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quinta-feira, 4 de agosto de 2022

EXCELENTE PERGUNTA

Pois é: se brincar com arma não incita a violência, por que vocês reaças conservadores bolsonarentos têm tanto medo quando menino brinca de boneca?

segunda-feira, 23 de maio de 2022

DUAS ROUPINHAS DE BEBÊ NA MESMA LOJA

A diretora e comediante Emily Murnane fez um tuíte que já tem quase 200 mil likes. É de roupinhas para bebês vendidas na mesma loja. 

Na cor preta, imagino que para meninos, está escrito "Prenda suas filhas", no melhor estilo "Prendam suas cabras que meu bode está solto" (deve ter roupinha pra bebê com esses dizeres por aqui).

Na cor rosa, obviamente para meninas, "Esta fralda faz minha bunda parecer grande?"

As duas mensagens são altamente negativas para qualquer gênero. Para a sociedade como um todo. Como disse Murnane, "Ah, dois gêneros: peste sexual e dismorfia corporal!"

Como alguém pode achar engraçadinho ter o seu bebê sendo um outdoor ambulante de ideologias tão nefastas?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

GOVERNO DO CHILE: NUNCA MAIS SEM ELAS

Semana passada, numa entrevista de Lula a blogueiros progressistas em que só havia uma mulher presente, um deles perguntou ao ex (e futuro) presidente se colocaria mais mulheres no ministério do seu próximo governo. Lula afirmou que esta é uma pauta importante, mas não quis se comprometer muito. 

Tomara que ele siga o exemplo do novo chanceler da Alemanha, o social-democrata Olaf Scholz, e do presidente chileno Gabriel Boric. Ambos prometeram em campanha que seus ministérios teriam paridade de gênero. Scholz já avisou que, das 18 pastas, metade terá ministras. Boric foi além: anunciou 14 ministras e 10 ministros. 

Publico aqui o texto da Isabela, que sempre nos informa do que está acontecendo no nosso país hermano. A jornalista Isabela Vargas é mãe da Gabriela, feminista e integra a coordenação do coletivo Mujeres por la Democracia Santiago de Chile, que organizou os protestos do #EleNao no Chile.

Na semana em que o presidente eleito do Chile, Gabriel Boric, anunciou os nomes das pessoas que farão parte do seu governo ocupando os ministérios, as redes sociais foram invadidas por várias imagens icônicas. Numa delas, uma montagem mostrava uma comparação entre o primeiro governo depois da ditadura do Pinochet, onde se veem somente homens vestindo camisas brancas com ternos e gravatas pretas, contrastando com o colorido do novo governo, formado por 14 ministras e 10 ministros, que aparecem sorridentes, num clima de descontração com algumas mães, inclusive, segurando seus filhos no colo.

A equipe de governo de Boric reflete os novos tempos no Chile. Formado por mulheres, em sua maioria, o recado das ruas foi ouvido: nunca mais um governo sem a participação delas (nunca más sin nosotras). Alguns nomes, não me surpreenderam porque foram mulheres que tiveram uma intensa participação e protagonismo na campanha eleitoral. É o caso da Izkia Siches, Ministra do Interior e Seguridad Pública (o que equivale a figura de vice-presidente), e da Camila Vallejo, que será a porta voz da presidência ocupando o Ministério na Secretaria Geral do Governo. 

As duas foram companheiras de militância de Boric no movimento estudantil e vários usuários compartilharam fotos relembrando esse período e a trajetória de lutas desses nomes que vão compor o novo governo a partir de 11 de março de 2022. Outras integrantes também geraram grande alvoroço entre internautas pela evidente mudança que representam.

A neta do presidente Salvador Allende, Maya Fernandéz Allende, anunciada como futura ministra da Defesa, foi lembrada nas redes sociais num registro em que aparece nos braços do avô, que morreu logo após o atentado ao Palácio La Moneda, no golpe militar de 1973. Um fato curioso sobre Maya: ela é voluntária do corpo de bombeiros no Chile.

Quem também foi lembrada pelo parentesco com uma figura importante na luta contra a ditadura de Pinochet foi a futura ministra do Esporte, Alexandra Benado. Ela é filha da integrante do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionario) Lucia Vergara, assassinada pelo regime militar em 1983. 

É a primeira vez na história do Chile que o Ministério do Interior será ocupado por uma mulher. As mulheres serão maioria no gabinete (14 a 10), na comissão política (três a duas), e também serão protagonistas em pastas tradicionalmente associadas ao poder masculino como a diplomacia, as Forças Armadas e os tribunais: Relações Exteriores, Defesa e Justiça. 

