sexta-feira, 28 de agosto de 2015

CINCO VEZES LUANA: DOCUMENTÁRIO SOBRE RAPPER FEMINISTA, NEGRA E LÉSBICA

Amanhã é o dia da Visibilidade Lésbica, uma data necessária pra mostrar o óbvio que muita gente ignora: que lésbicas existem e devem ser respeitadas. 
Para comemorar o dia, eu ia falar de algo trágico como estupro corretivo. Este mês, uma repórter me procurou para saber se eu tinha conhecimento de casos em que mulheres lésbicas ou pessoas trans são violentadas para serem "corrigidas". Eu respondi que não. Trocamos vários emails, ela descobriu casos que acontecem até em saídas de baladas, e fez uma ótima reportagem. 
Um hospital em SP atende cerca de uma vítima de estupro corretivo por mês. Como estupro é o crime mais sub-notificado que tem, deve haver no mínimo outros dez, que não são nem denunciados.
Na mesma semana, vários veículos noticiaram que estupros corretivos são uma prática recorrente no Peru. Um estudo feito em Lima apontou que, de cada dez lésbicas, 4,3 já sofreram algum tipo de violência em família. 
Horrível e comum. Mas eu queria publicar um texto mais "pra cima" pra falar da visibilidade lésbica, e fiquei muito feliz ao descobrir Luana Hansen, rapper incrível que fará show amanhã no Largo do Arouche (SP). 
O texto abaixo foi escrito por Larissa Teixeira, estudante de jornalismo da USP e uma das autoras deste documentário fenomenal sobre Luana.
Foi no dia 8 de março de 2014, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a primeira vez que ouvi o nome Luana Hansen. 
Nesta tarde, eu e algumas amigas da faculdade decidimos participar de uma passeata pelos direitos das mulheres que percorreu as ruas do centro de São Paulo, organizada pela Marcha Mundial das Mulheres. Pintamos o rosto e descemos com a multidão pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt, entoando gritos e palavras de força contra a violência e o assédio diário que sofremos.
A jovem MC Soffia
Ao final da caminhada, paramos em frente a um trio elétrico, onde haveria discursos de coletivos e partidos políticos. Além disso, algumas cantoras feministas iriam se apresentar, entre elas MC Soffia, Sharylaine e a MC Luana Hansen. 
Sharylaine
Eu nunca tinha ouvido nenhuma música delas, e fiquei para saber do que se tratava. Recebemos papéis com a letra da música "Ventre Livre de Fato", canção que fala sobre a hipocrisia de uma sociedade que não aceita o aborto. Cantamos alguns versos junto com a Luana:
“Um direito que em vários países já é estabelecido
No Brasil, quase sempre, passa despercebido
Hipocrisia, pra desconhecido é punição
Mas se for da família, é só tratar com discrição
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela”.
Saí da marcha feliz por saber que não estava sozinha. Centenas de mulheres caminharam juntas para exigir algo que não deveria ser necessário: os mesmo direitos que já são garantidos para os homens. As letras das músicas ficaram na minha cabeça por muito tempo.
Algumas semanas depois, na aula de documentário da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde curso jornalismo, recebemos a tarefa de produzir um filme durante o semestre. Poderíamos escolher qualquer tema, e nossas discussões nos trouxeram algumas opções: artistas feministas, coletivos artísticos formados por mulheres, mulheres e quadrinhos, entre outros. 
Para clarear as ideias, eu e as outras meninas do grupo fomos até o Festival Autônomo Feminista, que ocorreu em São Paulo no final de março. Lá, assisti novamente ao show da Luana e ouvi os versos de "Flor de Mulher": "Sim eu sou mulher, estou pronta pra lutar. Sim eu sou mulher, vou sempre avançar. Sim eu sou mulher, ninguém vai me parar. Ninguém vai me parar”. No mesmo dia, eu e minha colega, Ana Carolina, conversamos com Luana e perguntamos se poderíamos marcar uma entrevista. Ela topou na hora.
No dia marcado, nos encontramos na Praça Roosevelt. Mas por que esse lugar? 
Luana nos contou que nasceu ali, no centro de São Paulo, antes de se mudar para a periferia e passar por outras cidades. A praça era um lugar de encontro, e também um ponto que frequentava para vender e consumir drogas. Foi um período difícil na vida dela antes de se encontrar na música. Resolvermos não dar destaque para isso na entrevista, valorizando outros aspectos que consideramos mais importantes: uma mulher negra, lésbica e da periferia que vive como rapper independente. 
ATAL posa com Caetano em 2010
