com a prisão de dois dos principais suspeitos de serem os autores do blog de ódio que vem atormentando a internet há pelo menos meio ano (vídeo aqui). Já escrevi vários posts sobre os mascus sanctos, pois sempre fui um de seus principais alvos, talvez por ser uma das poucas feministas que eles conhecem. E também porque virei uma espécie de especialista em mascus, apelido carinhoso que dou aos masculinistas. Mês passado, aliás, tivemos uma grande notícia: pela primeira vez, masculinistas americanos (idênticos aos brasileiros, só que um pouco menos gnósticos, porque eles não têm um guru como Nessahan) foram chamados por uma entidade de Direitos Humanos pelo que são: grupos de ódio. Os sanctos, esse grupelho mais radical de mascu brasileiro, defendem o mesmo que os outros, só que com uma intensidade maior. O Silvio Koerich do blog de ódio pode não ser o mesmo Silvio (já era um pseudônimo) dono do blog até abril (quando ele e vários outros blogs mascus fugiram, morrendo de medo da Polícia Federal, que investigava a ligação entre o atirador do massacre de Realengo e eles), mas eles se merecem. Surgiram juntos. Foram amigos. Têm os mesmos ideais. Como um “Capitão da Real” define (clique para ampliar):Desde que os sanctos hackearam (ou já tinham a senha -– afinal, eram cumpadres) o blog do Silvio, esse também um misógino, racista e homofóbico de marca maior, eles foram subindo o tom, sempre tentando buscar o máximo de atenção. Vários dos primeiros posts foram sobre mim. Acho que houve uma série de quatro “A Real sobre a Lola”. Meu post preferido é um em que eles criam um email de um aluno meu reclamando que eu fumo na sala de aula (detalhe: não fumo, odeio cigarro), quando apareço pra dar aula (nunca falto). Eles também publicaram e alteraram fotos minhas, clonaram meu perfil no orkut, escreveram comentários no próprio blog deles fingindo ser eu (eu particularmente gosto de um que diz que eu tenho um amante na polícia e ele vai pegá-los)... O último que vi sobre mim dizia que meu marido, que é enxadrista profissional, é um parasita sustentado por mim, pois onde já se viu alguém viver jogando e lecionando xadrez! (pra quem já foi acusada de inventar meu maridão amado -– 21 anos juntos -–, mascus jurarem que eu tenho não só um marido, mas também um amante, já é um grande avanço!).
Isso tudo é tão ridículo que me causa risos. Mas houve também as ameaças de morte, que me obrigaram a ir até uma delegacia fazer um boletim de ocorrência, e também o oferecimento de recompensas pra quem me derrubasse no chão, me montasse (rodeio de gordas), filmasse a cena e a pusesse no YouTube. Entre outras coisinhas. Estou resumindo.Penso que as ameaças contra mim eram/são até levinhas, comparadas às que fizeram contra o deputado federal Jean Wyllys, a Dilma, aos estudantes da UnB, a Monique Evans (ameaçaram estuprar sua neta de 3 anos), à blogueira Achatasoueu (seu crime é ter um filho gay), a Myrian Rios, a Tessália do BBB e a tantas outras. Eles aproveitavam qualquer celebridade ou evento midiático ora para ameaçar a pessoa, ora para cobrar autoria pela agressão.Não tenho, nem nunca tive, medo desses dementes. Mas era asqueroso vê-los pregar a pedofilia, o assassinato de mulheres (“Seja homem: mate uma mulher hoje”), negros e gays, a tortura contra cães (eles atuam em várias frentes, tentando chocar grupos diferentes), a “legalização do estupro”, o estupro corretivo para lésbicas etc etc. Dava raiva ler os “tutoriais” que eles escreviam sobre como estuprar mulheres. Foram 70 mil denúncias contra o blog. Não é pouca coisa. Quer dizer que muita gente se indignou a ponto de reagir. Tínhamos os nomes, endereço, CPF dos dois líderes, Emerson Eduardo Rodrigues, mais conhecido como Engenheiro Emerson, e Marcelo Valle Siqueira Mello, o provável nome por trás do twitter Ministro Claudio, ou Homem Sancto. Marcelo, inclusive, já