O anúncio do gabinete de governo foi comentado por vários aspectos, não apenas pela forte representatividade das mulheres. Um dos mais importantes é verdade, já que somente em 2006, a então presidenta Michele Bachelet também anunciou um gabinete com paridade, fato que foi mencionado por Boric em seu discurso durante a cerimônia. 

O novo governo rompe com uma antiga tradição chilena de nomear parentes, já que os círculos de poder estão sempre próximos e ligados por relações de parentesco, seja na esfera pública ou privada. É o famoso “clasismo chileno”. As futuras ministras e ministros têm origens tão diversas como a atual sociedade chilena. Há uma ministra e um ministro que abertamente representam a diversidade sexual e um deles ocupará a pasta da Educação. Esse é um fato que jamais poderíamos imaginar no Brasil de hoje com Bolsonaro presidente. 

Além da equipe inovadora, o local escolhido para o anúncio do novo governo também surpreendeu a muita gente. O evento ocorreu no Parque Quinta Normal, um lugar bem popular aqui em Santiago, que reúne três museus em suas instalações. Boric escolheu um parque público, ponto de encontro e de diversidade, com uma longa tradição histórica onde as pessoas realmente compartilham não apenas o espaço público, mas sonhos e esperanças de um novo Chile.

Numa época em que as imagens valem muito, especialmente pela força das redes sociais, o discurso de Gabriel Boric também foi um ponto importante no anúncio da sua equipe ministerial. Em vários momentos, ele relembrou uma importante artista chilena -- uma das minhas favoritas – Violeta Parra. Boric indicou que a meta é trabalhar “por um Chile que nos abrigue e cuide de nós e que aspire a essa harmonia de que nos falou Violeta Parra, interpretada naquela bela canção final (...) onde ela diz que a harmonia vai ser do pão com o instrumento, do beijo e do pensamento”. 

Depois desse importante evento, podem ter certeza e que a marcha do dia 8 de março, realizada anualmente e que nesta edição antecederá à cerimônia de posse de Boric marcada para 11 do mesmo mês, será novamente “histórica” reafirmando o protagonismo das mulheres nos eventos que estão transformando a sociedade no Chile. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

DOIS BRINQUEDOS, DUAS MEDIDAS

Isso que vi ontem no Twitter faz todo o sentido. Notou como na maior parte das vezes a pessoa que diz que brincar com arma não faz uma criança ficar violenta é a mesma que jura que brincar de boneca faz um menino virar gay?

Já contei a historinha real de um menino de 6 ou 7 anos que brincava de boneca na sua escola progressista, que não separava brinquedos por gênero -- os brinquedos ficavam à disposição e qualquer aluno ou aluna podia pegar. O menino dava papinha pra boneca-bebê, trocava de fralda, essas coisas. Só que seu pai o flagrou fazendo isso e ficou indignado. Perguntou rispidamente ao seu filho: "Quequifoi?! Virou gay agora?!" 

E o menininho calmamente respondeu: "Não, virei pai".

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

UM PATROCÍNIO INGRATO PARA AS JOGADORAS DE XADREZ

A mãe de um aluno de xadrez do maridão, uma leitora frequente do blog, me pediu pra escrever sobre isso, então lá vai. 

Você quer a boa ou a má notícia antes? Vamos começar pela boa: a FIDE (Federação Internacional de Xadrez, em francês) fechou o maior contrato de sua história com uma empresa para patrocinar o xadrez feminino. A FIDE já determinou que 2022 será "o ano das mulheres no xadrez".

Maravilha, né? Agora a má notícia: o contrato é com a Motiva, uma empresa que lida com aumento dos seios e implantes de silicone, através de cirurgias plásticas. 

Obviamente, várias jogadoras (anônimas) criticaram a medida no site Lichess. Uma delas questionou: "O xadrez, um jogo que depende do cérebro em vez dos peitos, não deveria se distanciar dessa linha de pensamento misógina e reducionista?" Outra declarou: "Nojento". Uma jogadora afirmou ao jornal britânico The Guardian: "A FIDE não tem um bom histórico em empoderar mulheres e eu acho degradante e humilhante que uma atividade como o xadrez, que é tão cognitiva, seja patrocinada por uma empresa que lucra com a insegurança das mulheres. Eu realmente duvido que a FIDE traria uma empresa de aumento peniano para patrocinar o Campeonato Masculino". 