Ela nos contou que, há 14 anos, no começo da carreira, fazia parte de um grupo de mulheres chamado ATAL. “Só que o grupo era sexista. Eram três negras sempre muito bonitas, sempre muito preocupadas com a estética. Eu tinha que ser uma barbie negra”, lembra. Além disso, ela tinha que lidar com o preconceito na própria banda por ser lésbica. Ao sofrer tanta discriminação nos shows e nos estúdios de gravação, ela se descobriu também feminista.
Foi uma virada na carreira. Hoje, Luana compõe e produz suas músicas em um estúdio caseiro, com a ajuda do irmão, de amigos e da namorada. Fala sobre violência contra a mulher, legalização do aborto, homofobia, racismo, preconceito, desigualdade social e legalização das drogas. Luta pelos direitos das mulheres e é presença confirmada em quase todos os eventos culturais, artísticos e políticos que falam sobre gênero e feminismo.
A conversa foi tão intensa e reveladora que, ao final, não havia mais nenhuma dúvida: faríamos um documentário sobre ela. O próximo passo foi conhecer a intimidade da sua casa, em Pirituba, na periferia de São Paulo.
Do lado de lá
Era um dia nublado e chuvoso quando chegamos à estação de trem Piqueri, na zona noroeste da capital paulista. Em Pirituba, como a Luana nos contou, a linha de trem separa o bairro em duas zonas: o lado mais “rico”, onde se encontram prédios, condomínios e até faculdades, e o lado “abandonado”, nas palavras dela, onde fica a favela. Luana mora na parte menos estruturada, em uma casa alugada perto de uma biqueira de drogas.
Lu com Mario e MC Bibol cantam
"Samba Brasil"
Ela nos buscou na estação e caminhamos juntas até o local. Após subirmos uma longa escada, ela abriu a porta da sua vida e da sua intimidade para cinco estudantes que nem sequer conhecia. Eu e a Ana, paulistanas, e outras três intercambistas que vieram estudar um período na USP: a Laura e a Inma, da Espanha, e a Helene, da França. Após uma breve apresentação do espaço, caímos diretamente no coração da casa: o estúdio. Discos, discos e mais discos chamaram a nossa atenção: havia de tudo, desde Jorge Ben Jor até grandes compositores de música clássica. 
O toca-discos é a maior relíquia da Luana, comprado com o dinheiro que veio do trabalho. Hoje, ela consegue manter a casa e as despesas apenas com a sua música. Passamos a tarde conversando, ouvindo música e aprendendo como as faixas do álbum foram produzidas de maneira independente.
Na cabine de gravação, ela cantou a música “Les Queens”, hino contra a lesbofobia. Na laje da casa, um dos lugares onde ela passa o tempo com os amigos ou sozinha, nos mostrou a divisão do bairro e falou sobre a relação com a família. 
A mãe, que no começo demorou a aceitar a orientação sexual de Luana, hoje é uma grande amiga e parceira. Nordestina e descendente de alemães, Sonia Hansen veio de Recife para São Paulo buscar uma vida melhor. Teve seis filhos, três não registrados pelo pai, e vive hoje na “melhor parte” de Pirituba, como costumam dizer por lá.
Luana fez questão de nos levar até a casa da mãe, em um condomínio fechado do outro lado da linha de trem. Dona Sônia é engraçadíssima, e fala com bom humor da infância tranquila e da adolescência conturbada da filha, quando assumiu que era lésbica. Branca, loira e de olhos claros, ela contou que já chegaram a duvidar que a Luana era realmente sua filha.
Policial com arma em punho na
casa de Luana: "normal"
Outro ponto alto -– ou chocante, se preferir -– do documentário aconteceu inesperadamente. Duas das meninas estavam com fome, e Luana resolveu levá-las até um mercado próximo para comprar alguma coisa. Nesse meio tempo, um policial apareceu na porta da casa e nos perguntou se havia entrado “alguém estranho” ali. 
Ana respondeu que não, enquanto ele apontava a arma para dentro do muro buscando algum suspeito. Por sorte, ou azar, ela estava filmando bem na hora. Quando Luana voltou, explicou que alguns meninos passaram por elas fugindo da polícia, enquanto as viaturas os buscavam. Segundo ela, essa invasão da intimidade de sua casa pela polícia é “rotina, nada que não aconteça todo dia”.
O resultado do nosso mergulho no mundo da Luana é esse. 
Obrigada a Drika Ferreira, companheira e backing vocal da Luana que nos ajudou tanto na produção do documentário. E um grande obrigada às minhas colegas da universidade que produziram o documentário comigo: Ana Carolina Marques, Gabriela Stocco, Inma Benedito, Laura Jotace e Helene Baras. 
Agradeço também a Lola por ceder o espaço para compartilhar esse processo tão enriquecedor. 
Por fim, obrigada a Luana por abrir as portas da sua casa e fazer com que nos sentíssemos acolhidas.
Espero que gostem e compartilhem! 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

