domingo, 27 de setembro de 2015

ATOS CONTRA O RETROCESSO, PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

Clique para ampliar e venha!

Este é um momento crítico para os direitos das brasileiras, pois há vários projetos no Congresso que visam retirar conquistas. Alguns desses projetos (com chances imensas de serem aprovados pela Câmara mais conservadora desde 1964) são o Estatuto da Família, o Estatuto do Nascituro, e o PL 5069/13 (que criminaliza o anúncio de meios abortivos, entre eles a pílula do dia seguinte, e revoga a lei de atendimento às mulheres e meninas vítimas de violência sexual), entre outros. 
Se depender dos fundamentalistas, as mulheres perderão o direito ao aborto nos únicos três casos em que ele é permitido por lei (risco de vida para a gestante, gravidez decorrente de estupro, e fetos anencéfalos). 
Vários atos por todo o país acontecerão amanhã, 28 de setembro, dia latino-americano pela legalização e descriminalização do aborto, para discutir e alertar sobre esses retrocessos. Organizei esta mesa na UFC, que acontecerá amanhã às 15h, no Auditório José Albano, no Centro de Humanidades, Área I, da UFC (campus Benfica). Se você mora em Fortaleza, venha! É aberto a todxs.

sábado, 26 de setembro de 2015

COMO SERIAM OS FILMES DA DISNEY SE FOSSEM BEM MAIS FEMINISTAS

Saiu no Buzzfeed, autoria de Gena-mour Barrett, e a Laura Prado traduziu (obrigada, Laura!). Depois vi que mudaram o título original para "Se filmes da Disney fossem mais fodões e precisos".

O primeiro é o da Branca de Neve, como você pode ver acima.
Não sou sua empregada, caralho
Depois de passear na floresta, colhendo flores e tal, Branca de Neve encontra sete anões.
"Venha ser nossa empregada! A gente cuida de você", dizem eles.
"Sai fora", ela responde.
Tô dormindo. Entendeu ou tá difícil? (ou: Qual parte de "Tô dormindo" você não entendeu?)
Ao toque dos lábios do príncipe, Aurora acorda de repente: "EI! Já falei que tô dormindo!"
Parece que estar dormindo não te dá liberdade e não significa consentimento, Príncipe Phillip.
Para de me perseguir, seu escroto
"ÉÉÉ, será que você pode me devolver a porra do meu sapato?", Cinderela disse. O príncipe se afasta, impressionado. Ninguém nunca o havia rejeitado antes.
Mulheres não deviam ler -- é o que os babacas acham
Bela rodopiou com a Fera a noite toda, contando a ele todas as coisas absurdas e misóginas que ela ouviu de Gaston na feira aquele dia. 
"As mulheres não deviam ler", ele disse. "Elas vão começar a ter ideias". "Afff, que babaca!", diz Bela.
"Sim, esse cara é um babaca", concorda a Fera.
"Depois a gente conversa sobre os seus problemas também", responde ela.
Como vou destruir o patriarcado sem uma porra duma VOZ?
Ariel sentou-se ao lado do príncipe e suspirou profundamente.
"Então, não posso abrir mão da minha voz", disse ela.
"Mas por quê?" perguntou ele, confuso. "A gente pode ter uma vida feliz juntos. Eu, você e o seu silêncio".
Ariel levantou as sobrancelhas: "Você já olhou bem pra mim? Eu sou uma puta duma sereia! Eu não preciso de você!"
Não vou te beijar NEM A PAU (foi mal, gato)
Tiana olhava para o horizonte de sua varanda, pensando em todo o dinheiro que ela ganhou com o sucesso de seu restaurante incrível. Repentinamente, seus sonhos de êxito foram interrompidos por um sapo, que pulou em sua sacada.
Tiana olhava para o horizonte de sua varanda, pensando em todo o dinheiro que ela ganhou com o sucesso de seu restaurante incrível. Repentinamente, seus sonhos de êxito foram interrompidos por um sapo, que pulou em sua sacada.
Sapo: Me dá um beijo!
Tiana: Não.
Sapo: Eu disse me dá um beijo!
Tiana: Não.
Sapo: ME BEIJA!
Tiana: *derruba o sapo da bancada com um peteleco* Sai pra lá, idiota.
Ego de macho
"Segura aí bem alto, querido", Megara diz. Depois murmura a si mesma: "porque eu é que não vou segurar!".
Mesmo assim não vou casar com você
"Peraí, se você não vai casar comigo, então aonde é que a gente tá indo, Jasmine?", perguntou Aladim.
"Nós vamos para um lugar mágico, onde as mulheres podem escolher quando e com quem vão casar, e os homens não têm nada a ver com isso", disse Jasmine.
"Ah...", respondeu Aladim, decepcionado. "Isso não tem a menor graça pra mim".
"Que pena, Al, se segura aí e curta o passeio".
Foda-se, vou é me salvar sozinha
"Mulan! Mulan" gritou Mushu. "Estamos em grande perigo! Apenas um homem pode nos salvar!"
"Eu posso nos salvar!" disse Mulan, confiante.
"Não, eles precisam de um homem!", respondeu Mushu. "Tive uma ideia genial: que tal você se vestir de homem? Aí todo mundo fica feliz!"
Mulan ficou calada e começou a arrumar as malas.
"M-Mulan?", disse Mushu. "Aonde você vai? A gente não vai conseguir fazer isso sem você!"
"Exatamente", disse Mulan. "Descansem em paz, vocês".
Pintos -- Pintos por todos os lados (ou: Pintos para além do horizonte)
"O que eles estão olhando, mamãe?", perguntou Nala.
"Eles estão idolatrando pintos, querida", respondeu a mãe.
"É por isso que a gente quase não aparece no filme, e que quase não tem significado na narrativa e por isso que a gente não fala nada?"
"Sim, meu amor, é por isso".
O olhar colonialista branco
"Você pensa que as únicas pessoas que são gente", canta Pocahontas, com seus cabelos esvoaçantes,"são as pessoas que se parecem e pensam como você..."
"Epa!", interrompeu John Smith. "Não é verdade! Deixa eu explicar uma coisinha pra você, pequena Ser-"
"JFC! John! Você não ouviu nenhuma palavra da minha música? Porra!"