havia sido condenado por racismo no Orkut em 2009, mas foi considerado semi-imputável, por ter (que surpresa!) distúrbios mentais, diagnosticado como transtorno de personalidade do tipo impulsivo. Em outras palavras, “capaz de entender o caráter ilícito do crime que praticou, mas não inteiramente capaz de determinar-se de acordo com esse entendimento”, segundo o relator do caso. Vamos ver o que Marcelo vai alegar agora. Ele é de Brasília e certamente deve estar por trás das ameaças de abrir fogo no centro de Humanas da UnB. A polícia encontrou um mapa, indicando que, talvez, esses dementes realmente pretendiam agir. Encontraram também 500 mil reais na conta do sujeito. Seriam doações? Que esses dois são ligados a grupos neonazistas, não há dúvidas. Mas de onde vem tanta grana? Não creio que seja de doações. Faz pouco tempo o blog de ódio pediu doações aos leitores, e sabem a conta de quem eles colocaram? A minha (isso porque eu deixei o número da minha conta no meu blog, por ocasião do bolão do Oscar. Desnecessário dizer que nenhum mascu deu um só centavo de real pra uma feminista). Eu ficava revoltada em saber que esses loucos (porém conscientes, sabiam o que faziam, não devem ser considerados semi-imputáveis) podiam ameaçar, pregar ódio, e rir da justiça, sem que nada acontecesse. O Brasil ainda precisa caminhar muito no combate aos crimes virtuais. Mas, apesar de toda a demora, esta é uma grande vitória. É a prova de que não há só impunidade no país.
Claro, ainda falta pegar mais gente do bando. E falta julgar e condenar exemplarmente Emerson e Marcelo. Mas só de ver a cara do Emerson (doido pra ser um mártir do ódio) ao ser colocado dentro do camburão, ou de saber que várias estudantes da UnB deixarão de ter medo de um ataque (recebi uns dez emails de estudantes extremamente preocupadas), já fico muito feliz.
Agora eu quero processar esses dois. Não sei como fazer isso, já que nunca processei ninguém (nem nunca fui processada). Espero poder contar com a ajuda de advogad@s que queiram adicionar mais algum prejuízo a esses sanctos. Um advogado, o Thiago, já se pôs à disposição para entrar com um processo por mim e pela Asa, outra que foi alvo desses dementes. Agradeço muito! Já aviso que a causa não é só minha, e que, em caso de qualquer indenização, me comprometo a doar o dinheiro a uma instituição que luta por direitos humanos. Estou pensando em processar também outros mascus que mentem na cara dura, repetindo que eu sou a responsável pelo blog de ódio. Tipo, eu sou o Silvio Koerich. Ou o Emerson. Ou o Marcelo.Quer dizer, não basta ser xingada, ameaçada e difamada por um blog de ódio. É preciso também ser acusada de eu mesma me xingar, ameaçar e difamar. Porque, sabe, eu preciso inventar um blog de ódio pra fingir que a misoginia existe no mundo.Mas esta é uma primeira vitória neste caso que vem se arrastando há tanto tempo. Agora vamos a outras. Sem desistir. Sem temer.

quinta-feira, 22 de março de 2012

ALGO DE ERRADO NO MUNDO

“Se um homem tem um apartamento com jornais até o teto, nós o chamamos de louco.Se uma mulher tem uma casa cheia de gatos, nós a chamamos de insana.Mas quando pessoas patologicamente acumulam tanto dinheiro que elas empobrecem toda uma nação, nós as colocamos na capa da revista Fortune e fingimos que são modelos a ser seguidos” (B. Lester, minha tradução).E por falar em modelos a seguir, fico passada quando um monte de gente corre pra acudir o pobre filho de bilionário que foi atropelado por um ciclista. Thor Batista será defendido -- não que precise de defesa, já que desde quando um cara de carro é punido por matar alguém no Brasil? -- por um ex-ministro da justiça. Você realmente acredita em meritocracia e oportunidades iguais? Acha que um dia ficará bilionário como o Eike? Que é só trabalhar duro pra chegar lá? Comece a escolher melhor seus heróis.