GUEST POST: MEU COLEGA DE TRABALHO É ESTRANHO

Relato da E.:

Acompanho o blog faz mais de um ano e adoro! Abriu meus olhos para muitas coisas e hoje em dia defendo o feminismo com unhas e dentes. Girl power!
Mas o motivo do meu e-mail é buscar sua opinião, Lolinha. Porque estou em uma situação chata e não sei bem como saio dela. Precisava desabafar, e você me veio à mente.
Eu entrei na empresa que trabalho há pouco tempo, acabei de ser efetivada após o período de experiência, e adoro o ambiente, adoro meu trabalho, adoro o pessoal... Bom, quase todo o pessoal.
Eu trabalho no setor administrativo, em uma área que tem muito mais homens do que mulheres, e digamos que eu não me enturmei com a patotinha principal de mulheres do meu setor. Resumindo, acabei ficando mais próxima de colegas homens. Nunca vi problema nenhum nisso, sempre tive amigos e colegas homens tanto na escola, faculdade, e em outras empresas.
A maioria deles é legal e me respeita muito. Porém, não me lembro bem como, mas se aproximou de mim um que eu acho estranho. Vamos chamá-lo de S.
Acho que começamos a conversar por causa de um livro que ele estava lendo. Tínhamos outros interesses em comum. Até aí tudo normal, certo?
Só que não.
O S. tem idade para ser meu pai, ele inclusive tem filhas quase da minha idade, é casado e tals. Apesar de ter família, não faz questão de sair de casa, não gosta de pessoas, detesta os vizinhos, espanta os namorados das filhas, adora RPG e videogame. Fala mal de muita gente, sempre sabe fofocas de todos.
Ele meio que grudou em mim e fica me bajulando, vive me comprando livros e doces e deixando na minha mesa e no meu armário.
E eu sou casada! Recusei veementemente os presentes e disse que não podia aceitar, mas ele insistiu e disse que não tem segundas ou terceiras intenções e que é casado e feliz e tem filhas e bla, blá, blá. Disse que é uma maneira de agradecer a atenção e a companhia e que a empresa é cheia de cobras falsas. Mesmo assim eu deixei bem claro que não era para ele me comprar mais nada, que eu agradeço mas irei recusar qualquer outra coisa e que não sou interesseira. Deixei os livros no armário da empresa e dei os doces para outras pessoas.
Me incomoda muito o jeito dele, parece muito que ele está dando em cima, sabe Lola? Que quer alguma coisa, sempre tem uma história alheia de traição, fala que os caras daqui são casados e “pegam” novinhas mesmo assim, mas ele não.
Ele vive me elogiando, dizendo que pareço uma princesinha (sou pequena e tenho cara de adolescente, apesar de já ter 20 e poucos anos), diz que meus sapatos são fofos, que sou delicada, que meu cabelo é lindo, que eu tenho um jeito de andar “gostoso”. Esse comentário foi o pior de todos.
No dia que ele me disse isso, tive um pesadelo que ele estava me estuprando. Depois disso, tentei me afastar dele no trabalho.
Mas mesmo assim, todos os dias pontualmente ele aparece com seu sorriso besta (que eu acho de psicopata) e a mão estendida para eu apertar, tanto de manhã quando chego, quanto à tarde antes ir embora. E eu meio que tenho asco, não sei explicar, principalmente depois do pesadelo, não gosto nem que ele chegue perto de mim.
Sem falar que toda vez que ele passa pela minha mesa ele meio que fica me olhando. E eu ignoro, só sei que é ele porque minha visão periférica me permite ver o suficiente para identifica-lo. 
Sem falar que quando vamos para o refeitório (sempre em grupo) e estamos sentados à mesa, ele fica me olhando com a mão no queixo, meio que como quem está admirando ou algo assim, sabe? Aquilo me dá náusea. E eu evito olhar para a cara dele.
Sem falar que ele disse que eu lembro a filha mais velha dele. O que só me fez pensar que talvez ele já tenha abusado dela e piorou ainda mais o jeito que eu enxergo ele, sabe?
E ainda, ele sempre dizia que tinha desativado o Facebook, e do nada ele diz que ativou de novo e fica olhando fotos minhas e das minhas irmã e dizendo que são muito parecidas comigo. Aquilo me deu pânico, não queria aquele cara mega estranho fuçando na minha vida ou das minhas irmãs! Achei um absurdo!
Quando entrei na rede social, lá estava a solicitação de amizade. A primeira coisa que fiz foi mandar o link do perfil dele para minhas irmãs e pedir que o bloqueassem. Em seguida, fiz o mesmo. Até hoje ele nunca falou nada de eu ter recusado o convite ou comentou que não conseguia mais ver o meu perfil ou das minhas irmãs. Mas se ele viesse perguntar eu ia falar a verdade: não adicionei porque não quis e bloqueei porque não quero ser incomodada.
Isso não é algo que chega a me tirar o sono, porque se for para pensar “não é nada de mais” e me sinto boba e parece que estou enxergando coisa onde não tem e exagerando.
Mas que ele é creepy, ele é.
E também agora entrou uma moça nova, que é menor que eu ainda. Agora ele fica bajulando ela e esqueceu um pouco de ficar em volta de mim. Estou considerando conversar com ela e perguntar se ela se sente assim também, porque à vezes penso que é só coisa da minha cabeça.
Não sei se é só algo platônico inofensivo ou se eu tenho motivos para me preocupar. 
Não contei isso para ninguém além das minhas irmãs, que ficaram muito preocupadas (elas querem que eu procure o canal de denúncia da empresa), mas me sinto mal e não sei como contar e nem como irão reagir.
Eu me sinto assediada, apesar de não ser nada físico ou muito direto. Não sei o que fazer.
E maldita a educação de “menina” que nos faz ser educadas e cordiais e gentis até com quem não merece e por isso acabamos em situações como essa. Não quero fazer escândalo e arrumar encrenca, talvez até perder meu emprego por causa disso.