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

FUNDAMENTALISTAS CRISTÃOS PROVAM MAIS UMA VEZ QUE NÃO VIVEMOS NUM ESTADO LAICO

Ontem o famigerado Estatuto da Família foi aprovado por uma comissão especial de deputados da Câmara, por 17 votos contra 5. No texto há a definição de que família é apenas a união entre um homem e uma mulher. 
Como se pode ver, essa definição de família não exclui apenas gays e lésbicas, mas também todos os tipos de família que não fazem parte desta visão de família tradicional, patriarcal, nuclear. 
Ativistas protestam na Câmara contra o Estatuto
Esta é parte de um resumo de um artigo que escrevi sobre Família e Gênero e que será publicado nos Anais do Simpósio Nacional Famílias na Contemporaneidade da PUG-GO (quando sair e tiver link eu aviso. Dei esta palestra na PUC em maio):
"Com o Congresso Nacional mais conservador desde a década de 1960, o Brasil vive um período em que acirram-se discussões sobre dois conceitos, família e gênero. Pela primeira vez na história desde que se iniciaram estudos sobre família, o modelo tradicional de família (composto por casal heterossexual com filhos) não é maioria. Segundo o IBGE, hoje este modelo representa 49,9% dos domicílios, enquanto todos os outros tipos de família (monoparentais, casais sem filhos, homossexuais, famílias extensas, etc) são 50,1%. Para se ter uma ideia da rapidez desta mudança, o Censo 2000 oferecia onze opções de laços de parentesco. Em 2010, teve que ofertar 19 modelos, e não sabemos quantos terá que criar para 2020. 
"O fato é que não existe uma só família, ao contrário do que querem fazer crer os conservadores. E este modelo visto como único ocupa um espaço minúsculo na história da humanidade. Ou seja, não tem nada de natural. Para tentar conter a diversidade, os conservadores ultimamente têm escolhido como um dos principais inimigos da família (deve-se sempre perguntar: qual família?) a “ideologia de gênero”, que é tanto uma ideologia quanto é a ideia de que só existe e sempre existiu um único modelo de família".

Depois que quatro destaques forem votados pela comissão, o projeto pode ir direto para o Senado, sem ser aprovado na Câmara. A deputada Érika Kokay (PT-DF), uma das mais atuantes em defesa dos direitos humanos, vai tentar entrar com recurso para que o PL tenha que ser votado no plenário, não só na comissão. Para Kokay, o projeto "institucionaliza o preconceito e a discriminação".
Verdade! Os "argumentos" usados contra o casamento homoafetivo hoje são muito parecidos àqueles usados contra o casamento interracial -- que, até 1965, era proibido nos EUA
Maria do Rosário (PT-RS) também se manifestou. Afirmou que o texto "dá nojo" e que o relator usou apenas dogmas religiosos para fundamentá-lo: "O seu parecer é péssimo. E acho que a Câmara dos Deputados é melhor que isso". 
A bancada evangélica pretende votar o projeto no dia 21 de outubro, Dia Nacional da Família -- porque tem gente que insiste que só existe um único modelo de família.

