Amanhã é o dia da Visibilidade Lésbica, uma data necessária pra mostrar o óbvio que muita gente ignora: que lésbicas existem e devem ser respeitadas.
Para comemorar o dia, eu ia falar de algo trágico como estupro corretivo. Este mês, uma repórter me procurou para saber se eu tinha conhecimento de casos em que mulheres lésbicas ou pessoas trans são violentadas para serem "corrigidas". Eu respondi que não. Trocamos vários emails, ela descobriu casos que acontecem até em saídas de baladas, e fez uma ótima reportagem.
Um hospital em SP atende cerca de uma vítima de estupro corretivo por mês. Como estupro é o crime mais sub-notificado que tem, deve haver no mínimo outros dez, que não são nem denunciados.
Um hospital em SP atende cerca de uma vítima de estupro corretivo por mês. Como estupro é o crime mais sub-notificado que tem, deve haver no mínimo outros dez, que não são nem denunciados.
Na mesma semana, vários veículos noticiaram que estupros corretivos são uma prática recorrente no Peru. Um estudo feito em Lima apontou que, de cada dez lésbicas, 4,3 já sofreram algum tipo de violência em família.
Horrível e comum. Mas eu queria publicar um texto mais "pra cima" pra falar da visibilidade lésbica, e fiquei muito feliz ao descobrir Luana Hansen, rapper incrível que fará show amanhã no Largo do Arouche (SP).
O texto abaixo foi escrito por Larissa Teixeira, estudante de jornalismo da USP e uma das autoras deste documentário fenomenal sobre Luana.
Foi no dia 8 de março de 2014, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a primeira vez que ouvi o nome Luana Hansen.
Nesta tarde, eu e algumas amigas da faculdade decidimos participar de uma passeata pelos direitos das mulheres que percorreu as ruas do centro de São Paulo, organizada pela Marcha Mundial das Mulheres. Pintamos o rosto e descemos com a multidão pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt, entoando gritos e palavras de força contra a violência e o assédio diário que sofremos.
Nesta tarde, eu e algumas amigas da faculdade decidimos participar de uma passeata pelos direitos das mulheres que percorreu as ruas do centro de São Paulo, organizada pela Marcha Mundial das Mulheres. Pintamos o rosto e descemos com a multidão pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt, entoando gritos e palavras de força contra a violência e o assédio diário que sofremos.
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| A jovem MC Soffia |
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| Sharylaine |
“Um direito que em vários países já é estabelecido
Hipocrisia, pra desconhecido é punição
Mas se for da família, é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela”.
Saí da marcha feliz por saber que não estava sozinha. Centenas de mulheres caminharam juntas para exigir algo que não deveria ser necessário: os mesmo direitos que já são garantidos para os homens. As letras das músicas ficaram na minha cabeça por muito tempo.
Algumas semanas depois, na aula de documentário da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde curso jornalismo, recebemos a tarefa de produzir um filme durante o semestre. Poderíamos escolher qualquer tema, e nossas discussões nos trouxeram algumas opções: artistas feministas, coletivos artísticos formados por mulheres, mulheres e quadrinhos, entre outros.
Para clarear as ideias, eu e as outras meninas do grupo fomos até o Festival Autônomo Feminista, que ocorreu em São Paulo no final de março. Lá, assisti novamente ao show da Luana e ouvi os versos de "Flor de Mulher": "Sim eu sou mulher, estou pronta pra lutar. Sim eu sou mulher, vou sempre avançar. Sim eu sou mulher, ninguém vai me parar. Ninguém vai me parar”. No mesmo dia, eu e minha colega, Ana Carolina, conversamos com Luana e perguntamos se poderíamos marcar uma entrevista. Ela topou na hora.
Para clarear as ideias, eu e as outras meninas do grupo fomos até o Festival Autônomo Feminista, que ocorreu em São Paulo no final de março. Lá, assisti novamente ao show da Luana e ouvi os versos de "Flor de Mulher": "Sim eu sou mulher, estou pronta pra lutar. Sim eu sou mulher, vou sempre avançar. Sim eu sou mulher, ninguém vai me parar. Ninguém vai me parar”. No mesmo dia, eu e minha colega, Ana Carolina, conversamos com Luana e perguntamos se poderíamos marcar uma entrevista. Ela topou na hora.
No dia marcado, nos encontramos na Praça Roosevelt. Mas por que esse lugar?