Meus comentários: É complicado, N. Você não pode acusar alguém de ser estranho. O que ele fez até agora não parece ser assédio sexual, nem moral, nem nada. Pode ser um pouco de stalking, mas até chamar disso parece exagerado. Sem dúvida é uma droga. Não sei até que ponto você deveria falar com a empresa. Ou com a colega nova que ele vem conversando. Isso é fofoca e, a meu ver, parece injusto.
Os presentes que ele te deu são a coisa mais errada. Mas, pelo jeito, depois que você falou, ele parou, certo?
Por um lado, você não pode acusá-lo de nada. Por outro, se ele te incomoda, você pode sim (até deve) se afastar dele. Você não é obrigada a ter um ótimo relacionamento com todo mundo do seu trabalho. 
Não sei se sou ingênua (ok, sei: sou), mas se eu fosse você falaria com ele. Diria que me sinto incomodada com o jeito que ele me olha, com a atenção que ele me dá, e que gostaria que ele parasse de fazer isso. Imagino que a reação dele será se afastar de você (e provavelmente incluir você nas fofocas. passar a falar mal de você também).
Corte o papo, não seja simpática nem educada com ele. E siga seu instinto, que te avisou que seu colega é estranho e pode ser perigoso. Nada de ficar sozinha com ele. Pode até ser que ele seja apenas um bajulador bobo e babão, um sem-noção que não sabe que mulheres têm muitos motivos para ficar desconfiadas com esse tipo de assédio. Mas pode ter algo a mais que está fazendo com que você sinta que ele é creepy. Ainda que você não possa denunciá-lo, você pode se afastar dele.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

"NÃO ME INCOMODA SER FEIA, SÓ O QUE VEM COM O ADJETIVO"

Ilustração que a linda Dani Libardi fez pra mim e que vai virar quadro aqui em casa

Vários comentários excelentes e muita polêmica: este foi o resultado da discussão diante do post da S., "Sou gorda. Onde está o meu harém?"
Panthro sugeriu o episódio 3 da temporada 4 de Louie, "So did the fat lady". O final deste episódio tem um excelente monólogo que pode ser visto aqui (mas está em inglês, sem legendas). 