Concordo! Mais uma jogadora apresentou um ótimo argumento: "Já vi comentários online de gente dizendo que espera que a premiação para eventos femininos agora inclua aumento dos seios. Vi piadas citando nomes de jogadoras que 'melhorariam' se fossem contempladas. O xadrez sempre tem lidado com o machismo, e essa nova medida não ajuda em nada a brecar isso". 

Já a jogadora norueguesa Sheila Barth Stanford defende que "Nós desesperadamente precisamos de patrocínio. Já jogamos por muito menos dinheiro que os homens. Espero que este patrocínio facilite que as mulheres possam jogar profissionalmente". 

O primeiro torneio feminino com patrocínio da Motiva já aconteceu, na Espanha. Uma jogadora de Luxemburgo, Fiona Steil-Antoni, apontou que o único material promocional distribuído pela empresa foram panfletos mostrando como fazer o auto-exame mamário. A Motiva também gosta de reforçar que implantes de silicone são usados não apenas esteticamente, mas para reconstrução de mamas de quem passou por uma mastectomia.

Pros leigos que não entendem como um jogo mental (e também físico) como xadrez precisa ser separado em mulheres e homens, a resposta é bastante simples. Primeiro que a maioria dos torneios é "absoluta", ou seja, pessoas de qualquer gênero e idade podem jogar. Porém, assim como há campeonatos por idade (sub-4, sub-8, sub-12, sub-18 etc), também há torneios só para mulheres. Isso porque há muito mais homens que jogam xadrez do que mulheres, principalmente em nível profissional. Só pra saber: existem 1.694 grandes mestres (a titulação mais alta no xadrez) no mundo (14 são brasileiros). Desse total, apenas 38 são mulheres. Uma diferença gigantesca!

Ah, mas xadrez não tem a ver com inteligência? Claro, mas não só isso. Tem a ver com interesse também. O que a gente vê muito é que, além de meninos serem encorajados a jogar muito mais que meninas, quando chega a adolescência várias garotas são direcionadas a adotar outras atividades mais "femininas". Sem falar que clubes de xadrez muitas vezes são ambientes machistas. Como atesta o maior campeão da atualidade, o norueguês Magnus Carlsen, “Clubes de xadrez não têm sido muito gentis com mulheres ao longo dos anos”.

Pense num país sem tradição no xadrez. A chance de sair um campeão mundial de um país como o Brasil, por exemplo, é infinitamente menor que a Rússia produzir um campeão, já que lá xadrez é jogado por boa parte da população. Quanto mais gente joga, mais gente vai se destacar. Por isso é tão importante a excelente série da Netflix O Gambito da Rainha. Ela incentiva meninas (e meninos também) a jogarem. A série, junto com a pandemia, que faz as pessoas ficarem mais confinadas em casa, causaram um boom internacional no xadrez. 

E é por isso também que a FIDE ter escolhido como patrocinadora uma empresa de implante de silicone é tão irresponsável. A FIDE deveria aproveitar a popularidade da série O Gambito da Rainha para atrair mais meninas. Fazer meninas e mulheres pensarem criticamente no seu corpo faz exatamente o contrário: pode afastá-las dos esportes e de atividades intelectuais. 

Já contei sobre um estudo que foi feito nos EUA em 1998 (aliás, tem vários parecidos) com 72 universitárias. Cada uma era chamada individualmente a um vestiário. Metade da amostra ouvia que daqui a pouco teria que provar um maiô. A outra metade ouvia que teria que provar um suéter. Enquanto esperava, cada moça respondia um teste de matemática. Adivinha quem se saiu muito melhor no teste? As mulheres que iriam provar um suéter. As que iriam provar um maiô ficaram ansiosas com seu corpo, preocupadas demais sobre como se sairiam num maiô, e isso afetou suas habilidades matemáticas.  

E aí? Não será que associar jogadoras de xadrez a aumento dos seios possa causar uma ansiedade parecida? 

Silvio, meu marido, que dedica sua vida ao xadrez faz meio século (desde os 13 anos), lembra outro detalhe. 

Digamos que um fabricante de armas de fogo quisesse patrocinar o xadrez. Armas têm muito mais a ver com o jogo/ arte/ esporte que implantes de silicone, certo? Afinal, o xadrez é sempre comparado a uma batalha, uma guerra, uma luta, um embate. Mesmo assim, a FIDE deveria aceitar ter uma empresa armamentista como patrocinadora?