quarta-feira, 21 de março de 2012

GUEST POST: A ESCRAVIDÃO DA APARÊNCIA, O MACHISMO INVISÍVEL

A Ariane, que é psicóloga, não gostou quando meu cabelo foi criticado e me enviou algumas considerações fascinantes baseadas no livro O Machismo Invisível, da psicóloga mexicana Marina Castañeda. De lá pra cá, outras leitoras mencionaram o livro, que já entrou pra minha listona de Coisas Pra Ler. Muito interessante tudo isso que Ariane coloca.

O trabalho de Marina Castañeda é extremamente importante. Nele ela investiga aspectos psicológicos do machismo. Uma das tarefas d@ psicólog@ é detectar certas formas de pensar e de sentir, pausas de comunicação, formas de relação, que costumam permanecer ocultas; são habituais e involuntárias. Ela faz um debate no livro sobre teorias psicológicas e biológicas no machismo (por exemplo: a tal psicologia evolucionista, que não tem argumentação fortemente embasada e pode com traquilidade ser questionada por alguém que tenha um pensamento mais crítico).
A psicologia, que por muito tempo contribuiu para perpetuar a dominação masculina, possui hoje, no meu ponto de vista, a grande tarefa de denunciá-la. Os impactos psíquicos do machismo são catastróficos e é no psiquismo que ele se perpetua, na formação da subjetividade. Escutamos na televisão ou lemos em pesquisas que depressão e outras afecções emocionais são problemas que atingem mais as mulheres, e que estas procuram serviços psicoterápicos com mais frequência. Óbvio que isso é um problema social grave que atinge o psiquismo da mulher; no entanto, tudo isso é mascarado, e muitos discursos já foram fabricados para esse problema: mulheres são muito difíceis de entender, são muito emocionais, são complicadas, são irracionais, são os hormônios. Depressão pós-parto não é somente um problema orgânico: é a maternidade que é amplamente divulgada como algo maravilhoso e que deve ser natural da identidade da mulher.
Lola, não existe nenhuma explicação biológica realmente fundamentada e comprovada para explicar nosso comportamento, nossos costumes, nossa psique. O que existe são respostas biológicas de processos psíquicos e ativação cerebral que os neurocientistas correlacionam aos processos psíquicos, mas isso é teoria, ou seja, sem comprovação ainda.
Sobre a relação entre machismo e imagem feminina e masculina, existe uma assimetria fundamental entre as auto-imagens masculina e feminina, sendo que esta última gira em torno dos homens durante grande parte da vida das mulheres. Seja com o propósito de seduzir ou simplesmente chamar a atenção, o respeito, a estima, a amizade, isso representa um esforço constante que os homens não precisam fazer em relação às mulheres. Se o intuito não é seduzir alguém em particular, os homens não fazem nenhum esforço especial para atrair a atenção do sexo "oposto" -- eles já contam com ela de qualquer maneira. Projetar uma imagem masculina é certamente um objetivo direcionado a outros homens e não às mulheres. É muito comum, por exemplo, numa mesa de bar, um homem dominar a conversa, não no intuito de impressionar as mulheres, pois seus verdadeiros interlocutores são outros homens; a virilidade é algo que precisa ser constantemente reforçada para os seus congêneres. Diante desse público, não existe necessidade de estar bonito e bem-arrumado: a meta masculina é projetar uma imagem de êxito e poder. Um exemplo: um homem que chega no restaurante não coloca mais o revólver sobre a mesa, coloca o celular porque está esperando "uma ligação muito importante”. Existem muitas maneiras de se impor e “impor respeito” entre homens.