Muitas pessoas ficaram abaladas com mais essa manifestação de fundamentalismo religioso mostrada ontem. Outras não estão tão preocupadas, pois têm certeza de que o Estatuto da Família (assim como o do Nascituro) é inconstitucional, e será derrubado por vias jurídicas.

Na realidade,  o casamento homoafetivo foi "oficializado" no Brasil em 2013, pelo Conselho Nacional da Justiça. O Supremo Tribunal Federal aprovou a união estável (não casamento) em 2011. 
O ministro Luiz Fux declarou na ocasião: "Onde há sociedade, há o direito. Se a sociedade evolui, o direito evolui. Os homoafetivos vieram aqui pleitear uma equiparação, que fossem reconhecidos à luz da comunhão que têm e acima de tudo porque querem erigir um projeto de vida. A Suprema Corte concederá aos homoafetivos mais que um projeto de vida, um projeto de felicidade".

É preciso entender que o Estatuto da Família (assim como vários outros retrocessos em forma de projetos que circulam no Congresso; há até projeto para se revogar a lei do divórcio) foi uma resposta ultra-conservadora às decisões judiciais. Trata-se de um jogo de poder, de mostrar força.
O que importa é que o Estatuto da Família é mais uma prova de que a homofobia se transformou na principal bandeira evangélica. Quase cinco anos atrás eu lancei a pergunta "Igrejas dependem da homofobia para sobreviver?", e Valéria Fernandes, professora de História, feminista e evangélica, respondeu que sim num texto brilhante
Feministas protestam contra o
Estatuto do Nascituro em junho 2013
Não que seja a única bandeira. A vontade de continuar criminalizando e proibindo o aborto -- e de proibi-lo em todos os casos, incluindo os que são atualmente permitidos, como em caso de risco de vida para a gestante, gravidez em decorrência de estupro, e fetos anencéfalos -- é outra
E faz pouco tempo que os fundamentalistas cristãos (porque eles não estão restritos apenas aos evangélicos) descobriram a "ideologia" de gênero. É uma bandeira confusa para eles, mas permite que ignorantes joguem no mesmo balaio todos seus medos e mitos obscurantistas (tipo: de que estamos querendo doutrinar criancinhas nas escolas para que todas virem gays, e assim, gays -- sinônimos de pedófilos, segundo esses homofóbicos -- podem seduzi-los).

Não dá pra ficar esperando sentadx que o Supremo nos salve. Não dá mais pra ver padres e pastores atropelando direitos que deveriam ser de todxs. Que tal a gente contra-atacar?
Não somos tão poucxs assim. Lembro que há alguns anos combatíamos com muito mais garra o barulho que igrejas e templos faziam, por exemplo (alguém -- duvido que tenha sido um ativista de esquerda -- lançou até a campanha Deus Não é Surdo). Eles incomodam a gente? Sim, muito, o tempo todo. Vamos incomodá-los de volta.

São eles que não respeitam o Estado laico. Mas é justamente o Estado laico que eles desrespeitam que permite a liberdade religiosa.
E sim, quero que essas máquinas de fazer dinheiro que chamamos de igrejas e templos paguem impostos. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

CABELO NATURAL NO SÉC XXI, OU PORQUE O PESSOAL NUNCA FOI TÃO POLÍTICO

Este é um guest post da J.:

A primeira vez que meu cabelo foi submetido a um processo químico eu tinha 5 anos de idade. Minha mãe havia decidido “testar” uma “nova” química que havia dado certo em uma amiga da minha tia. Não culpo minha mãe, todas as meninas com quem eu convivia tinham cabelo que caía nos olhos, mesmo os ditos cacheados. Minha mãe que usava henê no cabelo e por consequência também o tinha nos olhos queria me fazer sentir incluída. 
Foi um desastre. Meu cabelo caiu quase por completo. E meu pai que era veemente contra colocar qualquer coisa além de xampu e condicionador no meu cabelo, ficou enfurecido com o resultado -- o que colocou um ponto final temporário na discussão.
Uso o termo temporário por que sou negra de pele escura, meus pais também, e estudei em escolas particulares de prestígio na minha cidade e por isso sempre fui “a- única- menina- negra- de- pele- bem- escura- na- sala”. E enquanto todas as outras estavam jogando cabelos ao vento eu sustentava um cabelo afro do tipo 4c. A pressão era tão grande que eu pensei que fosse me engolir, então aos 11 anos de idade eu implorei para a minha mãe me levar a um salão de beleza e alisar meu cabelo. 
Dessa vez, meu pai não se sentiu no direito de interferir, porque a vontade havia partido de mim. E eu me senti bem, me senti aceita, e eu pensei que ali estava o fim dos meus problemas, que talvez o problema comigo fosse somente o cabelo. Mas como toda jovem mulher negra, eu descobri que não era. Enfim, o cabelo não crescia, não passava da linha do queixo, nada acontecia; não importava qual tratamento aplicado. E os cabelos lisos esvoaçantes das minhas amigas continuavam lá, para me lembrar que eu ainda não estava no padrão.
Quando completei 15 anos um cabeleireiro me indicou usar extensões capilares. Eu comecei com extensões de 30 cm. E mais uma vez veio a sensação de aceitação, de conformidade com o padrão. Sensação que duraria muito. Até que alguém compartilhou no facebook um link do seu blog, Lola. Não era nenhum post especial, havia uma legenda do tipo “olha que blog legal que eu encontrei”. 
Comecei a ler sobre feminismo, sobre o papel que é imposto à mulher na sociedade, sobre o patriarcado... e o que isso tem a ver com cabelo? Bom, comecei a rever a minha imagem, a repensar o motivo pelo qual eu alisava o cabelo, o motivo pelo qual até mesmo com 10 anos de idade eu já havia entendido a mensagem midiática que só cabelo liso ao vento é bonito e como isso foi prejudicial para mim, como era difícil eu me sentir bonita.
Eu nunca tinha lido NADA a respeito do movimento negro, mas o primeiro assunto que li relacionado a ele foi sobre como usar o cabelo natural era uma forma de aceitação da nossa estética natural.
E com 20 anos eu raspei toda a cabeça.
Não passei pela transição capilar. Eu fui a um salão e falei: corte. Depois de 4 anos lendo sobre cabelo, autoestima, feminismo e aceitação eu cortei o cabelo e saí completamente do padrão que eu buscava tanto me encaixar. E eu nunca na minha vida fui tão feliz.
Agora eu gostaria de falar sobre o movimento de volta ao cabelo natural e como a mídia o está subvertendo. Há alguns anos atrás (aproximadamente em 2007) começou-se a notar que mulheres negras americanas desistiram de usar química de transformação nos seus cabelos e começaram o processo chamado transição capilar que é quando deixa-se a raiz natural crescer até o momento que se faz o Big Chop (o grande corte), cortando toda a parte alisada e mantendo somente a natural. Foi uma decisão totalmente pessoal, sem apelo midiático, sem propaganda. E por isso inconscientemente um ato político.
Ato este que não se iniciou com mulheres de cabelo cacheado ou ondulado e sim com mulheres com afros grandes, cabelos que nasciam para cima. Mulheres que agora veem suas vozes silenciadas por uma mídia que reduz todo o processo de aceitação do cabelo natural à "moda do cabelo cacheado".
Mas não é só a mídia que subverte todo o processo de volta às raízes naturais e ancestralidade africana. Boa parte das blogueiras/ vlogueiras/ youtubers de moda relacionada a cabelos naturais também o faz. Subitamente, um movimento que começou com cabelos do tipo 4c se transforma em um movimento onde as únicas que possuem voz são meninas de cabelo tipo 2 ou 3 e quiçá cabelo do tipo 4a.
A descriminação de textura é só mais uma forma de perpetuar o racismo até mesmo em um movimento contra o racismo velado manifestado contra os cabelos não lisos. O absurdo chega ao ponto de em grupos/ forúns sobre o cabelo natural, meninas de cabelo tipo 4 serem “aconselhadas” a usar algum tipo de química para “abrir o cacho", ou são aconselhadas a fazer texturizações que imitam o padrão de curva de cabelos mais aceitáveis. 
É uma onda de demonização do cabelo 4c, que na verdade foi o propulsor de todo o movimento. O que é em si uma perversa maneira de continuar dizendo a elas: “Vocês ainda não estão no padrão aceitável, nem mesmo aqui onde nós deveríamos celebrar as diferenças de padrão capilar; façam algo, deem um jeito no seu cabelo, queremos o cacheado e não o crespo”.
É triste. Da mesma forma algumas das meninas tentam reproduzir um discurso de falsa simetria, dizendo que não precisamos desvalorizar o cabelo liso, e a pergunta que fica é: mas o cabelo liso já não é valorizado o suficiente? Liguem suas televisões, assistam suas novelas, olhem nossas jornalistas, atrizes, cantoras. Elas não são apenas brancas, elas possuem cabelos lisos ou alisados. Nós não precisamos valorizá-los. O que é necessário é que o movimento de aceitação do cabelo natural não se dilua e perca sua raiz.