E a indústria tabagista? E a de álcool? E se uma firma de acompanhantes de luxo quisesse patrocinar os torneios femininos? Ou patrocínio é patrocínio e o que importa mesmo é que entre dinheiro para o esporte? 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O SONHO ROUBADO POR SER MULHER

Hoje publico este ótimo post da Chrislly Catta Preta Fulgoni, servidora pública federal, sobre algo que não acontece com os homens.

Deveria começar escrevendo que sempre fui uma mulher empoderada e determinada. Estaria mentindo. Quando mais jovem, era apenas uma menina insegura quanto ao sucesso que poderia ter, tanto na vida pessoal como na profissional. Todas as experiências que me forjaram ao longo dos anos tornaram-me mais forte, reservada e confortável com quem sou e com quem desejo ser no futuro. As reflexões sobre o que é ser mulher se intensificaram após o nascimento da minha filha, em 2017.

Conheci aquele que mudaria muito de mim em 2006: meu marido. Um entusiasta do serviço público que me ajudaria incessantemente a estudar para que eu alcançasse aquilo que passara a ser um sonho: ser aprovada em um concurso público. Foram anos de preparação divididos com faculdade e trabalho, anos de reprovações, anos de “fiquei por um ponto”. Muitas e muitas lágrimas. Finalmente, no dia 20/06/2016, meu nome estava no Diário Oficial: APROVADA no tão sonhado concurso público.

Não há como colocar em palavras a sensação que tive. Não era apenas uma alegria pela conquista profissional. Era como um bálsamo de alívio. Finalmente eu provava a mim mesma e para todos -- família, amigos, colegas de trabalho -- que eu também era inteligente como meu tão bem sucedido marido. Finalmente tinha conquistado algo.

Deixo claro que essa sensação de estar sendo julgada não decorre de atos explícitos. Na maioria das vezes vem dos que mais amamos. Lembro bem de um episódio peculiar que demonstra bem o julgamento do outro sobre nossa vida. Ainda na faculdade em que eu e meu marido (então namorado) cursávamos Direito, ouvi de um colega de classe em tom jocoso que eu era uma “Maria Concurseira”, porque tinha escolhido namorar o rapaz mais inteligente da sala, servidor público desde os dezoito anos. Esse comentário era tão absurdo e ofensivo que não tive reação. Ouvi calada. Cheia de raiva, mas calada. Estudávamos os três na mesma sala, minhas notas sempre foram excelentes, eu tinha desenvoltura nos trabalhos, mas, mesmo assim, um homem achava que era engraçado reduzir-me e reduzir meu relacionamento a um alpinismo ou oportunismo. As mulheres dividimos os mesmos espaços que os homens, mas é como se fosse um favor permitirem que estejamos lá.

Enquanto esperava minha nomeação, resolvi engravidar. Acreditava ser o momento certo, pois finalmente não estava sob o estresse da preparação para um concurso público e o decorrente desgaste físico e emocional. Engravidei. Nos nove meses de gestação ouvi coisas assim: “Não entendi por que você fez concurso. Você engravidou, vai trabalhar depois que ela nascer?” -- dita por uma jovem de 20 anos. “Esse salário aí que você vai ganhar é um bom salário para uma mulher!” -- dita por um tio amado.

O tempo passou e há dez dias da data prevista para o parto da minha primeira e única filha, recebi um telefonema de Brasília. Uma pessoa do recursos humanos me ligava para avisar que minha nomeação seria publicada e que eu deveria me antecipar e realizar os exames admissionais. A nomeação foi publicada numa quarta-feira e na quinta-feira, dia 01/07/2017, eu saía de casa para tomar posse no tão sonhado concurso público. Após muito sofrimento, a nomeação estava ao meu alcance. Como num conto de fadas eu estaria empossada no meu cargo e, em seis dias, nasceria minha filha. Como em um roteiro clichê, tudo daria certo.

No entanto, a perita recusou-se a declarar-me apta para o cargo sem um exame ginecológico chamado colposcopia, mesmo com uma declaração da minha obstetra informando que se tratava de  exame invasivo demais para ser realizado no nono mês de gestação. Saí aos prantos do prédio. Meu sonho estava escapando de minhas mãos. Liguei para meu marido. Na minha mente ele estaria mais lúcido e conseguiria me ajudar a resolver aquela situação. Ele e minha grande amiga Ludimila Poirier (advogada também) saíram da cidade vizinha onde ambos trabalhavam e vieram ao meu encontro, para me consolar e pensar no que faríamos. A decisão foi recorrer ao judiciário. Ingressamos com um pedido de tutela antecipada antecedente a fim de afastar a exigibilidade do exame. O juiz negou. Um juiz homem e jovem. Deferiu apenas a reserva da vaga para quando meu exame pudesse ser feito (segundo a obstetra, seis meses após o parto).