Em nossa sociedade quem decide o que é sexy ou atraente nas mulheres são os homens: a definição de beleza sempre foi um privilégio masculino. Isso se dá tanto no âmbito individual, quando as mulheres se arrumam para os homens ao seu redor, quanto no âmbito social, quando os profissionais da moda decidem qual será o look do momento. Sabemos que essa é uma questão fortíssima aqui no Brasil, basta estar atent@ à rápida e ampla aceitação feminina das novas tendências da moda. A mulher que não segue as orientações muitas vezes é considerada não somente antiquada e pouco sexy, mas também pouco feminina. Um homem que não segue a moda é excêntrico, original; a mulher na mesma situação é “desleixada”. Para homens também existem exigências da moda, mas certamente não seguí-las não tem para eles grandes consequências. Para vários homens, não seguir a moda é justamente uma prova de independência viril.
Muitas vezes a falta de asseio pessoal se torna parte do look masculino -- uma barba por fazer, roupas desalinhadas, não são algo muito surpreendente. Conforme expõe Castañeda em O Machismo Invisível, “mostrar-se ao natural, em qualquer contexto e sem cuidado algum com a aparência, sempre foi uma prerrogativa masculina. No fundo, essa atitude equivale a dizer ‘Eu sou assim, e não me importa o que os outros pensem’: é uma declaração de autonomia, uma afetação de indiferença que poucas mulheres poderiam adotar impunemente na vida pessoal, social ou profissional”.
Somos educadas para nos enfeitarmos desde muito pequeninas, chegando mesmo a introjetar uma atitude de vergonha em relação ao próprio corpo e suas funções naturais: odores, arrotos, flatulências, são proibidos, e muito mais tolerados nos meninos. E hoje temos o absurdo de sabonetes “íntimos”, como se o cheiro natural da vagina fosse algo ruim, cremes clareadores para as axilas, depilação à brasileira... fica óbvio que nosso corpo, longe de ser natural, é constantemente fabricado através de diversas tecnologias, produzidas por um regime de consumo.
Desde a infância os homens se acostumam a ocupar muito espaço, coisa que não percebem, porque lhes parece natural. Não estamos falando em tamanho físico, mas de posições corporais: quando sentam de pernas abertas, ocupam duas ou três vezes mais espaço que uma mulher. Muitas vezes a posição física de um homem (sentar de pernas abertas e desalinhado) denota uma atitude de desprezo, de indiferença pelas pessoas ao seu redor; os pés sobre a mesa e as mãos cruzadas atrás da cabeça reproduzem uma posição clássica de autoridade. Não há dúvidas de que muitos homens, se indagados sobre isso, dirão que buscam unicamente conforto, mas então perguntamos por que essas posturas não são aceitáveis em uma mulher e tão pouco seriam para um homem em posição subordinada. A liberdade de movimento masculina, longe de natural, é uma expressão de poder; não está muitas vezes em função de seu tamanho, mas de sua posição hierárquica na sociedade.
A mesma lib
erdade assimétrica também aparece na permissão que muitos se outorgam em encostar nas mulheres. Segurar pelo braço, empurrar levemente o ombro, segurar-lhes as mãos. As mulheres não encostam nos homens com a mesma facilidade, e muito menos os homens se encostam dessas formas. No outro lado da moeda, as mulheres são educadas desde cedo para ocupar o menor espaço possível, as roupas -– saia, sapatos incômodos para caminhar depressa e correr -– refletem e reforçam a restrição dos movimentos. Em geral aprecia-se que mulheres sejam pequenas, com mão e pés pequenos e movimentos comedidos.
Em suma, enquanto homens se acostumam desde pequenos ao conforto e movimento livre, as mulheres são ensinada desde a infância a utilizar o corpo como instrumento de sedução: aprendem a cuidar dele e a embelezá-lo de acordo com os cânones masculinos. Não existe uma só parte da anatomia feminina que escape aos requisitos desse desejo de agradar: dos cabelos às unhas dos pés, passando pelas orelhas, o rosto, o colo, as axilas, as mãos, os seios, o púbis e as pernas [e hoje em dia até o ânus], cada parte do corpo é alvo de cuidados puramente estéticos, sem nenhuma relação com saúde ou higiene, mas unicamente com uma concepção de beleza orientada para os homens. Os homens sempre contam com maneiras neutras de se vestir e se apresentar em público: roupas, sapatos, corte de cabelo e ausência de maquiagem nada indicam sobre sua disponibilidade sexual ou sobre seu estado civil, e certamente, não indicam nada sobre sua masculinidade.