"Não poderia ter me identificado mais. Sou feia, segundo qualquer padrão que conseguiria imaginar. Não me incomoda, como me incomodaria? Me incomoda o que vem com o adjetivo.
Não sou gorda, pelo contrário, e jamais equipararia o que passei ao que a garota deve ter passado. Ainda assim temos histórias incrivelmente parecidas, em pontos que se repetem, e se repetem, e continuarão a se repetir...

Também ouvia os comentários maldosos de completo desconhecidos, também ouvias as piadas dos grupinhos, também ouvi o 'até ela' entre risos. Também era ignorada, e também via o garoto sendo zoado por eu simplesmente falar com ele. Ouvi o comentário do garoto feio. E acima de tudo a pretensão, proferida ou não, de que a garota feia se interessaria por qualquer um que fala com ela. Ouvi do 'beta', muito mais do que do 'alfa', que parecia estar ocupado demais e que não poderia me deixar mais feliz.
Ouvi de mulheres, em mais raras vezes, mas ouvi.
Poxa, só queria acenar para a autora. Acenar para a Lola também...
É só um comentário vazio e quer não pretende chegar a ponto algum. É só um aceno... (Anônima)

O maior prazer na vida é fazer o que
as pessoas dizem que você não
consegue fazer
"Queria prestar minha solidariedade a S, autora do post, mas fica difícil.
Um homem vem e escreve que os homens gordos e feios, coitados, são ridicularizados e só levam fora.
Outra vem e escreve 'simples , basta vc se amar e parar de chorar'.
Outra tenta dar conselhos pra autora se sentir melhor, e toma pedrada (vc só falou coisa óbvia, a autora já sabe disso, que desnecessário...).
Minha opinião (correndo o risco de tomar pedrada de qualquer um dos lados):

- por favor, não comparem homem gordo com mulher gorda. Não tem nem cabimento a comparação. TODOS os gordos que conheço estão casados ou namorando. O único que sei que é solteiro, é porque é um boçal, chato, machista, pegajoso, que ninguém aguenta namorar dois meses (mimimi, porque sou feio, porque sou gordo, porque sou pobre, porque vão me meter chifre), ninguém aguenta mesmo. Então, se o homem fica solteiro é porque é um CHATO e não porque é gordo.
- mimimi, só tem mulher interesseira. Nossa, não sabia que não existia homem interesseiro querendo "encostar" na primeira tonta que aparece. Pela minha profissão (médica), infelizmente já conheci alguns assim, que acham que médica é ser rica, e eles até já quiseram casar/ morar junto, pedir empréstimo pra mim kkkkkk tomaram um NÃO bem grandão.
- sou magra, ano passado e retrasado estava no sobrepeso. Emagreci porque quis, sabe por quê ? Porque sei o que os gordinhas passam e nem de longe quero passar pela mesma coisa. Já passei a adolescência inteira sendo chamada de feia porque era magrela com óculos fundo de garrafa, agora que estou ok, arrumadinha, operação de miopia, e um corpo nos conformes, não quero passar outra metade da minha vida sendo chamada de gorda feia. E não tem coisa pior do que se olhar no espelho e se achar feia. Não quero passar por isso de novo.
Gatx feminista: que se danem
os seus ideais patriarcais de
beleza. Eu sou lindx
Tenho permissão para querer emagrecer, ou vou ser fatalmente chamada de gordofóbica, como já fui chamada aqui três anos atrás? Paciência esgotando em 3,2 1...
- S, autora do post: fui chamada de feia durante todo o período de escola, e por motivos diferentes do seu, consigo me colocar no seu lugar e entender o que vc passa. Superei isso há muito tempo. Pode até pegar mal falar assim, fica clichê, mas a mudança na sua vida tem que vir de dentro de vc, e não de fora. Senão não adianta. E é possível sim, vc ser /se sentir linda.

Se quiser conversar um pouco mais sobre isso, se eu puder te ajudar, peça pra Lola nos colocar em contato que será um prazer. Bj e fique bem!" (Maria Valéria)

10 passos: clique p/ampliar
"S, Nesses dias que vc estiver mal, tenta focar nas qualidades, tá? Com certeza vc tem muitas. E psicoterapia tb pode te ajudar. Me ajudou, não 'curou', mas ajudou demais. É um processo lento, mas as coisas melhoram... Hoje eu gosto de uns 80% do meu corpo, na minha pré-adolescência eu gostava de uns 5%. Eu via defeito em tudo, tudo mesmo. Até quando eu recebia um elogio sincero eu achava que era zoeira. Estamos com vc. Beijos!" (Rê Bordosa)