Luana nos contou que nasceu ali, no centro de São Paulo, antes de se mudar para a periferia e passar por outras cidades. A praça era um lugar de encontro, e também um ponto que frequentava para vender e consumir drogas. Foi um período difícil na vida dela antes de se encontrar na música. Resolvermos não dar destaque para isso na entrevista, valorizando outros aspectos que consideramos mais importantes: uma mulher negra, lésbica e da periferia que vive como rapper independente.
Luana nos contou que nasceu ali, no centro de São Paulo, antes de se mudar para a periferia e passar por outras cidades. A praça era um lugar de encontro, e também um ponto que frequentava para vender e consumir drogas. Foi um período difícil na vida dela antes de se encontrar na música. Resolvermos não dar destaque para isso na entrevista, valorizando outros aspectos que consideramos mais importantes: uma mulher negra, lésbica e da periferia que vive como rapper independente.
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| ATAL posa com Caetano em 2010 |
A conversa foi tão intensa e reveladora que, ao final, não havia mais nenhuma dúvida: faríamos um documentário sobre ela. O próximo passo foi conhecer a intimidade da sua casa, em Pirituba, na periferia de São Paulo.
Do lado de lá
Era um dia nublado e chuvoso quando chegamos à estação de trem Piqueri, na zona noroeste da capital paulista. Em Pirituba, como a Luana nos contou, a linha de trem separa o bairro em duas zonas: o lado mais “rico”, onde se encontram prédios, condomínios e até faculdades, e o lado “abandonado”, nas palavras dela, onde fica a favela. Luana mora na parte menos estruturada, em uma casa alugada perto de uma biqueira de drogas.
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| Lu com Mario e MC Bibol cantam "Samba Brasil" |
O toca-discos é a maior relíquia da Luana, comprado com o dinheiro que veio do trabalho. Hoje, ela consegue manter a casa e as despesas apenas com a sua música. Passamos a tarde conversando, ouvindo música e aprendendo como as faixas do álbum foram produzidas de maneira independente.
Na cabine de gravação, ela cantou a música “Les Queens”, hino contra a lesbofobia. Na laje da casa, um dos lugares onde ela passa o tempo com os amigos ou sozinha, nos mostrou a divisão do bairro e falou sobre a relação com a família.
A mãe, que no começo demorou a aceitar a orientação sexual de Luana, hoje é uma grande amiga e parceira. Nordestina e descendente de alemães, Sonia Hansen veio de Recife para São Paulo buscar uma vida melhor. Teve seis filhos, três não registrados pelo pai, e vive hoje na “melhor parte” de Pirituba, como costumam dizer por lá.
A mãe, que no começo demorou a aceitar a orientação sexual de Luana, hoje é uma grande amiga e parceira. Nordestina e descendente de alemães, Sonia Hansen veio de Recife para São Paulo buscar uma vida melhor. Teve seis filhos, três não registrados pelo pai, e vive hoje na “melhor parte” de Pirituba, como costumam dizer por lá.
Luana fez questão de nos levar até a casa da mãe, em um condomínio fechado do outro lado da linha de trem. Dona Sônia é engraçadíssima, e fala com bom humor da infância tranquila e da adolescência conturbada da filha, quando assumiu que era lésbica. Branca, loira e de olhos claros, ela contou que já chegaram a duvidar que a Luana era realmente sua filha.
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| Policial com arma em punho na casa de Luana: "normal" |
Ana respondeu que não, enquanto ele apontava a arma para dentro do muro buscando algum suspeito. Por sorte, ou azar, ela estava filmando bem na hora. Quando Luana voltou, explicou que alguns meninos passaram por elas fugindo da polícia, enquanto as viaturas os buscavam. Segundo ela, essa invasão da intimidade de sua casa pela polícia é “rotina, nada que não aconteça todo dia”.
O resultado do nosso mergulho no mundo da Luana é esse.
Obrigada a Drika Ferreira, companheira e backing vocal da Luana que nos ajudou tanto na produção do documentário. E um grande obrigada às minhas colegas da universidade que produziram o documentário comigo: Ana Carolina Marques, Gabriela Stocco, Inma Benedito, Laura Jotace e Helene Baras.
Agradeço também a Lola por ceder o espaço para compartilhar esse processo tão enriquecedor.
Por fim, obrigada a Luana por abrir as portas da sua casa e fazer com que nos sentíssemos acolhidas.
Agradeço também a Lola por ceder o espaço para compartilhar esse processo tão enriquecedor. Por fim, obrigada a Luana por abrir as portas da sua casa e fazer com que nos sentíssemos acolhidas.
Espero que gostem e compartilhem!





































