Nas palavras da Castañeda: “não resta dúvida de que a moral dupla da aparência corporal favorece enormemente o homem, respeitando sempre sua liberdade de decisão e de ação, ao passo que limita a da mulher”.
Muitos pensarão depois de ler tudo isso que hoje esses padrões estão ficando obsoletos, que existe uma demanda de consumo de estética crescente entre os homens também. Porém, é necessário sempre avaliar bem as situações, pois fazendo isso entendemos que a publicidade direcionada aos homens nessa esfera tem sentido completamente diferente: mulheres devem seguir diretrizes da moda para atrair homens, ao passo que no caso deles a meta é mais uma vez projetar uma imagem de sucesso na vida. A publicidade para o homem promete êxito, riqueza, e muitas mulheres. Para a mulher, a publicidade promete o homem de sua vida (e um só).
As repercussões para a saúde mental das mulheres são gravíssimas. Não dá mais para negar que os "distúrbios alimentares" são problemas que atingem em esmagadora maioria as mulheres. Mas, como afirma Castañeda, machismo é ainda um tabu social, uma forma de relação ainda invisível de efeitos catastróficos para a liberdade e subjetividade de mulheres e homens.

terça-feira, 20 de março de 2012

É XENOFOBIA SER CONTRA COREANO COMER CARNE DE CACHORRO?

A Mayara me enviou um email (que dialoga um pouco com o último guest post) cheio de questões interessantes. Reproduzo só parte dele e, embaixo, respondo. Lá vai a parte da Mayara:

Tenho visto, ultimamente, notícias sobre apreensão de cães em freezers de restaurantes, geralmente coreanos, aqui no Brasil. Minha família é da região de Piracicaba-SP, onde há grande fábrica de uma montadora coreana. Essa montadora utiliza mão-de-obra de muitos coreanos que foram se instalar ali pela região. Pois bem, obviamente, alguns restaurantes coreanos foram abertos por lá. E a polícia de Piracicaba tem feito blitzes em alguns deles, encontrado cães mortos acondicionados em freezers, para serem servidos como alimento para os coreanos da região. Parece que mais 8 mil famílias de coreanos chegarão a Piracicaba para reforçar o trabalho na fábrica e, claro, vão precisar de mais cães.
Em São Paulo, há muitos restaurantes coreanos e vi uma reportagem, há alguns meses, que mostrava que várias famílias estavam pegando cães de rua para vender a esses restaurantes. Inclusive, uma cena triste, que mostrou a polícia entrando em uma casa de pessoas simples, mas não miseráveis, apreendendo todos os cães que ali se encontravam, porque essa família foi denunciada por recolher cães de rua para vender aos coreanos. No meio dos cães, havia dois deles que não eram para venda, mas de estimação da família. A reportagem mostrou as crianças, filhas dos donos da casa, chorando muito, desesperadas, pois aqueles dois cães, no meio dos outros apreendidos por serem destinado a comida em restaurantes, eram deles há alguns anos.
Acho que já deu pra vc entender que, agora, no Brasil, temos esse tipo de comércio que é clandestino. Há leis que punem esse tipo de coisa. É proibido por lei servir animais de estimação em restaurantes. Maus tratos são punidos com multa e cadeia, se matarem o animal, a pena é maior. Há distinção entre bichos de estimação e animais criados para abate e alimentação.
No CQC da semana passada, na bancada, o Marcelo Tas fez uma encenação, como era reestreia, de que a Globo havia mandado um presente para eles. Abriu uma grande caixa, e de lá saiu um gato preto, com cara de assutado, e eles riram, dizendo que a Globo havia mandado um gato preto como "mau agouro", desejando má sorte a eles, na reestreia. Depois, apareceram comendo churrasquinho, como se tivessem matado o gato preto azarado e o comido.