Com a negativa, voltei à esfera administrativa. Falei com o gerente executivo, com o chefe do RH local e com o chefe do RH em Brasília. Todos eram unânimes em afirmar que o que tinha acontecido era absurdo, mas que nada poderia ser feito, pois a perita tinha autonomia para decidir. Por fim, procurei a chefe do departamento de perícias. Ouvi da médica chefe: “Não sei por que você está com tanta pressa, você deu sorte de ser nomeada.”

“Sorte”. Após todo sacrifício da aprovação, após toda aquela situação no fim da gravidez, todo o estado emocional envolvido, tive de ouvir que não tive mérito algum. Foi “sorte”. 

Sem nada mais a ser feito e temendo perder a vaga, decidi conversar com minha obstetra sobre o que tinha acontecido. Aos prantos, contei toda a história. Ela deu a solução: “Consigo fazer esse exame em você com um pequeno risco de sangramento, o que é normal, mas sem risco para a bebê. No entanto, será um exame sem efetividade. É um útero todo alterado e ferido pela gestação avançada. Mas, se é um laudo que eles querem, um laudo eles terão.”

Terça-feira, dia 06/06/2017, um dia antes do parto, eu estava com todos os exames exigidos em mãos. Voltei à perita e fui recebida com a frase: “Hoje não posso. Vou ao dentista, volte depois de amanhã.” Indignada, respondi: “Não, doutora. Meu parto é amanhã. Vou sentar aqui e espero quantas horas for preciso.” E esperei. Depois que ela voltou, o exame foi feito. Durou cerca de dez minutos. Ela olhou os exames e disse: “Você fez a colposcopia? Deveria ter esperado.” Fiquei em silêncio, pensando como uma mulher, médica, podia ser tão desumana assim.
Tomei posse na véspera do parto e entrei de licença imediatamente. Não queria encontrar nenhum deles pelos próximos seis meses. Isso faz quase quatro anos e ainda hoje sinto muita tristeza e raiva dessa história. É como se tivessem roubado algo que não pode ser repetido. A experiência da conquista do primeiro concurso após tanto sacrifício. Mesmo vencendo outros, esse, o primeiro, roubaram. 

Quando finalmente comecei a trabalhar, após a licença maternidade, outra pergunta era constante, já que eu estava trabalhando na mesma entidade federal em que meu marido havia trabalhado. Era “óbvio” para as pessoas que nos conheciam que eu “só” estava lá, porque “ele” tinha “arranjado” para mim. “O Ricardo arrumou para você essa vaga?” No começo eu tentava explicar que concurso público não funcionava daquela maneira, que ele tinha me ajudado muito a estudar, mas eu tinha feito prova e conseguido a aprovação por meus méritos. Mas depois de algum tempo desisti e passei a responder: “Sim, foi ele mesmo que arrumou. Você acredita que eu sento até na mesma cadeira?” E a vida seguia.

A filha crescia e os objetivos da nossa família se tornavam maiores. Quando meu marido decidiu estudar para a magistratura eu sabia que exigiria um esforço coletivo ainda maior do que os anteriores, vivenciados em outros concursos. E tem sido assim por quase dois anos. Agora, novamente, a condição de mulher, esposa, profissional e mãe virou questão de debates. A eterna opressão para que eu, mulher, esteja em um cargo melhor, com mais títulos, para que eu permaneça interessante para ele e não seja trocada. O olhar da sociedade para a mulher é eternamente julgador e sem empatia. Novas perguntas surgem: “O marido vai ser juiz, você não vai fazer outro concurso? Vai ficar para trás?” Como se eu e ele estivéssemos numa eterna competição e precisássemos provar que merecemos o amor do outro pelo que conquistamos e não pelo que somos.

É cansativo ser mulher. Mas eu não desisto. Há um mundo a preparar para minha filha. Ela está crescendo, conhecendo esse mundo aos poucos. Precisamos lutar. A luta feminista não é por privilégio. É por igualdade. É por equilibrar a balança entre os ônus e os bônus femininos. O mundo que minha filha vai viver será melhor? Não sei. Mas farei tudo para construí-lo. Utópico? Talvez. Mas como meu marido gosta de dizer, é a utopia que nos faz caminhar. Caminhemos, pois! Lutemos! A mulher pode ser o que ela quiser.