"Me dá uma tristeza de saber que mesmo no feminismo, a gordofobia não é um assunto levado a sério. É muito fácil para as feministas magras falarem das gordinhas com atitude e que têm os namorados lindos. Só que até você atingir esse estado de autoestima, tem uma vida toda sofrendo com humilhações, piadinhas e fiscalização do corpo. Coisas desagradáveis faladas pelas pessoas que mais nos amam até completos desconhecidos.
É muito fácil dizer para ignorar e ter atitude. Muito fácil colocar a responsabilidade da redenção na vítima. De certo, é desejável às vítimas de gordofobia que saibam q o peso na balança não significa ser melhor ou pior que alguém, mas as pessoas têm que saber que gordo também é gente, cidadão, paga seus impostos e tem sentimentos como todo mundo.
É difícil pra gente superar tudo isso. Eu me forço a acreditar que vestir 40 ou 42 ou não ter ninguém me fiscalizando na fila do fast food é bom. Mas não é fácil ter 'atitude' quando o mundo te prova (falo por experiência própria) que você merece ser tratada com dignidade proporcionalmente ao seu percentual de gordura." (Mila)

Meu corpo não pediu tua opinião
"Já que há tantas pessoas dispostas a ajudar, eu sugiro para as pessoas magras e de peso normal: evitem frases gordofóbicas. Não vá falar: 'vou na academia porque se não vou sair rolando', 'não vou comer essa sobremesa porque não posso engordar', 'deleta essa foto porque fiquei com cara de gorda', 'não acredito que meu ex tá namorando aquela gorda', 'se eu não emagrecer 2 kg, não vou poder colocar biquíni na praia', 'tenho que emagrecer pra ficar uma noiva linda' (...) e tantas outras frases gordofóbicas. Se coloquem no lugar da pessoa gorda quando forem falar uma frase dessas. (Anônimo)

Outra ilustração super
verdadeira da Dani Libardi
"Por enquanto o que posso falar é que me IDENTIFIQUEI completamente com o post, COMPLETAMENTE.
Uma vez um cara falou: homem pode até namorar mulher feia, mas gorda NUNCA. Assim mesmo, com essas palavras. Isso faz anos mas nunca saiu da minha cabeça. É tão desgastante notar pelos comentários que parece que falamos idiomas diferentes e ninguém procura olhar o lado do outro. Um mascu aí falando que a mulher já nasce valorizada e o homem corre em busca de valorização, faz-me rir.

O homem tem as oportunidades na mão, a ele é dado o poder da escolha, enquanto a mulher tem de calcular cuidadosamente seus passos para não ultrapassar os limites da moça de família e a puta, da bonita e da feia, da apresentável e da gorda.
Quanto aos comentários falando que tem um monte de gordinha namorando, que o que importa é atitude, isso pra mim é igual boto cor de rosa, para mim é lenda e só." (Sandra)


"Fico triste em ver os leitores da Lola perpetuarem o mito ridículo de que gordas não têm vida sexual. Sou gorda, bem gorda, e nunca me faltou parceiro. E relacionamentos também. Óbvio que tem pessoas que não se interessam por mim, mas ninguém está imune a isso. Entendo que isso é um drama pra quem é adolescente, mas um adulto já deveria ter entendido que atração sexual é muito mais complexa do que o padrão estético midiático. Existe gosto pra tudo.
Me incomoda saber que meninas jovens plus size vão ler esse texto e acreditar que estão fadadas à eterna solidão, assim como eu me sentia quando eu tinha treze/ catorze anos. No mais, nunca fui ridicularizada em um encontro ou quando dava em cima de alguém. Meninas que têm esse medo: coragem! A internet ajuda muito também (viva o Tinder!), principalmente pra quem não tem muito saco de sair mais pra night.
E não, você não precisa ser uma pessoa super extrovertida. Sou bem anti social, nerd, e não tenho problemas. A maioria dos meus amigos atuais são ex-parceiros. Tenho muito mais dificuldade de fazer amizades com meninas.
Agora, já o mercado de trabalho é sim um problema. Tive (e tenho) muita dificuldade de conseguir emprego. Diria que 2/3 das minhas entrevistas de emprego mal sucedidas são por causa disso. E olha que eu sou bem móvel, já tive empregos em que ficava em pé dez horas por dia, subindo e descendo escada." (Júlia)
Baleia é um bicho magnífico. Como virou insulto?