Muita gente protestou. Eu não sou de nenhuma entidade de proteção aos animais, mas achei de péssimo gosto, pra variar. O CQC sempre se superando...
Vi muita gente dizendo que quem reclama dessas coisas, sobre matar cães pra comer e servir em restaurantes coreanos ou contra esse tipo de "piada" com os bichos, é gente hipócrita, pois "come carne". E que se queremos que certos tabus caiam, por exemplo, contra homofobia, contra o machismo, não podemos alimentar outros tabus. Nossa! Fiquei meio passada. É isso mesmo? Uma coisa pode ser misturada no mesmo balaio de outra?
E fui xingada de xenófoba, assim como alguns amigos meus, por nos indignarmos que sirvam cães em restaurantes, vendam-nos para esse fim, e por dizermos que, se no Brasil é proibido fazer isso por lei, que esta deve ser cumprida.
Lola, não sou legalista dessa forma, claro que sei que há leis que devem ser peitadas, até porque, se não fossem, não teríamos nem saído da ditadura. Mas essa sobre matar bichos que são de estimação, para os brasileiros, não acho que deva ser "peitada". Se eu vou a outro país, há certos costumes que devo observar por lá, não é?
É mesmo xenofobia ser contra restaurante coreano servir carne de cachorro? Xenofobia é isso? Quebrar tabus não seria quebrar para coisas "boas", para boas causas? Enfim, eu sou contra coreanos virem ao Brasil e se acharem no direito de comer cães! Estou errada? Preciso mudar minha mentalidade?

MINHA RESPOSTA: Eu não sou a pessoa mais adequada para falar de tradições, rituais e costumes, porque estou me lixando pra eles. Modelo patriarcal de casamento (aquele em que o pai entrega a filha pro noivo) é tradição, e eu quero que acabe. Touradas, farras do boi, rinhas de galo, tudo muito tradicional -- e já deviam ter sido proibidas há décadas. Mutilação feminina para que a mulher seja aceita na sociedade? Super tradicional, e daí? Quero mais é que esses costumes morram. Eu não respeito muitas das tradições da minha própria cultura, e não vou respeitar as dos outros.
Não nasci pra ser diplomata. E quando digo isso, não é só porque não tenho apreço às tradições, mas também porque nem morta que eu iria comer alguma coisa que não gosto só pra ser educada.
Comida é algo cultural. Desde as primeiras semanas de nossas vidas, nos ensinam o que nossa cultura considera comestível e o que não considera. Bebê vai levar tudo pra boca, e é nossa cultura que vai dizer que aquele gafanhoto (pra não pensar em inseto pior) que a criança pegou não é pra ser mastigado (trocando em miúdos: "Argh! Tira isso da boca, menin@!").
É especismo sim, e também é cultural, que alguns animais sejam vistos como comida, outros como de estimação, outros como bichos nojentos. E é terrível quando a mesma cultura considera o mesmo animal comestível e de estimação. A cena mais chocante de Roger e Eu, documentário de Michael Moore sobre a falência de toda uma cidade de Michigan quando uma montadora de automóveis vai embora pra se instalar num país mais baratinho, é aquela em que uma americana pobre vende coelhos. Ela vende os mesmos coelhos para servirem de estimação ou de comida, o comprador que decide.
Eu não como coelho porque, na minha cabeça, antes de serem carne, são bichos fofinhos, orelhudos e saltitantes. Mas sei que é hipocrisia minha, porque também considero bois, vacas, porcos e galinhas -- todos bichos que eu como -- animais bonitos e queridos. Só que aí a solução, a meu ver, não é sair por aí comendo todos os bichos que encontro pela frente, e sim deixar de comer carne. Ponto. Estou ciente de como o ser humano explora os animais, odeio isso, e gostaria de ser vegana, ou pelo menos vegetariana. Mas ainda não estou pronta. Meus hábitos alimentares são ruins o suficiente pra eu não ter muito que comer se eu fosse vegana. E eu ainda adoro o gosto da carne. O que tento fazer é reduzir o consumo de carne o máximo possível. E nunca, jamais, criticar quem é mais nobre e altruísta que eu porque conseguiu deixar de comer carne. Tenho grande admiração por vegetarianos, veganos, defensores de animais em geral.
Eu contribuo com cem reais por mês com uma ONG de Fortaleza que ajuda animais abandonados. Amo cães e gatos igualmente, e jamais poderia me imaginar comendo esses animais (espero nunca ter comido churrasquinho de gato na vida). Se eu visse uma vaca antes de ser abatida, não poderia comê-la. Quando eu era bem novinha, presenciei uma vizinha matando uma galinha -- e fiquei sem comer frango por um ano. Depois de ver Babe, o Porquinho Atrapalhado, não comi presunto e afins durante meses. Creio, sinceramente, que a maior parte de nós só é capaz de comer carne se não pensar de onde vem essa carne. Imaginar animais levando uma vida infernal, confinados e explorados, e depois sendo degolados com requintes de crueldade, é de estragar qualquer apetite. Somos hipócritas.
Não acho, de jeito nenhum, que coreanos ou quem quer que seja deva poder comer cachorro. Nem aqui nem na Coreia. Como eu já disse, não é por alguma coisa ser tradição que a gente tenha que falar "amém" pra ela. Mas acho que a xenofobia não está em querer proibir coreanos de comer carne, e sim em associarmos coreanos com comedores de cães. Isso está muito longe de ser verdade. Na escola (internacional) onde estudei, em SP, convivi durante anos com um monte de coreanos. Tudo gente boa, com algumas tradições problemáticas (tipo coreano só poder se casar com coreano, e outras visões bem conservadoras), mas eram amigos simpáticos e perspicazes. Ninguém comia cachorro. Aliás, eles se ofendiam com a sugestão.
Eu comi comida coreana (que é excelente, apimentada, gostosa) inúmeras vezes, e não havia qualquer menção de
carne de cachorro no cardápio. Não sei se você lembra das matérias sobre a Copa do Mundo de 2002, realizada na Coreia do Sul. Os jornalistas de toda parte, não muito criativos, insistiam na pauta da carne canina. E os coreanos cansavam de falar que, embora aquele fosse um costume milenar, estava caindo. Jovens coreanos acham horrível a ideia de se comer cachorro, que é animal de estimação pra eles. Em Seul é praticamente impossível encontrar prato feito com cachorro. Em algumas províncias isso ainda existe, mas é cada vez mais raro. Se já na Copa de dez anos atrás os coreanos se apressavam em dizer que não comiam cães, imagina hoje...
Portanto, há várias questões. Primeiro que é exagero pensar que coreanos comem cachorro desenfreadamente, ou que todo restaurante coreano serve carne canina. São casos isolados. Segundo que, se comer carne de cão está por baixo na Coreia, não é nada legal que coreanos queiram consumi-la no Brasil -- um país que só aceita cães como animais domésticos (e que mesmo assim os trata muito mal). Vamos supor que uma família da Somália se mude pra cá, e queira continuar o costume de mutilar os genitais de suas filhas. A família deve poder fazer isso em nome da tradição? Óbvio que não! Nem na Somália, nem aqui. Mas é xenofobia pensar que todas somalis sofrem mutilação genital.
Um terceiro ponto é que o consumo de carne canina no Brasil está relacionado a status. É coisa pra coreano rico, assim como brasileiro rico vai a churrascarias chiques pra comer carne de caça. Ricos fazem essas coisas como demonstração de poder. Pra se diferenciar da gentalha. Pra provar que são especiais e que o dinheiro compra tudo. Se eu já detesto tradições, vou gostar de tradição de rico esnobe e sem empatia? Pra mim, rico querer comer carne proibida é como gostar de snuff film (aquele tipo de filme pornô que é meio lenda urbana, em que mulheres são estupradas, torturadas e mortas de verdade diante de uma câmera). Snuff film é coisa de rico. Só eles podem pagar uma vida. Só eles pra financiarem a impunidade.